quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Histórias de avoinha: onibàtà, sapateiro: é bão tê obrigação de respeito com os espritu


Ensaio 66B – 2ª edição 1ª reimpressão


onibàtà, sapateiro: é bão tê obrigação de respeito com os espritu


baitasar



na manhã seguinte, bem cedinho, munto antes dos galo se batê em pavonice e cantá o começo da lida na roça, munto primêro qui o calô abrí os braço e as claridade do dia desabotoá as vista pra oiá essa apertada esquina do mundão, o preto josino já tava alavancado. Durumiu munto pôco. O escravo josino foi deitá com o recosto do lombo ardendo e deitá assim num dá gosto. Deitá com lonjura da muié milagres num tinha riamba qui colocava cura na saudade

o hôme josino saiu na procura do pai véio mandiguêro. Num queria assuntá os lanho com ajuda dos branco. Passô longe da botica farmacêutica do boticarista juca curadô. Cruzô com o camará farol, Ainda na lida, Camará Farol?

A lida da iluminação num termina antes das claridade assumí as obrigação própria. E o Josino vai pra onde tão antes do dia vingá?

Vô indo prus lado do Preto Véio Mandiguêro.

Faz bem, faz bem tê as obrigação de respeito com os espritu cumprida. E na Villa num tem ninguém mais conhecedô e respeitado pelos espritu das fôia qui o Preto Mandiguêro.

Ayún.

Àse.

os hôme voltô os passo pru destino dos caminho já traçado. Cada um pru seu lado. Os lanho feito no josino pela chibata nas mão do capitão era pôca cousa, quase uma gentileza, se fosse compará ou inventariá os castigo usado pra dobrá as vontade dos preto da senzala. As condenação de correção pra fazê valê as decisão de capricho dos dono da casa grande

das machucadura qui carregava marcada uma qui otra doia mais, as dô num é igual, mais nenhum lanho desalentava mais qui o lanho das saudade da sua milagres. A lonjura da preta dos seus encanto de hôme lhe dava mais banzo qui os fiô qui num ia tê, Tem dia qui a tristeza fica maió. É quando sô derrotado dinovo dinovo e dinovo. Preto Véio, só queria uma veiz num perdê, ficá de namorice com minha preta. Podê acordá com a doçura dos perfume e os dengue acalorando da muié bemquerê. E sê o hôme qui segura as ventania com as mão pra acomodá o sossego no arredó da muié bemquerê, sê quem assopra nas suas fôia a frescura. Sentí o encorajamento do seu oiá qui movimenta umas tremura de arrepio aqui e ali, e mais lá e cá, inté qui vem fresca e dócil a calmaria. Quero sê o brasêro qui encoraja e cochicha. E faz cócega. E móia as terra da muié. Quero sê muntos hôme de amô pra Milagres. Fazê a língua entrá atrevida e saí sem os cuidado do juízo, moiada de afogada. Nenhum juízo.

o mandiguêro pai véio alevantô do seu banquinho. Os pé no chão nu e cru. Tava fumando seu cachimbo de barro. Escutando. Defumando na volta do mundo do josino os chêro do mato, do alecrim, alho mais arruda e sal

Corre gira Pai Ogum
Fiô qué se defumá
A vontade tem fundamento
É preciso prepará
com incenso, benjoim
alecrim e alfazema
defuma fiô da fé
com as erva da jurema

o preto véio engolia e soprava fumaça nos lanho do josino. Parecia chupá o fumo inté embebedá a cabeça e o corpo como se bebida de cachaça fosse. Conversava dos espritu com josino. Tava no transe do caminho qui num era aqui e num era lá. Tava no meio como uma ponte ligando os incenso, a carne viva e as imaginação da morte qui vive. Comia a cachaça. O preto josino tava encantado pela vida ausente. Os protetô qui tinha chegado deslizava pela fumaça. As baforada continuava. As mão do pai véio tava guiada contra os feitiço dos lanho de branco. E sem reza, sem cantoria, sem dança, o transe do silêncio, como se os espritu tivesse tomado numa tristeza inconformada, o pai véio curava os lanho. Usava a força curativa nas compressa feita do sumo do açoita-cavalo. Escutando. Benzendo. Rezando. Humilde

o josino fungô o desencanto do seu alívio dos lanho da carne qui o pai véio consertava, mais os lanho daquela vida num parecia tê remendo. O mais véio resmungava na língua dos antigo qui viaja no tempo das memória, um andamento de existência antes deste mundão de escravo, Escuta com os óio e vê com o coração. Munta vida vai chegá e partí inté acabá a serventia das corrente nas canela preta. Os branco é munto preguiçoso das lida qui dá calo nas mão, bôia nos pé e suô de sangue. Eles num gosta de gemê, prefere fazê sofrê, tudo no nome do próprio conforto e bem-está. E mais tempo vai ficá a escravidão nos coração dos preto e nas mão dos branco. Vai durá mais qui a vontade de acabá, mesmo depois de acabada essa serventia amaldiçoada e malvada. Os branco vai continuá agarrado com as corrente atarraxada nas canela preta. Num vai se desfazê das bem-feitoria qui juntô nesse tempo de escravidão, tem mais gula qui bão coração. Eles foi ensinado e ensina o qui aprendeu: gostá de tê os preto na sua serventia com incumbência de tudo qui é atendimento, inté os mais feio. É gente qui fala coisa ruim dos preto, mais tá sempre qui pode enrolado nos pano de cama com as preta. E as branca... vai chegá o dia qui elas vai preferí tá de assunto de cama com os preto. Isso incomoda.

