terça-feira, 8 de setembro de 2015

XXIV – Mitologia dos Orixás: Olocum [238] [239]

Olocum


Reginaldo Prandi




Olocum acolhe todos os rios e torna-se a rainha das águas


Olocum, a senhora do mar,

e Olossá, a senhora da lagoa,

andavam ambas muito preocupadas.

As águas já não eram suficientes para suprir

as necessidades do povo, que já padecia

da sede provocada pela longa seca.

Olocum e Olossá foram aos pés de Orunmilá,

que as aconselhou a fazer oferendas

para que a abundância das águas retornasse.

Era um sacrifício grande para ambas,

mas Olocum cumpriu o recomendado.

Olossá, porém, ofereceu seus sacrifícios incompletos.



E veio a chuva e choveu tanto que as águas já não cabiam

no curso dos rios.

Oxum, o rio, foi consultar Ifá

para saber que destino dar ao curso de suas águas.

Oxum foi orientada por Ifá

para procurar onde fosse bem recebida.

Assim, Oxum reuniu as águas do rio

e seguiu caminho.

Encontrou a lagoa, encontrou ossá,

e nela se precipitou,

mas as águas da lagoa transbordaram.

Deixou a lagoa e chegou ao mar, o ocum,

e ali derramou todas as suas águas

e o mar recebeu o rio Oxum sem transbordar.



Então todos os rios fizeram a mesma rota

e encaminharam suas águas para o mar, o ocum.

E Olossá teve que se conformar com o segundo posto.

Olocum fez corretamente o sacrifício.

Olocum é a rainha de todas as águas.

[238]






Olocum mostra sua força destruidora



O mundo foi criado por Olorum e sua mulher Olocum.

Eles tinham a mesma idade.

Da união de Olocum com Aiê, a Terra, nasceu Iemanjá.

Da união de Iemanjá e Aganju nasceram os outros deuses.

Mas Olorum separou-se de Olocum

e por longo tempo ambos brigaram

pelo poder de reinar na Terra.

Certa vez Olocum quis demosntrar seu poder.

Olocum invadiu a terra com suas águas

e destruiu parte da humanidade com essa catástrofe.

Só não foi pior porque Olorum, de onde estava,

estendeu uma corrente que descia à terra

e os homens subiram às montanhas,

salvando-se assim a espécie humana.

Os sobreviventes consultaram Ifá

e fizeram oferendas para apaziguar Olocum.

Com a corrente usada para salvar os homens,

Olorum ataou Olocum ao fundo do mar.

Lá está ela até hoje,

acompanhada de uma gigantesca serpente marinha,

que, na lua nova, segundo contam,

mostra sua cabeça fora d’água.



Olocum propôs um pacto a Olorum:

Olocum não teria mais poder na terra,

mas a cada dia faria os homens sentirem sua força,

que brota das profundezas do oceano.

O ser humano tinha que saber, tinha que sentir

que seu poder era de vida e morte.

Era o que queria Olocum e Olorum concordou.

Assim, a cada dia, quando alguém se afoga no mar,

Olocum recebe uma vida humana em sacrifício.

Todos temem o poder de Olocum.

Todos os dias, alguém se afoga no mar.

[239]



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XXV – Mitologia dos Orixás: Onilé [242]

Reginaldo Prandi, paulista de Potirendaba e professor titular de sociologia da Universidade de São Paulo, é autor de três dezenas de livros. Pela editora Hucitec publicou Os candomblés de São Paulo, pela Edusp, Um sopro do Espírito, e pela Cosac Naify, Os príncipes do destino. Dele, a Companhia das Letras publicou também Segredos guardados: orixás na alma brasileira; Morte nos búzios; Ifá, o Adivinho; Xangô, o Trovão; Oxumarê, o Arco-Íris; Contos e lendas afro-brasileiros: a criação do mundo; Minha querida assombração; Jogo de escolhas e Feliz Aniversário.



Prandi, Reginaldo. Mitologia dos Orixás / Reginaldo Prandi; ilustrações de Pedro Rafael. - São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Teatro Pedagógico: sementes germinantes III

Parábolas de uma Professora



sementes germinantes


baitasar e paulo e marko




III



Caminhemos sozinhos os primeiros passos se for necessário. Aproximando-nos. Permitindo a chegada do outro e já não estaremos desacompanhadas. Iremos dessa maneira tecendo a teia de um fazer diferente. As realidades são diferentes. E que não sucumba ao primeiro fazer diferente que nos exija mais que discursar. Diagnósticos práticos e utilitários todos fazem. Nem todos conseguem ou querem construir uma história diversa dos choros e das reclamações, muitos preferem abdicar dos sabores intensos e coletivos da vida.

quando o paulo para e respira não abdica da palavra, mas deixa a palavra com o marko. não quer a sua própria palavra como única ou encantada

Paulo, acho que você concorda comigo que o poder não está dentro da escola.

São tantos pequenos poderes, Marko.

