terça-feira, 11 de agosto de 2015

Ensaboa mulata, ensaboa

Alvorada - 1974






Alvorada

Cartola



Alvorada lá no morro
Que beleza
Ninguém chora
Não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo é tão lindo
É tão lindo
E a natureza sorrindo
Tingindo, tingindo

A alvorada...

Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando
Meus caminhos tão sem vida
E o que me resta é bem pouco
Ou quase nada, do que ir assim, vagando
Nesta estrada perdida


Composição: Cartola




Divina Dama






Ensaboa Mulata
Cartola e Creusa




Ensaboa

Cartola



Ensaboa mulata, ensaboa
Ensaboa
Tô ensaboando
Ensaboa mulata, ensaboa
Ensaboa
Tô ensaboando
Tô lavando a minha roupa
Lá em casa estão me chamando Dondon
Ensaboa mulata, ensaboa
Ensaboa
Tô ensaboando

Os fio que é meu, que é meu
E que é dela
Rebenta a goela de tanto chorá
O rio tá seco, o sol não vem não
Vortemos pra casa
Chamando Dondon



Composição: Cartola

sábado, 8 de agosto de 2015

Histórias de avoinha: O coveiro da esperança

Ensaio 59B – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar


A luz amarelada das lamparina num mostrava tudo, num deixava vê o acaloramento qui subia dos pé, descia da cabeça, e incendiava a cobertura de carne qui se erguia. Num acoitava tudo. Maria Cobra nua. Dançando. Dando voltas em si mesma. O Raposa assoprando cuspe na gaita. A máquina musical entrava e saia da boca. A Poesia farejando alguma sobra de carinho. Balançando o rabo. Mijando. As patinha pra cima. A barriga latejando. Uma das menina chupando pelo canudinho. O vinho vagabundo qui num acabavaa já descia ardendo como vinagre. A quentura das lamparina. O calô da dança. O fogo da fraqueza no hôme tava no começo. a noite já tava nascida. Maria Cobra nua dando voltas no siô da Hora, o conde babando, o bode amedrontado, a cabeça dos trêis hôme dando voltas em si mesma. A muié abençoando

Meninas, acudam aqui. O nosso amigo bebeu um pouco de vinho e ficou muito sério, alguém pra chupá no canudinho? Vamos meninas, o conde precisa da nossa ajuda. Certo? Venham!

O Conde chegou! O Conde chegou!

O bode oiava na volta, dava pra repará qui ele num tava com conforto no meio daquela movimentação tão grande. O entra e sai das menina num deixava os lugá de espera esquentá.

O conde parecia num se incomodá em sabê quem lhe metia as mão ou chupava o canudinho. Num importava os nome nem a titulação, os dia nublado e as noite de tempestade ficava lá fora. Num pagava pra cuidá, acertava pagamento pra sê cuidado, eu não sou a civilização, entendam, eu sou a esperança da Villa. o conde é um deslumbrado com o podê desmedido, gosta do cegamento egoísta que vive da morte, é o coveiro da esperança. e o bode é um covarde que acredita em arrependimento, reza por milagres. eu sei, um conde inventado em uma Villa hipócrita não acredita em milagres. cuidado, bode, que a calça um dia pode ficar molhada e suja. o conde é um infame. gente como eu é a esperança da civilização contra essa gente imprestável e incompetente. vaidoso, preguiçoso e cheiroso, mas todas as noites coloca o relho sobre a mesa e acaricia o couro manchado com a carne e o sangue. o bode fala do que não conhece, a boa vida. velhos idiotas dentro de pinturas imensas. o bode parece que odeia parte de si mesmo. quando odiamos é mais fácil acreditar na culpa, mesmo que o crime não exista, basta o ódio para nos fazer acreditar no crime. a calça do bode parece que molhou-se. eu mereço a absolvição. o bode não é digno dela. e o conde merece? não acredito em arrependimento, o que está feito, feito está.