É verdade, Pai Véio. Sinto nas carne essas tristeza e cobiça.

Mifio, tem precisão de juntá as luta qui passô mais as luta qui ocê tá fazendo com as luta qui vai ví. Mais num é só assim, é preciso juntá os preto qui se foi mais os preto qui tá aqui com os preto qui vai ví. E lutá as luta da vida com amô na vida. O amô une tudo qui é vida, faz grudá as pessoa. É a vida qui faz a vida se rí dela mesma. O amô é o mestre das coisa da natureza qui tá nas benzedura. Ajôeia, mifio.

o josino dobrô as perna, fincô os jôeio no terrêro da mãe terra, tava desembarcado dos navio negrêro. Fez silêncio e esperô mais reza. Inté qui o mais véio começô suas cantoria de resmungação com pedido e oferecimento. Esperava as bença da sorte se combiná. Chamô os sonho do dia fasto e nefasto, queria tê a decifração dos espritu pra tanto nefasto, pelo menos, um palpite pra desalgá a vida

Pai Véio, acho qui algum desafeto me carregô a mão com mandinga...

Deixa, mifio. Esse pai vai procurá as aplicação pra desfazê o feito.

num sabe se foi, num sabe se num foi, mais lhe pareceu qui a mãe terra abriu o chão e ele enraizô as carne. Depois môiô as raiz com o mesmo sangue qui vazava dos lanho mais o suô qui gotejava da testa e escorria no peito e nas coxa. Ajuntô as ponta da vida com as água dos óio. E da mãe terra saiu brotando mais vida: os preto da vida intêra

Pai João d’Angola com sua ternura, sentado no tronco ele benze esse preto qui tem o nome de Josino. A estrela de Oxalá seu ponto vai iluminá. Ele é o Pai João d’Angola, nosso protetô.

as reza aliviô a alma. As erva e o unguento descarregô as ardidura dos lanho nas costa. O josino tava agarrado nas terra do chão. E assim ficô inté as terra soltá as raiz qui brotô do preto, inté tá alimentado pra continuá. Agradeceu o preto véio e saiu. Tinha precisão de chegá no tempo de começá os serviço do dia na obra santa. Na volta das benzedura, parô pra dizê uma qui otra palavraria com o preto prego. Sapatêro da mão cheia qui atendia na loja do siô joaquim

esse tal siô joaquim foi um portuga da gema munto esperto e bão com a própria bondade. Gostava de se mostrá pra freguesia da loja, Esse negro aqui, apontava o dedo pru preto sapatêro, é o Nêgo Prego. Ele agradece todos os dias os meus sentimentos de humanidade e patriotismo. Eu lhe comprei a alforria dos quefazeres campeiros. As estâncias não são bons lugares para os negros. Hoje, ele é um alforriado folgado que ganha seu sustento de casa e comida. Vive aqui na loja. Nunca lhe encostei um dedo. E jamais precisou. De mais a mais, negro não pode ter ganho. Imagina um negro dono de loja, vai querer parecer gente!

a mesma ladainha, uma ou duas veiz, nos dia qui o portuga aparecia na loja. Ele parecia tê sido encantado com ovo choco e fumo de corda bem ruim, nem o siô bão jesus ia podê livrá o preto prego daquele encosto ruim

na parede, atrás do balcão, o lojista dava destaque prum quadro pensurado. Num era desenho nem pintura, mais uma carta do agradecimento do preto prego pela alforria recebida do seu novo siô. Explicava qui num tinha sido escrita do próprio punho do prego purqui, Vosmecês sabem que os negros não sabem escrever nem ler. São muito preguiçosos e não atinam com essas coisas mais complexas, mas com um martelo, alguns pregos e pedaços de couro, esse seu estado de quase selvageria ganha um bom uso. Assim, eles ganham importância. Esse aqui, apontô pru preto prego qui consertava botas fidalga e num saiu do qui tava fazendo, sentado tava, sentado ficô, é um ótimo sapateiro. E eu fiz um bom investimento, voltô as vista pra carta-gratidão, todos podem ver a marca do Nêgo Prego, a mesma que ele usa no couro.

