sábado, 3 de outubro de 2026

Augusto dos Anjos - Mater 0riginalis

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


Mater 0riginalis

Forma vermicular desconhecida
Que estacionaste, mísera e mofina,
Como quasi impalpavel gelatina,
Nos estados prodrómicos da vida;

O hierophante que leu a minha sina
Ignorante é de que és, talvez, nascida
Dessa homogeneidade indefinida
Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.

Nenhuma ignota união ou nenhum nexo
A' contingência orgânica do sexo
A tua estacionaria alma prendeu.

Ah! de ti foi que, autônoma e sem normas,
Oh! Mãe original das outras fôrmas,
A minha fôrma lugubre nasceu!


O Lupanar 

Ah! Porque monstruosissimo motivo 
Prenderam para sempre, nesta rede, 
Dentro do angulo diédro da parede, 
A alma do homem polygamo e lascivo?! 

Este logar, moços do mundo, vede: 
E' o grande bebedouro collectivo, 
Onde os bandalhos, como um gado vivo, 
Todas as noites, vêm matar a sede! 

E' o aphrodistico leito do hetaírismo, 
A antecámara lúbrica do abysmo, 
Em que é mister que o gênero humano entre, 

Quando a promiscuidade aterradora 
Matar a ultima força geradora 
E comer o ultimo óvulo do ventre.


Idealismo

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo! 
O amor na Humanidade é uma mentira. 
E' E é por isto que na minha lyra 
De amores futeis poucas vezes falo. 

O amor! Quando virei por fim a amal-o?! 
Quando, si o amor que a Humanidade inspira 
E' o amor do sybarita e da hetaira, 
De Messalina e de Sardanapálo?! 

Pois é mister que, para o amor sagrado, 
O mundo fique immaterialisado 
— Alavanca desviada do seu fulcro — 

E haja só amizade verdadeira 
Duma caveira para outra caveira, 
Do meu sepulchro para o teu sepulchro?!

Continua na página 48...
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Leia também:
Budhismo Moderno / Mater Originalis /     
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

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