terça-feira, 4 de novembro de 2025

Émile Zola - Germinal: Terceira Parte - (III.a) Em meados de agosto

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Terceira Parte

III
 

      Em meados de agosto, assim que Zacharie casou e obteve da companhia uma casa desocupada do conjunto habitacional para Philomène e os dois filhos, Etienne foi morar com os Maheu. Nos primeiros tempos o rapaz não conseguia sentir-se à vontade em presença de Catherine.
    Viviam em comum, era o substituto do irmão mais velho, partilhava o leito com Jeanlin, dormia no mesmo quarto com a moça. Ao deitar e ao levantar tinha de se despir e vestir diante dela, via-a tirando e pondo a roupa. Quando caía a última saia, ela era de uma brancura pálida, dessa alvura transparente das louras anêmicas. Ele ficava profundamente comovido ao vê-la tão branca, as mãos e o rosto já estragados, como que molhada em leite dos tornozelos ao pescoço, onde havia uma linha bronzeada que mais parecia um colar de âmbar. Fingia não olhar, mas pouco a pouco foi conhecendo-a. Primeiro os pés, que seus olhos baixos encontravam. Depois um joelho entrevisto quando ela entrava para baixo das cobertas. Em seguida o colo, de seios pequenos e rijos, quando pela manhã a moça curvava-se para o tacho. Enquanto ela era rápida, despia-se com movimentos ágeis de cobra e em dez segundos estava nua e estendida ao lado de Alzire, o rapaz era lento: não terminara de tirar os sapatos e ela já estava quase dormindo, de costas para ele, apenas com a vasta cabeleira à mostra.
      A verdade é que a moça nunca teve motivo de queixa. Só uma espécie de obsessão, combatida, fazia que a espiasse no momento em que se deitava. Ele, por outro lado, evitava todas as brincadeiras e mantinha-se a distância. Os pais estavam ali mesmo, e, além disso, cultivava por ela um sentimento que era uma mistura de amizade e rancor, que o impedia de tratá-la como mulher que se deseja, apesar de todos aqueles momentos propícios de vida em comum, ao levantar, nas refeições, no trabalho, ambos conhecendo-se intimamente, mesmo nas necessidades fisiológicas. Todo o pudor familiar se refugiara no banho cotidiano, que a moça tomava agora no andar de cima, enquanto os homens se lavavam embaixo, um após o outro.
     Ao término de um mês, Etienne e Catherine pareciam já não se ver, quando à noite, antes de apagar a vela, vagavam nus pelo quarto. Ela deixara de se apressar, voltara ao seu velho costume de prender os cabelos sentada na cama, de braços erguidos, com as coxas à mostra. Ele, sem calças, ajudava-a às vezes, procurando os grampos que ela perdia. A vergonha da nudez desapareceu com a força do hábito, achavam natural andar assim, já que não faziam nada de mal e não era culpa deles se havia um só quarto para toda a família. Mas mesmo assim, nos momentos em que não pensavam em coisas pecaminosas, voltava-lhes, repentinamente, um sentimento de culpa. Depois de diversas noites se terem passado sem que notasse a palidez do seu corpo, ele a vislumbrava de súbito toda branca, dessa brancura que o fazia fremir, que o obrigava a dar-lhe as costas, pelo receio de ceder à tentação de tomá-la em seus braços. Ela também, em certas noites, sem razão aparente, era presa de uma inquietação pudica, fugia, enrolava-se nos lençóis, como se tivesse sentido as mãos do rapaz percorrendo seu corpo. Depois, apagada a vela, sabiam-se acordados, pensando um no outro, apesar de exaustos. Isso os deixava intranquilos e irritadiços no dia seguinte, porque preferiam as noites calmas em que conviviam como bons camaradas.
     Etienne só se queixava de Jeanlin, que dormia encolhido. Alzire respirava levemente. Lénore e Henri eram encontrados na manhã seguinte como tinham sido deitados, nos braços um do outro. Na casa às escuras, só se ouvia o ressonar de Maheu e da mulher; eram roncos regulares que mais pareciam sair de um fole de ferreiro.