a carta tava lá, numa letra bonita, pra quem chegava na sapataria. Um desenho de letra branca. Depois do começo das apresentação, se a freguesia num corria, ele sempre teve gosto de lê a carta escrita do próprio punho da maria letícia, Eu fui escravo, começava a leitura sempre com a voz mais solene qui sabia fazê, e muito regozijo senti quando o sinhô Joaquim de Alhures me permitiu ser livre. A liberdade me foi concedida por sua generosidade. Quando o alvedrio não é readquirido por esforço próprio, mas sim restituída ao escravo pela generosidade do sinhô branco, como foi no meu caso, então, além do regozijo, experimento o mais profundo sentimento de gratidão. É por isso que reconhecendo seu coração altamente generoso, verdadeiramente magnânimo, faço todos acreditarem que se ontem era cativo, na humilde condição de escravo, serei, de hoje em diante, sempre seu cativo unicamente pelo nobre sentimento da gratidão e pela mais respeitosa e profunda amizade. Vai abaixo, minha marca.

nem o siô joaquim creditava na própria generosidade, confiava mais nos ganho qui chegava das mão do prego. Ele inté ensinava o fiô sê benevolente com os preto quando pudesse, mais fosse sempre firme, Meu filho, mantenha os freios sempre curtos, que o animal pode querer atropelar!

o portuga evitava tê essa conversa com a própria muié, uma mulata qui ele desembestô qui devia batizá. E batizô maria letícia. Depois embirrô qui devia casá. E casô. A mulata lhe deu o fiô qui ele batizô joaquim manuel. Fiô de joaquim precisava sê joaquim mais alguma coisa. A mulata escapô da escravidão e aceitô o mundo do casamento. Ganhô importância e consideração na casa e na loja. Fora disso, num ganhava convite de visita. A muié num reclamava. A esposa num queria sabê de nada qui pudesse entristecê o oiá de atrevimento do esposo ou as reza na igreja santa. Concordava com tudo. Achava mais custoso arrumá o sorriso desfeito do marido. Queria aliviá o peso das pegada no chão. Num queria sabê de mais história de aflição na sua volta. Num mesmo. Num saia da casa sozinha mais qui os passo inté o casarão das reza e do perdão. Num precisava sê mais do qui já era: a muié do portuga sapatêro. Tinha um mundo só dela. Gostava assim

o josino gostava de aparecê na loja da sapataria pra ficá de prosa com o preto prego, mais só ficava inté bem antes do siô joaquim levantá dos pano dormido. Chegava cedo. Aparecia adiantado, antes das terra ganhá as quentura e as pegada do dia

É bão o amigo tê obrigação de respeito com os espritu.

Eles manda, eles governa a mãe Terra.

O amigo chegô da Humaitá, quando?

os trabáio na villa podia parecê mais ameno qui nas estância, mais na cidade tumbém num tinha munta alegria do bem vivê. Podia inté sê convidado pra confraria dos preto livre, escravo, criolo ou mulato, mais num se dava o trabáio de respondê. Num era coisa ruim tá na irmandade, eles se dedicava à educação religiosa e caridade social, tumbém ajudava nos tempo de doença ou enterro cristão dos preto. A irmandade tava comprometida com a libertação dos escravo e fazê aparecê na villa os canto e as dança qui tanto assustava os branco, mais num queria mais qui tá com sua milagres





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terça-feira, 17 de novembro de 2015

XXV – Mitologia dos Orixás: Onilé [242]

Onilé


Reginaldo Prandi




Onilé ganha o governo da Terra



Onilé era a filha mais recatada e discreta de Olodumare. Vivia trancada em casa do pai e quase ninguém a via. Quase nem se sabia de sua existência. Quando os orixás seus irmãos se reuniam no palácio do grande pai para as grandes audiências em que Olodumare comunicava suas decisões, Onilé fazia um buraco no chão e se escondia, pois sabia que as reuniões sempre terminavam em festa, com muita música e dança ao ritmo dos atabaques. Onilé não se sentia bem no meio dos outros.


Um dia o grande deus mandou os seus arautos avisarem: haveria uma grande reunião no palácio e os orixás deviam comparecer ricamente vestidos, pois ele iria distribuir entre os filhos as riquezas do mundo e depois haveria muita comida, música e dança. Por todos os lugares os mensageiros gritaram essa ordem e todos se prepararam com esmero para o grande acontecimento.


