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sábado, 31 de agosto de 2024

Ensaio - precisamos recomeçar: 06

primeiro dia

baitasar

o que mais escutamos nesse dia de reencontros, Precisamos recomeçar, eu sei, todos sabemos, os olhos na minha volta sabem, nos reconhecemos na escola, talvez já seja suficiente, talvez não, como cartões postais minguados, retratos distraídos de um pesadelo, ainda distantes uns dos outros, lembro que chorei prantos ocultos, quase morto, escapando em um barco anônimo, deixando para trás fotografias, livros, chinelos e cuecas

flutuava sobre as ruas, esquinas sumiram, Abaixa a cabeça! Cuidado com os fios, a dor da separação, muitos pedidos de socorro, nenhum aviso, Rompeu o dique! Saiam das suas casas!

canalhas derrubam árvores, velhacos anunciam promessas infames e continuam com suas histórias de mentiras e privilégios, várzeas aterradas, portas e comportas de ferro mal cuidadas, arrombadas, estradas arrancadas, outros enganadores se juntam e se anunciam diferentes, sinto a perturbação entre nós, até quando teremos medo das marias que anunciam um outro mundo possível, mais amoroso e cuidado, tenho pena dos achatados e perdidos na ânsia de sobreviver com suas salvaguardas e regalias, hesitantes em uma outra vida possível, então, seguem acreditando em mais mentiras, dia após dia, e nas ruas empilhadas com suas casas vazias e frias

a escola talvez rejunte nas pessoas os desejos

Como recomeçar, nos perguntamos, Precisamos parar de anunciar mentiras que sabemos que são mentiras bem cuidadas e protegidas pela ganância, respondo, silêncio, a conversa parece que não vai no rumo do esquecimento que muitos ainda querem, olho meu colega nos olhos, quase sussurro, E o muro, pergunto, O que tem o muro, pergunta sussurrando o cuidador de mentiras desatento, Vão continuar querendo derrubar o muro em nome do futuro, pergunto, mais silêncio, tenho medo desse silêncio complacente e arrogante ou ignorante, mas prefiro enfrentá-lo a ficar de joelhos, Um vexame... você não acha, insisto, Que vexame, pergunta murmurando, Pense, respondo

vou para um lugar estratégico, despercebido dos olhares, mas em prontidão permanente, todos aqui somos vítimas, não podemos ir embora e esquecer, estamos desenganados, condenados a carregar por muito tempo o medo das águas cobrindo nossas vidas

recebemos as boas-vindas, conversamos sobre esse retorno, as muitas coisas que nos aconteceram, um lugar que perdemos para as águas embarradas, encharcando até o topo com o aroma fedorento dos escombros, hesitamos, incertos no futuro, muitos não retornaram, outros não retornarão

E quando as águas voltarem... estaremos preparados, é a pergunta que todos se fazem

sinto meus olhos vermelhos, lagrimando, gostamos desta escola acolhedora, destes lugares em que crescemos, muitos nasceram nestas casas desmanteladas, o tempo das parteiras

estamos nos derramando sem enganação, precisamos da escola em pé, não é um faz-de-conta, olho para os lados, ninguém desatento ou hostil, gostamos destas paredes e das vidas acolhedoras, os abraços, os jogos, as brincadeiras, a cantoria da gincana, a festa junina, o dia das mães, o dia dos pais, a festa de natal, a páscoa, aprender e ensinar, educar nos educando, deve ser por isso que retornamos

construí relações amigáveis com alunos e alunas, colegas, funcionários e funcionárias, gosto de estar aqui, não tenho problemas com a garotada, e os que surgem não me assustam, pelo contrário, me fazem repensar meus caminhos

tiro o boné, coço a cabeça, olhos à volta novamente, sem dúvida não estamos alegres, estamos diferentes

Estamos de volta!, anuncia a diretora

gritos e assobios ensurdecem no ginásio, também dou minha contribuição, lanço o boné para o alto junto com todos os outros

corro e pulo, junto o boné caído no chão

sim, vamos conseguir ficar alegres, logo ali, mais na frente, e quem sabe, esses dias intermináveis não venham se repetir, o futuro dirá, por enquanto seguimos desconfiados, aquela incessante dança das águas derramadas sobre nós escreveu uma nova história nas páginas e nas vidas da cidade

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Ensaio - precisamos recomeçar: 06

sábado, 24 de agosto de 2024

Ensaio - a porta sempre aberta: 05

primeiro dia

baitasar

entro no prédio, caminho ansioso até a sala dos professores, chão e paredes lavadas – cheiro de desinfetantes e tinta, as esquadrias das janelas, portas e teto foram pintadas, lousas quadro verde novas –, nuas, procuro as lindas gravuras que sempre nos esperam nos inícios de ano, acompanham nossas rotinas diárias, e muitas vezes, passam despercebidas nos corredores usados como um grande caminho de exposições, não estão nas paredes

as paredes estão desguarnecidas, descalças

chego 

a porta está aberta

abraços e sorrisos, meus movimento giram entre olhares e suspiros, está abafado aqui dentro, não há tempo para pensar, as brincadeiras não são as mesmas, não ríamos desbragadamente, estamos sóbrios e recatados, de volta ao lar para muitos, para mim, estou de volta ao meu lugar de trabalho, Colegas, vamos para o ginásio, a vice-diretora faz o seu convite parada na porta aberta, o burburinho não para, diminui um pouquinho, muitas histórias sendo contadas, medos, angústias e esperança para serem compartilhadas

caminhamos para o ginásio, entre a tinta fresca, o burburinho e a aglomeração de pais, alunos, funcionários e funcionárias, sem pressa, a diretora quer nos mostrar, anunciar toda a tribo envolvida na perspectiva de ensinar

caminhamos pela passarela desfilando sorrisos e olhares

não tem jeito, minha curiosidade faz meu olhar girar na minha volta, procuro rostos e olhares conhecidos, agora mais crescidos, com alívio foi encontrando os mesmos sorrisos, a alegria não é a mesma, algumas novidades me olham e aguçam minha curiosidade, deixo para depois, teremos muito tempo para encontros e reencontros na rotina de trabalhar antes de chegar ao trabalho para ter trabalho para fazer no trabalho, e depois do trabalho, trabalhar mais um pouco corrigindo, trinta ou mais vezes, o trabalho feito durante o trabalho, pois não se tem tempo de corrigir no trabalho porque se está trabalhando

não é resignação nem reclamação, apenas constatação, não deixamos o trabalho de ensinar nem em casa, por vezes, ficamos impotentes diante das nossas dores

essa porta está sempre aberta

sábado, 17 de agosto de 2024

Ensaio - a vida não é feita de ilusão: 04

primeiro dia

baitasar

a cândida deu um oi frio e rápido, passou direto, assim como apareceu do nada, seguiu em frente, não olhou, não viu meus olhos quentes e apaixonados, atravessou a cortina da sombra esparramada pelo pátio, continuei parado no cais do porto, o lugar seguro para os afogados, olhei para os lados, pensei, Vamos dar o fora daqui, não disse, não disse, não disse, ia continuar sentado esperando neste caminho sem fim, incapaz de acabar com qualquer esperança, o sol molhava meu rosto e eu sem nada, sem nenhuma palavra sequer, continuaria ali sentado pela vida inteira, babando, queimando, não sabia o que fazer, queria ser visto, tudo o que eu podia ver à minha frente era aquela lindinha, como deve ser se sentir gostosa e desejada, não sei como é se sentir assim, eu gostaria de saber o que ela pensa

o contrário de como me sinto, alguém que não existe, feio e recusável, não desperto apetência nenhuma, um resto de nenhuma esperança que o relógio nunca desperta, adormecido, um caso clássico de negligência da natureza, os deuses da beleza estavam bêbados na minha vez, meu desenho saiu grande, torto e feio, não gostavam de fato de mim, nenhuma chance de viver aquilo que mais quero, abandonar essa dor de ser invisível

tempos difíceis nestes dias que começam e não terminam

a cândida também está no terceiro ano do médio, no topo das meninas mais respeitadas da escola, no meu jeito de ver não tem para ninguém, é a mais lindinha e a mais poderosa com sua calça colada, tipo entrou e não sai mais, um perigo, ela parece que está na maldade, eu preciso saber como vai essa lindinha, gosto mais dela que de mim mesmo, não sei se isso é ruim

sigo olhando seu desfile, babando suas dobras e cruzamentos, sua lindeza, tudo se passa muito lentamente, penso o que seria bom para mim num domingo à tarde, meus olhos tristonhos desejando aquele paraíso, enfio as mãos nos bolsos vazios, é um cansaço estar sempre com os bolsos vazios, não tem explicação não ter coragem para falar do meu desejo pelo calor do seu corpo, esquecer tudo e ficar em paz num domingo à tarde

mais adiante, ela encontra outras meninas da turma, estão reunidas tagarelando, fazem o tipo se contorcendo, balançando a esmo, minhas malditas orelhas não escutam, não tem importância, fico vigiando seus movimentos pelo canto dos olhos, as mãos nos bolsos me alisando, me sinto um idiota envergonhado, como seria bom ficar com você