     Em suma, Etienne achava-se melhor que na pensão de Rasseneur. A cama não era má, e os lençóis, mudados uma vez por mês. A sopa, muito boa, mais substanciosa mesmo que a da pensão: só sentia falta da carne, que vinha raramente à mesa. Mas todos os outros estavam na mesma situação, não podia exigir, por quarenta e cinco francos mensais, coelho a cada refeição. Esses quarenta e cinco ajudavam a família, ela podia continuar vivendo, ainda que deixando pequenas dívidas para trás. Por sua vez, os Maheu mostravam-se reconhecidos ao hóspede, sua roupa era lavada, remendada, os botões pregados, suas coisas estavam sempre em ordem. Enfim, o rapaz vivia rodeado de asseio e bem cuidado pela dona da casa.
     Foi por essa época que Etienne começou a compreender as ideias que lhe fervilhavam na cabeça. Até então não passara de um revoltado instintivo absorvendo a surda fermentação dos companheiros. Uma gama variada de perguntas confusas não o deixava em paz: por que havia tanta miséria de um lado e tanta riqueza de outro? Por que estes tinham de viver escravizados àqueles, sem a menor esperança de um dia mudarem de posição? A primeira etapa vencida foi a da compreensão de sua ignorância. Uma vergonha secreta, um desgosto oculto começaram a atormentá-lo: nada sabia, não ousava falar sobre essas coisas que eram a sua paixão, a igualdade entre os homens, a justiça que exigia que os bens da terra fossem repartidos entre todos. Por isso começou a estudar, sem método, como fazem aqueles que são ignorantes mas têm sede de saber. Entabulou uma correspondência regular com Pluchart, mais instruído e a par do movimento socialista. Encomendou livros cuja leitura mal digerida acabou por exaltá-lo, sobretudo um livro de medicina, Higiene do Mineiro, em que um médico belga fazia o resumo das doenças de que morrem os trabalhadores das hulheiras, sem contar os tratados de economia política de uma aridez técnica incompreensível, folhetos anarquistas que o perturbavam, números antigos de jornais que lia e guardava depois como argumentos irrefutáveis em possíveis discussões. Também Suvarin lhe emprestava livros, e a obra sobre sociedades cooperativas fizera-o sonhar durante um mês com uma associação universal de intercâmbio, abolindo o dinheiro e baseando toda a vida social no trabalho. A vergonha de sua ignorância foi cedendo lugar a um certo orgulho desde que sentia que pensava.
     Durante esses primeiros meses, Etienne viveu no êxtase dos neófitos, com o coração transbordante de indignações generosas contra os opressores e da esperança do triunfo próximo dos oprimidos. De todas as suas leituras ainda não conseguira pôr em pé um sistema que fosse seu. Misturavam-se nele as reivindicações práticas de Rasseneur com as violências destrutoras de Suvarin. Ao sair do Avantage, onde, quase todas as noites, ia invectivar com eles contra a companhia, caminhava como num sonho, assistindo à regeneração radical dos povos sem que para tanto fosse necessário quebrar um vidro ou derramar uma gota de sangue. Os meios de execução permaneciam obscuros, preferia acreditar que as coisas viriam por si, já que, ao tentar formular um programa de reconstrução, não sabia o que pensar. Mostrava-se cheio de moderação e até inconsequente, repetindo, às vezes, que era preciso banir a política da questão social, uma frase que tinha lido e lhe parecia boa para ser dita no meio dos mineiros fleumáticos em que vivia.
     Agora, na casa de Maheu, dormia-se meia hora mais tarde. Etienne repisava a conversa de sempre. Desde que começara a instruir-se, a promiscuidade do conjunto habitacional chocava-o. Então eram animais para viverem assim, amontoados, uns por cima dos outros, com tanto campo em volta, a ponto de não se poder trocar a camisa sem ter que mostrar o traseiro ao vizinho? E que bem fazia para a saúde essa promiscuidade, com moças e rapazes apodrecendo juntos! 

