quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Teatro Pedagógico: escola melancólica

Parábolas de uma Professora



escola melancólica


baitasar e paulo e marko





Consegui, brado pra mim mesma

Voltei lá, me aviso, outro ano, outro tempo. mesmo logro? fugi para meu início de professora alfabetizadora

não fumava. sinto na memória o perfume e os odores da vida longe da combustão e do vapor pardacento-azulado. fico apreensiva a espera da tosse que não vem, ainda não entendo que dores ou alegrias me empurraram para o cigarro. não importa. não resisto aos rolos da fumaça que não saem de cada tragada e absorvo em meu corpo. mais um pequeno esforço. pego o ar fundo, nada. nem mesmo uma pequena tosse


revendo alguns que já se foram, algumas que continuam por aqui, passado e presente se confundem. envelhecer com um passado para lembrar é bom, mas melancólico. a saudade é melancólica. readquiro vigor, mas o movimento não acontece no tempo. apenas na superfície das imagens amareladas do preto e branco, sou a forma nominal do verbo. retornei para o meu lugar de partida, jovem acreditadora. reapareci sem as dores, com outros medos que foram enfrentados com muitos sonhos

e os reencontros são inevitáveis. ir e vir e tornar a ir. até não voltar. deixo parte do lembramento afastado da discussão, procuro me colocar na posição de observadora. testemunha da história. não lembro nomes. não quero lembrar nomes. mas não esqueço os diálogos e os intermináveis monólogos. tínhamos discussões muito higiênicas e ingênuas, outras nem tanto, impregnadas de uma vontade à vida e diluídas na oração das idéias. rezar ideias desqualifica o compromisso com a dúvida. rezar ideias faz nascer os dialetos. a fé desacredita a hesitação e as incertezas. a fé na vida mobiliza. isso é bom. mas é a dialética que desestabiliza e obriga o caminhar. estamos encharcadas das boas intenções. procuro na memória as intenções que teríamos de possuir. razão impressionável de sermos professores: àquelas que professam a vida pelo conhecimento e pelo saber. sempre preferi a dialética ao dialeto da reprovação, discutindo e argumentando por meio de oposições e o reencontro das contradições. sem medo de reconhecer no dialeto a possibilidade do espaço no tempo, mas sem a construção histórica da esperança, mesmo quando única sensibilidade humana que nos resta. coisa estranha essa memória da gente, de repente acende-se uma luz. liga-se um botão, e eis nosso depoimento autobiográfico

as biografias afloram em lembranças julgadas sepultadas pelo tempo. muitas no formato e pelo cheiro de florais, outras nos assustam com seu desenho de raízes. tubérculos e cactos com suas folhas reduzidas a espinhos, mas que ainda podem oferecer flores de cores vivas. sobrevivemos. lembrar das conversas é acordar no meio do sono da tarde chuvosa, Calma, gente. espreguiço e reviro para o lado, Tenho mais, mesmo economizando memórias. tenho cuidado com os diálogos simultâneos, as intenções aparentadas e dissimuladas entre muitos discursos e orações. os olhares e as vontades não percebidas. suores e odores são distinguidos e revelados nas intenções. basta estar atenta. assim, me abandono às reminiscências nas escolas que vi e vivi, nestes anos de fazeres partilhando a construção de mim mesma e do alheio, e povoada, graças a ousadia de lutar, chego até aqui... povoada

misantrópica

uma das imagens que me surge, invadindo como uma horda nômade indisciplinada, chega dos práticos e as práticas com a supervisão escolar, vigias teóricas. sentia-me assim, vigiada. tempos duros. ditatoriais. já se passaram alguns anos, mas não consigo esquecer as intenções que percebia nas vozes e cochichos. nas histórias e tolices que dizíamos para nós mesmas

Gurias, a gente pensou esta reunião de emergência com vocês para lembrar que aqueles alunos repetentes do ano passado não podem ser reprovados.

O que é isso?

Naquelas disciplinas em que já foram aprovados não podem ser reprovados.

Como é que é?

