sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Uma garrafa de vinho

Ensaio 23B
baitasar
O padre apontô o crucifixo no peito, levava a Eternidade pendurada, o castigo bem à vista aconselhava acautelá os pensamento e as atitude, ele convocava com desembaraço a Cruz nos juramento, assim, não precisava anunciá com muitas palavra o robusto carvalho da verdade, Um dia que pode custar, mas pode não demorar muito, vamos ser adubo do milho, e a nossa alma uma oferenda à misericórdia de Deus, o padre fazia ameaço com o dia do julgamento sem dizê a ameaça, sabia não precisá mostrá o inferno
—        Vosmecê acredita em Deus? Onde estará o sopro da sua coragem?
O siô Menino não gostava de ficá empurrado de costa na parede e cercado pelos lado. Aquele rumo da conversa lhe pareceu envenenado pelo cobiça, se o padre não fosse padre, ia arriscá pensá qui ele tava investigando com segunda intenção
—        Eu e a dona Casta não perdemos um domingo, estamos sempre na missa da manhã. E olhe que a viagem é longa, sinhô padre.
Nem o siô Menino sentiu satisfação com a resposta dada, o padre achô qui ele tava brincado de esconde-esconde com a solução, sabia qui a resposta não valeu, deu chance da interrogação continuá té qui a compreensão pudesse aclará  o espírito do padre sobre as sombra qui carregava por dentro
—        Não foi o que lhe perguntei, vosmecê aceita por fé ou acredita por acreditar?
O siô Menino tinha fé no qui podia vê dá resultado, Eu tenho fé na chibata, nas correntes para prenderem os negros, acredito nos poderes da Maria Cobra, essa mulher consegue me endoidecer, mas não acredito que sou louco por conta das paixões desregradas, elas me guiam e me estimulam à vida, acredito que as mulheres me salvaram de ser um monstro abominável, um rei na barriga, agora vem esse padreco querer minha confiança nas palavras dele, prefiro ficar calado e não desafiar o desabusado, não quero arriscar a excomunhão
—        Não desacredito, nunca deixei de fazer o sinal da Cruz, é como uma proteção da bondade.
O segundo maió dos três encapuzado qui tinham feito o juramentado jurá, pareceu impaciente com aquela investigação atrasada, tirô o capuz. O siô Menino não quis arregalá as vista, mais sabe qui não controlô, o desembrulhado era o doutô Garganta, o acusadô dos criminoso da Vila
—        Padre, essas perguntas deveriam ter sido feitas antes...
—        Eu sei, mas...
O doutô Garganta não tava disposto em mantê aquela polêmica com o padrinho do siô Barros, por isso, desviô sua atenção do padre e perguntô à queima-roupa
—        Senhor Barros... Deus é um sentido ou uma ideia?
O siô não tinha resposta praquele desafio, Mas que merda é essa, se perguntô, queria saí dali, mais não podia silenciá, precisava arriscá dizê alguma coisa
—        Ele é tudo.
O acusadô encarô o siô bem de frente, as vista na frente das vista, procurava alguma coisa, qualquer coisa, qui pudesse usá pra fazê desfeita do feito, desmerecê o juramentado, té qui se deu por satisfeito e anunciô ao padrinho
—        Agora, padre, só nos resta fazer o acontecido acontecer.
O siô Menino Barros Cabral, conde Humaitá, tava aceito, ele agora era um bode na loja da Vila. Mais um estúpido ou bem-aventurado, não queria se perguntá, não queria trapaceá a resposta, nem queria esclarecê
—        Bem senhores, vamos relaxar com um bom vinho.
Os dois mascarado qui restava acabaram com a fantasia de mistério: o maió de todos era o visconde Madeiro, juiz da Vila, o homem encarregado de fazê justiça cega, enxergá a verdade no lugá qui tivé, sem vaidade ou medo das fofoca, preocupado com a aplicação das leis corretamente, fazê o certo livremente; e do lado, tava o menô de todos, o coroné Sião, chefe das pulícia, encarregado de mantê a ordem e os bons costume, ainda tava com as mão suja com o sangue do bode
—        Me ajuda com as roupas.
A preta chegô perto da branca, ajudô soltá as camada qui a siá usava por cima da sua brancura. Desde a outra vez, Milagres não fez mais a siá descarregá as vontade da carne, não tinha lhe visto sem as roupa de sinhá patroa. Agora, tava usando as vestimenta de mulhé. A pele branca aviva a abundância dos pelo preto nas virilha
—        A siá qué qui lhe apare os pelo? — a sinhá patroa queria dizê qui não, mais tinha a sinhá mulhé qui queria aceitá, qui sim, ela podia
—        Se deite qui lhe faço o serviço sem demora.
—        Não. É melhor que fique assim. — os bico roseado parecia envergonhado das vista da preta Milagres. Enrubescido e duro. Olhava com os olho no chão, como se pudesse escondê a vontade de deitá com a siá, mulhé qui parecia as água se debatendo nas rocha. As água enchendo as fenda qui nenhum homem conseguia dominá, té qui qui a fenda se transforma em mar e as profundeza domina tudo qui respira.
A siá lhe deu as costa e caminhô té as água, a preta Milagres ergueu as vista, Vô me deitá com a mulhé branca, tava decidida, ia roubá as vontade da mulhé do siô, ia tê a sua escrava. A mulhé branca entrô na banheira de louça, mergulhô toda na água perfumada, afundô. Quando voltô olhá na volta, a mulhé preta tava no lado da siá, toda preta, brilhando de vontade. As duas se olha com as vista erguida de frente, té qui uma deu a mão pra outra, as água juntô as duas mulhé, cantando, dançando e provocando, a fúria do apetite prendeu as duas na profundeza da fenda. O descontrole tomô conta das água do mar. O balanço do navio negreiro rasgava os negro acorrentado, o porão escuro e apertado, o peso das corrente, a dô nas lágrima. Não, nenhum branco ia entendê a dô das corrente em meio ao nada.  
Quando saiu da loja da Irmandade, a rua da Igreja tava toda iluminada com as lanterna, cumprimentô um qui outro cavalheiro qui disputava as calçada e o pavimento da rua, não tava disposto pra fazê conversa mole, queria sentí os perfume das moça da Maria Cobra, quanto mais se conhecia as moça, mais tolerante se ficava com as moça. Fez cumprimento de despedida e mirô na direção da rua dos Pecados
—        Boas noites! — seguiu té a rua do Cotovelo e desceu pra rua da Ponte, pelo beco do Fanha. Atravessô a rua da Ponte, continuô a descida té a rua da Praia, dobrô na direção da Arsenal. Ia com um pequeno assovio evaporando dos lábio, tava na direção certa, Um sujeito que nada faz como se estivesse pra morrer, no dia seguinte, nada valia, ele tinha plano, mesmo no caso de morrê no outro dia, havia de tê continuação. Precisava tê plano, e o propósito, agora, era visitá as moça da dona Cobra, mulhé de valô e jeito com as mão.
Amanhã, té podia não existí pra ele, não existí continuação, mais não lhe passava nenhuma desistência, pelo contrário, sentia qui o sangue lhe subia pela virilha e lhe inchava. Os colega da Irmandade qui lhe perdoasse, no caso de querê perdoá, A vida se vive na cama do amor, nada é maior, nem tem melhor gosto, o perfume do amor cura qualquer tristeza, o siô té tem juízo de julgamento da vida, qui arriscá anunciá sempre qui bebe vinho além da sua conta de aguentá, Não se leva nada desta vida, só as lágrimas dos amores na cara do defunto, antes de fechar o ataúde.
Acariciava a garrafa de vinho no bolso do casaco, seria mais apreciado pelas moça qui pelos bode da Irmandade.

