quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Ilíada: Homero (Canto VII.c - O combate singular de Heitor e Ajaz e a remoção dos mortos)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto VII - O combate singular de Heitor e Ajaz e a remoção dos mortos
 
“O retorno de Heitor e de Páris dá vantagem aos Troianos. Heleno, inspirado por Atena e Apolo, aconselha Heitor a pelejar com o melhor entre os Gregos, mas nenhum dos Gregos se manifesta. Com o apelo de Nestor, nove heróis se apresentam, sendo Ajaz Telamônio escolhido. Ele e Heitor lutam até o anoitecer, quando há uma trégua. Decide-se, então, enterrar os mortos e os Gregos aproveitam para fazer um muro diante dos navios. Posido se ofende com este trabalho.”
. 
continuando...

se banquetearam, ficando cada um com a porção respectiva. 
A melhor parte cortou para Ajaz, a saber, todo o lombo, 
o grande filho de Atreu, Agamémnone, rei poderoso. 
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado, 
foi o primeiro a tecer argumentos Nestor de Gerena, 
cuja opinião, desde muito, julgada a melhor era sempre. 
Cheio de bons pensamentos, lhe diz, arengando, o seguinte: 
   “Filho de Atreu, e vós outros, distintos e fortes Argivos! 
Muitos Acaios de soltos cabelos já a vida perderam;
Ares, o deus impetuoso, espargiu-lhes o sangue anegrado

no amplo Escamandro, baixando suas almas para o Hades sombrio. 
Faze, portanto, mal surja a manhã, suspender os combates. 
Com bois e mulos, depois, os cadáveres todos nos carros 
transportaremos, a fim de queimá-los na pira sagrada, 
um pouco longe das naves, que os ossos possamos a cada 
filho entregar, quando à pátria querida, por fim, regressarmos.
Um monumento comum, na planície, depois, construamos 
perto da pira e, a partir desse ponto, erijamos, depressa, 
torres excelsas, amparo eficaz para nós e os navios. 
Que sejam elas providas, também, de mui sólidas portas,

porque passagem tenhamos, assim, para os carros de guerra. 
A par, do lado de fora, cavemos um fosso profundo, 
que todo o muro circunde, capaz de refrear os cavalos, 
para não sermos levados pelo ímpeto grande dos Teucros.” 
   Isso disse ele; aplaudiram-no todos os chefes presentes. 
   Junto das portas de Príamo, no alto da Acrópole de Ílio, 
em tumultuosa assembleia os Troianos, também, se reuniam. 
Foi o primeiro a falar Antenor, de prudentes conselhos: 
   “Teucros, Dardânios e aliados, agora atenção prestai todos 
ao que vos digo e no peito me ordena a falar-vos o espírito.

É conveniente aos dois nobres Atridas Helena e os tesouros 
restituir, pois forçoso será combater, dora avante, 
como perjuros que somos. Nenhuma esperança alimento 
de qualquer bem, se negardes anuência a esta minha proposta.” 
   Tendo isso dito, voltou novamente a assentar-se. Levanta-se 
Páris, o divo Alexandre, marido de Helena cacheada, 
e lhe dirige, em resposta, as seguintes palavras aladas: 
   “Quanto disseste, Antenor, está longe de ser-me agradável. 
Penso que fora possível fazeres proposta mais digna. 
Mas, se tudo isso de há pouco foi dito, realmente, em tom sério,

é que os eternos do Olimpo fizeram que o juízo perdesses. 
Ora desejo, também, dirigir-me aos guerreiros Troianos: 
nunca hei de a esposa entregar; isso digo com toda a clareza; 
mas os objetos que de Argos, então, carreguei para Troia, 
em restituir não me oponho, acrescidos de joias inúmeras.”¹
   Tendo isso dito, voltou novamente a sentar-se. Levanta-se 
Príamo, filho de Dárdano, igual, no intelecto, a um dos deuses. 
Cheio de bons pensamentos, lhe diz, arengando, o seguinte: 
   “Teucros, Dardânios e aliados, agora atenção prestai todos 
ao que vos digo e no peito me ordena falar-vos o espírito.

Ora ide cear na cidade sagrada, conforme é do estilo; 
todos se ocupem da guarda: um por um se conserve acordado. 
Mas amanhã, logo cedo, enviemos Ideu aos navios, 
para dizer aos dois chefes insignes, os claros Atridas, 
o que lhes manda propor Alexandre, fautor desta guerra, 
e ainda mais, perguntar-lhes se querem — e é justo — dar tréguas 
ao fragoroso combate, até termos queimado os cadáveres, 
reiniciando-se a fera peleja no dia seguinte, 
té que um dos deuses decida a quem venha a caber a vitória.” 
   Obedeceram-lhe todos, depois de, em silêncio, o escutarem.