Minha querida, o teu aluno repetindo a mesma série do ano anterior não pode ser reprovado nas matérias em que no ano letivo passado foi aprovado.

Por quê?

Porque a lei diz que não se pode retroceder, tirar o que já foi obtido pelo aluno.

Não acredito!

Uma vez aprendido o pedalar da bicicleta não será esquecido.

Supletivo em longo prazo.

Sim... Como a gente fica sabendo quem é quem?

E o que eu faço se o aluno teimar em reprovar onde já foi aprovado?

Não deixa acontecer, manda fazer trabalhos, provas de recuperação, desenhar, declamar alguma poesia, palavras cruzadas... e reza.

E eles sabem disso?

É claro que não! Este é o quinto segredo de Fátima. Caso descubram será um massacre, estaremos todas perdidas.

Não dá pra dispensá-los e dispersá-los nas disciplinas em que já estão aprovados, mantê-los apenas freqüentando naquelas aulas que podem reprovar?

Não! Somos uma escola seriada, nossa matrícula não é por disciplina.

O que a gente pode fazer?

Nada!

Como assim nada?

É o fim da educação.

É o fim do mundo! O queridinho não faz nada o ano todo e recebe como prêmio a sua aprovação?

Sim, como vamos saber quem passou no quê?

É por isso que estamos aqui, vou dizer para vocês quais são os alunos e as matérias em que eles podem ser reprovados.

Não entendi.

É simples, O juquinha, por exemplo, está repetindo a Quinta série e só poderá ser reprovado em Matemática, Língua Portuguesa, História e Ciências, nas demais ele já aprovou no ano passado.

Ah! Entendi, vamos conferir nome por nome dos repetentes e marcar quais as matérias que eles poderão reprovar, neste ano.

E os alunos descuidados que chegaram de outras escolas?

A secretaria da escola fará esta pesquisa para nós.

Vamos começar?

Gurias, vamos conferir esta lista de nomes logo, preciso sair mais cedo.

não lembro do restante das intenções. evito as observações dos meus olhos e nariz entre as falas que lembro. não quero me submeter deliberadamente as intenções de acusar, mas eis a lógica da reprovação: negamos direitos e gritamos que os estamos preparando para a vida. só se for para uma vida de mentiras e enganos, sem ética, no sacramento absoluto e na rendição incondicional ao nosso precioso conteúdo. em nome do qual nos damos os direitos civis exclusivos e perpétuos. nada interessa e sobrevive à mentira. a ocultação da verdade dita e escrita na lei dos homens e mulheres e crianças. existimos porque o aluno existe, O aluno nos faz permanecer sobrevivendo... por que não agradecemos?


tanto tempo se passou



hoje, sei que amei muito minhas escolas, lembro que quando enxergava minhas professoras queria abraçá-las. gostava quando conversavam com a gente. faziam brincadeiras e passeios. adorava quando me deixavam conversar baixinho feito cochicho. gostava daquelas que eram decididas, diretas e educadas e perfeitas porque nunca gritavam com a gente, viam flores dentro dos nossos corações. não tinham medo da gente e nem desejavam nos dominar aos gritos e ameaças, nos queriam bem. e quando diziam que éramos seus queridos eu acreditava. podia acreditar. queria acreditar. não esqueço da professora que gostava de brincar e pular corda. roubou meu coração. lembro dos passeios que fazíamos dentro da vila, caminhando e descobrindo e revelando para a nossa professora os nossos cantinhos e esconderijos. entrávamos em nossas casas conversando e muito à vontade, foi um sonho bom. os pais e as mães nos olhavam incrédulos sem saber o que estávamos fazendo ali e não na escola aprendendo, porque é na escola que a gente aprende, Não sei bem o quê, grita alguém lá do bem fundo pensamento, mas voltando aos pais, de repente a tropa surgia na frente deles, pedindo, Com licença, e iam entrando em suas casas, tomando um copo d’água, refrescando a alma. essa professora foi alguém que quis entender os joãos e marias de ninguém e se importava com a nossa história de vida. queria ser igual a ela, nem sei o que dizer de tão boa que ela foi. a melhor professora que já tive até agora, gostava quando contava as suas histórias, gostava quando ela ria, a sua letra não era nem grande, nem pequena e explicava bem direitinho. ela me conquistou com seu carinho e sinceridade, também, lá vez que outra, nos aplicava uns gritinhos e ficávamos num silêncio absoluto, não era de susto, mas a novidade. pra mim, as professoras que não são iguais a ela tem um só problema, quando estão brabas não deixam as crianças falarem, mas às vezes é bom ter um bom silêncio para pensar e estudar e aprender.

