quarta-feira, 3 de junho de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (2)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO IV
PROSTITUTAS E HETAIRAS
 
continuando...

     Sabe-se que há recrudescência da prostituição durante as guerras e as crises que a elas se seguem.
     O autor de La vie d'une prostituée, publicada em parte em Temps Modernes ¹, assim conta o início de sua carreira:

[1] Esta narrativa foi publicada clandestinamente sob o pseudônimo de Marie Thérèse; por este nome é que a designarei.

   Casei-me aos 16 anos com um homem treze anos mais velho do que eu. Foi para sair de casa de meus pais que me casei. Meu marido só pensava em me fazer filhos. "Assim ficarás em casa, não sairás", dizia-me. Não queria que eu me pintasse, não queria levar-me ao cinema. Eu tinha que suportar a sogra, que vinha a nossa casa todos os dias e dava sempre razão ao salafrário do filho. Meu primeiro filho era um menino, Jacques; quatorze meses depois, dei à luz mais um menino, Pierre... Como me aborrecia muito, resolvi seguir um curso de enfermagem, isso me agradava muito. . . Entrei para um hospital, seção de mulheres, nos subúrbios de Paris. Uma enfermeira, que era ainda uma criança, ensinou-me coisas que eu não conhecia antes. Dormir com o marido era mais uma tarefa do que outra coisa. Na seção dos homens fiquei seis meses sem interessar ninguém. Eis que um dia um verdadeiro "duro", tipo de malandro, mas bonitão, entra no meu quarto particular... Dá-me a entender que poderia mudar de vida, que iria com ele para Paris, que não trabalharia mais... Durante um mês fui realmente feliz... uma mulher bem vestida, elegante, dizendo: Um dia le trouxe "Esta sabe defender-se". A princípio não quis. Arranjei mesmo um lugar de enfermeira numa clínica de bairro para mostrar-lhe que não queria prostituir-me, mas não podia resistir muito tempo. Ele me dizia: "Não me amas. Quando uma mulher ama seu homem, trabalha para ele". Eu chorava. Na clínica, andava triste. Finalmente deixei que me conduzisse ao cabeleireiro... Comecei a aceitar encontros. Julot seguia-me, para ver se eu sabia me defender direito e para me avisar no caso de surgirem tiras...

     Por certos aspectos, esta história está de acordo com a história clássica da mulher entregue à prostituição por um cáften. Acontece ser este papel desempenhado pelo marido. Em alguns casos por uma mulher. L. Faivre realizou em 1931 um inquérito entre 510 prostitutas (Les Jeunes Prostituées vagabondes en prison); verificou que 284 viviam sós, 132 tinham um amigo, 94 uma amiga a quem se achavam ordinariamente unidas por laços homossexuais. Ele cita trechos das cartas seguintes:

   Suzanne, 17 anos. Entreguei-me à prostituição principalmente com prostitutas. Uma que ficou comigo muito tempo era muito ciumenta, por isso saí da rua...
   Andrée, 15 anos e 1/2. Deixei meus pais para morar com uma amiga que encontrei num baile. Percebi logo que queria me amar como um homem, fiquei com ela quatro meses, depois...
   Jeanne, 14 anos. Meu pobre paizinho chamava-se X... Morreu, em consequência da guerra, no hospital, em 1922. Minha mãe tornou a casar-se. Eu ia à escola para obter meu diploma, e tendo-o conseguido tive que aprender a costurar... depois, ganhando muito pouco, começaram as discussões com meu padrasto... Tive que ser colocada como criada em casa 'de Mme X... Estava sozinha há dez dias com a filha dela, que podia ter cerca de 25 anos, quando notei uma grande mudança nesta. E um dia, como um rapaz, ela me confessou seu grande amor. Hesitei e depois, com medo de ser despedida, cedi; compreendi então certas coisas... Trabalhei e depois, ficando sem trabalho, tive que ir ao Bois para me prostituir com mulheres. Conheci uma senhora muito generosa etc.

     Muitas vezes a mulher encara a prostituição como um meio provisório de aumentar seus recursos. Mas já se descreveu mais de uma vez como se vê amarrada a seguir. Se os casos de "tráfico de brancas" em que ela é arrastada para a engrenagem pela violência, falsas promessas, mistificações etc, são relativa mente raros, é frequente entretanto que fique retida na carreira contra sua vontade. O capital necessário ao início foi-lhe fornecido por um cáften, ou uma caftina, que assim adquiriu direitos sobre ela e recolhe a maior parte dos benefícios sem que ela possa libertar-se. Marie Thérèse lutou verdadeiramente durante anos antes de consegui-lo.

