Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Terceira Parte
IV
continuando...
Nos dias de pagamento nos escritórios da companhia, Montsou parecia estar em festa, como nos belos domingos do padroeiro. De todos os conjuntos habitacionais operários chegava uma multidão de mineiros. O escritório do caixa era muito pequeno e eles preferiam esperar à porta; estacionavam em grupos na calçada e impediam o trânsito com uma fila enorme e que crescia sempre. Os vendedores ambulantes aproveitavam a ocasião e ali instalavam suas tendas de rodas, exibindo nos seus mostruários até louças e salsicharia. Mas eram sobretudo os cafés e os botequins que faziam uma boa féria, já que os mineiros, antes de receberem o pagamento, iam pacientar diante dos balcões e depois, com o dinheiro no bolso, voltavam para diluí-lo. Isso, quando não acabavam com ele no Volcan.
À medida que Maheu e Etienne avançavam por entre os grupos,
sentiam no ar um surdo exaspero. Não era a habitual despreocupação do
dinheiro recebido e esbanjado nas tabernas. Os punhos estavam cerrados,
corria de boca em boca um sopro de violência.
— Então é verdade? — perguntou Maheu a Chaval, que se
encontrava em frente ao Piquette. — A sujeira está feita?
Chaval, no entanto, contentou-se em responder com um grunhido
furioso, olhando de revés para Etienne.
Depois da renovação da empreitada, fora trabalhar com outros, aos
poucos roído de inveja do companheiro, esse recém-chegado que queria ser
líder e a quem todo o conjunto habitacional, dizia ele, vinha lamber as
botas. Esse despeito complicava-se com um amuo de amante: toda vez que
levava Catherine a Réquillart ou para trás do aterro, acusava-a em termos
abomináveis de dormir com um hóspede da família; em seguida afogava-a
em carícias, presa de um desejo selvagem.
Maheu fez-lhe outra pergunta:
— É a vez da Voreux?
E como o outro lhes desse as costas, depois de ter respondido
afirmativamente com a cabeça, os dois homens decidiram-se a entrar no
escritório.
A pagadoria era uma peça acanhada, retangular, dividida em duas
por um gradeado. Sentados em bancos dispostos ao longo das paredes,
cinco ou seis mineiros esperavam, enquanto o caixa, ajudado por um
funcionário, pagava a outro que estava em pé diante do guichê, de boné na
mão. Por cima do banco da esquerda estava colado um cartaz amarelo cuja
cor sobressaía no reboco de um pardo opaco. E era por ali que havia um
desfile contínuo de homens desde a manhã. Entravam em grupos de dois ou
três, ficavam parados por algum tempo e depois partiam calados,
balançando os ombros, como se tivessem recebido uma bordoada nas
costas.
Naquele momento havia dois mineiros diante do cartaz: um, jovem,
com uma cabeçorra quadrada e bestial, e outro já velho, muito magro, o
rosto embotado pela idade. Nenhum dos dois sabia ler: o mais moço
soletrava movendo os lábios, o velho limitava-se a olhar estupidamente.
Muitos entravam assim, só para ver, sem poder compreender.
— Lê isso para a gente — disse Maheu ao companheiro. Ele
também não era forte na leitura.
Etienne pôs-se a ler o cartaz. Era um aviso da companhia aos
mineiros de todas as galerias, advertindo-os de que, diante do descuido com
que estava sendo feito o estaqueamento, cansada de infligir multas inúteis,
resolvera aplicar um novo método de pagamento para o abate da hulha. De
agora em diante, pagaria o estaqueamento à parte, por metro cúbico de
madeira descida e empregada, baseando-se na quantidade necessária para
um bom trabalho. O preço do vagonete de carvão abatido seria
naturalmente diminuído, numa proporção de cinquenta para quarenta
cêntimos, segundo, claro está, a natureza e a distância dos veios. A seguir,
um cálculo bastante obscuro tentava provar que essa diminuição de dez
cêntimos ficava exatamente compensada pelo preço do estaqueamento. Para
concluir, a companhia acrescentava que, querendo deixar a cada um o
tempo necessário para se convencer das vantagens do novo sistema,
pretendia aplicá-lo somente a partir de segunda-feira, primeiro de
dezembro.
— Faça o favor, leia mais baixo! — gritou o caixa. — Com esse
barulho não é possível trabalhar.
Etienne terminou sua leitura sem levar em conta a observação do
funcionário. Sua voz estava trêmula, e, quando acabou, todos continuaram a
olhar fixamente para o cartaz. O velho mineiro e o rapaz pareciam estar
esperando por mais coisas. Depois foram-se, como que vergados.
— Infames! — murmurou Maheu.
