Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Canto VII - O combate singular de Heitor e Ajaz e a remoção dos mortos
“O retorno de Heitor e de Páris dá vantagem aos Troianos. Heleno, inspirado por Atena e Apolo, aconselha Heitor a pelejar com o melhor entre os Gregos, mas nenhum dos Gregos se manifesta. Com o apelo de Nestor, nove heróis se apresentam, sendo Ajaz Telamônio escolhido. Ele e Heitor lutam até o anoitecer, quando há uma trégua. Decide-se, então, enterrar os mortos e os Gregos aproveitam para fazer um muro diante dos navios. Posido se ofende com este trabalho.”
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continuando...
se banquetearam, ficando cada um com a porção respectiva.
A melhor parte cortou para Ajaz, a saber, todo o lombo,
o grande filho de Atreu, Agamémnone, rei poderoso.
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado,
foi o primeiro a tecer argumentos Nestor de Gerena,
cuja opinião, desde muito, julgada a melhor era sempre.
Cheio de bons pensamentos, lhe diz, arengando, o seguinte:
“Filho de Atreu, e vós outros, distintos e fortes Argivos!
Muitos Acaios de soltos cabelos já a vida perderam;
Ares, o deus impetuoso, espargiu-lhes o sangue anegradono amplo Escamandro, baixando suas almas para o Hades sombrio.
Faze, portanto, mal surja a manhã, suspender os combates.
Com bois e mulos, depois, os cadáveres todos nos carros
transportaremos, a fim de queimá-los na pira sagrada,
um pouco longe das naves, que os ossos possamos a cada
filho entregar, quando à pátria querida, por fim, regressarmos.
Um monumento comum, na planície, depois, construamos
perto da pira e, a partir desse ponto, erijamos, depressa,
torres excelsas, amparo eficaz para nós e os navios.
Que sejam elas providas, também, de mui sólidas portas,
porque passagem tenhamos, assim, para os carros de guerra.
A par, do lado de fora, cavemos um fosso profundo,
que todo o muro circunde, capaz de refrear os cavalos,
para não sermos levados pelo ímpeto grande dos Teucros.”
Isso disse ele; aplaudiram-no todos os chefes presentes.
Junto das portas de Príamo, no alto da Acrópole de Ílio,
em tumultuosa assembleia os Troianos, também, se reuniam.
Foi o primeiro a falar Antenor, de prudentes conselhos:
“Teucros, Dardânios e aliados, agora atenção prestai todos
ao que vos digo e no peito me ordena a falar-vos o espírito.
É conveniente aos dois nobres Atridas Helena e os tesouros
restituir, pois forçoso será combater, dora avante,
como perjuros que somos. Nenhuma esperança alimento
de qualquer bem, se negardes anuência a esta minha proposta.”
Tendo isso dito, voltou novamente a assentar-se. Levanta-se
Páris, o divo Alexandre, marido de Helena cacheada,
e lhe dirige, em resposta, as seguintes palavras aladas:
“Quanto disseste, Antenor, está longe de ser-me agradável.
Penso que fora possível fazeres proposta mais digna.
Mas, se tudo isso de há pouco foi dito, realmente, em tom sério,
é que os eternos do Olimpo fizeram que o juízo perdesses.
Ora desejo, também, dirigir-me aos guerreiros Troianos:
nunca hei de a esposa entregar; isso digo com toda a clareza;
mas os objetos que de Argos, então, carreguei para Troia,
em restituir não me oponho, acrescidos de joias inúmeras.”¹
Tendo isso dito, voltou novamente a sentar-se. Levanta-se
Príamo, filho de Dárdano, igual, no intelecto, a um dos deuses.
Cheio de bons pensamentos, lhe diz, arengando, o seguinte:
“Teucros, Dardânios e aliados, agora atenção prestai todos
ao que vos digo e no peito me ordena falar-vos o espírito.
Ora ide cear na cidade sagrada, conforme é do estilo;
Ora ide cear na cidade sagrada, conforme é do estilo;
todos se ocupem da guarda: um por um se conserve acordado.
Mas amanhã, logo cedo, enviemos Ideu aos navios,
para dizer aos dois chefes insignes, os claros Atridas,
o que lhes manda propor Alexandre, fautor desta guerra,
e ainda mais, perguntar-lhes se querem — e é justo — dar tréguas
ao fragoroso combate, até termos queimado os cadáveres,
reiniciando-se a fera peleja no dia seguinte,
té que um dos deuses decida a quem venha a caber a vitória.”