   Compreendi finalmente que Julot só queria a "gaita" e pensei que, longe dele, poderia economizar algum dinheiro. . . No bordel, a princípio, eu era tímida, não ousava aproximar-me dos homens e dizer-lhes: Sobe comigo? A mulher de um amigo de Julot vigiava-me de perto e até contava meus encontros... Eis que Julot me escreve que devo entregar todas as noites meu dinheiro à patroa: "Assim não te roubarão..." Quando quis comprar um vestido, a patroa disse-me que Julot a proibira de me dar meu dinheiro...  resolvi largar o mais depressa possível essa casa de tolerância. Quando a patroa soube que eu queria partir, não me deu o tampo² antes da visita, como das outras vezes, e fui detida e recolhida a um hospital... retornar ao bordel para ganhar o dinheiro de minha viagem... só fiquei lá durante quatro semanas... Tive que Mas Trabalhei alguns dias em Barbès como antes, mas estava por demais ressentida com Julot para ficar em Paris: discutíamos, ele me batia, de uma feita quase me jogou pela janela... Arranjei-me com um intermediário para ir para a província. Quando 'me dei conta de que ele conhecia Julot, não fui ao encontro combinado. As duas mulheres dele encontraram-me posteriormente na Rua Belhomme e deram-me uma sova... No dia seguinte fiz minha maleta e fui sozinha para a Ilha de T... Ao fim de três semanas estava farta do bordel, escrevi ao médico a fim de que me mandasse sair quando viesse para a visita... Julot viu-me no Bulevar Magenta e bateu-me... Fiquei com o rosto marcado depois da sova no Bulevar Magenta. Estava farta de Julot. Assinei por isso um contrato para partir para a Alemanha...

[2] Um tampo para adormecer os gonococos, que davam às mulheres antes da visita, de modo que o médico só deparava com uma mulher doente quando a proxeneta queria livrar-se dela.

     A literatura popularizou a figura de "Julot". Ele desempenha na vida da prostituta um papel de protetor. Adianta-lhe dinheiro para que compre vestidos, defende-a contra a concorrência de outras mulheres, contra a polícia — é ele próprio, por vezes, um policial — contra os fregueses. Estes gostariam de poder consumir sem pagar; alguns satisfariam de bom grado seu sadismo com a mulher. Em Madri, há alguns anos, a juventude fascista e rica divertia-se jogando as prostitutas no rio, nas noites frias; na Franga os estudantes, de farra, levam por vezes mulheres para o campo a fim de abandoná-las, à noite, inteiramente nuas; para receber seu dinheiro, evitar os maus tratos, a prostituta tem necessidade de um homem. Ele lhe dá igualmente um apoio moral: "Sozinha, a gente trabalha menos bem, tem menos coragem, relaxa", dizem algumas. Muitas vezes ela tem amor por ele; é por amor que se dedica à profissão ou a justifica; há em seu meio uma enorme superioridade do homem sobre a mulher: essa distância favorece o amor-religião, o que explica a abnegação apaixonada de certas prostitutas. Na violência de seu homem, elas veem um sinal de virilidade e tanto mais docemente se submetem a ele. Conhecem com ele ciúmes, tormentos, mas também as alegrias da mulher apaixonada.
     Entretanto, às vezes só têm por ele hostilidade, rancor: é por medo, é porque eles as têm nas mãos que permanecem submissas, como se viu no caso de Marie Thérèse. Muitas vezes, consolam-se então com um "amor" escolhido entre os fregueses.

   Todas as mulheres, além de seu Julot, tinham "amores", eu também, escreve Marie Thérèse. Era um marinheiro bonitão. Embora fizesse amor muito bem, eu não podia juntar-me com ele, mas tínhamos grande amizade um pelo outro. Muitas vezes ele subia comigo sem fazer amor, só para conversar, dizia-me que eu devia sair dali, que meu lugar não era ali.

