sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Odisseia: Parte II (Canto VII.a - Entrada de Odisseu na casa de Alcínoo)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹ 
Canto VII

Entrada de Odisseu na casa de Alcínoo

    “Atena se faz presente para Odisseu e mostra-lhe a casa de Alcínoo. Odisseu, se aproximando, se lança aos joelhos de Arete, e pede para ela enviá-lo de volta à sua pátria. Alcínoo concorda, o coloca ao seu lado e lhe oferece comida. Arete reconhece as roupas e lhe pergunta de onde as conseguiu. Odisseu então lhes conta os acontecimentos desde a ilha de Calipso, seu naufrágio, sua chegada e que, pedindo, recebeu de Nausícaa as roupas.” (Scholie H V)



   Dessa maneira o divino e sofrido Odisseu implorava. 
Para a cidade a donzela levaram as mulas robustas. 
Mas, quando em frente Nausícaa chegou do palácio paterno, 
fê-las parar no portal. Os irmãos rodearam-na logo, 
aos imortais semelhantes, e as mulas tiraram do carro, 
indo, depois, toda a roupa levar para dentro da casa. 
Para o seu quarto ela, então, se encaminha, onde lume lhe acende 
Eurimedusa, nascida em Apira, sua velha servente, 
que, havia muito, trouxeram da pátria os navios simétricos,

e para Alcínoo escolhida ficou como prêmio condigno, 
pois comandava os Feácios, qual deus acatado entre o povo. 
Fora por ela criada na casa a amorável Nausícaa. 
Ora a lareira acendeu e aprestou o repasto da noite. 
   Para a cidade, no entanto, Odisseu se dirige, cercado 
de bruma espessa, que Palas derrama, do herói cuidadosa, 
não o encontrasse em caminho nenhum dos Feácios magnânimos, 
que, porventura, o insultasse, ou quisesse saber quem ele era. 
Mas, quando quase no ponto se achava da amena cidade, 
a de olhos glaucos, Atena, ao encontro lhe veio na forma

de uma donzela, que um cântaro de água nos ombros trazia. 
Ante o divino Odisseu se detém. Este aí lhe pergunta: 
“Minha menina, não queres mostrar-me onde fica o palácio 
do rei Alcínoo, que a todas as gentes da terra comanda? 
Sou estrangeiro, provado em trabalhos infindos e grandes; 
venho de terras longínquas, motivo por que desconheço 
quem na cidade demora e que povo o país todo habita.” 
   A de olhos glaucos, Atena, lhe disse o seguinte, em resposta: 
“Hóspede amigo, é mui fácil mostrar-te o palácio que buscas. 
Fica bem perto da casa em que mora meu pai de alta fama.

Segue calado, que eu própria hei à frente o caminho indicar-te; 
não te detenhas a olhar a ninguém, nem lhe faças perguntas. 
Os moradores daqui não recebem nenhum forasteiro 
de boa mente, nem dão acolhida aos que vêm de outras terras. 
Sempre confiados nas céleres naus, atravessam velozes 
o mar imenso. O que a terra sacode lhes deu tal ofício. 
São-lhes as naus mais ligeiras que as asas e que o pensamento.”¹
   Palas Atena, depois que isso disse, se pôs a guiá-lo, 
rapidamente; ele, empós, as pegadas da deusa seguia, 
sem que os Feácios, amantes do remo, o tivessem sentido,

quando através da cidade e do povo passou. Isso impede 
Palas, de tranças bem-feitas, a deusa potente, que névoa 
prodigiosa lhe lança em redor, porque muito o estimava. 
Vê, admirado, Odisseu as simétricas naves, os portos, 
a ágora das reuniões dos heróis e os compridos, os altos 
muros, providos de estacas, à vista espetác’lo soberbo. 
Quando chegaram, porém, ao palácio admirável de Alcínoo,
a de olhos glaucos, Atena, lhe disse as seguintes palavras: 
   “Hóspede amigo, chegamos à casa que, há pouco, pedias 
se te mostrasse. Num lauto festim hás de ver os regentes,