Quando chegou por fim o grande dia, cada orixá dirigiu-se ao palácio na maior ostentação, cada um mais belamente vestido que o outro, pois este era o desejo de Olodumare. Iemanjá chegou vestida com a espuma do mar, os braços ornados de pulseiras de algas marinhas, a cabeça cingida por um diadema de corais e pérolas, o pescoço emoldurado por uma cascata de madrepérola. Oxóssi escolheu uma túnica de ramos macios, enfeitada de peles e plumas dos mais exóticos animais. Ossaim vestiu-se com um manto de folhas perfumadas. Ogum preferiu uma couraça de aço brilhante, enfeitada com tenras folhas de palmeira. Oxum escolheu cobrir-se de ouro, trazendo nos cabelos as águas verdes dos rios. As roupas de Oxumarê mostravam todas as cores, trazendo nas mãos os pingos frescos da chuva. Iansã escolheu para vestir-se um sibilante vento e adornou os cabelos com raios que colheu da tempestade. Xangô não fez por menos e cobriu-se com o trovão. Oxalá trazia o corpo envolto em fibras alvíssimas de algodão e a testa ostentando uma nobre pena vermelha de papagaio. E assim por diante. Não houve quem não usasse toda criatividade para apresentar-se ao grande pai com a roupa mais bonita. Nunca se vira antes tanta ostentação, tanta beleza, tanto luxo. Cada orixá que chegava ao palácio de Olodumare provocava um clamor de admiração, que se ouvia por todas as terras existentes. Os orixás encantaram o mundo com suas vestes. Menos Onilé. Onilé não se preocupou em vestir-se bem. Onilé não se interessou por nada. Onilé não se mostrou para ninguém. Onilé recolheu-se a uma funda cova que cavou no chão.


Quando todos os orixás haviam chegado, Olodumare mandou que fossem acomodados confortavelmente, sentados em esteiras dispostas ao redor do trono. Ele disse então à assembléia que todos eram bem-vindos. Que todos os filhos haviam cumprido seu desejo e que estavam tão bonitos que ele não saberia escolher qual seria o mais vistoso e belo. Tinha todas as riquezas do mundo para dar a eles, mas nem sabia como começar a distribuição. Olorum refletiu por um bom tempo e disse que seus próprios filhos tinham feito suas escolhas. Ao escolherem o que achavam o melhor da natureza, para com aquela riqueza se apresentar perante o pai, eles mesmos já tinham feito a divisão do mundo. Então Iemanjá ficava com o mar, Oxum com o ouro e os rios. A Oxóssi deu as matas e todos os seus bichos, reservando as folhas para Ossaim. Deu a Iansã o raio e a Xangô o trovão. Fez Oxalá dono de tudo o que é branco e puro, de tudo o que é o princípio, deu-lhe a criação do homem. Destinou a Oxumarê o arco-íris e a chuva. A Ogum deu o ferro e tudo o que se faz com ele, inclusive a guerra. E assim por diante. Confirmou Exu no cargo de mensageiro dos deuses, pois nenhum outro era capaz de se movimentar como ele. Mas como Exu se cobrira todo com búzios para a reunião, e como búzio era dinheiro, Olodumare também dava a ele o patronato dos mercados e o governo das trocas.


Olodumare deu assim a cada orixá um pedaço do mundo, uma parte da natureza, um governo particular. Dividiu de acordo com o gosto de cada um. E disse que a partir de então cada um seria o dono e governador daquela parte da natureza. Assim, sempre que um humano tivesse alguma necessidade relacionada com uma daquelas partes da natureza, deveria pagar uma prenda ao orixá que a possuísse. Pagaria em oferendas de comida, bebida ou outra coisa que fosse da predileção do orixá. Os orixás, que tudo tinham ouvido em silêncio, começaram a comemorar, cantando e dançando de júbilo. Mas Olorum-Olodumare levantou-se e pediu silêncio, pois a divisão do mundo ainda não estava concluída. Disse que faltava ainda a mais importante das atribuições. Que era preciso dar a um dos filhos o governo da Terra, o mundo no qual os humanos viviam e onde produziam as comidas, bebidas e tudo o mais que deveriam ofertar aos orixás. Disse que dava a Terra a quem se vestia da própria Terra. Quem seria?, perguntavam-se todos. “Onilé”, respondeu Olodumare. “Onilé?”, todos se espantaram. Como, se ela nem sequer viera à grande reunião? Nenhum dos presentes a vira até então. Nenhum sequer notara sua ausência. “Pois Onilé está entre nós”, disse Olodumare, e mandou que todos olhassem no fundo da cova, onde se abrigava, vestida de terra, a discreta e recatada filha. Ali estava Onilé, em sua roupa de terra. Onilé, a que também foi chamada Ilé, o país, o planeta. Olodumare disse que cada um que habitava a Terra pagasse tributo a Onilé, pois ela era a mãe de todos, o abrigo, a casa. A humanidade não sobreviveria sem Onilé. Afinal, onde ficava cada uma das riquezas que Olodumare partilha com os filhos orixás? “Tudo está na Terra”, disse Olodumare. “O mar e os rios, o ferro e o ouro, os animais e as plantas, tudo”, continuou. “Até mesmo o ar e o vento, a chuva e o arco-íris, tudo existe porque a Terra existe, assim como as coisas criadas para controlar os homens e os outros seres vivos que habitam o planeta, como a vida, a saúde, a doença e mesmo a morte.” Pois então, que cada um pagasse tributo a Onilé, foi a sentença final de Olodumare.


Onilé, orixá da Terra, receberia mais presentes que os outros. Deveria ter oferendas dos vivos e dos mortos, pois na Terra também repousam os corpos dos que já não vivem. Onilé, também chamada Aiê, a Terra, deveria ser propiciada sempre, para que o mundo dos humanos nunca fosse destruído. Todos os presentes aplaudiram as palavras de Olodumare. Todos os orixás aclamaram Onilé. Todos os humanos propiciaram a mãe Terra.