eu gosto de estudar e pensar. gosto das quermesses, de cantar o hino do ipiranga, mas não todo dia. gosto da merenda, da alegria do recreio, escrever no caderno, fazer contas. não gosto de fazer sempre as mesmas coisas. não consigo sonhar parada, necessito do movimento. sempre é bom pra gente aprender a sorrir. um dia vou crescer mais e se encontrar com as professoras que me ensinaram a estudar quero apertar suas mãos nas minhas, com muita alegria e emoção de falar, Obrigada, nem revoltada nem dócil, mas um pouco de atrevimento sugerindo que nunca fui servil ao olhar ameaçador. encaramentos. encarceração do meu atrevimento. o desafio nos enfrenta com sua voz macia e pausada em truques de sorrir e solicitar. a tirania feita no molde da cumplicidade entre o medo e o silêncio não nos permite o fascínio do descanso. esse medo nos acena com o descaso, e a mesma tirania destas gentes se declara vítima, o que sobra para mim, para qualquer desdentada, talvez, a zombaria e a bazuca. o fuzilamento na boca do canhão. prefiro desviar do gesto de faz-de-conta, escolho você minha professora calma e amorosa que passava coisas boas no quadro e me fez feliz para lembrar da escola que tive e me aliviou um pouco de uma vida sem gosto. uma vida de sofrimento que geme sem amor, sem espaço para o silêncio da alma. uma vida de choros sem cólicas e perdida em desesperos sem corações, sempre me senti indiferente à ilusão do paraíso da recompensa, Existirá a inocência do belo, me pergunto, a beleza se parece sempre revolta em pecado. e o feio, em estado permanente de tristeza. isso nos faz chorar e nos empurra aos braços do belo, Como os professores vão me querer se não tenho uma história de beleza pra contar, preferem ficar ensinando de longe, fazendo ditado, copiando no quadro, perdoar o que não é belo é muito difícil. meus pensamentos tomam formas em palavras que não pronuncio e ouço em pesadelos. estranho me sentir agitada e oprimida num sono que não é sono, mas um marasmo de esperar o tempo das horas passando, é como se a qualquer momento ao olhar para o relógio que marca as horas não pudesse mais encontrá-lo, pois morri, Quantos sonhos e carnes desperdiçados na morte jovem, Quantos sonhos e carne destruídas na morte velha? este jeito de falar sobre mim mesma, para examinar o meu jeito, por meio do entendimento e da razão, sobre o que ouço que penso e o que penso que ouço, vem provocando um cansaço com caminhos muito diferentes, mas continuo aqui, procurando ser uma mulher normal, muitas vezes ingênua, e ainda imatura. desfigurada na invenção do tempo. triste e melancólica com minha tosse e rouquidão seca. hoje quase pedi um cigarro para o professor abá, mas não pedi

durante todos esses tempos a luz não deixou de brilhar. e muitos e muitas mais pereceram absorvidos pela fenda da terra, é inevitável.
na outra escola, não nessa, naquela do meu tempo de guria, a luz não brilhava. de maneira que no outro dia muitos já não estavam ali, retirantes. sepultados em valas comuns. depois a fenda se fechava. com o tempo a vegetação encobria as cicatrizes da terra, haviam deixado a vida daquelas senhoras desarmadas, menos confusas, menos vítimas. desaparecidos para sempre
 


