Mostrando postagens com marcador canelapreta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador canelapreta. Mostrar todas as postagens

sábado, 19 de julho de 2014

histórias davóinha: Quando o coração não estranha 15cp

casarão canela preta


Quando o coração não estranha
Ensaio 15cp – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



Trabaiadô escravizado tinha dono, mais podia sê arrendado, emprestado, inté dado como presente. No caso de sê arrendado, a generosidade do custado pelo alugué duspretu era combinado com as parte interessada, menos com uspretu, esses num era parte interessada, nóis era as coisa usada pra trocá com otras coisa. No caso do Josino, parece qui ele foi emprestado pro sinhozinho parecê bondoso. Isso também podia acontecê, parecê sê uqui num é, coisa qui se muntu tumbém aqui. Naquele tempo de trocá gente como pedaço de carne, além das parte interesseira, era costume qui mais ninguém sabia dusacerto feito. Então, sabê ou num sabê, querê sabê ou num querê sabê, dava no mesmo, uspretu era mercadoria de trocação e o destino duspretu só interessava prus branco. Hoje, eles tirá ocê da escola sem ocê nem se dá conta e coloca sentado no banco do trocadô das passagem. E diz pra ocê repetí qui ocê tem qui sê agradecido. Afinal, num é qualqué pretu qui eles dêxa sentá no assento de cobradô. As muié, como sua tiainha, leva vida limpando os alagado e imundície do banheiro branco, otras vai cozinhando. Tem as qui costura. Mudô pouco, é verdade, mais agora o destino duspretu interessa também prus pretu. E ocê, mifioneto, num precisa só ficá no banco da catraca.

eu sei que avóinha tem razão nas preocupações dela, acredito que é tudo muito sério, mas ter dinheiro no bolso também é coisa muito séria

Avoinha, e o Josino?

O Josino... coitado, ele levô as culpa. Mais, dum jeito ou dotro, o trabáio braceiro duspretu aparecia como doação pra construção, junto com as dádiva das pedra, as talba do madêrame, as tinta. Gente boa esses doadeiro, gente boa esses recebedô, uspretu era tomado emprestado pelo santo padre e o sinhozinho emprestadô garantia um lugá no céu do Paraíso, pelo menos nucéu da Villa. Uns tinha cobiça de fazê, otros apetecia parecê tê uqui num tinha: desapego com as coisa da terra e muita devoção nos assunto da obra santa. Gente de falsa devoção qui fazia brotá na cara o fingimento de sê desapegado das coisa e num tinha nehum embaraço pra mostrá apego sem fim ditê pretu escravizado. Os murmúrio da garganta inté qui tentava disfarçá as coisa diferente do qui é, mais as palavra num combinava com usuóio, e usóio num combinava com as mão, qui num combinava com uspé, qui num combinava com a vida.



tem vez que preciso empurrar avóinha para seguir nas histórias

Mas, avóinha... o que fez o Josino para ser enforcado?


Guri, ocê inda leva essa véia ficá deliciada inté na beirada da esgotadura. Quando parece qui num qué mais a história, lá vem ocê cutucá. Antes de escutá faz pouco causo das coisa qui inda num escuta e num vê. Depois, logo em seguida, tá bisbiotêro. Por essa véia aqui, inté é bão, dá movimento pra conversa dessa eternidade, uma coisa parada qui pode sê pra sempre, mais pode num sê. Nunca quis ficá empacotada, fechada na caixinha. Só teve uma caixinha qui guardava sua vó. Adorava sê a bailarina da caixinha com música dumeu pretu. Dessas dança tenho gosto e saudade. Seuvô sabia enfeitiçá e fazê suavó rí, a mágica era bem de perto. Teve veiz, qui num tava com vontade de usá as roupa da bailarina, ele sorria com usóio, fazia cara desavergonhada e agarrava a caixinha; torneava a corda bem devagarinho, quase nem dava pra vê ele dando corda, girava os dedo e ria a alegria da dança. Girava e cantarolava, girava e murmurava, depois soltava o anel da corda e deixava suavó dançá a batucada duspretu. Já fiz pedido pra desencantá pru seuvô, inda num tive resposta, mais credito qui depois dessa incumbência vô sabê. Quero desenfeitiçá, deixá de existí lá e cá. Quero tempo de preguiça cumeu pretu. Podê sê bailarina pela infinidade do além-mundo.


quando avóinha começa com essas intimidades de bailarina fico sem jeito com as palavras

E o Josino, avóinha?


Uqui tem o Josino qui vê com as dança de bailarina com seuvô?

Avóinha fez de novo, parece gostar de dizer e não dizer. Tudo parece brincadeira da paciência davó com a impaciência das pessoas.

Ocê qué sabê o qui mesmo?


Eu até nem sabia desse escravo Josino. Foi avóinha quem beliscou essa história e me fez ficar com gosto de conhecer a vida desse homem. Um dos enforcados da nossa Villa. Eu não sabia que existiu esse tempo da pena de morte e do juiz mandar enforcar. Agora, precisa terminar de contar sobre esse negro que foi mandado para a forca. Uma praça de enforcamentos na Villa. Continua, avóinha...

Posso suspirá fundo antes de começá?

Avoinha...

Tá bem. Ele foi presenteado emprestado pelo sinhô Zé Clemente ao siô padre José, mandachuva da freguesia da Dô. Era por motivo de fazê a subida das parede da capela adoratória pras missa domingueira e otras coisinha mais. O Josino trabaiô duro. Carregô talba, pedra e uqui tinha ordenação pra carregá. O sol castigando, ele trabaiando. Ia e vinha sem reclamá. Nos dia de chuva, nos dia de frio. Num podia tê exaustão nem se escondê da ventania. As rajada minuana assobiava gelada. Num podia desaprová nem desnorteá. A sua luta foi perigosa e penosa: num caí da sela do sofrimento. Precisava continuá montado na sua dô, sem pena dele mesmo.


O escravo doado emprestado, qui mais um tempo menos um tempo, ia voltá pra estância do seu sinhô, num era feito igual as pintura do siô dos branco, nem irmão ou da mesma criação do siô Clemente, mais pagava as culpa do sinhozinho com useus braço, com sua tristeza. Tanta vida na liberdade, quase tanta morte existe nas corrente. O desejo do siô Clemente era maió qui tudo. Decidia tava decidido. Mandava matá tava morto. Ficava assanhado e as preta se escondia. A vontade do Josino era um abismo qui só ele caia. Era preciso sê forte, era preciso sê pretu. Ocê qué sabê uqui fez o Josino? Num se lastimô, se ocupô com os trabáio e as belezura da obra santa. As torre, as escadaria, os sino... num faltava trabáio. Pena, qui num deu interesse de mais cuidado nas falação sem rumo, esses rumô qui aparece num se sabe donde e nunca tem dono. Bisbilhotice. Intriga qui num tem boca qui começa, mais depois qui começa num tem boca com jeito de botá freio.

E que fofoca foi essa, avóinha?

Num foi só mexerico, mifioneto. O palavrório começô dum jeito desimportante, um fuxico aqui, outro lá, foi entranhando nos coração bem-intencionado. Num foi feito pra entrá na cabeça, tinha qui sê no curação. O desamô já tava plantado nas cabeça mal-intencionada. Usá uspretu como coisa ruim ou coisa boa, os pequeno sinhozinho aprendia fazê antes de saí da barriga. Cada sinhozinho qui nascia já tinha uma chibata e as chave das corrente. Então, faltava ódio pelo Josino chegá no coração. Esse era o caminho fácil. Depois disso, qualqué disse ou num disse, num precisava mais prová. Era só dizê, era só inventá, se o coração num estranha a cabeça num duvida.

Mas dizer o quê, avóinha? O que foi dito que fez o preto Josino ser enforcado?

Uqui ocê qué e tem sede? Duqui ocê tem fome? Ocê procura uma resposta simples qui Josino num merece. Ele precisa da verdade inteira, contada da sua maneira. E num pela parte branca qui qué se esquecê das injustiça feita, isso quando num diz qui uspretu é meió como escravizado. Sempre dão no jeito de desconversá e acusá uspretu, pra depois aconselhá: derramado o mal é meió deixá esquecido.

Essa história precisa ser conhecida, avóinha.

E com o curação. Começô com um rumô sem dono: a igreja das Dô num crescia. Parecia qui os trabáio num rendia nem aparecia. E as doação sumia. O escravo Josino num sabia nem tinha como sabe dos rumô. Só podia mostrá sua coragem de homem marcado e qui num cai da sela da dô. Pra caí é preciso sê derrubado. Mais num adianta só tê coragem de aguentá, o bão é num dêxá nascê odiação no coração, depois qui nasce o gosto de odiá num tem muito jeito de falá em amô, as orelha fica tapada com as mão e usóio enxerga pela língua do veneno.

por aqueles dia, ele foi pedido de volta na estância, É cousa pouca, sinhô padre. Ele já volta aos trabalhos da nossa igreja.

Um negro de mui valor, sinhô Clemente. Vai nos fazer falta esses dias de descanso.

Poucos dias, poucos dias, sinhô padre.


josino chegô na estância quando o dia começava espreguiçá, depois da caminhada solitária da dia e noite. num era comum pretu sozinho na estrada, mais o sinhô sabia da certeza da volta do josino. o nosso herói preferia assim, caminhá desacompanhado. sem carga. tinha vez qui era feito montaria pra algum amigo mais desanimado do siô clemente. naquele dia, pode avoá. fez a caminhada quase junto do vento. num teve peso morto pra carregá, carregô o peso do corpo nas perna mais apetite de chegá. assoprava o vento quia na frente


nem bem chegô e já ganhô ordem de arrumação pra cumprí, Negro, ocê tem que descarregar essas tábuas. Precisa esvaziar o barco, fazer desaparecer a carga da beira do rio. Chama mais dois negros da confiança, isso sim, é chegá bem na hora errada, pensô josino. largô os trapo no chão, enrolô nos galho dos maricá sua saudade e assoprô


Já chego, minha preta... só mais um pouco.

o siô num lhe ouviu, mais o siô clemente teve tempo pra dizê, Josino, depois do serviço feito vá para os mato com a negra Gabriela. A sinhá Casta diz que pelas contas da lua, é bem o tempo de fazer embaraço de barriga. Não me desaponta, negro, f
alô sem sabê uqui dizê, os espírito da mata já tinha avisado

já fazia um tempo, josino escutava do siô qui tava mais qui no tempo de deixá prenhe a escrava gabriela, Negro, não deixa a poeira empoeirar a barriga dessa negra, o siô do josino queria aumentá as carne preta pra fazê delas tudo qui queria fazê, Se ocê não dá conta, negro... arrumo outro com mais jeito na lida com as negras.


josino tinha as vista cheia com as desconfiança nos dias da sua frente, tava perdido das suas firmeza com os destino desde muito tempo. as duas vista num se encontrava. uma extraviada da otra, uma escondida da otra. oiava dum jeito pro lado, com otro jeito o otro lado. sentia qui tinha raiva e medo nas vista

oiô pru amontoado das talba. a saudade tinha qui esperá. o trabáio num lhe metia medo ou fazia preguiça, num era esse o motivo da tristeza. pegava as talba de polegada e puxava pra cima do ombro, depois se arrastava inté o empilhamento começado com uma, depois otra e mais otra talba. era carregamento grande, mais achô qui num tinha necessidade de nehuma ajuda de mais sofrimento


