A Montanha Mágica
Capítulo VII
Mynheer Peeperkorn
(continuação)
..
Mynheer Peeperkorn residiu no Sanatório Berghof durante todo esse inverno – quer
dizer, durante os meses que ainda restavam dele – e ainda uma parte da primavera, de modo que
antes do fim se pôde realizar uma notável excursão coletiva – também Naphta e Settembrini
tomaram parte nela – ao vale de Fluela e à cascata que ali existe... Antes do fim? Quer dizer que
não ficou mais tempo? Não, não ficou mais tempo. Partiu, então? Sim e não. Sim e não? Nada de
mistérios, por favor! É preciso resignar-se. Também o Tenente Ziemssen faleceu, sem falar de
muitas outras pessoas menos honradas que entraram na dança da morte. De maneira que o
confuso Peeperkorn morreu daquela febre maligna? Não, assim não se deu. Mas por que tanta
impaciência? Deve-se respeitar a condição da vida e da narrativa, segundo a qual as coisas não
podem acontecer todas ao mesmo tempo. Cumpre não rebelar-se contra as formas do
conhecimento humano que Deus nos conferiu. Prestemos ao tempo pelo menos tanta honra
quanta ainda permite a natureza da nossa história! De todo modo não sobra mais muita. A
narração precipita-se, aos trambolhões, ou – se essa expressão, porventura, soa por demais
barulhenta – vai deslizando com a rapidez do vento. Quem indica o nosso tempo é um
ponteirozinho que saltita como se medisse segundos, mas cada vez que passa pelo vértice,
friamente e sem se demorar, significa sabe Deus o quê. Já faz anos – isto é indiscutível – que nos
achamos aqui em cima. Sentimo-nos tomados de vertigem. Sonhamos um sonho vicioso, sem
ópio nem haxixe, e o censor que vela pelos bons costumes não deixará de condenar-nos. E
todavia nos empenhamos, propositadamente, em opor à névoa perniciosa a mais intensa clareza
de raciocínio e o máximo de agudeza lógica. Não é por acaso – convém reconhecer esse fato –
que nos rodeamos de inteligências como as dos senhores Naphta e Settembrini, ao invés de nos
cercarmos exclusivamente de esfumados Peeperkorns. Verdade é que isso nos leva a uma
comparação que, sob certos pontos de vista, principalmente no que se refere à envergadura,
resultaria vantajosa para a personagem posteriormente apresentada. Também Hans Castorp
chegava a essa conclusão, quando se achava estendido no seu compartimento de sacada e refletia
sobre os dois educadores excessivamente articulados, que lhe disputavam a pobre alma.
Verificava então que eles pareciam anões em confronto com Pieter Peeperkorn, a ponto de
sentir-se inclinado a qualificá-los de “pequenos tagarelas”, da mesma forma como o holandês, na
sua regia ebriedade, fizera humoristicamente com ele mesmo. Julgava feliz e proveitoso o contato
com uma autêntica personalidade, que a pedagogia hermética lhe proporcionava, além do mais.
Que essa personalidade fosse o companheiro de viagem de Clávdia e como tal
constituísse imenso obstáculo, era problema à parte, que no entanto não perturbava a
objetividade de Hans Castorp. A simpatia sinceramente respeitosa, embora às vezes um tanto
atrevida, que lhe inspirava esse homem de grande envergadura não era perturbada – repetimo-lo – pela simples circunstância de ele viver em comunhão de bens com uma mulher que emprestara
um lápis a Hans Castorp numa noite de carnaval. Nosso jovem não era de índole a deixar-se
influenciar por essas coisas. Não duvidamos de que certos leitores ou leitoras se escandalizarão
com tamanha “falta de temperamento” e prefeririam que ele odiasse e evitasse Peeperkorn, que o
tratasse, no seu íntimo, de velho burro e de beberrão tartamudo, em vez de visitá-lo por ocasião
dos seus ataques de febre intermitente, de sentar-se à beira da sua cama, de conversar com ele
(esse verbo naturalmente só se refere às contribuições que o colóquio recebia da parte de Hans
Castorp, e não às do grandioso Peeperkorn) e de sujeitar-se ao influxo dessa personalidade, com
o espírito curioso de quem viaja para se instruir. Mas era precisamente o que ele fazia, e relatamos
o fato indiferentes ao perigo de que diante disso alguém se possa recordar de Ferdinand Wehsal,
que costumava carregar o sobretudo de Hans Castorp. Essa reminiscência não demonstra coisa
alguma. O nosso herói não era nenhum Wehsal. Nada tinha que ver com os abismos da miséria.