Sem desfazer as fileiras, nos ranchos, da ceia cuidaram. 
Mal a manhã despontou, para as naves Ideu se dirige 
em assembleia encontrando os Argivos, discípulos de Ares,
junto da popa da nave do Atrida. Depois de encontrar-se 
no meio deles, falou-lhes o arauto canoro desta arte: 
   “Filhos de Atreu, e vós outros, distintos e fortes Acaios, 
Príamo e os outros Troianos ilustres aqui me enviaram 
para dizer-vos, no caso de grata vos ser a notícia, 
o que vos manda propor Alexandre, fautor desta guerra. 
Tudo quanto ele — prouvera que a Morte, antes disso, o alcanças

— trouxe nas naves simétricas para a cidade de Príamo, 
cha-se pronto a entregar, acrescido de inúmeras joias. 
Mas quanto àquela que, virgem, o herói Menelau desposara, 
em restituir não consente, apesar de que os Teucros o pedem. 
Trago, também, perguntar-vos se acaso aos combates horríssonos 
tréguas quereis conceder, até termos queimado os cadáveres, 
reiniciando-se a fera peleja no dia seguinte, 
té que um dos deuses decida a quem venha a caber a vitória.” 
   Isso disse ele; calados e quedos os outros ficaram, 
té que, por fim, fala o grande Diomedes, de voz poderosa:

“Não se receba nenhum dos presentes propostos por Páris, 
nem mesmo Helena, por ser mais do que claro, até às próprias crianças, 
que sobre os homens de Troia a ruína fatal já desaba.” 
   Isso disse ele, e os Aqueus prorromperam em grita estrondosa, 
de assentimento às palavras do forte guerreiro Diomedes. 
Vira-se, então, para Ideu, o potente senhor Agamémnone: 
   “Ouves, Ideu, com teus próprios ouvidos, o que te respondem 
nossos guerreiros. E grata a resposta também ao meu peito. 
No que concerne aos cadáveres, não lhes recuso a fogueira; 
impedimento nenhum costumamos fazer aos defuntos,

mas, extinguido o vigor, procuramos aplacá-los com o fogo. 
Zeus, de Hera esposo, de voz atroante, confirme esta jura.” 
   O cetro, então, levantando, invocou logo os deuses eternos. 
Para a cidade sagrada de Troia Ideu, logo, retorna. 
Na ágora todos se achavam sentados, Dardânios e Teucros, 
em reunião, cheios de ânsia, a esperar pela volta do arauto. 
Este, avançando até o meio da praça, lhes faz um relato 
do que lhe fora incumbido. Aprontaram-se todos, depressa: 
uns, para lenha acervar; para os corpos trazer, outros tantos. 
Parte também, dos Argivos, deixando os navios, cuidava

de recolher os cadáveres; parte, com a lenha se ocupa. 
   Logo que o Sol começou a ferir com seus raios o campo, 
pós ter deixado a corrente profunda e tranquila do oceano, 
para galgar o alto céu, encontraram-se Aquivos e Teucros. 
Era tarefa difícil identificar os cadáveres, 
sem que, primeiro, com água os coalhos de sangue tirassem. 
Por entre choro sentido os colocam, depois, nas carretas. 
O grande Príamo, entanto, proibiu gritaria: em silêncio, 
o coração angustiado, às fogueiras os corpos entregam. 
Logo depois de queimados, voltaram para Ílio sagrada

Do mesmo modo os Acaios, de grevas bem-feitas, procedem: 
o coração angustiado, às fogueiras os corpos entregam; 
logo depois de queimados, às côncavas naus retornaram.² 
   Antes que a Aurora tivesse surgido, ainda em pleno crepúsculo, 
grupo escolhido de Aqueus ao redor da fogueira se reúne. 
Um monumento comum, na planície, depois, construíram, 
perto da pira e, a partir desse ponto, erigiram, depressa, 
torres excelsas, amparo eficaz para os homens e as naves. 
Portas, depois, de feitura mui sólida, em todas puseram, 
que para os carros de guerra, desta arte, o caminho franqueassem.