Aqui, não! Amontoe tudo em lugar mais reservado, foi as nova ordem do siô clemente, não preciso dos olhos do padre José ou do nariz do Pereira nesse carregamento. E fica melhor guardado, o siô padre josé recebia uspretu emprestado pra sua obra da construção. vivia atormentado pelas demora de ereção da casa santa com as duas torre, angustiado com os sobressalto de paciência qui precisava tê. o pereira era o chefe de instrução e vigilância das educação servida na villa, como num tinha muito qui fazê, ele ocupava seu tempo nos cuidado do bão proveito da madeira nas casa da villa. gente de importância e cobiça gosta de acumulá mais duqui precisa. quanto mais abarrotado de cobiça mais tem linha direta com algum chefe de mais importância. a cobiça é o siô controladô

nas costa do Josino escoava um suco avermelhado qui borbulhava água benta: sangue, suô salgado e dô. era só fazê a mão tocá as costa do negro, molhá a ponta dos dedo, fazê o siná da cruz e sê abençoado. o siô num creditava em benção nehuma e o Josino num queria sê valente. aquela água de benzedura se enfiô na terra. adubô o chão qui precisava dele, inda ia saí de lá expulso e agredido com as palavra feia do branco capetão


os risco na carne era fundo, cada talba qui subia no lombo esfregava os ferimento como farelo de vidro na carne. depois vinha o suô salgado. ele ficava todo ardido. os golpe das talba na alma, a tristeza daquela confusão de vida, tudo isso ficava misturado com a canseira e as dô da saudade. num tinha uqui fazê, num tinha uqui reclamá. ninguém pra lhe ajudá, nem padre, nem doutô, nem coroné. num conhecia branco qui num queria tê um preto pra mandá. usqui num tinha sonhava tê. eles inda sonha com a volta no passado, e diz qui é meió, vai meiorá, Cuidado, mifioneto, dessa gente satisfeita com sua vida nas sombra, eles num pensa qui tem qui havê algo pra iluminá sua vida. Se ocê deixa eles falá na vontade própria, inda faz ocê creditá qui ocê é a sombra.
no fim daquele dia, o empilhamento tava feito. cuspiu nas mão calejada, esfregô uma mão cuspida na outra, fez um suspiro com careta e oiô no céu qui tinha chegado a hora de voltá. ele só tinha no pensamento as ideia de saí correndo pra agarrá sua milagre. usá as força qui guardô só pra ela, Minha preta, tô chegando, assoprava no vento qui ia na frente. ele pedia pra Oiá avisá da sua chegada




_______________________

Leia também:

sempre chega a vez de sentá pra conversá
Ensaio 01cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Sô a favô de vendê, pegá no dinheiro e cuidá de vivê
Ensaio 02cp - 2ª edição 1ª reimpressão

é mais fácil não tê alguma coisa qui tê
Ensaio 03cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Quero ocê, até depois qui a vida se acabá
Ensaio 04cp - 2ª edição 1ª reimpressão

Ele não é bicho, neinho. É mifio!
Ensaio 05cp - 2ª edição 1ª reimpressão

A cavalaria está saindo!
Ensio 06cp - 2ª edição 1 reimpressão

Neinho, fazê o desamô é uma escolha... o ódio é um gosto
Ensaio 7cp - 2ª edição 1ª reimpressão

Neinho, rezá é bão - dá conforto e esperança
Ensaio 8cp – 2ª edição 1ª reimpressão

João Torto do 69!
Ensaio 9cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Neinho, o preto Josino foi enforquilhado
Ensaio 10cp - 2ª edição 1ª reimpressão

Nasceu preto e escravo
Ensaio 11cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Guia de cego
Ensaio 12cp – 2ª edição 1ª reimpressão

A memória é cega
Ensaio 13cp – 2ª edição 1ª reimpressão

É tudo bem antigo e novo
Ensaio 14cp – 2ª edição 1ª reimpressão

A Aparição da Vida
Ensaio 16B – 2ª edição 1ª reimpressão

sábado, 12 de julho de 2014

histórias davóinha: É tudo bem novo do antigo 14cp

casarão canela preta


é tudo bem antigo e novo
Ensaio 14cp – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



quando a chuva começa e não se apressa já sei que não vai logo embora. espiolhei os viandantes entranhados no rocinante, dei conta do silêncio quando girei a catraca. apareceu um brilho que parecia um risco desenhado no céu. o estalo da catraca também pareceu um estrondo. depois, veio o gotejamento grosso, lento e vagaroso, no teto do animal. e outro brilho que parecia um risco desenhado no céu. e outro estrondo. o tempo lá fora não estava muito bom. o valente carregador de cargas movediças seguia viagem

estava assustado, na verdade, eu estava muito assustado

não tenho as qualidades do capitão ahab, não sou acima do comum, até poderia dizer, sou bem abaixo do abundante. pensei no comandante enfrentando fantasmas, mas dono dos seus nervos e da situação. um comandante não deixa seus liderados perceberem que está com medo. fiquei em pé, no banco

estava no controle, na verdade, tinha descontrolado minha vigilância

procurava os três meninos. olhos e ouvidos vigilantes. concentrados. encontrei. estavam sentados no último banco dos passageiros. no traseiro do rocinante. lugar de saltos e solavancos. os três num único assento. apertados, mas seguros

lá fora, a chuva engrossando aos pouquinhos. levei minha mão direita à guia pendurada no pescoço. antes dos pedidos, fiz minha reza à maria do azul e do dourado, e declamei o credo. tudo pode acontecer, então é bom rezar para todos os santos

É bão rezá, neinho. Mais não é só rezá, era avoinha só com a voz. não era avoinha com o corpo presente. só o espírito da voz. minhas lembranças dos conselhos de avoinha estavam num sonho e no aviso acertado para jamais dormir com a escuridão do medo

sentei satisfeito com a acomodação dos meninos e a proteção da mãe. a melhor vida para começar é crescer no colo da mãe. é isso aí, a vida continua da mãe correndo nos campinhos improvisados das ruas desertas e na várzea. bendita várzea! é a estrada do tempo. os meninos são papagaios de papel ao vento. dizemos que é milagre quando a linha não arrebenta antes do tempo. as meninas demoram mais, bem mais, para virarem papagaias ao vento. é uma pena elas ficarem tão presas. todos sabem, mas fingimos que não compreendemos. seguram as papagaias em terra, seguras das ventanias

não sei quem é meu pai. queria que fosse um vendedor de papagaios de papel ou vendedor de flores. as mãos perfumadas e atadas na linha, equilibrando o papagaio de papel no ar. borrifando águas, suspiros e preces atenciosas. não lembro mamãe, mas sei que foi muito frágil. queria poder lembrar quando me abraçava e o tempo parava. o mundo cheio de bolsos para aquecer as mãos, vez que outra é preciso proteger as mãos nos bolsos

o mundo fica menos caótico no colo das mães e na mão dos pai. os dois sumiram e a vida me deixou avoinha. deveria agradecer todos os dias o destino que me deu avoinha. bobagem, não foi sorte o amor de avoinha. era meu ensaio amoroso com a vida. o colo seguro para as desconfianças com o meu tamanho. na escola, escutava que tinha mais sorte que tamanho. avoinha ajudou achar as saídas que pude para olhar o mundo com o meu jeito. continuava com a mão na guia, assim acreditava que conseguia aumentar o amor de dentro que me defendia do desamor de fora

o cego já estava sentado, menos uma preocupação

pensei no amor que aprendi com avoinha. o amor carregado nos braços, nas pequenas emoções, nos calafrios, estremecidos, calmarias, e na preocupação com a vida, tudo que é vida. não sei, se a solidariedade é a demonstração da existência de deus, mas me é impensável que ele não seja quem dizem que ele é

O neinho inda não viu nada, nem começô chovê, desta vez, não procurei com as vistas, avoinha. não quis saber de ver. nem respondi. continuei olhando o cego. como já disse, procuro ganhar tempo para entender as aparições de avoinha, principalmente, quando ela vem e não se mostra, mas não controlo a vontade de perguntar e fico imaginando o que pode ser e o que pode não ser

O que avoinha sabe da chuva que vem chegando?

aconteceu de novo, avoinha avoou feito um balão escapando ar na barriga, Não posso falá duqui não conteceu e pode num contecê.

ela me deixou preto de brabeza, Então, avoinha precisa parar! Não de assustar com essa conversa de fim do mundo. Avoinha fala como se já tivesse até a data marcada.

ela desceu do teto e caiu de mansinho no balcão, lá vem avoinha com a deseducação de ficar de cócoras, E tudo num tem fim? Mais tá bem...

desconfiei daquela desistência tão imediata. não era avoinha. fechei os olhos e pedi para descer da minha mesa, Isso é qui mostra a importância do miúdo? O neinho tem mesa... hum... isso tem importância... tê mesa... num quero sê má influência, desapareceu do balcão, mas não deu tempo de uma piscadela e avoinha me apareceu nas costas, encostada no vidro da janela, massageando meus ombros, repuxei assunto do seu querer. apostava que com os pensamentos falando ela parava com aquela agarração. as intimidades da aparição de avoinha estavam me deixando desarranjado

Então, a história do tambor gigante na praça, as árvores dos enforcados, o magrão cortador das árvores, foi invenção de avoinha?

fiz a pergunta e fiquei calado, esperando resposta, Das coisa contecida posso contá, ninguém me pediu segredo, mais duqui pode contecê... é só palpite.

parou com a massagem e apareceu sentada na mesa, Avoinha precisa sair da mesa do dinheiro, não é lugar de avoinha sentar. Até parece que avoinha quer sentar no dinheiro.

Mifioneto, lugá de sentá é onde dá, mais se tem lugá qui num quero sentá é no dinheiro.

Avoinha... preciso trabalhar.

ela não se mexeu nenhum pouquinho, nadica de nada. estava séria no jeito de colocar as vistas em mim, parecia escolhendo as palavras que queria soltar dos pensamentos, Neinho, quero continuá as história do pretu Josino.

Essa não é a melhor hora, avoinha.

recuei para provocar sua vontade, Bobice, ninguém sai. Só entra. É fácil controlá. E tem mais, escutá contação de história com chuva, é tudo de bão.

ela não entendia a importância daquele trabalho de cobrador de passagens. precisei retrucar, achei até que já podia começar a ser deseducado, Fácil para quem fica do outro lado do mundo só olhando e falando.

Também num foi fácil o caso do Josino. Ele só oiava quieto, mais acabô com a culpa de tudo: Enforca! Pendura o negro safado! Lugar de carvão é no fogo!

As gentes na praça do arvoredo tava chibatante. Ia podê vê com usóio da cara o justiçamento do criminoso. Perigoso e desavergonhado. Muitos dos passante nem sabia o nome do condenado. Acabava qui eles descobria pelas língua da falação. E de gente faladeira duqui pensa qui sabe, mais num sabe, esse mundão foi sempre bem servido. Os urubu com língua: O nome do negro safado? Claro, eu sei... é Josino! Coitado, a corda vai lhe salvar. Parece sina, mas das cordas esses negros não escapam. Ou é a corda do açoite ou é a corda para esticar pescoço. Mas Deus é misericordioso. Ele é...

avoinha parecia viajar e levar junto nas suas contação de histórias

Mais a verdade das verdade, dita sem medo dusódio das mentira, é qui o acontecido qui fez desaguá o pescoço do Josino na corda misericordiosa, pendurada no arvoredo, foi pedido já bem de antes. Vô tentá contá quase do início. O capricho e a esperança numa otra vida, juramentada pela fé do sinhô padre, num tempo qui ele vestia o vestido bem cumprido e negro das viúva, pra escutá e falá ducéu bondoso com o fiel da missa, fez criá vontade misteriosa na Villa, otro apetite: levantá do chão e do nada uma casa pra Nossa Senhora das Dô, o domicílio de endereço da salvação nas vizinhança.

não sei como ela faz, mas davó consegue me fazer sumir e aparecer onde ela aponta as suas palavras, Mifioneto, é a gente qui cria os próprio caminho da salvação e da perdição. Quando num interessa quanto custa um lugá pra harmonia e boa vontade de limpá as culpa dos erro, no fundo da escuridão dessa gente, a caridade é o elo qui liga os dominado e os dominadô... eles num credita no céu do sinhô padre. Faz qui credita pruqui é bão mostrá qui é bão creditá. Assustá usqui credita no céu... qui existe o inferno, tumbém é bão. Tudo tem useu valô. Mais num se engana, eles só credita nas moeda do ouro e nuqui elas pode comprá. Queria podê vê a cara, um por um, tomá posse das terra divina qui credita qui comprô com o suô e o sangue duspretu.