continuamos sentados, apenas olhando, realmente ela me parece a melhor, acho que isso é amor, te fazer companhia, falam alto, não entendo, acho que estão fingindo que não nos viram, como os guris elas fazem planos secretos para continuarem juntas, não são nada discretas, pensei em quantas estariam, daqui alguns anos, casadas, donas de casa, mães, divorciadas, mal amadas, sozinhas, esperando inutilmente num quarto vazio e frio, qual delas fingiria estar excitada num rio falso de vertigens, assim acontecia apenas porque teriam mais a perder que nós homens ou tinham sido ensinadas dessa maneira, não sei, quem sabe menos das coisas sabe muito mais que eu, mas conte sempre comigo

olho para gustavo e dalton, pensei em parar de fazer perguntas, gostaria que tivéssemos bastante dinheiro, em vez de caminhar em ruas esburacadas, continuava em silêncio, sentados, me voltei e anunciei, Sexo é um negócio, não é esporte, os dois me olharam em silêncio, o tempo parou esperando a continuação, mas não tem continuação, sei lá, parado assim eu sofro, fico imprudente com as palavras, talvez leviano, foi uma frase estúpida, talvez não

estávamos surpresos, eu também me surpreenderia, coisas da vida, enfim disse, Acho que com dinheiro podemos viver a vida que queremos, Tu é um idiota, Eu sei, eu sei... não me dou valor, mas se estivessem me enfiando dinheiro nos bolsos, essa cara feia, que tem uma vida inteira pra viver, não ficaria sozinha, encontraria as mais lindas companhias, as garotas me olharia com cobiça ao passar, encarando, sussurrando minha qualidades.

Tu ainda quer ser escritor?

Sim.

E quem vai enfiar dinheiro nesses bolsos vazios?

para o mundo inteiro era indiferente o que se passava aqui dentro de mim, sem recordações, nada demais, nada do que quero vai sobreviver nem a lembrança das minhas mãos me aquecendo, apenas meu pai e seus sonhos, Eu devia ter acreditado em meu pai.

dalton não parecia com paciência para me oferecer um funeral decente, Mas afinal, o que seu pai tem com isso tudo?

pensei, Vou dizer simplesmente dos sonhos de papai e dos meus medos, mas deixei que minha autoestima literária contasse uma pequena história de verdades e mentiras, É o seguinte, Dalton, para papai todo jogador de futebol tem uma vida de dinheirama, muita fortuna e fartura de garotas. Desde que dei meus primeiros passos, ele sonhava em me ver jogando num grande estádio, vestindo a camisa da seleção brasileira. Como muitos pais apaixonados pelo futebol, ele me imaginava driblando adversários, levantando a torcida com minhas jogadas enfeitiçadas, provocativas, fazendo o adversário sangrar com meus gols, levantando troféus. E assim, sábado após sábado, papai se tornava o meu motorista oficial, sempre animado e disposto a incentivar o seu pequeno atleta. A rotina dos sábados era intensa, cheguei quase a acreditar, mas no fundo, eu sabia que não ia ser daquele jeito nem do meu jeito nem de jeito nenhum, ainda não compreendia, apenas desconfiava que mostarda barata e aguada não faz um bom sanduíche.

continuávamos parados e sentados, acne e espinhas me marcando, orelhas redondas flutuando ao vento, Logo pela manhã, papai iniciava os preparativos. Ajeitava minha mochila, enquanto eu me amarrava nas chuteiras, as mesmas que ele havia escolhido com tanta esperança. A caminho do campo, ele contava histórias de grandes jogadores, partidas emocionantes e episódios heroicos de superação. Eu escutava encantado, atraído por cada palavra, enquanto sonhava acordado os sonhos de meu pai com os aplausos e fritos animados da torcida. Nessas histórias, não existiam as vaias, derrotas, fracassos, seus heróis eram invencíveis.

talvez, um dos três se tornasse um caminhoneiro invencível sentado na boleia do caminhão, no para-choque o nome dela, o coração no para-brisa cheio de desejo, No campo, papai observava cada um dos meus movimentos com atenção e cuidado, sentado à beira do gramado. Acompanhava o treino torcendo e vibrando a cada chute meu no gol. O calor do sol refletia em seu rosto, mas nada se comparava a emoção dele me ver correndo, me esforçando, mudando de direção como se o campo fosse uma pista de dança. A paixão que eu sentia era contagiante, ele me perguntava se estava colocando muita pressão sobre meus ombros e pés, vivia mais ansioso que eu. Afinal, o sonho era dele, eu tinha outros interesses nada parecidos com futebol. Em momentos de dúvida, papai se lembrava das manhãs em que vovô o levava aos campos, o seu desejo de ser atleta e a frustração de não ter conseguido. Agora, nem quero lembrar se era isso que queria pra mim.

os dois continuavam em silêncio e para minha surpresa estavam atentos, mistérios que se vão e vêm de longe, impotentes feridas, o tempo era ao mesmo tempo muito lento e muito rápido, eles podiam levantar e sair para viver as suas vidas e esquecer, mas estavam ao meu lado, coisas da vida, Sabia que a resposta não viria fácil. No final do treino, enquanto eu corria em sua direção com um sorriso no rosto, eu sentia meu coração aquecer. Ali estava a razão dos meus esforços, a alegria pura de um menino que ainda não sabia da pressão do mundo dos adultos, só queria o meu pai ao meu lado pra sempre, independente do caminho escolhido, fecho os olhos de saudade, ele sempre foi mais importante que o futebol, eu sentia que ele sabia tudo. Não se dedicava só em me levar, mas também observava meus interesses. Jogar bola era apenas parte do que eu gostava. Até que descobri a biblioteca da escola. Uma bruma leve me entrou de leve, caminhava pela biblioteca, brincando, olhando e cheirando os livros, sussurrando suas histórias, lentamente fui aprendendo contar e escrever histórias. Ele percebeu que meu futuro não era um caminho a ser traçado, mas uma viagem a ser explorada.

levantei, meus únicos dois ouvintes continuavam sentados, em silêncio, surpreendidos, a nossa conversa animada se perdera, voltei a observar as meninas, o pensamento em mim era uma navalha, um feioso covarde com um pai apoiador que jogou fora a oportunidade da dinheirama sem desejo de jogar futebol

a vida não é feita de ilusão


sábado, 10 de agosto de 2024

Ensaio - a dois passos do céu, as pernas tremendo: 03

primeiro dia

baitasar

E se chover... a terra voltará a ficar mole? E o dique vai suportar? Desta vez, não suportou. E as bombas vão continuar as mesmas? O desmatamento vai continuar livre e solto? Vamos continuar acreditando nas mesmas mentiras? A falta de manutenção não é crime? Vão continuar com a vontade insaciável de derrubar o muro? Vamos seguir resmungando sem pensar? E os oportunistas de plantão?

Não existem respostas fáceis, meu filho, Me sinto péssimo, mãe, Todos estamos nos sentindo assim, O que fazer, então, É preciso pensar, Esses tipos de sempre, Talvez sim, talvez não, quem sabe... querem que pensemos assim, Pai, estou perdido, só sei o que não quero,  Isso já é um começo, meu filho, Vamos dormir, meu bem.

amanheceu mais um dia cinzento

e o dalton, aluno do terceiro ano do médio, chega se anunciando, Ehaaí, Gustavo, os dois se cumprimentam, são meus colegas de turma, jamais me adularam, sempre os mesmos juntos, nos mesmos lugares, tudo normal, estávamos de volta, mas não éramos mais os mesmos

o aperto das mãos anuncia aquele pequeno encontro de atitude, um soco encurtado e frágil de mútuo consentimento, o ritual da tribo permanecia, me pergunto sobre o que ainda continuava

gente, eu sei que não parece, mas sou o mais moço dos três, também sou grande e o mais feio, aquele cara em que as garotas não se deitam no mesmo lençol, tenho quinze anos, às vezes, me sinto fora do lugar e do tempo, muito triste, sei lá, sinto um frio como se tivesse sessenta, e viajando no tempo com esses quinze anos, é isso, têm momentos em que estou sonhando fora do lugar para mais, outras vezes grito para menos, nem sempre faço o meu melhor

sentamos no mesmo banco de cimento desde o primeiro dia do primeiro ano, eles com sete, eu com seis anos, é bastante tempo observando o futuro duvidoso, imaginando loucuras e mascando chicles sem fazer nada, sobrevivendo aos alinhamentos pedagógicos – como sei sobre esses alinhamentos pedagógicos? sou filho de professores – com suas chamadas, avaliações, conselhos, gritos temáticos, risos recortados e avisos urgentes, para ser sincero, só não suporto professor sem paixão que não se arrisca fora do script, acomodado, medroso, gosto daqueles que nos levam para ver o sol se esconder, apreciar estrelas, complicam menos, enchem meu coração

Como vai tudo, Mauro?

senti vontade de chorar e dizer adeus, queria voltar, mas ainda não estou pronto, dá pra imaginar o medo da chuva no silêncio da noite, Fique calado, pensei, desatento a resposta pro dalton

Uma merda...