Obedeceram-lhe todos, depois de, em silêncio, o escutarem.
Sem desfazer as fileiras, nos ranchos, da ceia cuidaram.
Mal a manhã despontou, para as naves Ideu se dirige
em assembleia encontrando os Argivos, discípulos de Ares,
junto da popa da nave do Atrida. Depois de encontrar-se
no meio deles, falou-lhes o arauto canoro desta arte:
“Filhos de Atreu, e vós outros, distintos e fortes Acaios,
Príamo e os outros Troianos ilustres aqui me enviaram
para dizer-vos, no caso de grata vos ser a notícia,
o que vos manda propor Alexandre, fautor desta guerra.
Tudo quanto ele — prouvera que a Morte, antes disso, o alcanças
— trouxe nas naves simétricas para a cidade de Príamo,
cha-se pronto a entregar, acrescido de inúmeras joias.
Mas quanto àquela que, virgem, o herói Menelau desposara,
em restituir não consente, apesar de que os Teucros o pedem.
Trago, também, perguntar-vos se acaso aos combates horríssonos
tréguas quereis conceder, até termos queimado os cadáveres,
reiniciando-se a fera peleja no dia seguinte,
té que um dos deuses decida a quem venha a caber a vitória.”
Isso disse ele; calados e quedos os outros ficaram,
té que, por fim, fala o grande Diomedes, de voz poderosa:
“Não se receba nenhum dos presentes propostos por Páris,
nem mesmo Helena, por ser mais do que claro, até às próprias crianças,
que sobre os homens de Troia a ruína fatal já desaba.”
Isso disse ele, e os Aqueus prorromperam em grita estrondosa,
de assentimento às palavras do forte guerreiro Diomedes.
Vira-se, então, para Ideu, o potente senhor Agamémnone:
“Ouves, Ideu, com teus próprios ouvidos, o que te respondem
nossos guerreiros. E grata a resposta também ao meu peito.
No que concerne aos cadáveres, não lhes recuso a fogueira;
impedimento nenhum costumamos fazer aos defuntos,
mas, extinguido o vigor, procuramos aplacá-los com o fogo.
Zeus, de Hera esposo, de voz atroante, confirme esta jura.”
O cetro, então, levantando, invocou logo os deuses eternos.
Para a cidade sagrada de Troia Ideu, logo, retorna.
Na ágora todos se achavam sentados, Dardânios e Teucros,
em reunião, cheios de ânsia, a esperar pela volta do arauto.
Este, avançando até o meio da praça, lhes faz um relato
do que lhe fora incumbido. Aprontaram-se todos, depressa:
uns, para lenha acervar; para os corpos trazer, outros tantos.
Parte também, dos Argivos, deixando os navios, cuidava
de recolher os cadáveres; parte, com a lenha se ocupa.
Logo que o Sol começou a ferir com seus raios o campo,
pós ter deixado a corrente profunda e tranquila do oceano,
para galgar o alto céu, encontraram-se Aquivos e Teucros.
Era tarefa difícil identificar os cadáveres,
sem que, primeiro, com água os coalhos de sangue tirassem.
Por entre choro sentido os colocam, depois, nas carretas.
O grande Príamo, entanto, proibiu gritaria: em silêncio,
o coração angustiado, às fogueiras os corpos entregam.
Logo depois de queimados, voltaram para Ílio sagrada
Do mesmo modo os Acaios, de grevas bem-feitas, procedem:
Do mesmo modo os Acaios, de grevas bem-feitas, procedem:
o coração angustiado, às fogueiras os corpos entregam;
logo depois de queimados, às côncavas naus retornaram.²
Antes que a Aurora tivesse surgido, ainda em pleno crepúsculo,
grupo escolhido de Aqueus ao redor da fogueira se reúne.
Um monumento comum, na planície, depois, construíram,
perto da pira e, a partir desse ponto, erigiram, depressa,
torres excelsas, amparo eficaz para os homens e as naves.
Portas, depois, de feitura mui sólida, em todas puseram,
que para os carros de guerra, desta arte, o caminho franqueassem.
A par, do lado de fora, cavaram um fosso profundo,
grande, bem largo, provido todo ele de fortes estacas.
Azafamavam-se, assim, os Acaios de soltos cabelos.
