terça-feira, 4 de novembro de 2025

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Segundo - O velho burguês / VIII - Nem sempre dois fazem um par

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Segundo — O velho burguês

VIII - Nem sempre dois fazem um par
     
      Quanto às duas filhas de Gillenormand, de quem há pouco falámos, tinham nascido com dez anos de intervalo. Na sua juventude haviam-se parecido muito pouco uma com a outra, e, tanto no carácter como no rosto, não pareciam de nenhum modo irmãs. A mais nova era um espírito gracioso, com aspirações a tudo o que era luz, dada a flores, a versos e a música, esvoaçando em amplidões fulgurantes, entusiasta, etérea, idealmente desposada desde a sua infância com uma vaga figura heroica. A mais velha tinha também a sua quimera; via, por entre nuvens de ouro, um fornecedor, algum gordo e rico assentista, um marido esplendidamente estúpido, um milhão feito homem ou algum prefeito.
     As recepções da prefeitura, o porteiro agaloado, os bailes oficiais, os discursos do maire, «a senhora prefeita», todas estas coisas davam-lhe volta à cabeça.
     Assim desvairavam as duas irmãs, cada qual arrebatada pelos seus sonhos, enquanto foram donzelas. Ambas tinham asas; uma, porém, tinha-as de anjo, outra de ganso.
     Nenhuma ambição se realiza completamente, ao menos neste mundo. Nenhum paraíso, no tempo presente, se torna terrestre. A mais nova casara com o homem dos seus sonhos, mas morrera. A mais velha ficara solteira.
     Na ocasião em que dela nos ocupamos nesta nossa história, era uma invencioneira recatada, uma vestal, um dos narizes mais afilados e um dos espíritos mais rombos que podia haver. Circunstância característica: fora do estreito círculo da família, ninguém lhe sabia o nome do batismo. Todos a tratavam pela filha mais velha do senhor Gillenormand.
      Em pontos de recato virginal, a filha mais velha do senhor Gillenormand dera invejas a uma Miss. Era o pudor personificado. Tinha na sua vida um sucesso espantoso que lhe deixara uma recordação de horror: uma ocasião, um homem viu-lhe a liga da perna.
     Em vez de o fazer diminuir, a idade fez crescer o desmesurado pudor da donzela. Nunca lhe parecia aconchegado de mais, nem de mais tapado, o lenço de cassa do pescoço. Era de ver como ela embrechava de colchetes e pregava alfinetes nos sítios para onde ninguém se lembraria de olhar. É qualidade inerente à mulher invencioneira tomar tantas mais precauções, quanto menos ameaçada anda a sua virtude.
     Todavia, explique quem puder estes usuais mistérios da inocência, a filha de Gillenormand nem por sombras se esquivava aos abraços de um oficial de lanceiros, seu segundo sobrinho, chamado Teodulo.
     Apesar dos favores que ela dispensava ao predileto lanceiro, era-lhe apropriada a classificação de invencioneira que atrás lhe demos. A filha de Gillenormand era uma como alma crepuscular. A invencionice é meia virtude e meio vício.
     Ao recato da invencioneira unia ela a beatice, duas coisas que andam quase sempre juntas. Era irmã da confraria de Nossa Senhora, andava de véu branco em certos dias festivos e, rezava em voz baixa orações especiais, reverenciava «o puríssimo sangue», venerava «o sagrado coração», punha-se em contemplação, durante horas seguidas, diante de um altar recoco-jesuíta, vedado ao resto dos fiéis, e aí deixava voejar livre a alma por entre nuvenzinhas de mármore e grandes raios de madeira dourada.
      Tinha a donzela uma irmã em Jesus Cristo, virgem velha como ela, chamada Mademoiselle Vaubois, inteiramente estúpida, e comparada com a qual a filha de Gillenormand podia desvanecer-se de ser uma águia. Fora dos Agnus Dei e das Ave Marias, Mademoiselle Vaubois não tinha outros conhecimentos mais do que sobre diferentes processos de fazer doce. Perfeita no seu gênero, Mademoiselle Vaubois era o arminho da estupidez sem uma só pinta de inteligência.
      Digamos a verdade, Mademoiselle Gillenormand ganhara mais do que perdera em envelhecer. É o que acontece a todas as naturezas passivas.
     Nunca praticava maldades, o que é uma bondade relativa, e, além disso, os anos, que desfazem as asperidões, trouxeram-lhe a mansidão própria deles. Ensombrava-se-lhe o rosto de uma nuvem de tristeza obscura, cujo segredo nem ela própria conhecia.
     Em toda ela havia o pasmo de uma vida que está no seu termo, sem nunca ter do princípio.
     Habitava na mesma casa em que morava o pai e era quem superintendia no governo doméstico. Gillenormand vivia com a filha na sua companhia, do mesmo modo que Monsenhor Bemvindo conservava na sua uma irmã, como vimos. Não são raros estes casais de um velho e de uma velha e na verdade têm sempre o tocante aspecto de dois entes fracos que mutuamente se amparam.
     Além deles, havia em casa, entre este velho e essa velha, um rapazinho, que na presença de Gillenormand estava constantemente a tremer e sem ousar dizer uma palavra. Quando o velho lhe dirigia era sempre em tom severo e às vezes de bengala no ar.

Venha cá, seu tratante
Patife! Chegue-se aqui já ao pé de mim
Diga, seu pedaço de mafoto
Se o torno a ver! Seu brejeiro!, etc., etc.

      Idolatrava-o. Era seu neto.
     Mais adiante tornaremos a encontrar esta criança.

continua na página 458...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Segundo - VIII - Nem sempre dois fazem um par
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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