__________________
Leia também:

Ensaio 22B - Os filhos do Criadô do mundo e os bode

Ensaio 24B - O amô qui se carrega nos bolso


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Auto-ajuda: Mafalda... me deu péssimo outra vez

Um mundo maravilhoso de bibliotecas!




Quem ensina o jovem a conversar?



Os professores e professoras repetem com suas folhinhas xerográficas bancárias, Quem educa são os pais, professor ensina, o pai diz que não tem tempo, a mãe arrepiada e desmanchada fala que não pode mais. Resta a internet, o celular, a tv, os amigos ou as amigas. As bibliotecas estão vazias desses jovens mudos (e adultos surdos...) para conversar (sic... e esse é lugar para conversas?), será que conversam em outro dialeto? Quem ensina ou quem educa... o quê?

A prisão ensina ou educa? Mata!

Quem serão os cordeiros do mundo? Os desordeiros?

A tropa de choque ajuda ou atrapalha?

Já sei, a Mafalda! Será que ela topa?

Ingênua?

Ela não é ingênua, ela é perigosa.







Ingênuas, não! São perigosas!






Não, seu comunista!







Papai, você pode me explicar por que a humanidade funciona tão mal?








Hoje aprendi que a verdade decepciona as pessoas.








Não imaginei que minha pergunta fosse tão interessante.








É triste ter que bater em alguém que tem razão.








O que você não entendeu, Manolito?








Mãe, pra que a gente está no mundo?








Tem um doente em casa!









O mundo está o quê?








É pra isso que a gente vai todo dia na escola?








... a melhor idade da vida é estar vivo








os carros e os homens








Papai! quantos anos você tem?








o calor o governo e as culpas









Tem muita gente irresponsável acordada, viu?









___________________________

Mais Auto-ajuda:

Auto-ajuda: em meio ao mar

Auto-ajuda: O desassossego de viver e não saber ter vida



quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Os filhos do Criadô do mundo e os bode

