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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (III.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

III


     Naquele domingo, a partir das oito horas, Suvarin ficou sozinho na sala do Avantage, no seu lugar habitual, com a cabeça encostada ao muro. Já nenhum mineiro podia tomar seus dois soldos de cerveja; nunca as tabernas tiveram menos fregueses. Por isso, a Sra. Rasseneur, imóvel no balcão, guardava um silêncio irritado, enquanto o marido, em pé defronte ao fogão de ferro fundido, parecia seguir, com ar meditativo, a fumaça ruiva do carvão.
     Bruscamente, naquela paz pesada das peças muito aquecidas, três pequenas pancadas secas, batidas num vidro da janela, fizeram que Suvarin voltasse a cabeça. Ergueu-se, tinha reconhecido o sinal do qual já diversas vezes Etienne se servira para chamá-lo, quando o via lá de fora fumando seu cigarro, sentado a uma mesa vazia Mas, antes que o mecânico alcançasse a porta, Rasseneur a abrira e, reconhecendo, graças à luz da janela, quem estava ali, disse: 

— Será que tens medo de que eu te venda? Se querem conversar é melhor que o façam aqui dentro em vez de na estrada.

     Etienne entrou. A mulher lhe ofereceu cortesmente um copo de cerveja, que ele recusou com um gesto. O taberneiro acrescentou: 

— Há muito tempo que adivinhei onde te escondes. Se eu fosse um espião, como teus amigos dizem, já há oito dias teria mandado para lá os policiais. 
— Não precisas defender-te — respondeu o rapaz. — Sei muito bem que não farias isso. Podemos não ter as mesmas ideias e continuar sendo amigos.

     O silêncio voltou a reinar. Suvarin tornou à sua cadeira, de costas para a parede, os olhos vagando na fumaça do seu cigarro, mas seus dedos febris não paravam um momento; passava-os pelos joelhos procurando o pelo tépido de Polônia, que naquela noite não se encontrava ali; era um mal-estar inconsciente, faltava-lhe alguma coisa, sem que ele soubesse o quê.
     Sentado na outra extremidade da mesa, Etienne disse, enfim: 

— O trabalho recomeça amanhã na Voreux. Os belgas chegaram com Négrel. 
— De fato, chegaram quando já era noite fechada — murmurou Rasseneur, que ficara em pé. — Espero que não recomece a mortandade. — E levantando a voz: — Como vês, não quero continuar brigando contigo, mas isso terminará mal se vocês insistirem em fincar pé... Igualzinho à história da tal de Internacional... Anteontem fui a Lille resolver uns negócios e encontrei Pluchart; parece que a Internacional está desmoronando...

     Deu detalhes. A Associação, depois de ter conquistado os operários do mundo inteiro, num ímpeto propagandístico que ainda fazia tremer a burguesia, estava agora sendo devorada, destruída aos poucos pelas batalhas internas das vaidades e ambições. Desde que os anarquistas triunfaram, expulsando os evolucionistas de primeira hora, tudo estava indo por água abaixo; a finalidade principal, a reforma do salário, afundava em meio aos conflitos de seitas, os grupos mais experientes se desorganizavam devido ao ódio à disciplina. E já se podia prever o fracasso final desse levante de massa, que por um instante ameaçara varrer de um sopro a velha sociedade apodrecida. 

— Pluchart está sem voz, doente com tudo isso — prosseguiu Rasseneur. — Mas assim mesmo faz discursos, quer ir a Paris para falar... Por três vezes me disse que a nossa greve está perdida.

     Etienne, de cabeça baixa, não o interrompeu. Na véspera falara com alguns companheiros, sentia pesar sobre si ondas de rancor e suspeita; eram as primeiras vagas da impopularidade, anunciadoras da denota. Conservou se sombrio, não queria confessar seu abatimento a um homem que lhe predissera que também um dia seria vaiado pela multidão, quando esta se quisesse vingar de uma decepção. 

— A greve está perdida, sem dúvida, sei disso tão bem quanto.

     Pluchart — disse ele. — Era de prever. Aceitamos o movimento contra a vontade, não contávamos acabar com a companhia... O caso é que a gente se arrebata, espera coisas, e, quando tudo vai por água abaixo, esquece-se de que devia contar com isso, há lamentos e brigas como diante de uma catástrofe caída do céu. 

— Mas, então — perguntou Rasseneur —, se julgas a partida perdida, por que não fazes os demais companheiros entenderem isso?

     O rapaz olhou-o fixamente. 

— Olha, estou farto das tuas histórias! Tens as tuas ideias, eu tenho as minhas. Entrei na tua casa para mostrar que te estimo apesar de tudo, mas continuo a pensar que, se morrermos resistindo, nossas carcaças de esfomeados servirão melhor à causa do povo que toda a tua política de homem equilibrado... Ah! se ao menos um desses soldados nojentos me metesse uma bala no coração... Como seria formidável morrer assim!

     Seus olhos ficaram úmidos com esse grito onde explodia o secreto desejo do vencido, o refúgio onde gostaria de perder-se para sempre com seu tormento. 

— Muito bem! — exclamou a Sra. Rasseneur, que, com um olhar, lançava a seu marido todo o desdém das suas opiniões radicais.

     Suvarin, de olhar perdido, continuava a tatear com suas mãos nervosas, não parecendo ter ouvido. Seu rosto louro de moça, de nariz fino e dentes pequenos e pontiagudos, banhava-se de uma luz selvagem, de um devaneio místico, em que perpassavam visões sangrentas. E pôs-se a sonhar em voz alta, respondendo a uma frase de Rasseneur sobre a Internacional, pescada no meio da conversa: 

— São todos uns covardes, só havia um homem capaz de transformar a sua organização num instrumento terrível de destruição. Mas era preciso querer, ninguém quer nada, por isso a revolução abortará mais uma vez.

     E continuou a lamentar-se, cheio de asco pela imbecilidade dos homens, enquanto os outros quedavam perplexos ante aquelas confidencias de sonâmbulo, feitas para as trevas. Na Rússia estava tudo parado, sentia-se desesperado com as notícias que recebera. Seus antigos camaradas se transformavam em políticos, os famosos niilistas que faziam a Europa tremer, filhos de popel, de pequenos burgueses, de comerciantes, não viam mais que a libertação nacional, pareciam acreditar que o mundo seria redimido assim que eles matassem o déspota. E, logo que lhes falava em ceifar a humanidade velha como a uma plantação madura, sentia-se, a partir daí, incompreendido, suspeito, desclassificado, arrolado entre os príncipes frustrados do cosmopolitismo revolucionário. E no entanto seu coração de patriota debatia-se, era com uma amargura dolorosa que repetia seu termo favorito: 

— Besteiras!... Eles nunca conseguirão nada com as suas besteiras.

     Depois, baixando mais a voz, narrou em frases amargas o seu velho sonho de fraternidade. Não tinha renunciado ao seu título e à sua fortuna, só se colocara do lado dos operários com a esperança de ver fundada enfim essa sociedade nova do trabalho em comum. Todas as moedas que trazia no bolso tinham passado havia muito tempo para as mãos dos meninos do conjunto habitacional; fora de uma solidariedade de irmão para com os mineiros, sorrindo à sua desconfiança, conquistando-os com seu modo tranquilo de operário exato e pouco conversador. Mas, decididamente, a fusão não se realizava, permanecia um estranho, com seu desprezo por qualquer ligação amorosa, sua vontade de permanecer impoluto, fora das gloríolas e dos prazeres. E, sobretudo, ficara desesperado de manhã com a leitura de uma notícia que vinha nos jornais.
     Sua voz mudou, seus olhos iluminaram-se, fixos em Etienne, e dirigiu-se diretamente a ele. 

