David Hume
Livro 1
Do Entendimento
Parte 3
Do conhecimento e da probabilidade
Seção VIII
Das causas da crença
Tendo assim explicado a natureza da crença, e mostrado que consiste em uma ideia vívida relacionada com uma impressão presente, examinemos agora de que princípios ela deriva e o que confere vividez à ideia.
Gostaria de estabelecer como uma máxima geral da ciência da natureza humana que, quando uma impressão se torna presente a nós, ela
não apenas conduz a mente às ideias com que está relacionada, mas também
comunica-lhes parte de sua força e vividez. Todas as operações da mente
dependem em grande medida da disposição em que esta se encontra
ao realizá-las; e, conforme os espíritos animais estejam mais ou me
nos estimulados,¹ e a atenção mais ou menos concentrada, a ação
terá sempre mais ou menos vigor e vividez. Assim, quando se apresenta um objeto que esperta e aviva o pensamento, toda ação a que a men
te se aplica será mais forte e vívida, enquanto durar tal disposição.
Ora, é evidente que a continuidade da disposição depende inteiramen
te dos objetos para os quais a mente se volta. Um objeto novo dá na
turalmente uma nova direção aos espíritos, alterando a disposição da
mente. Ao contrário, quando a mente se fixa de maneira constante no
mesmo objeto, ou quando passa fácil e imperceptivelmente por objetos relacionados, a disposição tem uma duração muito mais longa.
Ocorre assim que, quando a mente é estimulada por uma impressão
presente, ela passa a formar uma ideia mais viva dos objetos relaciona
dos, em virtude de uma transição natural da disposição de um a outro.
A mudança de objetos é tão fácil que a mente quase não se dá conta
dela, aplicando-se em conceber as ideias relacionadas com toda a força
e vividez que adquiriu da impressão presente.[1] “According as the spirits are more or less elevated”. Hume utiliza indiferentemente “spirits”
(no plural) e “animal spirits” para se referir aos “espiritos animais”. Neste e em alguns
outros casos, (p.e., àp.387), é possível que ele esteja se referindo, de maneira mais vaga,
àquilo que poderíamos chamar de “o estado de ânimo” de uma pessoa, como nas expres
sões “to be in high spirits” ou “to be in low spirits”. Cf. Oxford English Dictionary e nota
de D. F. e M. J. Norton e esta ocorrência (op. cit., p.455). Os dois sentidos, entretanto,
estão estreitamente relacionados. Veja-se a outra ocorrência do termo mais adiante, neste mesmo parágrafo. (N.T.).
Se podemos nos convencer da realidade desse fenômeno simples
mente considerando a natureza da relação e a facilidade de transição
que lhe é essencial, então muito bem. Mas confesso que, para provar
um princípio tão importante, confio sobretudo na experiência. O primeiro experimento a que recorreremos para obter tal prova é o seguinte: podemos observar que, ao nos ser apresentado o retrato de
um amigo ausente, a ideia que temos dele se aviva de forma evidente
pela semelhança, e que todas as paixões que essa ideia ocasiona, quer
de alegria, quer de tristeza, adquirem nova força e vigor. Concorrem
para a produção desse efeito uma relação e uma impressão presente.
Se o quadro não mostra nenhuma semelhança com esse amigo, ou
se não pretendia retratá-lo, não chega sequer a conduzir nosso pensamento a ele. E quando, além da pessoa do amigo, também seu retrato está ausente, embora a mente possa passar do pensamento de
um ao de outro, ela sente sua ideia antes ser enfraquecida que aviva
da por essa transição. Temos prazer em ver o retrato de um amigo,
quando colocado à nossa frente; mas, quando retirado, preferimos
pensar em nosso amigo diretamente, e não por meio de seu reflexo
em uma imagem igualmente distante e obscura.