Ensaio 22B
baitasar
A Milagres voltava do trabalho na mata, trazia junto, agarradinha nela, a alegria da mulhé emprenhada, era o qui queria tê, vinha satisfeita com os caminho aberto, ainda não tinha pisado no chão da terra com todo o seu corpo, parte dela flutuava do transe, sonhava com o banho de cachoeira qui tinha escutado da boca da Rita, A pancada da água nas costa tinha  força pra espantá as coisa ruim do corpo, é assim, desde qui tudo existiu, a terra, o baobá, mais houve um tempo antes qui só tinha água, nada vivia ou morria. Sentava na noite adentro pra escutá Rita, qui escutô da mãe qui atentô de ouví da mãe da mãe, Foi preciso Olorum se cansá da solidão do além-mundo e decidí criá o mundo e os orixá, os seus filhos, pra conduzí e aconselhá as coisa desencaminhada no mundo recém criado. Por isso, deu a cada orixá um conhecimento, pra juntos mandá e controlá os descontrolado, guiá e influenciá os desorientado. Oxalá, o filho mais velho, recebeu a bolsa da Criação. Então, veio ao mundo recém criado com as terra e o baobá junto na sacola. A vida se transformava na saco da criação e pesava nas costa de Oxalá, qui esqueceu a recomendação de seu Pai, não pediu ajuda ao seu irmão mais novo, Exu, qui tinha a habilidade de modificá a lagarta em borboleta, o reviramento da imaginação em aparência. Oxalá esqueceu Exu, só pensava na sua criação do mundo. Não fez oferenda ao irmão mais novo e começô a perdê tempo com os acidente qui Exu preparava no seu caminho, té qui dormiu cansado. Odudua, outro filho de Olurum, ofereceu a Exu um obó de presente. Depois de agradá o irmão mais novo, pegô a sacola da Criação qui tava dormindo ao lado de Oxalá e seguiu pro lugá da amamentação da infância. A mão-cheia de terra qui tirô da sacola de Oxalá jogô sobre as água: a terra se expandiu. Foi quando Oxalá acordô e viu qui o mundo existiu. Ele foi procurá Olurum, tava triste, ele sabia qui foi enganado pelo seu desdém e vaidade. Na casa do Pai foi repreendido, mais ganhô outra missão: criá as pessoa qui devia admirá o encanto de tudo o qui tinha sido feito: os humano.
Não fez nenhum ruído quando entrô no casarão. Rita sentiu sua chegada, e sem levantá as vista do chão, foi avisando
—        A siá lhe aguarda com os preparativo do banho.
Milagres olhô o vapô das água aquecida, reparô nas brasa viva do fogão de barro, parecia qui aquelas brasa lhe queimava por dentro, incendiava a desarrumação dos pensamento
—        Vô avisá do banho.
—        Precisa de ajutório?
—        Não, ocê já fez parte da minha parte.
—        Então, boa noite. Vô me recolhê.
—        Boa noite, qui o Pai lhe acompanhe. — a mulhé se virô e saiu arrastando os pé e resmungando as despedida do seu dia, se oferecendo pra amamentá a nascença do outro dia, outro filho pra carregá de cuidado e carinho, agradecendo Olurum a sua bondade de criá tudo qui existe e oferecê os seus filho pra povoá o mundo. Cada uma tomô o rumo do seu destino.
A escrava se fez anunciá com duas batidinha na porta do quarto da siá
—        Entre.
Empurrô a porta com cuidado e, antes de entrá toda, enfiô o olhá com jeito cuidadoso, a siá tava sentada na frente do espelho, escovava os cabelo na claridade das vela. A escrava fez o ruído calmo da sua voz anunciá a sua chegada
—        A Rita me falô da sua vontade... — a siá lhe interrompeu sem virá o olhá do espelho, sem pará de escová — O que ela lhe falou?
A mulhé preta deu um passinho pra dentro do quarto, largô a porta e deixô as vista no chão, os braço largado ao lado do corpo, os pé descalço firmava Milagres no assoalho amortecido. Sentiu vontade de contá as história do seu povo praquela mulhé qui podia fazê o seu filho livre, mais não sabia o qui fazê com as sua regalia da cô. Depois pensô qui não ia tê serventia nenhuma pras duas, era melhó calá pra modo de precaução
—        A siá queria tomá o seu banho.
Siá Casta largô a escova na mesa do espelho, levantô e se virô toda pra sua escrava, pensô em lhe fazê confidência de mulhé, falá do seu medo de não conseguí o filho do esposo, o desalento de não ser mãe, deu um passo e pareceu qui lhe dizia tudo de uma só vez, o desabafo de um só fôlego, sem chance de arrependimento, as mãos ajuntava os dedo da outra mão e ficava enlaçando uma na outra. Não conseguiu mais nenhum passo à frente, ficô onde já tava, incompleta
—        Pois é isso mesmo.
As duas deu o mesmo passo pra trás
—        Então, vô lhe prepará. — curvo as costa pra frente, as vista no chão e saiu de costas, os dedo dos pé esborrachando no assoalho
—        Quero o meu banho com os cheiros do mato.
—        Já lhe apronto. — fechô a porta e correu té a cozinha, encontrô as água evaporando pelo calô do fogaréu. Carregô uma das tina té o quarto do banho. Derramô té esvaziá a água da tina, sentia o vapô subindo da banheira da siá lhe queimando a pele. O siô Menino mandô ví  da Vila aquela peça de louça para o banho da siá. Milagre esperô qui o vapô pudesse sê desvendado, queria vê o tamnaho da água quente. Saiu com a tina vazia e voltô com mais duas tina, uma pra cada mão, uma fria e outra quente. Despencô de uma vez a tina com água fria, depois foi experimentando a quentura e colocando mais um tanto da fervida, té chegá no ponto. Abriu um pequeno saco de pano qui carregava amarrado na cintura e retiro os cheiros do mato pra perfumá as água do banho. Separô as toalha do banho, olhô na sua volta, a claridade das vela e o nevoeiro do vapô dava uma penumbra amarelada. Tava tudo pronto. Bateu na porta do quarto da siá
—        Entra, Milagres.
Entrô
—        Sinhá, o banho tá pronto.
A siá Casta se levantô, parecia querê perguntá, parecia querê pedi
—        Algum dos cavaleiros da Irmandade se opõe a candidatura do senhor Barros Colombo como membro da nossa loja?
Nenhum respiro, não teve mexida com as mão, as vista não tremeu, ninguém tinha o que mostrá, tem vez qui não é preciso da paisagem, basta deixá borbulhá o miolo da atenção, escutá a respiração, ele tava aceito.
O maió qui ficava no meio fez outra interrogação solene, parece qui ele era o funcionário perguntadô da Irmandade, o celebrante qui aliviava os outro de falá, pra dizê o qui os outro pensava ele tinha a voz e o pensamento de tudo
—        O senhor Menino Barros Cabral, possuidor das terras no Caminho Novo, denominadas Fazenda Humaitá, está presente?
—        Sim, esse sou eu!
O padre o acompanha té a mesa, qui tá mais parecendo um altá, pronto pra recebê o sacrifício, tem vez qui não é bão a visão da paisagem, ela assusta mais do qui precisa e espanta os argumento da inteligência, faz sumí  sem motivo o juízo e a justiça, na verdade, a causa desse espanto com o panorama das vista é o medo de sabê qui o cordeiro servido é ocê
—        A partir de hoje, vosmecê será um bode.
O siô inclinô a cabeça pro lado qui lhe pareceu sê da respiração do padre, esperô té qui a respiração lhe colocava atenção e perguntô com a voz mais silenciosa qui podia inventá de fazê
—        Padre, que mal lhe pergunte, mas por que passei a ser um bode?
O padre aproximô a respiração da orelha do siô, com os modo mais secreto qui a ocasião permitia, coisa parecida com as confissão, gostava dos sussurros do confessionário, lugá dos mais interessante, qui lhe conferia um podê divino: acumulá na memória as parte mais ruim das pessoa. Ninguém confessa as coisa boa qui fez, essas é anunciada sem disfarce, mais mostrá o lado diferente da bondade dos beato faz o esmoladô da indulgência, ajoelhado no degrau da confessionário do padre, vacilá das própria intenção do arrependimento
—        Um bode não trai os outros bodes, e mais importante, um bode guarda os segredos que ouve e vê, se preciso for com a própria vida.
—        Como os serviços do padre nas confidências e declaração de culpa...
—        Mais ou menos...
O do meio alterô a voz
—        Feito o juramento de servir aos interesses da Irmandade... retirem a venda.
O siô teve vontade dele mesmo retirá o pano qui tapa as vista, mais esperô, sabia qui não perdia nada pro esperá. As mão do padre soltô a venda. Abriu as vista e uma iluminação intensa lhe obrigo fechá a cena, abriu novamente, té qui acostumo, recuô um passo quando viu os três qui lhe apontavam as espada
—        As espadas apontadas para o senhor significam sua proteção pela Irmandade, em caso de perigo.
Todos se juntam, té fazê um círculo com as espada apontada no siô, o centro, o alvo da proteção ou da ameaça, não podia sabê, mais podia senti qui a encenação tudo tinha dois lado, cabia a ele escolhê.
O mais quieto e menô dos três encapuzado degolô um bode e verteu o sangue do animal numa bacia, depois colocô o líquido morno num cálice qui foi bebido por todos os presente
 —       Não existe iniciação sem morte.