de Zeus discípulos. Vai para dentro, não mostres receio. 
Quem tem coragem consegue levar a bom termo as empresas 
em que se mete, ainda mesmo que venha de terra estrangeira. 
Primeiramente, hás de a dona da casa encontrar na ampla sala. 
Tem ela o nome de Arete; do mesmo casal ela veio 
que o rei Alcínoo gerou, pois, de fato, Nausítoo primeiro 
foi por Posido gerado, o que os muros da terra sacode, 
e Peribeia, a mais linda entre todas as outras mulheres, 
de Eurimedonte a caçula, dotado de espírito grande, 
que entre os Gigantes altivos reinou nas idades passadas.

Mas ele mesmo a si próprio destruiu, com seu povo descrente. 
Tendo-se à filha formosa ligado, Posido deu vida 
ao dos Feácios regente, Nausítoo, de espírito grande. 
De Rexenor e de Alcínoo, por último, o pai foi Nausítoo. 
Sem descendente varão, por Apolo foi morto o primeiro, 
recém-casado, deixando somente uma filha na casa, 
de nome Arete, que Alcínoo, por fim, recebeu como esposa, 
e com tão grande respeito a cercando, qual nunca na terra 
se viu mulher, entre todas que as casas dos homens governam. 
Dessa maneira foi ela estimada e ainda agora o está sendo

pelos seus filhos queridos e mais por Alcínoo, assim como 
por todo o povo, que tal como deusa imortal a venera, 
quando atravessa a cidade, e a festeja com ledos saudares. 
É que, em verdade, tem muito bom senso: dirime as contendas 
das que lhe são afeiçoadas e os próprios litígios dos homens. 
Caso te escute e em seu peito propícia se mostre à tua sorte, 
podes a esp’rança afagar de rever os amigos, e a casa 
bem-construída voltar, assim como ao torrão de nascença.” 
   A de olhos glaucos, Atena, afastou-se ao dizer tais palavras, 
por sobre o mar infecundo. Partindo da Esquéria amorável

Maratona se foi e a de estradas mui largas, Atenas, 
ao de Erecteu bem-construído palácio. Odisseu, entrementes, 
chega à morada esplendente de Alcínoo; detém-se volvendo 
mil conjeturas, primeiro que a brônzea soleira passasse, 
pois se espalhava um fulgor semelhante ao do Sol ou da Lua 
pela morada de teto elevado de Alcínoo magnânimo. 
De ambos os lados, cobertos de bronze, estendiam-se muros 
desde a fachada até o fundo, encimados por friso azulado. 
Portas com lâminas de ouro o palácio fechavam por dentro, 
com seus batentes de prata apoiados em brônzea soleira.

Era de prata a arquitrave, porém era o anel todo de ouro. 
De ouro e de prata, de cada um dos lados, dois cães se encontravam, 
obra de Hefesto, que os tinha com arte extremada acabado, 
para que a casa guardassem de Alcínoo, de peito magnânimo, 
pois não se achavam sujeitos ao tempo, nem velhos ficavam. 
Lá se encontravam poltronas postadas ao longo dos muros, 
desde a fachada até ao fundo, em fileiras; por cima das mesmas 
panos havia de fino lavor, das mulheres trabalho. 
Tinham os chefes Feácios ali por costume sentar-se 
para comer e beber; os banquetes duravam todo o ano.