Maria Cobra parecia reuní na sua casa de entretimento desviado os hôme de munta impostância na Villa. Usava os cliente com autoridade e prestígio pra num tê incomodação com a falta do bão senso. E os excesso do ôio grande. No ramo da desviação dos costume todo cuidado é pouco, toda invencionice precisa dum tempo pra crescê e madurecê. Tava sempre atenta na investidura novidadêra. Foi dela o invento do serviço de atendimento em casa. Mais só na Villa-cidade, num atendia os chamado do campo. Recebia o pedido do favorecido e despachava o mimo sem alvoroço. O movimento foi fraco no começo dos atendimento em casa, mais depois do costume tomá o lugá do susto e do medo as menina num tinha queixa, sempre tava de movimentação. Teve veiz qui chegava inté faltá moça. A procura tinha munto interesse.

O entra e sai da sua loja de vendê pecado só desanimava durante o dia, inté metade da tarde. Era o seu tempo de separá do mundo sua amizade sossegada e suave pras menina. Escutá as vontade duma e otra, rí das lambarice, avaliá os conhecimento sobre cada hôme da freguesia. Tinha as tarefa com os adoecimento, tomava os cuidado de conhecê as meió abortêra no caso de precisá tirá algum broto disposto a germiná. O único cuidado qui num conseguia fazê era despejá na rua as puta véia. Deixava o serviço pru Raposa. Sabia qui a rua sem proteção era cruel. E matava. Mais tinha um negócio qui num combinava com algum albergue de velhice. Quando a utilidade de uso ficava menó qui a custeza pra morá, num tinha mais jeito, a desocupada era desligada da coleção da casa. Num era mercadoria com defeito, mais com munto tempo de uso.

Uma noite dessas de muito trabalho, em que as meninas estavam todas ocupadas, um jovem com muita boniteza e uma certa estranheza entrou na casa, descuido do Raposa e da Poesia, os dois têm treinamento, sabem que em noite cheia a porta é fechada, a lamparina é apagada, enfim, a casa desacertou o funcionamento. Não havia meninas disponíveis para atender o mancebo, e a senhora? tentei explicá que eu não atava nem desatava as emergências. Escolhia o mérito do cliente para decidir se oferecia os meus serviços. Ou não. Acontece que cedi aos apelos do jovem. E, antes que a invencionice das línguas compridas aumentem o tamanho da história, devo dizer que o mancebo não parecia ser uma boa sela. Foi um ato de caridade. Pensei que poderia me surpreender e cedi, está bem, vou lhe prestar o atendimento básico. qual a sua idade? não respondi de imediato, primêro soltei uma risada como um zumbido, circulei meu corpo em anéis sobre a cauda, estremecia toda. Preparei o bote. Podia sentir o azedume na boca quando lhe respondi, o imbecil veio foder com a minha idade ou comigo? não me leve à mal. vá se foder! Chamei o Raposa pra mostrá o caminho da saída, vá procurá alívio com as mãos ou com as avulsas da rua

É assim mesmo, minha amiga. Os jovens crescem julgando os mais velhos, só nos perdoam depois de velhos, a siá Cobra oiô de susto pru siô da Hora. Ele reconheceu a surpresa da puta véia, acalme-se, minha amiga.

Estou calma, só estranhei a boniteza das palavras do Conde.

Escutei essa frase em uma das minhas andanças com sinhá Casta, se não estou enganado, e provavelmente estou, foi em alguma taberna na Inglaterra, com algum desses enfeminados da poesia.

Eu não quero envelhecer, uma tristeza descolorida se apoderô da siá Cobra

Todos ficamos velhos, minha amiga.

Nem todos.

Mais da casa cheia e dos negócio indo de vento em popa em água calma, ela num reclamava. Os interesse nas moças num parava. Os rendimento de riqueza subindo. Num faltava trabáio nem criatividade nas ideia, se a montanha não pode sair do lugar o jeito é caminhá até a montanha, mas no caso das coisas não serem de um jeito ou outro, não é motivo de preocupação. Maria Cobra dá jeito em tudo

Boa noite, sinhô Conde.