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pegadas

Bebeto Alves






Nas pegadas das minha botas
Trago as ruas de Porto Alegre
E na cidade de meus versos
O sonho dos meus amigos
Caminhando pelas ruas de
uma cidade americana
Eu percebo que não quero migalhas
Nem tampouco medalhas
Isso tudo é ilusão
Vendo as mesmas mentiras
num país desenvolvido
Armado até os dente para a guerra
Me dói o coração
Perceber a situação que estamos
envolvidos sem perspectivas
De qualquer solução
Nas pegadas...
É quando penso na razão que nos leva a acreditar
Que estamos mudando um país
Uma voz vem lá de dentro que me diz
Que o sistema no fundo é o mesmo
e em nós se perpetua
E não cabe mais aqui e agora
essa máquina que nos fez aprendiz
De um poder vagabundo
Nas pegadas das...
E não podemos mais
desperdiçar energia
Com uma vazia retótica estética
amordaçando o grito de um coração
Que luta contra toda falta de perspectiva
e informação do pensamento
Abatido pelos mísseis imperialistas
dentro de sua própria nação
com toda falta de cultura, sensibilidade,
amor, respeito e educação
Nas pegadas...
E fico puto ao constatar que
desperdiçamos tempo parados em segredo
Bebendo num bar que nos feriu
a memória e nos tirou a força humana
O único sentido de revolução de um ser
O objetivo intrínseco de um homem
novo de qualquer geração
Para toda e qualquer falta de possibilidade
Tem que haver reação
Nas pegadas...
E agora eu sei que o que nos ensinou a esperar inutilmente
Foi a burocracia, o misticismo e a religião
Esperar por Deus, por alimento, pão
Esperar que as coisas mudem num próximo momento
E eu atento contra a culpa e o sofrimento
judaico-cristão
Contra toda dúvida e medo
Com muita insatisfação
Nas pegadas...
Caminhando pelas ruas de uma cidade americana
Eu lembro o poeta Duclós que disse-me estar a salvo -
não é se salvar
E eu complementaria, hoje em dia
se sentir salvo é esperar pela salvação
E nada nos salvará
Um dia, ainda, nos aniquilarão
Parodiando Russians do Tting
eu também diria
Então espero que os brasileiros amem seus filhos,
de coração
Nas pegadas...


Autor: Bebeto Alves




Depois da chuva



Bebeto Alves, guitarra e vocais
Everton Pires, baixo
Bebeto Mohr, bateria
Fernando Corona, teclados

Gravado ao vivo no Porto de Elis, 1987



Não vou morrer
Depois da chuva
Como um domingo
Não vou morrer
Não vou morrer
Isso é um insulto
Sob esse viaduto
Não vou morrer

A cidade escura
E imunda é que está
A apodrecer
Mas vem a chuva, vem
As pedras rolar
Rolam pedras, sim...
Rolam em mim

Eu não vou morrer,
Desaparecer...
Na palavra "fim", baby
Escrita em algum lugar



Composição: Bebeto Alves




Silêncio Catedral





A riqueza das tuas ideias
Construíram um silêncio catedral
Mesmo que a luta tenha sido inglória
Violenta, como foi, como nos conta a história
Ela nos silencia

A nossa pobreza não te alcança?
Não te soa uma palavra nova?
Não te vale mais o risco, a prova
Quem de nós te assustaria
- isso é um assalto!
E ao contrario, te sustenta
O teu sonho revigora
Abre o teu caminho
Vem te despejar de ti
Vem te por pra fora
E com a minha pistola
Recarregada no desassossego
Te dou a sentença,
Com um pé na tormenta
E outro na alegria
Chega de putaria!
Pois estou condenado a ser melhor
Do que já fui um dia
Do que já fui dia



Composição: Bebeto Alves




Chamamecero
Mandando Lenha






Como se a escuridão trouxesse luz
Como se o coração fosse explodir
Mastiguei a fala, negaceei a mágoa
Só pra ver a lágrima feliz

Quis amansar a dor, me vi pela vida
Quis conhecer o amor, fiz um chamamé
Cheio de carinho, louco de faceiro
Mas que chamameceiro me senti

Coisa de bom menino abraçando o pai
Coisa de mão saudosa mimando o filho
Fui me emocionando a mando do gaiteiro
Mas que chamameceiro, repeti

A mão vem me dando um soco,
E eu prendo-lhe um sapucay,
O pé pisoteia a marca,
Que a alma arrepia em pêlo
E quase arrebenta o fole,
Que torce, pra vida melhorar...