De ouro se viam crianças em cima de altares bem-feitos, 
sempre de pé, nas mãozinhas sustendo brilhantes archotes, 
a iluminar toda a noite o palácio, durante os banquetes. 
Eram cinquenta as escravas, que, ao todo, se achavam na casa; 
delas, algumas os grãos alourados no moinho trituram; 
outras, sentadas em filas, quais folhas de choupo altanado, 
tecem no tear finas telas, ou fios no fuso preparam. 
Da tecedura do linho bem-feito óleo líquido estila. 
Do mesmo modo que os homens Feácios a todos se extremam 
no governar os navios velozes no mar, as mulheres

sabem tecer com perícia, pois Palas Atena lhes dera 
mente elevada e perícia em trabalhos de bela feitura. 
Fora do pátio se encontra um jardim, logo ao lado da porta, 
de quatro jeiras, cingido de todos os lados por sebes. 
Árvores grandes se criam aí dentro, com viço admirável. 
Veem-se pereiras, romeiras, macieiras, de frutos esplêndidos, 
mais oliveiras viçosas e figos mui doces ao gosto. 
Nelas jamais faltam frutos, nem nunca tais frutos se estragam; 
já no verão, já no inverno, durante o correr do ano todo 
Zéfiro faz que uns madurem, enquanto crescendo vão outros.

Seguem-se a peras mais peras; maçãs a maçãs substituem; 
vêm depois da uva outras uvas, ao figo outros figos sucedem. 
Para o monarca plantaram, também, uma vinha viçosa; 
cachos alguns em lugares apricos e planos são postos 
para secarem ao sol; outros são vindimados e, destes, 
pouco pisados. Na parte anterior dessa vinha se encontram 
cepas que flores desprendem; as uvas por trás já se coram. 
Na parte extrema desse horto se encontram canteiros bem-feitos 
de variados legumes, que verdes estão o ano todo. 
Veem-se, também, duas fontes; por todo o jardim uma delas

é distribuída; outra passa por baixo da porta do pátio, 
para o palácio elevado, onde o povo sói dela servir-se. 
   Estes os dons admiráveis, que os deuses a Alcínoo fizeram. 
   Para, a admirar o divino e sofrido Odisseu quanto via. 
Mas, depois que se saciara na vista daquele espetáculo, 
rapidamente atravessa o limiar e na casa penetra. 
Os conselheiros e chefes do povo Feácio achou dentro, 
que, com suas taças, libavam ao certeiro Argeifontes, 
o que faziam por último, antes de vir-lhes o sono. 
Corta através do palácio o divino e sofrido guerreiro,

na névoa espessa escondido, que Atena lhe em torno deitara,
té não ser junto de Arete e do rei dos Feácios, Alcínoo. 
Corre a atirar-se Odisseu aos joelhos de Arete, e os abraça 
no próprio instante em que a névoa envolvente de todo se espalha. 
Os circunstantes quedaram silentes, ao verem um homem 
dentro da casa; entreolharam-se todos. O herói lhe suplica: 
   “Filha do herói Rexenor, semelhante a um dos deuses, Arete! 
Pós ter passado trabalhos sem conta, de ti me aproximo, 
de teu esposo e dos outros convivas. Os deuses lhes deem 
vida feliz, e que deixe cada um para os filhos tesouros,

que no palácio ajuntaram, bem como honrarias do povo. 
Dai-me, porém, uma escolta, que à pátria, depressa, me leve, 
pois sofrimentos suporto, há bem tempo, distante de casa.” 
   Tendo isso dito, sentar-se foi ele à lareira, na cinza, 
junto do fogo. As pessoas presentes ficaram caladas. 
Mas, decorrido algum tempo, falou Equeneu valoroso, 
que se prezava de ser o mais velho dos homens Feácios, 
de muita e antiga experiência, e extremado em dizer bons discursos. 
Cheio de bons pensamentos, diz ele, arengando, o seguinte: 
   “Ó rei Alcínoo, não julgo decente, nem belo, deixarmos