Com o domicílio comprovado da Nossa Santa davó não acha que fica mais fácil conversar com o Nosso Senhor. Regular as vontades do bem.

Neinho, quem qué fazê maldade num óia quem, faz e pronto, depois da maldade reza fervoroso pedindo perdão. As doação pra construção Santa era o jeito do sinhô pedí pra sê redimido, quius erro não fosse jogado na suas culpa. Desse jeito, o sinhô ficava sem as culpa só pra ele. Os erro era repartido. Esse era o plano do senhorio, no começo: repartí as custa da Casa Santa e assim ficá mais fácil pro sinhô dos escravo aliviá os custo da construção do perdão. Depois, usôio gordo viu qui podia dá e tirá de novo. É tudo bem novo do antigo.




_______________________

Leia também:


sempre chega a vez de sentá pra conversá
Ensaio 01cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Sô a favô de vendê, pegá no dinheiro e cuidá de vivê
Ensaio 02cp - 2ª edição 1ª reimpressão

é mais fácil não tê alguma coisa qui tê
Ensaio 03cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Quero ocê, até depois qui a vida se acabá
Ensaio 04cp - 2ª edição 1ª reimpressão

Ele não é bicho, neinho. É mifio!
Ensaio 05cp - 2ª edição 1ª reimpressão

A cavalaria está saindo!
Ensio 06cp - 2ª edição 1 reimpressão

Neinho, fazê o desamô é uma escolha... o ódio é um gosto
Ensaio 7cp - 2ª edição 1ª reimpressão

Neinho, rezá é bão - dá conforto e esperança
Ensaio 8cp – 2ª edição 1ª reimpressão

João Torto do 69!
Ensaio 9cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Neinho, o preto Josino foi enforquilhado
Ensaio 10cp - 2ª edição 1ª reimpressão

Nasceu preto e escravo
Ensaio 11cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Guia de cego
Ensaio 12cp – 2ª edição 1ª reimpressão

A memória é cega
Ensaio 13cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Quando o coração não estranha
Ensaio 15cp – 2ª edição 1ª reimpressão


domingo, 6 de julho de 2014

histórias davóinha: a memória é cega 13cp

casarão canela preta


a memória é cega
Ensaio 13cp – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



a voz de avoinha continuava se repetindo como uma memória atrapalhada ou era coisa que eu não sabia entender, Odiá é coisa qui si aprendi, fiquei cismado com as palavras davó antes dela avoar das minhas costas pra ficar embaixo do meu banco, espremida e de cócoras. não tinha como saber, nem jeito para imaginar um lugar ensinando a odienta aparência dos gritos e das ameaças, Cuidado, neinho, tem gente qui acha mais bão anunciá qui matá é mió. 

senti um arrepio de medo, pedi proteção de Iansã. não queria descobrir que existe uma passagem com vampiros, lobisomens e bruxas. um lugar que reprova, desaprova, condena, até rejeitar o asqueroso rejeitado. e pronto, o degenerado está pronto para se destacar na saliência dos odientos: egoísta e interesseiro, a representação do transe apagado do nascimento: a morte. um morto-vivo que não aprendeu que a vida é de todos, não é de um só, Miúdo, vamô mostrá da alegria qui nóis tem pra cantá e dançá.

não olhei davó, mas lhe respondi com o despeito que não estava nas palavras, voava junto com elas escondido. usava pano nos olhos, fingia brincar de cabra-cega para não me mostrar ofensivo radicalista, mas não consegui evitar o retruque desaforado, Até parece que avoinha acredita que os pretos só cantam e dançam, pronto tinha dito, mas a importância tava no não dito, o que ficou engasgado na vontade do dito

E ocê, uqui acha? Foi ocê qui saiu da escola pra sê cobradô das passagi na catraca, arranquei o pano dos olhos e a brincadeira das crianças deixou de ser brincadeira, E avoinha? Só quis ser avoinha?

silêncio. depois da respiração funda, veio uma brisa de amor e encantamento. ela suspirava as palavras, Ocê tá certo, mais tumbém tá errado. Gostava de cuidá duseus tio e tia. Era o certo qui tinha qui sê feito. Useu davô gostava dos festejo na cama. Eu adorava sê a bailarina. Era só dá corda e eu dançava pra ele festejo e confeito da bailarina. Qui era bão era bão, mais escuitá... não tô de arrependimento, mais ia fazê uma ou otra coisinha diferente, caso pudesse dá uma demão de tinta nova.

minha davó, minha querida avoinha, somente ela para me arrancar a deseducação da boca sem um grito ou olhar de desaprovação, Avoinha, não quero ensinar ninguém.

Uqui ocê qué? Desandô da escola e sentô nesse banco de cobradô. É isso qui ocê qué?

não precisei pensar a resposta, E se for? É a solução para os meninos pretos e pobres com vergonha de serem mais um peso, mais uma boca, ela nem estava escondida nem de brincadeira, me olhava fundo nos olhos, Não quero viver nas costas dos tiuzin, queria dizer assim, mas não sabia explicar que ia fazer o que tinha que fazer para ajudar. do mesmo jeito que ela fez o que precisava fazer. ela podia ajudar não atrapalhando

A vontade davó tem quisê vontade do neinho. Eu quero pra ocê aquilo qui faltô prus preto do Canela Preta: um banco diferente do banco do cobradô: o banco da escola. Se fô preciso, vai vivê do mesmo jeito quius branco qui vive nas costa do painho e da mâinha, inté se achá. Inté tê sua xícara de café com amô, paz e esperança, sem medo das bala perdida.

A davó lê o futuro por que não esquece do passado?

fiz a pergunta já desajeitado com a insistência birrenta de avoinha, estava com medo de ser radicalista com davó, ser acusado de panfletário. ela pulou e fez de novo, ficou de cócoras no meu balcão. fechei os olhos com força

Qui razão tem essa prugunta, miúdo? 


pensei em dormir e desaparecer com avoinha, mas não podia dormir. dormindo faria chegar mais rápido o que está por vir. respirei fundo e expliquei que ela falava num tambor que nem existe, coisas que não existem são apenas isso, coisas que não existem. uma vida servil é apenas uma vida servil, Davó, eu acho que existe outra vida que não existe, mas enquanto se vive essa vida que existe essa outra não existe. Ela fica num lugar qualquer, um lugar de sonhos e desejos. É muita vontade que não existe esperando por aí. Esperando para existir.

Neinho, no mundo qui num é coisa nehuma, num tem nada mais novo ou causo mais antigo. É preciso creditá qui pode fazê existí dum otro jeito. No mundo qui existi é preciso escoiê um lado e fazê a boa luta, ela desceu do balcão e apareceu em pé, ao lado do grandão. levou uma das mãos à testa, parecia secando o suor. depois pareceu ter congelado olhando longe do lugar em que estava, cruzei os braços e abaixei a testa. agora, quis dormir

Esse daqui... apontava com o dedo fura-bolo esticado e duro na direção do grandão com a perna engessada

O que tem ele, avoinha?


já tinha levantado a cabeça do meu descanso temporário. ela subiu e desceu os ombros, fez careta de desprezo. não parecia querer responder. abaixou a voz, parecia querer cantar algum segredo que ia acontecer e não tinha permissão de comentar. tinha aparência de precisar obedecer alguma ordem, uma conveniência que tinha decidido desprezar, Ajuda os precisado, mais vai esquecê pra modo ditê uqui qué: a vida de conforto e uso sem medida das coisa e das pessoa. É fácil desaprendê o lado qui se aprendeu respeitá. Num dia, vai pensá qui é dono ditudo, vai querê cortá as árvore e derrubá o casarão. Vai fazê sabendo uqui tá fazendo. E ocê num vai deixá, mais useu querê não vai tê importância.

fiquei mais duvidando que acreditando. olhei o magrão grandão enfiado no alçapão do teto do rocinante. não sabia porque o magrão ia cortar tantas árvores. não imaginava o motivo para tanto desprezo com a vida. não acreditava na notícia de avoinha, parecia malícia desocupada de qualquer utilidade, E se ele plantar mil para cada árvore arrancada, perguntei e procurei davó com os olhos, ela tinha feito de novo, me deixou conversando sozinho

E ocê credita?

levei susto. ela me apareceu no lado a lado, fumando o fumo de corda do tigão. reconheci pelo aroma doce, parece que ela pegou gosto. ofereceu. rejeitei, mas até que queria fumar junto, E desde quando, neinho?

fiz cara de desentendido e repliquei outra pergunta, Desde quando o quê, davó?

Ocê faz gosto de fumá esse fumo de corda do Tigão?

Eu não fumo, davó. Avoinha faz tanta cara de gosto que me dá cobiça, só pelo jeito de ver avoinha prazeirosa.

Presta tenção, se sua avó pudesse controlá as lei esse apego ia tê otro gosto, otro faro. Ocê sabe como qui é fingimento de acompanhamento... a molecada usa cinco contra um e pensa qui tem companhia de bailarina, olhei avoinha espantado, ela sabia mais coisa de mim que eu mesmo. senti um calorão subir até a bochecha, Num tem precisão de ficá acabrunhado, todo mundo dobra alguma esquina. Fingi qui gosta quando num gosta, falsea qui faz quando não faz, esconde a idiotice. A coisa fica ruim quando a imbecilidade dobra as esquina com ruindade e inventa uqui fô preciso pra enganá com falsidade.

não estava escutando avoinha, pelo menos, achava que olhava encantado a cabeça do magrão, lá fora. o alçapão aberto. levei a mão no pescoço, segurei minha guia. lembrei o aviso de avoinha, Essa guia tá pendurada em ocê pra proteção do amô qui tá dentro de ocê e do desamô qui vem de fora.

não rezei nem pedi, mas quase vi o joão torto raspar o teto do rocinante em algum fio embarrigado pelo caminho. e lá se foi embora a cabeça do cortador de árvores e demolidor do casarão. o mal cortado pela cabeleira

Neinho, cabeça tem dono. E ocê precisa respeitá a cabeça.

Eu sei, avoinha... eu sei, mas é um pecado cortar as árvores e derrubar o casarão, davó estava pendurada no corrimão aéreo, balançava agarrada numa das mãos. e no que deixei as vistas piscarem ela desapareceu entre o povaréu

o joão lá na frente, eu aqui atrás

ninguém descia nas paradas do rocinante. as pessoas se empurravam para subirem. na porta da frente, uma velhinha gritava para que o torto abrisse a porta. fiz que não vi e nem ouvia. ninguém viu. até que o joão torto viu, Abre, motorista... quero subir!

o joão abriu a porta. pensando no mundo que não existia - antes da velhinha subir, e passou a existir depois da velhinha subir - sabe-se lá, se devia ou não abrir a porta. mas ele abriu, Senhora... não pode...

ela subiu com a mesma agilidade da língua, Com licença, obrigada... com licença... desculpe, desculpe... eu pedi a sua licença... obrigada, foi se enfiando na contramão até ficar atrás do motorista. um pressentimento de desconfiança me fez pensar que o torto não tomou a melhor decisão. por fim, pelo que me consta, daquela viagem em diante, os velhinhos iriam querer subir na porta da frente. foi o primeiro movimento para deixar a catraca livre para os velhos. estava feito. foi a primeira vez que subiriam na frente e não pagariam

Tem causo, neinho, quié preciso empurrá na goela debaixo dos fazedô das lei.

davó sabia antes que ninguém. não sei por que avoinha resolveu entrar e sair do outro mundo. tinha medo de perguntar o que ela ainda podia querer ou imaginar. aquela velhinha começou um querer que não parou mais, Desculpe o mau jeito, seu motorista... mas a chuva... quem sabe, num dia destes tenham o direito de lugares reservados. têm coisas que levam algum tempo a mais para serem acontecidas, como avoinha não se cansa de repetir, A imbecilidade precisa sê convencida qui a vida de todos tem importância, mais tem vida qui precisa recebê mais cuidado inté pudê seguí sozinha nas própria perna. Cadum tem seu destino de viajante pra fazê e pra chegá.