As cerimônias da religião católica romana podem ser consideradas como experimentos da mesma natureza. Quando criticados, os
devotos dessa estranha superstição costumam justificar toda aquela
sua pantomima, alegando que esses movimentos, posturas e ações
exteriores lhes são benéficos, por revitalizar sua devoção e estimular
seu fervor, os quais, de outro modo, se dirigidos inteiramente para
objetos distantes e imateriais, acabariam por se apagar. Figuramos
os objetos de nossa fé em emblemas e imagens sensíveis, dizem eles,
e assim, pela presença imediata desses emblemas, tornamos tais objetos mais presentes a nós do que seria possível por uma mera visão
e contemplação intelectuais. Objetos sensíveis exercem sempre uma
influência maior sobre a fantasia que qualquer outro tipo de objeto; e transmitem essa influência facilmente às ideias com que es
tão relacionados e às quais se assemelham. Dessas práticas e desse
raciocínio, inferirei apenas que o efeito da semelhança ao avivar as
ideias é muito comum; e como, em todos os casos, uma semelhança
e uma impressão presente devem concorrer, temos à nossa disposição uma abundância de experimentos para provar a realidade do princípio precedente.
Podemos reforçar esses experimentos por meio de outros de um tipo diferente, considerando os efeitos da contiguidade, além dos da semelhança. É certo que a distância diminui a força de qualquer ideia e que, ao nos aproximarmos de um objeto, este, mesmo que não se mostre a nossos sentidos, age sobre a mente com uma influência que imita a de uma impressão imediata. Pensar em um objeto rapidamente conduz a mente ao que lhe é contíguo, mas apenas a presença real de um objeto o faz com uma vividez superior. Quando estou a algumas milhas de casa, tudo que se relaciona com ela me toca mais de perto do que quando estou a duzentas léguas. Mesmo a essa distância, porém, o ato de refletir sobre alguma coisa próxima de meus amigos e família produz naturalmente uma ideia deles. Mas, neste último caso, ambos os objetos da mente são ideias; e por isso, apesar de haver uma transição fácil entre elas, essa transição sozinha não é capaz de conferir a nenhuma das duas uma vividez superior, por fal ta de uma impressão imediata.
Podemos reforçar esses experimentos por meio de outros de um tipo diferente, considerando os efeitos da contiguidade, além dos da semelhança. É certo que a distância diminui a força de qualquer ideia e que, ao nos aproximarmos de um objeto, este, mesmo que não se mostre a nossos sentidos, age sobre a mente com uma influência que imita a de uma impressão imediata. Pensar em um objeto rapidamente conduz a mente ao que lhe é contíguo, mas apenas a presença real de um objeto o faz com uma vividez superior. Quando estou a algumas milhas de casa, tudo que se relaciona com ela me toca mais de perto do que quando estou a duzentas léguas. Mesmo a essa distância, porém, o ato de refletir sobre alguma coisa próxima de meus amigos e família produz naturalmente uma ideia deles. Mas, neste último caso, ambos os objetos da mente são ideias; e por isso, apesar de haver uma transição fácil entre elas, essa transição sozinha não é capaz de conferir a nenhuma das duas uma vividez superior, por fal ta de uma impressão imediata.
Não há dúvida de que a causalidade tem a mesma influência que
as outras duas relações, de semelhança e contiguidade. Os supersticiosos têm grande estima por relíquias de santos e beatos, e a razão
disso é a mesma que os leva a buscar emblemas e imagens, ou seja,
para intensificar sua devoção e formar uma concepção mais íntima e
forte daquelas vidas exemplares, que tanto desejam imitar. Ora, é evidente que uma das melhores relíquias que um devoto poderia conseguir seria algo produzido pelas mãos de um santo; e se as roupas e
apetrechos deste podem ser considerados como relíquias, é por terem
estado algum dia à sua disposição, tendo sido tocados e afetados por
ele - e, nesse sentido, devem ser considerados como uma espécie de
efeitos [as imperfect effects], conectados a ele por meio de uma cadeia
de consequências mais curta que aquelas que nos levam a conhecer a
realidade de sua existência. Esse fenômeno prova de maneira clara que
uma impressão presente, juntamente com uma relação de causalidade,
pode avivar qualquer ideia e, em consequência disso, produzir crença
ou assentimento, conforme a definição precedente dessa noção.
Mas por que procurar outros argumentos para provar que uma
impressão presente, junto com uma relação ou transição da fantasia, pode avivar uma ideia, quando o exemplo mesmo de nossos raciocínios de causa e efeito é suficiente para esse propósito? É certo que
devemos ter uma ideia de toda questão de fato em que acreditamos.