________________________

Leia também:

Ensaio 21 - O preto se transformô num pombo

Ensaio 23B - Uma garrafa de vinho


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Porto Alegre: Feira do Livro 2013


Fischer: “A Feira não é uma feira de literatura, é uma feira do livro”


SUL 21



“A minha ideia é tentar ser uma voz a favor do leitor” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Iuri Müller

Quando chegar novembro, a 59° Feira do Livro de Porto Alegre vai encontrar em seu patrono não apenas um homenageado, “mas um embaixador do leitor”. O professor e escritor Luís Augusto Fischer, aos cinquenta e cinco anos, defende que a Feira precisa de “variedade de livros e variedade social”, para além das capas que nos últimos anos têm se repetido em grande parte das bancas. Fischer, no entanto, afirma que o formato atual, de feira aberta em praça pública, ainda é o mais interessante para o evento.

Em entrevista ao Sul21, Luís Augusto Fischer defendeu que é natural que a Feira do Livro não abrigue o debate “profundo e especializado”, mas que busque atrair o público geral, ainda distante do romance e da poesia. O patrono trata a Feira como “do livro”, mais do que “da literatura”, e diz que são os aspectos triviais que aproximam o evento do imaginário da cidade – como o fato de comercializar livros de culinária e de ginástica e de acontecer na primavera, tempo em que Porto Alegre se embeleza na Praça da Alfândega.