— Tu podes compreender isto? esses operários chapeleiros de Marselha que ganharam a sorte grande de cem mil francos e, imediatamente, foram comprar títulos, dizendo que de agora em diante iam viver sem fazer nada! Essa é a intenção de todos vocês, operários franceses: encontrar um tesouro e em seguida comê-lo sozinhos, refestelados no egoísmo e na vagabundagem. Gostam de gritar contra s ricos, mas não têm coragem de dar aos pobres o dinheiro que a sorte lhes envia... Vocês nunca serão dignos da felicidade enquanto possuírem alguma coisa, enquanto esse ódio aos burgueses for apenas o desejo desesperado de serem burgueses também.

     Rasseneur deu uma gargalhada; pensar que os dois operários de Marselha teriam de renunciar à sorte grande parecia-lhe estúpido. Mas Suvarin fremia, seu semblante descomposto tornava-se amedrontador, numa dessas cóleras religiosas que exterminam os povos. Gritou: 

— Vocês vão ser todos ceifados, derrubados, atirados à podridão! Há de nascer um dia aquele que dizimará sua raça de poltrões e gozadores. Aqui está! Vocês veem as minhas mãos? Se elas pudessem, agarrariam a terra, assim, e a sacudiriam até fazê-la em migalhas, para soterrar todos vocês nos seus escombros! 

— Muito bem! — repetiu a Sra. Rasseneur, no seu modo cortês e convicto.

     Fez-se outro silêncio. Em seguida Etienne falou dos operários belgas. Interrogou Suvarin sobre as disposições que tinham sido tomadas na Voreux, mas o mecânico, que voltara ao seu alheamento, mal respondia, apenas sabia que iam distribuir balas aos soldados que guardavam a mina. E a inquietação nervosa dos seus dedos sobre os joelhos chegou a tal ponto que acabou tomando consciência de que lhe faltava o pelo macio e calmante da coelha. 

— Onde está a Polônia? — perguntou ele.

     O taberneiro deu outra risada e olhou para a mulher. Depois de certa hesitação decidiu-se: 

— A Polônia? Está no quente.

     Desde a sua aventura com Jeanlin, a enorme coelha, certamente ferida, só tivera filhos mortos. E, para não alimentarem uma boca inútil, tinham decidido nesse mesmo dia fazê-la com batatas. 

— Comeste uma perna dela hoje na janta... Não estava bom? Chegaste a lamber os dedos...

     A princípio Suvarin não compreendeu. Depois ficou muito Pando e teve uma contração de náusea; apesar de sua vontade de ser estoico, duas grossas lágrimas encheram seus olhos.

continua na página 347...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (II.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

II
continuando...

     Maheu, após examiná-lo, pôs-se outra vez a caminhar pesadamente, sem dizer palavra. Foi a mulher quem respondeu:

— À missa, senhor pároco? Para quê? Será que Deus não se esqueceu da gente? Veja a minha menina, por exemplo, ardendo em febre... Que poderia ela ter feito para ser castigada dessa maneira? Não chega a miséria que já temos de suportar, ele a põe nesse estado, quando nem sequer posso dar uma xícara de chá quente.

     O padre começou então a perorar. Analisou a greve, a miséria atroz, o rancor exasperado da fome, com o ardor de um missionário que catequiza selvagens, para maior glória da sua religião. Disse que a Igreja estava com os pobres, que um dia ela faria a justiça triunfar, fulminando com a cólera de Deus as iniquidades dos ricos. E esse dia estava próximo, já que os ricos tinham tomado o lugar de Deus e governavam sem ele, roubando impiamente o poder. Mas, se os operários queriam a partilha justa dos bens terrestres, deviam entregar-se sem demora nas mãos dos padres, da mesma maneira que, quando Jesus morreu, os pequenos e os humildes tinham-se agrupado em torno dos apóstolos. Que força imensa teria o papa, de que exército disporia o clero, quando comandasse a multidão inumerável dos trabalhadores! Em uma semana o mundo estaria purgado dos malvados, os patrões indignos seriam expulsos, enfim o verdadeiro reino de Deus triunfaria, cada um recompensado segundo seus méritos, a lei do trabalho regendo a felicidade universal.
     Escutando-o, a mulher julgava ouvir Etienne durante os serões do outono, quando este lhes anunciava o fim dos seus males. A diferença era que ela nunca tivera confiança nas batinas.

— Tudo o que o senhor diz é muito bonito — disse ela. — Quer dizer que então já não se entende mais com os burgueses... Todos os outros párocos que tivemos costumavam jantar com o diretor, e ameaçavam-nos com o inferno assim que reclamávamos pão.

     Ele recomeçou, falou do deplorável mal-entendido entre a Igreja e o povo. Com frases veladas atacou os padres das cidades, os bispos, o alto clero amante dos prazeres, cumulado de poder, pactuando com a burguesia liberal, na imbecilidade da sua cegueira, sem ver que era justamente essa burguesia que o espoliava do comando do mundo. A libertação viria dos padres de aldeia, que se levantariam para restabelecer o reino de Cristo, com a ajuda dos miseráveis. E ele já parecia estar à frente deles, empertigava sua estatura angulosa, como um chefe de guerrilhas, como um revolucionário do Evangelho, os olhos resplandecentes, iluminando a sala escura. A ardente prédica era toda feita de palavras místicas, aquela pobre família já não podia compreendê-lo.

— Chega de tanto falatório — grunhiu bruscamente Maheu. — Teria feito melhor trazendo-nos pão.
— Vão domingo à missa — exclamou o padre. — Deus cuidará do resto!

     E partiu, entrou na casa dos Levaque para catequizá-los, voando tão alto no seu sonho do triunfo final da Igreja, desdenhando a tal ponto os fatos, que percorria os conjuntos habitacionais mineiros sem uma esmola, de mãos vazias através daquele exército morrendo de fome, verdadeiro pobre-diabo que considerava o sofrimento como o incentivo da salvação.
     Maheu continuava a esquadrinhar a peça, seus passos faziam tremer o soalho. Houve um ruído de roldana enferrujada, o velho Boa-Morte escarrou no fogão apagado. Depois a cadência dos passos recomeçou. Alzire, prostrada pela febre, delirava baixinho, ria, julgando que fazia calor e brincava ao sol.

— Maldita sorte! — murmurou a mulher, após tocar-lhe as faces. — Agora está queimando de tanta febre. Já não espero mais esse canalha, decerto aqueles bandidos o proibiram de vir.

     Referia-se ao médico e à companhia. Contudo, soltou uma exclamação de alegria ao ver a porta abrir-se de novo. Mas seus braços voltaram a cair, permaneceu muito tesa, com a fisionomia carrancuda.

— Boa noite — disse Etienne a meia voz, após ter fechado cuidadosamente a porta.

     Costumava aparecer assim, com a noite fechada. Desde o segundo dia os Maheu foram informados do seu esconderijo, mas guardavam o segredo, ninguém nas redondezas sabia ao certo o que acontecera com o rapaz. Isso o envolvia em lenda. Continuavam acreditando nele, corriam rumores misteriosos: ia reaparecer à frente de um exército, com caixas cheias de ouro; era sempre a expectativa religiosa de um milagre, o ideal realizado, a entrada repentina na cidade da justiça que lhes fora prometida. Uns diziam tê-lo visto no fundo de uma caleça, em companhia de três cavalheiros, na estrada de Marchiennes; outros afirmavam que ainda por dois dias ficaria na Inglaterra. Com o correr do tempo, no entanto, começou a desconfiança, certos pulhas acusavam-no de esconder-se numa toca, onde a filha de Mouque o mantinha aquecido; essa ligação, conhecida de todos, prejudicara-o. Era, em meio à sua popularidade, uma lenta baixa de afeição, a surda maré dos convictos tomados de desespero, e cujo número, pouco a pouco, iria engrossando.