A par, do lado de fora, cavaram um fosso profundo, 
grande, bem largo, provido todo ele de fortes estacas. 
Azafamavam-se, assim, os Acaios de soltos cabelos. 
Todos os deuses ao lado de Zeus se encontravam sentados,
fulminador, a admirar a grande obra dos fortes Argivos. 
Foi o primeiro a falar o que a terra sacode, Posido: 
   “Conceber-se-á, Zeus potente, que exista algum homem na Terra 
que, previamente, revele a um de nós seus intuitos e planos? 
Vês como agora, de novo, os Acaios de soltos cabelos 
muro ao redor dos navios construíram, cingido por fosso,

sem que aos eternos houvessem solene hecatombe ofertado? 
Tal como a Aurora, há de a fama sem-par desse muro estender-se, 
e em esquecimento cairão as muralhas que Apolo e eu construímos 
com tanto esforço e canseira no burgo do herói Laomedonte.” 
   Disse-lhe Zeus, indignado, que as nuvens no Olimpo cumula: 
“Abalador poderoso da terra, que ditos são esses! 
Tal pensamento pudera ocorrer a um qualquer dos eternos 
destituído de força e de braços que os teus menos fortes. 
Té onde a Aurora se estenda, também chegará tua glória. 
Sê comedido, que quando os Aquivos, de soltos cabelos,

para o torrão de nascença voltarem, nas naves simétricas, 
tens o poder de arrasar a muralha, levando os escombros 
para o amplo mar e cobrindo a área grande de areia infinita, 
de todo estruindo a grande obra, Posido, dos fortes Aquivos.” 
   Dessa maneira, em colóquio, eles dois tais conceitos diziam. 
E, quando o Sol se deitou, os Aqueus o trabalho concluíram. 
Bois, junto às tendas, imolam; depois, cuidam todos da ceia. 
Nisso, chegaram de Lemno navios inúmeros, cheios 
de vinho rútilo, todos de Euneu e por ele enviados, 
filho do chefe de povos, Jasão, e de Hipsípile bela.

Determinara o pastor de guerreiros, Euneu, para os nobres 
filhos de Atreu mil medidas de vinho, presente valioso. 
Vinho soíam comprar-lhe os Aquivos de soltos cabelos; 
uns, davam bronze de volta; outros, barras de ferro brilhante; 
peles de bois, alguns poucos, e reses, ainda, outros, com vida, 
ou, mesmo, escravos. Banquetes opimos, depois, aprontavam. 
Por toda a noite, em festins, os Acaios de soltos cabelos 
se banqueteavam e, assim, na cidade, os Troianos e aliados. 
Graves incômodos Zeus, toda a noite, para eles pensava, 
a trovejar por maneira terrível. De todos o pálido

Medo se apossa; derramam no solo a bebida; não ousa 
vinho beber ninguém mais, sem que a Zeus poderoso libasse. 
Foram deitar-se, depois, e os presentes do Sono lograram. 

continua página 215...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto VII.a / Canto VII.b / Canto VII.c / Canto VIII.a /                           
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1] Antenor, o mais prudente dos anciãos troianos, propõe na assembleia que Helena e os tesouros sejam devolvidos aos aqueus, reconhecendo que a guerra só continuará a trazer desgraça enquanto Troia insistir em manter aquilo que foi tomado injustamente. Sua sugestão, porém, é rejeitada por Páris, que se levanta indignado, acusa Antenor de ter perdido o juízo e declara que jamais devolverá Helena, embora aceite restituir os bens trazidos de Argos, acrescidos de novas riquezas. O trecho evidencia o conflito interno entre a razão política de Antenor e o orgulho irresponsável de Páris, cuja obstinação mantém viva a causa da guerra.

[2] Logo ao nascer do sol, quando os raios começam a iluminar o campo de batalha, aqueus e troianos se reúnem para recolher os mortos do dia anterior. A tarefa é difícil, pois os corpos estão cobertos de sangue coagulado, e só após lavá-los conseguem identificá-los. Em silêncio e com o coração angustiado, ambos os povos colocam os cadáveres nas carretas e os levam às fogueiras, seguindo a ordem de Príamo de evitar lamentações ruidosas. Depois da cremação, os troianos retornam a Ílio, enquanto os aqueus, igualmente silenciosos e entristecidos, fazem o mesmo ritual e voltam às suas naus. O trecho destaca a trégua momentânea, o respeito mútuo diante da morte e a dor compartilhada pelos dois lados da guerra.


Ilíada, de Homero - Canto VII



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