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quarta-feira, 29 de junho de 2022

histórias davóinha: Josino (II7jB - uma deliciosa maldição)

Josino: II - as contas da lua

uma deliciosa maldição
Ensaio 7jB – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar


num tinha como sabê antes, num era astuta, num era traçôera, era uma muié regrada qui apoia o esposo pela vida ajustada e aprumada quié assanhada pra ela, num vê dilema nem mistério, Atrevimento? Alforria? Emancipação? Gritaria? Poupe-me das suas palavras de uma soltura que não existe. Posso até ter vontade de dar cambalhotas, mas não vou dar as tais cambalhotas e reviravoltas. Não preciso de mais quiproquós em minha vida nem quero minhas panelas destapadas. Eu fico à pé se o cavalo me desmonta e dispara. Não, eu não preciso desamarrotar o pescoço para ver quem ganha na cancha reta: o dono da melhor montaria com o melhor montador, essas conversa da siá casta nela mesma num era de pingo em pingo, mais tumbém num era munta em abundância, desmontada e à pé só vai me restar o entrevero do disse que não disse, a fofoca desmedida, a desarrumação das cabeçadas se juntando para os comentários alvoroçados, anotações verbais, apostilas imaginativas das coisas que fiz ou deixei de fazer, Corcoveou e berrou como uma montaria furiosa, mas no fim, e ao cabo de tudo, acabou a festa sem eira nem beira, Essa jogou tudo fora e ficou sem nada, uma mão à frente e a outra atrás, E olhando bem, sem muita coisa para tapar, A sinhá deveria ter sido mais leal e resmungado menos, desviado o nariz para o lado, homem é homem, Uma esposa paciente e trabalhadora sabe agradar o marido, Essa fez tudo certo para agarrar-se no osso e esqueceu de lamber as feridas, Bobinha, não fez o que deveria, Uma mulherzinha ressentida e amarga que mal disfarça o veneno.

a siá tinha convencimento quia casa grande era seu reduto pra fugí dotra vida mais trabalhosa, encurralada entre a mataria e algum reduto sem conforto, num era muié das maloca, Quem vai me condenar? Eu me resumo assim, me aquieto sim, caso contrário, não sirvo para a incumbência, e se fico à pé – desmontada, fora de lugar –, os detalhes do caso consumado descem as curvas daquela boiada do marido, as palavras repetidas e reforçadas até o cansaço, sem dó ou piedade. Um teatro de difamação que se replica e rediz e seduz e bloqueia, sitia, cerca, encurrala com insistência e pertinência, perseguição da manada. Nem bem longe – muito menos, por perto –, conseguiria arrumar a vida desarrumada. Não, não quero perder os privilégios da prosperidade nem as suas aparências, a siá da pintura descolorindo pendurada na parede num abre mão dos braço, suô e sangue pretu na casa grande, É muita tarefa suja, desqualificada e pesada no casarão. Não tenho preparamento físico, tampouco, quero essa desgraça toda para minha vida. Isso é serviço para essa selvageria, num dá importância prusufruto duma ou dotra miúda na conta dusiô clementi, sentiu vontade de soltá um grito aflautado de muié, Isso é serviço de mucama, cozinheira, jardineira e ama-de-leite, colocô as mão na cintura fina e tentô se jogá prum lado e otro, que vergonha ter o corpo ritmando com esses balanceios desavergonhados, e tentô mais duma veiz sem conseguí, esse gingado todo é coisa-do-demônio! Não mesmo! Esse gingado não é meu! Não é conveniente nem cogitar tal absurdo, uma serventia sem gosto apurado ou fineza. Não quero acabar escondida no fundo de uma maloca. Meu lugar é na primeira fileira na igreja, decidiu ficá calada e quieta dos movimento sem necessidade, sem futuro, resolvida em vivê a vida pra perdurá a espécie dusiô clementi, sem otro uso, sem muntu gosto ou desgosto, numa existência bonançosa, mansa e confiada, descolorando pelos canto do casario, sem susto, numa duração sem presença, um vaso desbotando na villa risonha das vigiação dusiô clementi, um feitio firme, fixo, seguro e mais duro quiu juízo religioso, E se existe um Deus, por certo, apesar de ser um Homem-Deus, vai me fazer viúva antes da viuvez do Clemente.

quanta coisa sem dizê, quanta palavraria sem sê dita, Sem vosmecê não dá, com vosmecê é esquisito a labareda dos desejos, sem levantar os olhos, sem necessidade de mostrar a polpa dos seios, a nascença das pernas, uma conversaria qui num ia tê, num sentia cobiça de chorá, ele num sentia vontade de apalpá, num foi o amô quiquis e guardô prudentru cuas palavra e as vontade, a vida toda longe dotra vida qui pensô tê

Mas que conversa mais sem proveito, sinhá Casta. Vosmecê não precisava se incomodar tanto, é só um divertimento com as aparências do sinhô padre, a voz parecia tê contentamento tramado, não precisava chegar no ponto de me imaginar viúvo. Cada vida tem sua importância que precisa e deve ser respeitada. Isso é assunto que não cabe adivinhação. Não quero me ver de um jeito ou de outro, não é acontecimento para se ficar comentando. É algo tão estranho pensar na casa sem vosmecê, se parô cuas vista na siá e proclamô sua sinceridade, Aqui, a sinhá Casta tem seu trono e a sua corte. Entre estas paredes, abriu abriu os braço e as mão, girando todo pela cafeteria, todas estão sob às suas ordens.

siá casta tava na vontade pra abreviá aquela conversa sem rumo sobre quem vai fingí chorá antes ou depois, sobre quem mandá muntu ou quase nada, usiô lhe oiô com feitio cansado, como se tê razão fosse uma trama enfadonha pra entendê e mostrá

Sinhá Casta, chamô e si parô na falação, pareceu pensá meió as palavra pra sê usada, gostava do uso desse costume manhoso nas coisa de dizê e num dizê, negá sem afiançá, mostrá e disfarçá, depois do propósito alcançado a língua dusiô clementi destravô mansa e astuta, tudo tem um valor de merecimento ou castigo.

Tudo, meu marido?

a vida no casarão parô enquanto usiô aprumava as bombacha na cintura do umbigo, encumpridô a respiração, alargando pra frente as curva gordurenta da ponta das costela, depois se soltô da respiração presa, num só pareceu como tava medindo as intenção escondida no indagativo da siá

Tudo, respondeu cuseu feitio mais estranho das desconfiança, tudo tem seu valor de preço, sinhá Casta, reafirmô já parecendo se queixá da desafobação madorrenta do clareamento, inda qui sol e dia tá só abancando

Até o casamento, pruguntô a siá pru cima da gritaria daquele respiro folgado e grosso

usiô soltô sem susto as bombacha no alinhamento da saliência do umbigo rendido e acorrentô as mão nas costa, gostava ditê conversa cuas mão escondida, num colocô as vista na siá, cuos passo sem pressa e afobação fugiu das vista da siá, num queira sê oiado desalinhado da boca e dusóio

A vida, sinhá Casta, tem rua reta e curva, subidas e descidas com calçamento ou sem calçamento, casa bonita e maloca, barco à vapor, teatro, uqui falava num era uqui usóio contava, a voz adoçada num combinava cua frieza das vista, e tem, também, muita inveja que vem dos becos com suas ruazinhas estreitas, casas feias, senzalas, negros achatados de nariz torcido, metidos nos azeites desejando a brancura que nunca terão, dava volta e revirava as volta inté respondê sem respondê, espreitava cada palavra aprisionada na cabeça antes da soltura sem entusiasmo, ele se ressoava grave e potente com porte de dono de tudo, mas a despeito de tudo isso, a vida precisa ser tomada a força pelos homens de bem, cônscios de seus deveres e preocupação com a família, a villa risonha e amada, e Deus acima de tudo. E sim, é assim que as mulheres enchem nossas vidas com seu capricho esmerado, só mulheres recatadas e do lar sabem abençoar à vida com os filhos que os homens se preocupam em cuidar e manter, parô o próprio esvaziamento, achô qui se aborreceu de si tumbém, levantava o relho e batia, empinado oiava pra preta miúda descalça, vestindo uma gandola intêra, vendo por trás do pano grosso de algodão um corpo miúdo bunitu, a anca redonda abalando suas vontade, sitiava, cercava, encurralava cua insistência e pertinência, fazia da perseguição seu deleite, preparando festas, saraus, recitais de poesia, o que mais haveria de querer de vosmecê? Saraus com cantos e pianos? Não seriam novidade, prefiro seus doces e licores que são bem falados, verdade que não danço valsas e minuetos com muita graça e beleza, mas a sinhá também não sabe ter conversas sem importância e sem preocupação, soltô uma risada volumosa, mas não se preocupe, vosmecê está segura nas suas tarefas de maior importância. Não existe tarefa mais sublime que a mãe ensinar as filhas como serem esposas esforçadas, dedicadas e mães cuidadosas, parô desembestado com aquela soltura arrebatada, precisava respirá, voltá pruseu costume pausado e enrolado cheio de amargura, cobiça, olho gordo e frustramento

usdois inté podia parecê qui tava desacompanhado, apartados disê escutado, mais num tava, a porta inté podia parecê fechada, mais num tava, e pra modo de clareá esse assunto, ditê ou num tê bisbilhotice, usdois num dava importância quius pretu escutava atráis das porta, num ia fazê diferença sabê antes ou depois ou num sabê, pru siô clementi num tinha valô eles sabê ou num sabê, tanto podia tá atráis ou na frente da porta, cuos pé firme feito duas estaca fincada nas carne da terra, ele sabia qui tudo dito chegava na cozinha, falava pra sê escutado, entendido e passado pra diante