— Que tempo detestável! — acrescentou ele. — Como vai a coisa com vocês? Nada de novo? Sempre de mal a pior? Disseram-me que o Négrel tinha ido à Bélgica para contratar operários. Nem quero pensar... Se for verdade, estamos fritos!

     Fora percorrido por um arrepio ao entrar na sala gelada e escura, seus olhos tiveram de se acostumar para poder ver os infelizes, que julgava estarem na parte mais escura da peça. Sentia a repugnância, o mal-estar do operário que não mais pertence à sua classe, refinado pelo estudo, insuflado pela ambição. Que miséria, quanto mau cheiro, e os corpos amontoados, e a imensa piedade que lhe dava um nó na garganta! O espetáculo dessa agonia desesperava-o a tal ponto que não encontrava palavras para aconselhá-los à submissão.
     Mas Maheu colocara-se violentamente diante dele, gritando:

— Belgas? Que se atrevam, esses filhos da mãe! Que tragam belgas para trabalhar aqui, se querem que nós destruamos as minas.

     Constrangido, Etienne explicou que não poderiam fazer nada, que os soldados que guardavam as minas protegeriam a descida dos operários belgas. Maheu cerrava os punhos, irritado sobretudo, como ele dizia, por ter as baionetas apontadas para as suas costas. Então os mineiros já não eram mais donos de si? Eram tratados como forçados, obrigados a trabalhar, sob a mira de um fuzil? Gostava do seu poço, sentia falta dele, já fazia dois meses que não descia... Por isso, sentia o sangue fervendo quando pensava em tal desaforo trazerem estrangeiros para ali trabalhar. Mas, ao lembrar-se de que lhe tinham devolvido a carteira de trabalho, seu coração baqueou.

— Não sei por que me zango — murmurou ele. — Nada mais tenho que ver com isso... Quando me expulsarem daqui, posso ir morrer por aí.
— Deixa disso! — contestou Etienne. — Se quiseres, amanhã eles te recebem de volta. Operários como tu não são despedidos.

     Interrompeu-se, espantado de ouvir Alzire, que ria suavemente, no delírio da febre. Até então só distinguira a sombra rija do velho Boa-Morte, e essa alegria da menina doente o apavorava. Era demais se até as crianças começassem a morrer! Com voz trêmula, decidiu-se:

— Isso não pode continuar, estamos perdidos... Temos que nos render...

     A mulher de Maheu, até esse momento silenciosa e imóvel, explodiu de repente, gritando-lhe no rosto, tratando-o por tu e praguejando como um homem:

— O que é que tu estás dizendo? Tu dizes isso? Raios te partam! Ele quis apresentar suas razões, mas ela não o deixou falar.
— Não repitas isso, com todos os diabos! Ou eu, mesmo sendo mulher, te mando esta mão na cara... Então estamos aqui morrendo de fome há dois meses, vendi tudo o que tinha dentro de casa, meus filhos caíram doentes, para nada, para a injustiça recomeçar? Ah, só de pensar, o sangue me sobe à cabeça! Não e não! Prefiro queimar tudo, agora estou disposta até a matar em vez de me render.

     Com um grande gesto ameaçador apontou para Maheu no escuro.

— Escuta bem, se o meu marido volta para a mina, serei a primeira a esperá-lo na estrada para cuspir-lhe na cara e chamá-lo de covarde.

     Etienne não a via, mas sentiu o calor, um bafejo de animal latindo, e recuou assustado diante daquela fúria, que era obra sua. Achava-a tão mudada que não reconhecia mais nela a mulher prudente de outrora, que exprobrava a sua violência, dizendo que não se devia desejar a morte de ninguém, e agora não queria ouvir nada, fechada à razão, falando em matar gente. Já não era ele, mas ela que falava em política, que queria varrer de um golpe os burgueses, que pedia a república e a guilhotina, para limpar a terra dos ladrões ricos, engordados com o suor dos miseráveis.

— Era capaz de arrancar-lhes a pele com as minhas próprias mãos... Chega! é a nossa vez, como tu bem o dizias... Quando penso que o pai, o avô, o pai do avô e todos aqueles antes deles sofreram o que nós estamos sofrendo, e o que nossos filhos e os filhos dos nossos filhos sofrerão ainda, fico louca, tenho vontade de apanhar uma faca e sair por aí... No outro dia fomos muito comedidos. Devíamos ter arrasado Montsou, até o último tijolo. E, sabes? só lastimo uma coisa, não ter deixado o velho estrangular a moça da Piolaine... Eles não estão matando meus filhos de fome?

     Suas palavras cortavam como machados em plena noite. O horizonte fechado não quisera abrir-se, o ideal impossível se transformava em veneno no fundo daquele cérebro enlouquecido pela dor.

— A senhora não me compreendeu — pôde enfim dizer Etienne, que batia em retirada. 
— Devia-se chegar a um acordo com a companhia; sei que os poços estão muito danificados e sem dúvida ela aceitaria uma conciliação. 
— Não, isso nunca! — berrou ela.

     Nesse momento Lénore e Henri entraram, de mãos abanando. Um homem lhes dera dois soldos, mas, como a irmã passava todo o tempo dando pontapés no irmão, o dinheiro se perdera na neve. Até Jeanlin os ajudara a procurar, mas inutilmente.

— E onde está Jeanlin? 
— Foi embora, mamãe, disse que tinha o que fazer.

     Etienne escutava, desesperado. Tempos atrás, a mulher ameaçava matá-los se os filhos ousassem estender a mão. Hoje era ela mesma quem os mandava para as estradas e falava até em irem todos, os dez mil mineiros de Montsou, com o bordão e a sacola dos mendigos velhos, invadindo a região apavorada.
     A angústia foi ainda maior na peça escura com a volta dos pequenos famélicos, que queriam comer. Por que não lhes davam comida de uma vez? Começaram a chorar e a brigar entre si, acabaram caindo sobre os pés da irmã agonizante, que soltou um gemido. Fora de si, a mãe espancou-os, ao acaso das trevas. Depois, como eles gritassem ainda mais forte, pedindo pão, desfez-se em pranto, caiu sentada no chão, cingiu-os num só abraço que abarcou a pequena enferma. E assim, por muito tempo, correram-lhe as lágrimas, num relaxamento nervoso que a deixou mole, aniquilada, balbuciando vinte vezes a mesma frase, chamando a morte: "Meu Deus, leva-nos para junto de ti! Meu Deus, tem piedade, leva-nos uma vez, para terminar com isto!" O avô conservou-se imóvel, uma velha árvore batida pelo vento e a chuva, enquanto o pai continuava a percorrer o espaço entre o fogão e o guarda-comida, sem olhar para nada.
     De repente a porta abriu-se, e desta vez era o Dr. Vanderhaghen.

— Diabo! — exclamou. — Um pouco de luz não vai estragar os olhos de vocês... Vamos, vamos que estou com pressa!

     Resmungava, como de hábito, esfalfado pelo trabalho. Felizmente traria fósforos; Maheu teve de acender seis, um a um, para que ele pudesse examinar a doente. Sem as cobertas, a menina tiritava sob a luz vacilante, magra como um passarinho agonizando na neve, tão fraca que só se lhe via a corcunda. E, contudo, sorria, um sorriso alucinado de moribunda, os olhos saltados, enquanto as mãozinhas se crispavam no vazio do peito. E, como a mãe, sufocada, perguntasse se era justo levar, antes dela, a única filha que a ajudava no trabalho da casa, tão inteligente, tão meiga, o doutor perdeu a paciência.

— Pois aí está, expirou... Morreu de fome, a desgraçada. E ela não é a única; agora mesmo vi outra ao lado. Todos vocês me chamam, mas eu não posso fazer nada, é de carne que precisam para se curarem.