Sim, mas a essência se encontra fora de seus muros opressores, paredes fortes e delimitadoras de um agir mecânico e black-tie. Esses muros não precisam ser opressores. Mas essa é sua força, reprodução assexuada e fragmentada para suprir as necessidades do emprego. Não resistimos ao mercado ditador do lucro e da estética. Ficamos indiferentes. Nossos títulos de mestres e doutores servem para a sociedade branca que nos faz e nos molda indiferentes ao sofrimento. Os deserdados desta sociedade julgam a si desajeitados e sem futuro. Nossos títulos não nos aproximam. Bonecos que ensinam, bonecos que aprendem. Muitos bonecos e bonecas de pau, muito mais consumo, mais produção, mais acumulo de riquezas, mais lixo, mais só do presente entre os mesmos fazedores de bonecos de louça ou espantalhos de palha.

os professores marko e paulo olham a mesma coisa, depois saem em busca dos olhares da professora antonia, com um pequeno sorriso nos lábios. um coletivo cúmplice de mentes educadoras, a esperança de formar pensamentos e ações coletivas. incluindo nas almas educadoras, que não se colocam antecipadamente contra qualquer atitude de pensar mudanças, a possibilidade de se educarem numa perspectiva diferente, no sentido da solidariedade, não no sentido da solidariedade ingênua, em que um afago, um sorriso, um olhar irá acabar com o sofrimento e a dor da fome, da falta de saúde, da falta de moradia, da falta de se ver e ser visto como um ser humano da humanidade histórica com passado e futuro, não apenas presente. precisamos nos educar na solidariedade participativa libertadora, pensando nós mesmos o mundo, agindo entre nós e com nossos alunos no mundo, sobre os gritos e os silêncios que nos fazem passar de fora para dentro, penetrando e continuando em mudança, fugindo da mistificação do real, da mastigação do social, olhar e enxergar o perto e o longe, o hoje e o amanhã

Não aceitar a cegueira fácil da acomodação e da resposta simples, dócil, ingênua e propensa a confiar que no fim tudo se ajeita. Basta fechar os olhos e rezar. E não precisamos ficar tão incomodados.

Isso mesmo, Antonia. Necessitamos contrariar conceitos seculares, que, ainda hoje, se arrastam entre nossos pés e vendam com tarjas invisíveis nossos olhos, quando aceitamos sussurros e insinuações estabelecendo que os pobres, que encontramos em nossas escolas, só o são pobres porque preferem pedir a trabalhar. Na hipótese de realmente acreditarmos nisso, pensamento fascistóide, precisamos enxergar o nosso entorno como nunca antes o fizemos e fazer perguntas simples a nós mesmos.

Marko, para exemplificar isso, tenho algumas perguntinhas: Quanto em quilômetro andará por dia, puxando o seu carrinho, aquele papeleiro como se o cavalo fosse? E para os motoristas incomodados com o estorvo de um cavalo pangaré tão lento, esse homem não é mais que um cavalo! Por certo, faz mais que eu e o carro, entre o crematório público de sonhos e minha casa!

Calma, Antonia, a reunião nem mesmo começou e já nos transformou em réus confessos!

a ofélia e seu pequeno exército precisam amedrontar homens e mulheres para definir uma falsa realidade

Quanto do lixo, resíduos de nossas casas, aquela mulher e a adolescente conseguem recolher por dia de trabalho, tocando o cavalo que puxa a carroça?

Alguém precisa se ocupar dessas coisas! Precisamos de miseráveis para recolher o lixo.

eita cabayba. elas se revezam, também

O consumo das vidas é tão intenso que obrigamos os catadores a se especializarem. Nos dias de hoje, temos os catadores de lata, outros só catam papelão, vidros quebrados ou não, mas temos também os catadores, como aquelas duas meninas na carroça que só carregam os nossos resíduos orgânicos, restos de comida.

o nosso lixo de desprezos é apanhado por essas duas meninas para alimentar os animais. e você acredita nisso? não será primeiro para as galinhas, os porcos, o cavalo da carroça. o lixo que sai da minha casa e está na calçada será usado para alimentar a si e suas crianças, assim sendo, como transformar essas mortes em opção pedagógica, em material de reflexão didático? retorno de meus delírios a tempo de ouvir o marko

O coletivo é um organismo social vivo e, por isso mesmo, é trabalho social útil aos fundamentos de uma proposta educativa coletiva, onde cada um desempenha um papel no contexto da construção do todo, na perspectiva de que não é nem o melhor nem o pior, mas um componente humano importante e fundamental para a felicidade coletiva.

E Marko, me perguntam, como organizar na escola um sistema de interligação coletiva, possibilitando que todos aqueles e aquelas pertencentes a este universo não se percebam isoladamente, mas tenham a exata noção do todo a que fazem parte. Respondo que podemos começar distribuindo responsabilidades entre todos e todas. Com disciplina, afeto, e uma permanente discussão coletiva na busca da liberdade, que desoprimindo livra-nos da opressão e da solidão.

não sei quem fará esse papel. os gestores da escola desempenharão sua parte do personagem que lhes cabe, pergunto aos sonhos que mantenho enfiados em mim. conheço sonhos que são reais nas tentativas individuais de professores e seus alunos, ou de poucas escolas e suas comunidades, mas precisamos avançar para mais, muitas professoras, muitos professores, centenas de mais alunas e alunos, multiplicar nas escolas o pão e o vinho da esperança que brota dentro de todas as nossas pequenas ações do dia após dia. investir contra o egoísmo e o cinismo, acolher os ingênuos para dizer-lhes que nos queiram bem, mas urge acordar e caminhar. saboreio sobre pequenos jornais escolares comandados por alunas e professores em distribuição coletiva de funções, fotógrafos, editoras, digitadores, repórteres, colunistas. escrevo sobre pequenas hortas cultivadas por enxadadas de alunos comprometidos e alunas compromissadas com o semear e proteger a vida, falo sobre pequenos grupos de teatro, música, danças, saraus literários. uma escola que dança e canta e brinca. precisamos comprometer a todos com o ser mais, tendo mais humanidade. chega de deixarmos que nos roubem quem queremos ser

Gente, por favor, chega! Vamos guardar os nossos argumentos teóricos para o momento da discussão pedagógica.