E sim, minha senhora, até o casamento tem seu valor de merecimento ou castigo. E claro, fez a parada do contentamento tramado, usava e desabusava desse costume manhoso nas coisa de dizê e num dizê, é preciso que seja vantajoso para não se tornar um castigo, uma tortura. No fim, e ao cabo de tudo, é o casamento que faz da mocinha a esposa e a mãe... pela vida afora. E do rapaz, parô a falação e colocô as vista na siá, cuos passo sem pressa,  sem afobação, se espera do rapaz, sabia qui o eco das palavra se repetia na cabeça da siá, se espera do rapaz um homem que se encharca com os aborrecimentos e desapontamentos das responsabilidades pelo sustento da vida e do casamento. Ser dono de tudo é uma deliciosa e divina maldição para o bem de todos, achô qui se aborreceu de si tumbém, levantava o relho e batia, empinado oiava pra preta miúda descalça, vestindo uma gandola intêra, vendo por trás do pano grosso de algodão um corpo pretu miúdo bunitu, a anca redonda abalando suas vontade, sitiava, cercava, encurralava cua sua insistência e pertinência, fazia da perseguição seu deleite preparando festas



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é bão lê tumbém se quisé...

histórias davóinha: Josino (I01j - o beijo da terra)
histórias davóinha: Josino (I02j - a belezura na escuridão estrelada)
histórias davóinha: Josino (I03j - fada ruim)
histórias davóinha: Josino (I04j - quando vai mudá?)
histórias davóinha: Josino (I05j - o fogo nas gota do choro)
histórias davóinha: Josino (I06j - vai chegá das muié preta)
histórias davóinha: Josino (I07j - assopra a lua)
histórias davóinha: Josino (I08j - assopre as estrela, tumbém)
histórias davóinha: Josino (I09j - juro qui lhe mordo)
histórias davóinha: Josino (I10j - mel de Oxum)
histórias davóinha: Josino (I11j - o balanço da rede)
histórias davóinha: Josino (I12j - a lua se rindo)
histórias davóinha: Josino (I13j - Oxum chora)
histórias davóinha: Josino (I14j - uma fugição sem fim)

histórias davóinha: Josino (II1jB - um mundo encardido)
histórias davóinha: Josino (II2jB - obrigações fúnebres)
histórias davóinha: Josino (II3jB - um acaso ou descuido)
histórias davóinha: Josino (II4jB - do demônio...)
histórias davóinha: Josino (II5jB - a carta da alforria)
histórias davóinha: Josino (II6jB - a roupa da viuvez)
histórias davóinha: Josino (II7jB - uma deliciosa maldição)

domingo, 29 de maio de 2022

histórias davóinha: Josino (II6jB - a roupa da viuvez)

Josino: II - as contas da lua

a roupa da viuvez
Ensaio 6jB – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



Uma boa carta de recomendação para uma boa morte, a sinhá Casta não concorda?

usiô gostava de cutucá na onça de tocaia qui espreitava cada canto, cada sombra da casa grande, num lhe importava o tamanho da vara, gostava daquela beleza roliça cuas saliência da cobiça, uma onça religiosa, bondosa e humanitária com seus babado e fitas no vestido

levantô duseu lugá dono de tudo na casa – oiá da cabedêra à mesa lhe importava mais quias conversa com dona casta – e caminhô volta e volta da mesa, as mão pra tráis, uma agarrada notra

siá casta num respondeu, num fez gosto da carta, Isso é um pecado, mais num tinha pra dizê, nada pra fazê contra, só tinha autoridade pra rezá e pedí absolvição, num tinha alegação forte pra tanto desapreço cua retidão das história do acontecido, chamô Gabriela pra limpeza dos sabores da cafeteria

Ocê já pode providenciar a limpeza da mesa.

Sim, siá...

passo de bota pra cá e passo das espora pra lá – as bota subia inté as dobradura das perna, cano de vara longa –, usiô clementi parecia num sabê nem querê sabê dos gosto ou desgosto da siá, relanceô as vista pra Gabriela, a blusa dum branco desbotado sobre a pele negra angustiada e desejada à força, Negra é negra, fez cara de riso pra continuá o ranço das intenção suja, tem muita serventia deitada ou em pé, essa deve chorar, implorar e querer não ter nascido. É preciso agarrar e maltratar, algemada quem sabe... quanto mais assustada melhor... mais tarde, quem sabe... quem sabe...

reclamô a morte bonançosa do Sebastião, parô os passo e deu grito na direção da cozinha

E chega desse queixume! Isso não é velório de gente!

continuava useu divertimento, um brutamente zombetêro, uma autoridade criminosa, dono nos mando e desmando dos costume na casa grande e na senzala, Negra é negra, jogava nos canto ou deitava em cima cua sua perversão, a coação da podridão mal digerida, zombava dos sofrimento fúnebre e das chorumela meio rezada, meio cantada

Mas que aviso mais sem cabimento, sinhô Clemente.

usiô da casa estancô, fincô uspé no chão, num tava costumado se contrariado nem sê desaprovado, falava pra sê escutado, ordenava pra sê atendido, Manda quem pode, obedece quem precisa, e na suas conta isso num ia mudá nem agora nem nunca

O criolo teve uma boa morte... com certeza, mais do que merecia, parô as palavra pra examiná a limpeza da cafeteria, e o guri de parede?

a siá casta num tinha dado na falta do muriquinhu encostado na parede da sala esperando sê chamado pra alcançá copo d’água, descalçá as bota, descarregá pinico – só sai do encosto d parede pra se descarregá, comê e durumí –, um muriquinhu qui num tinha otro muriquinhu afeiçoado nem aliado, num brincava, o dia parado, encostado na parede

Deve estar na comitiva fúnebre...

Depois de encontrado deve ser castigado... não faça essa cara de santa, é desde pequeno que se desentorta o pepino.

O sinhô Clemente ordenou está mandado ser feito, mas na sua bondade e sabedoria não acha um pouco demasiado o negrinho ser castigado? Parece que ele e o Sebastião eram muito chegados.

Já lhe avisei para não se deixar incomodar, negro é negro, nada além disso. A sinhá precisa de pulso forte na medida, sem descuido... e o viúvo... não vem ajudar no tal sofrimento fúnebre?

a siá fez a cruiz do credo e mais num disse, no bem ou no mal ia sê prejudicada, num tinha da audácia qui acompanha os agoniado, agitados pelo desassossego das injustiça, num sentia afetação nem sentia enjoo, só pensava nos bolo, doce e nas próprias cria, tinha e num tinha queixume, é assim quié, foi criada no propósito disê esposa, uma serventia qui exigia lealdade, docilidade e obediência pra toda vida, virá a cara pra otra bofetada, o troco é tê regalia no sustento, mão escravizada prus trabáio sujo e pesado na casa grande, calma e descanso pra rezá as ave-maria prum bão fim dudia, fazê caridade, sem esquecê do amparo do casarão tanto pra friura como pru ardume das quentura, o regalo das vestidura fina, bonita e catita, Rebeldia é mais para perder do que ganhar.

dependia dusiô clementi creditá nela, querê ela na casa, a tocaia das palavra espreitava em cada canto, custava mais falá qui ficá calada, useu destino era num se metê nas afetação e intenção do marido, É assim que é o casamento: uma cancha reta, e nada disse nem duma ou duas qui otra palavra

Fale, sinhá Casta... o padre não lhe parece um viúvo vestido todo de preto?

num ia aceitá provocação, achô quié meió o caso hoje disê mais bondosa qui já era, muntu cautelosa, encostada no sol da manhã, usô da comiseração nas palavra

E se por acaso, que Deus acima de tudo e dono de tudo na terra não me ouça, o sinhô ficar viúvo com o meu finamento? O sinhô Clemente vai usar a roupa da viuvez?

num tinha certeza se pra fugí duma armadilha num tinha caído notra



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histórias davóinha: Josino (II7jB - uma deliciosa maldição)

domingo, 15 de maio de 2022

histórias davóinha: Josino (II5jB - a carta da alforria)

Josino: II - as contas da lua

a carta da alforria
Ensaio 5jB – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



O que se passa, sinhô Clemente?

siá casta reparô quiusiô clementi num tava mesmo diantes, parecia fugitivo agoniado morgulento, parecia quia vida limpinha nas claridade dudia tinha dado lugá prum feitiço maldiçoado e gorento, dava pra vê quiusiô clementi tava encimesmado daquele medo quase solto da barriga pras perna, parecia tinha firmeza quia morte do sebastião dava interesse no padecimento dusiô clementi, Não entendo essa avareza do Clemente, esse negro morto sozinho, sem testemunha, já está desencadeando estranheza e afoiteza na fazenda. Por que não se livrar logo com as incumbências de sempre e dar o destino que deve ser dado? Por que não mostrar um pouco de astúcia? Espero que isso tudo não nos traga doenças nem maldição.