     Maheu, com os dedos queimados, soltara o fósforo, e as trevas voltaram a cobrir o pequeno cadáver ainda quente. O médico partira, correndo. Etienne ouvia apenas na peça escura os soluços da mulher, invocando a morte, numa lamentação lúgubre e sem fim:

— Meu Deus, chegou a minha hora, leva-me também! Meu Deus, leva o meu marido, leva toda a minha família, por piedade, para terminar com isto!

continua na página 342...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (II.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

II

     Durante dois dias a neve caíra; naquela manhã ela parara de cair, mas um lençol branco cobria tudo. Essa região escura, de estradas negras, com paredes e árvores cobertas de poeira de hulha, estava toda branca, de uma brancura única, que se estendia ao infinito. O conjunto habitacional dos Deux-Cent-Quarante jazia sob a neve, como que desaparecido. Nem a mais leve fumaça escapava das chaminés. As casas sem fogo, tão frias como as pedras dos caminhos, não derretiam a grossa camada de neve sobre as telhas. O conjunto habitacional não era mais que um renque de lápides brancas, uma visão de vila morta, envolta na sua mortalha. Ao longo das ruas, só as patrulhas passando deixavam a marca lodosa dos seus cascos.
     Nos Maheu, a última pazada de lascas de carvão ardera na véspera; e procurar mais no aterro, com aquele tempo terrível, quando os próprios pardais não encontravam um talo de erva, era impossível. Alzire, por ter teimado em procurar na neve, estava morrendo. A mãe tivera de a enrolar num trapo de coberta, enquanto esperava o Dr. Vanderhaghen, à casa de quem já fora duas vezes sem o encontrar. A criada, no entanto, prometera que ele passaria pelo conjunto habitacional antes do anoitecer, e a mulher espiava agora pela janela, enquanto a pequena enferma, que tinha querido ficar embaixo, tiritava sobre uma cadeira, com a ilusão de que ali estava mais quente, perto do fogão apagado. O velho Boa-Morte, em frente, outra vez com as pernas endurecidas, parecia dormir. Lénore e Henri ainda não tinham voltado, andavam percorrendo as estradas em companhia de Jeanlin, pedindo esmolas. Pela sala nua, só Maheu caminhava pesadamente, tropeçando continuamente na parede, com o ar imbecilizado de um animal que já não vê mais sua jaula. O querosene também acabara, mas o reflexo da neve lá fora era tão branco, que iluminava vagamente a peça, apesar de já ser noite.
     Houve um barulho de tamancos, e a mulher de Levaque empurrou a porta como um furacão, fora de si, gritando do portal para a vizinha: 

— Então tu andaste dizendo que eu forçava meu inquilino pagar-me vinte soldos cada vez que ele dormia comigo?! 

     A outra deu de ombros. 

— Não chateies! Eu não disse nada... Mas quem te contou isso? 
— Disseram-me que tu tinhas dito, chega! E disseste também que escutavas, quando fazíamos a coisa, através das paredes, e que a sujeira era enorme na minha casa porque eu estava sempre de pernas abertas... Ainda tens coragem de negar? Fala!

     Brigas como essa eram diárias, por causa da língua das mulheres; sobretudo entre as famílias que viviam em paredes-meias, as desavenças e reconciliações não duravam um dia. Mas nunca antes maldade tão desabrida os atirara uns contra os outros. Desde a greve, a fome exasperava os rancores, todos tinham necessidade de brigar, uma explicação entre duas mulheres terminava sempre com uma luta de morte entre os dois maridos.
     Justamente nesse momento chegou Levaque, arrastando Bouteloup. 

— Aqui está o sujeito, que ele diga se já pagou vinte soldos à minha mulher para dormir com ela.

     O inquilino, que procurava esconder sua candura assustada com grandes barbas, balbuciou protestando: 

— Oh, não! Nunca, nunca paguei nada!

     Subitamente Levaque tornou-se ameaçador, com o punho no rosto de Maheu. 

— Isso agora não passa, ouviste? Quem tem uma mulher assim desanca-a de pancadas... Tu acreditas no que ela disse? 
— Mas com mil raios! — exclamou Maheu, furioso por ter sido arrancado do seu abatimento. — Vocês ainda encontram tempo para fazer intrigas? Será que a gente já não tem miséria que chegue? Deixa-me em paz ou eu te acachapo! Agora quero saber quem foi que disse que minha mulher falou isso! 
— Quem?... Foi a mulher do Pierron.

     A mulher de Maheu deu uma gargalhada sarcástica, e, voltando-se para a vizinha, disse: 

— Ah, então foi ela! Pois bem, agora vou dizer-te o que ela me disse. Ouve bem! Ela me disse que tu dormias com teus dois homens, um por cima e outro por baixo!

     A partir daí ninguém mais se entendeu. Todos estavam furiosos; os Levaque respondiam aos Maheu que a mulher de Pierron tinha dito poucas e boas a respeito deles: que tinham vendido Catherine e que estavam todos podres, até as crianças, contaminados por uma sujeira que Etienne apanhara no Volcan. 

— Ela disse isso? ela disse isso? — berrou Maheu. — Pois tudo bem, vou até lá, e, se repetir o que disse, rebento-lhe a cara.
 
     Lançou-se para a rua, os Levaque o seguiram para assistir à briga, enquanto Bouteloup, que tinha horror de disputas, voltava furtivamente para casa. Excitada pelo bate-boca, a mulher de Maheu também ia saindo quando foi retida por um gemido de Alzire. Cruzou as pontas da coberta sobre o corpo trêmulo da menina e voltou para a janela, os olhos vagando. E esse médico que não vinha!
     À porta dos Pierron, Maheu e os Levaque encontraram Lydie chafurdando na neve. A casa estava fechada, um fio de luz passava pela fenda da janela e a criança, a princípio, respondeu constrangida às perguntas: não, seu pai não estava, tinha ido ao lavadouro encontrar a Queimada, para trazer a trouxa de roupa. Depois ficou confusa, não quis dizer o que a mãe fazia naquele momento. Finalmente soltou a língua, com um riso sorrateiro de rancor: sua mãe a pusera para fora porque o Sr. Dansaert estava lá dentro e ela não os deixava conversar. O capataz passara toda a manhã no conjunto habitacional, com dois policiais, tentando recrutar operários, forçando os fracos, anunciando aos quatro ventos que, se não voltassem até segunda-feira ao trabalho, a companhia ia contratar mineiros belgas. E ao cair da tarde, tendo encontrado a mulher de Pierron sozinha, mandou embora os policiais. Depois instalara-se ali, bebendo genebra diante do fogo. 

— Psiu! Fiquem quietos, vamos espiá-los — murmurou Levaque com um riso impudente. — Em seguida tiraremos satisfações. Vai-te embora, cadelinha!

     Lydie recuou alguns passos enquanto ele punha um olho na fresta da janela. Em seguida começou a abafar risinhos, suas costas se arqueavam e fremiam. Por sua vez a mulher olhou também, mas disse, como se estivesse para vomitar, que sentia nojo. Maheu, que a empurrara, querendo ver também, declarou que já vira o bastante para poder desforrar-se. E os três recomeçaram, em fila, a olhar, como no teatro. A sala, reluzindo de tão limpa, era alegre graças ao belo fogo aceso na lareira; havia doces sobre a mesa, uma garrafa e dois copos; enfim, uma verdadeira farra. Era tanta coisa o que os dois homens viam que acabaram ficando exasperados com o que noutras circunstâncias os teria feito rir por seis meses.
     Que ela levantasse as saias e se empanturrasse de sexo até não poder mais, ainda tinha graça. Mas, diacho! não era mesmo urna sem-vergonhice fazer isso diante de um fogo tão agradável e à base dos biscoitos, quando os demais companheiros não tinham uma migalha de pão ou uma lasca de carvão? 