Sul21 – Que possibilidades e limitações têm o patrono para modificar internamente o evento, entrar de fato nas discussões que movem a Feira do Livro?

Luís Augusto Fischer – Quando acabaram por escolher o meu nome eu fiquei meio sem saber o que dizer, o que é estranho, pois há quem tenha sido derrotado, enfim. Mas em seguida eu me articulei com uma ideia, que já apareceu na imprensa, de eu me tornar o embaixador do leitor. É a minha forma de entender as coisas, e citei o Ruy Carlos Ostermann como referência disso. Quando ele foi patrono (em 2002), afirmava que não se sentia como um homenageado, mas como alguém que tinha um papel de mediador no evento. Isso de alguma forma se opõe a uma ideia que é de certa forma charmosa, mas que não me interessa muito, de eu me sentir homenageado. Essa fantasia é muito forte. Quando eu voltei para aula os meus alunos da faculdade diziam: “tu vais continuar dando aula depois de ser patrono?”. “Como assim? Tu achas que eu fui eleito rei?”, eu respondia. Então tem um pouco uma ideia de se descolar da realidade. A minha ideia é essa de tentar ser uma voz a favor do leitor. Isso tem implicações, por exemplo, eu mesmo já tinha escrito em outras ocasiões da Feira que ela tem um problema de oligopolização.



“Há uma guerra meio surda dentro da Câmara Riograndense do Livro” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Há também a crítica sobre a falta de diversidade das bancas, dos livros que se repetem pela Feira, sem espaço para grandes surpresas.

Luís Augusto Fischer – A verdade é que tem uma guerra meio surda dentro da Câmara Riograndense do Livro, porque na prática a Câmara tem cada vez menos livreiros. Livreiros de rua, por exemplo, não entram na Feira. A Bamboletras, por exemplo, parou de participar. De modo que são poucas as livrarias de rua e as redes de livraria nacionais não são associadas da Câmara, portanto não têm banca. Não adianta ser filiado na Câmara Brasileira do Livro, é preciso entrar na Riograndense. Isso é mais uma coisa do nosso meio separatista, quem sabe. Criaram uma Câmara Riograndense do Livro que tem méritos, claro, porque fez a Feira. Mas as editoras nacionais não têm lugar. Elas só têm, na verdade, via um distribuidor. A Companhia das Letras, por exemplo, adoraria colocar uma banca, mas tem que colocar de forma indireta. Então há muita discussão de bastidor que acaba interferindo nisso.

Sul21 – E o patrono pode se envolver nesses problemas?

Luís Augusto Fischer – É o que eu estava começando a explicar. A minha colocação é essa. Conhecendo o panorama, eu disse: “eu sou o embaixador do leitor”. Claro que eu me interesso que as pessoas comprem livros, mas eu vou continuar olhando para a Feira do ponto de vista de um leitor. E o que eu quero como leitor? Quero variedade e quero encontrar livro barato. Eu nunca perdoei a Feira por ter abolido o desconto obrigatório de 20% que existia, e já não tem há mais de dez anos. Mas, enfim, o meu negócio é esse de me colocar no ângulo do leitor e a favor de variedade. Essa é a palavra de ordem para mim: variedade de livros e variedade social. Vou aproveitar esse espaço para dizer que a Feira é de todo mundo, que o legal da nossa Feira é que ela é feita em praça pública, não é de ninguém e ali não precisa pagar para participar.

Sul21 – Na Feira, os debates acontecem de forma paralela em relação à venda de livros. Como fazer com que essas discussões, que já acontecem e trazem inclusive escritores de fora, se aproximem da compra, da atividade cotidiana da Feira?


“A literatura, em todo o ocidente, entrou no circuito das celebridades | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Luís Augusto Fischer – Na verdade, não sei bem se tem como combinar. Os debates paralelos e as oficinas são relativamente recentes, aconteceram nos últimos quinze anos. Eu escrevi um livrinho sobre a história da Feira quando ela fez 50 anos e lá tem essas datas, que agora eu não me lembro muito bem de cabeça. Mas eu me lembro que nos anos 1980, por exemplo, era muito difícil encontrar público para qualquer atividade paralela. Havia, no máximo, chance do escritor autografar os lançamentos. E o debate era uma coisa vista como uma bizarria. De lá para cá, o que aconteceu foi que a literatura em todo o ocidente entrou no circuito das celebridades. Começou a acontecer muito desses festivais como a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) e esses festivais dão o tom de um evento literário ligado ao escritor, e não ao livro. Então no fundo são duas coisas paralelas mesmo.

Uma coisa é o cara que está na banca vendendo livro e que talvez não seja um grande leitor. É um comerciante que pode ser mais bem aparelhado ou menos, mas não está na cabeça dele a preocupação com esse mundo dos debates. Essa parte paralela existe porque Porto Alegre faz debate, acredito. É de fora para dentro da Feira. Os vendedores, por contra própria, não teriam tomado essa iniciativa. É o tributo que se paga por causa desse modelo de festival, que é diferente de feira. No festival, vem um cara de nome, por vezes um cara interessante. Mas quase sempre o festival não tem qualquer enraizamento na cidade em que acontece, ao contrário da feira. Na feira, os colégios vão lá, tem toda uma trama. Paraty por vezes é uma palhaçada. Traz um escritor, ele vem de avião, dá uma palestra, fala com três ou quatro e é isso aí. Trata-se do mesmo modelo do mundo das celebridades em geral, do glamour. E a nossa Feira, o legal dela é que ela tem essa combinação intensa. Acho que a venda e os debates são duas coisas paralelas que encontram um ponto de articulação na vontade da Câmara do Livro.