Desculpe o mau jeito...

o torto não respondeu. olhou de má vontade nos espelhos e acionou as portas. minha atenção foi desviada das portas. ouvi vozes de crianças. pelo menos, duas crianças estavam no rocinante. escutava a falação, mas não vi as crianças subirem. fiquei preocupado. não brinco com a proteção das crianças. conheço bem a dificuldade de ser pequeno entre selvagens grandões. fiquei todo retesado, a vista estrelada procurando um contato. arregaladas. devia estar com a minha pior cara de assustado. depois que ouvi a voz da mãezinha fiquei menos tenso. pareceu-me ser a mãe. orientação de mãe é diferente, parece toda angústia e preocupação, Mauro, Mauro... onde estão os teus irmãos?

Aqui, mãe... não conseguia vê-los, mas me pareceu que a mãezinha e os pintinhos estavam se reunindo. subi no banco e lá do alto da ponta dos pés, constatei o meu alívio. estavam seguros com a mãe

a porta do fundo não fechava. o torto tentava fechar e abria. abrir e fechar. fechar e abrir, Um passinho mais à frente, por favor! A porta precisa fechar, o empurra-empurra continuava. o gado amassado. ninguém queria ficar para trás, esperando o próximo carregamento. sabe-se lá, quando viria. eu não sabia. em cada parada mais passageiros, mais apertos, mais tarifa para o patrão da sociedade anônima, mais conformação com a própria amargura, mais nada, Feeeechaaa!

a porta fecha. obediente. desapaixonada. neutra. isenta. incaracterística. ela obedece ao joão torto

o ar escapando do balcão. o joão acelerando o rocinante. a lata com as sardinhas arrancava da parada. um exército de obreiros retornando para suas casas. desconjuntados. injuriados. sem rufar de tambores. sem clarins. anônimos. suados. escurecidos. o rocinante escurecia no crepúsculo. a memória é cega; assim conseguimos fazer tudo igual, todos os dias, com cara de novidade, Espera! Espera, João!

alguém batia na barriga do rocinante. e nas pernas. e nas ancas. desviei o pescoço a tempo de ouvir o relincho do animal. empinou e se agarrou sobre as duas patas dianteiras. todos foram jogados para frente. a porta traseira liberou

um cego. a sua bengala. e a chuva. não faltava mais nada, Calma, miúdo. Quando ocê acha qui tá ruim, pode ficá pió, as lembranças davó martelavam minha cabeça, o neinho inda não viu tudo, espera começá chuvê.

João, segura o 69! Tem um cego querendo subir!

o torto imobilizou o animal, Cego?

gritou do seu lugar protegido no rocinante. depois, pediu à velhinha parada atrás dele, Senhora... senhora... precisa liberar o espelho.

É... um cego! respondeu a velhinha com os cabelos ficando arrepiados, O senhor quer o espelho livre? Pare de entupir pessoas aqui dentro! Onde o senhor acha que posso ir? Sentada no seu colo?

pronto, pensei. estava virando zona. torcida de futebol. assovios. gritos. xingamentos para a mãe do árbitro. os meninos chorando assustados. a mãezinha cantando uma canção de ninar. o grandão tirou a cabeça do alçapão e me olhou. abriu a boca, mas se engoliu. não disse, mas percebi que ele pensou a situação toda e achou que seria melhor ficar em silêncio. o baixinho continuava agarrado em sua cinta. dormindo. a professora sorria seu sorriso mais amarelo. coitada. fiquei com dó. um dia inteiro competindo com gritos e desaforos. e agora, isso, Lugar de cego e velho é em casa, o torto não tem noção do perigo, mas, mesmo contra a própria vontade, depois de acionado os freios e aberto a porta da frente, esperava pelo cego. bem que vale aquele ditado, Depois da porteira aberta passa a boiada inteira.

lembrei a escola e o senhor newton, A lei da inércia.

só avoinha não mexeu. nadica de qualquer pouquinho. paradinha me olhando. sorrindo. tive vontade de lhe desaforar

Mifioneto, queria continuá a história do preto Josino, não acreditei no que estava ouvindo. davó parecia ser a causa daqueles descontroles que não paravam. parecia querer me desaconselhar da vida de cobrador das passagens. não acreditei no que tava pensando, Essa não é a melhor hora, avoinha.

Bobice. Continuo depois do cego subí, estava com a língua preparada para retrucar avoinha quando deu-se o aviso do desastre, Chuva!

virei o nariz para trás, lá tava a chuva vindo forte e graúda, O cego! O cego!

um rapaz cabeludo até os ombros, o mesmo que acabara de levantar para a velhinha encrespada sentar, desceu para ajudar o cego. lembrei-me da sugestão davó para largar a ocupação sem serventia de cobrar passagens e procurar uma colocação de mais utilidade, como um cego precisando de guia. respondi que o salário também precisava ter serventia, mas que ia dar mais atenção. assunto de futuro.

os dois subiu no rocinante. o cego enfiou a mão no bolso e retirou o dinheiro da passagem. o dinheiro passou de mão em mão. mãos solidárias. não precisava troco. girei a catraca, Esse é o que passa na praça dos pedalinhos?

Vai até a Boa Esperança, respondeu o futuro matador de árvores, Obrigado.




olhei o magrão e não pude deixar de pensar nas pequenas solidariedades e nas pequenas omissões, uma produz cachopas de lembranças graúdas, enquanto a outra... duradouros esquecimentos



________________

Leia também:

sempre chega a vez de sentá pra conversá
Ensaio 01cp – 2ª edição 1ª reimpressão
Sô a favô de vendê, pegá no dinheiro e cuidá de vivê
Ensaio 02cp - 2ª edição 1ª reimpressão
é mais fácil não tê alguma coisa qui tê
Ensaio 0cp – 2ª edição 1ª reimpressão
Quero ocê, até depois qui a vida se acabá
Ensaio 04cp - 2ª edição 1ª reimpressão
Ele não é bicho, neinho. É mifio!
Ensaio 05cp - 2ª edição 1ª reimpressão
A cavalaria está saindo!
Ensio 06cp - 2ª edição 1 reimpressão
Neinho, fazê o desamô é uma escolha... o ódio é um gosto
Ensaio 07cp - 2ª edição 1ª reimpressão
Neinho, rezá é bão - dá conforto e esperança
Ensaio 08cp – 2ª edição 1ª reimpressão
João Torto do 69!
Ensaio 09cp – 2ª edição 1ª reimpressão
Neinho, o preto Josino foi enforquilhado
Ensaio 10cp - 2ª edição 1ª reimpressão
Nasceu preto e escravo
Ensaio 11cp – 2ª edição 1ª reimpressão
Guia de cego
Ensaio 12cp – 2ª edição 1ª reimpressão
É tudo bem novo do antigo
Ensaio 14cp – 2ª edição 1ª reimpressão

quinta-feira, 5 de junho de 2014

histórias davóinha: Guia de cego 12cp

casarão canela preta


Guia de cego
Ensaio 12cp – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



não deixava de reparar na elegância de avoinha. não tava com aparência de morta, doente ou desmemoriada. acho que tem espírito que não deixa o corpo envelhecer nem ficar se arrastando pelos caminhos, Neinho... avoinha parecia entrada dentro do meu pensamento, falava sem abrir a boca

To lhe escutando, agora, parecia que eu tava lhe caçoando, como é que eu podia lhe escutar se avoinha não falava pela boca

A avó vai ficá no cantinho, não respondi. conhecendo avoinha como conheci ela não tinha acabado de avisar o aviso todo. era só esperar. a roleta tava parada, o rocinante quase sem forças ia pela estrada calmamente

Vai chovê e num tô mais na idade de moiá, virei as vistas para trás e não vi sinal da chuva anunciada, Acho que avoinha se enganou nos avisos que recebeu. Não vai chover, avoinha, respondi com jeito de sabedoria da mocidade ajuntado com os conhecimentos das aulas da geografia

Então, ocê sabe uqui avoinha num sabe... tinha zombaria nos olhos de avoinha. eu sabia que era preciso ter cuidado, mas não queria deixar ela montar na sela, E como avoinha sabe que vai chover se não tem sinal de chuva no céu? Não pode ser assim, de repente tomar a decisão que vai chover. Precisa ter aviso de antecedência, ela continuava no seu cantinho, sentada embaixo da minha mesinha de cobrador. as tranças enfeitadas com contas coloridas e o perfume de água, um cheiro que ninguém escuta

Tenho muntu jeito de sabê, mais dô confiança nas reclamação das perna. Essa qui avisa se o causo é só chuvinha, a otra aconselha se o acontecido vai sê com chuvarada.

passei meus olhos nas pessoas, Parece que ninguém escutou recomendação de uso do guarda-chuva, ela estalou os lábios e bateu as duas mãos nas pernas, fazia fingimento de brabeza, Escutá siná dos rastro qui vem antes, aonde?

Na rádio, avoinha, bateu outra vez e mais forte as pernas nas mãos

E ocê credita, eu tenho mais gosto de creditá nas dô das perna, nessa gente... num sei, dô mais gosto de desconfiá.

É só um aviso, avoinha.

ergueu a voz que não fazia aparição da garganta. parecia inquietude, não aparentava tá de divertimento, Num aprendeu desconfiá qui essa gente tem uqui falá, mais num tem pensamento. Eles é só mensageiro, tem patrão... como ocê. Eles aprende como prendê ocê com besteira. Depois leva o seu bocado da cabeça, tudo trocado pelos bocado qui são deles... E tem aquele qui dos pió é o mais pió, fala mais enganadô qui patrão. O sonho desse mais pió é serví patrão, como se patrão ele fosse.


Se os pensamentos não são deles quem pensa por eles?

ela sorriu da sua tristeza , Os bocado qui interessa é do patrão. As burrice é invencionice da cabeça do mensageiro. Prefiro creditá no siná da descida do dia, o cheiro do vento. A vida tem o seu jeito de vivê, é só sabê entendê a sua belezura. Num tem sentido ocê sabê cheirá, escutá e num sabê entendê os arrepiu e os barulho da vida qui vive.

eu tava sorrindo da minha tristeza, Avoinha fala, fala, fala, mas não diz que é cismada com as invenção que não entende.

levantou com salto do salto e pousou sentada no meu balcão de negócios. endureceu o dedo indicador e apontou no meu nariz, Abre usóio, as venta e ouvido, essa gente enfiada na caixinha faladora não é gente da confiança prus pobre. Elas inventa té fazê ocê creditá qui ocê num sabe uqui sabe, eles é qui sabe. É gente qui tem patrão, gente assim precisa agradá patrão, tirei meu nariz da ponta do dedo de avoinha

Avoinha só sabe descobrir o lado da chuva, não sabe explicar porque chove!

eu já tava com vontade de choro. isso é coisa de criança, não sou mais a criança da avoinha, Quem precisá sabê... qui vá aprendê.

fechei os olhos. queria que a aparição fizesse desaparição. pensei, Nem metade do caminho. O trânsito lento. E avoinha cheia da vontade de conversar.

A rua tá andando, neinho. Nóis é qui tamô parado.

Avó, fica quietinha. O seu neto precisa colocar atenção no troco.

Vai chovê, eu conhecia avoinha mais que conhecia a mim mesmo, ela não sai daqui por nada, até dizer o que tem decidido dizer. e não fala antes de estar pronta para falar. precisa ter muito mais que paciência, acho que melhorei muito. 
nunca tive paciência com avoinha

Aposto que não vai.

Vai chovê de alagá tudo.

olhei avoinha nos olhos e sorri, E o Josino, avoinha? 


queria desviar sua atenção da temática. não gosto da chuva. a água das torneiras é muito bem-vinda, mas tenho problemas de desconfiança com trovoadas, chuvaradas e faíscas; vento, trovões, relâmpagos são combinações que me apavoram. é melhor mudar do assunto

— Num prestô tenção na tempestade qui se aproximô. Assim como ocê num dá escutação séria nas palavra da sua tia, pronto, avoinha chegou no que tem decidido que veio dizer

A tiazinha Vanda só tem no pensamento me fazer desistir do emprego de cobrador, ficou de cócoras. as pernas abertas que dava para ver o fim que se junta com o outro fim, Avoinha podia fechar as pernas?