Nada, Casta, fez otra folga nas palavra dita, num tava conseguindo firmá dureza na soada das coisa dita, o amargo na boca fedia chorume apodrecido, estou um pouco ansioso pelo café, mas logo passa...

Sinhô Clemente, a rotina da casa está toda alterada. As negras todas com cara de mortuário, contrariadas, lacrimejando, suplicando, alarmadas com o inusitado, uma morte silenciosa e solitária.

Chega, sinhá... chega! Quero tomar o meu café em paz... pode ser?

a trovoada pareceu se mostrá, siá casta respirô aliviada, o medo provisório tinha acabado, O Clemente recuperou o seu próprio juízo, a validade da sua razão que nos guia e sustenta, chegava da cozinha o sabô imaginativo da quentura do café

Pelo aroma delicioso.... huuuummmm... o café está vindo.

A sinhá trouxe o papel e a tinta?

Está tudo aqui, apontô pra caixa de madêra qui colocô na mesa, o sinhô está sentindo o aroma esparramando na casa?

o marido fungô mais forte, depois fez jeito sonolento qui num tava dando importância

O café é mais gostoso no prazer do aroma que no gosto, lembrô qui já muriquinhu gostava ditá entre as preta na fervura do café, não tem fervura que elas não saibam fazer com gosto ou desgosto, num disse, na continuação das palavra solta na mesa, qui esse tempo de muriquinhu era as lembrança qui gostava ditê, o amanhecimento, as cantoria, o pão quentinho, o melado, a nata

enquanto usdois matraqueava Gabriela botava na mesa as mistura, os queijo e os pão saindo fumegando das fornada, os aroma se misturava e atiçava as vontade, num conseguia escondê tanto apetite

A sinhá como sempre se esmerando na feitura das refeições.

Obrigado, sinhô Clemente.

Saber mandar é uma arte... comecemos o dia, então...

usdois se oiava duma ponta da mesa inté otro ponto, o café era a ponte

Está chegando na Villa uma leva de negros, é coisa para amanhã ou depois. Espero me dar bem na escolha e no negócio. É sempre um risco, às vezes, fazemos uma boa escolha, mas o preço da arroba não é interessante; outras vezes, o empreendimento não vale o preço. É um jogo interessante, mas todos na Villa, no fundo, sabem que não têm virtudes e acabam escravos.

a piquinina villa crescia pelo boi e pelo braço escravizado

Gosto daqui, sinhô Clemente. Andar pelas nossas terras no sol do verão, olhar as belezas da natureza, o nosso Paraíso, um lugar para viver sem chorar.

Uma natureza sem igual, sinhá Casta, oiô provocativo pra esposa, colocô a caneca de porcelana na mesa, aproximô uqui deu da mesa, a sinhá Casta não gostaria de ir também? O passeio lhe faria bem...

a dona da casa e o dono de tudo se oiô sem mais falá, ela sentia as batida no peito ficá apressada quanto mais segurava a euforia, ele sorria, usdois encabulado no convencimento deles mesmo

Acho bastante interessante...

A sinhá Casta se dedica unicamente a esta casa – que vai indo bem, graças ao seu tino entusiasmado para dona da casa –, tava acalourado como dono de tudo, desenfermado cua sua voz grave e potente, otra veiz uma voz respeitável e fingidamente sincera, vosmecê merece esse passeio.

dona casta oiô pela porta a entrada das claridade, o sino da igreja bordando o vozerio nas rua, o cochêro empinado levantava o relho e batia na anca do cavalo negro, o véu à cabeça, a villa formiguenta de gente, um rosário, as mão no colo, as piedade, a igreja

Podemos visitar a construção das Dores?

É claro. Podemos, sim. Mas, por agora, vamos à carta...

Mas, Clemente...

Por favor, sinhá Casta. É assunto vencido. Não quero a maculação da fazenda com as carnes do criolo. E não se trata apenas do lugar do buraco. Já lhe expliquei, que a Irmandade dos Pretos Forros se encarregue das despesas do ritual fúnebre, do sofrimento da morte, do enterramento, e sei lá mais o que vão inventar.

Sinhô Clemente, as rezas...

Não adiantam de nada... criolo não ressuscita! Chega!

Mas a igreja...

Pois fale com o urubu-viúvo, mas acho que o depositário, na volta do campanário da freguesia, está com os dias contados – ou as mortes, ahahahah! –, soltô sua risada mais forte, tinha muntas risada, uma pra cada apuro, as pessoas de bem e melhor esclarecidas estão reclamando dos odores e gases que os defuntos liberam. As moças precisam dos seus lencinhos perfumados nas domingueiras. Mas não é só isso... não é só negócio. Em todo o Império brasileiro, está se discutindo esses sepultamentos no centro das vilas e o risco de infecções e epidemias. Então, essa importunice ao nariz é arriscada a boa saúde.

Que horror! Coitados dos nossos mortos...

Ahahahah! A sinhá fala como se não fosse virar uma morta! Dessa ninguém escapa...

siá casta bate trêis veiz na mesa, ela qué se apartá daquela desgraça agourenta do siô clementi, as batida na mesa parece dá mais conforto, a imaginação empurra ou tira do medo

O sinhô fala com jeito sem respeito pelos mortos. Coitados... cuidar com dignidade do corpo morto é proteger o espírito na salvação.

Não tem lugar na Villa pra milagres, sinhá Casta. Morto não tem o que reclamar. Morreu... acabou, a fila anda. Quero ver o urubu-viúvo se virar sem as esmolas dos mortos.

sabia qui devia obediência ao esposo, vivia bem alimentada, abrigada com conforto do frio e das chuva, mais num aceitava diminuí sua crença no deus acima de tudo

Esmolas?

a casa se acordava no tempo dela, num adiantava os movimento lá fora, precisava dos movimento prudentro, as janela aberta, a cozinha do fogão zunindo cuas lenha, as panela esfregada, o chão varrido, as cama arrumada, os pinico esvaziado, o telhado morno, a geada derretida, o café servido, siá casta precisava do próprio do tempo   

Ah, minha Santa Casta... e a sinhá acredita que sepultamento em lugar de prestígio é de graça? A morte não iguala desiguais. A sinhá já visitou o cemitério da Santa Cúria da Villa? Os mortos de prestígio estão enfiados, lado a lado, no intramuros da igreja. É errado? Não acho, afinal, sempre foi assim: vivos, mortos de prestígio e santos... reunidos. Mas vai mudar, pode anotar no seu caderninho, e vai ter luta porque os sobreviventes continuam atrás da boa morte.

Não é uma coisa boa esquecer dos nossos mortos...

Sinhá Casta, essa tal boa morte já virou um bom negócio: o lugar do sepultamento, a condução fúnebre, o cortejo, os cortinados, os cavalos, os cocheiros, as velas, os caixões, o vestuário, as reformas, os consertos, as tochas, tudo é pago, tudo tem seus custos. Um negócio que interessa mais aos vivos que aos mortos, a sinhá não concorda?

A memória não interessa só aos mortos, os vivos não querem esquecer nem serem esquecidos.

Então, que construam seus buracos...

siá casta procurava um refúgio sem careta, silêncio e mau-humô, a casa tava agitada como já tinha dito quia ficá, Seja feita a vontade de Deus. Não vejo pecado em sonhar com uma vida de sol bem no alto, céu limpinho, sem trovoada, sem medo da escuridão, uma vida protegida. E uma boa morte...

Sinhá Casta, me responda, por favor... existe alguma razão para gastar – qualquer recurso que seja – no sumiço do criolo?

esperô a resposta qui num chegô

Foi o que pensei, é simples assim, depois que fechar o buraco... ele nunca existiu. Ninguém vai lembrar, ninguém vai saber, nunca existiu. A reposição vai chegar e a vida continuar. Então, chega de desvios, vamos à carta, amassava o pão na boca, depois o café ajudava engolí, pegue o papel e a tinta...

“Antônio Clemente, na fazenda de sua propriedade, nos arredores norte da Villa Risonha, faz ver ao Tabelião José Ozório Farias, que aos dias 21 de julho, sebastião, negro ioruba sudanês, também podendo ser negro benguela, apesar das diferenças de um e outro, é forro por mim livrado de toda servidão até o dia da sua morte. Mas se depois de forro cometer contra mim – ou meus parentes – alguma ingratidão poderei revogar a liberdade que dei a esse liberto e reduzí-lo a servidão em que antes estava. As causas que nomeio para revogar essa carta são as seguintes: 1. a primeira causa é se o negro alforriado disser, quer em minha presença, quer em minha abstinência, alguma injúria grave sobre mim, perante alguns homens bons. 2. A segunda, e não menos importante, é se me ferir com pau, pedra, ferro, ou qualquer arma branca ou de fogo, bem como, me pôr as suas mãos irosamente com intenção de me injuriar ou desonrar. Não obstante, declaro que a carta foi concedida em atenção aos bons serviços e fidelidade até os dias de hoje. Um negro de doce submissão, inaptidão para a rebeldia e profundo afeto com a família do seu proprietário. Um negro dócil, respeitoso e diligente que não tem parentes. Antes de encerrar, quero agradecer pelos muitos anos de bom trabalho desempenhado pelo alforriado. E salientar que o alforriado não está doente, aleijado, quebrado das virilhas ou sofre com reumatismo, não está cego nem teve algum membro amputado. Sendo assim, a partir de agora que a caridade pública da Irmandade dos Pretos Forros se encarregue dos seus gastos, não só pelo amor à Deus acima de tudo, como possa obter perdão dos seus pecados. Amém.”