É certo que essa ideia surge somente de uma relação com uma impressão presente. E certo que a crença não acrescenta nada à ideia,
mas apenas transforma nossa maneira de a conceber, tornando-a mais
forte e vívida. A presente conclusão a respeito da influência da relação é a consequência imediata de todos esses passos; e cada passo
me parece seguro e infalível. As únicas coisas que entram nessa operação da mente são uma impressão presente, uma ideia vívida e uma relação ou associação na fantasia entre a impressão e a ideia; de forma que não pode haver nem suspeita de erro.
Para esclarecer de maneira mais completa todo esse tema,
consideremo-lo como uma questão de filosofia da natureza, que deve
ser determinada pela experiência e observação. Suponhamos que
haja diante de mim um objeto, do qual extraio uma certa conclusão, formando ideias em que se diz que acredito ou a que dou meu
assentimento. É evidente que aqui se pode pensar que o objeto presente a meus sentidos e aquele cuja existência infiro pelo raciocínio
influenciam um ao outro por seus poderes ou qualidades particulares. Entretanto, como o fenômeno da crença, que ora examinamos,
é meramente interno, esses poderes e qualidades, sendo inteiramente
desconhecidos, não podem ter nenhuma participação em sua produção. A impressão presente é que deve ser considerada a causa verdadeira e real da ideia, bem como da crença que a acompanha. Devemos, portanto, tentar descobrir, por meio de experimentos, as
qualidades particulares que a tornam capaz de produzir um efeito
tão extraordinário.
Primeiramente, pois, observo que a impressão presente não tem
esse efeito em virtude de seu próprio poder e eficácia, e quando considerada isoladamente, como uma percepção singular, limitada ao momento presente. Constato que uma impressão da qual não sou capaz de tirar nenhuma conclusão quando de sua primeira aparição
pode, mais tarde, tornar-se o fundamento da crença, uma vez que eu
tenha tido experiência de suas consequências usuais. Em cada caso,
é preciso que tenhamos observado a mesma impressão em exemplos
passados, e que essa impressão tenha ocorrido em conjunção constante com alguma outra impressão. Isso se confirma por tantos experimentos que não admite a menor dúvida.
De uma segunda observação, concluo que a crença, que acompanha a impressão presente e é produzida por um certo número de impressões e conjunções passadas, surge imediatamente, sem nenhuma operação nova da razão ou imaginação. Posso estar certo disso, porque jamais tenho consciência de uma operação assim, e não encontro nada em que ela pudesse estar fundada. Ora, como chamamos de COSTUME a tudo aquilo que procede de uma repetição passada sem nenhum novo raciocínio ou conclusão, podemos estabelecer
como uma verdade certa que toda a crença que se segue a uma impressão presente é derivada exclusivamente dessa origem. Quando
estamos acostumados a ver duas impressões em conjunção, o aparecimento ou a ideia de uma nos leva imediatamente à ideia da outra.
Estando plenamente satisfeito quanto a isso, farei uma terceira
série de experimentos, a fim de descobrir se, além da transição habitual, alguma coisa mais é requerida para a produção desse fenômeno
da crença. Substituo, assim, a primeira impressão por uma ideia; e
observo que, embora a transição habitual para a ideia correlata ainda
permaneça, não há, na realidade, nenhuma crença ou persuasão. Uma
impressão presente, portanto, é absolutamente necessária para toda
essa operação. Quando, em seguida, comparo uma impressão com
uma ideia, e vejo que sua única diferença está em seus graus de força
e vividez, concluo de tudo isso que a crença é uma concepção mais
vívida e intensa de uma ideia, procedente de sua relação com uma
impressão presente.
Assim, todo raciocínio provável não é senão uma espécie de sensação. Não é somente na poesia e na música que devemos seguir nosso gosto e sentimento, mas também na filosofia. Quando estou convencido de um princípio qualquer, é apenas uma ideia que me atinge
com mais força; quando dou preferência a um conjunto de argumentos sobre outro, não faço mais que decidir, partindo daquilo que sinto {from my feeling], sobre a superioridade de sua influência. Os objetos não possuem entre si nenhuma conexão que se possa descobrir;
e nenhum outro princípio senão o costume, operando sobre a imaginação, permite-nos fazer uma inferência da aparição de um à existência de outro.