Tá lhe incomodando? Óia pru lado, ela não queria me deixar pensar sem perturbação. Usava tudo que era arma que sabia usar. Não era decente o neto ver as intimidades da avó, nem era decente essa avó não deixar o neto fazer da vida a própria vida, Sua tia lhe arrumô serviço mais talhado pro seu tamanho.

arregalei os olhos. não acreditava que avoinha disse a merda que disse, Guia de cego?

Isso mesmo!

avoinha e tiazinha tavam de brincadeira.

os passageiros começaram um murmúrio de insatisfação. procurei no redor o que acontecia. a professora me olhou e disse, Rapaz, está se armando um temporal.

o pavor que sentia por dentro subiu, se mostrou nos meus olhos. quando tem temporal forte, trovão e clarão um depois do outro, mais outro, e outro, caminho pelo canela preta cobrindo espelhos. aprendi com davô que os espelhos atraem os raios. uso os panos que encontro pelo caminho. essa fúria da natureza me desassossega. parece que desce para caçar duendes, pigmeus e anões. não deveríamos estar por aqui, entre os humanos normais. cubro os espelhos para não me enxergar, Calma, neinho. É só a chuva qui a avó avisô, não consigo me acalmar, Não consigo... Não consigo!

avoinha voou atrás de mim, primeiro como vaga-lume colocou as mãos em meus olhos; depois, como uma cigarra assoprou a sua reza preferida e um beija-flor beijou os meus lábios e plantou o grão do nascimento, o gergelim

Tudo bem, rapaz?

Tudo bem, professora, eu consegui responder à professora, Obrigado, avoinha.

a professora voltou para o seu lugar. em pé. a bolsa aberta

Neinho, ocê qué escutá a história do Josino?

prefiro qualquer assunto de conversa e não ter atenção nos acontecimentos fora do rocinante, Se avoinha quer muito contar...

Vô contá pra ocê fica entretido... O preto Josino foi enforquilhado numa das árvore da praça. Onde, num dia qui tá pra chegá, vão colocá um tambô gigante, maió qui tamanho de gente.

Já vem avoinha com adivinhação. Vão colocar um tambor, por quê?

Pra num deixá deslembrá as dô dos pretu, tempo qui pretu num era gente, era coisa com dono.

Avoinha, nenhum tambor é tão grande que vai fazer ouvir quem não quer escutar.

Ninguém nasce envenenado... odiá é coisa qui se aprendi, neinho. Tem carecimento de ensiná o amô, fazê os odiento minguá. É lição qui embeleza a vida.





________________

Leia também:


sempre chega a vez de sentá pra conversá
Ensaio 01cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Sô a favô de vendê, pegá no dinheiro e cuidá de vivê
Ensaio 02cp - 2ª edição 1ª reimpressão

é mais fácil não tê alguma coisa qui tê
Ensaio 03cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Quero ocê, até depois qui a vida se acabá
Ensaio 04cp - 2ª edição 1ª reimpressão

Ele não é bicho, neinho. É mifio!
Ensaio 05cp - 2ª edição 1ª reimpressão

A cavalaria está saindo!
Ensio 06cp - 2ª edição 1 reimpressão

Neinho, fazê o desamô é uma escolha... o ódio é um gosto
Ensaio 07cp - 2ª edição 1ª reimpressão

Neinho, rezá é bão - dá conforto e esperança
Ensaio 08cp – 2ª edição 1ª reimpressão

João Torto do 69!
Ensaio 09cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Neinho, o preto Josino foi enforquilhado
Ensaio 10cp - 2ª edição 1ª reimpressão

Nasceu preto e escravo
Ensaio 11cp – 2ª edição 1ª reimpressão

A memória é cega
Ensaio 13cp – 2ª edição 1ª reimpressão


quinta-feira, 22 de maio de 2014

histórias davóinha: Nasceu preto e escravizado 11cp

casarão canela preta


Nasceu preto e escravizado
Ensaio 11cp – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



o grandão entrou na porta do fundo. ele era maior que o 69. mancava com a perna esquerda. a calça de brim desbotada, parecendo suja, ficava por cima da bota de gesso. deve ter quebrado o pé ou algo assim. marchava na direção da roleta. um passo, uma batida, Boa tarde.

Boa tarde, respondi. precisei puxar a cabeça para trás e subir o queixo

Achei que não tinham me visto. Obrigado, como se isso fosse possível, não enxergar um poste

O senhor poderia ter embarcado na frente.

Não podia, um senhor distinto, bem educado e gentil

Por que? Todos do 171 embarcaram na porta da frente.

sem afetações ensaiadas ou arroubos enfeitados, estendeu-me a mão com cem cruzados, Pegue, por favor. Ainda não havia pago a passagem.

o passageiro pagava uma tarifa de setenta e cinco cruzados. peguei seu dinheiro e lhe dei vinte e cinco cruzados. o seu troco. o grandão do pé quebrado girou a roleta até que a cabeça deu um estalo e travou. estava feita sua mudança de lugar. a sua passagem mancando do corredor do fundo para o corredor da frente. a roleta era o divisor dos compartimentos, antes e depois de pagar. um homem de bem, um exemplo de passageiro educado, se tivesse que arriscar um palpite, diria que o homem só pode ser um professor, Demora muito para prosseguirmos?

procurei nas minhas memórias tudo que avóinha havia ensinado com insistência e muita recomendação. lembrei elogios e advertências com a gentileza, repetia quase sempre que a boa educação ia abrir mais portas do que fechar. o grandão já tinha liberado o passadiço, a porteira continuava aberta, Não demora, senhor. É só o tempo de todos subirem.

tornei a virar as vistas para o largo dos enforcados. lá estava ela, parecia conversando, parecia rezando. no final, é tudo conversa, Miúdo, óiali. A árvore dos enforcado. Lugá onde upretu Josino foi enforquilhado.

olhei. não parecia sinistra nem lembrava o uso de tristeza que deram para os seus braços. braços fortes para aguentar o peso dos preto até depois do espírito ganhar soltura. A liberdade dos preto tardava, mas chegava nos braços daquela imensa árvore, Avóinha conheceu ele?

ela deu uns passos na direção de cá, voltou a ficar triste e cansada, Naquele tempo, avó era otra coisa. Num deu jeito de conhecê Josino. Mais agora, usdois, iô e ele, andamô proseando.

espetei as vistas com jeito de curiosidade nas sombras das árvores, Ele tá aqui?

avóinha balançou a cabeça do jeito que mostrava sua tristeza e enjoava o espírito sem um corpo, até que se balançou e chorou, Num tá. Inda bem qui num tá. é muntu tempo pra ficá pendurado, aquele choro não tinha lágrima, mas tinha a dor descida na estrada das águas. um caminho de sofrimentos, abandonos e mortes, ele jurô qui num coloca mais o gargalo da boca aqui, um pomá dipretu.

E o que ele fez?

avóinha me fez um olhar que nunca tinha visto, forças violentas lhe escapavam das vistas, como os ventos empurram as águas até a praia do arco-íris, empilhando os grãos um por cima do outro. o inferno bem que podia ser assim: os corpos empilhando, as ondas de fogo lambendo os grãos empilhados, marés irascíveis e coléricas, Nasceu pretu e escravizado. Assim, foi trabaiá na feitura da igreja santa.

não era essa a resposta que eu queria, mas não adiantava retrucar. avóinha come o mingau fervendo, pelas beiradas. o preto josino, por certo, tinha sido acusado de crime e sido condenado. tinha curiosidade de saber do crime de preto que fez o josino ficar pendurado na forca. mas tinha que esperar pelo complemento e do jeito que avóinha gostava de responder

não sabia de nenhuma igreja santa. até pode ser que tenha, mas é mais comum de existir homem santo do que lugar santo, Onde é a tal igreja santa?

pareceu um não sei o que quando me olhou antes de responder, Já vi qui ocê num conhece nada de nadica. Tem qui sabê procurá os esclarecimento informativo. Sentado nesse balcão ocê virô alvo dos zombeteiro.

tinha vez que davó parecia querer me impacientar. quando era assim, eu acabava dando menor importância para as conversas da avóinha, Fecha atrás, João! Vamos embora!

os passageiros aplaudiram minhas ordens. eu dando ordens. as coisas sobem pra cabeça. acabara de ter meus quinze segundos de fama e não foi preciso cantar ou me mostrar uma caricatura engraçada. o 69 não tinha mais lugares vazios para sentar. o senhor grandão se foi pelo corredor com o gargalo da boca dobrado, mancando, 1 e 2. olhando para o chão. calmo. calado. não havia muitos lugares no corredor. ninguém levantou para que pudesse sentar. chegou embaixo do alçapão no teto. enfiou a cabeça naquele quadrado da ventilação. endireitou o pescoço. os ombros do grandão roçando o corrimão pendurado no telhado de lata. fechei os olhos.

a cabeça que carrego nos ombros balançou, não pude evitar os pensamentos da história acontecida e da história se passando. o grandão com o pescoço esticado no alçapão, o josino com o pescoço esticado na ponta da corda, apertado pelo nó que se fechou. quebrado. ninguém se importa com o professor, muito menos com o preto josino.

um outro tipo parou ao lado do sujeitão. não alcançava o corrimão aéreo. um sujeito pequenino que tentou uma vez pegar o corrimão aéreo, ficou na pontinha dos pés e não passou disso, desistiu. jamais alcançaria no pega-mão do céu. desisti. eu nem teria tentado. acho que só eu conseguia entender sua frustração com os risos contidos e olhares de pena. encostou a cabeça no sujeitão e dormiu. o filho protegido pelo pai. escorado.

lá fora, escurecendo. os pretos continuavam pendurados no pomar de pretos. mais de duzentos anos amarrados pelo pescoço nos cabides daquelas árvores. esperando que a história fosse contada. a memória zanzando perdida. ainda vá ter o dia que o branco vem e corta a memória. sinto raiva do silêncio da história. já tivemos pena de morte na villa que serviu de uso nos preto.

o joão torto arrancou o 69 do largo dos enforcados.

avóinha ficou. não quis subir. queixou-se que tava toda perfumada e a multidão encharcou o caminhão com suor e falação. parecia tristinha. calada. o rocinante trotava como um galante e idoso soldado aposentado chamado às pressas ao combate.

outra parada, mais passageiros. nenhum desceu.

uma senhora pendurada com sua bolsa no ombro. muito descuidada. uma tentação para qualquer um. acho que já vi essa senhora, mas sou muito ruim para lembrar pessoas. a bolsa pendurada no ombro, a mão agarrada no corrimão aéreo. continuava se aproximando. acho que vai ter dificuldades com a roleta. as larguras de uma e de outra não combinavam. é isso. eu sabia. é a professora da biblioteca. muito querida, Boa tarde, professora.

olhou para mim, surpresa. mas respondeu com educação. e não poderia ser diferente, os professores são sempre muito educados. mudam um pouquinho quando estão com os alunos, mas também, com esses pequenos bagunceiros não há cristão que resista, Boa tarde, estendeu-me o valor da passagem enquanto se ajeitava para passar na roleta. parou. não desistiu, apenas parou. olhou-me diretamente, pude perceber a sua curiosidade e o seu problema com rostos e nomes. o seu problema é o meu problema professora, O senhor foi meu aluno?

ela precisava saber como eu a conhecia, Não, fui econômico, aprendi com davó, a melhor professora de todas, esses jeitos de desacomodar o conforto de quem acha que sabe tudo

Imaginei que não. Eu lembraria.

foi a minha vez de sentir o que não foi dito. claro, ela lembraria. quem esqueceria um aluno anão e negro? um rabanete preto marcaria sua memória, chamaria sua atenção respondendo a chamada do início da aula. sofri com a cena que poderia estar acontecendo em sua cabeça agora, mesmo que não tenha existido, mas se não existiu antes, tá acontecendo aqui, bem na minha frente

Tô aqui, professora, Onde? Onde, meu querido? Meu restinho de gente..., o pescoço esticado como um farol salva-vidas

não poderia esquecer. ninguém esquece

A senhora não lembra porque eu não gostava de ir à biblioteca, foi a minha vez de regatear com as memórias dela

Que pena, Não gostava de ler, E agora, gosta?