Não são argumentos teóricos, Cabayba. São sonhos! Desejos veementes do espírito desses homens e mulheres que vivem a vida que tu e eu não conseguimos, acovardamos! Preferimos a escuridão mesquinha das disputas nas gramáticas, mapas, datas, bolas e tabuadas.

o professor aguinaldo não consegue dissimular a fraterna admiração que tem por marko e paulo. não cansa de repetir que a história da nossa escola irá reverenciar dois professores bruxos do amor pedagógico, mas o corpo docente começava a se inquietar e fazer muxoxos nervosos. consultando a todo instante o relógio, nosso algoz permitido. somos indivíduos sem prazer no coletivo, contrariados pela inexistência de um trabalho solidário. e nas oportunidades que se apresentam - por inércia ou em uma tentativa intencional de reflexão coletiva - fugimos para os nossos compromissos solitários e o queixume eterno: a falta de tempo, a falta de condições, a falta de um salário digno, a falta de saúde, a falta de juventude, a falta de felicidade, a falta de crer e querer, a falta de dinheiro, a falta de filhos, os filhos em excesso, a falta de consolo em amigos de longe ou de perto, a falta de fé em sonhos possíveis de sonhar, a falta de feriados e pontes e feriadões, a falta de beleza. como conseguir ser uma pessoa normal e voar? só isso, voar do plano racional para o sensível, do espontâneo para o intencional, do ingênuo para o crítico, cínico para o amoroso


Professor Paulo, no momento da sua chegada, estávamos lembrando de algumas situações administrativas que estão ocorrendo e com certeza interferindo no pedagógico.

continuamos voltadas para o diretor aguinaldo como pacatos cidadãos chamados à atenção, de novo não me sinto à vontade. está estrada não vai dar em nada, não sou feliz e não sou louca, tento não ser uma normal que senta na fórmica e chama um por um, uma por uma, para mostrar um caderno com as cópias do quadro, existe razão para colecionar certos e errados em cadernos? ninguém animada para responder? estamos transformando ou fabricando bonecos? precisamos decidir, a fenda vem nos engolindo, nossa morte é certa. e eu, sei quem sou? será que sei, mesmo




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Capítulo 2

  
Aquí había sido primero como una sangría, un vapuleo de uso interno, una necesidad de sentir el estúpido pasaporte de tapas azules en el bolsillo del saco, la llave del hotel bien segura en el clavo del tablero. El miedo, la ignorancia, el deslumbramiento: Esto se llama así eso se pide así, ahora esa mujer va a sonreír, más allá de esa calle empieza el Jardín des Plantes. París, una tarjeta postal con un dibujo de Klee al lado de un espejo sucio. La Maga había aparecido una tarde en la rue du Cherche-Midi, cuando subía a mi pieza de la rue de la Tombe Issoire traía siempre una flor, una tarjeta Klee o Miró, y si no tenía dinero elegía una hoja de plátano en el parque. Por ese entonces yo juntaba alambres y cajones vacíos en las calles de la madrugada y fabricaba móviles, perfiles que giraban sobre las chimeneas, máquinas inútiles que la Maga me ayudaba a pintar. No estábamos enamorados, hacíamos el amor con un virtuosismo desapegado y crítico, pero después caíamos en silencios terribles y la espuma de los vasos de cerveza se iba poniendo como estopa, se entibiaba y contraía mientras nos mirábamos y sentíamos que eso era el tiempo. La Maga acababa por levantarse y daba inútiles vueltas por la pieza. Más de una vez la vi admirar su cuerpo en el espejo, tomarse los senos con las manos como las estatuillas sirias y pasarse los ojos por la piel en una lenta caricia. Nunca pude resistir el deseo de llamarla a mi lado, sentirla caer poco a poco sobre mí, desdoblarse otra vez después de haber estado por un momento tan sola y tan enamorada frente a la eternidad de su cuerpo.

