Mostrando postagens com marcador EZola. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador EZola. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (V.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

V


     O Sr. Hennebeau fora à janela do seu gabinete para ver a partida da caleça que levava sua mulher para almoçar em Marchiennes. Por um instante, seu olhar seguira Négrel, que trotava ao lado da portinhola, depois foi sentar-se tranquilamente à sua mesa. A casa parecia vazia sem a presença buliçosa da mulher e do sobrinho. Justamente naquele dia era o cocheiro quem guiava a carruagem; Rose, a nova camareira, estava de licença até as cinco horas; só Hippolyte, o camareiro, permanecera, locomovendo-se à vontade pelas peças, e, naturalmente, a cozinheira, ocupada desde o amanhecer com suas panelas, toda entregue ao jantar que seus patrões dariam à noite. De modo que o Sr. Hennebeau planejara um dia de ande trabalho, na calma imensa da casa deserta.
     Lá pelas nove horas, Hippolyte, ainda que tivesse recebido ordem para não deixar ninguém entrar, tomou a liberdade de anunciar Dansaert que trazia notícias. Foi só então que o diretor soube da reunião da véspera, na floresta. E os detalhes eram a tal ponto pormenorizados que ele os escutou pensando nos amores do capataz com a mulher de Pierron, tão conhecidos, que duas ou três cartas anônimas por semana denunciavam os desregramentos do seu empregado: evidentemente o marido falara, aquela delação cheirava a travesseiro. Aproveitou a ocasião, deu a entender que sabia de tudo, mas apenas recomendou um pouco de prudência, para evitar escândalo. Assustado com aquelas acusações durante seu relatório, Dansaert negou, gaguejando desculpas, enquanto seu narigão confessava o crime, subitamente rubro. Mas não quis insistir, contente de se ver desculpado com tanta bonomia, porque, de ordinário, o diretor mostrava-se de uma severidade implacável de homem puro, quando algum empregado resolvia regalar-se com alguma moça bonita durante o trabalho. A conversa continuou sobre a greve; essa reunião da floresta não passava ainda de uma fanfarronada de baderneiros, não havia uma ameaça séria. Em todo o caso, certamente os conjuntos habitacionais mineiros não se mexeriam nos próximos dias, graças à impressão de medo e respeito que lhes fora inculcada pelo desfile militar da manhã.
     Quando o capataz partiu, o Sr. Hennebeau esteve a ponto de enviar um telegrama ao prefeito. Apenas o receio de dar provas de nervosismo o reteve. Já não se perdoava sua falta de faro, que o levara a dizer aos quatro ventos, e mesmo escrever à administração, que a greve não duraria mais do que uma quinzena. Para sua grande surpresa, ela se arrastava havia dois meses. Desesperava-se com isso, sentia-se humilhado, comprometido, forçado a imaginar algo brilhante, se queria voltar às boas graças dos administradores. Acabava de pedir-lhes instruções na eventualidade de alguma desordem. A resposta não vinha, esperava-a pelo correio da tarde. E perguntava-se se ainda estaria em tempo de enviar telegramas, pedindo a ocupação militar das minas, se essa fosse a opinião de Paris. Segundo ele, isso resultaria numa batalha, com sangue e mortos. Semelhante responsabilidade perturbava-o, apesar de sua habitual energia.
     Até as onze horas trabalhou sem ser incomodado, sem outro ruído na casa morta que o da escova de encerar que Hippolyte manejava, muito ao longe, numa peça do primeiro andar. Depois uma após a outra, recebeu duas mensagens, a primeira anunciando a invasão da Jean-Bart pelos grevistas de Montsou, a segunda falando dos cabos cortados, das fornalhas apagadas, de todos os estragos. Não podia compreender. Que tinham ido fazer os grevistas na concessão de Deneulin, em vez de atacarem uma mina da companhia? Aliás, que arrasassem Vandame à vontade, isso não fazia mais que ajudar o plano de conquista que tramava. Ao meio-dia almoçou sozinho na vasta sala, servido em silêncio pelo criado, do qual nem mesmo os passos ouvia. Esta solidão tornava ainda mais sombrias as suas preocupações. Sentiu o sangue gelando nas veias quando um contramestre, que viera correndo, foi introduzido e lhe contou a marcha do bando sobre a Mirou. Quase em seguida, quando acabava de tomar café, um telegrama lhe informou que a Madeleine e a Crèvecoeur também estavam ameaçadas. Desse momento em diante sentiu-se extremamente perplexo. Esperava o correio às duas horas: devia pedir tropas imediatamente? ou seria melhor esperar, para não agir antes de ter conhecimento das ordens da administração? Voltou ao gabinete, quis ler uma nota para o prefeito, que na véspera pedira a Négrel que redigisse, mas não conseguiu encontrá-la. Pensou que talvez o rapaz a tivesse deixado no seu quarto, onde muitas vezes escrevia durante a noite. E, sem tomar uma decisão, perseguido pela idéia da nota, subiu ao quarto do sobrinho para procurá-la.
     Ao entrar, o Sr. Hennebeau teve uma surpresa: o quarto não estava arrumado, sem dúvida por esquecimento ou preguiça de Hippolyte. Reinava ali um calor úmido, o calor abafado de uma noite inteira, aumentado pelo escapamento do calorífero que ficara aberto. Seu olfato foi açulado, quase sufocado com um perfume penetrante, que julgou ser o cheiro dos sais de banho, de que a bacia estava cheia. Uma grande desordem reinava na peça, roupas espalhadas, toalhas molhadas jogadas nos encostos das cadeiras, a cama descoberta, um lençol puxado, arrastando-se no tapete. Quando entrou, apenas lançou um olhar distraído a tudo aquilo, dirigindo-se para uma mesa coberta de papéis, em busca da nota desaparecida. Por duas vezes examinou os papéis, um por um, e decididamente o que buscava não estava entre eles. Onde diabo teria o desmiolado do Paul escondido o documento?
     E ao voltar para o centro do quarto, olhando por cima de cada móvel, percebeu, na cama descoberta, algo que brilhava como uma faísca. Aproximou-se maquinalmente e estendeu a mão. Era um pequeno frasco de ouro entre duas pregas do lençol. Imediatamente reconheceu-o como da Sra. Hennebeau, o frasco de éter do qual ela nunca se separava. Continuava sem compreender como aquele objeto viera parar na cama de Paul. Num átimo ele se transformara: estava horrivelmente pálido. Sua mulher tinha dormido ali. 

— Desculpe — murmurou Hippolyte da porta. — Como vi o senhor subir...

     O criado entrou, olhando espantado para a desordem da peça. 

— Meu Deus! É verdade que este quarto ainda não foi arrumado! Também, a Rose saiu, deixando tudo nas minhas costas..

     O Sr. Hennebeau escondia o frasco na mão, apertando-o com toda a força. 

— Quer alguma coisa? 
— Está aí outro homem... Veio da Crèvecoeur trazendo uma carta. 
— Está bem. Pode ir, e diga-lhe que me espere.

     Sua mulher tinha dormido ali! Correu o ferrolho da porta, abriu a mão e olhou o frasco, que lhe deixara um sinal vermelho na pele. E subitamente começou a compreender, a ver claro, aquela sujeira tinha lugar em sua casa havia meses. Lembrou-se da sua antiga suspeita, os ruídos leves contra as portas, os pés descalços caminhando de noite pela casa silenciosa. Era isso! Sua mulher subia para dormir ali...
     Caído sobre uma cadeira, em frente à cama que contemplava fixamente, permaneceu por algum tempo como se tivesse sido golpeado. Foi despertado por um barulho, alguém batia à porta, tentando abrir. Reconheceu a voz do criado: 

— Sr. Hennebeau... Ah! está fechado por dentro... 
— Que quer? 
— Parece que é urgente, os operários estão quebrando tudo. Há mais dois homens lá embaixo. Chegaram telegramas... 
— Deixe-me em paz! Já vou.

     A ideia de que Hippolyte teria descoberto o frasco, se tivesse arrumado o quarto de manhã, deixava-o gelado. Aliás, esse criado já devia saber: inúmeras vezes encontrara a cama ainda quente do adultério, cabelos da mulher caídos no travesseiro, manchas execrandas enodoando os lençóis. Se vinha a todo o momento importuná-lo, era por maldade.
     Quantas vezes não teria ficado com o ouvido colado à porta excitado com a devassidão dos patrões?
     O Sr. Hennebeau permaneceu imóvel, olhando para a cama. o longo passado de sofrimentos veio-lhe à memória, seu casamento com aquela mulher, o imediato mal-entendido, tanto físico como espiritual, os amantes que ela tivera sem que ele desconfiasse, aquele que tolerara por dez anos como se tolera uma perversão a uma doente. Depois, foi a chegada deles a Montsou, a louca esperança de curá-la, meses de languidez, de exílio modorrento, a aproximação da velhice, que enfim iria trazê-la de volta para ele. Mas surgia o sobrinho, esse Paul de quem ela se intitulava mãe, a quem falava do seu coração morto, enterrado em cinzas para todo o sempre. E ele, marido imbecil, nada via, na adoração por aquela mulher que era sua, que tantos homens tinham possuído e só ele não podia ter. Adorava-a com uma paixão vergonhosa, a ponto de cair de joelhos se ela resolvesse dar-lhe o resto dos outros. E o resto dos outros ela dava àquele rapaz.
     Nesse momento, um toque de campainha longínquo fez o Sr. Hennebeau estremecer. Reconheceu-o, era o toque que se dava, seguindo suas ordens, quando chegava o carteiro. Levantou-se, falou em voz alta, num assomo de vulgaridade que jorrava da garganta, escapando ao seu controle.