O sinhô da Hora num levô susto com aquele cumprimento da retaguarda, tava acostumado buscá nas lembrança assunto de conversa, num gostava de deixá as coisa no acaso, tinha veiz qui num podia evitá, otras veiz num dava importância, mais o acaso podia qualqué coisa. Virô as vista na direção da mesurice. Reconheceu o delegado degoladô de bode, boas noites, sinhô Delegado. Pelo visto da desarrumação o sinhô está de saída.

Num viu as mão do degoladô, mais podia apostá qui as unha ainda tava com as mancha seca do vinho qui espirrô do bode. Viu a adaga amarrada na cinta do chefe das pulícia. Num deve tê contado pra moça, ela num deve tê perguntado. Ou nem viu. As sombra e a luz é usada pra aprisioná o julgadô na viradela da ilusão em verdade

Acertou, meu caro Conde.

Mas me diga como fez viagem tão rápida, perguntô a purugunta qui lhe ardia a garganta. Precisava investigá a brevidade como o delegado tomô à sua frente, o amigo veio com mais pressa que os passos desse bode.

É simples, meu caro Conde. Uma liteira, dois negros fortes, saudáveis e um relho com unhas longas. Vosmecê deveria experimentar.

Em outra ocasião. Mas espero que o amigo tenha feito bom proveito da casa, tem coisa qui é dita e num se pode disfarçá as intenção qui num é dita. Num é coisa fácil separá a verdade da falsidade quando a encantação da mentira é repetida inté a exaustão.

Sem dúvida, sinhô Conde, parô de falá e virô as vista pra mocinha qui o otro carregava no seu abraço de força. Ergueu uma das mão e com a ponta dos dedos fez um pequeno teatro de fantoche, encenô limpeza de asseio nos dois canto da boca de mocinha, essas moças sabem dar e receber, piscô uma das vista e continuô a encenação, não tenho costume de muita demora, o que é para ser feito tem que ser feito vai ser feito está feito. Era hôme qui completava um serviço a cada veiz. Depois do feito num tinha mais desfeito, virava as costa pra seguí em frente. Num perdia tempo com investigação. Chegava decidido pela moça antes de entrá, agarrava a serviçal qui mais agradava as vista e o faro. Chegava na cela quase junto com o acabamento da missão. Teve veiz qui male-male teve tempo de abrí as calça. Moiô as mão. Fincá mesmo num conseguiu. Saiu sem pagá. Avisô qui num ia pagá um serviço feito com as própria mão. Acostumô com atendimento sem cobrança, a bem da verdade, se tem alguma verdade qui é verdade, ele num se demorava munto. Era rápido nos resultado, gentil com as moça, mais num queria sabê de conversa

Boas noites, sinhô Delegado Chefe das Pulícia e Iluminação Pública, o hôme carregava munta coisa séria nas costa, mandava na PIP da Villa, num era coisa pouca

Boa noite, sinhô Conde. Tenho certeza qui o sinhô fica em boas mãos.

As melhores mãos, sinhô Delegado.

Até qualquer dia. Ou noite.

O Raposa fechô a porta atrás do siô chefe das pulícia, até mais ver amigo bode. Durma bem e leve junto essas mãos exímias para degolar bodes. um homem perigoso, conde. concordo, bode. o chefe da vigilância é um autoritário. um extremista

O Raposa num parava de tocá sua gaita. A Poesia num parava de pulá. Sempre dois passo pra trás.

O siô da Hora num pode evitá um sorriso de fastio do conde e do bode. O vinho depois do encantamento provocava no siô da Hora mais tristeza qui alegria. Um bão acompanhamento da melancolia. Sentiu saudade da siá Casta. Mui respeitosa. Um enfeite de confiança, meus Deus, o que faz um vinho. não foi bem saudade, hein conde? não se meta, bode. e por que o conde precisa de tantas meninas se tem uma mulher tão especial, nobre e respeitosa em casa? não se atreva em continuar. será que ela também não gosta de vinho? cale essa sua maldita boca. aposto que até chupa pelo canudinho! um enfeite não se come é só para olhar. o conde está com medo de se lambuzar todo. o bode parece que gosta de dramas. não gosto de nada, gosto de tudo. não se pode ter tudo, mas é dever do homem tentar enquanto vive, bode.