Ele e seu companheiro sentaram-se, absortos, de cabeça baixa,
enquanto o desfile continuava em frente ao papel amarelo. Aquilo mais
parecia uma brincadeira! Jamais poderiam ressarcir-te dos dez cêntimos
descontados de vagonete apenas com o estaqueamento. No máximo
receberiam oito cêntimos, sem contar o tempo perdido num trabalho de
estaqueamento cuidadoso. Era a isso que ela queria chegar, a esse
rebaixamento de salário disfarçado! O que estava fazendo era economia
com o suor dos mineiros.
— Malditos infames! — repetiu Maheu, levantando a cabeça. —
Não passamos de uns incapazes se aceitarmos isso.
— Maheu e consócios — disse o funcionário. — Veio Filonnière,
seção número sete.
Procurava nas listas que eram feitas de acordo com as cadernetas,
onde os contramestres, diariamente e por seção, anotavam o número de
vagonetes extraídos. Em seguida repetiu:
— Maheu e consócios, veio Filonnière, seção número sete... Cento
e trinta e cinco francos.
O caixa pagou.
— Perdão, senhor — balbuciou o britador transido —, está certo de
que é isso mesmo?
Olhava para a ínfima quantia sem tocá-la, perpassado por um leve
frêmito que lhe atingia o coração, gelando-o. Claro que esperava um
pagamento reduzido, mas não tanto assim... Ou será que seus cálculos
estavam errados? Após ter entregue a Zacharie, Etienne e ao outro
companheiro que substituía Chaval seus quinhões respectivos, sobrariam
quando muito cinquenta francos para ele, seu pai, Catherine e Jeanlin.
— Não, não estou enganado — disse o empregado. — Foram
descontados dois domingos e quatro dias em que não houve trabalho, um
total de nove dias.
Maheu seguia aquele cálculo adicionando baixinho: nove dias
dariam a ele aproximadamente trinta francos, dezoito a Catherine, nove a
Jeanlin. Quanto ao velho Boa-Morte, só trabalhara três dias. Com tudo isso,
somando os noventa francos de Zacharie e dos dois camaradas, era com
certeza muito mais.
— E não esqueça que houve multas — concluiu o funcionário. —
Só nelas foram vinte francos por revestimentos defeituosos.
O britador não sopitou um gesto de desespero. Vinte francos de
multas, quatro dias sem trabalho! Tudo se esclarecia... E dizer que houvera
quinzenas em que recebera cento e cinqüenta francos, quando o pai ainda
trabalhava e Zacharie era solteiro!
— Vai apanhar o dinheiro ou não vai? — exclamou o caixa com
impaciência. — Não vê que há outro esperando? Se não quer, diga.
Quando Maheu começou a juntar o dinheiro com a sua grossa mão
trêmula, o empregado falou-lhe novamente.
— Espere, tenho o seu nome aqui comigo. Toussaint Maheu, não é?
O senhor secretário-geral deseja vê-lo. Pode entrar, ele está só.
Atordoado, o operário achou-se num gabinete mobiliado de mogno
velho e forrado com um tecido verde já desbotado. E durante cinco minutos
escutou o secretário-geral, um homem alto e macilento, que lhe falou sem
se levantar, por cima dos papéis espalhados na mesa. Não podia ouvir
direito devido a um zumbido nos ouvidos. Compreendeu vagamente que se
tratava do seu pai, cuja aposentadoria estava sendo estudada, com um teto
de pensão de cento e cinquenta francos, cinquenta anos de idade e quarenta
de serviços prestados. Em seguida, pareceu-lhe que a voz do secretário
ficava mais áspera. Era uma repreensão, acusavam-no de estar fazendo
política, uma alusão foi feita ao seu locatário e à caixa de previdência. Por
fim o outro aconselhou-o a não se comprometer com tais loucuras, pois era
um dos melhores operários da mina. Quis protestar, mas só conseguiu
pronunciar palavras sem nexo, amarrotou o boné entre os dedos e retirou-se
gaguejando:
— Certamente, senhor secretário... Asseguro-lhe, senhor
secretário...
Já do lado de fora, ao dar com Etienne, que o esperava, explodiu.
— Eu sou um incapaz, devia ter respondido! O que pagam não
chega para o pão, e ainda me vêm com histórias! Claro, a coisa é contra ti,
disse-me que o conjunto habitacional está envenenado... Que se pode fazer?
Diacho! Curvar-se, agradecer... Ele tem razão, é mais prudente.
O infeliz calou-se, dividido entre a cólera e o medo. Etienne
meditava com ar sombrio. Novamente atravessaram os grupos que
atravancavam a rua. A exasperação crescia, uma exasperação de gente
calma, um murmúrio que prenunciava a tempestade, sem gestos violentos,
pairando terrível por cima da multidão compacta. Algumas cabeças que
sabiam contar tinham feito o cálculo e os dois cêntimos arrebatados pela
companhia no estaqueamento circulavam, exaltavam até os mais ignorantes.