— Ah! Que um raio os parta! Pouco me importam os telegramas e as cartas dessa gente!

     Sentia-se invadido pelo ódio, necessitava de uma cloaca para nela enterrar toda essa imundície, esmagando-a com os pés. Aquela mulher era uma cadela! Procurava palavras indecorosas, para com elas emporcalhar a sua imagem. A repentina ideia do casamento entre Cécile e Paul, que ela arranjava com um sorriso tão inocente, acabou de exasperá-lo. Então nem sequer havia paixão, ou ciúme, em toda aquela sensualidade arrebatada? Na idade dela, já não devia ser mais do que um brinquedo perverso, a fixação no homem, uma recreação degustada como uma sobremesa a que estivesse acostumada. Acusava-a de tudo, quase inocentava o rapazinho que ela, com rejuvenescido apetite, mordera, como se morde o primeiro fruto verde, roubado na estrada. Quem mais devoraria, até onde desceria quando não houvesse mais sobrinhos condescendentes, bastante práticos para aceitarem em sua família, mesa, cama e mulher?
     Bateram timidamente na porta e Hippolyte disse, com medo, pelo buraco da fechadura: 

— O correio, Sr. Hennebeau... E está aí outra vez o Sr. Dansaert dizendo que se estão matando... 
— Inferno! Já vou!

     Que faria com eles? Expulsá-los quando voltassem de Marchiennes, como animais nojentos que não queria mais ter sob seu teto? Agarraria um pau e lhes gritaria que fossem espalhar longe dele o veneno de seu concubinato. Eram seus suspiros, seus hálitos confundidos que aumentavam o calor úmido daquele quarto; o cheiro penetrante que o sufocara era o cheiro de almíscar que exalava a pele de sua mulher, outro gosto depravado, uma necessidade carnal de perfumes violentos. Reconheceu então o calor, o cheiro de fornicação, o adultério vivendo nos vasos desarrumados, nas bacias ainda cheias, na desordem dos lençóis, dos móveis, da peça inteira, corrompida pelo vício. Um furor de impotência atirou-o para cima da cama aos murros, massacrou-a, amarfanhou os lugares onde via a marca dos dois corpos, furioso com as cobertas arrancadas, com os lençóis usados, moles e inertes sob seus golpes, como que também exaustos pela longa noite de amor.
     Mas de repente pareceu-lhe ouvir Hippolyte subindo outra vez. Envergonhado, parou.
     Ficou por um momento ainda ofegante, enxugando a testa, acalmando as batidas do coração. Em pé defronte de um espelho, contemplou seu rosto, tão descomposto que não chegava a reconhecê-lo. Depois, quando viu que voltava ao normal, por um supremo esforço de vontade, desceu.
     Embaixo, cinco mensageiros, sem contar Dansaert, esperavam. Todos traziam notícias de gravidade crescente sobre a marcha dos grevistas pelas minas. O capataz contou com detalhes os acontecimentos da Mirou, salva pelo valoroso comportamento do velho Quandieu. Ele escutava, balançava a cabeça, mas não sabia o que o outro estava dizendo; seu espírito ficara lá em cima, no quarto. Por fim disse que podiam ir, prometendo tomar medidas. Vendo-se outra vez só, sentado em frente à sua mesa, pareceu adormecer, a cabeça entre as mãos, os olhos abertos. A correspondência estava ah, sobre a mesa, e decidiu procurar a carta esperada, a resposta da administração, cujas linhas, a princípio, dançaram ante seus olhos Contudo, acabou por compreender que os administradores queriam uma reação; claro, não lhe ordenavam que piorasse as coisas, mas davam a entender que alguns choques apressariam o desenlace da greve, provocando uma repressão enérgica. Desse momento em diante não hesitou mais, enviou telegramas para toda parte, ao prefeito de Lille, ao quartel do exército de Douai, à polícia de Marchiennes. Era um alívio, agora podia encerrar-se em casa, fez até espalhar boatos de que estava com gota. E durante toda a tarde escondeu-se no seu gabinete, sem receber ninguém, lendo apenas os telegramas e cartas que continuavam a chover. Seguiu assim de longe o bando da Madeleine à Crèvecoeur, da Crèvecoeur à Victoire, da Victoire à Gaston-Marie. Por outro lado, chegavam-lhe informações sobre o desnorteamento dos policiais e da cavalaria, perdidos pela estrada, sempre saindo das minas que iam ser atacadas. Podiam matar se e destruir tudo, colocara novamente a cabeça entre as mãos, os dedos apertando os olhos, engolfados no grande silêncio da casa vazia, onde se ouvia apenas, e espaçadamente, o barulho das caçarolas da cozinheira preparando o jantar.
     O crepúsculo já escurecia a peça, eram cinco horas quando uma algazarra fez que o Sr. Hennebeau acordasse sobressaltado, saindo do torpor e da inércia em que se encontrava, sempre com os cotovelos fincados na mesa. Por um momento pensou que eram os dois miseráveis que voltavam. Mas o tumulto ia num crescendo, e ao aproximar-se da janela deu-se uma terrível explosão de vozes: 

— Pão! Pão! Pão!

     Eram os grevistas que invadiam Montsou, enquanto os policiais, acreditando em um ataque à Voreux, galopavam em sentido contrário para ocupar aquela mina.

continua na página 293...
____________________

Quinta Parte - (V.a) /
 ____________________

O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

domingo, 17 de maio de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (IV.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

IV


     Sem que soubessem de onde partia, uma nova palavra de ordem lançou-os para outra mina. 

— À Victoire! À Victoire!

      Será que não havia policiais ou cavalaria na Victoire? Não sabiam. Todos pareciam tranquilizados. E, dando meia volta, desceram para o lado de Beaumont, atalhando pelos campos para voltarem à estrada de Joiselle. O leito da estrada de ferro barrava a passagem; atravessaram-no pondo abaixo as cercas. Agora aproximavam-se de Montsou, a lenta ondulação dos terrenos era mais baixa, alargando o mar das plantações e beterraba, muito ao longe, até as casas escuras de Marchiennes.
      Desta vez era uma caminhada de cinco quilômetros bem contados. Tamanho entusiasmo os empurrava que nem sentiam o cansaço atroz, os pés alquebrados e esfolados. O bando era cada vez maior, aumentando sempre com os companheiros apanhados pelo caminho e nos conjuntos habitacionais. Quando atravessaram o canal pela ponte Magache e se apresentaram diante da Victoire, já eram dois mil. Mas já tinham dado três horas, o trabalho terminara, não havia um só homem no fundo da mina. A decepção que sentiram explodiu em vãs ameaças, a única coisa que fizeram foi receber a cacos de tijolos os operários do desaterro que chegavam para pegar o trabalho. Invadiram a mina, que, deserta, passou a pertencer-lhes. E, no seu desapontamento por não terem uma cara de traidor para esbofetear, atiraram-se às coisas. Um bolsão de rancor rebentava neles, uma pústula envenenada, que se enchera aos poucos. Anos e anos de fome os torturavam com uma sede de massacre e destruição.
     Atrás de um galpão, Etienne divisou uns carregadores que enchiam uma carroça de carvão. 

— Deem o fora! — ordenou ele. — Daqui não sai um pedaço!

     À sua ordem, acorreram uns cem grevistas, e os carregadores mal tiveram tempo de escapar. Enquanto uns desatrelavam os cavalos, que, assustados, partiram a galope, ferroados nas ancas, outros emborcavam a carroça e quebravam os varais.
     Levaque, com violentas machadadas, destruía os cavaletes para pôr abaixo os passadiços. Como resistissem, teve a ideia de arrancar os trilhos, de cortar a linha de um extremo a outro do pátio. Em seguida, todo o bando trabalhava para o mesmo fim. Maheu fez saltar os suportes de ferro fundido dos carris com a sua barra de ferro, que usava como alavanca. Enquanto isso, a Queimada, liderando as mulheres, invadia o depósito de lâmpadas, onde os porretes, dirigidos para todos os lados, cobriam o chão de estilhaços. A mulher de Maheu, fora de si, batia tão forte como a de Levaque. Todas elas ficaram cobertas de azeite, a filha de Mouque limpava as mãos na saia, rindo de ver-se tão suja. Por brincadeira, Jeanlin tinha-lhe despejado uma lâmpada pescoço abaixo.
     Mas essas vinganças não enchiam a barriga. Os estômagos gritavam mais alto. E a grande lamentação dominou outra vez o tumulto: 

— Pão! Pão! Pão!

