Max Weber
(1864-1920)
I
Filiação religiosa e estratificação social
Uma simples olhada nas estatísticas ocupacionais de qualquer país de composição religiosa
mista mostrará, com notável frequência, uma situação que muitas vezes provocou
discussões na imprensa e literatura católicas e nos congressos católicos, principalmente na
Alemanha: o fato que os homens de negócios e donos do capital, assim como os
trabalhadores mais especializados e o pessoal mais habilitado técnica e comercialmente das
modernas empresas é predominantemente protestante.
Este fato não se verifica apenas onde a diferença de religião coincide com uma
nacionalidade, e portanto com seu desenvolvimento cultural, como no caso da Alemanha
oriental e da Polônia. Observamos a mesma coisa onde se fez levantamentos de filiação
religiosa, por onde quer que o capitalismo, na época de sua grande expansão, pôde alterar a
distribuição social conforme suas necessidades e determinar a estrutura ocupacional.
Quanto maior foi a liberdade de ação, mais claro o efeito apontado.
É bem verdade que a maior participação relativa dos Protestantes na propriedade do capital,
na direção e nas esferas mais altas das modernas empresas comerciais e industriais pode em
parte ser explicada pelas circunstâncias históricas oriundas de um passado distante, nas
quais a filiação religiosa não poderia ser apontada como causa de condição econômica, mas
até certo ponto parece ser resultado daquela.
A participação nas funções econômicas envolve geralmente alguma posse de capital e uma
dispendiosa educação e, muitas vezes, de ambas. Hoje tais coisas são largamente
dependentes da posse de riqueza herdada, ou, no mínimo, de certo bem estar material. Certo
número dos domínios do velho império, que eram mais economicamente desenvolvidos,
mais favorecidos pela situação e recursos naturais, particularmente a maioria das cidades
mais ricas, aderiram ao Protestantismo no século XVI.
Os resultados de tais circunstâncias favorecem os protestantes, até hoje, na sua labuta pela
existência econômica. Surge assim a indagação histórica: porque os lugares de maior
desenvolvimento econômico foram, ao mesmo tempo, particularmente propícios a uma
revolução dentro da Igreja? A resposta não é tão simples como se poderia pensar.
A emancipação do tradicionalismo econômico parece sem dúvida ser um fator que apóia
grandemente o surgimento da dúvida quanto à santidade das tradições religiosas e de todas
as autoridades tradicionais. Devemos porém notar, fato muitas vezes esquecido, que a
Reforma não implicou na eliminação do controle da Igreja sobre a vida quotidiana, mas na
substituição por uma nova forma de controle. Significou de fato o repúdio de um controle
que era muito frouxo e, na época praticamente imperceptível, pouco mais que formal, em favor de uma regulamentação da conduta como um todo, que penetrando em todos os
setores da vida pública e privada, era infinitamente mais opressiva e severamente imposta.
A regra da Igreja Católica ,”punindo o herege, mas perdoando o pecador”, mais no passado
do que no presente, é hoje tolerada pelas pessoas de caráter econômico completamente
moderno, e nasceu entre as camadas mais ricas e economicamente mais avançadas do
mundo por volta do século XV. Por outro lado, a regra do Calvinismo como foi imposta no
século XVI em Genebra e na Escócia, entre o século XVI e XVII em grande parte da
Holanda e no século XVII na Nova Inglaterra e, por algum tempo na própria Inglaterra, se
tornaria a forma mais intolerável de controle eclesiástico do indivíduo que já pôde existir. E
foi exatamente isso que foi sentido por uma grande parte da velha aristocracia comercial da
época de Genebra, da Holanda e da Inglaterra. E a queixa dos reformadores, nesta regiões
de grande desenvolvimento econômico, não era o excesso de controle da vida por parte da
Igreja, mas a sua falta.
Como, pois, aconteceu que os países mais economicamente avançados da época, e suas
classes médias burguesas, não só não se opuseram a esta tirania inédita do Puritanismo,
como chegaram a desenvolver sua heroica defesa? A burguesia raramente mostrara tal
heroísmo antes e nunca ó mostrou depois. Foi o “nosso último heroísmo”, como disse
Carlyle não sem-razão.