E então Olodumare retirou-se do mundo para sempre e deixou o governo de tudo por conta de seus filhos orixás.

[242]



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Leia também:


XXIV – Mitologia dos Orixás: Olocum [238] [239]

XXVI – Mitologia dos Orixás: Ajê Xalugá [243] [244]


Reginaldo Prandi, paulista de Potirendaba e professor titular de sociologia da Universidade de São Paulo, é autor de três dezenas de livros. Pela editora Hucitec publicou Os candomblés de São Paulo, pela Edusp, Um sopro do Espírito, e pela Cosac Naify, Os príncipes do destino. Dele, a Companhia das Letras publicou também Segredos guardados: orixás na alma brasileira; Morte nos búzios; Ifá, o Adivinho; Xangô, o Trovão; Oxumarê, o Arco-Íris; Contos e lendas afro-brasileiros: a criação do mundo; Minha querida assombração; Jogo de escolhas e Feliz Aniversário.



Prandi, Reginaldo. Mitologia dos Orixás / Reginaldo Prandi; ilustrações de Pedro Rafael. - São Paulo: Companhia das Letras, 2001.


domingo, 15 de novembro de 2015

Amado Nervo (México)

Los Poetas del Amor (34)




El fantasma y yo


Mi alma es una princesa en su torre metida,
con cinco ventanitas para mirar la vida.
Es una triste diosa que el cuerpo aprisionó.
y tu alma, que desde antes de morirte volaba,
es un ala magnífica, libre de toda traba...
Tú no eres el fantasma: ¡el fantasma soy yo!

¡Qué entiendo de las cosas! Las cosas se me ofrecen,
no como son de suyo, sino como aparecen
a los cinco sentidos con que Dios limitó
mi sensorio grosero, mi percepción menguada.
Tú lo sabes hoy todo..., ¡yo, en cambio, no sé nada!
Tú no eres el fantasma: ¡el fantasma soy yo!







María Eugenia Caseiro (Cuba)



Esperar


Las ventanas se apagarán un día;
hagamos cuenta que hasta aquí
lo habías previsto, lo había previsto
polvo polvo el polvo
lunijunto de barrancos
blancos palacios de hueso
cal y arena que se mueven
prolongado flujo
esperándote, esperándome
esperándonos.






Julia de Burgos (Puerto Rico)



Íntima


1

Se recogió la vida para verme pasar.
Me fui perdiendo átomo por átomo de mi carne
y fui resbalándome poco a poco al alma.

Peregrina en mí misma, me anduve un largo instante.
Me prolongué en el rumbo de aquel camino errante
que se abría en mi interior,
y me llegué hasta mí, íntima.

Conmigo cabalgando seguí por la sombra del tiempo
y me hice paisaje lejos de mi visión.

Me conocí mensaje lejos de la palabra.
Me sentí vida al reverso de una superficie de colores y formas.
Y me vi claridad ahuyentando la sombra vaciada en la tierra desde el
hombre.




2

Ha sonado un reloj la hora escogida de todos.
¿La hora? Cualquiera. Todas en una misma.
Las cosas circundantes reconquistan color y forma.
Los hombres se mueven ajenos a sí mismos
para agarrar ese minuto índice
que los conduce por varias direcciones estáticas.

Siempre la misma carne apretándose muda a lo ya hecho.
Me busco. Estoy aún en el paisaje lejos de mi visión.
Sigo siendo mensaje lejos de la palabra.

La forma que se aleja y que fue mía un instante
me ha dejado íntima.
Y me veo claridad ahuyentando la sombra
vaciada en la tierra desde el hombre.



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Teatro Pedagógico: ai-5

Parábolas de uma Professora 


ai-5


baitasar e paulo e marko





Consegui, brado para mim mesma, estou em minhas lembranças e no meu presente de sonhos e pesadelos, constatar a repetição de meus devaneios aflitivos no presente é demais

E o que tem tudo isso a ver conosco, as nossas escolas não estão cicladas?

este professor botto começa enervar a todos, no abrigo reparam que ele está diferente, mas ainda não sabem bem em quê. mais um vítima de si mesmo. ou se faz de vítima? notaram sem inveja que o seu tronco está ligado ao abdômen por uma cintura estreita, sua cabeça está livre e apoiada ao tronco por um pescoço fino e com antenas que se dobram ao meio. não parece ser carnívoro, espécies consideradas mais primitivas, mas apreciador de substâncias açucaradas e fungos. suas partes bucais parecem adaptadas para morder e ingerir alimentos líquidos. aparentemente, não é nômade, mas é somente isso, por enquanto, Por que não pede licença e vai para casa chorar, reclamar do cafezinho frio, da família das crianças, do alarido no pátio durante as aulas de educação física, intento de pedir como ato verbal de protesto

imagino que a solução para o seu caso é tomar chá verde, bem quentinho, namorar bem devagarinho, olhos nos olhos, passar nos recursos humanos e assinar a sua demissão, Se não gosta do que faz por que continua por aqui, pergunto desaforadamente em silêncio, apenas com a intenção de manter subjugados, em silêncio, a todos e todas que procuram a escola, ou a resposta se acha na incapacidade e medo de fazer um outro caminho de trabalho, uma outra profissão