     Justamente na Victoire, um antigo contramestre tinha uma cantina. Certamente com medo, abandonara a sua barraca. Quando as mulheres voltaram, tendo os homens acabado de destruir a linha férrea assediaram a cantina, cujas janelas cederam imediatamente. Não encontraram pão, só havia dois pedaços de carne crua e um de batatas. Mas, enquanto pilhavam, descobriram umas cinquenta garrafas de genebra, que desapareceram como uma gota de água na areia.
     Etienne, que já esvaziara seu cantil, pôde reabastecê-lo. Pouco a pouco, uma embriaguez perigosa, a embriaguez dos famintos, congestionava seus olhos, fazia que seus dentes parecessem de lobo entre os lábios pálidos. De repente notou que Chaval tinha escapado durante o tumulto. Pôs-se a praguejar e alguns homens correram para caçar o fugitivo, que se escondia com Catherine por trás de um monte de lenha. 

— Ah! cachorro sem-vergonha! — berrou Etienne. — Então tens medo de te comprometer? E eras tu que na floresta pedias a greve dos mecânicos para parar as bombas!... Agora queres escapar, deixando-nos sozinhos na enrascada, hem? Pois muito bem, com mil raios! Vamos voltar à Gaston-Marie, eu quero que tu quebres a bomba. É isso! com mil raios! tu vais quebrá-la!

     Estava bêbado, ele próprio lançava seus homens contra a bomba que tinha salvo algumas horas antes. 

— À Gaston-Marie! A Gaston-Marie!

     Todos o aclamaram e se precipitaram, enquanto Chaval, agarrado pelos ombros, arrastado, empurrado violentamente, continuava a pedir que o deixassem lavar-se. 

— Vai-te embora! — gritou Maheu a Catherine, que também corria.

     Desta vez ela nem sequer recuou, levantando para seu pai uns olhos ardentes, e continuou a correr.
     Outra vez o bando invadiu a planície rasa. Voltava sobre seus passos, pelas compridas estradas retas, pelas terras cada vez mais amplas. Eram quatro horas; o sol, que se punha no horizonte, lançava no solo gelado as sombras daquelas hordas, de grandes gestos furiosos.
     Desviaram-se de Montsou, dirigindo-se mais para cima, para a estrada de Joiselle. E, para não darem a volta pela Fourche-aux-Boeufs, passaram pelos muros da Piolaine. Naquele momento, precisamente, os Grégoire acabavam de sair para visitar o notário, antes de irem jantar com os Hennebeau, onde deveriam encontrar Cécile. A propriedade parecia dormir, com sua avenida de tílias deserta, sua horta e seu pomar pelados pelo inverno. Nada se movia na casa, cujas janelas fechadas se embaciavam devido ao aquecimento interno. E do profundo silêncio emanava uma impressão de bonomia e bem-estar, a sensação patriarcal de camas fofas e mesa farta, de felicidade tranquila em que decorria a existência dos proprietários.
     Sem parar, o bando lançou olhares sombrios através das grades, ao longo dos muros protetores, eriçados de cacos de garrafa. E o grito recomeçou: 

— Pão! Pão! Pão!

     Apenas os cães responderam com latidos furiosos, dois enormes dinamarqueses de pelo fulvo, que se punham nas patas traseiras, de goelas arreganhadas. E, por trás de uma persiana fechada, não havia mais que as duas criadas. Melanie, a cozinheira, e Honorine, a camareira, atraídas por aquele grito, suando de medo, empalidecendo ao verem desfilar aquele bando de selvagens. As duas caíram de joelhos, julgando-se mortas, ouvindo uma pedra, uma só, que quebrava o postigo da janela ao lado. Era mais uma de Jeanlin, que fabricara uma funda com um pedaço de corda, e, de passagem, enviava lembranças aos Grégoire. Mas já voltara a soprar a sua cometa e a turba sumia-se ao longe, com o grito cada vez mais fraco: 

— Pão! Pão! Pão!

     Quando chegaram à Gaston-Marie, eram ainda em maior número, mais de dois mil e quinhentos furiosos, quebrando tudo, varrendo tudo, com a força impetuosa de uma torrente. Os policiais tinham passado por ali uma hora antes, seguindo depois para os lados da Saint-Thomas, mal informados por camponeses, sem mesmo tomarem a precaução, na sua pressa, de deixar uma guarnição de alguns homens, para proteger a mina. Em menos de quinze minutos as fornalhas foram emborcadas, as caldeiras, esvaziadas, as construções, invadidas e devastadas. Mas a bomba era o alvo principal. Não bastou que parasse com um último sopro de vapor, atiravam-se contra ela como a uma pessoa viva, a quem quisessem tirar a vida. 

— Dá o primeiro golpe! — repetia Etienne, metendo um martelo na mão de Chaval. — Vamos! Não juraste como os outros?

     Chaval tremia, recuava. E no acotovelamento o martelo caiu, enquanto os outros, sem esperar mais, destruíram a bomba com barras de ferro, tijolos, com tudo o que encontravam à mão. Alguns chegaram a esbordoá-la com varas. Os parafusos saltavam, as peças, de aço e de cobre deslocavam-se, como membros arrancados. Um golpe de enxada violentíssimo fez em pedaços o corpo de ferro fundido e a água jorrou. A bomba, ao esvaziar-se, fez um ruído de gargarejo, semelhante a um arranco de agonia.
     Era o fim. O bando voltou para fora, enlouquecido, atropelando-se atrás de Etienne, que não largava Chaval. 

— Morte para o traidor! Ao poço! Ao poço!

     O infeliz, lívido, gaguejava, voltando, com a obstinação imbecil da idéia fixa, à sua necessidade de se lavar. 

— Espera; se isso te incomoda — disse a mulher de Levaque —, aqui está a tina!

     Havia ali um charco, uma infiltração das águas da bomba. Estava branco, coberto por uma espessa camada de gelo. Empurraram-no naquela direção, quebraram o gelo e forçaram-no a mergulhar a cabeça na água gélida. 

— Vamos, mergulha! — repetia a Queimada. — Diabo! se não entrares, jogamos-te aí dentro... E agora vais beber um trago, vais, sim! como os animais, com o focinho no cocho!

     E ele teve de beber de quatro pés. Todos riam, com a maior crueldade. Uma mulher puxou-lhe as orelhas, outra jogou-lhe no rosto um punhado de esterco que encontrara na estrada, ainda fresco. Seu velho suéter não prestava mais, todo esfarrapado. E ele, desvairado, dava encontrões, empurrava, tentando fugir.
     Maheu o maltratava, a mulher estava entre as mais ferozes, ambos dando vazão ao seu antigo rancor; a própria filha de Mouque, que de ordinário permanecia em bons termos com seus namorados, estava fora de si, chamava-lhe inútil, dizia que ia arrancar-lhe as calças para ver se ele ainda era um homem.
     Etienne fez que se calasse. 

— Chega! Com esse, apenas um de nós pode dar conta do recado... Se queres, eu e tu resolvemos o problema.

     Seus punhos se fecharam, seus olhos iluminavam-se com um furor homicida, a embriaguez transformava-se em desejo de matar. 

— Estás pronto? Um de nós dois vai ficar aqui... Deem-lhe uma faca. Eu já tenho a minha.

     Catherine, esgotada, apavorada, olhava para ele. Lembrava-se das suas confidências, da sua necessidade de dar cabo de alguém quando bêbado, envenenado a partir do terceiro copo, a tal ponto seus pais viciados no álcool tinham injetado aquela peçonha no seu corpo. Bruscamente ela arremeteu contra ele, esbofeteou-o com suas mãos de mulher, gritando-lhe na cara, sufocada de indignação: 

— Covarde! Covarde! Covarde!... Já não chegam todas essas atrocidades? Queres assassiná-lo, agora que ele não pode mais manter-se em pé!

     Virou-se para o pai e para a mãe, para todos os outros. 

— Vocês não passam de uns covardes! Covardes, ouviram? Pois matem-me com ele. Arranco os olhos de vocês, se o tocarem outra vez. Covardes!

     E pôs-se na frente do seu homem, defendendo-o; esquecia as surras, esquecia a vida de miséria, arrebatada pela ideia de que pertencia a ele, já que por ele fora escolhida, e que era uma vergonha para si própria que o destruíssem assim.
     Etienne, com os tapas da moça, ficara pálido. O primeiro ímpeto foi de atacá-la, mas depois, tendo passado a mão pelo rosto, num gesto de homem que se desembriaga, disse a Chaval, no meio de um grande silêncio: 

— Ela tem razão, chega disso... Vai-te embora!

     Sem mais esperar, Chaval saiu correndo, e Catherine atrás dele. A multidão, boquiaberta, viu-os desaparecer na volta do caminho. A mulher de Maheu murmurou então: 

— Você errou, devia mantê-lo conosco. Certamente ele vai fazer alguma traição.