    En ese entonces no hablábamos mucho de Rocamadour, el placer era egoísta y nos topaba gimiendo con su frente estrecha, nos ataba con sus manos llenas de sal. Llegué a aceptar el desorden de la Maga como la condición natural de cada instante, pasábamos de le evocación de Rocamadour a un plato de fideos recalentados, mezclando vino y cerveza y limonada, bajando a la carrera para que la vieja de la esquina nos abriera dos docenas de ostras, tocando en el piano descascarado de madame Nouguet melodías de Schubert  y preludios de Bach, o tolerando Porgy and Bess con bifes a la plancha y pepinos salados. El desorden en que vivíamos, es decir el orden en que un bidé se va convirtiendo por obra natural y paulatina en discoteca y archivo de correspondencia por contestar, me parecía una disciplina necesaria aunque no quería decírselo a la Maga. Me había llevado muy poco comprender que a la Maga no había que plantearle la realidad en términos metódicos, el elogio del desorden la hubiera escandalizado tanto como su denuncia. Para ella no había desorden, lo supe en el mismo momento en que descubrí el contenido de su bolso (era en un café de la rue Réaumur, llovía y empezábamos a desearnos), mientras que yo lo aceptaba y lo favorecía después de haberlo identificado; de esas desventajas estaba hecha mi relación con casi todo el mundo, y cuántas veces, tirado en una cama que ni se tendía en muchos días, oyendo llorar a la Maga porque en el metro un niño le había traído el recuerdo de Rocamadour, o viéndola peinarse después de haber pasado la tarde frente al retrato de Leonor de Aquitania y estar muerta de ganas de parecerse a ella, se me ocurría como una especie de eructo mental que todo ese abecé de mi vida era una penosa estupidez porque se quedaba en mero movimiento dialéctico, en la elección de una in conducta en vez de una conducta, de una módica indecencia en vez de una decencia gregaria. La Maga se peinaba, se despeinaba, se volvía a peinar. Pensaba en Rocamadour, cantaba algo de Hugo Wolf (mal), me besaba, me preguntaba por el peinado, se ponía a dibujar en un papelito amarillo, y todo eso era ella indisolublemente mientras yo ahí, en una cama deliberadamente sucia, bebiendo una cerveza deliberadamente tibia, era siempre yo y mi vida, yo con mi vida frente a la vida de los otros. Pero lo mismo estaba bastante orgulloso de ser un vago consciente y por debajo de lunas y lunas, de incontables peripecias donde la Maga y Ronald y Rocamadour, y el club y las calles y mis enfermedades morales y otras piorreas, y Berthe Trépat y el hambre a veces y el viejo Trouille que me sacaba de apuros, por debajo de noches vomitadas de música y tabaco y vilezas menudas y trueques de todo género, bien por debajo o por encima de todo eso no había querido fingir como los bohemios al uso que ese caos de bolsillo era un orden superior del espíritu o cualquier otra etiqueta igualmente podrida, y tampoco había querido aceptar que bastaba un mínimo de decencia (¡decencia joven!) para salir de tanto algodón manchado. Y así me había encontrado con la Maga, que era mi testigo y mi espía sin saberlo, y la irritación de estar pensando en todo eso y sabiendo que como siempre me costaba mucho menos pensar que ser, que en mi caso el ergo de la frasecita no era tan ergo ni cosa parecida, con lo cual así íbamos por la orilla izquierda, la Maga sin saber que era mi espía y mi testigo, admirando enormemente mis conocimientos diversos y mi dominio de la literatura y hasta del jazz cool, misterios enormísimos para ella. Y por todas esas cosas yo me sentía antagónicamente cerca de la Maga, nos queríamos en una dialéctica del imán y limadura, de ataque y defensa, de pelota y pared. Supongo que la Maga se hacía ilusiones sobre mí, debía creer que estaba curado de prejuicios o que me estaba pasando a los suyos, siempre más livianos y poéticos. En pleno contento precario, en plena falsa tregua, tendí la mano y toque el ovillo París, su materia infinita arrollándose a sí misma, el magma del aire y de lo que se dibuja en la ventana, nubes y buhardillas; entonces no había desorden, entonces el mundo seguía siendo algo petrificado y establecido, un juego de elementos girando en sus goznes, una madeja de calles y árboles y nombres y meses. No había un desorden que abriera puertas al rescate, había solamente suciedad y miseria, vasos con restos de cerveza, medias en un rincón, una cama que olía a sexo y a pelo, una mujer que me pasaba su mano fina y transparente por los muslos, retardando la caricia que me arrancaría por un rato a esa vigilancia en pleno vacío. Demasiado tarde, siempre, porque aunque hiciéramos tantas veces el amor la felicidad tenía que ser otra cosa, algo quizá más triste que esta paz y este placer, un aire como de unicornio o isla, una caída interminable en la inmovilidad. La Maga no sabía que mis besos eran como ojos que empezaban a abrirse más allá de ella, y que yo andaba como salido, volcado en otra figura del mundo, piloto vertiginoso en una proa negra que cortaba el agua del tiempo y la negaba.

    En esos días del cincuenta y tantos empecé a sentirme como acorralado entre la Maga y una noción diferente de lo que hubiera tenido que ocurrir. Era idiota sublevarse contra el mundo Maga y el mundo Rocamadour, cuando todo me decía que apenas recobrara la independencia dejaría de sentirme libre. Hipócrita como pocos, me molestaba un espionaje a la altura de mi piel, de mis piernas, de mi manera de gozar con la Maga, de mis tentativas de papagayo en la jaula leyendo a Kierkegaard a través de los barrotes, y creo que por sobre todo me molestaba que la Maga no tuviera conciencia de ser mi testigo y que al contrario estuviera convencida de mi soberana autarquía; pero no, lo que verdaderamente me exasperaba era saber que nunca volvería a estar tan cerca de mi libertad como en esos días en que me sentía acorralado por el mundo Maga, y que la ansiedad por liberarme era una admisión de derrota. Me dolía reconocer que a golpes sintéticos, a pantallazos maniqueos o a estúpidas dicotomías resecas no podía abrirme paso por las escalinatas de la Gare de Montparnasse a donde me arrastraba la Maga para visitar a Rocamadour. ¿Por qué no aceptar lo que estaba ocurriendo sin pretender explicarlo, sin sentar las nociones del orden y de desorden, de libertad y Rocamadour como quien distribuye macetas con geranios en un patio de la calle Cochabamba? Tal vez fuera necesario caer en lo más profundo de la estupidez para acertar con el picaporte de la letrina o del Jardín de los Olivos. Por el momento me asombraba que la Maga hubiera podido llevar la fantasía al punto de llamarle Rocamadour a su hijo. En el club nos habíamos cansado de buscar razones, la Maga se limitaba a decir que su hijo se llamaba como su padre pero desaparecido el padre había sido mucho mejor llamarlo Rocamadour, y mandarlo al campo para que lo criaran en nourrice. A veces la Maga se pasaba semanas sin hablar de Rocamadour, y eso coincidía siempre con sus esperanzas de llegar a ser una cantante de lieder. Entonces Ronald venía a sentarse al piano con su cabezota colorada de cowboy, y la Maga vociferaba Hugo Wolf con una ferocidad que hacía estremecerse a madame Noguet mientras, en la pieza vecina, ensartaba cuentas de plástico para vender en un puesto del Boulevard de Sébastopol. La Maga cantando Schumann nos gustaba bastante, pero todo dependía de la luna y de lo que fuéramos a hacer esa noche, y también de Rocamadour porque apenas la Maga se acordaba de Rocamadour el canto se iba al diablo y Ronald, solo en el piano, tenía todo el tiempo necesario para trabajar sus ideas de bebop o matarnos dulcemente a fuerza de blues.