     Elas também se consolam com mulheres. Numerosas prostitutas são homossexuais. Vimos que havia muitas vêzes uma aventura homossexual no início da carreira delas. Segundo Anna Rueling, na Alemanha, cerca de 20% das prostitutas seriam homossexuais. Faivre observa que, na prisão, jovens detentas trocam cartas pornográficas e apaixonadas que assinam "Unidas para toda a vida". Tais cartas são homólogas às que se escrevem as jovens escolares que alimentam "chamas" em seus corações; estas são menos sabidas, mais tímidas; aquelas vão até o fim de seus sentimentos, tanto nas palavras como nos atos. Vê-se na vida de Marie Thérèse — que foi iniciada na volúpia por uma mulher — o papel privilegiado que desempenha a "amiguinha" em face do freguês desprezado, do cáften autoritário:

   Julot trouxera uma mulher, uma pobre criadinha que não tinha sequer sapatos. Compraram-lhe tudo na feira de objetos usados, depois veio ela ter comigo para trabalhar. Era muito gentil e como, além disso, gostava de mulheres, entendíamo-nos muito bem. Lembrava-me tudo o que aprendi com a enfermeira. Divertíamo-nos muitas vezes e, ao invés de trabalhar, íamos ao cinema. Eu estava contente por tê-la conosco.

     Vê-se que a amiguinha desempenha mais ou menos o mesmo papel que o amigo íntimo para a mulher honesta confinada entre mulheres: é um companheiro de prazeres, é com ela que as relações são livres, gratuitas, e que, por conseguinte, podem ser voluntárias; cansada dos homens, enojada deles ou desejando uma diversão, é nos braços de outra mulher que muitas vezes a prostituta procura relaxamento e prazer. Em todo caso, a cumplicidade de que falei, e que une imediatamente as mulheres, existe mais fortemente nesse caso do que em qualquer outro. Pelo fato de suas relações com metade da humanidade serem de natureza comercial, pelo fato de o conjunto da sociedade as tratar como párias, as prostitutas têm entre si uma solidariedade estreita; podem ser rivais, ter ciúmes, insultar-se, brigar, mas têm profunda necessidade umas das outras para construírem um "contra-universo" em que reencontram sua dignidade humana; a companheira é a confidente e a testemunha privilegiada; ela é quem aprecia o vestido, o penteado — meios destinados a seduzir o homem mas que se apresentam como fins em si aos olhos invejosos ou admirativos das outras mulheres.
     Quanto às relações da prostituta com os fregueses, as opiniões se dividem e os casos são, sem dúvida, variáveis. Observou-se, amiúde, que reserva para o amante do coração o beijo na boca, a expressão de uma livre ternura  ©  que não estabelece nenhuma comparação entre os amplexos amorosos e os profissionais. Os testemunhos dos homens são suspeitos porque a vaidade incita-os a se deixarem iludir por comédias de gozo. Cumpre dizer que as circunstâncias são muito diferentes, segundo se trata de uma "matança", frequentemente seguida de exaustão física, de um encontro rápido, de uma "dormida", ou de relações constantes com um freguês habitual. Marie Thérèse geralmente exercia a profissão com indiferença, mas evoca certas noites com delícia; teve "amores" e diz que todas as suas amigas também os tinham. Em certos casos a mulher recusa-se a receber dinheiro de um freguês que lhe agrada ou, às vezes, se ele está "apertado", oferece-lhe auxílio. Em geral, entretanto, a mulher trabalha "a frio". Algumas só têm, pelo conjunto de sua freguesia, uma indiferença matizada de desprezo. "Como os homens são bobos! As mulheres podem encher-lhes a cabeça com o que querem!" escreve Marie Thérèse. Mas