     Mas o bando pusera-se novamente em marcha. Já eram quase cinco horas; o sol, rubro como brasa na fímbria do horizonte, incendiava a imensa planície. Um vendedor ambulante que passava informou-lhes que a cavalaria estava descendo para os lados da Crèvecoeur. A notícia fê-los retroceder e espalhou-se outra palavra de ordem: 

— Para Montsou! À direção! Pão! Pão! Pão!

continua na página 293...
____________________

 ____________________

O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (IV.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

IV


     E o bando, pela planície rasa, toda branca de geada, sob o pálido sol de inverno, marchava, saindo da estrada, atravessando as plantações de beterraba.
     Na Fourche-aux-Boeufs, Etienne tomou o comando. Sem fazê-los parar, começou a gritar ordens e a organizar a marcha. Jeanlin corria na frente, emitindo com sua cometa uma música bárbara. Nas primeiras filas avançavam as mulheres, algumas armadas com paus, a de Maheu com um fulgor selvagem nos olhos, que pareciam procurar ao longe a cidade da justiça prometida; a Queimada, a mulher de Levaque e a filha de Mouque marchavam como soldados esfarrapados indo para a guerra. Em caso de encontro, queriam ver se os policiais ousariam bater nas mulheres. Em seguida vinham os homens, numa confusão de gado, formando uma retaguarda amplíssima, eriçada de barras de ferro, dominada por um único machado, o de Levaque, cujo gume reverberava ao sol. No centro, Etienne não perdia de vista Chaval, forçando-o a caminhar na sua frente, enquanto Maheu, atrás, sombrio, observava Catherine, única mulher entre aqueles homens, obstinando-se em marchar ao lado do amante, para impedir que lhe fizessem mal. Cabeças descobertas esguedelhavam-se ao vento; somente se ouvia o bater dos tamancos, semelhante a um tropel de gado solto, guiado apenas pelo toque selvagem de Jeanlin. 
     De repente, ouviu-se um novo grito: 

— Pão! Pão! Pão!

     Era meio-dia, a fome de seis semanas de greve despertava nos estômagos vazios, aguilhoada por essa marcha em campo aberto. As raras côdeas da manhã, as poucas castanhas da filha de Mouque já iam longe; e os estômagos gritavam, e esse sofrimento vinha aumentar a raiva contra os traidores. 

— Às minas! Nada de trabalho! Pão!

     Etienne, que em casa não quisera comer a sua parte, sentia no peito uma sensação insuportável de vazio, mas não se queixava. De tempos em tempos, apanhava seu cantil e tomava um gole de genebra, sentindo-se tão trêmulo, que julgava precisar daquilo para ir até o fim. Seu rosto se afogueava, uma chama iluminava seus olhos, mas a cabeça permanecia fria, pois ainda queria evitar estragos inúteis.
     Ao chegarem ao caminho de Joiselle, um britador de Vandame, que se reunira à turba por vingança contra seu patrão, levou os companheiros para a direita, gritando: 

— À Gaston-Marie! Vamos parar a bomba! Que as águas destruam a Jean-Bart!

     A multidão, arrastada, já se dirigia para lá, apesar dos protestos de Etienne, que lhes suplicava que deixassem o esgoto trabalhar. De que serviria destruir as galerias? Apesar de todo o seu ódio, isso era uma coisa que revoltava seu coração de operário. Maheu também achava injusto atacar uma máquina. Mas o britador continuava a lançar seu brado de vingança; foi preciso que Etienne gritasse mais forte: 

— À Mirou! Lá é que estão os traidores! À Mirou! À Mirou! Com um gesto fizera que a multidão entrasse no caminho da esquerda, enquanto Jeanlin, outra vez na vanguarda, tocava com mais força. Houve uma grande reviravolta, a Gaston-Marie, por ora, estava salva.

     E os quatro quilômetros que os separavam da Mirou foram vencidos em meia hora num passo acelerado, através da planície interminável. Este lado do canal era cortado por uma longa fita de gelo. Somente as árvores das margens, transformadas pela geada em candelabros gigantescos, rompiam a uniformidade monótona, que se prolongava e se perdia no céu do horizonte, como um mar. Uma ondulação do terreno ocultava Montsou e Marchiennes. Era a imensidade nua.
     Estavam chegando à mina quando viram um capataz colocar-se num passadiço da triagem para recebê-los. Todos conheciam muito bem o tio Quandieu, o decano dos contramestres de Montsou, um ancião com a pele e os cabelos muito brancos, que devia andar pelos setenta, um verdadeiro milagre de boa saúde nas minas. 

— Que é que vocês vêm fazer aqui, súcia de vadios? — gritou ele. O bando estacou. Esse não era um patrão, era um companheiro.

     Retinha-os o respeito por aquele velho operário. 

— Há homens trabalhando na mina — disse Etienne. — Manda-os saírem. 
— É verdade, há homens trabalhando, talvez umas seis dúzias, os outros tiveram medo de vocês, corja de biltres! — replicou o velho Quandieu. — Mas previno-os de que nenhum deles sairá, ou eu ajustarei contas com vocês!

     Houve exclamações, os homens empurraram, as mulheres avançaram. Descendo rapidamente do passadiço, o contramestre estava agora barrando a porta.
     Maheu decidiu intervir: 

— Velho, é o nosso direito. Como havemos de conseguir que a greve seja geral, se não forçarmos os companheiros a estarem do nosso lado?

     O velho permaneceu silencioso por um momento. Evidentemente sua ignorância em matéria de coalizão igualava a do britador. Finalmente, respondeu:

 — É o direito de vocês, não digo o contrário. Mas eu estou cumprindo ordens. Estou sozinho aqui. Os homens têm de trabalhar no fundo até as três horas, e trabalharão até as três horas.

     As últimas palavras foram abafadas pelas vaias. Ameaçaram-no com o punho, as mulheres berravam como loucas, soprando-lhe no rosto seu bafo quente. Mas ele mantinha-se firme, a cabeça erguida, em sua barbicha e seus cabelos de uma brancura de neve. E a coragem infundia-lhe tal vigor, que se podia ouvi-lo claramente, por cima da gritaria: 

— Vão para o inferno! Aqui não passam. Juro pelo sol que nos ilumina, prefiro morrer a deixar vocês tocarem nos cabos. Não empurrem, ou eu me atiro no poço na frente de todos. Houve um estremecimento e a turba recuou, amedrontada. Ele continuou: 
— Qual é o cachorro que não compreende isto? Eu não passo de um operário como vocês. Mandaram-me tomar conta disto aqui e eu tomo.

     A inteligência do velho Quandieu não ia mais longe, obstinado na sua teimosia do dever militar, o cérebro tapado, o olho míope pela tristeza negra de meio século de fundo de mina. Os companheiros olhavam-no, tocados, sentindo em si o eco do que lhes dizia, essa obediência de soldado, a fraternidade e a resignação no perigo. Acreditando que eles ainda hesitavam, repetiu: 

— Jogo-me no poço na frente de vocês!

     Um grande movimento fez girar o bando. Todos voltaram as costas e a correria recomeçou pela estrada reta, que se estendia pelo infinito, por entre as terras. De novo os gritos se elevavam: 

— À Madeleine! À Crèvecoeur! Nada de trabalho! Pão! Pão! No meio da multidão, no entusiasmo da marcha, houve uma algazarra. Era Chaval, diziam, que quisera aproveitar-se da história de Mirou para escapar. Etienne acabava de agarrá-lo por um braço, ameaçando-o de fazê-lo em pedaços ao menor sinal de traição. O outro debatia-se, protestando, enfurecido: 
— Então onde é que estamos? Não se é mais livre? Estou tiritando de frio há já uma hora, preciso lavar-me. Larga meu braço!

     Realmente, ele estava sentindo os efeitos do carvão grudado à pele, e seu suéter quase não o protegia do frio. 

— Caminha, ou somos nós que te lavaremos — respondeu Etienne. — Ninguém te mandou exagerar pedindo derramamento de sangue.

     Continuavam quase correndo; Etienne acabou por se voltar para Catherine, que ainda se mantinha ao lado do outro. Desesperava-o senti-la tão próxima, tão miserável, tiritando sob a velha jaqueta de homem, com as calças enlameadas. Devia estar morta de fadiga e contudo, não deixava de correr. 

— Tu podes ir embora — disse ele afinal.

     Catherine pareceu não entender. Seus olhos, ao encontrarem os de Etienne, brilharam somente com uma rápida chama de censura E não parou. Por que quereria que ela abandonasse seu homem? Chaval, na verdade, não era bom; até a espancava em certas ocasiões Mas era o seu homem, aquele que a possuíra primeiro. O que a enfurecia é que se atirassem mais de mil contra ele. Tê-lo-ia defendido, não por ternura, mas por orgulho. 

— Vai-te embora! — repetiu violentamente Maheu.

