A Montanha Mágica
Capítulo VII
Mynheer Peeperkorn
(continuação)
...
Ela riu, com o cigarro na boca, a ponto de se contraírem os olhos tártaros. Reclinou-se ao
forro de madeira, apoiando as mãos no banquinho; com as pernas cruzadas, balouçava o pé
calçado com um sapato preto de verniz.
– Quelle générositê! Oh là, là, vraiment, meu pobre pequeno, é exatamente assim que eu
sempre imaginei un homme. de génie!
– Deixa disso, Clávdia. Claro que por natureza não sou nenhum homme. de génie, como não
sou tampouco um homem de grande envergadura. Não, meu Deus! Mas o acaso – dize que foi o
acaso – levou-me muito alto, até essas regiões geniais... Numa palavra, talvez não saibas que
existe uma coisa que se chama pedagogia alquimístico-hermética, a transubstanciação, rumo ao
mais sublime, e por conseguinte uma ascensão, se bem me compreendes. Mas é óbvio que a
matéria suscetível de ser impelida e empurrada, por influências exteriores, em direção a uma
esfera mais elevada, necessita para isso ter certas qualidades próprias. E quanto às qualidades que
eu possuía, sei muito bem que eram as seguintes: desde muito tempo estava familiarizado com a
doença e com a morte, e já nos meus tempos de menino cometi o disparate de te pedir
emprestado um lápis, tal como se deu aqui naquela noite de carnaval. Mas o amor disparatado é
genial, pois a morte – sabes? – é o princípio genial, a res bina, o lapis philosophorum, e é também o
princípio pedagógico, uma vez que o amor a ela conduz ao amor à vida e ao homem. É realmente
assim; descobri-o no meu compartimento de sacada, e me sinto feliz por ter uma ocasião de te
dizer isso. Há dois caminhos que conduzem à vida: um é o caminho ordinário, direto e honrado;
o outro é mau, passa pela morte, e este é o caminho genial.
– És um filósofo abstruso – disse ela. – Não pretendo compreender todos esses teus
pensamentos confusos e alemães; mas eles soam humanos, e certamente és um bom rapaz.
Doutro lado te comportaste en philosophe, Não há como negá-lo.
– Excessivamente en philosophe, para o teu gosto; não é, Clávdia?
– Deixa de impertinências! Isso começa a ficar maçante. Essa coisa de esperar foi estúpida
e ilícita. Mas não me queres mal porque esperaste em vão?
– Hum, foi um pouco duro, Clávdia, mesmo para um homem de paixões fleumáticas.
Duro para mim e duro da tua parte, por teres chegado na companhia dele; pois sabias
naturalmente por intermédio de Behrens que eu estava aqui à tua espera. Mas eu já te disse que só
a considero uma noite de sonho, essa nossa noite, e que te concedo a tua liberdade. Afinal de
contas não esperei em vão, já que estás novamente aqui; estamos sentados um perto do outro,
como aquela outra vez; ouço a maravilhosa aspereza da tua voz, que há tanto tempo é familiar ao
meu ouvido, e sob essa seda flutuante estão os teus braços que conheço – embora lá em cima se
ache num ataque de febre o teu companheiro de viagem, o grande Peeperkorn que te deu essas
pérolas...
– E com o qual manténs boas relações para o teu próprio proveito.
– Não leves isso a mal, Clávdia! Também Settembrini censurou-me pelo mesmo motivo,
mas essa mentalidade não passa de um preconceito convencional. Aquele homem é uma
aquisição valiosa. É uma personalidade, ora essa. Que sua idade já seja avançada, vá lá. Mesmo
assim acho bem compreensível que tu, como mulher, o ames loucamente. Tens muito amor a ele?
– Rendo homenagem ao teu espírito de filósofo, meu pequeno Hans alemão – disse ela,
acariciando-lhe o cabelo –, mas nem por isso acho humano falar-te do amor que tenho por ele.
– Ora, Clávdia, por que não? Creio que o humano começa onde os homens sem gênio
pensam que ele termina. Falemos tranquilamente dele! Tu o amas com paixão?
Ela inclinou-se para a frente, a fim de jogar na lareira o cigarro acabado. Deixou-se então
ficar com os braços entrelaçados.
– Ele me ama – respondeu – e seu amor faz com que eu me sinta orgulhosa, grata e
dedicada a ele. Tu deves compreender isso, ou não serias digno da amizade que te concede... Seu
sentimento obrigou-me a segui-lo e a servi-lo. Como poderia ser diferente? Julga tu mesmo!