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é bão lê tumbém se quisé...

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histórias davóinha: Josino (II1jB - um mundo encardido)
histórias davóinha: Josino (II2jB - obrigações fúnebres)
histórias davóinha: Josino (II3jB - um acaso ou descuido)
histórias davóinha: Josino (II4jB - do demônio...)
histórias davóinha: Josino (II5jB - a carta da alforria)
histórias davóinha: Josino (II6jB - a roupa da viuvez)

domingo, 8 de maio de 2022

histórias davóinha: Josino (II4jB - ... do demônio...)

Josino: II - as contas da lua

do demônio...
Ensaio 4jB – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



siá casta levantô pra vê uqui passava cua fervura qui num era aprontada, logo o marido ia lembrá o café qui num chegava, ia gritá pelo quebra-fome, num gostava diusá nem escutá grito, Grito é recurso para usar como a noite usa a lua: se usar demais perde importância, não resolve esmorecimento nem a falta de vontade da negrada, no modo divê da siá, a gritaria diminuí a força de quem grita e faz avolumar o desalento, deu dois passo junto cuos pensamento, lembrô didizê pruqui tava saindo

Vou ver a razão para tanta demora, depois dudois passo dado estancô pra pruguntá, E como... e quando... sinhô marido...

E como e quando o quê, sinhá?

A reposição do negro...

usiô clementi subiu a quêxada e desviô usóio pra siá, num respondeu já, num dava importância logo pra siá, dêxava a fervura subí devagá, num tava desmoderado nem desenfreado, oiô oiô e oiô, a quentura demorava levanta a fervura, Por que eu tenho essa vontade da Casta quando a sinhá está assim, balanceava aquele pensamento desarranjado, desaprumado da hora e do lugá, a vida não é para amador. É um tabuleiro de xadrez, pertô e desapertô as mão

Logo... logo... a sinhá nunca mostrou interesse pelos negros que não são da casa. Isso é novidade, abriu a boca pra continuá, mais achô meió embuchá as palavra, mudô o assunto, não esqueça a carta da alforria do sebastião.

a siá fez jeito de negação, tentô refutá a tarefa recebida, num quiria dizê do desconforto qui tava sentindo cua incumbência, num achava justeza nesta alforria

Mas... Clemente...

usiô clementi levantô a mão aberta, baixô a quêxada e fechô usóio, parecia medí as palavra enquanto balanceava a cabeça, A obediência pelo medo é uma covardia que precisa ser plantada dia-a-dia, sinhá Casta, às vezes aos gritos, outras vezes com a suavidade do convencimento. O segredo está em saber dosar entre um grito, um castigo mais forte ou duas ou três ameaças. Não é uma tarefa cem por cento segura. Não é raro, e chega a ser um desafio interessante, quando algum criolo indeciso e arrogante precisa sofrer na carne as consequências da sua desobediência. É preciso mostrar quem manda, é preciso dar exemplos, a voz sisuda e forte saiu como um soco pra ajudá no convencimento, num foi pra derrubá, foi pra empurrá pru canto escuro qui só faz aumentá as dúvida e o medo do patrão

Chega! Isso é assunto decidido. Não vamos perder tempo. Vou resumir para a sinhá entender: economizando nas obrigações fúnebres recupero parte dos impostos pagos pelo negro morto, assim, juntando daqui e dali, a sinhá tem mais para fazer uso na casa, na sinhá mesma, nas crianças... satisfeita?

É tanto assim?

usiô clementi viu quia siá casta tava mesmo aturdida, num sabia as miudeza da comodidade na vida qui tinha

Não é só pela quantia usada para comprar ou colocar o criolo no buraco, é também o prazer de enganar essa gente governista e indecente! Sanguessugas! Não trabalham! Vivem do meu trabalho! Só aparecem quando têm algum interesse em vista!

as cara qui fazia era toda inchada, a garganta desembuchava, a boca cuspia os grito qui tinha sangue, só faltava a cachaça, usiô lembrô qui era hora do café, mais foi siá qui gritô

E o café, gabriela! Negrada do demônio, a casa estremeceu 

ninguém lembrava quanto tempo fez da siá soltá grito e palavra injuriosa

Isso, sinhá... muito bem! A casa é sua preocupação, o café é o seu dever. A família acima de todos e Deus acima de tudo! O restante das preocupações deixe comigo. A sinhá cuida dos enfeites da casa e eu cuido dos patacões e cruzados de prata, os pensamento vibrava nusiô clementi, sentia vontade de levantá o relho e batê as ponta nas carne preta, não tem criolo que vale mais que um tostão dos seus pensamentos de preocupação.

usdois oiava um notro, fazia tempo qui num oiava assim um notro, com tolerância e vontade e bondade

Acho que vou ter que ir até a cozinha...

E aproveite para providenciar papel e tinta, depois do café quero a carta da alforria do defunto fresco. Pense coisa boa, o sebastião vai para o buraco como um criolo livre e feliz, a risada qui deu num era pra brincá, faça com data de trasanteontem que me encarrego do resto com o tabelião Ozório.

uma selvageria inocente e necessária prus costume dusiô clementi, Com decência não se acumula riqueza, o sol começa invadí o avarandado e o alpendre, as sombra da mata inda tava espichada, a luz fraca brincava prudentro da casa, se viu no pesadelo ditê qui fechá usóio do Sebastião, esburacá a terra no mesmo tempo quia senzala cantava e dançava e batucava, Sebastião se chega mais perto, os passo miúdo, arrastado, usóio quase fechado, a carapinha branca como neve emboladinha, as batida duspé arrastando, a cantoria na senzala, uspé nas corrente, os requebro, as língua dusespritu gemendo, a música desembestada, usiô clementi agitado, ele senti fedô no gosto, Enxofre! Não quero nenhum enterramento de criolo dentro da fazenda, sonho e pesadelo, as batida continua desembestada, nenhum corpo presente, nenhuma consideração, sem os cuidados e respeito, matem os criolos, ninguém parece querê ajuntá Sebastião, Alguém leve esse criolo! No cemitério da família só desce à terra carne branca, quem tem alma, honra, importância e os dobermann, só então, ele sivê na cova rasa, Tirem-me daqui! Buraco errado! Esse é o lugar do sebastião, tirem-me daqui! Não é hora e lugar! Estou avisando! Aqui quem manda sou eu!

Pronto, aqui está o papel, pena e tinta... o que foi sinhô Clemente? Parece que viu um fantasma...

uspé dusiô clementi tava ensopado, ele num suava nas mão, mijava nuspé, oiô siá casta, a muié carregava um rosário entre os dedo, atráis a preta descalça, tinha chegado hora da extremunção

siá casta sentiu um calfrio quando oiô pra tráis

O que foi, gabriela?

Posso serví o café?

Sim. Chega de atrasos.

usiô clementi continua sem dizê e sem escutá, moiando uspé, murmurando pelos dentí, Negrada do demônio... criolo metido...




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é bão lê tumbém se quisé...

histórias davóinha: Josino (I01j - o beijo da terra)
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histórias davóinha: Josino (I03j - fada ruim)
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domingo, 1 de maio de 2022

histórias davóinha: Josino (II3jB - um acaso ou descuido)

Josino: II - as contas da lua

um acaso ou descuio
Ensaio 3jB – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



E o café do sinhô Clemente, gabriela?

a muié nova, perfilada atráis da siá casta, vestido do linho branco num tão grosso, os cabelo dentro do turbante tumbém branco, as mão colocada nada facêra, sem balanceá, nos lado do corpo todo retesado, a nervura esfregando os dedo, Milagres já colocô fervura no leite.

um suspiro de impaciência anunciô entrada dusiô clemente na conversa

Espero que não seja o mesmo leite que as mãos do morto apertou, a preta ficô mais retesada cuas palavra dusiô clementi, num tava costumada recebê tenção dusiô patrão

Responda para o sinhô Clemente, gabriela... num conseguia soltá as palavra, precisô pertá mais as mão – como se fosse dá soco – espremeu uqui pode o gargalo do pescoço, Não siô, o Sebastião não chegô começá lida. O balde tava vazio... e vazio ficô na posição da ordenha. Depois do acontecido, Josino separô otra leiteira, ele mesmo fez ordenha.

usiô clementi soltô uma exclamação da sua estranheza

Ué, o josino já está de volta?

o punho cada veiz mais agarrado, dedo e mão fechado, Sim, siô.

usiô clementi desviô usóio pra siá casta

Essa negra benguela foi uma boa troca, num teve tenção pra fingí nem intento otro qui ensoberbá os próprio tino pra comprá e vendê, a sinhá casta não concorda?

siá casta num respondeu logo, achô meió dispensá osovido da Gabriela da prosa dusdois, quando desapertô as palavra num conseguiu impedí a soltura encimesmada na voz, quiria dizê, mais num disse qui num gostô dusóio do marido emborcado na preta, iqui num deixô divê quias virilha dele parece qui saia nas vista

Por que estás parada feito um pau queimado, gabriela?

a muié duspé descalço respondeu cua voz controlada, Esperando permissão pra saí...