muitas sentem um rancor enojado contra os homens; sentem-se principalmente repugnadas com seus vícios. Seja porque vão ao bordel a fim de satisfazer os vícios que não ousam revelar à mulher ou à amante, seja porque o fato de estar no bordel os incita a inventar vícios, muitos homens exigem "fantasias" da prostituta. Marie Thérèse queixava-se, em particular, de terem os franceses uma imaginação insaciável. As doentes tratadas pelo Dr. Bizard confiaram-lhe que todos os homens são mais ou menos viciados. Uma de minhas amigas conversou longamente com uma jovem prostituta no hospital Beaujon, mulher muito inteligente, que começara como doméstica e vivia com um cáften que ela adorava. "Todos os homens são viciados, menos o meu, dizia. É por isso que o amo. Se um dia lhe descobrir um vício, abandono-o. Da primeira vez, nem sempre o freguês ousa, parece normal; mas quando volta começa a querer coisas... A senhora diz que seu marido não tem vícios: verá um dia. Todos têm." Por causa dos vícios ela os detestava. Em 1943, em Fresnes, outra amiga minha tornara-se íntima de uma prostituta. Esta sustentava que 90% dos fregueses eram viciados, 50% eram pederastas envergonhados. Os que se mostravam demasiado imaginosos assustavam-na. Um oficial alemão pedira-lhe que passeasse nua pelo quarto com flores nos braços enquanto ele imitava o voo de um pássaro: apesar da cortesia e da generosidade dele, ela fugia quando o divisava. Marie Thérèse tinha horror à "fantasia", embora fosse tabelada muito mais caro do que o coito simples e não raro exigisse menor fadiga da mulher. Essas três mulheres eram particular mente inteligentes e sensíveis. Sem dúvida, percebiam que a partir do momento em que não eram mais protegidas pela rotina da profissão, a partir do momento em que o homem deixava de ser um freguês em geral e se individualizava, elas eram a presa de uma consciência, de uma liberdade caprichosa; não se tratava mais de um simples negócio. Certas prostitutas, entretanto, especializam-se na "fantasia", porque rende mais. Em sua hostilidade contra o freguês entra, muitas vezes, um ressentimento de classe. Helen Deutsch conta longamente a história de Ana, uma bonita prostituta loura, infantil, geralmente muito meiga, mas que tinha crises de excitação furiosa contra certos homens. Vinha de uma família operária; o pai bebia, a mãe era doente: o casal infeliz inspirou-lhe tal horror à vida familiar que nunca consentiu em se casar, embora em sua carreira lhe tivessem proposto muitas vezes. Os rapazes do bairro perverteram-na; gostava da profissão; mas quando, por estar tuberculosa, a mandaram para um hospital, ela ficou com um ódio feroz contra os médicos; os homens "respeitáveis" eram-lhe odiosos, não suportava a cortesia, a solicitude de seu médico. "Pois não sabemos nós que esses homens deixam facilmente cair a máscara de sua amabilidade, de sua dignidade, de seu domínio sobre si e se conduzem como animais?", dizia. No restante, era mentalmente equilibrada. Afirmou mentirosamente que tinha um filho com uma ama, fora disso não mentia. Morreu de tuberculose. Outra jovem prostituta, Júlia, que desde a idade de 15 anos se entregava a todos os rapazes que encontrava, só gostava dos homens pobres e fracos; com eles era meiga e gentil; os outros, ela os considerava como "animais selvagens merecedores do pior tratamento". (Tinha um complexo muito acentuado que revelava uma vocação materna insatisfeita: caía furiosamente em transe quando pronunciavam diante dela as palavras mãe, filho, ou de sons semelhantes.)