Achas humanamente possível desprezar os sentimentos dele?
– É impossível – confirmou Hans Castorp. – Não, é lógico que isso não entrava na
questão. Que mulher seria capaz de desprezar os sentimentos dele, o temor por esses
sentimentos, e de abandoná-lo, por assim dizer, no Getsêmani?
– Não és nada bobo – disse ela, e seus olhos oblíquos imobilizaram-se numa expressão
pensativa. – És inteligente. O temor pelos sentimentos...
– Não se precisa muita inteligência para compreender que tinhas de segui-lo, ainda que –
ou melhor, porque – no seu amor deve haver muita coisa angustiante.
– C’est exact... Angustiante... A gente tem muitas preocupações por causa dele, sabes? e
muitas dificuldades... – Ela pegara a mão do jovem e brincava inconscientemente com as
articulações. Mas de repente ergueu o olhar e, com o cenho carregado, perguntou:
– Um momento! Não achas infame falarmos sobre ele desta maneira?
– De modo algum, Clávdia. Não, longe disso! É apenas humano. Tu gostas dessa palavra,
que arrastas com uma ênfase fanática. Sempre me interessa ouvi-la pronunciada pela tua boca.
Meu primo Joachim detestava-a por motivos militares. Dizia que ela significava indolência e
negligência geral, e quando a considero sob esse aspecto, como um irrestrito guazzabuglio de
tolerância, também eu não posso deixar de fazer algumas objeções; isso admito francamente. Mas
quando ela expressa liberdade, genialidade, bondade, é uma grande coisa, e, segundo me parece,
não faz mal que a empreguemos a favor da nossa conversa sobre Peeperkorn e sobre as
preocupações e as dificuldades que ele te causa. Claro que elas são a consequência da sua mania
de pundonor, do medo de que o sentimento possa fracassar, esse medo que o faz amar tanto as
dádivas clássicas e os meios de se regalar. Podemos falar disso com toda a reverência, pois nele
tudo tem grande envergadura, a envergadura grandiosa de um rei, e nós não aviltamos nem a ele
nem a nós próprios fazendo reflexões humanas sobre esse assunto.
– Não se trata de nós – disse ela, voltando a cruzar os braços. – Não seria ser mulher, se,
pelo amor de um homem, não se quisesse aceitar também aviltamentos, pelo amor de um homem
de grande envergadura, como dizes, e para o qual se é um objeto de sentimentos e do temor
pelos sentimentos...
– Perfeitamente, Clávdia. Formulaste isto muito bem. Também o aviltamento tem grande
envergadura nesse caso, e a mulher, das alturas do seu aviltamento, pode dirigir-se para os que
não têm a envergadura de um rei, e falar-lhes com tanto desdém como tu acabas de fazer, quando
te referiste aos timbres-poste, e naquele tom em que me disseste: “Vocês, pelo menos, deveriam ser
pessoas eficientes a quem se pudesse sempre recorrer!”
– És melindroso? Deixa disso! Mandemos às favas todos os melindres! Não estás de
acordo? Também eu me melindrei às vezes; quero reconhecê-lo hoje, que nos achamos assim um
perto do outro. Irritei-me por causa da tua fleuma e porque te entendias tão bem com ele, só para
satisfazeres a tua experiência egoística. E contudo via com prazer e com gratidão que o tratavas
com reverência... Havia na tua conduta muita lealdade, e ainda que nela se mesclasse um
pouquinho de impertinência, não podia deixar de apreciar essa tua atitude.
– Foi muita bondade da tua parte.
Ela fitou-o.
– Tenho a impressão de que és incorrigível. Vou te dizer uma coisa: és um rapaz
malicioso. Não sei se tens espírito, mas indiscutivelmente és cheio de malícia. Aliás, não faz mal
nenhum; isso se pode suportar. Pode-se até manter amizade com uma pessoa assim. Queres que
mantenhamos amizade? Que façamos uma aliança a favor dele, assim como normalmente se faz
contra alguém? Queres dar-me a tua mão para selar isso? Muitas vezes me sinto angustiada...
Acontece que eu sinto medo de estar a sós com ele, medo da solidão interior, tu sais... É
angustiante mesmo... Às vezes receio que ele acabe mal... Às vezes fico horrorizada... Eu gostaria
de ter a meu lado um homem bom... Enfim, se te interessa saber, talvez seja por causa disso que
voltei para cá com ele...