Além disso há algo especialmente importante: pode ser, como já foi aventado, que a maior
participação dos protestantes nas posições de proprietário e de dirigente na moderna vida
econômica seja entendida hoje, pelo menos em parte, simplesmente como resultado da
maior riqueza material herdada por eles. Contudo, há certos fenômenos que não podem ser
explicados por esse caminho. Só para citar alguns, há uma grande diferença perceptível, em
Baden, na Baviera e na Hungria, no tipo de educação superior que católicos e protestantes
proporcionam a seus filhos. O fato de a porcentagem de católicos entre os estudantes e os
formados nas instituições de ensino superior ser proporcionalmente inferior à população
total, pode, certamente, ser largamente explicado em termos de riqueza herdada. Porém,
entre os próprios formados católicos, a porcentagem dos que receberam formação em
instituições que preparam especialmente para os estudos técnicos e ocupações comerciais e
industriais, e em geral para a vida de negócios de classe média, é muito inferior à dos
protestantes. Por sua vez, os católicos preferem o tipo de aprendizagem oferecido pelos
ginásios humanísticos. Essa é uma circunstância à qual não se aplica a explicação acima
apontada, mas que, ao contrário, é uma das razões do pequeno engajamento dos católicos
nas empresas capitalistas.
Mais notável ainda é um fato que explica parcialmente a menor proporção de católicos
entre os trabalhadores especializados na moderna indústria. Sabe se que as fábricas
arregimentaram boa parte de sua mão de obra especializada entre os jovens artesãos;
contudo, isso é muito mais verdadeiro para os diaristas protestantes que para os católicos.
Em outras palavras, entre os diaristas católicos parece preponderar uma forte tendência a
permanecer em suas oficinas, e tornar com frequência mestres artesãos, enquanto os
protestantes são fortemente atraídos para as fábricas, para nelas ocuparem cargos superiores
de mão de obra especializada e posições administrativas.
A explicação desses casos é, sem dúvidas que as peculiaridades mentais e espirituais
adquiridas do meio ambiente, especialmente do tipo de educação favorecido pela atmosfera
religiosa da família e do lar, determinaram a escolha da ocupação e, por isso, da carreira.
A menor participação dos católicos na moderna vida de negócios da Alemanha é tão
notável justamente porque contraria a tendência observada em todos os tempos,” até
mesmo no presente.
As minorias nacionais ou religiosas, em posição de subordinação em relação a um grupo de
governantes, pela sua exclusão voluntária ou involuntária das posições de influência
política, são aparentemente engajadas com especial vigor nas atividades econômicas. Seus
membros mais aptos buscam o reconhecimento de suas habilidades nesse campo, uma vez
que não há oportunidades a serviço do Estado.
Isso, sem dúvida, mostrou se verdadeiro com os poloneses na Rússia e na Prússia Oriental,
onde, contrariamente ao que ocorreu na Galícia, de onde provinham, conseguiram um
desenvolvimento econômico mais rápido. O mesmo ocorreu em outros tempos com os
huguenotes, na França de Luís XIV, com os não conformistas e quakers na Inglaterra, e
finalmente com os judeus durante os últimos dois mil anos. Mas os católicos da Alemanha
não mostraram nenhuma evidência desse tipo. Também no passado, contrariamente aos
protestantes quer da Holanda quer da Inglaterra, na época em que eram perseguidos ou
apenas tolerados, não alcançaram desenvolvimento econômico relevante. Resta, por outro
lado, observar o fato de os protestantes (especialmente certos ramos do movimento, que
serão amplamente discutidos adiante), quer como classe dirigente, quer como subordinada,
tanto em maioria como em minoria, terem mostrado uma especial tendência para
desenvolver o racionalismo econômico, fato que não pode ser observado entre os católicos
em qualquer das situações citadas.` A explicação principal de tais diferenças deve pois ser
procurada no caráter intrínseco permanente de sua crenças religiosas, e não apenas em suas
situações temporárias externas, históricas e políticas.
Nossa tarefa será investigar essas religiões com o intuito de descobrir as particularidades
que têm ou que tiveram, que resultaram no comportamento descrito acima. Numa análise
superficial, e com base em certas impressões comuns, poderíamos ser tentados a admitir
que a menor mundanidade do catolicismo, o caráter ascético de seus mais altos ideais tenha
induzido seus seguidores a uma maior indiferença para com as boas coisas deste mundo. E
tal explicação reflete a tendência de julgamento popular de ambas as religiões.
Do lado protestante, é usada como base das críticas de tais ideais ascéticos (reais ou
imaginários) do modo de viver católico, enquanto os católicos respondem com a acusação
de que o materialismo resulta da secularização de todos os ideais pelo protestantismo.
Um escritor contemporânea tentou definir a diferença de atitudes diante da vida econômica
da seguinte maneira: “O católico é mais quieto, tem menor impulso aquisitivo; prefere uma
vida a mais segura possível, mesmo tendo menores rendimentos, a uma vida mais excitante
e cheia de riscos, mesmo que esta possa lhe propiciar a oportunidade de ganhar honrarias e
riquezas. Diz o provérbio, jocosamente: “Coma ou durma bem”. Neste caso, o protestante
prefere comer bem, e o católico, dormir sossegado”.