continua página 333...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (2)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

terça-feira, 2 de junho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 1 (III. Novo casamento e novos filhos)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO I
HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA
III
NOVO CASAMENTO E NOVOS FILHOS

     Fiódor Pávlovitch, depois de livrar-se do pequeno Mítia, contratou em breve um segundo casamento, que durou oito anos. Escolheu por esposa desta segunda vez também uma mulher bastante jovem, de uma outra província, aonde tinha ido, em companhia de um judeu, para tratar de um pequeno negócio. Embora boêmio, bêbedo e debochado, nunca deixava de ocupar-se com a boa colocação de seu capital e arranjava quase sempre bem os seus negócios, mas quase sempre desonestamente. Sofia Ivânovna, órfã desde a infância, filha de um obscuro diácono, vivera na opulenta casa de sua benfeitora, a viúva, altamente colocada, do General Vórokhov, que a educava e a maltratava. Ignoro os detalhes, ouvi simplesmente dizer que a moça, doce, paciente e cândida, tentara enforcar-se, pendurando-se dum prego, na despensa, tão farta estava dos caprichos e das eternas censuras daquela velha, não má no íntimo, mas a quem sua ociosidade tornava insuportável. Fiódor Pávlovitch pediu sua mão; tomaram informações a seu respeito e despacharam-no. Como por ocasião de seu primeiro casamento, propôs então à órfã raptá-la. Muito provavelmente, teria ela recusado tornar-se sua esposa, se tivesse tido melhores informações a seu respeito. Mas isto se passava em outra província; que podia, aliás, compreender uma moça de dezesseis anos, senão que valia mais lançar-se à água do que ficar em casa de sua benfeitora? Foi assim que a infeliz substituiu sua benfeitora por benfeitor. Desta vez, Fiódor Pávlovitch não recebeu um vintém, porque a generala, furiosa, nada dera, a não ser sua maldição. De resto, não contava ele com o dinheiro. A beleza notável da moça e sobretudo sua candura tinham-no encantado. Estava maravilhado, ele, o voluptuoso, até então apaixonado apenas pelos encantos grosseiros. "Aqueles olhos inocentes traspassavam me a alma", dizia mais tarde com um riso canalha. Aliás, aquela criatura corrupta não podia experimentar senão atração sensual. Fiódor Pávlovitch não se incomodou com sua mulher. Como era ela por assim dizer "cul pada" para com ele, que a havia quase "salvado da corda", aproveitando, além disso, de sua doçura e de sua resignação espantosas, pisou aos pés a decência conjugai mais elementar. Sua casa tornou-se teatro de orgias nas quais tomavam parte mulheres de má vida. Um traço a notar é que o criado Gregório, criatura taciturna, discutidor estúpido e teimoso, que detestava sua primeira patroa, tomou o partido da segunda, discutindo por causa dela com seu amo duma maneira quase intolerável da parte dum criado. Um dia, chegou a ponto de expulsar as mulheres que se entregavam a orgias em casa de Fiódor Pávlovitch. Mais tarde, a infeliz jovem senhora, aterrorizada desde a infância, foi presa duma doença nervosa, frequente entre as aldeãs, e que lhes vale o nome de "possessas". Por vezes, a doente, vítima de terríveis crises de histeria, perdia a razão. Deu, no entanto, a seu marido, dois filhos: o primeiro, Ivã, após um ano de casamento; o segundo, Alieksiéi, três anos mais tarde. Quando ela morreu, estava o jovem Alieksiéi com quatro anos de idade e, por mais estranho que isto pareça, nunca se esqueceu de sua mãe durante toda a sua vida, mas como através de um sonho. Morta sua mãe, tiveram os dois meninos a mesma sorte que o primeiro: seu pai esqueceu-se deles, abandonou-os totalmente, tendo sido eles recolhidos pelo mesmo Gregório na sua isbá. Foi lá que os encontrou a velha generala, a benfeitora que havia educado a mãe deles. Vivia ainda e, durante aqueles oito anos, seu rancor não se desarmara. Perfeitamente ao corrente da existência que levava sua Sofia, ao saber de sua doença e dos escândalos que ela suportava, declarou duas ou três vezes aos parasitas que a cercavam: "Bem feito; Deus a castiga por causa de sua ingratidão". Três meses, exatamente, após a morte de Sofia Ivânovna, apareceu a generala em nossa cidade e apresentou-se em casa de Fiódor Pávlovitch. Sua visita não durou senão uma meia hora, mas aproveitou seu tempo. Era de noite. Fiódor Pávlovitch, a