Assim, assim...

É ... parece que ninguém gosta mais de ler, coloquei a mão na roleta para oferecer minha ajuda de força. um pequeno ajeito daqui e dali, pronto, passou

Obrigada, querido, Obrigado, por tudo que a senhora me ensinou, Tá bem. Tchau.

não havia lugares desocupados no corredor. a terceira fileira começou a ser formada. o chão de lata tava atravancado com pés e sapatos, Por favor, mais um passinho à frente.

passinhos, empurrões, apertos. uns mais juntos que outros. as mãos no corrimão aéreo, nos bolsos, nas bolsas, nas coxas, Psiu, Pensei que avóinha não tinha embarcado.

ela soltou a gargalhada da faceirice. as tristezas tinham ficado lá atrás, E num tinha.

avóinha tava bem ali, na minha frente, sentada na roleta. elegante. bonita. os olhos tavam na cor da bisbilhotice, a brilhadura do brilho que embelezava tudo




________________

Leia também:

sempre chega a vez de sentá pra conversá
Ensaio 01cp – 2ª edição 1ª reimpressão 

Sô a favô de vendê, pegá no dinheiro e cuidá de vivê
Ensaio 02cp - 2ª edição 1ª reimpressão 

é mais fácil não tê alguma coisa qui tê
Ensaio 03cp – 2ª edição 1ª reimpressão 

Quero ocê, até depois qui a vida se acabá
Ensaio 04cp - 2ª edição 1ª reimpressão 

Ele não é bicho, neinho. É mifio!
Ensaio 05cp - 2ª edição 1ª reimpressão

A cavalaria está saindo!
Ensio 06cp - 2ª edição 1 reimpressão 

Neinho, fazê o desamô é uma escolha... o ódio é um gosto
Ensaio 07cp - 2ª edição 1ª reimpressão 

Neinho, rezá é bão - dá conforto e esperança
Ensaio 08cp – 2ª edição 1ª reimpressão 

João Torto do 69!
Ensaio 09cp – 2ª edição 1ª reimpressão 

Neinho, o preto Josino foi enforquilhado
Ensaio 10cp - 2ª edição 1ª reimpressão

Guia de cego
Ensaio 12cp – 2ª edição 1ª reimpressão



sábado, 17 de maio de 2014

histórias davóinha: Neinho, o preto Josino foi enforquilhado 10cp

casarão canela preta


Neinho, o preto Josino foi enforquilhado
Ensaio 10cp – 2ª edição 1ª reimpressão



baitasar



nada além do silêncio

eu ali, no banco do cobrador, em pé. todo esticadinho para agarrar o corrimão aéreo, sentindo câimbras nos dedinhos dos pés, um animador de torcidas inoperante. até que a turba me tirou daquele sono a esmo, Enforca!

larguei o corrimão aéreo e levei minhas mãos ao pescoço. não entendia o que havia acontecido. tudo isso porque eu fiz a cantoria do café? jamais houve reação tão contrária aquele cantarejar do café haiti, haiti, haiti, Passa a corda no negro!

sentei no banco e calei minha boca, achei melhor esconder o meu canto. não era tempo de cantar, que pena. sempre deveria ser tempo de cantar, que pena, Safado! Negro desvergonhado, Roubando da Santa!

santa? mas que santa? continuei assustado

queriam uma cova. um buraco. um corpo para pendurar e queimar. carne para malhar o couro. entreter suas vidas empoeiradas pelo senso da justiça vingativa que mói e atormenta. corta os pedaços da carne e mastiga, Vamos nos fartar com o sangue do negro!

queria uma caverna bem escura. um esconderijo daqueles gritos. a vergonha do desdém. o cinismo dos suspiros. a indiferença. a surdez. lágrimas de crocodilo. as balas quebra-queixo, puxa-puxa, as crianças correndo. as árvores da praça e os enforcados. sem nome. sem história. sem memória. a mãe nervosa perdida do filho, enraivecida porque estava perdendo a melhor parte, o barulho horrível do pescoço quebrando. a menina com a fita rosa no cabelo, toda perfumada de anjo. o preto lá no alto. o pescoço quebrado e aquele estalo injusto, desumano. gente decente batendo palmas, gritando, atirando pedras. cuspindo. o preto todo esticado com as calças de linho grosso, áspero e sujo, molhadas. boiando pendurado

nenhum dos passageiros deu qualquer importância às boas-vindas do café haiti. olhei para os dois lados, Davó... chamei uma, duas, três vezes, Davó... outra vez e outra, Calma, neinho.

reconhecia a voz, mas não via o corpo, ou melhor, o espírito. até que subiu na porta da frente, Onde davó andava?

não consegui tirar o nervosismo da voz. depois que o enervamento me desassossega perco o cuidado com as palavras, quase sempre fico arrependido do ponto-de-vista que vou libertando da garganta, Donde ocê acha qui avó andava?

a situação requeria seriedade, mas davó só queria brincadeira, E lá vou eu saber? Na terra dos sem-terra?

ela queria ter mais divertimento que os vivos do 69

No embaciamento nuvioso das altura.

depois de se demorar para atender os meus chamamentos, convoquei avóinha mais vezes que era o meu costume, ela fez pouco das minhas reclamações. resmungava que nem foi tanto assim, Davó escutava?

Claro qui iô escutava.

quase desabei no choro sentado na cadeirinha, meu trono de bebê, enquanto avóinha segurava a colherinha da papinha e brincava de aviãozinho. queria ensinar davó que uma colherinha não poderia ser um aviãozinho, aquilo era apenas uma invencionice dos seus delírios de mãinhavó, Então viu meu papelão?

Iô vi.

inventei cara de brabeza que vinha da vergonha e levantei, E Davó deixou... quando pode e deve meter sua colher de bisbilhotice davó escolhe ficar só olhando, fazendo cara preta de paisagem. isso não é justo.

ela parou no corredor, fez cara séria, pronta para soltar um aconselhamento, Ocê precisa aprendê ri de ocê mesmo, desregulá a seriedade e deixá a alegria ficá contente, deu um pulo do chão de lata até a mesa da trocação das passagens, olhou bem pertinho das vistas, antes de continuar, Neinho, senta aí, já tava sentado, mas parecia que era outra coisa que queria dizer, isso não é jeito de atendê os viajante e vendê os bilhete. E mais não seja, o guri tá escutando ruim, a avó não aconsêiô ocê cantá. Isso foi bobice...

sentei no meu lugar de neto que escuta, Quis ser gentil.

ela balançou a mão direita no ar, parecia nervosa. depois, abaixou a mão até a perna. continuava de cócoras no meu balcão de negócios. senti vontade de aproximar minha mão do seu rosto de espírito, Neinho, mifiuneto amado. Num disse pra ocê cantá, qui bobice essa cantoria do café. Bastava ocê escutá as pessoa sem brabeza, ajudá levá todas pra casa.

não consegui abrir a boca e retrucar avóinha. ela fez sinal com os olhos para sossegar o pinto, Fica sentado e óia lá fora.

obedeci, virei a cabeça que continuava agarrada no pescoço. desvirei para o outro lado, E daí?

ela pulou do balcão e ficou pendurada na janela, atrás do meu banco, por fora, agarrada em nada, Uqui ocê vê?

pulou de volta no balcão das passagens, Nada de mais... a rua, as pessoas, as casas... avóinha voando como um anjo preto sem asas.

o anjo da avóinha sorriu, Neinho, ocê precisa esforçá as vista e mostrá prusóio uqui ocê vê... carece fornicá com curiosidade.

desgrudei da davó. o gado subindo no rocinante, organizado em fila. agonizando. o joão torto alargado sobre a sua janela, toda aberta, conversando animado com o chico baiana, O que foi isso, Chico?

o baiana ergueu os ombros, repuxou um dos lados da boca, subiu as duas mãos espantadas num aviso de desistência, A caixa quebrô, Torto. Caminhão velho é assim mesmo. A quebradeira não é maior, graças aos cuidados do Seu Cristóvão, mais a boa vontade do Nosso Sinhozinho Cristinho com a ajuda do dono dos caminhos, Ogum. O senhor do ferro.

Tá certo, Baiana... te cuida.

o joão enfiou o braço pra fora da janela, espichou até cumprimentar o chico num aperto de mão. depois que acomodou o corpo no seu assento, virou-se para o meu lado, reuniu o ar dos pulmões no gargalo do pescoço e deixou escapar um ar tristonho que veio batendo a esmo nos vidros e paredes, Tudo certo, Batatinha?

não respondi de imediato, esperei que a tosse seca, daquela conversa de palavras descontinuadas, ficasse no controle da sua vontade. tossiu uma, duas, três vezes, estilhaçando a esmo a sua incontinência. levou a mão à boca. tossiu mais e mais, até que um dos viajantes gritou do fundo do caminhão, O homê precisa de um copo com água.

Obrigado, não precisa. Já vai passar.

viajo sentado de frente para a roleta, as costas na janela, um dos lados para a frente do 69, o da direita; o lado da esquerda para o fundo do carro, Abre atrás, João!

um homem grandão estava parado na calçada, em frente a porta do fundo. o joão abriu a porta e grandão subiu. o rocinante continuava parado, esperava o carregamento de toda aquela gente

Psiu... — me fiz de embaçado, psiu...

como é que se faz de conta que um espírito não existe? avóinha parece com jeito de quem reclama da solidão gelada e pede as meias de lã, O que foi, davó?

Óia pra cá.

Não posso.

não ia poder resistir muito mais, sentia o coração fraquejar pela vontade de olhar com avóinha, Davó precisa entender que eu tô de trabalho, não posso ficar de conversinha.

Num qué oiá, tá bem, num óia. Mais vai escutá e num vê.

Não vou ver o quê, avóinha?

As árvore... daqui fora.

eu tava sendo deseducado com avóinha, se dava mais atenção ia perceber que ela queria deixar recado de ensinamento. tem vez que não adianta receber mensagem do esclarecimento. eu tinha escolhido não escutar, mas ela tava decidida me dizer o que já tinha decidido contar, Essa não é hora de colocar as vistas da paisagem, se avóinha não caducou, vai saber que o seu neinho tá no trabalho.

continuava pendurada na janela, Bestice, é só querê e fazê a hora.

Avóinha vai pegar resfriado, aí fora.

escutei o assopro da avóinha que me fez frio. depois, um arrepio me deu estremecimento. a cabeça da avóinha tava flutuando fora do lugar certo. o corpo da avóinha ficou lá fora, a cabeça foi que entrou e tava no lado a lado com a minha, Miúdo, não perde o jeito de oiá e sabê o qui vê.

virei a cabeça pro outro lado. não podia ver avóinha só com a cabeça nem queria avistar o corpo sem a parte da cabeça. tem coisa que os olhos não deviam olhar para não guardar a memória, Avóinha pode fazer o favor de fincar a cabeça de volta no corpo?

Psiu...

virei no rumo que avóinha chamava, não podia continuar embaçando a teimosia da avó morta, Uqui ocê vê?

— Avóinha sem a cabeça, as árvores, as pessoas...