Seus joelhos se tocavam, enquanto estavam sentados assim, ele na cadeira inclinada para a
frente, e ela no banquinho. Ao proferir essas últimas palavras bem perto do rosto dele, ela lhe
apertara a mão.
– Por mim? – exclamou ele. – Mas isso é maravilhoso! É realmente extraordinário! Ó
Clávdia, então voltaste para cá, com ele, porque eu estava aqui? E queres ainda pretender que a
minha espera foi estúpida, ilícita e totalmente vã? Seria muito mesquinho da minha parte, se eu
não soubesse apreciar o oferecimento da tua amizade, da amizade contigo e por ele...
Foi então que ela o beijou na boca. Era um daqueles beijos russos, do tipo dos que se
trocam nesse vasto país cheio de alma, nas mais importantes festas cristãs, como uma
consagração do amor. No nosso caso, porém, esse beijo foi trocado entre um jovem
notoriamente “malicioso” e uma mulher também jovem, de andar sedutoramente felino; e
enquanto descrevemos essa cena, não podemos deixar de pensar, sem querer, e de um modo
vago, na maneira engenhosa, embora um tanto suspeita, pela qual o Dr. Krokowski costumava
falar do amor num sentido ligeiramente ambíguo, de modo que ninguém sabia com certeza se se
referia a um assunto piedoso ou a algo físico, passional. E nós não fazemos o mesmo, ou talvez o
fizessem Hans Castorp e Clávdia Chauchat, quando trocavam esse beijo russo? Ora, que diria o
leitor, se nos recusássemos redondamente a resolver esse problema? A nosso ver, seria um
procedimento analítico, mas – para repetir a expressão de Hans Castorp – “muito mesquinho” e
francamente hostil à vida, fazer, em matéria de amor, uma distinção “limpa” entre elementos
piedosos e elementos passionais. Que significaria “limpo” nesse caso? E o que “sentido
ambíguo” e “caráter equívoco”? Ridicularizamos abertamente esses conceitos. Não será bom e
grande o fato de a língua não possuir senão uma única palavra para tudo quanto aquilo pode
abranger, desde o sentimento mais piedoso até o desejo mais carnal? O equívoco torna-se, pois,
plenamente unívoco, uma vez que o amor não pode ser separado do corpo, nem sequer no auge
da piedade, como não é ímpio nem nos momentos de carnalidade extrema. O amor continua
sempre sendo ele mesmo, tanto sob a forma de conduta amistosa em face da vida, como sob a
forma da mais sublime paixão; é a simpatia pela espera orgânica, o abraço comoventemente
voluptuoso daquilo cujo destino é apodrecer. Decerto há caritas até na paixão mais furiosa e na
paixão mais reverente. Sentido ambíguo? Pois que seja ambíguo o sentido do amor! Nessa
indistinção se manifestam a vida e a humanidade. Revelaríamos uma desoladora falta de “malícia”
se nos inquietássemos diante dessa ambiguidade.
Enquanto os lábios de Hans Castorp e de Mme. Chauchat se encontram juntos no beijo
russo, apagamos as luzes do nosso pequeno teatro, para mudança de cena. Pois agora trataremos
do segundo dos dois diálogos que prometemos relatar. Restabelecida a iluminação, a iluminação
crepuscular de uma tardezinha de primavera, na época do degelo, deparamos com o nosso herói
numa situação que já nos é familiar, à beira da cama do grande Peeperkorn, palestrando com ele
submissa e amigavelmente. Ao chá das quatro horas, servido no refeitório, Mme. Chauchat
comparecera sozinha, como já se dera nas três refeições anteriores, e logo depois se encaminhara
a Davos-Platz para efetuar algumas compras. Diante disso Hans Castorp fizera anunciar ao
holandês uma das suas costumeiras visitas, em parte para mostrar-se atencioso e para distrai-lo
um pouco, em parte para edificar-se com a irradiação dessa personalidade; numa palavra: por
motivos tão ambíguos como a vida. Peeperkorn pôs o Telegraaf de lado, pegou pelo arco o
pincenê de aros de chifre e atirou-o em cima do jornal. A seguir estendeu ao visitante a mão de
capitão, enquanto os lábios largos e gretados se moviam vagamente, com uma expressão
dolorosa. Como sempre, tinha a seu alcance vinho tinto e café. O serviço de café achava-se numa
cadeira junto à cama, e o fundo pardo da xícara deixava perceber que fora usada havia pouco.