Pois saia... e nos traga o café.

saiu sem fazê ruído espalhafatoso, soltô usdois no silêncio da espera, só dava pra escutá o ringido das tábua

usiô clementi soltô as palavra, falô do assunto sem falá das vontade, num gostava daquele silêncio provocativo, foi logo dizendo uqui a siá já tinha oiado, o assunto tava decorado pra dizê e pra num provocá interesse da siá

Gosto desta criolinha, aprendeu logo nossa língua. A gente entende o que diz. Leva a vida pelo trabalho, sabe quem é e quem não é. Uma coisa importante na vida é saber o seu lugar e aproveitar sem oportunismos. Pena que nem se esforçando vai ficar branca, tinha sombra e frescô na voz dusiô clementi, parecia tá decidindo se botava pra funcioná a metade ruim do desafogo qui trazia nas cabeça, sabia qui tava amarrado nelas mesmo, nas suas meia verdade pras mentira toda, tenho-me por um homem justo. Acredito que 1:300$ pela carta da criola foi um bom preço. A falência do Travassos veio a calhar. Um compra e venda de oportunidades. Desgraça de uns, sorte de outros.

siá casta num tava interessada na repetição da mesma conversa do leilão público e liquidação da casa do travassos, amigo do peito do marido

A luz do sol ainda não chegou, espero que o sinhô providencie tudo o mais ligeiro que possa. Detesto lembrar que temos um morto na fazenda, usdois num parecia querê consertá alguma coisa do casório qui enfraquecia e desavolumava, eles só quiria resistí pra parecê um par de jarro emplumado, alindamento de cristal encasulado nas encenação de finura

Eu sei, sinhá. Na verdade, não é o criolo morto que interessa...

E o que mais interessa mais o sinhô meu marido, siá casta num sabe pruqui teve alento pra espioná as vontade do marido, pode sê qui cobiçô escutá um desabafo de cuidado, uma delicadeza cuseu desassossego

O interessante, sinhá Casta, é a continuação da espécie na fazenda, agora siá casta sabia uqui já sabia, num tinha otra intenção nas palavra, usdois só dormia junto pru gosto do marido cuseu apetite dolorido, minguado, sem gosto e incerto, num sabe lembrá quanto tempo faz quius dois num dormi junto pru gosto dela, o trabalho não pode parar. A vida ou a morte de qualquer negro é só despesa. Não adianta reclamar. É assim, paciência. É imposto, imposto, imposto para tudo! No embarque já tem imposto, quando desce, depois de arrematado, tem mais imposto. O transporte do negro do desembarque até a fazenda paga imposto e se não me agradar do negro e quiser vender pago mais imposto. Eu não entendo, a mercadoria é a mesma. E para coroar toda essa indecência de imposto para isso, imposto para aquilo, depois de morto o negro... aparecem as despesas fúnebres. Hijos de puta! Como posso ser dono do negro morto? Como ter lucro assim? De qualquer maneira, é isso ou fazer o trabalho sujo da negrada. E quem haveria de querer, não é?

siá rosinha tava mais preocupada do morto num cruzá useu caminho mais o batuque no mato e na senzala

As notícias passam de boca em boca com influência nos negros da casa, vou ter um dia cheio com rezas e choros, usiô sacudiu usdois ombro

Eu sei, mas não tem o que fazer. Pelo menos, esse esticou as canelas sozinho. Não se viu diante da face segura e convicta da morte com seu chicote de 5 pontas, parece que teve uma boa morte. Um acaso ou descuido, vai saber...

Essa movimentação me trás preocupação, parece fazer nascer vontade onde não tem.

Não se preocupe à-toa, sinhá Casta. A criolada não tem quer ou não querer. Vida que segue.

O sinhô está seguro disso?

O trabalho perdura e o tempo cura. Logo, faço a necessária reposição.

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é bão lê tumbém se quisé...

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domingo, 24 de abril de 2022

histórias davóinha: Josino (II2jB - obrigações fúnebres)

Josino: II - as contas da lua

obrigações fúnebres
Ensaio 2jB – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



e foi contecendo quia senzala virô terrêro pra resistí, onde espritu pru conforto tem trabáio como sentinela, cuida da semeadura da esperança na luta, espritu num luta corpo a corpo, mais fortalece as vontade e a firmeza pra voadora, pra pernada, pra catimba

a brilhatura num é vencê a covardia, é preciso atrevimento, desaforo e descaramento pra num murchá a cara prudentro enquanto a cara prufora sofre, esse é trabáio pruspritu: fortalecê prudentru

é preciso resistí prudentro pra existí prufora

O viúvo da vestimenta farrusquenta e o fiscalizador lamentoso estão sempre procurando fio de cabelo em ovo, só olham com os olhos da cara, o feitô da obra santa pra siá das dô acordô reclamando, bem antes do café sê formado 

no modo divê dusiô clemente, usdois é intriguento, o siô padre e o fiscalizadô da obra igrejística, A pimenta é sempre melhor quando fica nos olhos dos outros.

gosta ditacá antes disê tacado, provocá antes disê provocado, A melhor defesa sempre foi e será um ataque arrasador.

num ia pará a choradêra reclamatória inté o café tá tomado e uspé na prontidão da saída

o chefe das doação da madêra, usiô padre, o fiscalizadô e o feitô da obra santa num tava no gosto um e dotro, quatro qui parecia num tê entendimento, a cisma é uma trama qui começa nas vaidade e desatenção, as pessoa com corpo é assim, mais nas hora apertada e riscosa fazia ajuntamento um dotro sem munta cerimônia, a mentira dita e repetida um, duas, muntas veiz, encontra ouvido quiqué escutá, ouvido qui gosta despiá no buraco das fechadura, num qué trabalhêra pra pensá, Ouvido penetrado é ouvido convencido, nega a própria vida sofrida, repete – muito ou nada convencido, não importa – que tudo é benção e alegria, mesmo a tristeza.

O urubu preto também não é nenhum inocente... a sinhá Casta sabe o que ele quer?

a siá da casa sentô na frente do marido – notro lado da mesa do café, qui num tava servido –, oiô nôio e pruguntô firme, devota e ressentida

Por que o sinhô meu marido tem tanta implicância com o sinhô padre? Essa impertinência não lhe fica bem, siá casta falava duseu lugá de esposa cismada com a falação desmedida do marido, parecendo querê dizê qui sabia mais duqui tava dizendo ou podia comentá

A sinhá Casta não respondeu...

ficô alvoroçada, o siô da casa parecia pronto pra corcoveá, berrá como um potro véio e brabo – qui já num era mais potro e nem brabo

Não sei, me diga o sinhô.

o escravista torceu o nariz, pareceu ressentido e molestado, As suas palavras mais se parecem com as palavras ressentidas de algum aristocrata pelotense de pomadas, pronto, o desaforo tava fincado no siô clemente qui reagiu aos grito, cuspindo as palavra

Veja bem como me fala!, parô na respiração cortada antes da retomada, Ele quer nos fazer caminhar em direção à morte como cordeirinhos... sem lutar, sem vacilar, gran hijo de puta! Dá mais importância à vida da morte que a vida de cada um.

Ainda bem que o café não está servido... a mesa ficou toda cuspida, siá casta parô a conversa, chamô gabriela

Por que o café do sinhô da casa ainda não foi servido? Não é preciso lembrar que o sinhô Clemente tem os compromissos do dia esperando, o sino da igreja tocava as seis badalada da manhã, a siá casta parô uqui tava dizendo e fez a cruz na testa, na boca e no peito enquanto resmungava as palavra qui num esquecia e ninguém entendia

gabriela, parada na porta qui vem da cozinha do casario, fez as mesma cruz qui foi ensinada fazê, desceu usóio inté uspé descalço, a voz toda atrapaiada pra avisá quia ordenha atrasô

E por que atrasou, quis sabê siá casta

o tamanho da voz da siá num permite dúvida, a escapatória num iasê à-toa, o motivo ia precisá sê bão e afiado, O pretu Sebastião qui fazia ordenha das leiteira...

Já sei, interrompeu o siô clemente, batendo com a mão fechada sobre a mesa, o criolo fugiu para um desses lugares que vocês que chamam de quilombo, a terra prometida. Eu sabia que mais dia, menos dia, esse evento chegaria até aqui. Hijo de puta!

gabriela ficô muda, assim ia ficá inté sê provocada pra falá

Fala, Gabriela! Diga o que aconteceu!

Na verdade, siá Casta, o Sebastião num fugiu...

Meu Deus, Gabriela, fala tudo de uma vez!

... ele morreu durumindo encostado na leitêra... agarrado na teta.

aquilo era tudo, menos uma boa notícia qui qualqué dono de escravizado gostava disabê no começo do amanhecimento

E o que foi feito do negro, usiô clemente tava imaginando uma selvageria, pretu bamboleando em andamento frenético, cuspindo fogo, engolindo cachaça, vozes candongada, tambô estridente, o farfaiá dos gemido penetrante e longo, ai ai ai, diminuindo, ai ai ai, inté virá lamento soluçado e triste, as voz alterada na senzala assustada, o batuque apertava a barriga dusiô clemente, Desgraça desgraça desgraça, a dô, as lombriga, a senzala enjoada, fedorenta, nausabunda, o banzo, as lembrança misturada no desacato das tristeza braba, esse descontentamento não vai sumir tão logo.

gabriela continuava cusóio nuspé descalço enquanto respondia, O Sebastião foi colocado na senzala pra modo da limpeza sê feita.

usiô clemente bateu otra veiz a mão na mesa, mais com força mais branda, levantô a mão pra otra batida e recuô

Limpeza? Por quê? O bicho não morreu dormindo? É preocupação demasiada, a terra vai devorar tudo!

talveiz fosse a natureza disê muié, as terra e as água da vida, ajudava siá casta entendê a saliência das preocupação cua morte

Deixe estar, marido. É bom cuidar do morto.