— Olha o papai! — gritou Lydie escapando.

     Pierron voltava tranqüilamente do lavadouro, a trouxa de roupa num ombro. Maheu foi logo interpelando-o: 

— Escuta aqui, disseram-me que tua mulher tinha falado que eu vendera Catherine e que lá em casa estávamos todos podres... E na tua, quanto paga à tua mulher o homem que neste momento está fazendo uso dela?

     Atordoado, Pierron não compreendia, quando a mulher, assustada com o vozerio, perdeu a cabeça a ponto de entreabrir a porta, para ver o que se passava. Estava toda afogueada, com o corpete aberto e a saia ainda levantada, presa à cintura, enquanto Dansaert, ao fundo, enfiava as calças, em pânico. O capataz escapou, desapareceu, temendo que uma história dessa chegasse aos ouvidos do diretor. Armou-se então um escândalo terrível, com gargalhadas, vaias e injúrias. 

— Tu que sempre andas dizendo que as outras são umas imundas — berrava a mulher de Levaque — não admira que sejas limpa, tens os chefes para te fazerem a limpeza. 
— Ah! assenta-lhe como uma luva falar mal dos outros! — continuou Levaque. — Pois não é que essa cadela disse que a minha mulher dormia comigo e o inquilino, um por cima e o outro por baixo?! Tens coragem de negar que disseste isso?

     A mulher de Pierron, porém, já dona de si, enfrentava os palavrões com um ar de desprezo, na certeza de ser a mais bonita e a mais rica. 

— O que disse está dito, e deixem-me em paz! O que é que vocês têm que ver com o que eu faço? Bando de invejosos, que nos odeiam só porque depositamos dinheiro na caixa econômica! Podem ir falar à vontade, meu marido sabe muito bem por que o Sr. Dansaert estava aqui em casa.

     E realmente Pierron se excitava, defendia a mulher. A briga tomou outros caminhos, chamaram-no de vendido, de espião, de lambe-botas da companhia; acusaram-no de fechar-se em casa para encher a barriga de guloseimas com que os chefes lhe pagavam as denúncias. Ele retrucava, dizia que Maheu enfiara um papel com ameaças por baixo de sua porta, onde estavam desenhadas duas tíbias em cruz, com um punhal por cima. E tudo aquilo terminou, forçosamente, por uma pancadaria entre os homens, como todas as intrigas de mulheres terminavam, visto que a fome punha fora de si mesmo os mais calmos. Maheu e Levaque atiraram-se sobre Pierron, massacrando-o; foi preciso separá-los. Quando a Queimada chegou do lavadouro, o sangue corria aos borbotões do nariz do genro. posta a par do que se passara, limitou-se a dizer: 

— Esse porco é a minha desonra.

     A rua ficou novamente deserta, nenhuma sombra manchava a brancura da neve. E o conjunto habitacional, imerso novamente na sua imobilidade de morte, estertorava de fome sob o frio intenso. 

— E o médico? — perguntou Maheu fechando a porta. 
— Não veio — respondeu a mulher, sempre em pé, à janela. 
— As crianças chegaram? 
— Ainda não.

     Maheu voltou ao seu caminhar pesado, de uma parede à outra, com o seu ar de boi encurralado. Entorpecido na cadeira, o velho Boa-Morte nem sequer erguera a cabeça. Alzire também permanecia silenciosa, procurava não tremer, para não os preocupar; mas, apesar de sua coragem no sofrimento, por momentos tremia tanto, que se ouviam por baixo da coberta os calafrios que percorriam seu corpinho esquelético de menina enferma, enquanto, de olhos arregalados, olhava para o teto, observando o pálido reflexo dos jardins todos brancos, que iluminavam a peça com uma claridade de luar.
     Entravam agora na última agonia, com a casa sem mais nada; era o desenlace. Atrás da lã, tinha ido para o brechó a fazenda dos colchões; depois foram os lençóis, a roupa branca, tudo aquilo que se podia vender. Uma tarde, venderam por dois soldos o lenço do avô. As lágrimas corriam a cada objeto doméstico de que tinham de se separar; e a mãe ainda se lamentava por ter levado um dia, enrolada na saia, a caixa de cartão cor-de-rosa, antigo presente do seu homem, como se tivesse sido um filho que abandonara a uma porta. Estavam nus, não tinham mais nada a vender a não ser a pele, tão carcomida, tão estragada, que ninguém daria um centavo por ela. Por isso nem se davam o trabalho de procurar, sabiam que não havia mais nada, que era o fim de tudo, que não deviam esperar nem uma vela, nem um pedaço de carvão, nem uma batata. Aguardavam apenas a morte; a única pena que sentiam era pelas crianças, revoltava-os aquela crueldade inútil, preferiam ter estrangulado Alzire a vê-la doente por causa deles. 

— Até que enfim, aí vem ele! — exclamou a mulher.

     Uma forma negra passou diante da janela. A porta se abriu. Mas não era o Dr. Vanderhaghen... Reconheceram o novo pároco, o Padre Ranvier, que não parecia surpreendido de ter entrado naquela casa morta, sem luz, sem fogo, sem pão. Acabava de sair das três casas contíguas, andava de família em família, recrutando homens de boa vontade, como Dansaert com seus policiais. Foi logo explicando-se com sua voz febril de sectário: 

— Por que não foram à missa no domingo, meus filhos? Estão errados, só a Igreja pode salvá-los... Vamos, prometam estar presentes no próximo domingo...

continua na página 336...
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Sexta Parte - (I.b) / Sexta Parte - (II.a) / Sexta Parte - (II.b) /    
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (I.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

I

continuando...