Mynheer acabava de tomar o trago de todas as tardes, forte e quente, com açúcar e creme que o
fazia transpirar. O rosto de rei, emoldurado de labaredas brancas, estava corado, com pequenas
bagas de suor assomando na testa e no lábio superior.
– Estou suado – disse. – Seja bem-vindo, jovem. Pelo contrário! Sente-se! É um sinal de
fraqueza, quando a gente, logo depois de ter ingerido uma bebida quente, começa a... Tenha a
bondade de... Sim, senhor. O lenço. Muito obrigado. – A cor vermelha do rosto ia desaparecendo
rapidamente, dando lugar àquele palor amarelado que depois de um ataque de febre maligna
costumava cobrir o rosto desse homem soberbo. A quarta fora muito violenta durante a manhã,
com as suas três fases, a fria, a abrasadora e a úmida. Os olhinhos apagados de Peeperkorn
pareciam cansados, sob o enrugamento da fronte, que lhe dava o aspecto de um ídolo.
– Meu caro jovem – continuou ele –, é sumamente... Eu queria expressar a minha...
Absolutamente. É muito gentil da sua parte dar a um velhote enfermo o prazer da sua...
– Da minha visita? – perguntou Hans Castorp. – De maneira alguma, Mynheer
Peeperkorn. Quem deve agradecer sou eu, por ter uma oportunidade de me sentar aqui. Pois eu
tiro muito mais proveito dessa visita do que o senhor. Venho por razões puramente egoísticas.
Mas como pode o senhor qualificar-se de “velhote enfermo”? Ninguém seria capaz de adivinhar
que isso se refere à sua pessoa. Está traçando de si uma imagem completamente falsa.
– Está bem – respondeu Peeperkorn, e fechou os olhos por alguns instantes, recostando
no travesseiro a majestosa cabeça com o queixo erguido. Os dedos com as unhas compridas
jaziam entrelaçados sobre o amplo peito de rei, que se delineava sob a camisola de malha. – Está
bem, jovem. Ou melhor: suas intenções são boas; disso não duvido. Estava agradável ontem de
tarde – pois sim, foi recém-ontem – naquele lugar hospitaleiro... me esqueci do nome ... lá onde
comemos o delicioso salame com ovos mexidos e com esse vinho saudável da terra...
– Foi uma maravilha! – confirmou Hans Castorp. – Nós todos saboreamos esse prato de
um modo vergonhoso. O mestre de cozinha do Berghof ficaria ofendido e com razão, se nos
tivesse visto. Todos, sem exceção, entramos de rijo a comer! Era um salame de lei. O Sr.
Settembrini estava até comovido e comia-o por assim dizer, com os olhos cheios de lágrimas. É
um patriota, como o senhor deve saber, um patriota democrático. Consagrou a sua lança de
cidadão sobre o altar da humanidade, para que de futuro os direitos alfandegários do salame
sejam pagos na fronteira do Brenner.
– Isto não tem importância – declarou Peeperkorn. – É um homem distinto, que sabe
conversar de forma alegre; um perfeito cavalheiro, ainda que não lhe seja dado mudar de roupa
com muita frequência.
– Não lhe é dado de modo algum – disse Hans Castorp. – De modo algum! Já o conheço
faz muito tempo e me dou bem com ele; quero dizer que ele se interessa por mim de uma
maneira pela qual lhe devo a minha maior gratidão, só porque achava que eu era um “filho
enfermiço da vida”; é uma dessas locuções que empregamos entre nós, e que terceiros não
podem compreender sem explicação. Settembrini dá-se o trabalho de exercer sobre mim uma
influência corretiva. Mas nunca, nem no verão nem no inverno, o vi em outros trajes que não
aquelas calças de tecido xadrez e o jaquetão puído. Ele usa, aliás, essas roupas velhas com uma
correção notável, de modo muitíssimo distinto. Nesse ponto concordo inteiramente com o
senhor. A maneira como se veste é um triunfo sobre a pobreza, e quanto a mim, prefiro essa
pobreza à própria elegância do pequeno Naphta, em face da qual nunca me sinto muito à
vontade, porque ela é o Diabo, em certo sentido, e os recursos necessários para ela lhe vêm de
uma fonte escusa; estou mais ou menos bem informado a respeito da sua situação.
– É um homem distinto e alegre – repetiu Peeperkorn, passando por cima da observação
que Hans Castorp fizera com referência a Naphta – ainda que – permita-me esta restrição – ainda
que não esteja livre de preconceitos. Madame, a minha companheira de viagem, não o aprecia
muito, como o senhor talvez tenha notado. Fala dele sem simpatia, indubitavelmente porque
esses preconceitos se manifestam na atitude que ele toma para com ela. Nenhuma palavra, jovem!