Ah, esse conde qui acha qui entende tudo das muié e vinho nem dos bode ele sabe mais qui degolá


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Histórias de avoinha: Nua. Sem dó nem piedade.
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Ensaio 60B – 2ª edição 1ª reimpressão

sábado, 1 de agosto de 2015

Mia Couto (Moçambique)

"Há quem tenha medo que o medo acabe"










"Levantado do Chão" de José Saramago

Literatura lida






Documentário "Levantado do Chão"
José Saramago



sexta-feira, 31 de julho de 2015

Histórias de avoinha: Nua. Sem dó nem piedade.

Ensaio 58B – 2ª edição 1ª reimpressão



baitasar


O siô da Hora fungô as venta e aguçô os apetrecho da escutação: cautela, zelo e boa vontade. Sorriu. Eles continuava na vereda certa. Fungô otra veiz, só pra tê certeza do certo, sabia do caminho, mais gostava de praticá aquela fungação do aroma antes das vista alcançá o lugá, esse perfume das menina é danado de bom, elas não perdem nada esperando nossa visita. o conde tem confiança na vontade das moças? sou muito bom em tudo que eu faço, ele num tinha perdido o tino de farejadô, o conde é um cachorro bem treinado. o gato mia, o boi muge. o leão ruge, o menino assovia. vosmecê não é mais um menino. eu sei, bode. o menino cresceu e comprou a escritura de conde. veio junto a obrigação da minha juntura com um bode. vantagem para o conde, eu sou um bode sem marcas. não existem bodes desmarcados. eu sou livre. bobagem, o bode geme com alegria ou tristeza, tanto faz sabê o motivo. não tenho as marcas das correntes nem as canelas pretas, o cabelo é ruim, mas a pelagem é clara, sou um bode livre! calma, bode. não enche! o bode não consegue conversar com mais leveza? menos grotesco? isso, uma conversa menos dramática. vou tentar, mas não prometo nada. muito bom, afinal, quero apresentar ao bode algumas moças diferentes. já sei, moças que não são para o meu bico. nem para o pau. nossa, sinhô Conde, o pesadume das palavra sentou em cima da leveza. só quero ter certeza que o bode entende a gravidade da situação. a gravidade ou a leveza? estamos chegando. maravilha. cuidado com as palavras, não me desrespeite. não se preocupe. dentro da casa e das putas da Maria Cobra não esqueça que o bode também é o conde. não sei se quero ser um conde, um bode se cuida melhor das frescuras. cala a boca, bode. ordem dada, ordem obedecida. melhor assim, eu o trouxe para foder com elas, não com a minha paciência. já sei vou ter nas mãos as moças mais tenras e animadas da Villa. isso bode, muito macias, frescas, inocentes e meninas. meninas? isso não interessa, chegamos. chegamos? quase. oba! comporte-se. está bem. cuidado.

O siô da Hora tava chegando com o conde arrendadô das moça e o seu bode. Faltava cruzá o pelôrinho; a direita se mexeu de novo, foi inté o cabo do rêio. Tudo tava no lugá qui precisava tá. Levô os dedo no bigode, sorriu, ia sê bão aliviá os dedo durante algum castigo. Fungô os chêro de sangue e vinho nos dedo e cruzô aquele cruzêro. Sem oiá pra trás. Sem falá com os pensamento. Dobrô na rua Sete Pecados, largada atravessada entre a rua da Praia e a rua Formosa. Sentiu qui tava em casa. Foi ali, naquelas redondeza, qui o véio da Hora começô o seu comércio de seco e moiado. Quase fez o seu siná de respeito e favorecimento, em nome do pai fiô e santo, amém. Segurô os instinto e num disse as palavra. Deu mais dois passô e voltô, Em Nome do Pai Filho e Santo. Amém. Tanto viu, escutô e fez qui num esperava as bruxa aparecê com alguma desgraça, corria na frente com os pedido de proteção. Voltô os passo pra frente. Continuô o caminho de chegada. Os pensamento mais desaforado brotava, oiô pru lado e recomendô, fique atento, essas moças sempre têm algo novo para ensinar. no meu caso, tudo será novo. o bode nunca... nunca. nunca? nunca! isso é um espanto. o conde sabe fudê com a paciência do bode. desculpe. está bem, chega. fiquei pasmo. chega, conde. o bode só fez sacanagem com as mãos. aham. fique atento e deixe tudo nas mãos das moças. se o conde confia, o bode se entrega. confio, cresci aqui.