Sul21 – Como o leitor que já frequenta as livrarias de Porto Alegre, que busca livros nos sebos do Centro, por exemplo, pode ser surpreendido na Feira do Livro?

Luís Augusto Fischer – Também não sei se eu tenho uma resposta positiva para isso. Já escrevi sobre isso em outros anos, a Feira é um lugar para amador. Não é um lugar para profissional. Quem é profissional do livro, como é o meu caso, que sou professor de Literatura, trabalho para editoras, dou aula, além de gostar de ler, participa pouco. Eu não espero a Feira para comprar livros, quando eu preciso de livro eu compro em qualquer época do ano. E assim eu acho que é para todo mundo que é profissional do ramo. Nos dois sentidos da palavra, a Feira é um lugar para amador. É um lugar para o não profissional e é um lugar para o cara que ama, ou que quer amar, ou que tem uma relação amorosa com os livros.

Então não sei bem como melhorar para quem já é profissional. Acho que há detalhes que a Feira poderia ser melhor, como a área internacional. Poderia ter uma qualidade maior, mas também não é nítido sobre como fazer isso. Algumas vezes já se tentou trazer editoras de fora, e nisso havia embaraços burocráticos como para trazer editoras de Buenos Aires ou mesmo uma editora como a da Banda Oriental, que é do Uruguai, e era difícil porque tinha entraves. Realmente acho que a Feira não é um lugar para superespecialistas. É um lugar mais genérico.


“Acho que a Feira não é um lugar para superespecialistas. É um lugar mais genérico” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – E para esse público amador que por vezes encontra os livros apenas uma vez por ano, justamente no período da Feira, como ela pode ajudá-lo a se tornar um leitor mais crítico, ou ao menos mais habitual?

Luís Augusto Fischer – Acho que em parte essa tarefa é cumprida com os debates. A Feira do Livro pode acolher este debate crítico, mas não é o foco dela e eu acho que nem tem que ser mesmo. Claro que ela tem um aspecto educativo muito importante no sentido, por exemplo, de proporcionar encontro com escritores ou proporcionar a variedade de livros. Mas algo mais profundo eu não sei. Uma vez eu estive até envolvido em uma tentativa que tem a ver com isso. A Feira não tem, não articula, não organiza uma iniciativa como um fórum de resenhas de livros. Poderia ter. (Uma mulher passa na Rua Vieira de Castro e cumprimenta Luís Augusto Fischer.) Viu só, me tornei a rainha da primavera, agora me cumprimentam na rua. Este negócio de patrono da Feira dá muito visibilidade.

Sul21 – A tua produção se ocupou algumas vezes do cotidiano cultural da cidade, como o “Dicionário de Porto-Alegrês” e os próprios escritos sobre a história da Feira do Livro. De alguma maneira, mesmo que não receba como uma homenagem, o fato de ter sido escolhido como o patrono deve causar alegria.

Luís Augusto Fischer – É uma coisa envaidecedora, de fato. Eu me identifico muito com a Feira do Livro, isso muito antes de ser patrono. Já estive em várias instâncias, em vários lados da situação. Trabalhei, no governo municipal do Tarso Genro, na coordenação do livro e dei uma pequena contribuição numa situação que a Feira passou naquela época. Antigamente a Feira não tinha cobertura, as barracas ficavam expostas ao tempo. Os livros molhavam quando chovia, era um horror. E o Julio Zanotta, quando foi presidente, inventou de cobrir uma ala, um corredor central. E foi um deus nos acuda. “O que é isso? Para que cobrir? É dinheiro posto fora!”. Hoje em dia isso é completamente óbvio. Até em feira do melão tu contratas uma cobertura daquelas. E o Julio meio que inventou isso daí, ele foi um cara muito importante e naquela época eu estive do lado dele.

Com a publicação do “Dicionário do Porto-Alegrês”, fui duas vezes o escritor mais vendido da Feira, em 1999 e 2000. Inclusive essa condição de ser cumprimentado do supermercado, eu já tinha passado por isso nesta época. Já tive meus minutos de glória. Olhando o tanto quanto é possível observar de fora, penso que tem cabimento que eu seja patrono. Não sou melhor do ninguém, mas realmente eu tenho muita identificação com o evento. Mas por eu ter um papel público mais como crítico literário, eu tinha impressão de que não era muito óbvio eu ser convidado. Talvez fosse mais tranquilo convidar alguém que seja homenageado, um bom escritor que publicou um livro interessante, coloca o cara lá. Eu vi isso acontecer. Em outra época, o patrono aparecia na abertura e era isso, não aparecia mais por lá. Então eu me sinto vaidoso, tenho pai e mãe ainda, e eles ficaram muito felizes.