Quanto ao Sr. Settembrini e aos sentimentos amistosos que o senhor tem por ele, estou longe
de... Basta! Nem penso em afirmar que, em relação àquela cortesia que um cavalheiro deve a uma
dama, ele possa jamais... Perfeito, meu caro amigo, irrepreensível! Mas existem ali um limite, uma
reserva, uma certa es-qui-van-ça que tornam a animosidade de madame contra ele, humanamente
falando, muito...
– Compreensível. Que a tornam natural. Que a justificam plenamente. Desculpe,
Mynheer Peeperkorn, que eu tenha tomado a liberdade de terminar a sua frase. Pude arriscar-me
a isso na certeza de estar inteiramente de acordo com o senhor. Sobretudo quem considera o
quanto as mulheres – o senhor talvez se ria porque eu, com a minha pouca idade, falo das
mulheres de modo generalizado –, quem considera o quanto as mulheres, na sua conduta, perante
o homem, dependem do modo como o homem se conduz para com elas, não se pode admirar.
As mulheres – é assim que eu gostaria de formular a ideia – são criaturas reativas, sem iniciativa
própria, criaturas indolentes, no sentido de passivas... Permita-me, por favor, que eu desenvolva,
embora sem habilidade, esse meu ponto de vista. A mulher, pelo que pude observar, considera
se, nos assuntos amorosos, em primeira linha como simples objeto; espera que os acontecimentos
cheguem até ela; não escolhe livremente; só chega a escolher à base da escolha prévia do homem
e mesmo então – deixe que eu acrescente ainda isto – a liberdade da sua escolha é restrita e
influenciada pelo fato de ela ter sido escolhida, a não ser que se trate de um espécime
excessivamente mísero de homem; e nem essa condição vigora em todos os casos... Deus meu,
acho que as coisas que digo são banalidades, mas quando somos jovens tudo nos parece novo,
novo e surpreendente. Pergunte a uma mulher: “Você o ama?” e ela lhe responderá, com os
olhos erguidos ou mesmo baixos: “Ele me ama tanto!” Agora imagine uma resposta dessas na
boca de um de nós. (Perdoe-me por me ter posto no mesmo plano com o senhor!) Talvez haja
homens que devem responder dessa forma, mas se tornariam perfeitamente ridículos, seriam
vassalos do amor feminino, para me expressar de uma forma epigramática. Eu desejaria saber que
importância se atribui uma mulher que dá aquela resposta. Será que julga dever uma dedicação
sem limites ao homem que concede a uma criatura tão humilde o favor da sua escolha amorosa,
ou vê ela no amor que o homem tem à sua pessoa um sinal infalível da perfeição dele? Ventilei
esse problema muitas vezes nas minhas horas solitárias.
– São os primórdios das coisas, são fatos clássicos, meu caro jovem! Suas palavras singelas
e fluentes tocam em fundamentos sagrados – replicou Peeperkorn. – O homem é embriagado
pelo seu próprio desejo; a mulher exige e espera ser embriagada pelo desejo dele. Disso nos
provém a obrigação de sentir. Daí resulta a pavorosa ignomínia da insensibilidade, da impotência
de tornar a mulher capaz de desejar. O senhor toma uma taça de vinho tinto em minha
companhia? Eu tomarei. Estou com sede. Perdi muita água hoje.
– Muito obrigado, Mynheer Peeperkorn. Embora eu não tenha o hábito de beber a esta
hora, estou sempre disposto a tomar um trago à sua saúde.
– Então sirva-se da taça. Temos uma só. Eu me arranjarei com o copo de lavar dentes.
Acho que este zurrapa não se ofenderá, quando for bebido de um recipiente simples... – Com a
mão de capitão levemente trêmula, encheu os copos, ajudado pelo visitante, e avidamente
esvaziou o seu. O vinho tinto descia-lhe pela garganta escultural como se fosse água pura.
– Isso refresca – disse ele. – O senhor não bebe mais nada? Então permita que eu tome
mais um... – Derramou um pouco de vinho ao encher o copo. O lençol de cima estava salpicado
de manchas vermelho-escuras. – Eu repito – prosseguiu com o dedo indicador em riste,
enquanto na outra mão tremia o copo cheio –, repito: daí resulta a nossa obrigação, o nosso
dever religioso de sentir. Nosso sentimento – compreende? – é a força viril que desperta a vida. A
vida está dormindo. Quer ser acordada para celebrar bodas orgiásticas com o sentimento divino.