e esse sol que não vem, tudo ainda é frio, muito frio, pouco sol, os dias não estão fáceis, a vida devia ser melhor, o mau cheiro se espalhando, montanhas de entulho 

Sei... observamos as meninas e marcamos os chicles com dentes brancos e jovens, mordemos e vigiamos, os cabelos estão diferentes, não usamos mais o cabelo arrepiado e empastado de gel, tudo mais simples e curto, uma sequência dégradée contínua da altura do corte, suas intensidades formando uma transição suave entre as partes, bem normal, não é nada original, Fodam-se! Estivemos dois passos do inferno... estou só esperando pela noite longa pra poder chorar por mim e por nós, os afogados.

antes do aguaceiro usávamos calças folgadas, um número acima, nesta nova versão, estamos ajustados às calças desocupadas e doadas, a tempestade ainda não estava distante o suficiente, o medo deixa luzes acessas

eu, com o meu metro e noventa... por aí, parecia mais velho naquela pequena tribo, continuava com espinhas, cravos e a cara indecifrável, um nojo, pelo menos, eu me sentia nojento, por certo, os demais sentiam o mesmo, mas enfim, julgava ser uma troca justa, já que aturava suas súplicas de ajuda nas provas, tudo oportuno e proveitoso, algumas coisas não mudam

faço o estilo altíssimo magro, feio e fraco, acho que já disse isso, tudo bem repetir, as mentiras se repetem mais que as verdades, sou aquele sujeito que nenhuma garota vai fazer nada pra chamar minha atenção, eles, ao contrário, têm o charme fortão, músculos saltando, à vista de todas, muitos chicles e nem mesmo precisam dizer nada pra agradar

gustavo e dalton observam tudo por trás dos óculos ray-ban, só usam acessórios de marca importada às escondidas pela fronteira paraguaia, dignos representantes dos predadores desatinados, às vezes, por ser cedo, outras vezes, por ser tarde demais, ficamos sozinhos no banco de cimento, gustavo com armação dourada e o dalton com seus óculos de armação vermelha como brasas de cigarro, são garotões bonitos, ninguém fingirá dizer isso pra mim, não dou motivo pra tanto, me aproveito deles

nossas caras são todas conhecidas, o medo nelas é a novidade

sujeitos como eu, independente do que aconteça, não têm a menor chance ao lado desses garotos bonitos, a vida é isso mesmo, eu finjo não me importar, não fazer caso

Olhem aquela ali...

Quem, perguntei, esperançoso de algum reconhecimento como um jovem macho alfa, perigoso e atraente que desafia às regras comuns da atração e comportamento, uma tempestade magnética silenciosa do segundo sol realinhando as órbitas dos planetas, com meu jeans, camiseta branca, músculos que não tenho para mostrar e aquele olhar que não tem explicação, parecendo saber um segredo que o mundo inteiro quer descobrir

um rosto feio com um charme intrigante, um furacão sem todo o tempo do mundo, um sorriso devastador que desafia e exige escolhas diferentes, anuncia que não é tempo perdido enquanto saboreamos aquela sobremesa ao final de um jantar

capaz de rir de mim mesmo, mas incapaz de mudar o mundo girando ao meu redor se assim o mundo deseja, pronto para gargalhadas, compaixão e até um pouco de confusão desajeitada como uma obrigação inevitável em frangalhos, um lembrete colorido que a vida é uma paixão bem-humorada com um toque de audácia, trazendo mais cores ao cotidiano

A Mariá... foi a resposta imediata do gustavo, fez um sinal à esquerda, olhei surpreendido, lá vinha ela toda bonitinha de blusinha branca, aparecendo do nada, continuei lutando com meus pensamentos, O amor não tem hora, não tem explicação, ele até se esconde, se deixa fingir como um bobo, uma distância tão pequena e tão longe, quis chamar, não disse nada, não sou um lobo mau, só quero ser feliz, gosto muito desta menina, é lindinha daquele jeito que dá vontade de ficar olhando, escutando as vozes do coração, quero uma chance saboreando com o olhar até ficar em frangalhos, hoje eu tô me repetindo adoidado

nunca senti o gosto de um beijo, acho que isso é um motivo para viver, quem sabe um anjo do céu me trás você

É menina muito parceira, a voz do gustavo está doce, sei que posso contar com essa gatinha a qualquer hora.

o dalton tirou seus óculos vermelhos, continuamos sentados sob a imensa figueira, a vida passando, ele deixa em seu olhar uma pequena nuvem de dúvida, Você tem certeza?

Ela é muito especial, foi a resposta acalorada, você não sabe quanto essa garota caminhou até chegar aqui.

Entendi, sutilmente disfarçou sua inveja, fechou os olhos e apenas deixou que sua voz fosse levada cheia de ironia nas entrelinhas, senti como se o mundo acabasse ali

confesso que imaginei vozes no meu deserto, estava perdendo minha chance de viver, nuvens escuras estavam lá no céu, no mesmo lugar, a menina bonita caminhando com seus olhos negros na sombra da figueira sob o amanhecer, Deixa eu te amar, a menina mais linda de toda escola, a mais bela com seus olhos negros, quero teu cheiro dos cabelos em meu rosto... vamos fugir, menina!

minhas pernas tremiam, mal conseguia ficar em pé, ela entrava em mim e colava meus pedaços

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sábado, 3 de agosto de 2024

Ensaio - cartão magnético: 02

primeiro dia

baitasar

têm coisas que não mudam, se você não paga o aluguel vai ser despejado, se você é um coitado perdedor e aposta pesado vai acabar engolindo terra, loira ou preta, jovem, bem vestida e gostosa não entra na minha vida, um merda romântico, não tem jeito, nunca vou ter um apartamento de luxo, curto cachorro-quente e muita mostarda apimentada, também não tenho nenhuma robustez carnuda, acho uma chatice ficar levantando aqueles ferros sempre mais pesados, as mangas das minhas camisas são bem largas, as calças também, às vezes parece que não tenho pernas, só as calças

por sorte, ainda não estou trabalhando nem tenho espinhas

tudo para algumas pessoas é serem obedecidas, sentem falta de darem ordens, realmente se excitam, se pudessem chicotear com seus cintos nossas pernas, bunda e coxas, nos deixariam tremendo e chorando; afinal, uma escola sem disciplinador não é respeitada como uma escola que ensina de verdade

um dos disciplinadores – sempre é um homem, pelo menos aqui – fica no portão para nos lembrar que depois que entramos pertencemos às regras da escola, não tem mesa-redonda, polêmica ou contestação, Regras precisam ser obedecidas, é o que nos repetem e repetem e repetem, é isso, aceitamos ou não entramos, ficamos nas ruas – ou pior, seremos aceitos em alguma escola pública da periferia com suas regras militarizadas, como aqui, também controladora das vontades com seus hinos, símbolos da família, deus e pátria, muito cinismo, mas sem os mesmos recursos

com sorte – não gosto muito da ideia de confiar na sorte – encontramos um lugar com aparência agradável, sem gaiolas para nos obrigar a ficar olhando juntos na mesma direção, alguma escola que mais conversa do que manda, acho que elas existem espalhadas por aí, lugares em que parece que a vida é maravilhosa, um milagre de bonita, mágica, pássaros nos galhos verdes, festa e alegria, cantando juntos, tagarelando na sombra das folhas da vida pulsando, sonhando pingos de cores, brincando, acariciando o coração, observando outras caturritas, pombas e pardais pelo pátio, as notas de uma sinfonia barulhenta, e ao entardecer o sol se despedindo, a dança nas árvores cedendo, aguardando a luz plena de outro dia, para mais risos e voos entre suas paredes

por aqui, querem nos ensinar como sermos sensatos, lógicos, responsáveis, práticos, intelectuais e cínicos, nos mostram um mundo clínico, mas pouco confiável, Cuidado ou o mundo engole vocês, estou me lixando para esse mundo estúpido, na maior parte do tempo estamos dormindo, as perguntas não se aprofundam, e o que aprendemos é que não sabemos quem somos, mas logo saberemos, viva o teste vocacional

manos, não sou das bagunça pela bagunça, longe disso, mas confiaria mais – também não é bem assim –, obedeceria sem uma inquietação maior se as regras também fossem discutidas com alunos e alunas, desconfio de qualquer um que se impõe sobre os demais e não aceita conversar sobre suas ideias, suas regras são para serem seguidas sem trocação, sem contestação – a teoria do controle ou descontrole

hoje, o primeiro dia do retorno desta parada selvagem da destruição geral

a catraca não está funcionando

antes dessa fartura de água, existiu o modo seco e quente, conforme íamos chegando, passávamos o cartão magnético na catraca do portão, um cartão magnético comum com foto, nome e código de barras, o registro da nossa presença, tudo muito eficiente e limpo até chegarem as águas

muitos dos que chegavam no carro do papai e da mamãe estão aprendendo a conhecer as ruas do bairro à pé, tudo muito quieto e silencioso

no horário anunciado o portão é fechado – hoje, vamos ter tolerância para atrasos –, os retardatários entram na escola somente pela portaria dos visitantes

o pátio segue cercado por prédios – cheirando à tinta fresca – e árvores tristes e feridas, os reencontros são muitos

lá está o profe Tiago

Ehaaí, Gustavo?