quem não via desde oito anos, apresentou-se em estado de embriaguez. Conta-se que, desde que ela o viu, e sem explicações, lhe deu duas bofetadas ressoantes, e puxou-lhe de alto a baixo o topete umas três vezes. Sem acrescentar uma palavra, foi diretamente à isbá, onde se encontravam os meninos. Não estavam lavados, nem vestidos com roupas limpas; vendo isto, a irascível velha assestou também uma bofetada na cara de Gregório e declarou-lhe que levava os meninos. Tais como estavam, enrolou-os numa manta de viagem, pô-los na carruagem e tornou a partir. Gregório guardou a bofetada como bom servidor e absteve-se de qualquer insolência; ao reconduzir a velha senhora à carruagem, disse, num tom grave, depois de ter-se inclinado profundamente, que "Deus a recompensaria pela sua boa ação". "Não passas de um bobalhão", gritou-lhe ela à guisa de adeus. Tendo examinado o caso, Fiódor Pávlovitch declarou-se satisfeito, e concedeu mais tarde seu consentimento formal à educação dos meninos em casa da generala. Foi à cidade vangloriar-se das bofetadas recebidas.
     Pouco tempo depois, a generala morreu; deixava, por testamento, 1000 rublos a cada um dos dois petizes "para sua instrução"; esse dinheiro devia ser despendido integralmente em proveito deles, mas bastar até sua maioridade, sendo já tal soma muito para semelhantes crianças. Se outros quisessem dar mais, que dessem de seu bolso, etc. 
     Não li o testamento, mas trazia ele um trecho estranho, naquele gosto por demais original. O principal herdeiro da velha senhora era, por felicidade, um homem honesto, marechal da nobreza da província, Iefim Pietróvitch Poliénov. Tendo compreendido, pelas cartas de Fiódor Pávlovitch, que dele nada retiraria para a educação de seus filhos (contudo este último nunca recusava categoricamente, mas arrastava as coisas indefinidamente, fazendo por vezes sentimentalismo), interessou-se pelos órfãos e concebeu afeição especial pelo caçula, que ficou muito tempo na sua família. Chamo a atenção do leitor para isso. Se os jovens deviam a alguém sua educação e sua instrução, era justamente a Iefim Pietróvitch, caráter nobre raramente encontrado. Conservou intato para as crianças seu pequeno capital, que, na ocasião de sua maioridade, atingia 2 000 rublos com os juros, educou-os às suas custas, gastando nisso, para cada um, bem mais de 1 000 rublos. Não farei agora um relato detalhado da infância e da juventude deles, limitando-o às principais circunstâncias. O mais velho, Ivã, tornou-se um adolescente sombrio e fechado, nada tímido, mas compreendera bem cedo que seu irmão e ele cresciam em casa de estranhos, de graça, que tinham como pai um indivíduo que lhes causava vergonha, etc. Esse rapaz mostrou, desde sua mais tenra idade (pelo que se conta, pelo menos), brilhantes capacidades para o estudo. Com a idade de cerca de treze anos, deixou a família de Iefim Pietróvitch para seguir os cursos de um ginásio de Moscou, e tomar pensão em casa de um famoso pedagogo, amigo de infância de seu benfeitor. Mais tarde, Ivã contava que Iefim Pietróvitch fora inspirado por seu "ardor pelo bem" e pela idéia de que um adolescente genialmente dotado devia ser educado por um educador genial. De resto, nem seu protetor, nem o educador de gênio existiam mais, quando o rapaz entrou para a universidade. Não tendo Iefim Pietróvitch tomado bem suas disposições e como o pagamento do legado da generala ia-se arrastando, em consequência de diversas formalidades e retardamentos inevitáveis entre nós, o rapaz viu-se em apertos nos seus dois primeiros anos de universidade, obrigado a ganhar sua vida enquanto fazia seus estudos. É preciso notar que então não tentou de modo algum corresponder-se com seu pai — talvez por altivez, por desdém para com ele, talvez também o frio cálculo de sua razão lhe demonstrasse que nada tinha a esperar dele. Seja como for, o rapaz não se perturbou, encontrou trabalho, a princípio deu lições a 20 copeques, em seguida redigiu artigos de dez linhas a respeito de cenas da rua, assinados "Uma Testemunha Ocular", que levava a diversos jornais. Esses artigos, dizem, eram sempre curiosos e espirituosos, o que lhes assegurou bom êxito. Dessa maneira o jovem repórter mostrou sua superioridade prática e intelectual sobre os numerosos estudantes dos dois sexos, sempre necessitados, que, em Petersburgo e em. Moscou, assaltam ordinariamente, da manhã à noite, as redações dos