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terça-feira, 3 de novembro de 2015

Histórias de avoinha: uma garrafa de vinho e um naco de queijo


Ensaio 65B – 2ª edição 1ª reimpressão


uma garrafa de vinho e um naco de queijo


baitasar


a desavença entre os bode do couro e do charque com os monarquista do pelame eriçado tinha uma grande chance de acabá em luta. Num devia sê assim no meu entendê, e tumbém no entendê de munto mais entendedô silencioso, mais do jeito qui ia nem o tempo nem o vento resolvia. Num importava as razão. A briga dos estancêro do charque e couro contra os qui achava bão como tava chegô na irmandade. Os bode chefe num tava conseguindo segurá os bode descontente dos dois lado. Dois lado. Os contra e os a favô. A villa tava enfraquecendo. Uns fechava os óio, otros num queria escutá. Os qui num fechava os óio tava surdo, os qui ouvia tava cego. O siô conde humaitá resmungô no meio dos dente, Bestice. Essa gente dona do mundo tem muito, mas vive chorando que tem pouco...

foi tê acabado de dizê e sentiu os arrepiu do pelame encrespando, falô além da conta. O teiado do siô conde era feito com vidro. A vidraçaria num era estreita nem franzina, mais aquele destrambêio da pavonice podia provocá rachadura. Precisava aprendê guardá a língua pru seu próprio divertimento e prudência de proteção. Os dono do mundo é hôme de posse com fortuna qui num é declarada e otra posse maió de fortuna qui fica escondida. Eles compra tudo e todos qui tem preço. E os qui num tem preço eles desacredita. Enxovaia. Acusa sem prová nadica de nada. Fica só no disse num disse. Prová num interessa. Nada interessa. Só eles interessa. Inté fazê desaparecimento. O siô conde humaitá num queria ficá de alvo. Queria tê dito o qui disse e num queria sê ouvido, mais foi. Ficô no prejuízo da língua maió qui o tamanho do céu da boca. O siô humaitá tem bão entendimento qui a prudência é o cuidado primêro no ninho das cobra. Chamô atenção dos bode. Jajá, o castigo ia chegá. Precisava agí pra desmanchá a desconfiança

o magistrado juiz qui escutô sua bisbilhotice deu um passo na sua direção e perguntô cara a cara, tão perto ficô qui o siô humaitá sentiu o gosto do vinho de bode e as gota do gosto qui chuviscô do magistrado juiz, o dominadô das lei usô a voz mais grave qui sabia fazê

E vosmecê, Conde? É a favor do imposto cobrado no comércio do charque e do couro? O Conde Humaitá também concorda que os platinos avançam com rapidez de rapina sobre o nosso comércio? Abra o coração para os seus irmãos!

os bode qui ele representa num vai mudá os hábito nem transformá o mundo, só pensa no mundo dos bode. O siô conde precisava equilibrá e pensá mais rápido qui os bode daquele ajuntamento de maldade. Num havia refúgio seguro. O salão aguardava as palavra do recém chegado. Sentiu qui as vista de espiá e os ouvido de espreitá tava tudo virado pra ele. Num gostava do interrogatório feito nele. Podia sentí uma enorme parede nas costa empurrando. Tinha percebido qui os bode repete os bode, eles num pensa. É tudo decorado. Num era um bode véio, sabia qui festejá a vida e esperá qui ela fique repleta de sabores e saudável precisa tê pensamento plantadô de ideias, mais se o qui o bode pensa num é o qui o bode pensa ele num tá pensando. O bode só decorô as preocupação, os juízo, as ideia, a imaginação, a opinião e os propósito dos otro bode. os bode chefe. Perdeu as lembrança dos próprio pensamento. Isso é uma prisão difícil de vê e creditá qui é o qui é: uma doença grave qui afeta todos os bode e os não-bode, pensá pelo pensamento dos otro bode