     Havia, com efeito, em toda a região, um longo fragor de ruínas. A noite, enquanto vagava pela planície escura como um lobo fora do esconderijo, parecia estar ouvindo o estrondo das falências, de uma ponta à outra do campo. À beira dos caminhos só encontrava fábricas mortas, com seus edifícios apodrecendo sob um céu baço.
     As que mais tinham sofrido eram as usinas de refinação de açúcar A Hoton e a Fauvelle, após terem reduzido o número de seus operários, haviam fechado uma atrás da outra. Na fábrica de moagem Dutilleul, a mó que ainda trabalhava tinha parado no segundo sábado do mês, e a cordoaria Bleuze, que fabricava cabos de minas fechara definitivamente suas portas por falta de trabalho. Para o lado de Marchiennes a situação agravava-se diariamente: todos os fogos apagados na vidraria Gagebois, demissões contínuas nas oficinas de construção Sonneville, dos três altos-fornos das Forjas só um aceso, nem mais uma bateria das fornalhas de coque ardendo no horizonte. A greve dos mineiros de Montsou, nascida da crise industrial que piorava havia dois anos, aumentara-a, precipitando a catástrofe. Às causas da crise, como a suspensão das encomendas da América, o estrangulamento dos capitais imobilizados num excesso de produção, juntava-se agora a falta imprevista de hulha para as poucas caldeiras que ainda permaneciam acesas — era essa a agonia suprema, a falta do pão das máquinas que os poços não forneciam mais. Assustada com o mal-estar geral, a companhia, diminuindo sua extração e esfomeando seus mineiros, em fins de dezembro encontrara-se fatalmente sem um pedaço de carvão no pátio das suas minas. Eram os elos de uma cadeia, o flagelo soprava de longe, uma queda provocava a outra, as indústrias iam-se esmagando umas às outras, numa série tão rápida de catástrofes, que as consequências repercutiam até nas cidades vizinhas — Lille, Douai, Valenciennes —, onde certos banqueiros em fuga arruinaram famílias inteiras.
     Muitas vezes, na curva de uma estrada, Etienne parava na noite gelada para ouvir choverem os escombros. Respirava profundamente as trevas, deixava-se possuir pela alegria do nada, pela esperança de que o dia raiaria sobre a exterminação do velho mundo, com todas as fortunas arrasadas, o nível igualitário passado como uma foice, rente ao chão. Mas o que mais interessava nesse massacre eram as minas da companhia. Punha se de novo a caminho, cegado pelas sombras, visitando a todas elas, feliz ao constatar algum estrago recente. Os desmoronamentos continuavam a produzir-se, e cada vez mais graves, à medida que a não-restauração das vias se prolongava. Por cima da galeria norte da Mirou, a aluição do solo tomava tais proporções, que a estrada de Joiselle afundara num percurso de cem metros, como se tivesse havido um tremor de terra. E a companhia, sem regatear, pagava aos proprietários seus campos desaparecidos, tentando aplacar os rumores que corriam a respeito de tais acidentes. Crèvecoeur e Madeleine, de rocha muito desmoronadiça, estavam cada vez mais entulhadas. Falava-se que dois contramestres tinham ficado soterrados na Victoire; uma enchente inundara a Feutry Cantel; um quilômetro de galeria na Saint-Thomas teria de murado, porque o escoramento, por falta de reparação, estava rachando por todos os lados. Dessa forma, a todo momento havia enormes despesas, brechas abertas nos dividendos dos acionistas, uma rápida destruição das minas, que, com o tempo, terminaria comendo os famosos dinheiros de Montsou, centuplicados em um século.
     Diante desses golpes repetidos, a esperança renascia em Etienne, acabava acreditando que com um terceiro mês de resistência daria cabo do monstro, do animal cansado e farto, agachado como um ídolo lá longe, no seu ignoto tabernáculo. Sabia que, com a revolta de Montsou, viva emoção se apoderara dos jornais de Paris, uma violenta polêmica entre a imprensa oficiosa e a imprensa da oposição, reportagens aterradoras que eram exploradas sobretudo contra a Internacional, a quem o império temia, depois de a ter encorajado. E, como a administração não podia continuar fazendo ouvidos de mercador, dois dos administradores tinham-se dignado vir para realizar um inquérito, mas de má vontade, sem parecerem inquietos com o desfecho, tão desinteressados que três dias depois já estavam partindo, declarando que tudo ia muito bem. Contudo, afirmavam-lhe, por outro lado, que esses senhores, durante sua permanência em Montsou, mantiveram-se em sessão permanente, desenvolvendo uma atividade febril, mergulhados em discussões das quais as pessoas em torno deles não quiseram falar. E Etienne acusava-os de simularem calma, chegava a chamar sua partida de fuga precipitada, certo agora do triunfo, já que esses homens terríveis tinham abandonado tudo.
     Mas, na noite seguinte, ficou novamente desesperado. A companhia era muito poderosa para ser abatida com tal facilidade, podia perder milhões, mais tarde os reaveria por meio dos operários, cortando-lhes o pão. Nessa noite, tendo ido até a Jean-Bart, deu-se conta da verdade, quando um vigia lhe contou que se falava em ceder Vandame a Montsou. Ao que se dizia, lavrava a miséria mais terrível na casa de Deneulin, a miséria dos ricos, o pai doente por não saber o que fazer, envelhecido com a preocupação do dinheiro, as filhas lutando com os fornecedores, tentando salvar suas camisolas.
     Nos conjuntos habitacionais famintos sofria-se menos do que nessa casa burguesa, onde se escondiam para beber água. O trabalho ainda estava suspenso na Jean-Bart, e fora preciso substituir a bomba da Gaston-Marie, isso sem falar no começo de inundação apesar do conserto imediato, exigindo grandes gastos. Deneulin apresentara enfim o pedido de empréstimo de cem mil francos aos Grégoire, cuja recusa, já esperada, acabou de abatê-lo. Os Grégoire diziam que, se recusavam, faziam-no por amizade, para o pouparem de uma luta inglória, e, ao mesmo tempo, aconselhavam-no a vender a concessão. Mas Deneulin, irredutível, continuava a dizer não. Enfurecia-o ter de pagar pela greve, preferia morrer primeiro com todo o sangue na cabeça, de apoplexia. Que mais podia fazer? Já conhecia as ofertas. Chicaneavam com ele, depreciavam aquela presa magnífica, o poço reparado, todo reequipado, onde só a falta de dinheiro paralisava a exploração. Dar-se-ia por satisfeito se pudesse conseguir o suficiente para pagar os credores. Durante dois dias batera-se com os administradores acampados em Montsou, furibundo com o jeito tranquilo com que eles exploravam suas dificuldades, gritando-lhes "nunca" com sua voz poderosa. E as negociações ficaram nisso, os administradores voltaram a Paris para esperar pacientemente seu último estertor. Etienne farejou essa compensação de desastres, cheio de desânimo diante do poderio invencível dos grandes capitais, tão fortes na batalha, que engordavam com a derrota comendo os cadáveres dos pequenos, caídos ao seu lado.
     No dia seguinte, felizmente, Jeanlin lhe trouxe uma boa notícia. Na Voreux, o revestimento do poço ameaçava ruir, a água infiltrava-se por todas as juntas, tiveram de pôr às pressas uma turma de carpinteiros para fazer a reparação.
     Até ali, Etienne tinha evitado a Voreux, temendo a eterna figura negra da sentinela, postada no aterro por cima da planície. Não era possível evitá-la, via tudo, era como a bandeira de um regimento drapejando no ar. Lá pelas três horas da madrugada, o céu tornou-se sombrio e ele foi à mina, onde alguns camaradas lhe explicaram o mau estado do revestimento; eram de opinião que teria de ser todo refeito, o que suspenderia a extração por três meses. Andou por ali longamente, escutando os martelos dos carpinteiros batendo no poço. Alegrava-lhe o coração aquela nova ferida que era preciso tratar.
     Ao alvorecer, quando voltava, encontrou a sentinela sobre o aterro. Desta vez, certamente, ela o veria. Foi-se embora pensando nesses soldados tirados de entre o povo e que eram armados contra o povo. Como o triunfo da revolução seria fácil, se o Exército, de repente se declarasse a seu favor! Bastava que o operário e o e o camponês nas casernas se lembrassem de suas origens. Esse era o perigo supremo, o grande pavor que fazia os burgueses baterem o queixo quando pensavam numa defecção possível das tropas. Em duas horas seriam varridos, exterminados, com os prazeres e as abominações de suas vidas de iniquidades. Já se dizia que regimentos inteiros estavam contaminados pelo socialismo. Seria verdade? A justiça iria triunfar graças aos cartuchos distribuídos pela burguesia? E passando para outra esperança, o rapaz começou a sonhar que as guarnições das minas também entravam em greve, fuzilando a companhia inteira e entregando enfim a mina aos mineiros.
     Notou então que subia o aterro, levado por aquelas reflexões. Por que não conversar um pouco com o soldado? Ao menos ficaria sabendo o que pensava. Com jeito despreocupado continuou aproximando-se, como se estivesse colhendo aparas de madeira abandonadas ali. A sentinela permanecia imóvel. 

— Que tempo dos diabos, hem, companheiro? — disse enfim Etienne. — Acho que vamos ter neve.

     Era um soldadinho muito louro, de rosto meigo e pálido, cheio de sardas. Parecia enleado como um recruta com aquele capote. 

— É, eu também acho — murmurou ele.

     E com os seus olhos azuis esquadrinhou longamente o céu lívido, o amanhecer fumacento, cuja fuligem pesava como chumbo sobre a planície ao longe. 

— Que ideia estúpida de porem vocês aqui, gelando até os ossos... — continuou Etienne. — Como se os cossacos estivessem por atacar... Além do mais, venta muito neste lugar.