    No quiero escribir sobre Rocamadour, por lo menos hoy, necesitaría tanto acercarme mejor a mí mismo, dejar caer todo eso que me separa del centro. Acabo siempre aludiendo al centro sin la menor garantía de saber lo que digo, cedo a la trampa fácil de la geometría con que pretende ordenarse nuestra vida de occidentales: Eje, centro, razón de ser, Omphalos, nombres de la nostalgia indoeuropea. Incluso esta existencia que a veces procuro describir, este París donde me muevo como una hoja seca, no serían visibles si detrás no latiera la ansiedad axial, el reencuentro con el fuste. Cuántas palabras, cuántas nomenclaturas para un mismo desconcierto. A veces me convenzo de que la estupidez se llama triángulo, de que ocho por ocho por ocho es la locura o un perro. Abrazado a la Maga, esa concreción de nebulosa, pienso que tanto sentido tiene hacer un muñequito con miga de pan como escribir la novela que nunca escribiré o defender con la vida las ideas que redimen a los pueblos. El péndulo cumple su vaivén instantáneo y otra vez me inserto en las categorías tranquilizadoras: muñequito insignificante, novela trascendente, muerte heroica. Los pongo en fila, de menor a mayor: muñequito, novela, heroísmo. Pienso en las jerarquías de valores tan bien exploradas por Ortega, por Scheler: lo estético, lo ético, lo religioso. Lo religioso, lo estético, lo ético. Lo ético, lo religioso, lo estético. El muñequito, la novela. La muerte, el muñequito. La lengua de la Maga me hace cosquillas. Rocamadour, la ética, el muñequito, la Maga. La lengua, las cosquillas, la ética.


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sábado, 5 de setembro de 2015

Histórias de avoinha: Gosto de mentir enquanto a verdade cochila

Ensaio 61B – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar


na reunião dos donativo do siô padre, feita na continuação dos brinde com sangue do bode, ficô dito qui num se podia fazê obrigação dos donativo dado em nome da obra santa, Caridade é só caridade. Ela tem mais mérito e relevância que qualquer outra contribuição imposta aos cidadãos de bem para manter o Império com suas caridades, gostamos de escolher as nossas caridades, sentô depois do dito, tumbém num queria falá a mais nem chamá atenção além da medida, num queria provocá ciumêra nos calado e o medo nos dono de tudo. E assim ficô, ouvindo o qui num tava querendo. Arrotando o vinho, soluçando as vontade de tá com as menina da rua dos pecado. Oiô pru padre e soltô otro um pouco da língua qui guarda escondida

Rezar é bom quando se está doente ou vamos morrer, mas construir uma igreja com nosso dinheiro para os miseráveis rezarem é como rezar a esmo. Eles merecem? Não precisamos desta igreja tão grande. Miseráveis não têm futuridade nem precisam pensar no Paraíso, muito menos acreditar na sorte.

E quem vai aquietar seus corações?

O Chefe da Polícia! E quem mais havia de ser?

quem mais calejado e treinado pra ensiná essa narrativa do caos que gente egoísta e canalha? Na continuação o siô da hora pensô em mandá o siô padre se fudê, mais só pensô, não quero e não vou sustentar os pedaços da sua igreja, padreco de merda. o que foi isso, conde? não se meta, bode! meu amigo, onde estiverdes reunidos em meu nome, ali estarei eu. eu quem? eu. bode, sua voz parece com a voz de um velho indecente e castrador. a minha? sim, a sua. parece que o conde anda ouvindo vozes demais. você é o bode, filho-da-puta. conde! ainda acabo com ocê, bode. somos prisioneiros um do outro. você não é real, bode.

Acho que o Chefe da Polícia não consegue aquietar tantos corações.

Já que fui citado, tenho uma sugestão como Chefe da Polícia.

Pois fale, retrucô o siô padre

num queria nem começá ouví, mais ali tava, ali ia continuá. Pensava nas moça da maria da cobra e uma tempestade desacomodava as virilha vigilante. Aquela reunião lhe parecia coisa de vigarista com truque de palavra, sabia fazê meió com venda nas vista; juramento na escuridão é coisa de criança que se deixa fasciná pelo mistério; e o vinho de sangue, um engodo, Honestidade quem tinha era maria cobra, colocava um valô nas menina e cobrava o preço. essa cobra é real, conde? é um prêmio.

E qual é a sugestão do Chefe da Polícia?

O sinhô Conde da Hora não escutou?