O ofertório. Um portal na escuridão. Lugá desimpedido pra poucos andá enquanto o dia durumia. A espessidão da cegueira acobertava as visita. O siô da Hora gostava dali, ele gostava sim. O conde oiô pru otro lado, bode. fale conde. se ninguém lhe disse, eu lhe digo, não tenha medo do entusiasmo da vida com as meninas, as confusões, as mentiras, tudo isso se vive com atrevimento desavergonhado. o conde não tem medo das denúncias? nem das anônimas, meu caro bode. sério? nada é para sempre, mas nem tudo se acaba. tudo acaba, conde. bobagem, bode, sempre haverá no mundo: condes, bodes, cordeiros e negros. no resumo do conde tem um abismo de gente que ficou de fora. eu sei, um contingente sem graça. um bode tem o mesmo valor que um cordeiro? não, jamais. o conde pode explicar melhor essa sua presunção de bodes e cordeiros? escute com atenção. estou escutando. um cordeiro não precisa rezar, mesmo assim, ele reza por si e pelos outros; o bode precisa rezar, mesmo assim, ele não reza. o bode é egoísta? ele precisa ser ensinado a ser um cordeiro, depois que aprende ele gosta de rezar, e ele reza: Peço que o Sinhô me conceda a graça de viver sem remorsos, sem pecados e amém. só isso? tem vez que ele é atendido no pedido do remorso, mas nunca fica sem pecado, ele não consegue evitar, os dedo do siô da Hora tava no bigode, sorria, sabia qui tinha proteção

Chegamos!

A lamparina avermeiada anunciava o lugá. Esfregô as mão, queria entrá sem batê. Nunca deixô sê anunciado, gostava de entrá desavisado. Os óio brilhava com aquela intimidade sem pudô, esse é o portal de passagem para um mundo de sem-vergonhice, entre. primeiro o conde. o bode está no limiar de um mundo com encantos e atrevimentos. me surpreenda, conde. estais, pronto? até para o fim do mundo, mais o bode num tava, atrás da porta tava a nudez e o atrevimento das moça qui a valentia da mocidade provoca pra se mostrá. O siô da Hora entrô

Meninas, chegou o vosso maior benfeitor!

Meu Deus, meninas! O Conde Humaitá! O Conde Humaitá!

O anúncio colocô a casa e a Maria Cobra em agitação de tumulto. Ele gostava de gastá munto e dá mais do qui recebia. Ela fazia questão de anunciá a titulação da nobreza do muriquinho piquinino, assim dava mais respeito pru negócio da casa e animava as menina. Depois recomendava sorrindo, meninas, o conde precisa ser cuidado com muita atenção, o nosso visitante é da nobreza rica.

O siô da Hora fingia qui o divertimento do gracejo incomodava. Ele se parecia com a vira-lata Poesia, a cadela da casa. Esquecida num canto. Sem uso. Atirada no chão com as patinha erguida, esperando algum agrado de meiguice. Mostrava desavergonhada sua barriga de pelos e tetinhas. Cansava de esperá os afago qui num vinha ela saia do canto. Rondava com o Raposa os otro canto da casa. Dois passo atrás. Ela, veiz e otra, recebia um agrado aqui otro ali, tudo com munta leveza. Mesmo assim, fazia fiasco. Churumingava, se mijava toda. Moiava o chão inté encharcá a terra. Depois durumia. Num parecia envergonhada ou cansada. Deitava na terra moiada

As moças e a dona da casa sempre com seus exageros.