Pois o sentimento, jovem, é divino. O homem é divino, desde que sente. É o sentimento de
Deus. Deus o criou para sentir por intermédio dele. O homem é apenas o órgão por meio do
qual Deus realiza o seu enlace com a vida despertada e ébria. O homem que fracassasse quanto
ao sentimento aviltaria a Deus, seria a causa da derrota da força viril de Deus, a causa de uma
catástrofe cósmica, de um horror inimaginável... – Tornou a beber.
– Deixe que eu segure o copo, Mynheer Peeperkorn – disse Hans Castorp. – Acho muito
instrutivo seguir o curso dos seus pensamentos. O senhor acaba de desenvolver uma teoria
teológica na qual atribui ao homem uma função religiosa muito digna, se bem que, talvez, um
pouco unilateral. Nas suas ideias, se me posso permitir esta observação, há um certo rigorismo
que é – perdoe-me – que é angustiante. Todo rigor religioso é por natureza angustiante para
pessoas de uma envergadura mais modesta. Nem penso em me atrever a corrigir o senhor, mas
queria apenas desviá-lo desses problemas e voltar ao que o senhor disse acerca de certos
“preconceitos” que, segundo a sua opinião, o Sr. Settembrini tem com referência a madame, sua
companheira de viagem. Não é de ontem que conheço o Sr. Settembrini; conheço-o faz muito
tempo, há anos e anos. E posso lhe assegurar que os seus preconceitos – se é que existem – não
são em absoluto os preconceitos mesquinhos de um pequeno burguês. No caso dele só se pode
tratar de preconceitos de um estilo mais elevado e por conseguinte de caráter impessoal, de
princípios pedagógicos gerais, que o Sr. Settembrini defende, visando, para falar com franqueza, a
mim, na minha qualidade de “filho enfermiço da vida”... Mas isso nos leva muito longe. É um
assunto excessivamente vasto para que poucas palavras o possam...
– E o senhor ama madame? – perguntou Mynheer de repente, voltando para o visitante o
rosto de soberano, com a boca dolorosa e gretada e com os olhinhos apagados sob os arabescos
drapejados da fronte... Hans Castorp sobressaltou-se. Balbuciando, respondeu:
– Se eu... Quer dizer... Sinto naturalmente grande respeito por Mme. Chauchat, já pelo
fato de ela ser...
– Por favor! – disse Peeperkorn, refreando-o com um esmerado gesto da mão estendida e
obtendo, desta forma, o necessário “espaço” para as palavras que tencionava pronunciar. –
Permita-me – continuou –, deixe-me repetir que estou longe de culpar esse senhor italiano por
uma infração real das leis do cavalheirismo... Não acuso ninguém de tal infração, ninguém! Mas
notei... Neste momento, por exemplo, tenho o prazer de... Bem, meu caro jovem! Está tudo
muito bem. Tenho nisso grande prazer; não se discute; de fato me é sumamente agradável.
Mesmo assim digo de mim para mim... Numa palavra, digo de mim para mim: o senhor conhece
madame há mais tempo do que eu. Já esteve aqui com ela na outra temporada. Além disso, madame
é uma mulher cheia de encantos, e eu sou apenas um velhote enfermo. Como se explica então...
Por eu estar indisposto, ela desceu hoje de tarde à vila para fazer compras, sozinha e sem
ninguém que a acompanhasse... Não há mal nenhum nisso. Absolutamente! Mas não há dúvida
de que seria... Será que devo atribuir à influência dos – como se expressou o senhor? – dos
princípios pedagógicos do Signor Settembrini o fato de o senhor não ter seguido o impulso
cavalheiresco... Peço que me entenda literalmente...
– Literalmente, Mynheer Peeperkorn. Não, senhor. Nem um pouquinho. Agi
espontaneamente. Pelo contrário, em certa ocasião o Sr. Settembrini até me... Mynheer
Peeperkorn, lastimo ver no seu lençol umas manchas de vinho. Não acha que se deveria... Lá em
casa costumavam pôr sal, enquanto a mancha estava fresca...
– Isso não tem importância – volveu Peeperkorn, sem perder de vista o visitante.
continua pág 391...
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Leia também:
Capítulo II
Da pia batismal e dos dois aspectos do avô
Da pia batismal e dos dois aspectos do avô
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Mynheer Peeperkorn - Continuação (d)
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
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