E uqui mais?

balançava a cabeça enfiada e desfiada do corpo, não podia ter atenção lá fora com tanto movimento da avóinha. fiz mais reclamação que de nada adiantou, E o que mais?

balançava a cabeça enfiada e desfiada do corpo, não podia dar atenção lá fora com tanto movimento de exibição da avóinha. fiz outra reclamação que de nada adiantou, E o que mais?

mais nada mais nada, tinha vontade de dizer. as pessoas, as árvores, as crianças, o vendedor das doçuras, a igreja das dores da villa, a polícia, tudo do mesmo jeito, como sempre foi, E uqui mais, levou nos olhos a mão que segurava a cabeça desfiada do corpo, e pediu, Fecha as vista pra podê oiá, mostrá uqui ocê num vê e qui tá escondido. Libertá usóio duqui ocê tá costumado divê.

a manhã iluminada, os pais, as mães, os filhos ensolarados, a praça. as sombras das árvores. o vendedor de doces, O campanário anunciando. Chamando. As sombra fechando o céu. As treva do ódio. O medo. O negro caminhando acorrentado, As pulícia marchando lado e lado. Elegantes. Bonitos. Os namorados beijando as bocas, comendo as línguas. Escondidos na árvore dos enforcados, E uqui mais?

fiz o sinal da cruz. não resisti à tentação de dizer a cruz e o credo. esconjuro, A árvore dos enforcado é dutempo qui existiu lei qui mandava matá o pescoço dos preto. O escravizado ficava pendurado té cansá de respirá.

Não acredito, avóinha! Nunca ouvi falar.

Num era bão tê toduspretu esticado pra modo de não perdê dinheiro nem ficá sem braço pretu pra trabaiá. Mais um qui otro balanceando era um bão aviso propagandista. Dá pra vê uspretu boiando no vento. Nascê preto na Villa num era coisa boa pru pretu, mais num tinha uqui fazê, upretu já nasce pretu. E morre nas lei dusbranco. Branco num gosta de mudá as lei antiga, elas ajuda arredá uspretu pra mais longe qui lugá perdido. É feita pra limpá tudo qui incomoda branco. Dá pra vê ouspretu balançando. O vento reclamando.





_______________


Leia também:

sempre chega a vez de sentá pra conversá
Ensaio 01cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Sô a favô de vendê, pegá no dinheiro e cuidá de vivê
Ensaio 02cp - 2ª edição 1ª reimpressão

é mais fácil não tê alguma coisa qui tê
Ensaio 03cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Quero ocê, até depois qui a vida se acabá
Ensaio 04cp - 2ª edição 1ª reimpressão

Ele não é bicho, neinho. É mifio!
Ensaio 05cp - 2ª edição 1ª reimpressão

A cavalaria está saindo!
Ensio 06cp - 2ª edição 1 reimpressão

Neinho, fazê o desamô é uma escolha... o ódio é um gosto
Ensaio 07cp - 2ª edição 1ª reimpressão

Neinho, rezá é bão - dá conforto e esperança
Ensaio 08cp – 2ª edição 1ª reimpressão

João Torto do 69!
Ensaio 09cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Nasceu preto e escravizado
Ensaio 11cp – 2ª edição 1ª reimpressão


terça-feira, 13 de maio de 2014

histórias davóinha: João Torto do 69! 09cp

casarão canela preta


João Torto do 69!
Ensaio 09cp – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar




pedi que avóinha parasse com aquela fumaceira, caso ela não tivesse se dado por conta, eu e o tiuzin Batata távamos de conversa importante. engraçado como esses aparecimentos da avóinha cabem dentro de um tempo sem tempo, não parecem ser conversa nem parecem estar indo ou vindo, ficam num jeito de estar em tudo. pedi que me deixasse de conversa com o tiuzin, Mais hora é mais dinheiro. E tem o pedido do largadô novo da garagem, tudo se ajuntô no meu decisório. Uma mão ajuda outra. Hoje, é ele qui precisa, amanhã... pode sê eu.

o tiuzin Batata parou sério, queria fazer algum anúncio que lhe custava a certeza de tá fazendo o certo. deu um esfregão forte nas duas mãos, O seu tiuzin Manoel se ofereceu pra busca ocê, miúdo.

pulei de brabeza. não tinha nenhuma desavença com o tiuzin Manoel, mas fiquei incomodado com essa sujeição de alguém precisar me buscar. mais parecia um colegial que um trabalhador. anão, preto, louco e despreparado na própria proteção, O tiuzin Manoel não tem obrigação nem a necessidade.

o tiuzin Batata ergueu a mão aberta e balançou na frente do rosto. sacudiu a cabeça de um lado e outro, conformado com a sua serventia de uso: um relógio preso na parede, É decisão decidida. Ainda mais, siocê não tem lembrança, é bão de se lembrá qui hoje é dia do pagamento, parou o pêndulo e colocou a mão no meu ombro, parecia querer fazer alguma confidência da família, Sua tia Vanda não ia tê sossego té a chegada do miúdo no Canela Preta. A ajuda do seu tio Manoel não tem negociação. É assim que vai sê.

assim é que seria, se é assim que tinha que ser, no meu primeiro dia do pagamento. isso de ser a primeira vez é apego sem importância. só tem gravidade de acontecimento quando a história do sucedido escapa das mãos, ela fica mais prestigiada que a própria relevância. claro, não é assim em tudo que se faz, a primeira vez nem sempre importa, nem sempre é lembrada, e muitas têm valor de história que não vai ser contada, Qual terá sido o primeiro escravo preto desta terra de homens bondosos? Como terá sido o momento mágico do primeiro pé preto das mulheres pretas pisando a terra das mulheres caridosas? Em que fábula de ninar e sonhar, homens caridosos e mulheres bondosas encontraram redenção depois de açoitar o primeiro preto? Quinhentos anos de histórias de ninar embalando os cuidados de escravizar e explorar. Os brancos antibióticos nunca quiseram os pretos por aqui.

acordei do meu sono reservista

descobri que no dia do pagamento ninguém faltava. não tinha carro quebrado por descuido ou exagero de pouco caso, os reservistas não saem da garagem. o movimento era quase nenhum. não havia entra e sai por faltas ou quebradeiras. aproveitei para dormir até o intervalo do tiuzin. depois que ele encostou o 22 na garagem saímos para o almoço. a comida do meu gosto: arroz, feijão, carne assada em panela de barro, aipim, tomate e cebola, mais batata assada, só na pensão da dona Amora. qualidade e quantidade, tudo na volta da garagem. a vida fervilhava por aqui

depois do alívio da fome, um ligeiro cochilo. a pequena siesta. reservista com sorte passa o dia dormindo

sentei na sala de espera do reservatório. olhava as paredes. juntava letras em palavras cruzadas. o caso dos dez negrinhos. gosto de ler os crimes e mistérios dos livros. o João Torto dormia o sono solto que facilita a soltura do hálito e dos espíritos. roncava a própria soltura. sabia que o 69 não saia, Talvez, me confidenciou, o final do dia. 

o quartel continuava calmo, nenhuma prontidão ou averiguação. no meio da tarde, o tiuzin saiu do esconderijo, embarcou no 22 e voltou para sua rota. era só esperar o dia acabando. anoitecendo a malha das camas. mais cruzadas, negrinhos e os dez casos, a corneta tocando, o final da tarde avermelhada, o corneteiro tocando, João Torto do 69!

o João apareceu amassado como uma bolinha de papel, dessas que enrugamos com as mãos e depois atiramos na careca de alguma cabeça branca. ajeitava as calças na cintura. as botinas estavam desamarradas, os cadarços encostavam no chão das pedras regulares. tive medo que o meu capitão fosse tropeçar nas cordas da botina. um condutor que não se aguenta, Sim, senhor! 

o largador deixou que ele se aproximasse, não parecia entusiasmado com a disposição do socorrista. deu um suspiro escapista, desses que não deixam dúvidas da enorme angústia de não acreditar no impossível. a voz parecia resignada quando deu a ordem de cumprimento imediato, carregava uma planilha em uma das mãos e a caneta vermelha na outra mão, O 69 vai puxá a rota da vila Boa Esperança. O 171 do Chico Baiana quebrou. Vão lá, recolham os passageiros e terminem a viagem.

É pra já!

terminou de enfiar a camisa azul dentro da calça, agachou para amarrar as botinas e produziu um som deselegante. achei nojento aquele vento me apanhando em cheio, Batatinha!

Tô aqui, quase sem respirar, virou-se, e ficamos frente a frente, os dois tínhamos os sentidos na correnteza da visão. as ventas do João dilatavam, minhas orelhas cresciam e ficavam quentes

Pronto? 

outra história começava a ser contada, Pronto!

subimos no 69

o caminhão para o carregamento encarava o portão. parado. esperando a abertura da porteira. uma pequena provocação do João, avisar que a cavalaria estava em prontidão. o motor estremeceu portas e janelas. o pé do João pesava no acelerador. a fumaça da descarga despontava preta

saímos no socorro

dois cavaleiros sem exército, desenferrujando as marchas, testando os freios. acelerando. fedendo a óleo queimado. o cavalo do ferro-velho com ferraduras pneumáticas esgotadas, o estribo recolhido, as portas fechadas. fechados em uma armadura velha, pesada e corroída. João Torto comandava o cérebro, os pedais e o volante. eu seguia ao lado, seu fiel escudeiro. cantava hinos, ria das piadas sujas, avisava das paradas e partidas, cobrava as passagens. recolhia os lucros da Anônima, aumentava a fortuna do patrão, mas não usava as correntes da escravidão, Ocê é qui pensa, miúdo.

avóinha tinha embarcado. quase fiz reza de vontade e pedi o seu desembarque. recuei do pedido, ela não ia atender minha pretensão, fiz de conta que seu assunto não era assunto do meu interesse. peguei o saquinho das moedas e distribui no caixa. depois puxei do bolso os cruzados de 10, 50 e 100. enfiei no caixa. olhei na volta do 69, o trânsito estava desapressado, quase parado. a estrada era uma arrastadura para difamar qualquer um. os cascos pneumáticos do Rocinante se moviam lentos e pausados. nossa rota tinha lugar de começo, iniciava depois do translado dos passageiros do 171 para o 69, Falta muito, João? 

ele ergueu um dos olhos para o retrovisor, depois me respondeu, Quase lá, estamos quase lá.

o quase lá do João Torto arrastou o 69 por mais vinte minutos, queimando óleo e sufocando os hostis caminhantes das ruas. quando chegamos no local do desfalecimento do 171, os passageiros estavam na beirada do fio da calçada. adivinhavam onde o 69 ficaria parado para o embarque socorrista. senti, pela primeira vez, o desejo de salvar vidas. um bombeiro. eu queria ser um bombeiro

paramos atrás do 171, junto da parada para os ônibus, Chegamos, Batatinha!

deu o aviso e puxou o freio de estacionamento do 69. desviou sua atenção do volante e virou-se todo para trás, seu sorriso mais desafiador me esperava, 
Tá pronto, guri?

Mãos à obra! 

foi a minha resposta ao seu desafio

guri coisa nenhuma, sou colega de farda e esse barco precisa dos dois. não era hora de discursos. respirei fundo, não foi nenhum suspiro. não estava atônito ou confuso. mas aquelas pessoas tinham esperado mais tempo que do costume, a paciência lhes tinha escapado. eu precisava da alma serena ou seria mais um musgo verde brotando da pedra. um querubim, Pode abrir as portas, João!

as pessoas não esperaram que as portas se abrissem totalmente para subirem reclamando, onde se viu isso, onde se viu aquilo, Uma pouca vergonha! 

era o mais delicado dos gritos, Falta de respeito! Tratam as passageiros como animais!

e eu com tudo isso. aquelas pessoas pareciam não saber que eu era o mocinho. estava ali para levar todos a salvo em algum fim de mundo, Neinho, gentileza não custa nada, tenta prová o gosto. 

não sei como, mas não foi surpresa a aparição da avóinha

Se avóinha tem certeza...