Apenas não era “herói”, quer dizer, a mulher não lhe determinava as relações para com tudo
quanto é homem. Fiéis ao nosso princípio de não o apresentar nem melhor nem pior do que era,
constatamos que ele se recusava simplesmente – não de forma intencional e expressa, mas de
modo todo ingênuo – a consentir que influências romanescas o impedissem de ser justo no
julgamento do seu próprio sexo e o privassem da capacidade de apreciar experiências realizadas
nessa esfera, e que pudessem ser proveitosas para a sua formação. Pode ser que essa atitude não
agrade às mulheres, e, se não nos enganamos, Mme. Chauchat, sem querer, a achava chocante;
certas indiretas que lhe haviam escapado, e que assinalaremos no que se segue, indicam isso. Mas
talvez fosse justamente devido a essa qualidade que Hans Castorp era objeto bastante próprio
para disputas pedagógicas.
Peeperkorn achava-se frequentemente acamado. Não causará espécie que estivesse doente
também no dia seguinte àquela noite de jogo e de champanha. Quase todos os que haviam
participado da sessão prolongada e exaustiva sentiam-se mal, inclusive Hans Castorp, que sofria
de forte dor de cabeça. Mas nem por isso deixou de visitar o anfitrião da véspera no seu quarto
de enfermo. Fez-se anunciar pelo malaio, que encontrou no corredor do primeiro andar, e foi
introduzido.
Entrou no dormitório do holandês, onde havia duas camas. Antes atravessara um salão
que o separava do quarto de Mme. Chauchat. Pôde verificar que esses aposentos diferiam das
peças normais que o Berghof alugava aos pensionistas, tanto pelas dimensões como pela
elegância da mobília. Existiam ali poltronas forradas de seda e mesas de pernas arqueadas. Um
tapete fofo cobria o chão, e também as camas não pertenciam ao tipo vulgar de higiênicos leitos
de morte. Eram até suntuosas, feitas de cerejeira polida, com guarnições de latão, e tinham um
pequeno dossel comum, sem cortinas pendentes; apenas um baldaquinozinho protetor que as
unia.
Peeperkorn estava estendido sobre um dos dois leitos. Na colcha de seda vermelha viam
se livros, cartas e jornais. Com o pincenê de aros de chifre colocado muito alto na testa, lia o
Telegraaf. Sobre uma cadeira ao lado da cama havia um serviço de café e uma garrafa de vinho
tinto meio vazia; era o mesmo da noite anterior, com o bouquet ingênuo. Na mesinha-de-cabeceira
achavam-se vidros de remédios. Para discreta surpresa de Hans Castorp, a camisola que o
holandês usava não era branca, mas de lã, com mangas compridas, abotoadas nos punhos, e
tinha, em vez de gola, um decote redondo; ajustava-se estreitamente aos largos ombros e ao peito
imponente do velho. A grandiosidade humana da cabeça que jazia sobre o travesseiro ressaltava
em virtude desse traje, que a distanciava da esfera burguesa e imprimia à figura de Peeperkorn um
cunho que fazia pensar num homem do povo, num proletário, como nos traços imortalizados de
um busto.
– Perfeitamente, meu caro jovem – disse, enquanto pegava no arco do pincenê para tirá-lo. – Faça-me o favor... Absolutamente. Pelo contrário. – E Hans Castorp sentou-se junto dele,
escondendo o seu assombro compassivo – a não ser que fosse admiração real aquilo que lhe
impunha o seu senso de justiça. Para dissimular esse sentimento, recorreu a lugares-comuns
amistosos e animados, que Peeperkorn secundava com frases impressionantemente abruptas e
com uma gesticulação enfática. O holandês não tinha bom aspecto. Seu rosto estava amarelo e
mostrava traços de sofrimento e fadiga. Pela manhã, tivera violento acesso de febre, e o
subsequente cansaço aliava-se à ressaca provocada pela embriaguez da véspera.