     A ordem do pai fez que diminuísse o passo. Tremia, as lágrimas enchiam-lhe as pálpebras. Depois, apesar do medo que sentia, voltou e tomou seu lugar, sempre correndo. Então deixaram-na.
     O bando atravessou a estrada de Joiselle, seguiu por um instante a de Cron, depois subiu para Cougny. Desse lado, chaminés de fábricas riscavam o horizonte plano, galpões de madeira, oficinas de tijolos, com portas enormes e cheias de poeira, desfilavam ao longo da estrada. Passaram sucessivamente pelas casas baixas de dois conjuntos habitacionais mineiros, o dos Cent-Quatre-Vingts, depois o dos Soixante-Seize. E de cada um deles, ao chamado da cometa, ao clamor lançado por todas as bocas, saíram famílias, homens, mulheres, crianças, também correndo, unindo-se à retaguarda dos companheiros. Quando chegaram diante da Madeleine eram bem uns mil e quinhentos. A estrada descia em declive suave, e a vaga marulhante dos grevistas teve de contornar o aterro, antes de se espalhar no pátio da mina.
     Nesse momento não deviam ser mais de duas horas. Mas os contramestres, advertidos, tinham apressado a subida, e, quando o bando chegou, a saída dos operários já estava terminando, tendo ficado no fundo da mina apenas uns vinte homens, que logo depois desembarcaram do elevador. Fugiram, tendo sido perseguidos a pedradas. Dois foram espancados, outro deixou a manga da jaqueta no local. Esta caça ao homem salvou o material: os cabos e as caldeiras não foram tocados. E já a vaga rolava em direção à mina vizinha.
     Esta, Crèvecoeur, encontrava-se a apenas quinhentos metros da Madeleine. O bando caiu novamente no meio da saída dos operários. Uma operadora de vagonetes foi apanhada e açoitada pelas mulheres, as calças rasgadas, as nádegas expostas diante dos homens, que riam. Os aprendizes recebiam tabefes, os britadores escaparam cheios de marcas azuis pelo corpo e o nariz sangrando. E nessa ferocidade crescente, nessa antiga necessidade de vingança cuja loucura fervia em todas as cabeças, os gritos continuavam, estrangulando-se, a morte aos traidores, o ódio ao trabalho mal pago, o rugido do estômago querendo pão. Puseram-se a cortar os cabos, mas a lima estava gasta, demorava muito, agora que estavam com a febre de seguir adiante, sempre adiante. Nas caldeiras uma torneira foi quebrada enquanto a água, jogada com grandes baldes nas fornalhas, fazia estourar as grelhas de ferro fundido.
     Fora falou-se em marchar sobre a Saint-Thomas. Esta era a mina mais disciplinada, a greve não a atingira; nela, cerca de setecentos homens deviam ter descido. Isto dava raiva, esperariam por eles armados de porretes em formação de batalha campal, para ver quem cairia primeiro. Mas correu o boato de que havia policiais em Saint-Thomas, os policiais da manhã, de quem tinham feito troça. Como sabiam? Ninguém podia responder. Não importa! Ficaram com medo e decidiram-se pela Feutry-Cantel. E a vertigem voltou a possuí-los, encontraram-se novamente na estrada, batendo tamancos, empolgados: à Feutry-Cantel! Os covardes de lá deviam ser, pelo menos, uns quatrocentos; iam se divertir à grande! Situada à distância de três quilômetros, a mina ficava oculta num vale, próxima do Scarpe. Já estavam subindo a ladeira dos Gessais, para além do caminho de Beaugnies, quando uma voz na multidão aventou a ideia de que talvez a cavalaria estivesse na Feutry-Cantel. Então, de uma ponta à outra da coluna, correu o murmúrio de que a cavalaria lá estava. Uma hesitação refreou o passo da marcha, o pânico começava a soprar naquela região adormecida pelo desemprego e que pareciam percorrer havia séculos. Por que não haviam encontrado os soldados? Esta impunidade os perturbava, misturando-se à ideia da repressão que sentiam aproximar-se.

continua na página 288...
____________________

 ____________________

O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (III)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

III


     Desde o raiar do dia que um frêmito tinha agitado os conjuntos habitacionais mineiros, o frêmito que nesse momento se espalhava pelos caminhos, por toda a região. No entanto, a marcha combinada não pudera ser realizada em razão de uma notícia que corria de boca em boca: a tropa a cavalo e os policiais vasculhavam a planície. Contava-se que eles tinham chegado de Douai durante a noite, acusava-se Rasseneur de ter vendido os camaradas, prevenindo o Sr. Hennebeau. Uma operadora de vagonetes chegava a jurar que vira o criado levando o telegrama para ser expedido. Os mineiros cerravam os punhos, espreitando os soldados por trás das suas persianas, à tímida luz da madrugada.
     Por volta das sete e meia, com o nascer do sol, circulou outro boato que acalmou os impacientes. Era um rebate falso, um simples desfile militar, coisa que vinha acontecendo desde o começo da greve, por ordem do general e a pedido do prefeito de Lille. Os grevistas odiavam esta autoridade, a quem acusavam de tê-los enganado com a promessa de uma intervenção conciliadora e que se limitava a fazer que a tropa desfilasse por Montsou de oito em oito dias, para mantê-los na linha. Assim, ao verem a cavalaria e os policiais retomarem tranquilamente o caminho de Marchiennes, depois de haver ensurdecido os conjuntos habitacionais com os cascos dos seus cavalos sobre a terra batida, os mineiros zombaram de um prefeito tão ingênuo, com seus soldados que davam as costas no momento exato em que coisas iam pegar fogo. Até as nove horas mantiveram-se calmos, pacatamente diante das casas, enquanto seguiam com os olhos, estrada afora, as costas pacíficas dos últimos policiais. No fundo dos seus grandes leitos, os burgueses de Montsou ainda dormiam a sono solto. Na direção, acabavam de ver a Sra. Hennebeau partir de carruagem, deixando sem dúvida o Sr. Hennebeau trabalhando, já que o palacete, fechado e mudo, parecia deserto. Nenhuma mina estava guardada militarmente, era a imprevidência fatal na hora do perigo, o erro natural das catástrofes, tudo o que um governo pode cometer de faltas, quando o essencial era prever qualquer eventualidade. Davam as nove quando os mineiros se puseram finalmente a caminho de Vandame, para a ação decidida de véspera na floresta. 
     Etienne compreendeu desde logo que não poderia contar, na Jean Bart, com os três mil camaradas que tinham prometido ir. Muitos julgavam que a manifestação fora adiada, e o pior era que dois ou três grupos, já a caminho, iam comprometer a causa se ele não se pusesse, de qualquer maneira, à sua frente. Uns cem homens haviam partido antes do amanhecer e na certa tinham-se escondido sob as faias da floresta, à espera dos outros. Suvarin, que o rapaz fora consultar, deu de ombros: dez latagões bem dispostos fariam melhor trabalho que uma corja inteira. E tornou a mergulhar na leitura de um livro aberto à sua frente, recusando tomar parte na manifestação. Aquilo ameaçava transformar-se outra vez em sentimentalismo, quando bastaria incendiar Montsou, o que era bem simples. Ao sair pelo lado da casa, Etienne percebeu Rasseneur muito pálido, sentado defronte do fogão de ferro fundido, enquanto sua mulher, enorme na sua eterna roupa negra, o invectivava com palavras cortantes mas polidas.
     Maheu foi de opinião que se devia manter a palavra empenhada. Um compromisso desse era sagrado. No entanto, a noite arrefecera os ânimos e ele, agora, temia uma desgraça e explicava que o dever deles era irem para lá a fim de manter os companheiros na ordem. A mulher aprovou com a cabeça. Etienne contemporizava, repetindo que era preciso agir revolucionariamente, mas sem atentar contra a vida das pessoas. Antes de partir, rejeitou a sua parte de um pão que lhe tinham dado de véspera com uma garrafa de genebra, mas bebeu de um só gole três copinhos, para combater o frio. E levou consigo um cantil cheio dela. Alzire cuidaria das crianças. O velho Boa-Morte, com as pernas doloridas da caminhada da véspera ficara de cama.
     Por prudência, não foram juntos. Jeanlin já desaparecera havia muito tempo. Marido e mulher seguiram lado a lado, atalhando por Montsou, enquanto Etienne se dirigiu para a floresta, onde queria encontrar se com os companheiros. No caminho encontrou um bando de mulheres, entre as quais reconheceu a Queimada e a mulher de Levaque. Enquanto caminhavam, comiam castanhas que a filha de Mouque trouxera, e até as cascas devoravam, para permanecerem mais tempo de barriga cheia.
     Na floresta ele não encontrou ninguém, todos já tinham partido para a Jean-Bart. Então saiu desabalado e chegou diante da mina no momento em que Levaque e uma centena de outros penetravam no pátio. Os mineiros surgiam de todas as partes, os Maheu pela estrada real, as mulheres do meio dos campos, todos dispersos, sem líderes, sem armas, correndo naturalmente para ali como água que transborda e segue os declives. Etienne percebeu Jeanlin instalado sobre um passadiço, como se fosse a um espetáculo. Correu com todas as suas forças e entrou com os primeiros. Não eram mais que trezentos.
     Houve um momento de hesitação quando Deneulin surgiu no alto da escada que conduzia à recebedoria. 

— Que é que vocês querem? — perguntou ele com voz forte. Após ter visto desaparecer a caleça, de onde as filhas lhe sorriam ainda, voltara à mina, cheio de uma vaga apreensão. Mas tudo estava em ordem, os operários tinham descido, a extração funcionava, o que o deixou novamente tranquilo. Conversava com o capataz quando lhe disseram que os grevistas se aproximavam. Dirigiu-se correndo para uma janela da triagem, e, diante daquela onda enorme que invadia o pátio, teve a consciência imediata da sua impotência. Como defender aquelas edificações abertas de todos os lados? Apenas poderia reunir em torno de si uns vinte dos seus operários. Estava perdido. 
— Que é que vocês querem? — repetiu ele, lívido de cólera, fazendo um esforço para aceitar corajosamente sua derrota.