De fato, esse desejo de “comer bem” pode ser encarado como uma caracterização correta,
embora incompleta, da motivação de muitos dos protestantes da Alemanha atual. Mas as
coisa nem sempre foram assim: os puritanos ingleses, americanos e holandeses tinham a
característica exatamente oposta à alegria de viver, um fato que é, como veremos, da maior
importância para o nosso estudo. Além disso, os protestantes franceses, entre outros,
conservaram e ainda conservam, em certa medida até hoje, as características das igrejas
calvinistas de todos os países, especialmente as sob a cruz do tempo das guerras religiosas.
Não obstante, tais características foram (ou talvez tenham sido até as causas, como
indagaremos mais adiante) sabidamente um dos mais importantes fatores de
desenvolvimento do capitalismo e da indústria na França, e assim permaneceu, na pequena
escala permitida pelas perseguições que sofreram. Se pudermos chamar essa seriedade e
predominância de interesses religiosos na conduta geral da vida de alheamento da matéria,
então os calvinistas franceses foram e ainda são tão desapegados do mundo quanto os
católicos do norte da Alemanha, para os quais sua fé é tão vital como para poucos povos no
mundo.
Ambos diferem de modo semelhante da tendência religiosa predominante em seus
respectivos países. Os católicos da França são, em seus escalões inferiores, grandemente
interessados nos prazeres da vida e, nas camadas superiores, francamente hostis à religião.
Os protestantes da Alemanha, do mesmo modo, são absorvidos pelas atividades
econômicas diuturnas e, nas suas camadas superiores, são muito indiferentes à religião. Dificilmente alguma coisa poderá mostrar tão claramente como essa comparação que, tais
vagas ideias, como o suposto desapego do Catolicismo e da suposta alegria materialista do
Protestantismo, e outras semelhantes, de nada servem para o nosso propósito. Tais termos
gerais de diferenciação não refletem os fatos de hoje, e certamente nem mesmo os
passados.
Se contudo alguém quiser delas se utilizar, deverá associar lhe diversas outras observações
que sugiram que o aparente conflito entre o desapego, o ascetismo e a devoção eclesiástica
de um lado, e a participação na aquisição de bens materiais do outro, possam de fato vir a
apresentar um íntimo relacionamento.
Um fato que nos parece certamente notável, para começar com uma observação superficial,
é o grande número de representantes das formas mais espirituais da fé cristã que se
originaram nos círculos comercias. O Pietismo, em particular, tem grande número de seus
seguidores mais zelosos com essas origens. Isso pode ser explicado como uma espécie de
reação contra a cobiça por parte das naturezas sensíveis não adaptadas à vida comercial e,
como no caso de Francisco de Assis, muitos pietistas interpretaram sua conversão desse
modo.
Do mesmo modo, é uma notável circunstância que muitos dos maiores empreendedores
capitalistas – até Cecil Rhodes – tenham tido origem em famílias de clérigos, o que pode
ser interpretado como uma reação contra a sua formação ascética.
Essa forma de explicação, contudo, torna se falha quando se combinam um extraordinário
senso capitalístico dos negócios com as mais intensas formas religiosas nas mesmas
pessoas e grupos, e que lhes penetra e direciona a vida toda.
Esses casos não são isolados, mas seus traços são característicos de muitas das mais
importantes Igrejas e seitas da história do Protestantismo. O Calvinismo, em especial, por
onde quer que tenha surgido, mostrou essa combinação. Embora de pouca monta no tempo
da expansão da Reforma, ele (como qualquer outra crença protestante) estava associado a
certas classes sociais específicas, e é característico e até típico que, nas Igrejas dos
Huguenotes da França, monges de negócios (comerciantes e artesãos) fossem
especialmente numerosos entre os fiéis, especialmente no tempo das perseguições.” Mesmo
os espanhóis sabiam que a heresia (isto é, o Calvinismo holandês) promovia os negócios, e
isso coincide com as opiniões que Sir William Petty manifestou em sua discussão sobre as
razões do desenvolvimento capitalista da Holanda. Gothein$ qualifica corretamente a
diáspora calvinista como a semente da economia capitalista. Mesmo em tais casos poderia
se considerar como fator decisivo a superioridade das culturas econômicas francesa e
holandesa de onde se originaram tais comunidades, ou talvez a imensa influência desses na
quebra das relações tradicionais. Mas a situação na França, como sabemos pela luta de
Colbert, era a mesma até o século XVII. Mesmo a Áustria, para não citar outros países,
importava diretamente artífices protestantes.