que um estrangeiro se sente no chão e na cinza, à lareira. 
Os circunstantes aguardam somente que dês tu o exemplo. 
Vamos! Levanta o estrangeiro e o conduze a sentar-se em poltrona 
cheia de ornatos de prata; em seguida, aos arautos dá ordens 
para que o vinho misturem, e todos a Zeus ofertemos, 
fulminador, que acompanha em seus passos os nobres pedintes. 
A despenseira repasto lhe apreste do que há no palácio.”²
Mal tais palavras ouviu, a de Alcínoo sagrada potência 
toma a Odisseu pela mão, o prudente e solerte guerreiro, 
fê-lo sair da lareira e num trono esplendente assentar-se,

continua página 761...
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Prelúdio
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] O trecho é um momento belíssimo da Odisseia, apresenta Odisseu em um momento de vulnerabilidade e transição, chegando à terra dos Feácios sob a proteção direta de Atena, que o envolve em névoa para evitar encontros hostis antes que ele alcance o palácio de Alcínoo. A aparição da deusa disfarçada de donzela reforça o tema homérico da intervenção divina e da astúcia como ferramentas essenciais para a sobrevivência do herói. Ao orientar Odisseu a caminhar em silêncio e evitar contato com os habitantes, Atena revela o caráter reservado e quase sobrenatural dos Feácios, navegadores excepcionais que não acolhem facilmente estrangeiros. Assim, o episódio combina tensão, cuidado divino e preparação narrativa para o acolhimento que transformará o destino do herói, marcando o limiar entre o sofrimento das viagens e o início do retorno possível.
- O que acontece nesse trecho?
1. Odisseu chega à cidade dos Feácios envolto em névoa: a névoa é obra de Atena. Ela o protege para que nenhum feácio o veja, o hostilize ou o interrogue antes do momento certo. É um gesto de cuidado divino: Odisseu está exausto, vulnerável e ainda desconhecido naquela terra.
2. Atena aparece disfarçada: quando Odisseu se aproxima da cidade, Atena surge na forma de uma jovem carregando um cântaro de água — uma figura comum e inofensiva. Odisseu, sempre prudente, pergunta a ela onde fica o palácio do rei Alcínoo.
3. Odisseu se apresenta como estrangeiro: ele explica que vem de longe, sofreu muito e não conhece o povo nem a cidade. É a postura típica do herói suplicante: humilde, direto, buscando hospitalidade.
4. Atena orienta Odisseu: ela diz que o palácio é fácil de encontrar e que ele deve segui‑la em silêncio. A deusa alerta: * os feácios não recebem bem estrangeiros; * são um povo marítimo, veloz, quase sobrenatural em suas viagens; * suas naus são mais rápidas que asas ou pensamento — uma imagem poderosa que Homero usa para marcar a natureza quase mágica desse povo. Atena, portanto, não só guia Odisseu fisicamente, mas também o prepara para lidar com uma sociedade peculiar, reservada e desconfiada.
- Significado dentro da narrativa.
1. Proteção divina: Atena continua sendo a principal aliada de Odisseu.
2. Transição importante: Ele está prestes a entrar no último grande episódio antes do retorno a Ítaca.
3. Retrato dos Feácios: Um povo limítrofe entre o humano e o fantástico, essencial para o desfecho da epopeia.

[2] O trecho mostra um momento decisivo de acolhimento e reconhecimento social dentro da Odisseia: Odisseu, ainda na posição de suplicante, dirige-se diretamente a Arete — figura central entre os Feácios — adotando a postura ritual de humildade que marca sua dependência da hospitalidade alheia. Sua fala combina respeito, elogio e súplica, revelando tanto sua vulnerabilidade quanto sua habilidade diplomática. A reação inicial dos presentes, silenciosa, evidencia a tensão do encontro: o estrangeiro ainda não foi integrado ao círculo social. É Equeneu, o mais velho e sábio, quem rompe o silêncio e lembra Alcínoo das normas de hospitalidade, reforçando o valor cultural do xénos e a obrigação moral de acolher o suplicante. Assim, o episódio dramatiza a passagem de Odisseu da condição de desconhecido à de hóspede legítimo, destacando a importância da hospitalidade como eixo ético e narrativo da epopeia.

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