     Houve empurrões e grunhidos na multidão. Etienne avançou e disse: 

— Não viemos aqui para fazer-lhe mal, mas o trabalho tem que parar em toda a região.

     Deneulin não se conteve e chamou-o de imbecil. 

— Então acreditam que me estão fazendo bem parando o trabalho minha mina? É como se me disparassem um tiro pelas costas, à queima roupa. Pois saibam que meus homens estão trabalhando e não subirão, a não ser que vocês me assassinem primeiro!

     Estas palavras violentas levantaram um clamor. Maheu teve de segurar Levaque, que se atirava, ameaçador. Etienne continuou a parlamentar, procurando convencer Deneulin da legitimidade de sua ação revolucionária. Este, no entanto, respondia-lhe com o direito de trabalhar. Aliás, recusava discutir semelhantes tolices; em sua casa era ele quem mandava. Só lastimava não ter ali quatro policiais para varrer aquela canalha. 

— Perfeitamente, é minha culpa, mereço o que me está acontecendo. Com gente como vocês, só a força. Não sei como é que o governo pensa que pode comprá-los com concessões. Vocês o que farão é pô-lo abaixo com as armas que ele lhes fornecer.

     Etienne, furioso, ainda podia conter-se. Baixou a voz: 

— Peço-lhe, meu senhor, dê ordem para que subam os mineiros. Daqui por diante não respondo mais. pela conduta dos meus companheiros. O senhor pode evitar uma desgraça. 
— Não! Vão para o inferno! Eu o conheço? Você não trabalha para mim, portanto não tem nada para discutir comigo. Só os salteadores é que percorrem assim os campos para pilhar as casas.

     Vociferações cobriram sua voz; as mulheres, sobretudo, insultavam no. Ele continuou a desafiá-los, sentindo um alívio naquela franqueza que desafogava seu coração autoritário. Já que, de qualquer jeito, a ruína era certa, achava uma covardia as concessões inúteis. Mas o número de revoltosos ia aumentando sempre, cerca de quinhentos já se atiravam para a porta e ele ia ser destroçado se o seu capataz não o tivesse puxado violentamente para trás. 

— Por favor, Sr. Deneulin!... Isto vai ser uma carnificina. De que serve fazer matar homens inutilmente?

     Ele debateu-se e protestou com um último grito atirado à turba: 

— Súcia de bandidos! Vocês pagarão por isso quando nós voltarmos a ser os mais fortes!

     Levaram-no. Um último ímpeto acabava de levar os que estavam na frente da multidão para o início da escada, cujo corrimão foi torcido. Eram as mulheres que empurravam, uivando, excitando os homens. A porta cedeu em seguida, era uma porta sem fechadura, cerrada apenas com ferrolho. A escada, porém, era muito estreita e a multidão, esmagada, não teria conseguido entrar se a retaguarda dos assaltantes não tivesse resolvido passar pelas outras aberturas. Desse momento em diante, a turba tomou conta de tudo, invadindo o vestiário, a triagem e a casa das caldeiras. Em menos de cinco minutos a mina inteira pertencia aos grevistas, que percorreram os três andares em meio a um furor de gestos e gritos, levando tudo pela frente no entusiasmo da sua vitória sobre o patrão que resistia. Maheu, assustado, fora dos primeiros a arremeter, dizendo a Etienne: 

— Cuidado! Não devem matá-lo!

     Este já corria, mas, quando viu que Deneulin se tinha barricado na sala dos contramestres, respondeu: 

— E daí? Seria por acaso culpa nossa? Um louco desses... Contudo, ele estava cheio de inquietação, ainda bastante calmo para ceder a um gesto de cólera. Sofria também no seu orgulho de chefe, vendo que a turba escapava à sua autoridade, extravasando para fora da fria execução da vontade do povo, que era o que tinha planejado. Em vão pediu que se mantivessem calmos, gritou que não deviam dar razões ao inimigo, com atos de destruição inútil. 
— Às caldeiras — berrava a Queimada. — Apaguemos as fornalhas!

     Levaque, que encontrara uma lima, agitava-a como um punhal, dominava o tumulto com um grito terrível: 

— Cortemos os cabos! Cortemos os cabos!

     Em breve todos o seguiam. Apenas Etienne e Maheu continuavam a protestar, aturdidos, falando inutilmente no meio da gritaria. Por fim, o primeiro conseguiu fazer-se ouvir: 

— Mas há gente lá no fundo, companheiros!

     O alarido redobrou, todos falavam ao mesmo tempo. 

— Pior para eles, não tinham que descer! Vai ser uma lição para esses traidores! Isso mesmo! Isso mesmo! Que fiquem por lá! E, depois, existem as escadas!...

     Quando a e das escadas os tornou ainda mais decididos, Etienne compreendeu que devia ceder. Temendo um desastre ainda maior, precipitou-se para a máquina, querendo ao menos subir os elevadores, para que os cabos, serrados por cima do poço, não os esmagassem com seu peso enorme ao caírem sobre eles. O mecânico tinha desaparecido com os outros trabalhadores da superfície. Segurou a barra de direção e começou a manobrar, enquanto Levaque e outros dois subiam no vigamento de ferro que sustinha as roldanas.
     Etienne acabava de fixar os elevadores nos ferrolhos de segurança quando se ouviu o ranger da lima cortando o aço. Fez-se um grande silêncio, esse ruído pareceu encher toda a mina, a turba ergueu a cabeça e escutou, presa de emoção. Maheu, na primeira fila, sentia-se invadir por uma alegria feroz, como se os dentes da lima os fossem livrar da desgraça, roendo o cabo de um desses buracos cheios de miséria, no qual nunca mais se desceria.
     A Queimada tinha desaparecido pela escada do vestiário, gritando sempre: 

— Apaguemos o fogo! Às caldeiras! Às caldeiras!

     Algumas mulheres a seguiram. A de Maheu foi a primeira, para impedir que quebrassem tudo, da mesma forma que seu marido tinha tentado argumentar com os companheiros. Ela era a mais calma: podiam-se exigir seus direitos, mas sem fazer estragos no que era dos outros. Quando entrou na casa das caldeiras, as mulheres já estavam expulsando os dois foguistas, e a Queimada, empunhando uma grande pá, acocorava-se diante das fornalhas e as esvaziava violentamente, jogando o carvão incandescente sobre o chão de tijolos, onde ele continuava a arder, soltando uma fumaça negra. Havia dez fornalhas para os cinco geradores. Em breve, as outras seguiam o exemplo da Queimada; a mulher de Levaque manobrando sua pá com ambas as mãos e a filha de Mouque arregaçando as saias até as coxas para não se incendiar, todas elas como que cobertas de sangue por causa dos reflexos do fogo, suadas e desgrenhadas em torno daquela cozinha de bruxas. Os montes de hulha cresciam, o calor ardente crestava a enorme peça. 

— Chega! — gritou a mulher de Maheu. — Esta joça já está pegando fogo! 
— Melhor! — respondeu a Queimada. — Vai ser um trabalho completo... Eu tinha jurado que havia de fazê-los pagar pela morte do meu homem!

     Nesse momento ouviu-se a voz esganiçada de Jeanlin: 

— Atenção! Eu vou apagar isso! Vou soltar tudo!

     Fora um dos primeiros a entrar, imiscuindo-se na a turba, encantado com a balbúrdia, procurando coisas para destruir. Teve então a ideia de abrir as torneiras de descarga, para soltar o vapor. Os jatos partiram com a violência de tiros, as cinco caldeiras esvaziaram-se com um sopro de tempestade, assobiando com tal estrondo que os ouvidos sangraram. Tudo desapareceu no meio do vapor, o carvão ficou branco, as mulheres eram apenas sombras de gestos imprecisos. Só o menino permanecia visível, subindo na galeria, por trás dos turbilhões de fumaça branca, encantado, rindo alegremente por ter desencadeado aquele furacão.
     Isso durou cerca de quinze mi     Quando Etienne foi prevenido do que se tramava, veio correndo em companhia de Maheu. Ele mesmo estava ficando possuído, arrebatado por essa febre ardente de vingança. Mas nem por isso deixava de lutar, conjurando os companheiros a manterem-se calmos, agora que os cabos estavam cortados, as fornalhas apagadas e as caldeiras vazias, o que tornava o trabalho impossível. Mas continuavam não o escutando, sua liderança ia ser novamente contestada, quando se ouviu uma enorme vaia do lado de fora, dirigida para uma portinhola onde desembocava o fosso das escadas. 

— Abaixo os traidores! Sujos! Covardes! Abaixo! Abaixo! Era a saída dos operários do fundo da mina que começava. Os primeiros, ofuscados pela luminosidade, não sabiam o que fazer, pestanejando. Depois davam alguns passos, tentando atingir a estrada e fugir. 
— Abaixo os covardes! Abaixo os falsos irmãos!