– Ontem fomos um tanto longe – disse. – Não, permita-me... Foi exagerado e
prejudicial... O senhor ainda está... Bem, no seu caso não faz mal. Mas na minha idade e para a
minha abalada... Minha filha – prosseguiu, dirigindo-se com terna mas decidida severidade a
Mme. Chauchat, que acabava de entrar pela porta do salão –, está tudo muito bem, mas eu lhe
repito que teria sido melhor vigiar-me e impedir-me de... – Enquanto proferia essas palavras,
vibravam-lhe nas feições e na voz os prenúncios de um ataque de raiva soberana. Mas bastava
imaginar a tempestade que teria irrompido se alguém houvesse feito uma tentativa de estorvar-lhe
seriamente a bebedeira, para avaliar a totalidade da injustiça e da insensatez dessa censura. Essas
coisas talvez sejam inerentes à grandeza. Com efeito, a sua companheira de viagem passou por
cima do assunto e cumprimentou Hans Castorp, que se levantara. Não lhe deu a mão, mas
limitou-se a sorrir e a pedir “que não se incomodasse, por favor” e que “de maneira alguma”
interrompesse o seu tête-à-tête com Mynheer Peeperkorn. Logo se entregou a uma série de
atividades. Mandou o criado retirar o serviço de café. Desapareceu por alguns instantes e voltou
com aquele seu andar felino. Sem sentar-se, procurou tomar parte na conversa, ou – se queremos
aderir à opinião vaga de Hans Castorp – empenhou-se em controlá-la um pouquinho. Claro!
Tinha plena liberdade de regressar ao Sanatório Berghof em companhia de uma personalidade de
grande envergadura; mas, quando o homem que tanto esperara por ela prestava a essa
personalidade as devidas honras, de homem para homem, ela se mostrava inquieta e mesmo
sarcástica, com todos esses “por favor” e “de maneira alguma”. Hans Castorp sorriu disso,
baixando bem a cabeça, a fim de ocultar o sorriso. Ao mesmo tempo sentiu-se abrasado de
alegria interior.
Peeperkorn serviu-lhe uma taça de vinho, da garrafa que se encontrava na mesinha-de
cabeceira. Nas atuais circunstâncias – opinava o holandês –, o melhor que se podia fazer era
continuar no ponto onde haviam parado à noite anterior, e esse vinho leve tinha o mesmo efeito
que água de soda. Bebeu à saúde de Hans Castorp, e este, enquanto bebia, observou como a
sardenta mão de capitão, com as unhas pontudas e com o punho abotoado da camisola de lã a
estreitar-lhe o pulso, erguia o copo, como os lábios amplos e gretados pousavam-lhe na borda, e
como o vinho deslizava pela garganta proletária ou escultural, que alternadamente se levantava e
descia. Depois vieram a falar do remédio que se via no criado-mudo, um líquido pardo do qual
Peeperkorn engoliu uma colherada, a conselho e com o auxílio de Mme. Chauchat. Tratava-se de
um antipirético à base de quinina. Peeperkorn fez com que o visitante o provasse para conhecer o
gosto característico, amargo e contudo aromático do preparado. A seguir manifestou seu elogio
ao quinina, que não somente era uma bênção por destruir os germes e por exercer um efeito
salutar sobre o centro regulador da temperatura, mas também merecia ser apreciado como tônico:
reduzia o metabolismo da albumina, favorecia a assimilação dos alimentos; numa palavra,
constituía uma poção feita para regalar a gente, um remédio magnífico, que fortalecia, estimulava
e reavivava. Também era inebriante, e seria fácil uma pessoa embriagar-se de quinina –
acrescentou, pilheriando e esboçando gestos sugestivos com a cabeça e a mão, que novamente o
assemelhavam a um sacerdote pagão a dançar.
Que substância maravilhosa, essa casca febrífuga! Não fazia, aliás, nem três séculos que a
farmacologia europeia sabia da sua existência, e não haviam decorrido cem anos desde que a
química descobrira o alcaloide ao qual essa casca devia as suas virtudes, isto é, o próprio quinina.