Depois do fingimento do siô da Hora, Maria Cobra fazia gesto de seriedade, parecia incomodada. Sacudia a cabeça como se fosse fazê algum discurso desimportante na tribuna dos representante. Mais guardava silêncio. O corpo magro gingava dum lado e otro, as palavra num caia da boca. Era quando o tempo das coisa acontecida e num acontecida se misturava. Deu uma volta em si mesma, depois caminhô na direção do siô da Hora. O hôme num deu um passo de volta. Ficô onde tava. Num mexeu os pé, fincado na terra ficô, o sinhô Conde parado assim está parecendo um homem de milho, chegô mais um bocadinho perto, pareceu qui montava pra colhê o milho maduro. Num subiu. Num era hora ainda, parô no instante devido, aveludô a voz qui deixô saí devagá e piquinina, tudo para deixar o sinhô Conde com o contentamento adocicado, quer se servir?

O siô da Hora sorriu, levô os dedo no bigode, deu um passo piquinino pra frente e deitô ao lado da Poesia, as costa no chão da terra, as patona erguida, a língua pra fora, os óio abrindo e fechando. A respiração pareceu tê parado, louco qui as mão das moça entreabrisse as calça, doido pra se mijá, Maria Cobra me acostuma muito mal com seus mimos, que não vou mais encontrar em qualquer lugar. eu não entendo o conde. o que o bode não entende? o conde está louco que as moças lhe coloquem as mãos, mas fica brincando de gato e rato. isso se chama fantasia, bode. fantasia. isso mesmo, imaginação mais assombração e vosmecê tem a ilusão do faz de conta. por que o conde não coloca a mão no bolso, paga o serviço da moça que mais lhe agrada, faz o que veio fazer e vai embora? quando quero serviço rápido, fico na Humaitá.

Maria Cobra tumbém sorriu, o siô da Hora tava todo na sua disposição. Ela piscô as vista e fez um riso animado de revelação, ela sabia usá as mão e a boca, o sinhô Conde Humaitá merece o gosto do doce na boca. O conde fechô as vista, mais o bode espiava os modo daquela muié maluca. A siá dona da casa, das moça e controladora dos lucro, ofereceu uma tábua de cortá carne com pedaço de rapadura do melado de cana, o sinhô Conde quer apreciar?

Adoro caldo de cana e os doces do melado, faço gosto de lambuzar o bigode.

Junto com a rapadura, ela mostrô as carne qui male-male o decote cobria. Era generosa com as assombração de cada um dos paroquiano. Sabia escutá e se oferecê, isso é apenas para começá a tiração do azedume da rua, vamos prepará o sinhô Conde para os quitutes da casa.

O siô da Hora pediu o vinho da casa, tragam o vinho! muito vinho, tudo sem desgrudá as vista do decote se derramando. Assustando o conde. Descabaçando o bode. O siô da Hora descabeçando num queria elogiá antes do bode tocá as mão, num queria parecê um conde afoito nem queria perdê das vista os bico piquinino rosado. Adorava aquilo tudo.

O Raposa, dono da cadela Poesia qui ele recoieu das rua do mesmo jeito qui recoieu uma ou otra minina, chegô com o vinho. Tocava sua gaita de boca pra Poesia qui pulava no arredó, depois fungava e lambia nos pé descalço do tocadô. Colocô o garrafão no chão. Nenhuma palavra. As coisa qui tinha pra dizê saia da gaita na boca. O siô da Hora colocô o vinho num caneco de lata, farejô com exagero e depois oiô o Raposa, está aprovado! o quê está aprovado? o gosto e o perfume do vinho. e o conde sabe escolher um bom vinho? claro que sei. sabe bem menos do que pensa que sabe. bobagem, se não cheira mal e o gosto não está azedo, está aprovado, entregô o vinho pru Raposa e ordenô uma rodada para todos na casa. Puxô com a mão esquerda a garrafa qui caregava no bolso da casaca, abra esse, também! e sirva a mais bela mulher da casa, Maria Cobra.