jornais e revistas, não imaginando nada de melhor senão reiterar seu eterno pedido de traduções do francês e cópias. Uma vez conhecido nas redações, Ivã Fiódorovitch não perdeu o contato; nos seus derradeiros anos de universidade, pôs-se com muito talento a escrever resenhas de obras especiais, fazendo-se assim conhecido nos círculos literários. Mas somente para o fim é que conseguiu, por acaso, despertar uma atenção particular num círculo de leitores muito mais extenso. O caso era bastante curioso. À sua saída da universidade e quando se preparava para partir para o estrangeiro com seus 2000 rublos, publicou Ivã Fiódorovitch, num grande jornal, um artigo estranho, que atraiu a atenção até mesmo dos profanos. O assunto era-lhe aparentemente desconhecido, uma vez que seguira os cursos de Ciências Naturais e o artigo tratava a questão dos tribunais eclesiásticos, suscitada, então, por toda parte. Examinando algumas opiniões emitidas a respeito dessa matéria, expunha igualmente suas opiniões pessoais. O que impressionava era o tom e o inesperado da conclusão. Ora, muitos eclesiásticos tinham o autor como seu partidário. Por outra parte, os leigos, bem como os ateus, aplaudiam suas ideias. Afinal de contas, algumas pessoas decidiram que o artigo inteiro não passava de uma desavergonhada mistificação. Se menciono esse episódio é sobretudo porque o artigo em questão chegou até o nosso famoso mosteiro — onde havia interesse pela questão dos tribunais eclesiásticos — e ali provocou grande perplexidade. Uma vez conhecido o nome do autor, o fato de ser originário de nossa cidade e filho daquele mesmo Fiódor Pávlovitch aumentou o interesse. Pela mesma época, apareceu o autor em pessoa.  
     Por que Ivã Fiódorovitch viera à casa de seu pai, já o perguntava eu então a mim mesmo, lembro-me, com certa inquietude. Aquela chegada tão fatal, que engendrou tantas consequências, permaneceu por muito tempo inexplicada para mim. Na verdade, era estranho que um jovem tão sábio, de aparência tão altiva e tão reservada, aparecesse numa casa tão escandalosa, em casa de tal pai. Este ignorara-o toda a sua vida, não se lembrava dele e, se bem que não tivesse dado, por coisa alguma do mundo, dinheiro, se lho houvessem pedido, temia sempre que seus filhos aparecessem para lho reclamar. E eis que o rapaz se instala na casa de tal pai, passa junto com ele um mês, depois dois, e se entendem maravilhosamente. Não fui eu o único a espantar-me com tal acordo. Piotr Alieksándrovitch Miúsov, de quem já se falou, passava uma temporada então entre nós, na sua propriedade suburbana, vindo de Paris, onde fixara residência. Estava surpreendido mais que todos, tendo travado conhecimento com o rapaz que o interessava bastante e com o qual rivalizava em erudição. "Ele é altivo", dizia-nos. "Saberá sempre arranjar se; desde agora, tem com que partir para o estrangeiro. Que faz ele aqui? Todos sabem que não veio cá procurar seu pai para pedir dinheiro, que aquele lhe recusaria, aliás. Não gosta de beber, nem de requestar mulheres; no entanto, o velho não pode passar sem ele, de tal modo estão de acordo. " Era verdade; o jovem exercia visível influência sobre o velho, que por vezes o atendia, se bem que muito teimoso e caprichoso; começou mesmo a comportar-se mais decentemente...
     Soube-se mais tarde que Ivã chegara igualmente por causa da demanda e dos interesses de seu irmão mais velho, Dimítri, que ele viu pela primeira vez nessa ocasião, mas com o qual já se correspondia, a respeito de um negócio importante. Falar-se-á disso pormenorizadamente a seu tempo. Mesmo quando fiquei ao corrente, pareceu-me Ivã Fiódorovitch enigmático e sua chegada à nossa cidade difícil de explicar.
     Acrescentarei que ele mantinha papel de árbitro e de reconciliador entre seu pai e seu irmão mais velho, então totalmente desavindos, tendo este último intentado mesmo uma ação na justiça.
     Pela primeira vez, repito-o, essa família, da qual certos membros nunca se tinham visto, achou-se reunida. Somente o caçula, Alieksíéi, morava entre nós havia já um ano. É difícil falar dele neste preâmbulo, antes de pô-lo em cena no romance. Devo, no entanto, estender-me a seu respeito para elucidar um ponto estranho, isto é, que meu herói aparece, desde a primeira cena, sob o hábito de um noviço. Havia um ano, com efeito, que morava em nosso mosteiro e se preparava para ali passar o resto de seus dias.