“A Feira não é uma feira de literatura, é uma feira do livro. É o livro de culinária, de ginástica, qualquer livro” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Sul21 – Mesmo quem não vai para a Feira esperando encontrar um tesouro literário, imagino que a frequente quase que por hábito. Quais são as tuas primeiras recordações da Feira?

Luís Augusto Fischer – Lembro a primeira vez que fui voluntariamente. Já havia ido antes com a escola ou a família, mas, lá pelos meus 11, 12 anos, fui para comprar um livro específico. Era um livro que fez fama na época e que hoje eu não recomendaria para ninguém, o “Eram os Deuses Astronautas?”. Quando esse livro foi traduzido aqui, na década de 1970, fui só para comprar esse livro e comprei. Para mim é uma memória importante. Não apenas porque é da minha história pessoal, mas isso é uma mostra de como a formação do leitor é algo não é linear. Assim como muita gente leu aquele livro e nunca mais leu outros livros, quem sabe. Ou ficou só lendo sobre ovnis, sei lá eu. Este é um aspecto interessante da Feira que eu acho legal de enfatizar. A Feira não é uma feira de literatura, é uma feira do livro. É o livro de culinária, de ginástica, qualquer livro. Claro que nós que somos letrados gostamos mais de literatura e de poesia, mas a Feira é do livro, é que nem feira do peixe, feira do pêssego.

Sul21 – O que não a torna menor…

Luís Augusto Fischer – Pelo contrário. Funciona por essa dimensão completamente trivial e singela que é o livro como produto. Todo mundo sabe que o livro tem uma nobreza, tudo existe para acabar no livro. Mas ele é um produto também. Voltando ao meu ponto inicial, me coloco na posição de um leitor, um leitor experiente. Ainda assim, não pretendo que todo mundo leia o que eu leio. Aquelas perguntas de sempre. “Você é contra ler Paulo Coelho?” Não. Eu não sou contra. Para mim, está liberado. Se me perguntarem, digo que o Paulo Coelho não pode ser teu horizonte final. Mas como eu comecei lendo “Eram os Deuses Astronautas”… A feira é um elemento que entra nisso, há o fato dela ser feita na praça pública, no centro da cidade, de ser aberta, são elementos essenciais para o entranhamento que tem na vida da cidade. É simplesmente algo agradável, é primavera. A cidade fica bonita.

Sul21 – Há quem diga que culturalmente Porto Alegre passa por um momento estranho, em que bares que fecham mais cedo, em que as opções diminuíram na noite da cidade. O quanto isso também atinge a literatura daqui?


“Muitos jovens escritores estão integrados a circuitos de edição e de divulgação nacional e internacional sem sair de Porto Alegre” | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Luís Augusto Fischer – Em algum sentido, atinge. O fato de ter menos livrarias de rua, menos livrarias autônomas, com o dono que é livreiro e gosta do ofício. Isso sim, mas é algo que acontece há mais de dez anos. Fora isso, acho que não, pelo contrário. A programação de várias livrarias mostra que há uma pujança grande. O que há de diferente é que pela primeira vez os escritores jovens começam a publicar já fora daqui. Isso é uma coisa nova. Enfim, é uma marca do nosso tempo. É um passo da mundialização dos mercados. Antes, se publicava três quatro ou livros aqui e se batalhava para publicar fora. A minha geração passou um pouco por isso. Mas para quem tem menos de quarenta anos, este problema já não existe. Muitos estão integrados a circuitos de edição e de divulgação nacional e internacional sem sair daqui. Quando o Luís Fernando começou a fazer sucesso nos anos 1970, tinha muita gente que perguntava quando ele iria morar no Rio de Janeiro. Parecia que era inevitável morar no Rio para o escritor fazer sucesso.

Sul21 – O que tu tens escrito neste momento?



Luís Augusto Fischer – Recentemente, editei dois inéditos do Simões Lopes Neto, que deram muito trabalho e muito prazer. Ainda estou no eco desse trabalho. Mas em função de ser patrono… Eu estava preparando um livro de crônicas, de texto de jornal. Não tinha uma data clara para quando fazer, mas acabou que eu apressei e vou lançar um livro na Feira, agora. Mas eu estou envolvido em alguns projetos que são mais para longo prazo, para depois da Feira do Livro. Daqui a dois anos, vai ser comemorado o centenário do Antônio Chimango, de modo que estou muito envolvido em tentar fazer uma edição comemorativa. É um trabalho que eu vou desenvolver ao longo do ano que vem para lançar em 2015. Ao lado disso e além do trabalho acadêmico, tenho duas ou três ideias de ficção que ainda estou acalentando. Um romance, talvez. Não sei se eu tenho jeito para escrever, mas eu gostaria um romance que servisse um pouco como balanço de geração, no caso da minha geração. Nós estamos ficando velho, já. Quando os teus contemporâneos começam a morrer, parece que se olha para o mundo de outro jeito. E ao mesmo tempo a minha geração chegou ao poder. Se seria um balanço político? É um pouco isso, para contar algumas trajetórias.

domingo, 29 de setembro de 2013

Mafalda fará 50 anos!