O criolo morreu sem saber que ia morrer... mamando e agarrado em uma teta, isso é ter sorte!

siá casta levô usóio inté pra cima, pareceu balançá o corpo e os pensamento

Nada é para sempre...

usiô clemente andô pensativo, pra lá e cá, saiu e voltô sem saí

Acho que ainda da tempo de fazer o papel da alforria...

E para quê, marido?

oiava pra longe, quando respondeu

Assim me livro das obrigações fúnebres.




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domingo, 10 de abril de 2022

histórias davóinha: Josino (II1jB - um mundo encardido)

Josino: II - as contas da lua



um mundo encardido
Ensaio 1jB – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



os muxoxo do contentamento, as bobice do amô, os afago, as conversa derramada com gosto, É bão ficá amarrada feito um nó qui num desmancha. Gosto muntu ditu, meu pretu.

josino fechô usóio, pensô otra vida com milagres, a vida podia sê meió, precisava sê meió, tinha qui sê meió, É muntu bão ficá atado nesse nó, dormecê enfiado nas vista e nos braço, sentí o gosto das fôia qui as ventania do amô sonado derrubô.

milagres ajustô meiô as vista, o sangue crescendo e gemendo nas mão, ela inventando um riso forçado, provando do josino, brincando cuseu josino, Ocê abra usóio e me veja.

Tenho medo de abrí e ocê num tá.

Eu tô, siiiiiim.

E se fô só feitiço?

ela lhe garrô com mais força, E feitiço se atraca assim, pruguntô, e chega de ocê anunciando quiqué durumí. Vivê é meió qui sonando, num é? 

Longe ducê só sonando, ele fez de novo, fechô as vista, soltô as corrente, depois abriu usóio qui ria, Assim... abra usóio e me veja, Tô precisando durumí, minha preta, Na pedra duamô num pode dormecê, aprende só soná sem precisá fechá as vista, Dormecê balanceando na pedra é regalo mais qui bão.

voltô atenção pru nó desamarrando, Huuum... parece qui ocê tá sonando, É uqui tô oiando, E uqui tá oiando?

josino desvirô-se na rede de pedra encapada com pasto das fôia solta das ventania cuos gemido e suspiro

milagres lhe soltô das mão

josino aninhô a cabeça no colo perfumado do amô, escutava com atenção a baruiada doce do mato misturada com a falação doce e suave dusdois, o silêncio das estrela, Ocê tá cada veiz mais doce, Ocê despertô nimim a bisbilhotice das carne quiqué vivê, mostrá, vê, dizê... escuitá...

josino desviô as vista do gosto, virô e revirô e virô, procurava as vista da muié, ela num oiava, Ocê num vê nimim, parece qui tá em escapatória.

a boca da noite tava escancarada, a voz da muié avisando com o peito desacalmado, Josino, ocê num precisa pedí pra fazê uqui quero lhe dá, E se ocê num quisé, Ocê vai sabê, é só sabê oiá.

tinha medo das dô do dia qui havia de chegá trazendo o padecimento da cegêra desalmada

Escuta com atenção ...

Levanta!

josino levô otro susto quando arregalô usóio, o primêro assombramento foi com o estalo do chicote

num tava onde queria tá

fez força pra saí daquele sono ruim, milagres lhe avisô pra num durumí, queria acordá e ficá animado ditá na pedra do amô, pediu ajuda pra milagres, queria abrí usóio e desdurumí daquele estorvo muntu ruim

Acorda, nêgo safado!

num era com ele, num podia sê com ele aquela fuzilaria

Sempre querendo dormí mais que a cantoria do galo-rei. Pula da rede, nêguinho preguiçoso!

o chicote estalando na volta dos pretu procurava as carne pra riscá, começá bem o dia, marcando com as força enfuriada das mão a dô qui ensina obedecê, num permite esquecê qui ele manda e desmanda

Negrada preguiçosa tem que dormí no chão frio e duro da pedra, só assim pra ficá sem delonga e frouxidão pra levantá.

o chicote fazendo chão gemê feito gente

josino se acordô – ou entrô diveiz naquele pesadelo –, precisava levantá e arrastá as corrente sem vida daquela trilha de suô e sangue, num tinha pra quem reclamá, esse mundo branco num ia lhe ajudá, um mundo encardido qui num queria só aproveitá, um mundo desavergonhado quiqué serví as carne preta pra sê comida, Onde ocê tá, minha preta, num era prugunta, seu pedido de ajuda num ia sê ajudado, milagres num tinha na senzala – um lugá pra depositá as carne preta escravizada

a siá branca das dô do alto num ia aparecê, ela ficava guardada na guarnização das pedra quius pretu levantava enquanto o chicote estalava




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é bão lê tumbém se quisé...

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sábado, 26 de março de 2022

histórias davóinha: Josino (I14j - uma fugição sem fim)

Josino: I - a aparição da vida



uma fugição sem fim
Ensaio 14jA – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



A doidice e o desatino ditê ocê me abrasa toda, só as mão dumeu pretu amansa tamanha cobiça, milagres encostô toda no josino – dusdedo duspé inté a diantêra da cabeça, as coxa, os pelo, o ressalto crescendo na barriga, os bico arrebitado, a boca carnuda, o nariz achatado, usóio cicatrizando –, continuô segredando, isso diocê nimim é feitiço, só pode sê. Num tem otro jeito diquerê tanto ocê, Num sei sié feitiço, minha preta, só sei quiu apego com encanto num pode sê correntado, vive solto, num tem patrão,,. num tem como correntá curação. Num tem lei qui manda e desmanda pru curação, ela gemeu seu suspiro mais doce, Eu tenho crença nas virtude dotro fazê o amô voltá sê um pedaço da natureza impaciente e inconformado, Maisuqui fazê cuadô correntada em ocê mesmo, Pois eu digo quié um feitiço bão fugí mato pra dentro. Maisagora tenho otra prugunta pra ocê. Posso fazê, milagres subiu usóio inté vê usóio do josino, E ocê vai dêxa ela agarrada no gargalo, riu e pensô qui tava perto e longe da felicidade, Ocê sabe qui num vô guardá, Então, é só pruguntá, E ocê, já apaziguô o cansaço, Huuummm... dêxa eu pensá... essas brincadêra debochada precisa tê descanso, Ocê num cansa, E lá eu quero descanso, meu pretu, Tem veiz quié bão acalmá, respirá e assentá a esfregação, Eu preciso ocê me mexendo, me sacudindo pra espantá a dô, Fazendo assim a dô só desencosta e cochilá, Num importa se a dô volta – e sempre volta –, ocê assusta ela cuasua curagi, mexida e sacudida, Num é curagi, é amô, E fique ocê sabedô: tê amô correntado, é tê munta curagi!

Ocê tá chorando, ela pruguntô, as água quente do josino caia solta dusóio dusdois, salgava as ferida, apaziguava as sudade, meu pretu, um sopro num é só um sopro qui caba logo qui começô, as palavra saia da milagres dolorida, forçada pru frio da solidão e das perseguição, deitô as costa na pedra, Sopro qui se solta tá só querendo vivê as liberdade pelos mato, nas janela aberta dusentroncamento cruzado, ela sabe do risco disê fujona e cabá na pedra dura dos açoite ou na árvore dusenforcado, tem silêncio pra tudo do tempo qui num vai vivê, Josino, escuta eu, mais dia menos dia... mivô... quéi, tumbém?

Vai sê fugição sem fim.

Eu sei...

Uma vida desacomodada pelo tempo qui durá vivê.

Eu sei, desvirô da pedra e colocô a cabeça descansando no peito do josino, mas me diga: pra quem serve essa vida acomodada? Pra quem serve tê o peito marcado pelo suô da escravidão? Josino, óia praeu, alevantô usóio enquanto cariciava as coxa duseu amô, chicote num cansa, estala faminto. Num guento mais as gritaria da vida qui tropeça, cai, levanta e tropeça, geme e chora. Quero rí! Cantá! Quero sê tua, quero ocê meu... quando eu quisé dá e tê.

milagres continuava nua, a pedra continuava moiada

Num quero mais tê tudo examinado e medido, as mão e pé, usóio, boca, língua, denti. Chega! Num quero mais sê o bichinho na jaula. Vô lhe dizê da minha vontade: quero lhe colocá na boca a minha boca, ocê qué?

a moça preta qui num fica espantada, qui ninguém chora nem dá merecimento, faz aliviá a dô do chicote quando ri cua soltura da sua vontade, queria a brincadêra do amô, Quero a barriga crescendo da fome um dotro qui dura mais quia vontade, usdois parecia querê esfolá a pedra do banho cuô vai e vem das carne, as marca do josino e da milagres num ia mais saí da pedra, usispritu das mata fez o josino tá ali, tava feito, tava juntado espritu e corpo

eles sabia da fome da pedra

tumbém sabia quia vida minguada, infame de lanho e cicatriz, num ia desraizáa sem lutá, sem fecundá a terra com as água da vida, Tô cansada desse tanto de sentí falta. Exausta disê sempre assim: acordá sem tu, a rede vazia desse balanceio.