     O soldadinho tiritava sem se queixar. Havia ali uma cabana de pedra solta, onde o velho Boa-Morte se abrigava nas noites de tempestade, mas, como a ordem era para não abandonar o topo do aterro, o soldado não se movia, com as mãos tão enregeladas que nem sentia mais a arma. Pertencia à guarnição de sessenta homens que guardava a Voreux; e, como aquele posto cruel já lhe tocara diversas vezes, estivera mesmo a ponto de lá ficar, com os pés encarangados. Isso fazia parte da profissão, uma obediência passiva tornava-o ainda mais entorpecido, respondia às perguntas com palavras tartamudeadas de criança que dormita.
     Durante um quarto de hora, Etienne tentou inutilmente falar de política. Dizia sim, não, sem parecer estar compreende-lo, seus companheiros falavam que o capitão era republicano; quanto a' ele, não tinha opinião, era-lhe indiferente. Se o mandassem atirar , ele atiraria, para não ser punido.
     O operário escutava, invadido do ódio popular contra o Exército contra esses irmãos a quem mudavam o coração, enfiando-lhe umas calças vermelhas. 

— Como é o seu nome? 
— Jules. 
— E é de que região? 
— De Plogoff, longe.

     Estendeu o braço apontando ao acaso. Era na Bretanha, só isso sabia. Seu rostinho pálido animou-se, pôs-se a rir, entusiasmado. 

— Tenho mãe e irmã. Estão-me esperando, claro. Ah, mas ainda falta um bocado! Quando parti, elas me acompanharam até Pont-D'Abbé. Os Lepalmec tinham-nos emprestado o cavalo, ele quase quebrou as patas na descida do Audierne. O primo Charles nos estava esperando com uma panelada de salsichas, mas as mulheres choravam tanto que a gente nem podia comer... Ah! meu Deus! como estou longe de casa...

     Seus olhos encheram-se de lágrimas sem que deixasse de rir. A charneca deserta de Plogoff, a ponta selvagem de Raz, assolada pelas tempestades, apareciam-lhe como uma miragem brilhando ao sol, na estação cor-de-rosa das urzes. 

— Será que — perguntou ele —, se eu não tiver punições, você acha que eles me darão uma licença de um mês, daqui a dois anos?

     Etienne então começou a falar da Provença, de onde saíra em criança. Amanhecia, flocos de neve voltejavam no céu plúmbeo. Começou a ficar nervoso ao vislumbrar Jeanlin que se esgueirava por entre as moitas, estupefato de o ver ali. O menino chamava-o com acenos. De que servia esse sonho de confraternizar com os soldados? Seriam ainda necessários anos e anos, sua tentativa inútil deixou-o abatido, como se estivesse contando com o êxito. Repentinamente compreendeu os gestos de Jeanlin: vinham render a sentinela. Afastou-se correndo, foi enfiar-se em Réquillart, o coração mais uma vez lacerado pela certeza da derrota, enquanto o garoto corria ao seu lado, acusando o canalha do soldado de ter chamado a guarda para atirar neles.
     No topo do aterro, Jules permanecera imóvel, o olhar perdido na neve que caía . O sargento aproximou-se com seus homens e os gritos regulamentares foram trocados: 

— Quem vem lá? Passe a senha!

     E ouviram-se os passos pesados partindo de novo, soando como terra conquistada. Apesar de já ser dia, ninguém se mexia nos conjuntos habitacionais; os mineiros, calados, enfureciam-se sob o tacão militar.

continua na página 331...
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Sexta Parte - (I.b) / Sexta Parte - (II.a)  
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (I.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

I



     Transcorreu a primeira quinzena de fevereiro, um frio inclemente prolongava o duro inverno, sem piedade dos miseráveis. Outra vez as autoridades tinham percorrido as estradas: o prefeito de Lille, um procurador e um general. E os policiais não foram suficientes, a tropa viera ocupar Montsou, um regimento inteiro, com seus homens acampando de Beaugnies a Marchiennes. Destacamentos armados guardavam os poços, havia soldados diante de cada máquina. O palacete do diretor, os depósitos da companhia, até mesmo as casas de certos burgueses estavam cercadas pelas baionetas. Ao longo das ruas só se ouvia agora o lento desfilar das patrulhas. No aterro da Voreux, uma sentinela permanente dava guarda, vigiando a planície rasa, sob o látego gelado do vento que soprava lá em cima. E de duas em duas horas, como em país inimigo, ressoavam os gritos da sentinela: 

— Quem vem lá?... Passe a senha!

     O trabalho ainda não recomeçara em lugar nenhum. Pelo contrário, a greve agravara-se: a Crèvecoeur, a Mirou, a Madeleine tinham suspendido a extração, como a Voreux; a Feufry-Cantel e a Victoire sofriam com uma diminuição diária do seu pessoal; na Saint-Thomas, até então indene, os trabalhadores estavam faltando. A greve transformara-se numa obstinação muda diante daquela exibição de força, que exasperava o orgulho dos mineiros. Os conjuntos habitacionais pareciam desertos no meio das plantações de beterraba. Não se avistava um único operário; se por acaso um homem surgia, estava isolado, olhava de soslaio, baixando a cabeça diante dos calças-vermelhas. E sob essa grande paz pressaga, naquela teimosia passiva de encontro aos fuzis, havia uma resignação mentirosa, a obediência forçada e passiva das feras enjauladas, que mantêm os olhos fixos no domador, prontas para lhe saltarem na nuca no momento em que ele dê as costas. A companhia, que tal paralisação do trabalho estava arruinando, andava dizendo que ia contratar os mineiros do Borinage, na fronteira belga, mas não se atrevia. De maneira que a batalha estava nesse pé, entre os operários que se encerravam em casa e as minas vazias, guardadas pela tropa.
     A partir do dia seguinte à jornada terrível, produzira-se essa paz, de uma só vez, acobertando tal pânico, que se falava o menos possível sobre os estragos e as atrocidades. O inquérito aberto estabelecia que Maigrat morrera com a queda e a horrenda mutilação do cadáver permanecia inexplicada, já envolta em lenda. Por seu lado, a companhia não confessava os prejuízos sofridos, e os Grégoire não tinham a intenção de comprometer sua filha no escândalo de um processo, onde ela teria de testemunhar. Mas assim mesmo algumas prisões tinham sido efetuadas, de gente com papel insignificante nos acontecimentos, como sempre, de imbecis e pobres diabos que não sabiam de nada. Por engano, Pierron tinha ido algemado até Marchiennes, fato de que os outros ainda riam. Rasseneur também quase foi parar lá, entre dois policiais. Na direção contentavam-se em preparar as listas de demissão, devolviam as carteiras de trabalho em massa: Maheu recebera a sua, Levaque também, assim como mais trinta e quatro dos seus companheiros, só do conjunto habitacional dos Deux-Cent-Quarante. E toda a severidade recaía sobre Etienne, desaparecido desde a noite da revolta, e que estava sendo procurado, sem que pudessem encontrar traço seu. Chaval, no seu ódio, denunciara-o, recusando-se a nomear os outros, devido às súplicas de Catherine, que queria salvar seus pais. Os dias passavam, todos sentiam que nada acabara, esperava-se o desenlace com o peito oprimido por uma angústia.
     A partir daí, os burgueses de Montsou acordavam aos sobressaltos todas as noites, ouvindo toques de alerta imaginários, as narinas invadidas pelo mau cheiro da pólvora. Mas o que acabou de transtorná-los foi um sermão do novo pároco, o Padre Ranvier, esse sacerdote magro, de olhos ardentes como brasas, que sucedia o Padre Joire. Como se estava longe da prudência sorridente deste, da sua única preocupação de homem gordo e bondoso, que era viver em paz com todo o mundo! Pois não é que o Padre Ranvier tivera o desplante de tomar a defesa dos detestáveis bandidos que estavam desonrando a região? Encontrava desculpas para as atrocidades dos grevistas e atacava violentamente a burguesia, sobre a qual lançava das as responsabilidades. Era a burguesia que, espoliando a Igreja das suas liberdades antigas em proveito próprio, transformara este do num lugar maldito de injustiça e sofrimentos; era ela, a burguesia, que prolongava as disputas, que empurrava a sociedade para uma catástrofe horrível com seu ateísmo, sua recusa em voltar à crença, às tradições fraternais dos primeiros cristãos. Ousou mesmo ameaçar os ricos, advertindo-os de que, se continuassem teimando em não escutar a voz de Deus, certamente ele se poria ao lado dos pobres, tiraria as fortunas dos ricos incrédulos e as distribuiria entre os humildes desta terra, para sua maior glória. As beatas tremiam, o notário declarou que aquilo era o pior socialismo, todos viam o padre como cabeça de um bando, brandindo uma cruz, demolindo a sociedade burguesa de 89 a grandes golpes.
     Quando o Sr. Hennebeau foi cientificado, contentou-se em dizer, dando de ombros: 