Então, Conde? O que nos diz?

direto e sem desvio. Os bode tinha concentrado atenção no siô conde. O pântano dos interesse contrariado dum lado e otro era pegajoso. Grudava como os namoro novo, o tempo todo

Não me entendam mal, mas acredito que tudo se resolve com as doações ficando mais fortes.

desgostô os dois lado, mais fez o contentamento do siô padre. Num tirô a máscara nem colocô o chapéu, mais se curvô aos costume dos bode: bode é correto com bode, pode agí contra as lei, mais num vai contra os bode nunca. Jamais. Os peito estufado dos bode desavolumô. O assunto daquele encontrão secreto voltô pras dormente do trem da doação. Ficô decidido qui, daquele dia pra frente, o obrêro chefe tinha o devê do próprio ofício de fazê o registro dos donativo com o nome dos doadô. Assim, o fingimento de dizê qui deu o qui num deu ou oferecê e num cumprí, ia tê recibo

E quem vai vigiar o obreiro-chefe?

a purugunta agitô os bode

O sinhô Padre é que vai ser, mas não devia ser.

mais agitamento

no meio daquela vozearia babando zanga cismada ou pouco depois, num se sabe bem quando, o siô conde humaitá sumiu. No jeito qui deu, caminhô com os passo de corrida inté a rua dos pecado. Precisava tá num lugá de mais alegria e confiança. Respeitava a casa dos gracejo desavergonhado. Lá num tinha luxo, mais oferecia discrição decência recato. Começava com timidez sua chegada, mais depois pendia pra sem-vergonhice. Conhecia maria cobra. Gostava da prosa e da descuriosidade da muié pecadora num fazê purugunta. Num usava disfarce de sê o qui num era. Ela sabia o qui era, Sou puta! E gosto de ser bem cuidada, lhe serve assim? Não preciso da sua sujeira. Você serve e eu bebo. Não gosto de passar fome, por isso vosmecê paga para sentir meus beijos no pescoço, minhas mãos na nuca e minha língua monótona esparranada em seu corpo. Vosmecê paga e abro minhas entranhas. Não me provoque para começar antes do meu querer. Eu gosto do sabor da vitória. Vosmecê está pronto?

era a última purugunta qui lhe saia da boca antes de aceitá serví de alívio

Peço desculpas, se alguém lhe faltou com respeito.

a moça puta já tinha sido engolida e vomitada, mordida em pequena fatia por piranha. Num se tratava de sê comida, mais como sê comida

Meu Conde, somos um negócio ilegítimo. Por isso, somos uma afronta. Uma imoralidade. Vai chegar o dia em que irão querer algum sinal. Algum aviso na testa: puta!

um lenço no pescoço

o siô conde humaitá sabia. Num precisava puruguntá. Escutô do siô padre qui a vereança da villa já tinha aprontado a nova lei dos bão costume, chamada lei dos pecado podre das carne fraca, Sinhô Conde, as prostitutas terão que usar um lenço amarelo sempre que saírem à rua.

Isso não vai significar nada, Maria Cobra.

Talvez para o sinhô Conde não signifique nada, mas para nós será como uma cicatriz na testa. Uma marca de ferro em brasa.

o siô conde soltô uma gargaiada

Ria se quiser, mas é atrás das minhas entranhas que vosmecê corre.