Querido, até alguns anos, estes também eram nossos números, diria que em algumas escolas os números se apresentavam mais mortais. Saqueadores dos sonhos de milhares de alunos e alunas. Chegamos a ter índices de reprovação acima de cinqüenta, por vezes, sessenta ou setenta por cento.

A reprovação em nome do que e de quem?

Acredito que deva ter sido uma reprovação em nome do Deus da Tradição da Família e dos Bons Costumes, pois todos nos julgamos caridosos. Homens e mulheres de fé, cheios e transbordadas de um imenso sentimento de solidariedade, mas com muita saudade do poder imensurável que tínhamos nos momentos de aprovar ou reprovar, eis o nosso AI-5 que usávamos sem critérios e sem muito sofrer. Sem muito alarde.

Quantos jovens e velhos foram jogados ao mar de pés e mãos amarrados?

Amordaçados!

Tudo bem, estou sendo injusta, muitas vezes, vislumbrávamos uma leve sensação de injustiça sendo cometida e ficávamos chateadas um pouquinho, mas era só!

a lia continuava com seu discurso forte, avivando as memórias com a sua fala, ouvia-se o murmúrio do desconforto. as alunas de estágio do magistério presentes à reunião, apenas se olhavam sem entender muito essa história de reprovação e ai-5, também seria pedir muito que compreendessem essas siglas, quando muito estavam aqui, hoje, e amanhã ali, comandando suas tribos, impulsionados por tudo que por ora desaprendiam conosco. lamúrias, queixumes e ausências. aquelas em exercício de prática que por sorte eram escalados para o comando de professoras competentes e comprometidas, conseguiam ter uma visão menos turva do que as esperava mais adiante. compromisso. aquelas designadas para turmas com professoras menos competentes ou professores menos criativos e determinados em realizar suas tarefas de educador, logo apresentavam os sintomas dos mestres, pouco ou nenhum envolvimento com os alunos. gritos. palavras de ordem. e sempre que possível, passar a turma adiante. para que alguma outra se incumbisse das suas tarefas. não são todas, não são todos, mas são muitas e muitos. transmitiam poderes, jovens aprendizes delegadas. descompromisso. a escola também tem sua culpa nesta formação equivocada, quando os escala para jogar nos mais variados times, geralmente, de acordo com as biometrias, as faltas e os atrasos. o cobertor curto. digo, a bem da verdade, que quase nunca vi, esbarrei ou percebi seus professores orientadores de estágio perambulando pela escola. quem sabe, não venha a ser esta a primordial atribuição, já devem ser tantas, supervisionar os estágios com regularidade e constatar pessoalmente o que acontece. as variadas matizes que sempre tomam o rumo do humor dos seus atores e atrizes, por certo, não merecem a mesma atenção das outras tarefas que os mantém ocupados

É só mudar o patrão que tudo volta ao que era antes.

O patrão é o povo. Ele é que nos paga e tem o direito de exigir o nosso melhor...

O povo nada! Quem manda é o prefeito! Ou o governador do Estado! É básico!

Acemira, sei que é difícil, senão impossível, que tu entendas.

a acemira nunca perdeu e nunca perderá a oportunidade de empurrar o abismo para a beirada de todos no abrigo, se o suicida não vai até o despenhadeiro ela se encarrega de trazer as profundezas do caos, com um sorriso nos lábios, num gesto de oferecimento frio e sem humanidade. falta-lhe o amor, sobra-lhe o discurso despropositado que jura ser amor, mas eis o momento da sua razão desviada: não se envolve com os ciclos de aprendizagem. todos sabemos que mudando quem manda, para um mandador autoritário ou fingidor de interessado nos interesses do povo, voltamos ao ai-5, avaliações e reprovações como regra. estabelecer a busca da qualidade com a exclusão dos menos capazes de adaptar sua opinião aos interesses do momento. é o velho querendo substituir o novo que se estabeleceu a contragosto no fazer pedagógico, em um câmbio da luz desaforada, pela penumbra ressentida e ressequida, Que tal a gente se foder um pouco, tocando, descobrindo e desvelando a nós mesmas, desculpem o atrevimento. acho que exagero

Não existe uma teoria que favoreça a reprovação, esta é uma questão ideológica de formatação da sociedade que queremos. Nós, os professores e as professoras, pequenos burgueses e pequenas casadas burguesas, nunca faremos alguma revolução que nos desestabilize. A sociedade precisa nos reformular, começando pelas escolas que nos formam e formatam doutrinariamente reacionários e reacionárias!