A garotinha que nos faz sorrir e pensar completa 50 anos em 2014

SUL 21






Nubia Silveira

Você se lembra dessa garotinha aí ao lado? Simpática, inteligente, defensora do meio ambiente, preocupada com os rumos da política, ela conquistou amigos pelo mundo todo. Fala vários idiomas, do galego ao dinamarquês. E, mais do que a repressão, odeia sopa. Com essa dica, você – logicamente – lembrou o nome dela. Mafalda se prepara para comemorar 50 anos, em 2014. O dia do nascimento (única data aceita pelo seu criador) é 29 de setembro de 1964, quando, pela primeira vez, apareceu como personagem de uma historieta, nas páginas do semanário argentino Primera Plana. No ano seguinte, mudou-se para El Mundo.

Mafalda é a grande criação do argentino Joaquín Lavado, filho de espanhóis. Conhecido por Quino, desde que nasceu, ele só soube seu verdadeiro nome ao entrar na escola. O apelido o distinguia do tio Joaquín Tejón, pintor e desenhista. Foi ele quem ajudou Quino a descobrir sua vocação ainda nos primeiros anos de vida.

O nome escolhido para a personagem que faria tanto sucesso se deve a uma história em quadrinhos que Quino criou, em 1963, para o lançamento de uma linha de produtos eletrodomésticos. Os produtos se chamavam Mansfield e todos os personagens da HQ tinham nomes iniciados com M. A campanha foi abortada, mas Quino ficou com Mafalda.

O surgimento da menina que olha penalizada para o mundo, a sua mãe, dedicada a cuidar do marido e dos filhos, e o seu pai, que parece um velho aos 37 anos, coincide com o início da ditadura brasileira e a eleição de Arturo Illia, na Argentina. O peronismo havia sido proscrito e os hermanos passavam a viver um novo período político, mais aberto e democrático do que o enfrentado pelos brasileiros.







Turma de amigos

O traço simples, leve, limpo e expressivo de Quino transforma em obra de arte cada quadro de uma tira. Os pequenos detalhes compõem as historietas que nos fazem sorrir e pensar. Os temas são os cotidianos: as guerras mundiais, o engarrafamento no trânsito, o alto custo de vida, as férias na praia, o aprendizado escolar.

Mafalda, com um laço no alto da cabeça, muda da dúvida ao espanto, apenas levantando a cabeça, abrindo ou fechando a boca. O mesmo acontece com a sua turma. Quino é preciso na sua criação. As dúvidas e angústias de Filipe não poderiam ser representadas por outro garotinho que não aquele de cabelo e queixo que avançam muito além do pescoço. Quem imaginaria Manolo, o tosco que só pensa em ser dono de uma rede de supermercados, de outra forma que não o gordinho atarracado, com cabelos espetados?

A egoísta e, muitas vezes, invejosa Susanita, que só pensa em casar e ter filhos, é desenhada com um cabelo volumoso, nariz pequeno e cara de velha. A característica de Miguelito, também cheio de dúvidas, mas menos angustiado do que Filipe, são os cabelos, formado por folhas como as da alface.

Mais tarde, surgiram Libertad, pequena como a liberdade, menor do que o nenê Guile, irmão de Mafalda. Desde cedo, ele aprende a protestar contra as injustiças e a falta de liberdade de expressão. Ele odeia mortadela e – horror dos horrores – se delicia com uma sopa. E que nome melhor poderia ter a 

tartaruga de estimação, se não burocracia?





A turminha de Quino foi mudando de casa, passando por novos jornais e revistas, e conquistando espaço em outros países. As tiras passaram a ser reunidas em pequenos livretos. A coleção completa é composta por 10 livretos, pois em 1973 Quino decidiu não mais desenhá-las. Só voltou a desenhar a personagem para algum momento ou campanha específica, como a lançada pela Unicef, em 1977, pela Declaração dos Direitos da Criança.



Quino e a estátua de sua Mafalda | Foto: saraivaconteudo.com.br

Imortal sucesso

Quino afasta-se de Mafalda e segue com a sua produção de humor gráfico. Apesar de não mais desenhar as tiras, Mafalda não morre. Cresce na preferência dos leitores. O sucesso é tão grande que, ao completar 30 anos, em 1994, tornou-se nome de praça, em Buenos Aires. Na capital argentina, ela e seus amigos, também, deram nome a ruas.

Hoje, no bairro de San Telmo, argentinos e turistas costumam posar para fotos ao lado da estátua de Mafalda. O bairro foi escolhido porque faz parte da história das tiras. Em 1964, quando começou a desenhar a personagem, Quino vivia em San Telmo, a meia quadra de onde hoje está a estátua. Muitos locais ali o inspiraram e fazem parte das tiras. Um exemplo é o edifício envidraçado, na frente do qual a menina e os amigos sentavam para acompanhar o movimento da rua.
Mafalda completará 50 anos, sem nunca ter crescido. E é certo que ela continua atual. O mundo não mudou. Mafalda ainda pode olhar para o globo terrestre, após ouvir o noticiário internacional, e dizer-lhe condoída: “Se você tivesse fígado… que hepatite, hein?”