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sábado, 27 de julho de 2024

Ensaio - primeiro dia: 01

primeiro dia

baitasar


esse primeiro dia do resto das nossas vidas promete o recomeço do começo ou começo do recomeço, aqui ao sul de lugar nenhum, não será mais como em todos outros anos e seus incontáveis 200 dias, nossas vidas anônimas mudaram

desaparecemos, nossos mortos extraviados em imagens descoloridas e borradas

a repetição replica  imitações como uma melodia constante enquanto dançamos em círculos inundados por simulações, incompetências, más intenções e medos, ressurgimos esperando e torcendo que tudo dê certo, apesar das desinformações e disfarces crônicos das nossas escolhas, somos as gorjetas ao barman, não há como copiar, colar ou imitar, uma confusão sem fim com tantas e diferentes máscaras que nunca antes havia ecoado com tanta incredulidade em nossas vidas submersas  

quem ganha e quem perde, é apenas uma pergunta que a maioria finge ser incapaz de se fazer, mesmo repetindo as promessas do mesmo filme num clima de déjà-vu, a sensação de já ter vivido esse primeiro dia por tantos anos, nunca tão dolorido e fora do lugar

não é muito difícil prever os resultados quando pensamentos desafinados se deparam com as dificuldades do dia-a-dia, somos convencidos que é preciso aceitar a rotina da travessia, apesar da mundanalidade dos nossos defeitos e infâmias, apoiados, quem sabe, na coragem e virtudes da humanidade amorosa nos compelindo fazer de cada dia outro dia possível

é preciso entender que cada repetição carrega consigo uma promessa de familiaridade, a ilusão do controle, no entanto, esse véu de semelhanças não consegue esconder as nuances sutis que revelam a natureza de cada momento repetido se repetindo

fico ansioso com essas datas especiais, acho que por isso cheguei tão cedo, não quero perder nada, quase não consegui sentar à mesa, engolir o café, saborear delícias do pão e misturas das geleias do mercadinho colonial do Pedro, nos arredores do nosso Rondon

saí alguns passos e voltei, esqueci meu alicate de unhas antes de sair para outro dia de quadro e giz, hábito de anos, não lembrava se havia fechado a porta, estava trancada, eu desatento querendo abreviar tempo e distância deixei o alicate de unhas para trás, já havia deixado tantas coisas para trás, boletos vencidos, livros alagados, memórias submersas

neste novo mundo de conexões instantâneas, apertar um botão leva ou trás perguntas e respostas em questão de segundos, vivemos a tapeação que tempo e distância foram dobrados à nossa vontade, acreditamos ingenuamente que barreiras foram derrubadas de uma vez por todas enquanto a sopa de cabeça de porco e repolho da idade média religiosa nos persegue pendurada na janela

mas à noite, com olhos cansados pela luz da tela que me consome em mais um vídeo, mais uma mensagem, mais uma notificação no aparelho mágico que seguro com minhas mãos e resplandece como um totem prometendo me conectar a todos, tudo em um piscar de olhos

vai longe o tempo das histórias contadas olhos nos olhos, longas cartas esperadas com ansiedade, encontros marcados com antecedência e a emoção única de cada reencontro, abraçamos comodidade moderna com toda intensidade, certos de que vivemos na era da comunicação verdadeira sem cortinas e luzes apagadas, pelo menos, é a sensação que toda essa correria me causa

assim como um espelho reflete infinitas cópias de si mesmo, repetição nos confronta com reflexos das nossas escolhas, desdobrando-se em padrões entrelaçados que nos moldam melodramaticamente, ficou difícil dormir à noite, saudade dos gemidos da casa

a cada repetição somos desafiados a aprender com o que veio antes, encontrar novos significados nas velhas narrativas e abraçar a mudança que inevitavelmente acompanha a constância meia bêbada do vento soprando, aluguel vencido, fedor nauseabundo dos entulhos, a decomposição ao vivo e em cores, não há mais posição de largada ou chegada entre tantos destroços

na dança cíclica da repetição encontramos a oportunidade de transcender a imitação do passado e abraçar a autenticidade do aqui e agora, antes da mensagem: transmissão encerrada. é preciso reconhecer as diferentes nuances que compõe cada repetição, podemos sair da sujeira, arranjar algum emprego, mas continuamos esticados procurando por uma porta para desvendar camadas profundas da nossa própria jornada em busca da conscientização, nos permitir descobrir a beleza cínica que reside na imitação da cópia de si mesmo pode nos levar às corridas do dia seguinte

cheguei junto com a abertura do portão, esvoaçava como uma borboleta, outros me seguiam como gaviões, havia urubus, claro, pairando sobre caturritas, pombas e pardais tagarelando

o tempo me invadiu da saudade de ensinar ler histórias da rua e dos livros, tirando tampas da inocência, atento as coberturas da imprensa e televisão

a marca das águas não desapareceu, resiste nos fragmentos escondidos, memórias, frases, lodo fedorento encrustado por trás das cadeiras duras de fórmica, ainda dá tempo de olhar as paredes, as árvores adormecidas, os bancos de cimento feridos, caminhos de pedra revirados, jardins destruídos, botecos fechados, entulhos de volta para o nada

o burburinho se forma ligeiro e o chão se preenche de maneira desordenada, as vidas dispersas se aglomerando no pátio, caminhando, correndo, esperando um sinal, gostava de escutar a chuva, mas agora a chuva não ajuda, acende nossos medos

as conversas e as histórias parecidas, inevitavelmente repetiam a mesma frase, Perdemos tudo.

antigas amizades sobreviveram, novas amizades se encontraram no abrigo dos ginásios, escolas, o socorro das doações chegaram em meio a escuridão das vidas perdidas, animais deixados para trás, gente e bichos desaparecidos, muitas histórias e resgates, barcos, voluntários

filas silenciosas e longas, atordoadas e tristes se formavam

caminhões gigantes de solidariedade chegando com muita água, arroz, feijão, farinhas, açúcar, cobertas, mantas, colchões, travesseiros, abrigos esportivos, calçados, calças jeans, blusões, algumas bermudas, piercings, tatuagens

é o primeiro dia do resto das nossas vidas

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Leia também:

Ensaio - primeiro dia: 01
Ensaio - cartão magnético: 02



segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 9. Certas fotos — emblemas de sofrimento

Diante da Dor dos Outros


para David

… aux vaincus!
Baudelaire

A sórdida mentora, a Experiência...
Tennyson


9..


Certas fotos — emblemas de sofrimento, como o instantâneo do garotinho no Gueto de Varsóvia em 1943, de mãos levantadas, arrebanhado na direção de um veículo, rumo ao campo de extermínio — podem ser usadas como advertências, como objetos de contemplação destinados a aprofundar o sentido de realidade de uma pessoa; como ícones seculares, se preferirem. Mas isso pareceria exigir o equivalente a um espaço sagrado ou meditativo para olharmos essas fotos. Um espaço reservado para sermos sérios é algo difícil de conseguir na sociedade moderna, cujo modelo principal de espaço público é a megastore (que também pode ser um aeroporto ou um museu).

Parece um oportunismo olhar fotos mortificantes da dor de outras pessoas numa galeria de arte. Mesmo aquelas imagens supremas cuja seriedade, cuja força emocional parece estabelecida de uma vez por todas, as fotos de campos de concentração tiradas em 1945, têm um peso diferente quando vistas num museu fotográfico (o Hôtel Sully em Paris, o Centro Internacional de Fotografia em Nova York); numa galeria de arte contemporânea; num catálogo de museu; na tevê; nas páginas de The New York Times; nas páginas da Rolling Stone; num livro. Uma foto vista num álbum fotográfico ou impressa em papel de jornal grosseiro (como as fotos da Guerra Civil Espanhola) tem um significado diferente quando exposta numa butique Agnès B. Toda imagem é vista em algum cenário. E os cenários se multiplicaram. Uma campanha publicitária tristemente famosa da Benetton, fábrica italiana de roupa esporte, usou uma foto da camisa ensanguentada de um soldado croata morto. Fotos publicitárias são, muitas vezes, tão ambiciosas, engenhosas, enganosamente espontâneas, transgressivas, irônicas e solenes quanto fotos artísticas. Quando o soldado fotografado por Capa, no instante em que tombava para trás, apareceu na revista Life ao lado do anúncio da pomada Vitalis, havia uma enorme e insuperável diferença de aspecto entre os dois tipos de fotografia, a “editorial” e a “publicitária”. Agora, não existe mais.

Grande parte do ceticismo atual em torno da obra de certos fotógrafos engajados parece resumir-se a pouco mais do que o desprazer com o fato de as fotos circularem de modo tão diversificado; de não haver uma forma de garantir condições reverenciais para olhar tais fotos e mostrar-se plenamente sensível a elas. Com efeito, afora os cenários onde se pratica a deferência patriótica aos líderes, parece não haver hoje maneira de garantir um espaço contemplativo ou inibidor para coisa alguma.