Gurias vou me candidatar no concurso de “Professor do Ano”.

a intervenção da ofélia chegou a todos na surpresa do atrevimento, causando espanto e olhos de interrogação, brincadeira ou vaidade arrogante, inocência deliberada e útil ao caos das profundezas da alma e do espírito

O quê?!!!

Depois que inventaram os ciclos não duvido de mais nada!

acemira continuava atenta ao relógio, e aos discursos pedagógicos, e didaticamente expunha suas idéias, não quis o atalho oferecido por ofélia para outra direção

Pronto, agora somos astutos e resolvemos por antecipação quem reprova ou aprova, esse papo tá cansando.

eis a boa e inigualável cabayba de volta a discussão

Vão querer me fazer acreditar que nunca se ouviu ou se viu nenhum professor nos primeiros dias de aula declarando seu voto sobre quais alunos irão dar certo e quais alunos não irão conseguir acompanhar seu ritmo de ensinar, em um grande vaticínio pedagógico?

o mestre orientador samuel contribuindo com a possibilidade de esclarecer e revelar o seu pensar e o nosso fazer, muitas vezes encoberto pela solidão da sala de aula, na ignorância dos alunos e indiferença de todos que poderiam interferir, mas se escondem na ética do ‘não vou me meter no trabalho do colega’, e o trabalho do colega é conviver e educar crianças ou velhos e velhas. com certeza, se estivéssemos produzindo parafusos seríamos chamados a atenção para os desvios milimétricos da ferramenta, mas, afinal, são somente crianças com pequenos defeitos e desvios, se consertam com o tempo, pois tempo é o que não lhes falta, talvez lhes falte a família e o nosso interesse

E não esqueçam que toda profecia se realiza, nem que para isso tenhamos que dar uma ajudinha.

Professora Lia, temos o poder de construir o sucesso ou fracasso de nosso aluno. O que fazemos dele?

era o aguinaldo totalmente envolvido na discussão e disposto a pôr mais lenha como combustível desta fogueira polêmica



será que os professores ainda nos têm por máquinas copiadoras e que devemos agradecer o privilégio de os ter aqui, me pergunto, a escola, afinal, é um direito de todos, O que é de todos não alcança ninguém, nem as pessoas jovens ou velhas, oratória de adorno, ilusão cínica. lembro de outra noite, só faltou o prefeito, mas outros homens e as mulheres importantes da cidade nos visitaram para dizerem da sua satisfação de nos entregarem a escola noturna, pareciam quase tão decentes, tão alegres, disseram que era uma tal de aula inaugural. foi tudo muito bonito, só não entendi porque os professores deveriam fazer reuniões de estudos e planejamento em nossa primeira semana de aula. nos disseram que as lições com os professores só aconteceriam na outra semana, ficamos sem os tão esperados exercícios de copiar. nosso desejo imediato era entrar na sala de aula e escutar, decorar tudo em seus detalhes, estudar, jogar bola, mas teríamos que esperar ainda mais. claro, para quem já havia esperado tanto, talvez não fizesse mais diferença. só não conseguia entender porque e deixo escapar um breve e resignado suspiro, acredito que conseguimos a escola da noite, mas dentro do meu coração sei que ela não nos pertence

muitos são os alunos e alunas, professores e professoras, que desistem no meio do caminho, nada adianta educar a inteligência sem a compreensão do coração. instruir somente o corpo e a mente de pouco adianta sem a sabedoria da entrega no amor, amizade, justiça, humildade de reconhecer suas imperfeições e a força moral de buscar os caminhos da mudança de um em outro, escutando os outros e fazendo ouvir sua voz. não lembramos mais quantos colegas desistiram, houvera muito estudo para os professores e nenhum para nós, seus alunos e alunas. nem mesmo tem ou teve alguma importância, para aqueles homens e aquelas mulheres quase decentes, que houve quem desistisse das aulas, Haverá outros a desistirem durante o ano, dirá alguém ao desdém, empurrando para cima e puxando para baixo os ombros

avanço no meu tempo de recordar. Quanto mais subo as montanhas e sofro com o ar rarefeito mais para trás enxergo.

outra professora, mesma burragem, Que todos escrevam sobre o Natal. uma das meninas, a solteira, sem nenhum alarde ou alarido, apenas não fez a tal escrita. com os trabalhos já em suas mãos a professora deu pela falta daquela, e anunciou a iminência do perigo, A sua avaliação para o próximo ano depende, também, desta redação. indiferente, a mãe solteira deu de ombros. não sei se por causa da redação não feita, ou do famoso dar de ombros, ela continua na mesma turma, não avançou em aprovação. agora, por esses dias, perguntei porque ela não fez a composição natalícia, Não gosto do Natal, é triste, nada me anima a colocar o mesmo vestido, cada dia mais sujo e feio, moro sozinha, não tenho a quem olhar, dei meu filhinho, melhor assim, não preciso me enfeitar, não ganho presente, mas também não preciso dar nada, não tenho nada pra escrever da alegria dos outros, essa moça, a professora, que faça o que é melhor, ela estudou pra isso, pra saber fazer o melhor. disse-lhe que poderia ter escrito tudo isso que havia me dito. deu de ombros. lembro das pessoas amigas que conheço colocando seus filhos na frente da televisão, apenas para distração das crianças e sossego deles. pais e mães fogem daqueles seres pequeninos incansáveis, quase indestrutíveis em energia, e não sabem o que está acontecendo, nem sabem o que estão testemunhando, e sempre que deixam seus filhos nas ruas, os recebem de volta quando o corpo exige alimento ou está seco e quer água