Não quero quêsse feitiço acabe.

Eu vô salvá ocê dudia qui chega. Tá escutando as cantoria do galo?

o nó apertô e folgô, e otra veiz, mais otra, e otra, inté qui desmanchô exausto




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é bão lê tumbém se quisé...

histórias davóinha: Josino (I01j - o beijo da terra)
histórias davóinha: Josino (I02j - a belezura na escuridão estrelada)
histórias davóinha: Josino (I03j - fada ruim)
histórias davóinha: Josino (I04j - quando vai mudá?)
histórias davóinha: Josino (I05j - o fogo nas gota do choro)
histórias davóinha: Josino (I06j - vai chegá das muié preta)
histórias davóinha: Josino (I07j - assopra a lua)
histórias davóinha: Josino (I08j - assopre as estrela, tumbém)
histórias davóinha: Josino (I09j - juro qui lhe mordo)
histórias davóinha: Josino (I10j - mel de Oxum)
histórias davóinha: Josino (I11j - o balanço da rede)
histórias davóinha: Josino (I12j - a lua se rindo)
histórias davóinha: Josino (I13j - Oxum chora)
histórias davóinha: Josino (I14j - uma fugição sem fim)

histórias davóinha: Josino (II1jB - um mundo encardido)

domingo, 19 de setembro de 2021

histórias davóinha: Josino (I13j - Oxum chora)

Josino: I - a aparição da vida



Oxum chora
Ensaio 13jA – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



ele é só queixume com essa vida qui só faz fazê esperá o amô da sua milagres, uma vida qui ele num pediu nem escôieu, uma vida de proibição e confisco da liberdade ditê a vida da sua escôia, tava impedido disê atrevido, corajoso e desejoso, só podia mostrá prusiôinho patrão aquele pretu desambicioso, desapegado, covarde, comedido e amável qui num se rebela das corrente e dos insulto, Chega de queixume, Josino. Isso é coisa qui só faz aumentá o quebranto da cansêra, Eu sei, muié, Então, meu hôme rebelde, usa tua força pra resistí e continuá vivo, faz da vida a nossa luta, Falá é mais fácil qui fazê, muié.

óia, óia e óia pra sua muié milagres, sabe quéla num qué se deixá ficá quebrantada, o desalento num parece lhe alcançá, Josino, vamô ficá qui!

ele num podia sivê, mais se pudesse ia rí do espanto qui mostrô nusóio e soltô na língua, Aqui aonde, muié?

Na mata, aonde mais, a muié num dá só vida, ela ensina uquié vivê da vida dada

Vivê na mata... dois fugido, pruguntô todo desconfiado

Se é assim qui tem qui sê, é assim qui vai sê, respondeu sem tremura, convencida e já encabeçada, tem coisa qui precisa sê feita, num nasce feita.

Pensa meió qui bem, depois qui sumí num tem mais como parecê. Vamô sê fujão pra toda vida. Ocê num tem medo, pruguntô dinovo todo cismado

Tenho, mais é isso, bem assim, vamô tomá o chá do sumiço...

Vivê da mata, é uqui ocê qué, Num é mais uqui eu ou ocê qué, é uqui precisa sê feito. E esse rêgo qui banha as pedra há ditê lambari, bagre, cascudo, é só descobrí, A gente conversa mais depois quieu chegá todo, Num esquece qui ocê é meu sonho, meu tudo, as parede da mata, a luz da lua, o frescô das água, as fruta, num é tempo pra desistí, Tumbém quero uma vida sem lixo, sem fraqueza ou maldade, sem corrente, sem castigo, insulto, ou medo, Meu Josino, a cura vem do amô, credita qui ela vem das fôia, fruto e raiz das erva, tudo tem cura, inté ódio tem cura, basta querê num tê ódio, Eu sinto isso tumbém, odiá é uma escôia, mais tem veiz, Milagres, qui num dá. Tem veiz, munta veiz, qui os quatro éssi deixa o pretu sem escôia, Eu sei, Josino. Mais se alembra qui querê machucá é um maisquerê duseu sagrado qui num entendeu a si mesmo nem a incumbência ditá vivo e viva. Oferecê amô e respeito ensina como aprendê, como vivê sua vida, ensina entendê ocê mesmo, Mais essa gente sem sol, sem sal e sem suô num tem esse sagrado, tumbém?

depois dum suspiro longo e silencioso josino continuô, Eu quero tê mais qui as parede da mata e a cura das erva pra oferecê pra ocê, Isso é ocê qui qué, e eu tumbém posso querê, mais uqui eu mais quero é ocê e eu, eu e ocê, aonde fô, enquanto usdois assunta Oxum assumbia o acalanto da suas canção de mãe, uma brisa leve qui refresca a lua e balança a rede

assopra prus dois qui quem canta reza duas veiz pruqui enquanto alegra e agradece, tumbém chama as força da natureza pra volta da vida e recebe os aviso qui guia os sentimento da criação de Zambi, junto tumbém pede proteção, adiantamento e união dusmais véio diantes

quem pratica a verdadeira humildade e amô encontra o seu sagrado nas vibração das curimba das mata qui dá bençã e protege, o tambô dusvento sacode a cadência das vibração duvivê, as guia das harmonia da ancestralidade vê e senti o congá das mata, a curimba sacode a magia das mata, as fôia balança enquanto os gáio geme

então, Oxum coloca as vista na milagres, depois óia josino, sussurra o acalanto do feitiço pru hôme e pra muié, e chora, tem a dô disabê qui num pode mudá a dança qui provoca o vento da tristeza e do medo, as água transparente cai dusóio e afunda no rio qui esfria e escurece, fica barrento e fedido, as areia vira lôdo com chêro podre, ela promete qui assim vai ficá enquanto a ganância e a escravatura continuá fazê o amô sofrê


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é bão lê tumbém se quisé...

histórias davóinha: Josino (I01j - o beijo da terra)
histórias davóinha: Josino (I02j - a belezura na escuridão estrelada)
histórias davóinha: Josino (I03j - fada ruim)
histórias davóinha: Josino (I04j - quando vai mudá?)
histórias davóinha: Josino (I05j - o fogo nas gota do choro)
histórias davóinha: Josino (I06j - vai chegá das muié preta)
histórias davóinha: Josino (I07j - assopra a lua)
histórias davóinha: Josino (I08j - assopre as estrela, tumbém)
histórias davóinha: Josino (I09j - juro qui lhe mordo)
histórias davóinha: Josino (I10j - mel de Oxum)
histórias davóinha: Josino (I11j - o balanço da rede)
histórias davóinha: Josino (I12j - a lua se rindo)
histórias davóinha: Josino (I13j - Oxum chora)
histórias davóinha: Josino (I14j - uma fugição sem fim)


quinta-feira, 6 de maio de 2021

histórias davóinha: Josino (I12j - a lua se rindo)

Josino: I - a aparição da vida



a lua se rindo
Ensaio 12j – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



e é assim, desaparecido na sua milagres qui josino mais vê quié sofredô da sudade, tem mais no sonho quinas mão, tem mais nas lembrança do gosto quia doçura das água da terra na boca, Oxum se aproxima e lhe sussurra pra num se apressá como principiante, chegô o tempo pra namorá a muié sem afobação e sem medo, fazê o tempo se enroscá sem pressa pra acordá nas perna enraizada do baobá, saboreá o amô na pedra do banho

com as costa na pedra, o homê esfomeado vê sua preta sentá e lhe recebê todo dinovo e dinovo e dinovo, ergue as mão e se enfia nos cabelo enroscado, ela para o balanço de saí e voltá, lhe óia desajuizada, Reclamo da vida o tanto do banzo qui sinto carregá sem vê ocê. Quero de volta o tempo perdido pra sempre sem esse seu amô, meu homê encantado, sem se saí nem deixá josino escapá, ela se chega mais perto pra murmurá, Quero mais...

as vista do homê ficô alagada cuos reclamo da sua milagres, a rede de pedra se estremeceu e parô de balançá, as pedra tava toda moiada daquela suação de juntá e desjuntá, saí e voltá, enfiá e desenfiá, agarrá e soltá, acariciá e chuchá

atráis da milagres ucéu estrelado e alua se rindo

a fúria da ventania foi se passando, mais deixô pra tráis o bafo fresco da vida aquecendo o tontiço da muié e os gemido do homê, ela num parecia tá toda pronta pra durumí, continuava um perigo pras força do josino já preparado pra fechá usóio, ela reclamô, Sê ocê durumí, meu pretu, Num tô durumindo, Pois então, pôe em uso esses pensamento acordado, se ocê num percebeu inda, tô querendo assanhá inté a indecência, Num sei querê otra muié, usdois riu, Ocê tá aprendendo, ela gostava das palavra, mais tinha mais gosto daquelas mão calejada lhe abrindo as porta e janela da sua casa enquanto anunciava pras estrela e pra lua qui adorava sê a montaria daquele gosto tão bão de doce perfumado, o feitiço ditê amô na distância das mão, Sô feita uma árvore qui precisa das ventania do amô derrubando as fôia véia, pra depois vê nascê as nova brotação, a muié sabe quiu sopro do feitiço é um dia de sol, é uma noite de lua, mais tumbém pode virá secura cuá falta da chuva, Num gosto do tempo de sentí sudade sem sabê uqui pode sê, onde pode tá. Num gosto do tempo de esperá a chuva das água do rio descê sem tê onde ficá pra esperá, sem tê onde saí pra buscá. Dói demais...