Na medida em que fotos de tema extremamente solene ou pungente são arte — e é nisso que elas se transformam quando penduradas na parede, a despeito de todas as negativas —, passam a compartilhar o destino de toda arte, pendurada na parede ou apoiada sobre o chão, exposta em locais públicos. Ou seja, elas constituem paradas no percurso de um passeio — que, em geral, se faz acompanhado. A visita a um museu ou a uma galeria é uma situação social, crivada de distrações, no curso da qual a arte é vista e comentada. [1] Em certa medida, o peso e a seriedade de tais fotos sobrevivem melhor em um livro, onde elas podem ser vistas de modo privado, demoradamente, em silêncio. Todavia, em algum momento, o livro será fechado. A emoção forte se tornará passageira. Mais cedo ou mais tarde, a especificidade das acusações contidas nas fotos vai perder a força; a denúncia de um conflito particular e a incriminação por crimes específicos vão se converter na denúncia da crueldade humana, da selvageria humana como tal. As intenções do fotógrafo são irrelevantes para esse processo mais amplo.


[1] A evolução do museu, propriamente dito, avançou bastante no sentido de expandir essa atmosfera de distração. Outrora um repositório para conservar e expor as belas- artes do passado, o museu tornou-se um vasto empório-instituição educacional, do qual uma das funções é a exposição de arte. A função primária é o entretenimento e a educação, combinados de várias maneiras, e o marketing de experiências, gostos e simulacros. O Museu Metropolitano de Arte de Nova York monta uma exposição das roupas usadas por Jacqueline Bouvier Kennedy Onassis durante os anos em que morou na Casa Branca, e o Museu de Guerra Imperial de Londres, admirado por sua coleção de material bélico e pela seção de iconografia, oferece agora dois ambientes que reproduzem fielmente para o público circunstâncias da Primeira Guerra Mundial, A experiência das trincheiras (o rio Somme, em 1916), um percurso completo com ruídos reproduzidos em fitas (explosões de bomba, gritos), mas sem cheiros (nada de cadáveres putrefatos, nem gás venenoso); e, da Segunda Guerra Mundial, A experiência da Blitz, descrita como uma apresentação das condições durante o bombardeio alemão contra Londres em 1940, que inclui a simulação de um ataque aéreo, do modo como era experimentado no interior de um abrigo subterrâneo.



Existe um antídoto contra a eterna sedução da guerra? E será esta uma pergunta com mais probabilidade de ser feita por uma mulher do que por homem? (Provavelmente sim.)

Poderia alguém ser mobilizado para opor-se à guerra de forma atuante por uma imagem (ou por um grupo de imagens), assim como uma pessoa podia aderir aos opositores da pena de morte sob o efeito da leitura, digamos, de Uma tragédia americana, de Dreiser, ou da leitura de “A execução de Troppmann”, de Turgueniev, uma narrativa escrita por um escritor expatriado, convidado a acompanhar, numa prisão parisiense, as últimas horas de vida de um famigerado criminoso, antes de ser guilhotinado? Parece mais plausível que uma narrativa demonstre uma eficácia maior do que uma imagem. Em parte, a questão reside na extensão de tempo em que a pessoa é obrigada a ver e sentir. Nenhuma foto ou coleção de fotos pode se desdobrar, ir além, e avançar mais ainda, como fazem A ascensão, da cineasta ucraniana Larissa Chepitko, o filme mais impressionante que conheço sobre a tristeza da guerra, e um assombroso documentário japonês de Kazuo Hara, O exército nu do imperador em marcha (1987), o retrato de um “ensandecido” veterano da guerra do Pacífico, cuja missão na vida é denunciar os crimes de guerra japoneses em um carro de som que ele mesmo dirige pelo Japão e visitar, da forma mais inconveniente, seus antigos superiores militares, exigindo que se desculpem pelos seus crimes, como o assassinato de prisioneiros americanos nas Filipinas, que eles ordenaram ou toleraram.

Entre as imagens antibelicistas isoladas, a enorme foto criada por Jeff Wall em 1992 intitulada “Conversa de soldados mortos (Visão após uma emboscada contra uma patrulha do Exército Vermelho perto de Moqor, no Afeganistão, no inverno de 1986)” parece-me exemplar por sua seriedade e força. Antítese de um documento, a imagem, uma transparência em Cibachrome com 2,3 metros de altura e mais de quatro metros de largura, montada sobre uma caixa de luz, mostra figuras dispostas em uma paisagem, uma encosta devastada por explosões, construída no estúdio do artista. Wall, que é canadense, jamais esteve no Afeganistão. A emboscada é um fato fictício numa guerra selvagem que esteve muito presente no noticiário. Wall atribuiu-se a tarefa de imaginar os horrores da guerra (cita Goya como sua inspiração), a exemplo do que fizeram as pinturas históricas do século XIX e outras formas de história-como espetáculo surgidas no fim do século XVIII e no início do XIX — imediatamente antes da invenção da câmera —, como os chamados tableaux vivants, ou quadros vivos, as estátuas de cera, os dioramas e os painéis móveis que faziam o passado, em especial o passado recente, parecer espantosa e perturbadoramente real.

As figuras na criação fotográfica de Wall são “realistas”, mas, é claro, a imagem não é. Soldados mortos não falam. Aqui, falam.

Treze soldados russos, em pesados uniformes de inverno e botas de cano alto, estão espalhados por uma encosta coberta de feridas e respingada de sangue, margeada por pedras soltas e pelo entulho da guerra: cápsulas de obuses, metal retorcido, uma bota que contém a parte inferior de uma perna… A cena poderia ser uma versão revista do fim do filme J’accuse, de Gance, quando os soldados mortos da Primeira Guerra Mundial se erguem de seus túmulos, mas esses recrutas russos, massacrados na insensata e derradeira guerra colonial da União Soviética, nunca foram sepultados. Alguns ainda estão de capacete. A cabeça de uma figura de joelhos, que fala animadamente, espuma com seus miolos vermelhos à mostra. A atmosfera é de simpatia, afeto, espírito fraternal. Alguns jazem relaxados, apoiados sobre um cotovelo, ou estão sentados, conversando, com os crânios abertos e as mãos destruídas bem visíveis. Um homem se curva sobre outro, que jaz deitado de lado, como que adormecido, e talvez o estimule a sentar-se. Três homens brincam uns com os outros ali perto: um, com um enorme ferimento na barriga, está escarranchado sobre outro, que jaz de bruços e ri para um terceiro que, de joelhos, com ar brincalhão, sacode para ele um pedaço de carne. Um soldado, de capacete e sem perna, virou-se para um companheiro a certa distância, com um sorriso vivaz no rosto. Abaixo dele, estão outros dois, ao que parece nada dispostos a uma ressurreição, que jazem deitados de costas, com as cabeças ensanguentadas pendentes na encosta pedregosa.

Tragados pela imagem, tão denunciadora, poderíamos até imaginar que os soldados vão virar-se e falar conosco. Mas não, nenhum deles dirige os olhos para fora da imagem. Não há nenhuma ameaça de protesto. Não estão prestes a berrar para nós, para que demos um basta a essa abominação que é a guerra. Eles não voltaram à vida com o intuito de sair cambaleando para denunciar os promotores da guerra, que os enviaram para matar e serem mortos. E não estão representados como se fossem aterrorizantes, pois entre eles (na extremidade esquerda) está sentado um saqueador afegão, vestido de branco, inteiramente concentrado em vasculhar uma mochila de campanha, do qual os soldados não tomam o menor conhecimento, e acima deles (no alto, à direita), entrando na imagem, na trilha que desce sinuosa pela encosta, estão dois afegãos, talvez soldados também, que, a julgar pelos Kalachnikov acumulados aos seus pés, já despojaram os soldados mortos de seus armamentos. Esses mortos se mostram completamente desinteressados pelos vivos: por aqueles que tiraram suas vidas; por testemunhas — e por nós. Por que deveriam procurar o nosso olhar? O que teriam a nos dizer? “Nós” — esse “nós” é qualquer um que nunca passou por nada parecido com o que eles sofreram — não compreendemos. Nós não percebemos. Não podemos, na verdade, imaginar como é isso. Não podemos imaginar como é pavorosa, como é aterradora a guerra; e como ela se torna normal. Não podemos compreender, não podemos imaginar. É isso o que todo soldado, todo jornalista, todo socorrista e todo observador independente que passou algum tempo sob o fogo da guerra e teve a sorte de driblar a morte que abatia outros, à sua volta, sente de forma obstinada. E eles têm razão.



Agradecimentos


Uma parte das ideias contidas neste livro, em sua primeira versão, foi apresentada em uma Conferência de Anistia na Universidade de Oxford em fevereiro de 2001 e depois publicada numa coletânea de Conferências de Anistia intitulada Direitos humanos, injustiças humanas (Oxford University Press, 2003); agradeço a Nick Owen da New College pelo convite para fazer a conferência e pela hospitalidade. Uma amostra das ideias deste livro foi publicada como prefácio do livro Don McCullin, um compêndio de fotos de McCullin, publicado em 2002 pela Jonathan Cape. Sou grata a Mark Holborn, que edita livros de fotografia na Cape, em Londres, pelo estímulo; ao meu primeiro leitor, Paolo Dilonardo, como sempre; a Robert Walsh, mais uma vez, por seu discernimento; e, também por seu discernimento, a Minda Rae Amiran, Peter Perrone, Benedict Yeoman e Oliver SchwanerAlbright.