sinceramente, não vejo muita diferença, nossas professoras nos mantinham ocupadas com quadros cheios de atividades, apagavam e já começavam na outra ponta, só havia tempo de escutar a pergunta, Já copiaram, eita encher o quadro de novo, não nos deixavam levantar um pouquinho. as professoras eram bons de escrever rápido no quadro, alguns de nós conseguiam copiar quase tudo, mas nem todos. pensava que essa gente que ensina tinha que ser mais calma. queria que saíssem com a gente para passear um pouco, cansa e dói ficar sentada o tempo todo, aluno bundante. eu não gostava quando enchiam o quadro. nossas professoras até eram boas, mas deveriam gritar menos, assustavam. gostava de alguns mais ou menos porque só davam exercícios e muitas frases escritas, de outros tinha medo porque eles queriam melhor, vencer sempre, gritavam e eu achava que ficava meio feio para elas que são professoras, falar assim, Será que os nossos professores não veem flores em nós, Não sei, me responde minha alma, mas de todo jeito vivem somente dentro de pesadelos, alguns parecem louquinhos para ficarem longe da gente, vivem saindo da aula, estão sempre perdendo algo que precisam buscar. achava muito ruim quando elas saiam da sala, todos ficavam uma bagunça. uma vez fui atrás da professora porque uns meninos estavam brigando. a encontrei tomando cafezinho e tagarelando, com a professora da turminha do andar de baixo, ficou zangado comigo e mandou que eu voltasse já para a sala, voltei, mas ela demorou mais um tempão. Quando retornou precisou dar muitos gritos histéricos, a turma não estava dando a mínima, na maior bagunça, lápis, papéis e cadernos pelo chão, giz esmagados, quadro todo riscado, uma das cortinas fora rasgada e a professora exigia aos berros que todos pagassem, Uma ova, eu disse que a culpa era dela e que eu não tinha dinheiro para pagar pelos erros dos outros, gritou que queria meu pai na escola, no dia seguinte, Meu pai já morreu, Então quero a tua mãe aqui, amanhã, Minha mãe já morreu, Querem saber, não aguento mais fazer parte desse circo grotesco, você não entra mais na minha aula sem os teus pais, gritou dessa maneira e saiu batendo com a porta. fiquei pensando comigo mesma como iria fazer meus pais virem até a escola, pois nunca mais os havia visto depois que morreram. depois, me chamaram na sala de uma professora com uma conversa mole, mas que repetiu as mesmas bobagens, no final de tudo isso, disseram que eu havia faltado com o respeito com a professora e que deveria ficar uns dias em casa pensando em melhorar minhas atitudes. resolvi não voltar mais à escola, pois achava que era aquela professora que tinha atitudes a melhorar. as minhas não estavam erradas, e assim aconteceu o meu primeiro tropeço escolar, pra mim a escola passou a ser um imenso casarão mal-assombrado


 
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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Poesia Africana: Vadinho Velhinho (Cabo Verde)

Poesia Africana  - 05




E SÓ NESSE DIA OUTRO BORGES NÃO SERÁS



Nos teus deslumbrados olhos um tigre inteiramente doirado
E um outro inteiramente preto disputam os anjos


De Blake. Frios, esperam os espelhos que acordes
Para que te nomeiem. Já não sabe o labirinto


Nem o sul e as pampas ou o degolado templo
De Dagon o sabem — do antigo e secreto caminho


Que a teus olhos de volta conduz. A mão dita-te
O epitáfio e lê-te a rosa o esquecimento qu’inda luz.


O caixão, que por Genebra ninguém viu passar, cru
Levam-no Muraña e, reconciliados, os irmãos Iberra.


Um dia, quando do teu sono acordares, Georgie,
Banhada em êxtase e tango, terás defronte a ti, sob a Lua,


Um infame, um vil, a limpar-te na glande o resto do sêmen
Com uma navalha que a mais nenhuma mão obedecerá.






MÁSCARAS



De que fingimos
Não se dão conta
As Máscaras


Para coisas maiores
Foram feitas






UM POETA FALANDO A NIETZCHE



Deus morreu,
Nietzsche,
Mas no teu interior,
Dentro de ti,
Está mais vivo do que nunca.
Mil vezes mais vivo.


Disso eu sei porque
De vocês os dois
Sou eu a sepultura.