O vinho da degola deu sua pequena contribuição de requinte e assombração entre as puta daquela noite. A casa tava cheia, quando acabar o vinho vosmecê pode abrir outro, depois outro, e se precisar, não me peça permissão, abra outro. O Raposa servia os cliente da casa, tocava sua gaita de boca e avisava, cortesia do Conde Humaitá. Só num serviu vinho nos quarto. Tinha ordem de num entrá se num tivesse precisão. O estabelecimento da Maria Cobra tinha duas parte. Uma bem-vista pelos visitante, otra mais reservada pru causo do visitante querê fazê uso da consumação. A parte da frente Maria Cobra gostava de chamá loja das venda, na continuação vinha os quarto. O lugá de aproveitamento das mercadoria tinha uma pequena cela sem janela ao lado da otra, cada uma das cela tinha um catre com vela, botija d’água e uma caneca de lata. Ali, num era permitido forçá as menina fazê o qui num queria. A punição era a expulsão da casa e o destino sem proteção de procurá os serviço de rua furtivo, clandestino e perigoso. As menina tumbém corria o risco de sê retirada da lida. Era mais raro ainda, mais podia acontecê no caso de contrabando das regalia recebida.

Poesia seguia o Raposa aos pulo, sempre dois passo atrás, latindo e abanando o rabo piquinino. Num tinha cô a pelagem da vira-lata, parecia uma camaleoa se adaptando a própria sobrevivência, tanto podia sê uma coisa boa como um mal-está no instante depois, ou um mistério sem segredo, ou um motivo pra desistí, ou um negócio parado, ou um pensamento sem cabeça, um cacareco no porão. Uns achava qui ela escolhia, otros afirmava qui era os óio dos qui via. Tinha veiz qui ela latia, mais num parecia qui latia

Esse bicho tem mais devoção que os meus negros, tem mais faro para reconhecer quem cuida da sua comida que esses escravos mal-agradecidos. Ela nunca abandona seu dono nem tenta fugir. Sabe o seu lugar na casa que a abriga e não a deixa dormir ao relento. É grata pela caridade do prato de comida, a caridade de uma cama, a caridade do seu cocho com água. Adoraria ver os rabos dos meus negros balançando de um lado e outro.

E por falar em rabos balançando vamos fazê um brinde à Poesia!

O siô da Hora se adiantô em segurá seu caneco de lata, um brinde ao rabo da Poesia! chega dessa conversa dura, conde. é o vinho, bode. parece que ele endureceu as palavra e amoleceu a língua. essa é a virtude do vinho

Viva à Poesia!

Maria Cobra tava em pé sem o vestido qui ficô nos pé. O caneco de vinho numa das mão. Nua. Descascada. A pelagem escovada. Pronta pra escaramuça. Num tinha música nem assovio, só tinha ela balançando. Nua. Sem dó nem piedade. Abria e fechava ela mesma. Gostava de sê vista. O Raposa recomeçô tocá. A Poesia recomeçô pulá. Só os três tava vivo.




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Histórias de avoinha: em nome do Pai Filho e do Santo. amém
Ensaio 57B – 2ª edição 1ª reimpressão


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quinta-feira, 30 de julho de 2015

XXIII – Mitologia dos Orixás: Iemanjá [220] [221]

Iemanjá



Reginaldo Prandi



Iemanjá ajuda Olodumare na criação do mundo


Olodumare-Olofim vivia só no Infinito, cercado apenas de fogo, chamas e vapores, onde quase nem podia caminhar. Cansado desse seu universo tenebroso, cansado de não ter com quem falar, cansado de não ter com quem brigar, decidiu pôr fim àquela situação. Libertou as suas forças e a violência delas fez jorrar uma tormenta de águas.

As águas debateram-se com rochas que nasciam e abriram no chão profundas e grandes cavidades. A água encheu fendas ocas, fazendo-se os mares e oceanos, em cujas profundezas Olocum foi habitar.

Do que sobrou da inundação se fez a terra.