Vale a pena observar aqui que a experiência passada, da qual dependem todos os nossos juízos a respeito de causas e efeitos, pode atuar em nossa mente de maneira tão insensível que passa despercebida, podendo mesmo, em certa medida, ser-nos desconhecida. Se
uma pessoa interrompe sua viagem ao encontrar um rio no caminho,
é porque prevê as consequências de seguir adiante; e seu conhecimento dessas consequências é transmitido pela experiência passada, que lhe informa sobre determinadas conjunções de causas e efeitos. Mas será possível pensar que, nesse momento, ela se põe a refletir
sobre alguma experiência passada e a recordar casos que viu ou de
que ouviu falar, a fim de descobrir os efeitos da água sobre o corpo
animal? Certamente não; não é assim que procede seu raciocínio. A
ideia de afundar está tão intimamente conectada com a de água, e a
ideia de se afogar com a de afundar, que a mente faz a transição sem
o auxílio da memória. O costume age antes que tenhamos tempo de
refletir. Os objetos parecem de tal modo inseparáveis que não aguardamos um só momento para passar de um ao outro. Mas, como essa
transição procede da experiência, e não de alguma conexão anterior
entre as ideias, temos necessariamente de reconhecer que a experiência pode produzir uma crença e um juízo de causas e efeitos por uma
operação secreta, e sem que pensemos nela uma vez sequer. Isso elimina qualquer pretexto, se ainda restar algum, para afirmar que é pelo
raciocínio que a mente se convence do princípio de que os casos de que
não tivemos experiência devem necessariamente se assemelhar àqueles de que
tivemos. Pois vimos aqui que o entendimento ou imaginação é capaz
de fazer inferências partindo da experiência passada, sem refletir acerca dela, e mais ainda, sem formar um princípio a seu respeito ou raciocinar com base nesse princípio.
Podemos observar em geral que, em todas as conjunções mais
firmes e uniformes de causas e efeitos, como as de gravidade, choque
[impulse], solidez etc., a mente nunca se volta expressamente para a
consideração de experiências passadas. Mas em outras associações de
objetos mais raras e inusitadas, ela pode auxiliar o costume e a transição
de ideias por meio dessa reflexão. Em alguns casos, aliás, vemos a reflexão produzir a crença sem o costume; ou, mais propriamente falando vemos a reflexão produzir o costume de maneira oblíqua e artificial. Explico-me. É certo que, não só na filosofia, mas mesmo na vida
corrente, podemos obter o conhecimento de uma causa particular
com base em apenas um experimento, contanto que este seja feito
criteriosamente e após uma cuidadosa exclusão de todas as circunstâncias estranhas e supérfluas. Ora, uma vez que, após um único experimento dessa espécie, a mente, quando do aparecimento da causa
ou do efeito, é capaz de inferir a existência de seu correlato; e uma
vez que um hábito nunca pode ser adquirido por apenas uma ocorrência, pode-se pensar que, neste caso, não se deve considerar a crença como efeito do costume. Tal dificuldade desaparecerá se considerarmos que, embora estejamos aqui supondo ter tido apenas uma
experiência de um efeito particular, tivemos milhões para nos convencer do princípio de que objetos semelhantes, em circunstâncias semelhantes, produzirão sempre efeitos semelhantes. E como esse princípio foi
estabelecido com base em um costume suficiente, ele confere evidência e firmeza a qualquer opinião a que possa se aplicar. A conexão
das ideias não se torna habitual após uma única experiência; mas essa
conexão está compreendida sob um outro princípio, que é habitual
o que nos traz de volta à nossa hipótese. Em todos os casos, transferimos nossa experiência a ocorrências de que não tivemos experiência, expressa ou tacitamente, direta ou indiretamente.