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é bão lê tumbém se quisé...

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

histórias davóinha: Josino (I11j - o balanço da rede)

Josino: I - a aparição da vida


o balanço da rede
Ensaio 11j – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



ela pedia pra ele perdê o controle da sua natureza desnaturada disê inquietude e medo sem esperança, sofrimento embrulhado no porão do tumbêro na estrada das água, Pra quê, pra quê tudo isso – só assim pra animá a imaginação, voltá sê na rede de pedra cantoria e verso com rima –, ocê é a sua história esparramada na terra pelo vento das mata inté as água doce da sua Oxum. É só entregá ocê mesmo às vontade da vida desamarrada e desembrulhada.

num conseguia disfarçá sua vontade diquerê tudo com perfeição, num podia fugí daquela dança, num queria perdê mais qui já perdeu, queria tudo otra veiz, mais e mais, repetí aquela vontade didá e tê, oferecê e recebê inté a fartura qui num se termina no abraço destravado, queria vivê pra encorajá e reanimá, queria dinovo, dinovo e dinovo, queria dinovo inté ficá desmanchada em água, num ia desistí da vida e num ia esperá uqui vem depois

sentia as mão duseu hôme, o calô duseu abraço, a umidade da língua, a sua carne qui lhe entrava viva e teimosa, sorria de gratidão pra Oxum qui lhe tinha permitido aquele amô arteiro e mimoso, Num aproveitá tanto oferecimento seria uma desestima da vida, Uqui foi, muié, Nada, hôme. Só tava resmungando o meu contentamento.

usdois qui tinha parado de colocá as palavra na boca, usava o silêncio pra fazê milagre sem nehuma ordem, lição ou sermão – essa coisa enjoativa qui precisa ficá ouvindo sem podê falá, sem querê escutá –, apenas se provocando, ele sabia qui aquela muié num precisava sê desafiada, mais gostava disê encantada, Eu sô a tentação do apetite mais a vontade pra comê, Ocê é a pintura das coisa boa da vida, Bobice, meu hôme. Sua preta é as tinta colorida da vida, sem eu num tem pintura, num tem vida. As corrente amarra o corpo – quia brancura leitosa despreza pruqui qué se dona –, mais num acorrenta as vontade de lutá nem tira das lembrança o gosto da imaginação da primêra chuvarada das manga. O hôme e a muié preta junto ou ajuntado é alegria disê o nascimento da vida qui aprendeu sonhá pra num durumí. A certeza disê do povo baobá qui se alevanta nessa terra estrangeira. Nosso quefazê é derretê a dô na escuridão e fazê dela uma otra luta, um otro feitio divivê, uma otra luz.

a muié balançô na rede de pedra, deu balanço no próprio corpo, inté qui josino ficô estufado e num conseguiu mais deixá guardado os gemido qui deixava trancado um dia depois dotro, uma noite depois dotra, escapava baixinho, inté parecia um choro, um arrependimento, Minha preta me perdoa, num foi pressa e num foi descuido, Qui tanto ocê se desculpa, ela fez cara de disfarce da brabeza, depois lhe sorriu com alegria

na rede tava dois corpo sem nó e sem amarra, Num se mexa, Nem quero e nem posso, Fique assim, o céu estrelado atráis do meu hôme esfomeado é munta buniteza divê. Agora, ocê fecha usóio e faz como o guanumbi, beija a flô e bebe da doçura enquanto lhe cuido, Tão bão, Assim, assim, assim tumbém é bão, solta o amô como o vento no meio das fôia e dos ramo.

a ventania tem a sua obrigação e tráis mudança, mais num acaba com a vontade da vida, num deve tê coisa qui sustenta meió a vida quiu balanço da rede




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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

histórias davóinha: Josino (I10j - mel de Oxum)

Josino: I - a aparição da vida

mel de Oxum
Ensaio 10j – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



josino abriu as vista cansada, parecia inté qui num tinha aparição qui pudesse lhe tirá daquele seu quebranto das mão desocupada, duspé descalço, dusóio pesado e durumindo, da boca fechada e língua sossegada, agradado e saciado com o aroma do amô, Num prometo, minha preta... mais num vô adormecê todo, num vô deixá o formigamento duspé subí na cabeça nem o amolecimento das mão tomá conta ditudo. Ocê é linda. A mais bela. A mais bunita das muié. 

a boca mole e adocicada soltava as palavra qui a língua amansada falava, Vô lhe fazê todas vontade.

milagres oiô Oxum com as vista qui só uma muié pode oiá otra, depois se voltô pru seu hôme, as vista enfezada querendo avivá as vontade acomodando, dançava e aproximava uspé descalço com sua dança e o perfume arrebatadô do amô, Ocê num vai se atrevê, meu pretu...

a muié usava cinco lenço transparente preso na cintura, sua saia feita de nada esvoaçava, as trança da cabeça raspada balançava, uspé descalço dançava o vento qui espaiava mais e mais aquele perfume arrebatadô, brincava e cantava, aparecia e desaparecia, os lenço flutuava da cintura, mostrava as carne irresistível da Oxum, Num vô fechá usóio, Acho bão ocê num durumí, pois vô lhe sová com as vista aberta ou fechada. E ocê decide se vai fazê o acompanhamento da alegria divê e lembrá uqui viu ou a tristeza qui num viu a vida lhe fazê festejo.

a dança do amô qui salva num ia mais pará, josino lhe oiava com um sorriso sarabunda, pediu mais dança, mais mel, mais sedução, os dois enlouquecia lambuzados no mel de Oxum enquanto as água alisava as pedra



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quarta-feira, 4 de novembro de 2020

histórias davóinha: Josino (I09j - juro qui lhe mordo)

Josino: I - a aparição da vida

juro qui lhe mordo
Ensaio 09j – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



Muié, Uquié, hôme, Ocê me provoca além da conta, ela sorriu satisfeita e o aroma da boca fez flutuá os cinco lenço transparente da cintura mexediça, se mostrava pra dança do amô e da sedução, tava vaidosa da sua beleza como deve sê, sem medo disê muié, a cabeça raspada e pintada, É o meu oferecimento pra delícia ditê vida junto da vida diocê, ele num sabia uqui dizê duqui tava dito, As palavra qui nasce no curação alimenta e protege a vida, mais num chega. É bão ditá com quem tá, abraçá useu amô e fazê crescê as vontade qui num precisa tê nome, Meu pretu, a fôrma do amô tá nas bobice qui faz durá as lembrança nos algodão branco nucéu, Mais se ocê vê minha fome fica esfomeada, provocô cuidadoso no atreevimento, Eu tô vendo o apetite diocê. Adoro, respondeu a milagres enfeitiçada qui num conseguia pará divê

os caminho do curação tava escancarado, usdois era só vontade, mistura quiqué tê nas mão e num qué acordá daquela aparição da vida, Tô lhe avisando, josino resmungô sentado na rede, E eu tô lhe vendo cheio dos aviso, retrucô milagres

ele chegô a boca inté useu aroma quente podê segredá como a brisa murmurava useu mais leve e demorado suspiro, Quero ocê toda do jeito qui ocê quisé se dá, Eu qui quero ocê todo do jeito qui ocê quisé se dá, o hôme esfregô as vista na muié e a muié esfregô as vista no hôme, usdois era toda provocação, se oiava demorada e cuidadoso, Tem veiz qui a vida parece sê tão cuidada, encorajada e alimentada qui num dá pra creditá qui existi sofrimento e gente doida de maldade, Chega dessa conversa. Vem mais aqui, deixa eu lhe pegá, Inté parece qui ocê precisa pedí, Eu num tô pedindo, soltô a risada mais alta qui tinha, Adoro lhe vê desajustado com as palavra, Quero lhe fazê todas consideração de respeito e ternura, atendê todos seus desejo e vontade, Isso é muntu mais qui preciso, num quero e num preciso devoção. Só preciso do sopro pra me avivá, mais vô lhe avisando quiu fogo forte derrete o ferro, Pois vô aticá esse fogo qui se gaba com o ferrêro.

arrumô as perna qui ficô dobrada, juntava e empurrava as estrela, depois deixava o desenho estrelado boiado nucéu agarrado nas mão da Oxum qui dançava e cantava prus dois

a muié deitô a cabeça no peito arrebitado e ofegante do hôme e josino adormeceu nas mão qui cantava as vontade do amô, tava desfeito useu disfarce de hôme belo e forte, fincadô da paixão, o ferro tava derretido

milagres ergueu o queixo, oiô com jeito de enguiço, Sê ocê durumí, meu pretu... juro qui lhe mordo. A quentura do fogo num tá recuada, ela tá bem longe ditá desbotada. Eu lhe avisei do derretimento... trate de ficá animado...





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