e foi o qui bastô pru amarelo sumí da moda nas dominguêra. A procissão das muié na moda abandonô o amarelo do comércio. As moça lôra tava correndo perigo de sê usada e largada. Quem gostava do amadurado amarelento passô a desencorajá do gosto. A cô do ôro sumiu das rua, mais teve caso contado e descontado pra maria cobra. Os caso dos marido qui parô com as visita da casa purqui as esposa passô usá o amarelento no quarto nupcial. A primêra razão dada pru uso foi que as vestimenta já tava comprada e num dava pra desperdiçá. Depois veio o costume do gosto e a alegria das bobagem feita na cama. No dizê dos confidente, a cô gemada soltô a imaginação qui tava presa

nas rua dizê grosseria cômica do uso do pano alôrado e das moça lôra virô siná da esperteza dos hôme: macho de verdade precisa comê as preta e as lôra; quanto mais serviço feito meió ficava nos comentário dos cavalhêro valentão. Foi quando maria cobra pintô os cabelo preto com a cô mais alôrada qui achô. Parecia qui o sol brilhava da cabeça da maria cobra. Os bão chefe das família respondeu o atrevimento: as muié lôra com comportamento de família precisava fazê o tingimento dos fiu amarelado e deixá cada fio na cô marrom ou vermêia ou preta. Num podia continuá lôra. O preço das tintura subiu. Lei da oferta e da procura, dizia os comerciante. Lei da usura, desafiava os compradô necessitado. O pecado da tirania do lucro e dos costume do diabo, repetia o siô padre, O demônio não está na cor dos cabelos nem na cor da pele.

o siô padre tinha um qui otro rompante nas ideia qui fugia das ideia do seu tempo, mais era só rompante, num vingava além disso. Acatava qui a rua dos pecado num era lugá prus hôme bão e o amarelo num era cô honrada. Era cô de muié fácil

maria cobra voltô desafiá e pintô as unhas dos pé e mão com amarelo dôrado, depois usava nos lábio a cô brilhante do sol. Os hôme esperava a aparição da maria cobra pra dá as ordem de uso das muié da casa. As muié direita num desacatava. A obediência da lei havia de caí no desuso, mais inté lá num era bão arriscá. A villa tava com abuso de estoque dos pano dôrado. O amarelo foi asilado. Munto mais havia de se passá inté o gemado recuperá o seu prestígio com as siás da villa

pelo visto, as história do pescadô qui terminô na cruiz num tinha munto valô na villa enquanto os dono da razão num tê interesse. Gente qui sabe e pode tudo. Ocê lembra das história da primêra pedra qui num foi atirada? Mais uma história qui a gente boa resolveu esquecê. É assim, mifioneto, esses qui sabe e pode tudo é duro e exigente com as coisa qui incomoda seu conforto. Mais tumbém é tolerante piedoso e mole com as coisa qui faz os endinhêrado ficá mais abastado. Eles nunca vai permití sua alegria se a alegria custá o podê deles sê dono do mundo. As muié direita tinha os mandamento dos hôme pra cumprí. Uma das regra ensinava se protegê da aglomeração desleal das muié qui num era honrada e ajeitada, Sinhá Casta, essa gente mistura poesia com cachaça!

num teve jeito, as puta passô usá o lenço amarelo pra caminhá nas calçada. A crisma pública das puta. Assim, todo mundão bão da villa, gente qui pode tudo e sabe tudo, mais o subalterno do pai fiô e espritu santo, qui já devia sabê da lambança toda, é o dono de tudo qui criô tudo, devia desviá dos perigo qui elas carregava entre as coluna e os passo qui dava. Os hôme da villa queria as muié amarelada, mais num queria os perigo daquelas muié qui trabaia nua. Se trabaia deitada é puta, era o qui se dizia

uma qui otra calcinha rendada num podia espaiá sofrimento nas família de fortuna. Uma veiz qui é puta pra sempre vai sê, nunca vi endireitá. Era otra das coisa qui se dizia. As muié direita num devia fazê visita nem convidá como visita. Num havia propósito de conversá uma com a otra. Elas lá, siás cá

Maria, por sorte e competência do seu talento, os homens das leis são clientes da casa. Experimentam os dois lados.

Sempre trabalhei ilegal. Eles fazem as leis e nós ensinamos o jeito de pular o cercamento. É só fechar uma das vistas.

o siô conde acarinhava com a ponta dos dedos as perna da maria cobra, depois subia receioso inté passá as dobra do meio

Posso lhe perguntar uma curiosidade pessoal?

Pergunte o que seu coração lhe manda perguntar.