Não devo concluir este tema sem observar que é muito difícil falar das operações da mente de modo perfeitamente apropriado e exato; pois a linguagem corrente raramente faz distinções muito sutis entre elas, referindo-se em geral pelo mesmo termo a todas as que possuem uma grande semelhança. E como essa é uma fonte quase inevitável de obscuridade e confusão no autor, pode frequentemente gerar dúvidas e objeções no leitor, com as quais ele de outro modo nunca haveria sonhado. Assim, minha posição geral, que uma opinião ou crença não é senão uma ideia forte e vívida derivada de uma impressão presente a ela relacionada, é passível da seguinte objeção, em razão de uma pequena ambiguidade nas palavras forte e vívida. Pode-se dizer que não apenas uma impressão pode originar um raciocínio, mas uma ideia também pode ter o mesmo efeito - sobretudo se levarmos em conta meu princípio de que todas as nossas ideias são derivadas de impressões correspondentes. Pois suponha-se que eu forme agora uma ideia, de cuja impressão correspondente me esqueci. Sou capaz de concluir dessa ideia que uma tal impressão algum dia existiu; e, como essa conclusão é acompanhada de crença, pode-se perguntar: de onde derivam as qualidades da força e da vividez que constituem essa crença? Ao que respondo imediatamente: da ideia presente. Porque, como essa ideia não é aqui considerada a representação de um objeto ausente, mas sim uma real percepção na mente, da qual estamos intimamente conscientes, ela deve ser capaz de conferir a tudo que esteja relacionado com ela a mesma qualidade - quer a chamemos de firmeza, solidez, força ou vividez - com que a mente reflete sobre ela, e se assegura de sua existência presente. A ideia ocupa aqui o lugar de uma impressão e, no que diz respeito a nosso propósito presente, é exatamente igual a ela.
Não devo concluir este tema sem observar que é muito difícil falar das operações da mente de modo perfeitamente apropriado e exato; pois a linguagem corrente raramente faz distinções muito sutis entre elas, referindo-se em geral pelo mesmo termo a todas as que possuem uma grande semelhança. E como essa é uma fonte quase inevitável de obscuridade e confusão no autor, pode frequentemente gerar dúvidas e objeções no leitor, com as quais ele de outro modo nunca haveria sonhado. Assim, minha posição geral, que uma opinião ou crença não é senão uma ideia forte e vívida derivada de uma impressão presente a ela relacionada, é passível da seguinte objeção, em razão de uma pequena ambiguidade nas palavras forte e vívida. Pode-se dizer que não apenas uma impressão pode originar um raciocínio, mas uma ideia também pode ter o mesmo efeito - sobretudo se levarmos em conta meu princípio de que todas as nossas ideias são derivadas de impressões correspondentes. Pois suponha-se que eu forme agora uma ideia, de cuja impressão correspondente me esqueci. Sou capaz de concluir dessa ideia que uma tal impressão algum dia existiu; e, como essa conclusão é acompanhada de crença, pode-se perguntar: de onde derivam as qualidades da força e da vividez que constituem essa crença? Ao que respondo imediatamente: da ideia presente. Porque, como essa ideia não é aqui considerada a representação de um objeto ausente, mas sim uma real percepção na mente, da qual estamos intimamente conscientes, ela deve ser capaz de conferir a tudo que esteja relacionado com ela a mesma qualidade - quer a chamemos de firmeza, solidez, força ou vividez - com que a mente reflete sobre ela, e se assegura de sua existência presente. A ideia ocupa aqui o lugar de uma impressão e, no que diz respeito a nosso propósito presente, é exatamente igual a ela.
Segundo esses mesmos princípios, não há nada de surpreendente
no se falar da lembrança de uma ideia; isto é, da ideia de uma ideia, e
de sua força e vividez superior à das vagas concepções da imaginação. Ao pensar em nossos pensamentos passados, não apenas figuramos os objetos em que pensávamos, mas também concebemos a
ação da mente na meditação, aquele certo je-ne-sais-quoi, impossível de
ser definido ou descrito, mas que cada um de nós entende suficientemente. Quando a memória proporciona uma ideia disto e a representa
como passada, é fácil conceber por que essa ideia pode ter mais vigor
e firmeza do que quando pensamos em um pensamento passado do
qual não temos nenhuma lembrança.
Depois disso, qualquer um entenderá como podemos formar a
ideia de uma impressão e de uma ideia, e como podemos crer na
existência de uma impressão e de uma ideia.
continua na página 133...
______________
Prefácio / Introdução /
Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Livro 1: Do Entendimento Parte 3
___________________
4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro
Tradução do texto inglês intitulado
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume,
segundo a edição da Oxford University Press,
Oxford, 1888
O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.
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