     Todo o bando de grevistas acorrera. Em menos de três minutos não havia um só homem nas edificações; os quinhentos de Montsou formaram duas fileiras, para obrigar a passarem entre elas aqueles de Vandame, que tinham feito a traição de descer. E a cada novo mineiro que aparecia na porta do fosso, com as roupas em farrapos e a lama negra do trabalho, as vaias recrudesciam, ditos ferozes os recebiam: "Olha esse aí, tem três polegadas de pernas e um cu enorme! E aquele lá, com o nariz roído pelas putas do Volcan! E este outro, mija tanta remela pelos olhos que com ela se poderiam fazer velas para dez catedrais! E este um grandalhão sem bunda, comprido como a fome!" Uma operadora de vagonetes que surgiu tropeçando, enorme, com os seios na barriga e a barriga no traseiro, provocou uma tempestade de gargalhadas. Quiseram apalpá-la, os motejos eram cada vez mais fortes, estavam ficando cruéis, os tabefes iam começar. O desfile dos pobres-diabos continuava, todos tiritantes silenciosos às injúrias, esperando os murros como animais acuados felizes quando podiam enfim correr para fora da mina. 

— Diabo! Afinal, quantos estão lá dentro? — perguntou Etienne.

     Espantava-se de ver tanta gente saindo, irritava-se de constatar que não se tratava de meia dúzia de operários, pressionados pela fome intimidados pelos contramestres. Fora então enganado na floresta? A Jean Bart, quase em peso, descera. Soltou uma exclamação e precipitou-se, percebendo Chaval no umbral. 

— Canalha! Foi para isso que nos fizeste vir?

     Imprecações explodiram, houve um arranco em direção ao traidor. E então? Na véspera tinha feito o juramento com eles e agora era encontrado trabalhando, em companhia dos outros? Estava debochando deles? 

— Agarrem-no! Ao poço! Ao poço!

     Chaval, lívido de medo, gaguejava, procurava explicar-se, mas Etienne cortava-lhe a palavra, fora de si, possuído pela fúria da turba. 

— Escolheste ser dos nossos, e serás. Vamos! em marcha, tratante.

     Outro clamor cobriu sua voz. Catherine, por sua vez, aparecia, ofuscada pelo sol claro, temendo por sua sorte no meio daqueles selvagens. E, com as pernas arrebentadas pelos cento e dois lances de escada, as palmas das mãos sangrando, ofegava, quando a mãe, ao vê-la, atirou-se sobre ela com a mão levantada. 

— Cadela, tu também! Enquanto tua mãe morre de fome, tu a trais por esse cafajeste!

     Maheu reteve-lhe o braço, impedindo a bofetada. Mas sacudiu a filha, enfurecido como a mulher, censurando a sua conduta, ambos fora de si, gritando mais alto que os outros.
     Ao ver Catherine, Etienne ficou ainda mais exasperado. Repetiu: 

— A caminho! Para as outras minas! E tu vens conosco, velhaco! Chaval mal teve tempo de apanhar os tamancos no vestiário e de jogar o suéter sobre os ombros enregelados. Todos o arrastavam, forçando-o a correr no meio deles. Tonta, Catherine enfiava igualmente os tamancos, abotoava no pescoço a velha jaqueta de homem com que se abrigava desde o começo do frio. E saiu correndo atrás do amante, não queria deixá-lo um só instante, porque certamente iam massacrá-lo.

     Então, em dois minutos, a Jean-Bart esvaziou-se. Jeanlin, que encontrara uma cometa, soprava-a emitindo sons roucos, como se estivesse reunindo gado. As mulheres — a de Levaque, a Queimada a filha de Mouque — arregaçavam as saias para correr, enquanto Levaque, empunhando um machado, esgrimia-o como um bastão de tambor-mor. A turba engrossava com novos companheiros que continuavam a chegar, eram já quase mil, sem ordem, esparramando-se pela estrada em aluvião. Como o portão de saída era muito estreito, botaram abaixo a cerca. 

— Às minas! Abaixo os traidores! Nada de trabalho!

     E, de repente, a Jean-Bart caiu num grande silêncio. A mina estava deserta, não se ouvia uma respiração sequer. Deneulin saiu da sala dos contramestres e, sozinho, proibindo com um gesto que o seguissem, percorreu as instalações. Estava pálido, muito calmo. Primeiro, parou diante do poço, levantou os olhos, examinou os cabos cortados: as pontas de aço pendiam inúteis, os dentes da lima tinham deixado uma ferida viva, uma chaga fresca que reluzia no negro da graxa. Em seguida foi até a máquina, contemplou a biela imóvel, semelhante à articulação de um membro colossal atingido pela paralisia; tocou o metal já frio e sentiu um estremecimento como se estivesse tocando num cadáver. Depois desceu até as caldeiras; caminhando lentamente diante das fornalhas apagadas. abertas e inundadas, bateu com o pé nos geradores, que emitiram um som cavo. E agora? Estava tudo terminado, sua ruína concluíra-se. Mesmo que consertasse os cabos, que reacendesse as fornalhas, onde encontraria operários? Mais quinze dias de greve e estaria falido. E nessa certeza da sua bancarrota não mais conseguia odiar os bandidos de Montsou: via nisso a cumplicidade de todos, a culpa geral, secular. Brutos, sim; mas brutos que não sabiam ler e morriam de fome.

continua na página 283...
____________________

Quinta Parte - (II.a) / Quinta Parte - (II.b) / Quinta Parte - (III) / Quinta Parte - (IV.a)     
 ____________________

O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (II.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

II
 continuando...

     Ela respondeu com um aceno de cabeça. Muitas vezes os homens se juntavam a uma mulher só para usá-la, não se importando com a felicidade dela. Suas lágrimas começaram a correr mais quentes, desesperava-se ao pensar que poderia estar levando uma vida agradável, se fosse outro o companheiro, um rapaz que gostasse de envolvê-la assim, pela cintura. Um outro? E a imagem desse outro foi surgindo da sua enorme emoção. Mas agora já era tarde, seu único desejo era viver até o fim com este, desde que não a maltratasse muito.

— Então — disse ela —, tenta ser assim de vez em quando... Os soluços não a deixavam continuar e ele beijou-a novamente. 
— Bobinha! Está bem, eu juro que serei delicado. Até parece que sou pior do que os outros...

     Olhando-o, ela começou a sorrir entre as lágrimas. Talvez ele tivesse razão, quase não há mulheres felizes. Embora não levando muito a sério o juramento dele, entregou-se à alegria de vê-lo tão solícito. Bom Deus! se ao menos aquilo durasse! Com novo ânimo, estreitaram-se num longo abraço, mas, ouvindo passos, puseram-se em pé. Três companheiros, que os tinham visto passar, vinham saber o que era.
     Continuaram o caminho todos juntos. Eram quase dez horas e resolveram almoçar num canto arejado, antes de voltarem a suar no fundo do veio. Quando estavam acabando de comer o sanduíche duplo e iam beber um gole de café, ouviram um barulho que vinha de longe, das outras seções da mina, e que fez que apurassem o ouvido. Que seria? Outro acidente? Levantaram-se e correram. Britadores, operadoras de vagonetes e aprendizes cruzavam-se a cada instante, mas ninguém sabia de nada, todos gritavam, devia ser uma grande desgraça. Pouco a pouco a mina inteira estava assustada, sombras enlouquecidas desembocavam das galerias, as lanternas balançavam desaparecendo nas trevas. Onde era? Por que não diziam nada?
     De repente um contramestre passou gritando: 

— Estão cortando os cabos! Estão cortando os cabos!

     Esse grito espalhou o pânico. Houve uma correria furiosa através das vias escuras. Ninguém sabia o que pensar. Por que cortavam os cabos? E quem os cortava, havendo homens no fundo da mina? Aquilo parecia uma monstruosidade.
     Nesse momento a voz de outro contramestre ressoou e perdeu-se no emaranhado de galerias: 

— É o pessoal de Montsou que está cortando os cabos! Saiam todos!

     Ao compreender o que estava acontecendo, Chaval fez Catherine parar. A ideia de que ia encontrar os grevistas de Montsou fez que sentisse as pernas bambas. Então essa corja que ele acreditava já nas mãos dos policiais tinha vindo! Por um momento pensou em voltar e subir pela Gaston-Marie, mas aquela saída tinha sido fechada. Praguejou, hesitante, ocultando o medo, repetindo que não havia razão para correr, que ninguém ia deixá-los fechados no fundo da mina.
     Ouviu-se novamente a voz do contramestre que se aproximava: 

— Saiam imediatamente! Usem as escadas! As escadas! Chaval foi arrastado como os demais companheiros; começou a empurrar Catherine, acusando-a de não correr o bastante. Será que ela estava querendo que ficassem encurralados ali, morrendo de fome? Os bandidos de Montsou eram capazes de quebrar as escadas, sem esperar que todos tivessem saído. Esta suposição pavorosa acabou de semear o pânico. Foi um salve-se quem puder ao longo das galerias, todos tentando chegar em primeiro lugar, frenéticos, enlouquecidos. Alguns gritavam que as escadas tinham sido quebradas, que ninguém sairia mais. Quando os grupos em pânico começaram a desembocar no patamar do poço, foi um verdadeiro atropelo: correram para o buraco negro e começaram a esmagar-se na porta estreita que dava acesso às escadas. Enquanto isto, um velho cavalariço que prudentemente recolhia os cavalos para a estrebaria observava-os com desdenhosa negligência, acostumado com as noites passadas na mina, certo de que acabaria sendo retirado dali. 
— Com mil raios! sobe na minha frente! — disse Chaval a Catherine. — Se caíres, pelo menos posso aparar-te.