Na superfície do mar, junto à terra, ali tomou seu reino Iemanjá, com suas algas e estrelas-do-mar, peixes, corais, conchas, madrepérolas. ali nasceu Iemanjá em prata e azul, coroada pelo arco-íris Oxumarê.

Olodumare e Iemanjá, a mãe dos orixás, dominaram o fogo no fundo da Terra e o entregaram ao poder de Aganju, o mestre dos vulcões, por onde ainda respira o fogo aprisionado. O fogo que se consumia na superfície do mundo eles apagaram e com suas cinzas Orixá Ocô fertilizou os campos, propiciando o nascimento das ervas, frutos, árvores, bosques, florestas, que foram dados aos cuidados de Ossaim.

Nos lugares onde as cinzas foram escassas, nasceram os pântanos e nos pântanos, a peste, que foi doada pela mãe dos orixás ao filho Omulu.

Iemanjá encantou-se com a Terra e a enfeitou com rios, cascatas e lagoas. Assim surgiu Oxum, dona das águas doces.

Quando tudo estava feito e cada natureza se encontrava na posse de um dos filhos de Iemanjá, Obatalá, respondendo diretamente às ordens de Olorum, criou o ser humano. E o ser humano povoou a Terra.

E os orixás pelos humanos foram celebrados.

[220]



Iemanjá é violentada pelo filho e dá à luz os orixás


Da união entre Obatalá, o Céu, e Odudua, a Terra, nasceram Aganju, a Terra Firme, e Iemanjá, as Águas. Desposando seu irmão Aganju, Iemanjá deu à luz Orungã.

Orungã nutriu pela mãe incestuoso amor.

Um dia, aproveitando-se da ausência do pai, Orungã raptou e violou Iemanjá. Aflita e entregue a total desespero, Iemanjá desprendeu-se dos braços do filho incestuoso e fugiu.

Perseguiu-a Orungã.

Quando ele estava prestes a apanhá-la, Iemanjá caiu desfalecida e cresceu-lhe desmesuradamente o corpo, como se suas formas se transformassem em vales, montes, serras. de seus seios enormes como duas montanhas nasceram dois rios, que adiante se reuniram numa só lagoa, originando adiante o mar. O ventre descomunal de Iemanjá se rompeu e dele nasceram os orixás:

Dadá, deusa dos vegetais,

Xangô, deus do trovão,

Ogum, deus do ferro e da guerra,

Olocum, divindade do mar,

Olossá, deusa dos lagos,

Oiá, deusa do rio Níger,

Oxum, deusa do rio Oxum,

Obá, deusa do rio Obá,

Ocô, orixá da agricultura,

Oxóssi, orixá dos caçadores,

Oquê, deus das montanhas,

Ajê Xalugá, orixá da saúde,

Xapanã, deus da varíola,

Orum, o Sol,

Oxu, a Lua.

E outros e mais outros nasceram do ventre violado de Iemanjá. E por fim nasceu Exu, o mensageiro. Cada filho de Iemanjá tem sua história, cada um tem seus poderes.

[221]



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Leia também:

XXII – Mitologia dos Orixás: Ibejis [213] [214]

XXIV – Mitologia dos Orixás: Olocum [238] [239]


Reginaldo Prandi, paulista de Potirendaba e professor titular de sociologia da Universidade de São Paulo, é autor de três dezenas de livros. Pela editora Hucitec publicou Os candomblés de São Paulo, pela Edusp, Um sopro do Espírito, e pela Cosac Naify, Os príncipes do destino. Dele, a Companhia das Letras publicou também Segredos guardados: orixás na alma brasileira; Morte nos búzios; Ifá, o Adivinho; Xangô, o Trovão; Oxumarê, o Arco-Íris; Contos e lendas afro-brasileiros: a criação do mundo; Minha querida assombração; Jogo de escolhas e Feliz Aniversário.



Prandi, Reginaldo. Mitologia dos Orixás / Reginaldo Prandi; ilustrações de Pedro Rafael. - São Paulo: Companhia das Letras, 2001.