Ah, sim. Desculpe a soltura dos pensamentos, num pareceu embaraçado e pediu qui o chefe das pulícia continuasse

Sugiro que o sinhô Padre faça uma lista com os nomes dos responsáveis pelo ajutório e a ajuda dada.

o siô da hora levô otro susto, num gostava nada de tê ou num tê o seu nome nesta lista de vigilância. Num podia tê nem queria tê o nome marcado na paleta de qualqué inventário, O gosto de hoje é o desgosto de amanhã. bobagem, conde. não vou ficar calado, bode. é melhor o conde pensar, duas ou três vezes, antes de atacar o padre e o chefe da polícia.

num escutô os próprios consêio. Pediu a palavra, mesmo qui ali num queria tá ele tava, resmungava com os próprio pensamento, Esse é um bom homem porque dá, esse outro é um egoísta avarento que não dá um tostão, esse é um filho-da-puta que finge que dá. cuidado com as palavras ditas, conde. caridade é caridade, dou o que eu quero e quando eu quero. cuidado, conde.

levantô a mão pra falá, um conde num ia se calá prum consêio do bode, Por que fazer uma lista se o Sinhô Deus sabe tudo e vê tudo? É chover no molhado, falô mais num passô o limite do bão senso

foi a veiz do siô padre levantá pra dá as explicação devida pelo assunto levantado, oiô nas vista do afilhado, mais falô pra tudo qui foi bode, O verdadeiro valor é o fim que queremos alcançar. Os nomes servem para os agradecimentos na missa, mostrar que o amor à Deus não é um saco de palavras vazias. Precisamos de um Deus misericordioso para nos proteger dos cínicos. Chegará o dia e a hora do chimarrão com o Sinhô das Terras de Cima, vai ser bom estar na lista dos doadores declarados, conferidos, descarregados e usados na construção da nossa igreja.

O sinhô Padre que me desculpe, não vejo necessidade de controlar o que é dado. Isso não pode ser o começo de tudo. Estamos criando um monstro, daqui a pouco a Villa nos controla tudo, inclusive os lucros!

a confraria num tava no acordo com um lado nem com otro. Num sabia se queria separá a verdade da falsidade. O siô padre procurô o governadô qui já num tava mais. Saiu no meio da confusão começada. Um frôxo piadista. Mais encontrô as vista do aconseiadô do governadô. Os dois oiô firme um notro. Nenhum desviô. O siô padre puxô pra conversa o siô lobomanso cinza, E o sinhô Aconselhador do Excelentíssimo Governador?

Sim...

O que o sinhô Pensavento pode nos dizer? O que Vossa Excelência aconselharia?

o citado e puruguntado num fez um movimento de nervosismo nem desconforto, parecia tá com os pensamento longe, abandonado de ficar ali. Jogô um laço numa das palavra do padre e se deixô ir. Saiu voando pela fresta da janela, achô qui foi a palavra aconselharia qui uso de montaria pra saí dali, desviô do arvoredo e rebateu-se no varapau do acendedô das luminária da parte alta da villa. Um assopro, uma cambalhota e caiu. Desceu no rumo do chão. Bateu as vestimenta com o pó da terra e seguiu com os pé. Passeô inté a sacristia. Só ele e o padre

O problema mais preocupante são os amigos descuidados e indecentes, se o padre disse otras coisa dita num lembra, num sabe se a conversa começô da lembrança qui tem, mais num importa

Eu sei, meu amigo.

Vamos caminhar?

os dois saiu da sacristia. Num era cedo da manhã, mais tumbém num era tarde. Era metade. O calô da iluminura do sol já tava alto e continuava levantando. O movimento da vida tumbém num parava. Levantava. Ficava mais forte. O rumô das rua anunciava otro dia cheio na villa. As rua tem vida qui estranha com a vida das casa. Num entendi o qui acontece lá dentro nem as coisa lá de dentro entendi o qui se passa cá fora

Escute a nossa volta... o amigo está ouvindo?

o aconseiadô parô pra atendê a purugunta do siô padre. Na primêra vista da escutação num escutô. Oiô na sua volta, num viu nada fora do lugá, tudo tava onde devia tá

O quê o amigo Pensavento vê?

Sei lá... miseráveis, derrotados, negros, escravos, estúpidos, bêbados, vagabundos. O que há mais para ver? Nestas horas do dia?

Feche os olhos e escute, pronto, o aconseiadô estava com os óio fechado, ele num sabia o qui o padre queria prová, mais num ia se acovardá

Imagine o significado do que o amigo está ouvindo.

o aconseiadô tava com as vista fechada, mais num parecia fazê cara de espanto ou estranheza, num parecia tá num horripilante pesadelo ou doce paraíso. A procissão dos baruio passava misturada com o vozerio daquela gente morta, capacho da boa vida dos hôme e muié do bem, Não havia me dado conta desse cheiro. É um fedor insuportável.

Não abra os olhos, continue.

escutava em silêncio. Abriu os óio e viu o barbêro-sangradô, pela primêra veiz. O preto cortava os cabelo dos preto, raspava a barba dos preto, sabia tumbém, tirá o sangue doente dos preto. Gostava de fazê uso das chamichunga. Isso dava pra vê só de oiá. Num precisava nem puruguntá. O adoentado sentado na calçada, ou em pedra solta com tamanho de banco, entregue nas habilidade do barbêro com as bicha parasita, inté terminá a sangria do veneno do sangue sarará ou criolo. Num era coisa bunita de vê, mais dava de vê qui fazia o qui gostava de fazê

mais adiante, tinha os tambô e as cantoria feita no céu aberto da luz livre. A rua da floresta era a rua do batuque com os pé no chão, sem os assoáio das tábua. Os preto batuquêro só precisava tê cuidado com os pulícia. Já vem antes desse tempo, os pulícia existe pra cuidá de protegê a vida e os bão costume dos branco de sangue bão. Foi feita pra protegê os qui manda. Os pulícia da villa tinha nas filêra de subalterno os preto forro. Pru preto era um jeito de meiorá a vida de negro forro jogado na rua. Os preto da pulícia qui era preto avisava das batida nas festa dos batuque; mais tumbém, tinha os negro virado pulícia qui queria esquecê qui era preto e num avisava das batida nos batuque. Num tinha muito desses negro, mais qui tinha isso tinha. Desses qui fingia sabê da vida dos branco, esquecido da vida dos preto. Na sabedoria qui eu sei, um qui otro desembestô de sê dono de preto escravo, mais num conseguiu. Os branco num deixô, inda bem, essa maldade dependia da vontade dos dono de tudo. E os dono de tudo num divide nada com ninguém, muito menos ia dividí escravo com negro forro