— Ora! — respondia Maheu. — Se houvesse mais dinheiro viveríamos melhor... Mas, de fato, só pode fazer mal viver amontoado desse jeito. Sempre termina com homens bêbados e mulheres grávidas.

      Era sempre assim que começava a conversa, cada um tinha algo a dizer, enquanto o querosene do candeeiro viciava o ar da sala já empestada pelo cheiro de cebola frita. Esta vida não tinha nada de agradável. Trabalhavam como bestas numa coisa que antes só era feita pelos condenados às galés, morriam ali, muito antes de ter chegado a sua hora, e tudo isso para nem sequer terem carne no jantar. Ainda comiam, claro, mas tão pouco, apenas o suficiente para seguirem sofrendo, cheios de dívidas, perseguidos como se estivessem roubando o pão que não os deixava morrer de fome. Aos domingos sucumbiam, exaustos. Os únicos prazeres eram embriagar-se e fazer filhos na mulher. E ainda por cima a cerveja fazia crescer a barriga, e os filhos, mais tarde, renegavam os pais. Não, não, a vida não tinha graça alguma. Nesse ponto a mulher de Maheu entrava na conversa. 

— Mas o pior é quando a gente se diz que tudo isso não pode mudar... Quando se é jovem, imagina-se que a felicidade virá, tem-se esperança, mas a miséria continua e nada muda... Eu não desejo mal a ninguém, mas certas vezes ando revoltada com tanta miséria.

     Descia um silêncio sobre o grupo, que respirava a custo, no mal estar resultante desse horizonte cerrado. Apenas o velho Boa-Morte, quando estava, arregalava uns olhos surpresos, porque no seu tempo ninguém se preocupava dessa maneira: nascia-se no carvão, escavava-se no veio sem pedir mais nada. Agora, novos ventos enchiam os mineiros de ambição. 

— Não presta cuspir no prato em que se come — murmurava ele. — Uma boa cerveja é uma boa cerveja... Claro, os chefes são quase sempre uns canalhas, mas sempre haverá chefes, não é verdade? Não quebrem a cabeça pensando nisso.

     Era como botar fogo em Etienne. Como? Então os operários não podiam pensar? Pois esperassem e veriam... As coisas iam mudar muito em breve, justamente porque o operário aprendera a pensar. No tempo do velho, o mineiro vivia na mina como um animal de carga, como uma máquina de extrair hulha, sempre enfurnado na terra, os ouvidos e os olhos tapados, sem saber o que estava acontecendo no mundo. Por esse motivo os ricos que governam podiam fazer o que bem entendessem, vendê-lo e comprá-lo, chupar-lhe o sangue, o mineiro nem se dava conta. Agora ele estava acordado nas entranhas da terra, germinava lá no fundo como uma semente. E todos veriam, um belo dia, brotar homens da terra. Sim! Um exército de homens que restabeleceria a justiça... Ou será que todos não eram iguais depois da Revolução? Uma vez que tinha direito ao voto, por que o operário deveria permanecer escravo do patrão que lhe pagava? As grandes empresas, com suas máquinas, esmagavam tudo, e não se tinham sequer as garantias de outrora, quando o pessoal da mesma profissão, reunido em corporações, sabia defender-se. Raios! Era por isso, por isso e por muitas outras coisas, que este mundo acabaria explodindo um dia, graças à instrução. Era só olhar, ali no conjunto habitacional mesmo: os avós não sabiam nem assinar o nome, os pais já o assinavam, enquanto os filhos liam e escreviam como professores. Ah! Era uma bravia messe de homens amadurecendo ao sol, crescendo pouco a pouco. Desde o momento em que já não se estava mais colado no mesmo lugar a vida inteira e tinha se a ambição de tomar o lugar do vizinho, por que não abrir caminho à força e vencer de uma vez por todas?
     Apesar de sensibilizado pelos argumentos do rapaz Maheu continuava cheio de desconfiança. 

— No momento em que a gente dá um pio é despedido — disse ele. — O velho tem razão, o mineiro será sempre a vítima, sem esperança de receber pelo menos uma perna de carneiro como recompensa.

     A mulher, que ficara calada por algum tempo, falou como se estivesse saindo de um sonho. 

— Se ao menos o que os padres dizem fosse verdade, os pobres deste mundo seriam os ricos do outro...

      Uma gargalhada interrompeu-a. Até as crianças davam de ombros, transformadas em incrédulas pelas mudanças do mundo, rindo do céu vazio, ainda que cultivando sempre o secreto temor dos fantasmas da mina. 

— Ora, ora! os padres... — exclamou Maheu. — Se eles acreditassem nisso comeriam menos e trabalhariam mais para terem garantido um bom lugar lá em cima... Nada disso. Quem morre acabou.

     A mulher soltou suspiros enormes. 

— Ah! Meu Deus, meu Deus...

     Depois, com as mãos sobre os joelhos, num total abatimento: 

— Então é verdade, nós, os pobres, não podemos ter esperança alguma.

continua na página 145...
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Terceira Parte - (III.a) Em meados de agosto
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando — se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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