Senti-me estimulada e instigada por um artigo de Cornelia Brink, “Secular Icons: Looking at Photographs from Nazi Concentration Camps”, em History & Memory, vol. 12, n o 1 (primavera/verão de 2000), e pelo excelente livro de Barbie Zelizer, Remembering to Forget: Holocaust Memory Through the Camera’s Eye (University of Chicago Press, 1998), onde encontrei a citação de Lippmann. Com respeito a informações sobre o bombardeio punitivo executado pela Real Força Aérea Britânica contra aldeias iraquianas entre 1920 e 1924, um artigo em Aerospace Power Journal (inverno de 2000), de James S. Corum, que leciona na Escola de Estudos Avançados de Poderio Aéreo na Base Aérea de Maxwell, Alabama, fornece dados e análises valiosas. Relatos sobre as restrições impostas a fotojornalistas durante a Guerra das Falklands e a Guerra do Golfo são fornecidos em dois livros importantes: Body Horror: Photojournalism, Catastrophe, and War, de John Taylor (Manchester University Press, 1998) e War and Photography, de Caroline Brothers (Routledge, 1997). Brothers apresenta nas pp. 178- 84 de seu livro os argumentos contrários à autenticidade da foto de Capa. Para uma opinião oposta: o artigo de Richard Whelan, “Robert Capa’s Falling Soldier”, em Aperture, n o 166 (primavera de 2002), menciona uma série de circunstâncias moralmente ambíguas no front, durante as quais, alega ele, Capa inadvertidamente fotografou, de fato, um soldado republicano no instante em que foi morto.

Por informações sobre Roger Fenton, sou grata ao artigo de Natalie M. Houston, “Reading the Victorian Souvenir: Sonnets and Photographs of the Crimean War”, em The Yale Journal of Criticism, vol. 14, n o 2 (outono de 2001). Devo a informação de que existiam duas versões de “O vale da sombra da morte”, de Fenton, a Mark Haworth Booth, do Victoria and Albert Museum; as duas fotos são reproduzidas em The Ultimate Spectacle: A Visual History of the Crimean War, de Ulrich Keller (Routledge, 2001). O relato da reação britânica à foto de mortos britânicos insepultos na Batalha de Spion Kop provém de Early War Photographs, compilado por Pat Hodgson (New York Graphic Society, 1974). Foi William Frassanito quem estabeleceu, em seu Gettysburg: A Journey in Time (Scribner’s, 1975), que Alexander Gardner deve ter mudado de lugar o cadáver de um soldado confederado para tirar uma fotografia. A citação de Gustave Moynier provém de A Bed for the Night: Humanitarianism in Crisis (Simon & Schuster, 2002), de David Rieff.

Continuo a aprender, como acontece há muitos anos, em minhas conversas com  Ivan Nagel.




Copyright © 2003 by Susan Sontag
Título original
Regarding the pain of others


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Leia também:

Susan Sontag - Na Caverna de Platão (01)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 1. (1)
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Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 5. (2)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 5. (3)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 6. (1)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 6. (2)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 7. (1)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 7. (2) 
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 8. 
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 9. 
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"Quando o mundo estiver unido
na busca do conhecimento, e
não mais lutando por dinheiro e
poder, então nossa sociedade
poderá enfim evoluir a um novo
nível."

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"... conversar me dá a chance de saber o que penso...,
mas se não escutar continuo conversando comigo mesmo."


segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Flusser : Filosofia da Caixa Preta (Flusser e a Liberdade de Pensar)

Filosofia da Caixa Preta




VILÉM FLUSSER



Ensaios para uma futura filosofia da fotografia



FLUSSER E A LIBERDADE DE PENSAR
ou Flusser e uma certa geração 60.


Nasci em Praga em 1920 e meus antepassados parecem ter habitado a “Cidade Dourada” por mais de mil anos. Sou judeu e a sentença “o ano vindouro em Jerusalém” acompanhou toda a minha mocidade. Fui educado na cultura alemã e dela participo há vários anos. Embora minha passagem por Londres em 1940 tenha sido relativamente curta, ocorreu em época de vida em que a mente se forma de modo definitivo. Engajei-me, durante a maior parte da minha vida, na tentativa de sintetizar cultura brasileira, a partir de culturemas ocidentais, levantinos, africanos, indígenas e extremo-ocidentais (e isso continua a fascinar-me). Atualmente moro em Robion, sul da França, integrando-me no tecido de aldeia provençal cujas origens se perdem na bruma do passado. [1]


Este é o Flusser que conheço (e aprendi a conhecer) ao longo de espaços e tempos os mais descontínuos. Figura humana impressionante, dessas que causam impressão de matriz em nossos núcleos pessoais. Mesmo não havendo empatia, no primeiro ou nos encontros subsequentes, jamais se fica neutro.

Flusser ama o desafio, o “corpo a corpo” intelectual provocando-o mesmo, quase como a um gesto iniciático. E que venham as críticas, elogiosas ou não, tanto faz! “Um marco na cultura alemã”; “Um desrespeito filosófico, de Platão a Wittgenstein”: as duas críticas diametralmente opostas lhe foram dirigidas por ocasião de um seminário em Hamburgo sobre seu livro Para uma filosofia da fotografia [2] . Flusser relata a cena com a melhor das gargalhadas – traço personalíssimo do caráter desse autêntico homo ludens, um Macunaíma judeu-tcheco-paulistano.

Em sua última passagem por São Paulo, a convite da 18ª Bienal para proferir palestras, ouvi-o falar sobre seu tema atual: texto/imagem. As sentenças, destiladas pelo “rigor da razão-e-da-paixão” (como Flusser, poucos conseguem amalgamar), eram como chicotadas, querendo sacudir-nos da letargia a que nos condena uma época ruidosa; querendo incomodar, para que não se tenha a ilusão de não sermos responsáveis e que o pensar e repensar tudo não vale mais a pena. Mas aquelas sentenças queriam também abraçar, atrair novos e mais parceiros ao diálogo.

Flusser sempre faz pensar. E pensar dói. Pois continua o mesmo, esse nosso amigo, escritor, filósofo, engajando-se para fazer da reflexão alimento de primeira necessidade, gesto corporal do ser, prazer erótico. Não há dúvida que, para ele, o homem total é o ser pensante.


Participo da desconfiança em analogias que tendem rapidamente a se transformarem em metáforas, isto é, transferências de raciocínio adequado a um dado contexto para contexto inapropriado. No entanto, nada captaremos sem modelo. De modo que todo modelo deve, primeiro, procurar pescar o problema, e depois, procurar modificar-se, ou em certos casos, ser jogado fora. (...) O dever de gente como nós, é engajar-se contra a ideologização e em favor da dúvida diante do mundo, que, de fato, é complexo e não simplificável. Engajamento difícil, por certo, mas nem por isto, apolítico. Para nós, Polis é a elite decisória e não a tal massa. [3]


A intenção que move este relato, que se quer subjetivo, é possibilitar um testemunho humano – não mais que isso – da vívida presença entre nós, geralmente incompreendida, super-sub-estimada, deste que é, por muitos, considerado “o genuíno filósofo brasileiro”-, já que falar de sua obra é tarefa que exigiria plena desenvoltura no percurso de seu controvertido pensamento.

Se o faço, é certamente apoiada pelo afeto, mas sobretudo por um tipo de engajamento. Publicar Flusser, no Brasil, é questão de honestidade, simples reconhecimento do valor de suas reflexões. Mas falar sobre a pessoa de Flusser é, talvez, querer ir mais longe, penetrar floresta escura, já invadindo quem sabe espaço transpessoal.


Aprendi o seguinte: ao nascer fui jogado em tecido que me prendeu a pessoas. Não escolhi tal tecido. Ao viver, e sobretudo ao migrar, teci eu próprio fios que me prendem a pessoas e fiz em colaboração com tais pessoas. “Criei” amores e amizades (e ódios e antagonismos); é por tais fios que sou responsável. O patriotismo é nefasto porque assume e glorifica os fios impostos e menospreza os fios criados. Por certo: os fios impostos podem ser elaborados para se tornarem criados. Mas o que importa é isto: não sou responsável por meus laços familiais ou de vizinhança, mas por meus amigos e pela mulher que amo. 
Quanto aos fios que prendem as pessoas, tenho duas experiências opostas. Todas as pessoas às quais fui ligado em Praga morreram. Todas. Os judeus nos campos, os tchecos na resistência, os alemães em Stalingrado. As pessoas às quais fui ligado (e continuo ligado) em São Paulo, em sua maioria, continuam vivas. Embora, pois, Praga tenha sido mais “misteriosa” que São Paulo, o nó górdio cortado foi macabramente mais fácil. [4]


Quando o conhecemos – refiro-me a um grupo de jovens universitários dos anos 60, geração que cultivava um jeito de vivenciar intelectualmente a sua angustia e cuja ironia não havia ainda descambado para o deboche-, estávamos todos submersos no grande vazio que é a busca de sentido.[5] Flusser, estrangeiro no mundo, apátrida por excelência, assistia a tudo, promovendo tudo. Mas entre o seu engajamento na cultura brasileira e o nosso destacar-se do pano de fundo habitual-nativo, uma sutil dialética se estabelecerá.