Descobrira-o e analisara-o até certo ponto, mas não podia pretender ter elucidado
completamente a sua composição e não conseguira produzi-lo artificialmente. Falando de modo
geral, a nossa farmacologia faria bem em não se gabar blasfemamente da sua sabedoria, pois em
face de muitas outras matérias acontecia-lhe o mesmo. Tinha ela certos conhecimentos a respeito
do dinamismo, dos efeitos das substâncias, mas o problema de encontrar a causa exata desses
efeitos frequentemente lhe criava sérios embaraços. Se o jovem se ocupasse um pouquinho com
a toxicologia, verificaria que ninguém era capaz de informá-lo acerca das qualidades elementares
que determinavam os efeitos dos chamados venenos. Havia, por exemplo, os venenos das
serpentes, dos quais se sabia apenas que essas secreções animais pertenciam ao grupo dos
compostos de albumina, constavam de diversos tipos de albuminoides e produziam os seus
efeitos fulminantes somente numa combinação determinada, que no entanto permanecia
totalmente indeterminada. Quando introduzidas na circulação do sangue, originavam
consequências pasmosas, uma vez que ninguém estava acostumado a ver a albumina agir como
peçonha. Mas, quanto ao mundo das substâncias químicas – dizia Peeperkorn, que se soerguera
no travesseiro e elevava o anel da precisão e os dedos lanciformes ao lado da cabeça com os
olhos apagados e com os arabescos da fronte –, quanto às substâncias químicas, a verdade era
esta: todas elas eram ao mesmo tempo medicamentos e venenos; a farmacologia e a toxicologia
eram a mesma coisa; os doentes se curavam por meio de tóxicos, e o que era considerado como
portador da vida podia, sob certas circunstâncias, produzir um espasmo que matava no lapso de
um segundo.
O holandês falava, com muita insistência e de modo mais coerente do que em geral, sobre
remédios e peçonhas. Hans Castorp escutava-o, sacudindo a cabeça obliquamente inclinada. O
que lhe interessava era menos o conteúdo das palavras de Peeperkorn, que parecia intimamente
preocupado com o seu assunto, do que o estudo silencioso dos fatores que originavam aquela
influência da sua personalidade, que no fundo era tão inexplicável quanto os venenos das cobras.
O dinamismo – expunha Peeperkorn – era o que importava no mundo das substâncias; todo o
resto era condicionado a ele. Também o quinina era um veneno medicativo, de natureza
sumamente poderosa. Quatro gramas dele bastavam para causar surdez e vertigens, para cortar a
respiração, para turvar a vista à maneira da tropina, e para embriagar o paciente tal e qual o
álcool. Os operários que trabalhavam nas fábricas de quinina tinham os olhos inflamados e os
lábios inchados, além de sofrer erupções da pele. Pôs-se a tratar da cinchona, da árvore da quina,
das florestas virgens das cordilheiras, onde, a três mil metros de altura, estava o seu habitat, e
donde a sua casca, sob a denominação de “pó dos jesuítas”, chegara à Espanha numa época
muito tardia, ao passo que os indígenas da América do Sul conheciam-lhe havia muito a força.
Descreveu as enormes plantações de cinchona que o governo holandês explorava em Java, de
onde anualmente eram embarcados para Amsterdam e Londres muitos milhões de quilos dessas
cascas tubulares, avermelhadas e parecidas com a canela... De forma generalizada podia-se dizer
que as cascas, o tecido que envolvia as árvores, desde a epiderme até o cerne, eram muito
interessantes; quase sempre possuíam extraordinárias qualidades dinâmicas, tanto para o bem
como para o mal. Os conhecimentos que os povos de cor haviam desenvolvido com respeito às
drogas eram muito superiores aos nossos. Em algumas ilhas a leste da Nova Guiné, os jovens
preparavam um filtro de amor, pulverizando a casca de determinada árvore provavelmente
venenosa, como a antiaris toxicaria de Java, que tal e qual a mancenilheira empestava o ar a seu
redor pelas suas exalações e aturdia mortalmente homens e animais. Aqueles jovens
pulverizavam, pois, a casca dessa árvore, misturavam o pó com pedacinhos de coco, enrolavam a
mistura numa folha e fritavam-na. Enquanto a adorada esquiva dormia, esguichavam-lhe no rosto
o caldo assim obtido, e ela acordava apaixonada pelo homem que a borrifara. Às vezes era a casca
da raiz que tinha poderes singulares, como, por exemplo, a de um cipó do arquipélago malaio, o
strychnos tieuté, ao qual os indígenas adicionavam veneno de cobras, para preparar o upas-radcha,
uma droga que, introduzida na circulação do sangue, por meio de uma flechada, tinha por
resultado a morte instantânea, sem que ninguém soubesse explicar de que modo isso se dava.