seguido chegava nas pulícia as denúncia contra os batuque dos tambô, quase sempre nos domingo. Os pulícia saia pra cumprí as lei do imperadô. Fazê os bão costume vingá a razão branca. As recomendação era uma só: serená os divertimento dos preto forro; silenciá as batucada; pará as dança. Aquele gritedo causava estranheza. Os branco nunca entendeu qui aquele bailado num era briga nem desordem, mais o feitio dos preto encontrá o oiá dos mais antigo qui os antigo. Oiá de ajuda e de amparo dos preto já partido e reconhecimento dos enredo já vivido. Ouví os aconseiamento qui tá na volta, mais escondido dos óio com desusança pra oiá o qui num se mostra. Lutá pra resistí a luz maldosa das treva qui engana o oiá com a luz sombria da caridade qui faz mais prisionêro qui liberta os aprisionado

a gaivota azul voando, os preto cantando o canto dos escravo, muriquinho piquinino, ô parente, muriquinho piquinino de quissamba no cacunda. Purugunta aonde vai, ô parente. Purugunta aonde vai pru quilombo do Dumbá: ei, chora-chora mgongo ê devera chora, mgongo, chora. O moleque de trouxa nas costa, fugindo pru quilombo Dumbá, os otro chora qui num pode ir junto

o aconseiadô mais um tanto pensativo, distraído do próprio silêncio, chegô na beirada das água. Num escutava os canto dos escravo. Parô os passo, mais num parô a tramóia dos pensamento. Ele era o hôme qui alargava ou encurtava as vontade do governadô, ou caminhava a esmo, ou se vestia de paiaço, ou um louco, ou um sábio, ou um abutre. Aprendeu qui podia passeá com a solidão e num parecê enjoado ou idiota. Sabia qui os queixume do siô padre precisava sê oiado com cuidado. Num tinha solução de simplicidade, mais havia de encaminhá alguma providência, O sinhô Padre sabe que o rigor das leis para os negros e miseráveis é fácil!

Sim, meu amigo. Eles já sabem que a primeira tarefa da espada do Imperador é cortar todos, os dois continuava parado na beirada das água, são como os peixes no rio: livres para ficarem nas águas até serem aprisionados nas redes dos pescadores.

E o sinhô Padre me parece um dos melhores pescadores da Villa, o aconseiadô virô as vista inté o siô padre, o pescadô das água num se mexeu, continuô oiando pras água com as rede nas mão

O amigo dá mais importância que mereço e esquece a sua contribuição mais imediata e decisiva: arrasar com os contrários ao Imperador.

as água continuava mansa, mais num escondia o fedô dos peixe morto, os resto qui num prestava da limpeza feita, sem lápide, as mariposa engolindo pedaço de mais tamanho qui elas pra depois voá distorcida inté as flores para suavizá o gosto podre da civilização

No império não precisamos do embaraço e sofrimento dos contrários. O que eu faço? Nada. O Chefe da Polícia é quem prende e solta. Prende e solta e prende. Solta e prende e solta. até quebrar as resistências do mais fraco. Outros só querem ser comprados. Mas nem todos são assim, como crianças que se negam obedecerem. Os casos mais extremos de enfrentamento só fazendo desaparecer, o siô padre pediu qui num lhe fosse dito os detalhe das víscera boiando embaixo das mariposa. A mão desgrudô da otra e subiu inté a testa, pai fiô santo, amém. A cruiz da salvação, Não tem quem mande no sujeito que não quer respeitar, nos casos assim, é melhor dar sumiço, pai fiô santo, amém

os dois hôme de importância pras tramóia na villa continuava parado, oiando as mariposa do rio. Um rezava, o otro lembrava das conversa com o governadô. Na cabeça de gente cabe tanta coisa junta, O problema mais preocupante sua Excelência são os amigos indecentes e descuidados!

Eu sei, Pensavento. Os amigos da fidalguia não podem receber o rigor das leis, nascemos acostumados com tantas bondades. Não nascemos para capacho dos miseráveis, mas precisamos ter quem mande, nosso Imperador precisa tranquilidade para governar.

E na Villa parece que toda fidalguia é aparentada. Todos têm algum interesse que merece cuidado especial.

eu sabia que as notícias novas assustavam, ninguém queria perder as posições que já tinham conquistado depois de tantas intrigas, mentiras, traições e mortes. Não estava em questão estrago desnecessário, Os nossos amigos, não todos, mas quase todos, estão roubando das doações que fazem à construção da igreja do sinhô Padre.

O que fazem de tão grave?

Isso. Roubam o que foi dado. Eles fazem a doação durante o dia do material para construção da igreja.

E...

E à noite, voltam para levar parte do que foi doado. Fingimento de bom amigo e o reconhecimento nas domingueiras do sinhô Padre. Uma disputa de poder e prestígio. Mostrar quem doa mais. A retórica que se impõe pelo discurso e imagens.

Quem fez a acusação?

O sinhô Padre.

Ele garante o que viu?

fiz um pequeno silêncio que pareceu indecisão, mas foi só um jogo de tempo para melhorar minhas palavras a serem ditas, Ele garante que quem viu usava os olhos dele.

o governador não aparentava preocupação, sabia que sentar na cadeira de governador tem um preço, Não podemos deixar esse justiçamento com as Leis Divinas? Afinal, não é roubo de muita gravidade. E caso isso venha a ser considerado roubo. Como acusar de roubo se essas pessoas generosas apenas mudaram de ideia? Eu não me preocuparia com isso.