Nós os migrantes, somos janelas através das quais os nativos podem ver o mundo. Seria ele, para nós, esta janela?

Mistério mais profundo que o da pátria geográfica é o que cerca o outro. A pátria do apátrida é o outro.
Seríamos nós, para ele, esta pátria?


Nós, jovens daquela geração niilista, vivenciávamos a saga de uma época em que, após ter aplaudido o célebre protesto de estudantes na Europa, nada passava mais a ter significado. Os anos 60, se de um lado traziam marcas como a rebeldia dos Beatles, a revelação do sexo, e a partir daí, o culto ao amor livre do movimento hippie e a escalada social do bissexualismo; o fracasso da potência americana no Vietnã, onde a inteligência venceu as armas, num combate que utilizou cobras, abelhas e bambus; toda uma poesia desordenada e todo um desencanto às coisas e aos valores estabelecidos, por um lado, deixou farrapos de um derradeiro “romantismo”: desejo da mão jovem querendo reconstruir o mundo e impedida pelos velhos (como sempre foi); o olhar do mundo culto e politizado para o primeiro movimento de objetivos definidos na América, ao som do slogan “cubanos si, yankees no”; a resposta de uma “geração triste” que começava a se redimir pela música e a poesia (“Tropicália” e os “Novíssimos”, apenas para citar alguns).

No campo da Filosofia, Sartre, Camus e demais existencialistas marcavam a juventude intelectual brasileira, embora a grande maioria não tivesse acesso a tudo isso. O escritor Jorge Medauar é quem diz: “O Brasil não tem linha filosófica definida porque não tem pensadores”.

Nosso grupo, porém, era privilegiado: frequentávamos a casa de Flusser. Lá se canalizavam os turbilhões, ventos e brisas do mundo filosófico, em tertúlias que se alongavam por sábados e domingos, e quantas vezes não éramos surpreendidos por Guimarães Rosa, Samson Flexor, Vicente Ferreira da Silva!

Flusser foi se revelando professor, cercado por aqueles moços e moças, de modo doméstico e peripatético (embora sempre sentado em sua cadeira no jardim-de-inverno, nos fundos daquela casa, no Jardim América) envolto às fumaças de seu cachimbo inseparável. Não há como apagar os primeiros passos na filosofia ensinada, transmitida assim... Paideia construída pelo con-viver, em chão de concretude, por um “modelo” vivo de existência. Tudo isso plasmou as nossas mentes, interagindo hoje na circunstância em que vivemos.

Caso clássico de influência poderosa de patriarca intelectual – não faltará quem o diga. Alguns, não suportando o peso de tamanha in-formação, hoje o renegam e se refugiam nos cantos matreiros do inconsciente, omitindo-se ao confronto. Não lembraria Flusser, em certo aspecto, a personalidade de Freud? Como ele – subversivo, judeu, emigrado – também não foi aceito pelo establishment acadêmico, criando afetos, desafetos e uma fieira de pupilos dolorosamente estigmatizados.

Ao longo dos trinta e um anos em que viveu na circunstancialidade brasileira, Flusser desenvolveu seu modo de pensar com um vigor e originalidade que cunham um de seus traços inconfundíveis – o que lhe valeu imagem mitificada, e até certo ponto, desconcertante para certos eruditos, que, tantas vezes, com ele se digladiaram.

Como Nietzsche, Kierkegaard e tantos outros, Flusser não se propôs a construir um sistema filosófico. Seu pensamento é um fluir generoso que se vai tecendo fora de velhas ou modernas malhas, dentro da urdidura fundante que é a linguagem – “morada do ser”, como a nomeia Heidegger. Seu mergulho nas correntes da Fenomenologia levou-o à Filosofia da Linguagem, seu campo predileto, ao qual dedicou vários ensaios, livros e cursos. Chegou até a criar uma coluna em jornal (“Posto Zero” na Folha de São Paulo, de 1969 a 1971), onde fazia uma espécie de análise fenomenológica do cotidiano brasileiro.

Quando escreve, e o faz como quem respira o ar fresco das manhãs, Flusser traduz e retraduz o mesmo texto para as línguas que domina: alemão, inglês, português, francês.


Sinto-me abrigado por, pelo menos, quatro línguas, e isto se reflete no meu trabalho, uma das razões pelas quais me interesso pelos fenômenos da comunicação humana. Reflito sobre os abismos que separam os homens e as pontes que atravessam tais abismos, porque flutuo, eu próprio, por cima deles. De modo que a transcendência das pátrias é minha vivência concreta, meu trabalho cotidiano e o tema das reflexões às quais me dedico. [6]


Max Planck, em sua biografia, diz que para haver uma ideia original são necessárias duas condições: que o “criador” esteja livre e que morra toda uma geração, porque apenas a seguinte poderá compreendê-la. Os contemporâneos estão comprometidos e escravizados, por isso se assustam com o novo. Eis, numa palavra, o pecado de Flusser: pensar o novo e, para tanto, estar livre. Qualquer pessoa que entra em contato com suas ideias percebe o quão ligadas estão ligadas com o que acontece à sua volta. Não se pode delimitar as bases de seu pensamento, porque ele está constantemente correlacionado a fatos, não importa de que natureza. A aguda capacidade de observar o mundo e captar a atualidade, filtrando a ambos pelos conceitos clássicos e construindo os seus próprios conceitos, tornam Vilém Flusser o pensador para a época “pós-histórica” que atravessamos.

É precisamente a consonância entre observação dos fatos e sua resultante reflexão que nos dá a sensação do verdadeiro. Mas, para que tal sensação conduza à verdade, o que ainda nos falta?

Aqui transcrevo pergunta feita ao psicanalista Isaías Kirschbaum, que após driblar com mestria: la reponse est la mort de la question...(que analista, afinal, não tem necessariamente de ser filósofo...) assim respondeu: “Consenso é que dá cunho de verdade”.

Daí, minha indagação: teria sido o meio cultural brasileiro – e o paulistano em particular – propício à formação de um consenso ao pensamento flusseriano, consenso que, por sua vez, teria de ser o fruto maduro de exercícios de crítica responsável e consciente por parte da comunidade pensante?


Migrar é situação criativa, mas dolorosa. Toda uma literatura trata da relação entre criatividade e sofrimento. Quem abandona a pátria (por necessidade ou decisão, e as duas são dificilmente separáveis), sofre. Porque mil fios o ligam à pátria, e quando estes são amputados, é como se intervenção cirúrgica tenha sido operada. Quando fui expulso de Praga (ou quando tomei a decisão corajosa de fugir), vivenciei o colapso do universo. É que confundi o meu intimo com o espaço lá fora. Sofri as dores dos fios amputados. Mas depois, na Londres dos primeiros anos da guerra, e com a premonição do horror dos campos, comecei a me dar conta de que tais dores não eram as de operação cirúrgica, mas de parto. Dei-me conta de que os fios cortados me tinham alimentado, e que estava sendo projetado para a liberdade. Fui tomado pela vertigem da liberdade, a qual se manifesta pela inversão da pergunta “livre de quê” em “livre para fazer o quê”. E assim somos todos os migrantes: seres tomados de vertigem. [7]


Sei que Vilém Flusser tem algo a nos dizer. Algo para nos inquietar. Este livro, que ora publicamos, é apenas o começo. Sejamos livres para ouvi-lo. E exerçamos com liberdade o direito de pensar.


Maria Lilia Leão

Apoio à edição brasileira
Fred Jordan
José Bueno
José Longman
Maria Lilia Leão
Milton Vargas
Rodolfo Geiser.



fim

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1. Trecho de conferência, “Apátridas e Patriotas”, proferida por V. Flusser no II Seminário Internacional “Kornhaus”, Weiler, 1985.
2. Filosofia da Caixa Preta, na Ed. Brasileira, 1985.
3. Carta de V. Flusser, 1983.
4. Op. cit. in (1).
5. Op. cit. in (1).
6. Op. cit. in (1)
7. Op. cit. in (1)
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SOBRE O AUTOR 
na edição brasileira de 1985


Nascido em Praga em 1920, Vilém Flusser iniciou seus estudos de Filosofia na Universidade Carolíngia de Praga, em 1933. Emigrou para Londres em 1940 e para São Paulo em 1941. Seus primeiros ensaios sobre Linguística e Filosofia foram publicados 1957 no “Suplemento Literário” d’O Estado de São Paulo, do qual passou a ser colaborador constante. Em 1962 tornou-se membro do Instituto Brasileiro de Filosofia e professor de Filosofia da Comunicação na Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo. Tornou-se co-editor da Revista Brasileira de Filosofia em 1964 tendo sido nomeado delegado especial do Ministério das Relações Exteriores para cooperação cultural com os Estados Unidos e a Europa, em 1966. Entre 1965 e 1970, organizou seminários e conferências no Departamento de Humanidades do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) sobre a Filosofia da Linguagem e abriu espaço em jornal par escrever crônicas diárias sobre filosofia do cotidiano (“Posto Zero”, da Folha de São Paulo). Em 1972, mudou-se para a Itália e, em 1976, para a França, onde reside atualmente, publicando principalmente na Alemanha e França. Publicou os livros: Língua e Realidade (São Paulo, Herder, 1963); A História do Diabo (São Paulo, Martins, 1965); Da Religiosidade (São Paulo, Comissão Estadual de Cultura, 1967); La Force du Quotidien (Paris, Mame, 1972); Le Monde Codifié (Paris, Institut de l’Enviroment, 1972); Naturalmente (São Paulo, Duas Cidades, 1979); Pós – História (São Paulo, Duas Cidades, 1982); Für eine Philosophie der Fotografie (Göttingen, European Photography, 1983); Ins Universum der technischen Bilder (Göttingen, European Photography, 1985).