Apenas se esclarecera que o upas, no que se refere ao seu dinamismo, era parente da estricnina...
E Peeperkorn, que acabava de sentar-se na cama e de vez em quando apanhava a taça de vinho
com a mão de capitão ligeiramente trêmula, a fim de levá-la aos lábios gretados e de sorver
grandes e ávidos tragos, falou da árvore “dos olhos de gralha”, strychnus nux-vomica, da costa do
Coromandel, de cujas bagas alaranjadas, as nozes-vômicas, se extraía o mais poderoso dentre os
alcaloides, a estricnina. Abafando a voz a ponto de torná-la um simples murmúrio, e içando as
rugas da fronte, descreveu a ramaria cinzenta, a folhagem estranhamente lustrosa e as flores
amarelo-esverdeadas dessa árvore, fazendo com que o jovem Hans Castorp tivesse dela uma
imagem mesclada de melancolia e de cores histericamente exageradas, que lhe causou leves
arrepios.
A essa altura, Mme. Chauchat interveio na conversação, fazendo notar que falar muito
não fazia bem a Peeperkorn, que a palestra o cansava e talvez lhe acarretasse um novo acesso de
febre. Por maior que fosse o desgosto que sentia ao interromper a entrevista, via-se obrigada a
pedir que Hans Castorp a desse por terminada esse dia. Este obedeceu, naturalmente, mas no
curso dos meses seguintes eram frequentes as ocasiões em que se achava sentado à beira da cama
do homem majestoso, nos dias seguintes aos acessos de quarta, enquanto Mme. Chauchat,
controlando discretamente o colóquio ou também intercalando umas poucas palavras, andava de
cá para lá pelo apartamento. Também nos dias em que o holandês estava sem febre, o jovem
passava muitas horas com ele e com sua companheira de viagem, adornada de pérolas. Quando o
holandês não se encontrava acamado, raras vezes deixava depois do jantar de reunir em torno de
si uma pequena seleção dos pensionistas do Berghof, cuja composição mudava de uma vez para
outra. Iam então jogar, beber e regalar-se com boas coisas, ora no salão, como da primeira vez,
ora no restaurante, e Hans Castorp ocupava o seu lugar habitual entre a mulher displicente e o
homem magnífico. Até se uniam para o exercício tradicional ao ar livre; davam passeios dos quais
participavam os senhores Ferge e Wehsal, e mais tarde também Settembrini e Naphta, os
antagonistas no espírito, que forçosamente encontraram um dia, e que Hans Castorp se sentiu
feliz de poder apresentar a Peeperkorn e – até que enfim! – a Clávdia Chauchat. Era-lhe
totalmente indiferente que essa apresentação e essas novas relações fossem ou não agradáveis aos
dois adversários, pois tinha a secreta convicção de que ambos necessitavam de um objeto
pedagógico e prefeririam conformar-se com um séquito indesejável a renunciar às disputas
travadas em sua presença.
Com efeito, não se enganou na esperança de que os membros do seu variegado círculo de
amigos terminariam por habituar-se ao fato de não se poderem habituar uns aos outros. Era
inevitável que entre eles houvesse atritos e divergências sem conta, e até uma tácita hostilidade; e
nós mesmos ficamos admirados ao ver como o nosso insignificante herói conseguia agrupá-los à
sua volta. Explica-se esse êxito por certa lhaneza hábil, peculiar ao seu caráter, que lhe afigurava
tudo quanto se dizia como “digno de nota” e não somente ligava a si pessoas e personalidades
das mais diversas, mas também produzia uma certa ligação entre elas.