Tenta...

senti que era a professora da geografia falando pras paredes, ensinando quem não queria aprender, estava lá porque precisava estar

Senhores... senhoras... 

nenhum ouvinte, nem um aluno interessado. olhei de lado pra avóinha, ela me piscou e sorriu, Não desisti, neinho. O silêncio não qué dizê qui tudo tá ruim. Nem o falatório tagarela é aviso qui tudo tá bão.

fiz um suspiro de impaciência e fiquei em pé no meu assento de cobrador. ergui-me na pontinha dos dedos, até agarrar no corrimão aéreo, Ei! 

meus pulmões fizeram minha garganta explodir, Silêncio!

havia conseguido que ficassem quietos. e agora? não tinha planos. o João Torto me achava bisbilhoteiro. os passageiros estavam curiosos. e agora, Eu e o meu colega João viemos socorrer os passageiros do 171. Desejamos que ao chegarem a suas casas, e todos vão chegar em suas casas, nem que isso custe muitas vidas, possam sentir o cheiro gostoso do café no coador, a água da chaleira chiando, o bule, Haiti, Haiti, Haiti, tá fazendo na cozinha, tá cheirando aqui!



___________________________


Leia também:

sempre chega a vez de sentá pra conversá
Ensaio 01cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Sô a favô de vendê, pegá no dinheiro e cuidá de vivê
Ensaio 02cp - 2ª edição 1ª reimpressão

é mais fácil não tê alguma coisa qui tê
Ensaio 03cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Quero ocê, até depois qui a vida se acabá
Ensaio 04cp - 2ª edição 1ª reimpressão

Ele não é bicho, neinho. É mifio!
Ensaio 05cp - 2ª edição 1ª reimpressão

A cavalaria está saindo!
Ensio 06cp - 2ª edição 1 reimpressão

Neinho, fazê o desamô é uma escolha... o ódio é um gosto
Ensaio 07cp - 2ª edição 1ª reimpressão

Neinho, rezá é bão - dá conforto e esperança
Ensaio 08cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Neinho, o preto Josino foi enforquilhado
Ensaio 10cp - 2ª edição 1ª reimpressão


sexta-feira, 25 de abril de 2014

histórias davóinha: ôneinho, rezá é bão - dá conforto e esperança 08cp

casarão canela preta


ôneinho, rezá é bão - dá conforto e esperança
Ensaio 08cp – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar




acordei na metade da noite, atirado na cama. vestido com as vestimentas do dia. dormir com os olhos abertos é o mesmo que não tirar do sono os pensamentos do dia. as lembranças continuam latejando. não é descanso o abatimento na cama com os pés latejando dentro das botinas. lembrei um palavrão grande e imoral, levantei para desvestir a indumentária do cobrador de passagens. quando arranquei as botinas descobri que não tinha feito nenhum descanso. senti os pés prisioneiros da minha própria prisão. larguei as preocupações com o tiuzin Manoel junto com as vestimentas suadas e fedidas, ao lado da cama, no chão. tomei meu banho do descarrego do dia morto e continuei os preparativos de dormir. até que enfiei o sono embaixo das cobertas. deitei nu de mim mesmo, Neinho, ocê sabe qual o costume qui uspretu, branco, pobre e rico tem igualzinho?

Agora não, avóinha... preciso desse cochilo de poucas horas.

É só respondê qui avéia toma chá de sumiço.

quase sentei na cama, frente a frente. mas olhei com as vistas quase fechando os cabelos brancos cheios das miçangas coloridas, a pele lisinha, os olhos bem abertos. avóinha tava cada vez mais reparada, eu cada vez mais quase desadormecido, Não sei, avóinha.

E mifiuneto qué sabê?

esfreguei as vistas da visão, depois lhe mostrei meu riso de saudade misturado com minha resposta de atrevimento. ela parecia não ter vontade de fechar os olhos, eu não queria abrir, Por que avóinha pergunta? Avóinha vai dizer de um jeito ou de outro...

ela continuava sentada na cama, as duas mãos apoiadas no colo. depois que as vistas entraram na minha cabeça eu subi no colo da avóinha, mas parecia que era davó que tava no meu colo, cansada da lonjura de ficar de uma cidade até a outra. da cidade dos vivos pra cidade dos mortos e de lá pra cá, Ocê prestenção no jeito de escutá.

fechei as vistas e deixei aquela visão encher o meu quarto até me abraçar, Estou escutando, avóinha.

a aparição colocou a mão em meu queixo e me fez erguer mais as vistas até não avistar mais nada, tava olhando pelos ouvidos. a cabeça parecia virada pra cima e as vistas reviradas pra trás até ficar na posição de abano das orelhas, A estupidez, miúdo davó.

Será, avóinha?

ela balançou a cabeça e fez um ruído com a boca que mais se parecia com uns estalos da língua, Sandice e burrice é coisa quisó os humano tem, bicho não tem.

fechei os olhos e pedi que ela se fosse, queria ser recebido com sossego pelo adormecimento. Avóinha não parecia querer me obedecer, sua voz chegava de longe até mais perto. o bafo do desassossego entrava como sussurro arrastado. a cantoria virava ensinamento, No começo, a estupidez chega com modo educado, cheia de gentileza. Depois, ocê querendo ou não, ela fica forte e durativa. É quando o inhenho começa perdê a vigilância sobre o amontoado da tontice qui engoliu. Num sabe, mais tá desarranjado. A cabeça se perdeu do curação, o curação si perdeu do corpo e o corpo si perdeu da cabeça. O curação, o corpo e a cabeça fica separado, dei um sorriso e fiz sinal com o dedo na boca pra ficar quietinha. larguei meu corpo de volta na cama, precisava dormir, mas tinha medo de encerrar a conversa com avóinha do jeito errado. queria que ela voltasse

Eu rezo para não perder o mando do meu pensamento.

Rezá é bão, dá conforto e esperança, mais é preciso praticá entendimento, enfrentá a burrice. Praticá amô na casa e lá fora... mostrá amô de vivê com amô.

concordei, sempre concordo. repeti que precisava dormir e revirei-me na cama. ela foi mais um tempinho conversando, parecia contando alguma história de dormir. eu continuava deitado no colo da avóinha, ela enfiava os dedos nos meus cabelos até me adormecer. o sono chegava rápido. rezava e cantava. tinha histórias de contar lindas que mais se pareciam com rezas e cantorias. terminou bem na hora marcada de levantar, Acorda, moleque... é hora de desaninhá!

o mais difícil de fazer era sair dos abraços da cama. tirar o meu corpo entorpecido do ninho quentinho. abrir os olhos para os assuntos do tiuzin Batata. na hora de levantar, as vistas estavam grudadas e dormentes, inchadas com a vontade de dormir. o sono tem um apetite que precisa ser saciado. não gosto de ficar esfomeado de sono, Fumaça!

pulei da cama. esse grito não foi do tiuzin Batata, mas da tiazin Vanda que não tinha o costume de deixar os assuntos do seu interesse sem resposta. pelo tamanho do chamamento, tava claro que continuava sem motivo de alegria com a minha desobediência. não aceitava o tamanho da importância e atenção que eu dava à Viação Anônima e nenhuma para a escola, Não esquece a escovação dos dentes, precisa fazer brilhá, resmunguei qualquer coisa e revirei para o outro lado, tava todo encolhido

— Fumaça!

esse é o tiuzin com o seu toque de corneteiro no quartel. convocação no volume mais alto. não tinha jeito de não escutar e obedecer. o susto levantou primeiro, bem depois foi a vez do fantasminha do corpo. o último que se desafiou sair das cobertas foi o hálito do meu espírito. chegamos juntos no tempo de reunião no quarto higiênico. um anão sonâmbulo. água fria. café preto, forte e amargo. o gorro. calça de brim. botina militar. casaco de lona por cima de tudo, Estou pronto, tiuzin, no bolso da camisa azul guardava a guia da roleta do 69, a outra levava no pescoço. jamais tirei.

saímos.

eu galopava ao lado do tiuzin, dois passos meus e um dele, enquanto a madrugada amanhecia desembestada. até que ele reduziu a fome e o feitio de comer o caminho das ruas. cada caminhada se parecia com a mordida no pão, uma necessidade da vida chegar ao seu destino. parou o chão da estrada, Por que parou, tiuzin? Estamos perto...

Fumaça, antes de cada um ir pro seu canto, quero avisá que vô puxá o corujão, a estrada embaixo da botina continuava parada. o corujão é o último horário da madrugada. o horário que recolhe todos e depois se recolhe

Por que, tiuzin?

ele virou o nariz de batata e me ficou de frente. os olhos de um nas vistas do outro. vi que o tiuzin experimentou o gosto do dinheiro e não tinha intenção de queimar aquela esperança de ganhar uma lasquinha a mais, Mais hora, mais dinheiro...

a assombração do dinheiro come tudo e todos, tem uma fome descontrolada. come a vida, depois lambe os beiços. o apetite não diminui, então com os dedos lambuzados de sangue e carne, chupa os ossos da carcaça, um a um, até não restar mais nada que comer os próprios dedos, já sem gosto de ossos, sem sabor de carnes. é quando o apetite da cobiça descobre que comer a vida não lhe dá vida, dá de ombros e segue se lambuzando

olhei para o lado, avóinha não desgrudava os olhos do tiuzin, tinha o olhar mais doce e triste que jamais fez. o filho mais novo, o último descuido do estertor da paixão sendo comido pelo dinheiro do patrão, É bem assim, neinho. Ocê nunca tem o dinheiro, ele é qui tem ocê, olhei avóinha com olhar de reprovação

Vavó faz parecer que viver é uma ilusão.

ela desgrudou os olhos do tiuzin e me fez o mesmo olhar, olhar de remédio amargo, Quem num tem modo de suportá o ilusório qui é a vida... — fez pausa de suspense e seriedade — ... esconde a vida no dinheiro.

fechei os olhos e pedi que a assombração da avóinha pudesse desaparecer dali, não era uma boa hora, queria colocar minha atenção no tiuzin, Bobagem, ocê esperá pela hora certa, assim nunca faz nada. Fica sempre esperando a hora certa.

Falar é mais fácil que fazer. A sabedoria da avóinha esperou avóinha morrer pra aparecer, pensei que tinha ultrapassado algum limite do que se deve dizer ou não deve deixar sair da boca, no caso de manter conversa de vivo com aparição do espírito. e se não tem espírito? eu fiquei louco? anão, preto e louco

Ocê sabe?

fiquei em silêncio, não quero endoidecer de vez, nada de respostas ou perguntas com gente que não é mais gente, não é mais deste mundo. não respondi. ela voltou a perguntar. insisti no silêncio. não vou responder, Siocê num responde, num sabe.

lá tava a avóinha com o palheiro nos dedos. não vi ela preparar o fumo nem acender a palha. puxava o fumo e me assoprava, O que eu não sei, avóinha?

resolvi perguntar antes de me afogar naquela assopração de fumaça

Ocê sabe quem acerta a hora certa do zanzo da vida?

não sabia. queria poder dizer que o relojoeiro do mundo é Deus, não acredito num único relojoeiro, mas posso aceitar que existem muitos relojoeiros, Sabia qui ocê num sabia.

— E avóinha sabe?

ela continuou com os joelhos dobrados, agachada ali, entre o filho e o neto, jogando a tragada do fumo naquela bruma que me envolvia num abraço de mistério e intenções, O neinho diz qui num é hora da assombração aparecê, pode sê ou pode num sê, então... pode sê, essa conversa continua na hora mais certa.



___________________________

Leia também:


sempre chega a vez de sentá pra conversá
Ensaio 01cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Sô a favô de vendê, pegá no dinheiro e cuidá de vivê
Ensaio 02cp - 2ª edição 1ª reimpressão 

é mais fácil não tê alguma coisa qui tê
Ensaio 03cp – 2ª edição 1ª reimpressão

Quero ocê, até depois qui a vida se acabá
Ensaio 04cp - 2ª edição 1ª reimpressão 

Ele não é bicho, neinho. É mifio!
Ensaio 05cp - 2ª edição 1ª reimpressão
 
A cavalaria está saindo!
Ensio 06cp - 2ª edição 1 reimpressão 

Neinho, fazê o desamô é uma escolha... o ódio é um gosto
Ensaio 07cp - 2ª edição 1ª reimpressão 
 
João Torto do 69!
Ensaio 09cp – 2ª edição 1ª reimpressão