Todos os deuses ao lado de Zeus se encontravam sentados,
fulminador, a admirar a grande obra dos fortes Argivos.
Foi o primeiro a falar o que a terra sacode, Posido:
“Conceber-se-á, Zeus potente, que exista algum homem na Terra
que, previamente, revele a um de nós seus intuitos e planos?
Vês como agora, de novo, os Acaios de soltos cabelos
muro ao redor dos navios construíram, cingido por fosso,
sem que aos eternos houvessem solene hecatombe ofertado?
Tal como a Aurora, há de a fama sem-par desse muro estender-se,
e em esquecimento cairão as muralhas que Apolo e eu construímos
com tanto esforço e canseira no burgo do herói Laomedonte.”
Disse-lhe Zeus, indignado, que as nuvens no Olimpo cumula:
“Abalador poderoso da terra, que ditos são esses!
Tal pensamento pudera ocorrer a um qualquer dos eternos
destituído de força e de braços que os teus menos fortes.
Té onde a Aurora se estenda, também chegará tua glória.
Sê comedido, que quando os Aquivos, de soltos cabelos,
para o torrão de nascença voltarem, nas naves simétricas,
tens o poder de arrasar a muralha, levando os escombros
para o amplo mar e cobrindo a área grande de areia infinita,
de todo estruindo a grande obra, Posido, dos fortes Aquivos.”
Dessa maneira, em colóquio, eles dois tais conceitos diziam.
E, quando o Sol se deitou, os Aqueus o trabalho concluíram.
Bois, junto às tendas, imolam; depois, cuidam todos da ceia.
Nisso, chegaram de Lemno navios inúmeros, cheios
de vinho rútilo, todos de Euneu e por ele enviados,
filho do chefe de povos, Jasão, e de Hipsípile bela.
Determinara o pastor de guerreiros, Euneu, para os nobres
filhos de Atreu mil medidas de vinho, presente valioso.
Vinho soíam comprar-lhe os Aquivos de soltos cabelos;
uns, davam bronze de volta; outros, barras de ferro brilhante;
peles de bois, alguns poucos, e reses, ainda, outros, com vida,
ou, mesmo, escravos. Banquetes opimos, depois, aprontavam.
Por toda a noite, em festins, os Acaios de soltos cabelos
se banqueteavam e, assim, na cidade, os Troianos e aliados.
Graves incômodos Zeus, toda a noite, para eles pensava,
a trovejar por maneira terrível. De todos o pálido
Medo se apossa; derramam no solo a bebida; não ousa
vinho beber ninguém mais, sem que a Zeus poderoso libasse.
Foram deitar-se, depois, e os presentes do Sono lograram.
continua página 215...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a / Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d /
Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c /
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto V.d / Canto VI.a / Canto VI.b /
Canto VII.a / Canto VII.b / Canto VII.c / Canto VIII.a /
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
________________[1] Antenor, o mais prudente dos anciãos troianos, propõe na assembleia que Helena e os tesouros sejam devolvidos aos aqueus, reconhecendo que a guerra só continuará a trazer desgraça enquanto Troia insistir em manter aquilo que foi tomado injustamente. Sua sugestão, porém, é rejeitada por Páris, que se levanta indignado, acusa Antenor de ter perdido o juízo e declara que jamais devolverá Helena, embora aceite restituir os bens trazidos de Argos, acrescidos de novas riquezas. O trecho evidencia o conflito interno entre a razão política de Antenor e o orgulho irresponsável de Páris, cuja obstinação mantém viva a causa da guerra.
[2] Logo ao nascer do sol, quando os raios começam a iluminar o campo de batalha, aqueus e troianos se reúnem para recolher os mortos do dia anterior. A tarefa é difícil, pois os corpos estão cobertos de sangue coagulado, e só após lavá-los conseguem identificá-los. Em silêncio e com o coração angustiado, ambos os povos colocam os cadáveres nas carretas e os levam às fogueiras, seguindo a ordem de Príamo de evitar lamentações ruidosas. Depois da cremação, os troianos retornam a Ílio, enquanto os aqueus, igualmente silenciosos e entristecidos, fazem o mesmo ritual e voltam às suas naus. O trecho destaca a trégua momentânea, o respeito mútuo diante da morte e a dor compartilhada pelos dois lados da guerra.
Ilíada, de Homero - Canto VII
Ilíada, de Homero - Canto VII
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