Como era curioso o enredo dos fios produzidos por essas relações! Sentimo-nos tentados
a mostrar por um instante essa trama complexa, assim como o próprio Hans Castorp a
contemplava com olhares astutos e benevolentes, durante os referidos passeios. Havia ali o
mísero Wehsal, que desejava Mme. Chauchat com ardorosa cobiça e devotava uma veneração
humilde a Peeperkorn e a Hans Castorp; ao primeiro por causa do presente dominador, e ao
segundo por causa do passado. Havia Clávdia Chauchat, a enferma viajante, com seu andar
graciosamente felino, escrava de Peeperkorn, por sua espontânea vontade, e que, apesar de tudo,
parecia um tanto desassossegada e agressiva, cada vez que observava as boas relações que
existiam entre o seu senhor e o cavalheiro de uma remota noite de carnaval. Não fazia essa
irritação pensar naquela outra que se manifestava na sua atitude para com o Sr. Settembrini? Esse
eloquente falador e humanista, com o qual antipatizava, e que tachava de presumido e desumano?
O amigo pedagógico do jovem Hans Castorp, que Mme. Chauchat gostaria imensamente de
interrogar sobre o significado de certas palavras da sua língua mediterrânea, que ela ignorava tão
completamente quanto ele a dela, embora com menos desdém: as palavras que o italiano gritara
atrás do atraente moço alemão, quando esse burguesinho bonito, de boa família e com a sua
mancha úmida, fazia menção de se aproximar dela? Hans Castorp, que andava, como se costuma
dizer, “perdido de amor”, não no sentido pejorativo que às vezes se dá a essa expressão, mas
assim como amam os que são acometidos de uma paixão proibida e insensata, que não poderia
ser decantada nas inocentes cantigazinhas da planície – Hans Castorp, embora malferido por esse
amor, que o tornara dependente, servo, sofredor e submisso, era todavia capaz, em plena
escravidão, de guardar uma boa dose de malícia, o suficiente para saber quanto valor a sua
dedicação tinha e continuaria tendo para com a lânguida enferma de encantadores olhos tártaros
e rasgados. E não obstante toda a sua submissão sofredora, o jovem sabia que era possível
demonstrar esse valor a Mme. Chauchat. Bastaria para isso que ela observasse a atitude do Sr.
Settembrini com relação à sua pessoa, atitude que logo lhe confirmaria claramente quaisquer
suspeitas, por ser tão hostil como o permitia a polidez humanística. Mas o pior – ou, sob o ponto
de vista de Hans Castorp, o mais vantajoso – era que ela tampouco se viu compensada pelas suas
relações com Naphta, das quais esperara muito mais. Verdade é que ali não encontrava a
animosidade que por princípio o Sr. Lodovico opunha à sua maneira de ser, e as condições para
uma conversa eram mais favoráveis. Com efeito, de vez em quando, Clávdia e o baixinho sutil
mantinham palestras em separado, sobre livros ou sobre problemas da filosofia política, que
ambos encaravam da mesma forma radical. Hans Castorp, à sua maneira singela, costumava
tomar parte nesses colóquios. No entanto não podia Mme. Chauchat deixar de perceber certa
reserva aristocrática nas atenções que lhe prestava aquele adventício, prudente como todos do seu
tipo. O terrorismo espanhol de Naphta tinha, na verdade, pouco em comum com sua
mentalidade “humana”, propensa a vagar pelo mundo e a bater as portas. A isso acrescia um
derradeiro fator de natureza sumamente delicada: uma ligeira malquerença, dificilmente definível,
cuja aura Mme. Chauchat, com sua sensibilidade feminina, forçosamente sentia, cada vez que
lidava com um dos dois adversários, seja Naphta, seja Settembrini (assim como também a notava
o seu galã de carnaval), e cuja origem se encontrava nas relações que ambos mantinham com
Hans Castorp. Tratava-se da antipatia do educador contra a mulher como elemento que perturba
e distrai, e esse antagonismo tácito e primitivo unia-os, já que a sua discórdia pedagógica era
neutralizada por ele.
continua pág 381...
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Leia também:
Capítulo II
Da pia batismal e dos dois aspectos do avô
Da pia batismal e dos dois aspectos do avô
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Mynheer Peeperkorn - Continuação (a)
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
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