Mas nem todas as ramificações protestantes parecem ter tido a mesma poderosa influência
nesse sentido. A do Calvinismo, mesmo na Alemanha, parece ter sido das mais fortes, e a fé
reformada” parece ter promovido o desenvolvimento do espírito do capitalismo no
Wupperthal como em outro lugares. Muito mais que o Luteranismo, parecem prová-lo
comparações gerais e particulares, especialmente no Wupperthal. Buckle e, entre os poetas
ingleses, Keats, enfatizaram essa mesma relação com a Escócia. Ainda mais notável, e que
deve ser só mencionada, é a ligação entre um modo de vida religioso e o mais intenso
desenvolvimento da acuidade comercial entre aquelas seitas cujo desapego do mundo é tão
proverbial quanto sua riqueza, especialmente os Quaker e menonitas. O papel que os
primeiros desempenharam na Inglaterra e na América do Norte, coube aos últimos na
Alemanha e na Holanda.
Os menonitas foram tolerados por Frederico Guilherme I, na Prussi a Oriental por tê-los
como indispensáveis para a indústria, a despeito de sua absoluta recusa de prestar serviço
militar; e esse é um dos numerosos e conhecidos fatos que, considerando o caráter daquele
monarca, torna se dos mais significativos. Por fim, essa combinação de intensa
religiosidade com igualmente forte desenvolvimento da acuidade comercial, característica
comum aos Pietistas, é um fato amplamente conhecido.
É desnecessário acumular mais exemplos nesta discussão meramente introdutória; esses poucos já deixam claro um ponto: que o espírito de intenso trabalho, de progresso, ou como se queira chamá-lo e cujo despertar se esteja propenso a atribuir ao Protestantismo, não deve ser entendido, como é a tendência, como uma alegria de viver ou por qualquer outro sentido ligado ao Iluminismo. O velho Protestantismo de Lutero, Calvino, Knox e Voet tinha bem pouco a ver com o que é hoje chamado de progresso.
É desnecessário acumular mais exemplos nesta discussão meramente introdutória; esses poucos já deixam claro um ponto: que o espírito de intenso trabalho, de progresso, ou como se queira chamá-lo e cujo despertar se esteja propenso a atribuir ao Protestantismo, não deve ser entendido, como é a tendência, como uma alegria de viver ou por qualquer outro sentido ligado ao Iluminismo. O velho Protestantismo de Lutero, Calvino, Knox e Voet tinha bem pouco a ver com o que é hoje chamado de progresso.
Aquele era abertamente hostil a aspectos inteiros da vida moderna, que hoje não são mais
contestados nem pelos religiosos mais ferrenhos. Se quisermos encontrar uma relação
interna entre certas expressões do velho espírito protestante e a cultura capitalista moderna, deveremos tentar encontrá-la, bem ou mal, não na alegria de viver mais ou menos
materialista, ou ao menos anti-ascética, mas nas suas características puramente religiosas.
Mostesquieu (Esprit des Lois, Livro XX, cap, 7) diz dos ingleses que “foram, de todos os
povos, os que mais progrediram em três coisa importantes: na religião, no comércio e na
liberdade”. Não seria possível que sua superioridade comercial e sua adaptação às
instituições políticas liberais tivessem, de algum modo, relação com a religiosidade que
Mostesquieu lhes atribui?
Ocorre-nos um grande número de relações possíveis, vagamente percebidas, quando colocamos a questão nesses termos. Será agora nossa tarefa formular com a maior clareza possível aquilo que percebemos confusamente, considerando a infindável diversidade de todo o material histórico. Mas para chegar a isso, é necessário deixarmos de lado os conceitos vagos e gerais com os quais lidamos até aqui, e tentar penetrar nas características peculiares e nas diferenças entre esses grandes mundos do pensamento religioso que existiram historicamente nos vários ramos do Cristianismo. Contudo, antes de continuarmos, se fazem necessárias algumas observações, primeiro quanto às peculiaridades do fenômeno do qual buscamos uma explicação histórica, e depois quanto ao sentido em que tal explicação é possível dentro dos limites dessas investigações
MAX WEBER | A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo
Ocorre-nos um grande número de relações possíveis, vagamente percebidas, quando colocamos a questão nesses termos. Será agora nossa tarefa formular com a maior clareza possível aquilo que percebemos confusamente, considerando a infindável diversidade de todo o material histórico. Mas para chegar a isso, é necessário deixarmos de lado os conceitos vagos e gerais com os quais lidamos até aqui, e tentar penetrar nas características peculiares e nas diferenças entre esses grandes mundos do pensamento religioso que existiram historicamente nos vários ramos do Cristianismo. Contudo, antes de continuarmos, se fazem necessárias algumas observações, primeiro quanto às peculiaridades do fenômeno do qual buscamos uma explicação histórica, e depois quanto ao sentido em que tal explicação é possível dentro dos limites dessas investigações
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Sumário
01. Introdução
02. Filiação religiosa
MAX WEBER | A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo
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