     Atordoada, exausta devido à corrida de três quilômetros que a deixara novamente alagada em suor, ela abandonava-se, sem compreender, aos redemoinhos daquele mar humano. Ele, então, puxou-a pelo braço com tal violência, que quase o quebrou. A moça soltou um gemido e as lágrimas começaram a correr; ele já esquecera o juramento, nunca seriam felizes. 

— Vamos, passa! — berrou o homem.

     Catherine estava transida de medo. Se subisse na frente dele. seria maltratada todo o tempo, por isso resistia, enquanto o fluxo desvairado dos companheiros os empurrava para o lado. As infiltrações do poço pingavam em gotas enormes e o soalho da embocadura na galeria, abalado pelo tropel, tremia por cima do fosso, do desaguadouro lodoso, com dez metros de profundidade. Fora justamente na Jean-Bart, dois anos antes, que um terrível acidente, a ruptura de um cabo, precipitara o elevador no fundo do fosso, onde dois homens morreram. E todos pensavam nisso, que iam cair lá embaixo, se se amontoassem sobre as pranchas. 

— Maldita cabeçuda! — gritou Chaval. — Pois então morre, ficarei livre de ti!

     Começou a subir as escadas e ela seguiu-o.
     Do fundo à superfície, havia cento e dois lances de escadas, cada um de aproximadamente sete metros, divididos por estreitos patamares da largura do fosso, com buracos quadrados que mal deixavam passar os ombros. Era como uma chaminé chata, de setecentos metros de altura, entre a parede do poço e o tabique do compartimento de extração, uma tripa úmida, negra e sem fim, onde as escadas se sobrepunham, quase a pique, a intervalos regulares. Um homem forte precisava de vinte e cinco minutos para galgar aquela coluna gigante. Aliás, esse fosso das escadas só era usado agora em caso de catástrofe.
     A princípio Catherine subiu sem dificuldade. Seus pés descalços estavam acostumados com as lascas de carvão afiladas das vias e não sofriam com os degraus quadrados, providos de uma cantoneira de ferro para impedir o desgaste. Suas mãos, calejadas pelos vagonetes, agarravam se sem titubear aos corrimões, grossos demais para elas. Ocupava-se com aquilo, esquecia seu desgosto naquela subida imprevista, vendo a serpente humana que coleava, içava-se, três homens por escada, de modo que, quando a cabeça surgisse na superfície, a cauda ainda se arrastaria no fundo do fosso. Mas ainda não estavam nesse ponto, os primeiros deviam ter vencido apenas um terço do caminho. Ninguém falava mais, só os pés se arrastavam com um ruído surdo, enquanto as lanternas, iguais a estrelas errantes, espalhavam-se de alto a baixo, numa linha sempre crescente.
     Catherine ouvia atrás dela um aprendiz contando as escadas. Teve a idéia de fazer o mesmo. Já tinham subido quinze e chegavam a uma embocadura de galeria. Nesse momento chocou-se nas pernas de Chaval. O homem praguejou, dizendo-lhe que prestasse atenção. De vez em quando a coluna parava, imobilizando-se. Que era? Que estava acontecendo? E cada um encontrava voz para perguntar e fazer suposições apavorantes. A angústia aumentava, o desconhecimento dos acontecimentos no exterior era como um garrote que ia apertando à medida que se aproximavam da luz do dia. Alguém disse que teriam de descer, que as escadas estavam quebradas. Essa era a preocupação de todos, o medo de se encontrarem sem saída. Outra explicação veio descendo de boca em boca, o acidente com um britador que escorregara de uma escada. Não se sabia ao certo, os gritos impediam de ouvir. Então iam ficar passando a noite ali? Finalmente, sem outras explicações, a subida recomeçou, com o mesmo movimento lento e penoso, acompanhando o barulho dos pés no ferro dos degraus e a dança das lâmpadas. As escadas quebradas deviam estar mais acima.
     À trigésima segunda escada, quando ultrapassavam a terceira embocadura de galeria, Catherine sentiu que suas pernas e seus braços se enrijeciam. Primeiro sentira um formigueiro na pele, muito leve. Agora, perdia a sensação do ferro e da madeira sob os pés e nas mãos. Uma dor vaga, que se foi tornando aguda, esquentava-lhe os músculos. E, no aturdimento que a invadia, começou a lembrar-se das histórias do avô Boa Morte, do tempo em que não havia elevador e as meninas de dez anos subiam com o carvão nos ombros, ao longo das escadas sem corrimões, de maneira que, quando uma delas escorregava ou simplesmente um pedaço de hulha caía de um cesto, três ou quatro crianças eram precipitadas de cabeça para baixo. As cãibras nos membros estavam ficando insuportáveis, nunca chegaria ao topo.
     Novas paradas permitiram-lhe respirar. Mas o terror que vinha lá de cima acabava de prostrá-la. Acima e abaixo dela, as respirações iam ficando cada vez mais ofegantes, respirava-se uma vertigem nessa ascensão interminável, cuja náusea a sacudia assim como aos outros Sentia-se sufocada, ébria de trevas, exasperada com o esmagamento das paredes contra sua carne. E tiritava devido à umidade, o corpo em suor, porejando gotas enormes que a inundavam. Aproximavam-se do nível, a chuva caía com tanta força que ameaçava apagar as lâmpadas.
     Por duas vezes Chaval falou com Catherine sem obter resposta. Por que não respondia? Tinha engolido a língua? Que custava dizer se estava indo bem? Havia meia hora que subiam, mas tão vagarosamente que se encontravam apenas na quinquagésima nona escada. Restavam quarenta e três. Catherine acabou balbuciando que se ia aguentando. Ele a chamaria de preguiçosa se tivesse confessado seu cansaço. O ferro dos degraus parecia perfurar seus pés, tinha a sensação de que estava sendo serrada até os ossos. Após cada braçada, esperava ver suas mãos largarem o corrimão, esfoladas e endurecidas, a ponto de não poder fechar os dedos. Acreditava que a qualquer momento ia cair para trás com os ombros arrancados, as pernas desconjuntadas pelo contínuo esforço. Era sobretudo a pouca inclinação das escadas que a fazia sofrer, aquela colocação quase a prumo, que a obrigava a içar-se com a força dos braços, a barriga colada à madeira. O resfolegar das respirações cobria agora o barulho dos passos, um enorme estertor, retumbando na parede do fosso, elevava-se do fundo e ia morrer na superfície. Houve um gemido, correu um murmúrio pelas escadas, um aprendiz acabava de quebrar a cabeça na aresta de um patamar. E Catherine subia. Ultrapassaram o nível. A chuva cessara, um nevoeiro tornava pesado o ar subterrâneo, envenenado por um cheiro de ferro velho e madeira úmida. Maquinalmente obstinava-se a contar baixinho: oitenta e um, oitenta e dois, oitenta e três; faltavam dezenove lances. Só estes números, repetidos, a amparavam com seu balanço rítmico. Já perdera a consciência dos seus movimentos. Ao levantar os olhos, as lâmpadas redemoinhavam em espiral. Seu sangue escorria, sentia que estava morrendo, ao menor sopro seria precipitada escadas abaixo. O pior, agora, era que os de baixo estavam empurrando, e a coluna inteira se arremessava com novo ímpeto, cedendo à cólera crescente de sua fadiga, à necessidade furiosa de tornar a ver o sol. Os primeiros da coluna já tinham chegado à superfície, não havia portanto escadas quebradas, mas a ideia de que ainda podiam quebrá-las, para impedir que os últimos saíssem, enquanto os outros respiravam lá em cima, acabou de enfurecê-los. E, como houvesse uma nova parada, as pragas explodiram, todos continuaram a subir, empurrando, passando por cima de corpos, tentando chegar de qualquer maneira.
     Nesse momento Catherine caiu. Chegou a gritar o nome de Chaval, num apelo desesperado, mas ele não ouviu, estava lutando arrebentara as costas de um companheiro a pontapés para passar na sua frente. Ela foi rolada, pisoteada. No seu desmaio, sonhou: era uma das pequenas operadoras de vagonetes de outrora, que um pedaço de carvão, caído de um cesto acima dela, acabava de jogar no fundo do poço, como um pardal atingido por uma pedrada. Faltavam apenas cinco lances de escadas para subir, tinham levado cerca de uma hora. Nunca soube de que maneira chegara ao topo, empurrada pelos outros, talvez graças à estreiteza do fosso. De repente encontrou-se num deslumbramento de sol, no meio de uma multidão ululante que a vaiava.

continua na página 254...
____________________

Quinta Parte - (II.a)Quinta Parte - (II.b) / Quinta Parte - (III) /      
 ____________________

O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.