— Se nos incomodar demasiado, o bispo nos livrará dele.

     E, enquanto o pânico soprava de uma ponta a outra da planície, Etienne morava nas entranhas da terra, no fundo de Réquillart, na toca de Jeanlin. Era ali que ele se escondia, ninguém o julgava tão perto. A tranquila audácia daquele refúgio, na própria mina, na via abandonada do velho poço, tinha feito malograr as buscas. Em cima, as ameixeiras silvestres e os espinheiros, crescidos por entre os caibros caídos da torre do sino de rebate, tapavam o buraco; ninguém se arriscava a entrar por ali, para tanto era preciso conhecer muito bem a manobra, pendurar-se nas raízes da sorveira, deixar-se cair sem receio, para atingir os degraus ainda firmes. Havia outros obstáculos que o protegiam: o calor sufocante do fosso, cento e vinte metros de descida perigosa, depois o penoso rastejar por um quarto de légua, entre os muros estreitos da galeria, antes de chegar à infame caverna, cheia de rapinas. Ali ele vivia na maior abundância, encontrara genebra, o resto do bacalhau seco, provisões de toda a espécie. A grande cama de palha era excelente, não havia corrente de ar naquela temperatura igual, de uma tepidez de banho. Apenas a luz ameaçava faltar. Jeanlin, que se fizera seu provedor, com uma prudência e uma discrição de selvagem, encantado de enganar os policiais, chegava a trazer-lhe até pomada, mas não conseguia pôr a mão num pacote de velas.
     A partir do quinto dia, Etienne só acendeu a luz para comer. Não conseguia engolir no escuro. Essa noite interminável, total, sempre da mesma escuridão, era o seu grande sofrimento. Não adiantava dormir em segurança, estar aquecido, ter o que comer sentia como nunca sentira aquela noite pesando sobre sua cabeça. Tinha a sensação de que ela estava esmagando seus pensamentos! E agora, ainda por cima, vivia de roubos! Apesar de suas teorias comunistas, os velhos escrúpulos de educação acordavam; então contentava-se com pão seco, diminuía sua ração. Mas que fazer? Tinha de continuar vivendo, sua tarefa ainda não estava concluída Outro remorso o afligia ao lembrar-se daquela bebedeira selvagem da genebra emborcada a sangue-frio, com o estômago vazio, e que o lançara contra Chaval, de faca em punho. Isso revolvia nele todo um desconhecimento apavorante, o mal hereditário, a longa hereditariedade da embriaguez, não bebendo sequer uma gota de álcool sem cair no furor homicida. Terminaria como assassino? Quando se vira abrigado, naquela sossegada profundidade da terra, saciado de violência, dormira dois dias consecutivos com um sono de animal empanturrado, embrutecido. E a repugnância persistia, sentia-se moído, com a boca amarga, a cabeça doente, como numa interminável ressaca. Transcorreu uma semana; os Maheu, avisados, não puderam enviar uma vela; teve de renunciar à claridade, mesmo para comer.   
     Agora, horas a fio, Etienne permanecia deitado na sua palha. IdEias obscuras, que não julgava ter, atormentavam-no. Era uma sensação de superioridade que o colocava acima dos seus camaradas, uma exaltação da sua pessoa, à medida que se ia instruindo. Nunca refletira tanto, perguntava se a causa daquele fastio no dia seguinte ao da furiosa sarabanda nas minas. Mas não ousava responder, repugnavam-lhe as coisas de que se lembrava: a baixeza das cobiças, a grosseria dos instintos, o fedor de toda aquela miséria sacudida aos quatro ventos. Apesar do tormento das trevas, chegava a temer a hora em que teria de voltar ao conjunto habitacional. Que náusea, todos aqueles miseráveis amontoados, comendo no cocho comum! Nenhum com quem se pudesse falar seriamente sobre política, uma existência de gado, sempre o mesmo ar empestado do cheiro de cebola em que se sufocava! Queria descortinar-lhes um horizonte mais vasto, elevá-los ao bem-estar e às boas maneiras da burguesia, fazer deles os senhores... Mas que caminho a percorrer! Já não se sentia com coragem para atingir a vitória naquele desterro da fome. Lentamente, a sua vaidade de ser o chefe, sua preocupação constante de pensar por eles o distanciavam, insuflando lhe a alma de um desses burgueses que execrava.
     Uma noite Jeanlin trouxe um coto de vela, roubado da lanterna de um carroceiro, e isso foi um grande alívio para Etienne. Quando trevas começavam a embrutecê-lo, pesando-lhe sobre a cabeça a ponto de sentir que ia enlouquecer, acendia a luz por um instante. Mas assim que expulsava o pesadelo, apagava a vela, avaro daquela claridade tão necessária à sua vida como o pão. O silêncio zumbia nos seus ouvidos, ouvia apenas a fuga de algum bando de ratos, os estalidos do madeirame velho, o levíssimo ruído de uma aranha fiando sua teia. E, com os olhos abertos naquele vazio absoluto, porém tépido. voltava à sua ideia fixa, ao que estariam fazendo os companheiros lá em cima. Uma defecção sua ter-lhe-ia parecido a última das covardias. Se se escondia assim era para permanecer livre, para aconselhar e agir.
     Suas longas meditações tinham delineado sua ambição: enquanto o melhor não acontecia, quisera ser Pluchart, largar o trabalho, viver unicamente para a política, mas sozinho, num quarto limpo, sob pretexto de que o trabalho intelectual absorve a vida inteira e exige muita calma.
     No começo da segunda semana, como o menino lhe dissesse que os policiais acreditavam que ele tivesse atravessado a fronteira para a Bélgica, Etienne ousou sair da sua toca, assim que a noite desceu. Desejava estudar a situação, ver se deveriam continuar obstinando-se. Na sua opinião, a partida estava comprometida; antes da greve, duvidava do resultado; apenas cedera aos fatos; agora, após a embriaguez da rebelião, voltava à sua primeira dúvida, desistindo de fazer ceder a companhia. Mas ainda não queria confessá-lo a si próprio, a angústia o torturava quando imaginava os horrores da derrota, toda a pesada responsabilidade de sofrimento que cairia sobre ele. O fim da greve não seria o fim do seu papel, sua ambição derrubada, sua existência caindo outra vez no embrutecimento da mina e no asco do conjunto habitacional mineiro? E, honestamente, sem raciocínios baixos e mentirosos, esforçava-se em readquirir a fé, em convencer-se de que a resistência ainda era possível, que o capital ia destruir-se a si mesmo ante o suicídio heroico do trabalho.

continua na página 325...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.