Mas era sobretudo a fúria contra aquele pagamento desastroso que
circulava, a revolta da fome contra as folgas e as multas. Já não se comia
mais, o que iria acontecer agora com esse corte nos salários? Nos cafés, a
fúria tinha livre curso, a cólera secava a tal ponto as goelas que a ninharia
recebida ficava toda sobre os balcões.
De Montsou até o conjunto habitacional, Etienne e Maheu não
trocaram palavra. Quando este último entrou, a mulher, que estava sozinha
com as crianças, deu-se conta imediatamente de que ele voltara de mãos
abanando.
— Como és bonzinho! — disse ela. — Onde está o café, o açúcar e
a carne que pedi? Um pedaço de vitela não seria a causa da tua ruína.
Ele não respondeu, sufocado por uma emoção reprimida. Mas, em
seguida, houve uma explosão de desespero naquele rosto denso de homem
enrijecido nos trabalhos das minas, e grossas lágrimas saltaram em
borbotões dos seus olhos. Desmoronou sobre uma cadeira chorando como
criança e jogou os cinquenta francos na mesa.
— Toma — gaguejou ele —, é isto o que te trago... Do trabalho de
toda a família...
A mulher virou-se para Etienne, que estava mudo e abatido. Ela
também começou a chorar. Como alimentar nove pessoas com cinquenta
francos para quinze dias? O filho mais velho os abandonara, o velho já não
podia caminhar, era a morte certa para todos eles! Alzire jogou-se ao
pescoço da mãe, aterrorizada ao vê-la chorando. Estelle começou a berrar,
Lénore e Henri soluçavam.
E de todo o conjunto habitacional começou a subir o mesmo grito
de miséria. Os homens tinham voltado, cada família se lamentava ante o
desastroso pagamento. As portas se abriram, mulheres surgiram nas
soleiras, aos gritos, como se os tetos das casas não mais pudessem conter
suas queixas. Caía uma chuva fina que elas não sentiam, aos gritos umas às
outras, mostrando na palma da mão o mísero dinheiro.
— Olha só o que eles pagaram! Então isso não é uma vergonha?
— E eu, que nem sequer para o pão da quinzena tenho!
— E o que dizem de mim? Contem, contem aqui na minha mão!
Vou ter que vender minhas camisolas outra vez.
A mulher de Maheu foi para fora como as outras. Formou-se um
grupo em torno da esposa de Levaque, que era a que gritava mais forte,
porque o beberrão do marido nem sequer voltara e ela sabia que, muito ou
pouco, todo o dinheiro recebido ia esboroar-se no Volcan. Philomène
espreitava Maheu, para saltar sobre Zacharie no momento em que este fosse
apanhar seu quinhão. Só a mulher de Pierron parecia calma: o salafrário do
marido se arranjava sempre, ninguém sabia como, para ter mais horas que
os outros na caderneta do contramestre. A Queimada, no entanto, achava
isso uma covardia da parte do genro, estava entre as exaltadas, magra e
ereta no meio do grupo, de punho ameaçador apontando para Montsou.
— E dizer — gritava ela, sem nomear os Hennebeau — que eu vi a
empregada deles andando de caleça hoje de manhã! Juro! A cozinheira, na
caleça de dois cavalos, indo a Marchiennes, na certa para comprar peixe!
Elevou-se um clamor e as violências recrudesceram. Essa
empregada de avental branco, indo ao mercado da cidade vizinha na
carruagem dos patrões, levantava uma indignação geral. Enquanto os
operários morriam de fome, eles não podiam passar sem peixe na mesa!
Mas isso não podia continuar, um dia não comeriam mais peixe, a vez do
pobre tinha de chegar... E as ideias semeadas por Etienne tomavam corpo.
Era um grito de revolta. Era a impaciência pela idade de ouro prometida, a
pressa para gozarem do seu quinhão de felicidade, libertos enfim desse
horizonte de miséria, esmagador como um sepulcro. A injustiça estava-se
tornando quase insuportável, acabariam por exigir seus direitos, uma vez
que lhes era tirado o pão da boca. As mulheres, sobretudo, queriam entrar
de assalto, imediatamente, nessa cidade ideal do progresso, onde não
haveria miseráveis.
Era quase noite e a chuva caía cada vez mais forte. As mulheres
continuavam a inundar com suas lágrimas o conjunto habitacional, em meio
à gritaria enlouquecedora das crianças.
A noite, no Avantage, a greve ficou decidida. Rasseneur já não mais
a combatia e Suvarin aceitava-a como um primeiro passo. Concisamente,
Etienne descreveu a situação: se a companhia queria a greve, ia tê-la.
continua na página 159...
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Terceira Parte - (IV.b)
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando — se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
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