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Flusser, Vilém, 1920 – 
Filosofia da caixa preta – São Paulo : Hucitec, 1985. - 92 p. 

EDITORA HUCITEC
São Paulo, 1985
Direitos autorais 1983 de Vilém Flusser. Título do original alemão: Für eine Philosophie der Fotografie. Tradução do autor. Direitos de publicação em língua portuguesa reservados pela Editora de Humanismo, Ciência e Tecnologia “Hucitec” Ltda., Rua Comendador Eduardo Saccab, 344 – 04602 – São Paulo, Brasil. Tel.: (011) 61-6319. 
Projeto gráfico: Estúdio Hucitec. 
Capa: Fred Jordan. 
Flusser : Filosofia da Caixa Preta (Flusser e a Liberdade de Pensar)

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pequena nota de rodapé...

Ontológico é um adjetivo que define tudo que diz respeito à ontologia, ou seja, que investiga a natureza da realidade e da existência.


sábado, 19 de novembro de 2022

Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 8. Mostrar um inferno não significa

Diante da Dor dos Outros


para David

… aux vaincus!
Baudelaire

A sórdida mentora, a Experiência...
Tennyson


8..



Mostrar um inferno não significa, está claro, dizer-nos algo sobre como retirar as pessoas do inferno, como amainar as chamas do inferno. Contudo, parece constituir um bem em si mesmo reconhecer, ampliar a consciência de quanto sofrimento causado pela crueldade humana existe no mundo que partilhamos com os outros. Alguém que se sinta sempre surpreso com a existência de fatos degradantes, alguém que continue a sentir-se decepcionado (e até incrédulo) diante de provas daquilo que os seres humanos são capazes de infligir, em matéria de horrores e de crueldades a sangue-frio, contra outros seres humanos, ainda não alcançou a idade adulta em termos morais e psicológicos.

Ninguém, após certa idade, tem direito a esse tipo de inocência, de superficialidade, a esse grau de ignorância ou amnésia.

Existe, agora, um vasto repertório de imagens que torna mais difícil a manutenção dessa deficiência moral. Deixemos que as imagens atrozes nos persigam. Mesmo que sejam apenas símbolos e não possam, de forma alguma, abarcar a maior parte da realidade a que se referem, elas ainda exercem uma função essencial. As imagens dizem: é isto o que seres humanos são capazes de fazer — e ainda por cima voluntariamente, com entusiasmo, fazendo-se passar por virtuosos. Não esqueçam.

Isso não é absolutamente o mesmo que pedir às pessoas que recordem um surto de maldade especialmente monstruoso. (“Nunca esqueçam.”) Talvez se atribua um valor demasiado à memória, e pouco valor ao pensamento. Recordar é um ato ético, tem um valor ético em si mesmo e por si mesmo. A memória é, de forma dolorosa, a única relação que podemos ter com os mortos. Portanto a crença de que recordar constitui um ato ético é profunda em nossa natureza de seres humanos, pois sabemos que vamos morrer e ficamos de luto por aqueles que, no curso normal da vida, morrem antes de nós — avós, pais, professores e outros amigos. Insensibilidade e amnésia parecem andar juntas. Mas a história dá sinais contraditórios no tocante ao valor de recordar, quando se trata do período muito mais longo que corresponde a uma história coletiva. Existe simplesmente injustiça demais no mundo. E recordar demais (agressões antigas: sérvios, irlandeses) gera rancor. Fazer as pazes significa esquecer. Para reconciliar-se, é necessário que a memória seja imperfeita e limitada.

Se o objetivo é ter um espaço para viver a própria vida, então é desejável que o registro de injustiças específicas se dilua em uma compreensão mais geral de que os seres humanos de toda parte cometem coisas terríveis uns contra os outros.


Plantados diante das telinhas — televisões, computadores, palmtops —, podemos surfar por imagens e notícias sucintas a respeito de desgraças em todo o mundo. Parece haver uma quantidade de notícias desse tipo maior do que havia antes. Provavelmente isso é uma ilusão. Ocorre apenas que a difusão de notícias abrange “o mundo inteiro”. E o sofrimento de determinadas pessoas tem um interesse muito mais intrínseco para determinado público (admitindo-se que o sofrimento deva ter um público) do que o sofrimento de outras pessoas. A circunstância de as notícias sobre guerra estarem hoje disseminadas por todo o mundo não significa que a capacidade de pensar nas aflições de pessoas distantes tenha se tornado significativamente maior. Na vida moderna — vida em que há uma superabundância de coisas a que somos chamados a prestar atenção —, parece normal dar as costas para imagens que nos fazem simplesmente sentir-nos mal. Muito mais pessoas mudariam de canal caso os noticiários dedicassem mais tempo a detalhes do sofrimento humano causado por guerra e outras infâmias. Mas, provavelmente, não é verdade que as pessoas estejam menos sensíveis.

O fato de não estarmos completamente transformados, de podermos dar as costas, virar a página, mudar de canal, não impugna o valor ético de uma agressão por meio de imagens. Não é um defeito o fato de não ficarmos atormentados, de não sofrermos o bastante quando vemos essas imagens. Tampouco tem a foto a obrigação de remediar nossa ignorância acerca da história e das causas do sofrimento que ela seleciona e enquadra. Tais imagens não podem ser mais do que um convite a prestar atenção, a refletir, aprender, examinar as racionalizações do sofrimento em massa propostas pelos poderes constituídos. Quem provocou o que a foto mostra? Quem é responsável? É desculpável? É inevitável? Existe algum estado de coisas que aceitamos até agora e que deva ser contestado? Tudo isso com a compreensão de que a indignação moral, assim como a compaixão, não pode determinar um rumo para a ação.

A frustração de não ser capaz de fazer nada a respeito daquilo que as imagens mostram pode se traduzir numa acusação contra a indecência de olhar tais imagens, ou das indecências existentes nas maneiras como tais imagens são disseminadas — ladeadas, como pode muito bem ocorrer, por publicidade de cremes emolientes, analgésicos e automóveis caríssimos. Se pudéssemos fazer algo a respeito daquilo que as imagens mostram, talvez não nos preocupássemos tanto com essas questões.

As imagens têm sido criticadas por representarem um modo de ver o sofrimento à distância, como se existisse algum outro modo de ver. Porém, ver de perto — sem a mediação de uma imagem — ainda é apenas ver.

Algumas críticas contra imagens de atrocidade não diferem da caracterização do próprio ato de olhar. Olhar não requer esforço; requer uma distância espacial; o olhar pode ser desligado (não temos portas nos ouvidos, mas nos olhos dispomos das pálpebras). Os mesmos atributos que levaram os antigos filósofos gregos a considerar a visão o mais elevado e nobre de nossos sentidos estão agora associados a uma deficiência.

Há a sensação de que existe algo moralmente errado na ementa da realidade oferecida pela fotografia; de que não se tem o direito de experimentar à distância o sofrimento dos outros, despido da sua força crua; de que pagamos um preço humano (ou moral) demasiado alto por esses atributos da visão até agora admirados — o afastamento da agressividade do mundo, posição que nos deixa livres para a observação e a atenção eletiva. Mas isso é apenas descrever a própria função da mente.

Nada há de errado em pôr-se à parte e pensar. Não se pode pensar e bater em alguém ao mesmo tempo.


continua pág 318...

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Leia também:

Susan Sontag - Na Caverna de Platão (01)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 1. (1)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 1. (2)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 1. (3)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 2. (1)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 2. (2)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 2. (3)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 2. (4)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 2. (5)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 3. (1)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 3. (2)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 3. (3)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 3. (4)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 4. (1)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 4. (2)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 4. (3)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 4. (4)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 5. (1)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 5. (2)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 5. (3)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 6. (1)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 6. (2)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 7. (1)
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 7. (2) 
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 8. 
Susan Sontag - Diante da dor dos outros - 9. 
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"Quando o mundo estiver unido
na busca do conhecimento, e
não mais lutando por dinheiro e
poder, então nossa sociedade
poderá enfim evoluir a um novo
nível."

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"... conversar me dá a chance de saber o que penso...,
mas se não escutar continuo conversando comigo mesmo."