É um jeito de não fazer o que é preciso ser feito, mas a questão é o sinhô Padre e o sermão das domingueiras.

olhamos a esmo, um ao otro, cada um com a sua solidão. Sabíamos que a traição não faz uma coisa ruim ficar boa, mas faz algo bom quebrar, Deixe-me ver a lista com os nomes.

estendi o papel, o governador se estendeu na leitura além do tempo, Têm nomes que podem aparecer e nomes que não podem ser revelados.

os maus são tão egoístas e os bons tão ingênuos, quase sempre; mas não valem as moedas em meu bolso, são aborrecidos. Gosto de gente boa e má quando é preciso. Sem medo do inferno, inquietos com o paraíso, Excelência, do mesmo jeito que o povo escuta o sermão do sinhô Padre, o Imperador tem ouvidos para escutar. Não faltarão línguas para contar.

balançou a cabeça confirmando o que havia lhe dito. Não me considero um gênio, mas gosto de entender desta arte de mentir enquanto a verdade cochila. Cada dia que escapo das armadilhas, juro que nunca mais mentirei, mas não consigo, Eu sei eu sei, o padreco tem muitos olhos e ouvidos na volta do Imperador.

É muito arriscado fechar os olhos. Sua Excelência ainda estava na reunião quando o pequeno bode, recém-nascido pelo batizado, fez soar o alarme.

Eu lembro, Pensavento. Por isso, lhe chamei aqui. O filho-da-puta deu a deixa para o padreco. Lembre-se de ter cuidado com esse bodinho.

a gaivota azul voando, os preto cantando o canto dos escravo, Ia uê ererê aiô gombê: com licença do curiandamba, com licença do curiacuca, com licença do sinhô môço, com licença do dono de terra



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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Se não nos deixais sonhar, não os deixaremos dormir

Eduardo Galeano


75 anos do nascimento



El Derecho al Delirio




¿Qué tal si deliramos por un ratito?

¿Qué tal si clavamos los ojos más allá de la infamia para adivinar otro mundo posible?

El aire estará limpio de todo veneno que no provenga de los miedos humanos y de las humanas pasiones.

En las calles los automóviles serán aplastados por los perros.

La gente no será manejada por el automóvil, ni será programada por el ordenador, ni será comprada por el supermercado, ni será tampoco mirada por el televisor.

El televisor dejará de ser el miembro más importante de la familia y será tratado como la plancha o el lavarropas.

Se incorporará a los códigos penales el delito de estupidez que cometen quienes viven por tener o por ganar, en vez de vivir por vivir no más, como canta el pájaro sin saber que canta y como juega el niño sin saber que juega.

En ningún país irán presos los muchachos que se nieguen a cumplir el servicio militar sino los que quieran cumplirlo.

Nadie vivirá para trabajar pero todos trabajaremos para vivir.

Los economistas no llamarán nivel de vida al nivel de consumo, ni llamarán calidad de vida a la cantidad de cosas.

Los cocineros no creerán que a las langostas les encanta que las hiervan vivas.

Los historiadores no creerán que a los países les encanta ser invadidos.

Los políticos no creerán que a los pobres les encanta comer promesas.

La solemnidad se dejará de creer que es una virtud, y nadie nadie tomará en serio a nadie que no sea capaz de tomarse el pelo.

La muerte y el dinero perderán sus mágicos poderes y ni por defunción ni por fortuna se convertirá el canalla en virtuoso caballero.

La comida no será una mercancía ni la comunicación un negocio, porque la comida y la comunicación son derechos humanos.

Nadie morirá de hambre porque nadie morirá de indigestión.

Los niños de la calle no serán tratados como si fueran basura porque no habrá niños de la calle.

Los niños ricos no serán tratados como si fueran dinero porque no habrá niños ricos.

La educación no será el privilegio de quienes puedan pagarla y la policía no será la maldición de quienes no puedan comprarla.

La justicia y la libertad, hermanas siamesas, condenadas a vivir separadas, volverán a juntarse, bien pegaditas, espalda contra espalda.

En Argentina las locas de Plaza de Mayo serán un ejemplo de salud mental porque ellas se negaron a olvidar en los tiempos de la amnesia obligatoria.

La Santa Madre Iglesia corregirá algunas erratas de las tablas de Moisés y el sexto mandamiento ordenará festejar el cuerpo.

La Iglesia también dictará otro mandamiento que se le había olvidado a Dios, “amarás a la Naturaleza de la que formas parte”.

Serán reforestados los desiertos del mundo y los desiertos del alma.

Los desesperados serán esperados y los perdidos serán encontrados porque ellos se desesperaron de tanto esperar y ellos se perdieron por tanto buscar.

Seremos compatriotas y contemporáneos de todos los que tengan voluntad de belleza y voluntad de justicia, hayan nacido cuando hayan nacido y hayan vivido donde hayan vivido, sin que importe ni un poquito las fronteras del mapa ni del tiempo.

Seremos imperfectos porque la perfección seguirá siendo el aburrido privilegio de los dioses.

Pero en este mundo, en este mundo chambón y jodido seremos capaces de vivir cada día como si fuera el primero y cada noche como si fuera la última.

EDUARDO GALEANO – extracto de “EL DERECHO AL DELIRIO”




Es tiempo de vivir sin miedo






"No vale la pena vivir para ganar, vale la pena vivir para seguir tu conciencia"



Verdades e Mentiras do Mundo Atual




Recuperar el valor de la palabra




Entrevista
Pepe Mujica habla sobre Eduardo Galeano