A Maria Cobra goza ou se faz de gozada?

a muié qui num cegava pediu mais vinho. O raposa apareceu e saiu. Depois voltô com o poesia, uma garrafa de vinho e um naco de queijo. Largô o prato e a garrafa no chão. Os dois tava rente do piso. Serviu a caneca da maria e do siô conde, num esperô consentimento. Saiu do lugá levando poesia balançando o rabinho. A muié esperô o siô conde lhe alcançá a caneca. Tomô o vinho num só gole. Foi servida de novo. Mordeu o queijo e se ofereceu pru siô conde

Vosmecê sabe como eu gosto de ser usada, mas os homens não se impõem na minha vida. Isso não é um dilema é assim que eu quero. O que mais gosto é saber que o cliente está gozado. Esse é o meu trabalho. Gosto do meu trabalho.

o siô abocanhô otro pedaço e derramô o vinho boca pra dentro

Como vosmecê sabe que eu gosto?

ela lhe deixô vê o sorriso maroto

Vosmecê volta... não volta?


Não devia...

ele lhe deixô vê o seu


a muié continuô o palavrório, Quando duas pessoas estão com a vontade da cama é muito íntimo e romântico. Não é apenas volúpia e comércio. Mas não precisamos achar que é amor. Gosto de saber que os homens ficam atraídos por mim. E as mulheres, também. E quando vale a pena deixo que me digam o que devo fazer. Aprendi que o amor é um fantasma que assombra e some.

otro pequeno gole da caneca, Nunca desejei ser homem: los hombres matan la vida que las mujeres crean, soy más qui hombre y menos que dios.

o siô conde sentiu o gosto do mofo na boca, maria cobra num era uma vigarista exótica. Ela num tinha medo. Ele tinha medo daquela muié e do seu perfume barato, Vosmecê não me respondeu.

O que me deixa arretada é sentir o cabelo do homem na minha pele.

Fico acesso só de pensar.

O siô conde é muito doce no gosto e com as palavras, mas não sabe o que estou pensando. O que eu gosto? Mais vinho. Quero mais vinho!

o siô se virô e pegô na garrafa. Ofereceu pra maria cobra. Ela aceitô o oferecimento assanhado. Levô a boca da garrafa inté quase a garganta e aproveitô o vinho qui se derramava. Provocô uma ânsia de vômito e deixô o vinho lhe escorrê nos canto da boca aberta. Desceu escorrendo no pescoço inté a bacia das intimidade. O hôme colocô a cabeça no caminho do vinho. Tomô e lambeu e gemeu e sorriu

Eu adoro a enxurrada das vontades que vosmecê me provoca.

O siô Conde está gostando de matar sua sede?

É divertido saber o que a moça me serve. Parece que Maria Cobra gosta de ser bebida como vinho.

ela pede que ele mostre seu corpo, Desabotoe um pouco e liberte a pele.

ela é tão muié, ele tão duro

Que delícia querido. Vem querido... minha nossa senhora!

Como a moça gosta?

Ei! Calma! Às vezes, é bom lento e suave. Outras vezes, rápido e forte. Mas precisa ser atencioso.

pouca cousa assusta maria cobra, mais nada a derruba. Quando num sabe se tá subindo ou descendo e a dô aumenta, ela se esforça mais, Eu aguento! Coloque tudo aqui dentro...

sente qui precisa tê uma qui otra afinidade, quando num tem fica com medo de virá um animal. Um buraco sem passado. Ela deseja as coisa qui as esposa diz qui faz com a alma e o coração, O siô Conde precisa dormir. Feche os olhos.

ela já tava fria. Desatisfeita. Desatenta. Sonolenta e longe, Eu quero ser cuidada, mas o siô não vai me cuidar.

o mundo das puta num dá voltas, elas num finge dizê alguma mentira



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Ensaio 64B – 2ª edição 1ª reimpressão


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Ensaio 66B – 2ª edição 1ª reimpressão

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

1984

George Orwell






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A ditaduras totalitárias podem vestir muitas roupas...