continua na página 14...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (27 de março - O descongelamento continua)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     27 de março - O descongelamento continua.
 
          Os assuntos estavam no estado descrito acima: o Príncipe e Liza se amavam, os Ozhógins mais velhos esperavam para ver o que aconteceria; Bizmyónkoff também estava presente - nada mais podia ser dito dele; Eu estava flopando como um peixe no gelo, e vigiando o melhor que podia, - lembro-me que, naquela época, eu me encarregava de pelo menos não permitir que Liza perecesse no laço do sedutor, e em consequência disso, eu tinha começado a prestar especial atenção às servas e às "costas" fatais da entrada - embora, por outro lado, às vezes sonhava por noites inteiras juntos com a comovente magnanimidade com que, com o passar do tempo, estendia minha mão para a vítima iludida e lhe dizia: "O homem astuto te traiu; mas eu sou teu fiel amigo... esqueçamos o passado e sejamos felizes" - quando, de repente, uma alegre notícia foi espalhada por toda a cidade: o Marechal da Nobreza do condado pretendia dar uma grande festa em honra do respeitado visitante, em sua própria propriedade Gornostáevka, também chamada Gubnyakóva. Todas as hierarquias e poderes da cidade de O*** receberam convites, começando com o chefe de polícia e terminando com o farmacêutico, um alemão de cara espinhosa, com cruéis pretensões à habilidade de falar russo puramente, em consequência da qual ele estava constantemente usando expressões violentas com absoluta inaptidão, como, por exemplo: "O diabo me leva, sinto-me um belo companheiro afoito hoje"... Iniciaram-se preparações terríveis, como era de se esperar. Uma loja de cosméticos vendeu dezesseis frascos de pomada azul escuro, com a inscrição "à la jesmin", com o personagem russo denotando a dura pronúncia após o n. As jovens se abasteciam de batas duras, torturadas na cintura, e com promontórios na barriga; as mamas erguiam-se em suas próprias cabeças decorações formidáveis, sob o pretexto de que eram bonés; os pais, agitados, deitavam-se sem as pernas traseiras, como diz o ditado...
     Chegou, finalmente, o almejado dia. Eu estava entre os convidados. A distância da cidade até Gornostáevka foi contada em nove versos. Kiríla Matvyéevitch me ofereceu um lugar em sua carruagem; mas eu recusei.... Assim, as crianças castigadas, desejosas de se vingar bem de seus pais, recusam suas viandas favoritas à mesa. Além disso, senti que a minha presença iria envergonhar Liza. Bizmyónkoff tomou o meu lugar. O Príncipe saiu em sua própria berlinda, eu em uma chalaça miserável, que eu havia contratado a um preço exorbitante para esta ocasião festiva.
     Eu não vou descrever a festa. Tudo nela era como de costume: músicos com chifres notavelmente falsos na galeria; proprietários de terras flamejantes com famílias antiquadas; sorvete lilás, mingau viscoso; homens com botas remendadas e luvas de algodão tricotadas; leões provincianos com rostos convulsivamente distorcidos; e assim por diante, e assim por diante. E todo esse pequeno mundo circundava o Príncipe ao redor de seu sol. Perdido na multidão, despercebido até pelas donzelas de quarenta e oito, com espinhas nas sobrancelhas e flores azuis nos templos, eu continuava olhando incessantemente agora para o Príncipe, e agora para Liza. Ela estava muito encantadoramente vestida e muito bonita naquela noite. Eles só dançaram juntos duas vezes (ele dançou a mazurca com ela, isso é verdade!), mas, em todo caso, assim me pareceu, existia entre eles uma certa comunicação misteriosa e ininterrupta. Mesmo quando ele não estava olhando para ela, não estava falando com ela, ele parecia estar constantemente se dirigindo a ela, e só a ela; ele era bonito e brilhante, e encantador com os outros - só para ela. Ela estava evidentemente consciente de que era a rainha da festa - e amada; o seu rosto era simultaneamente irradiado de alegria infantil e orgulho inocente, e de repente foi iluminado por um sentimento diferente, mais profundo. Ela exalou uma atmosfera de felicidade. Eu observei tudo isso..... Não era a primeira vez que eu tinha a oportunidade de observá-los..... No início isso me doía muito, depois parecia me tocar, e finalmente me enfurecia. De repente senti-me notavelmente malicioso e, lembro-me, regozijei-me maravilhosamente com essa nova sensação, e até concebi um certo respeito por mim mesmo. "Vamos mostrar-lhes que ainda não perecemos!". Eu disse para mim mesmo. Quando os primeiros sons de convocação para a mazurca trovejaram, eu olhei calmamente, friamente, e com muita facilidade, aproximei-me de uma jovem de rosto longo, com um nariz vermelho e brilhante, uma boca estranhamente aberta, que parecia ter sido desengatada, e um pescoço sinuoso, que lembrava um cabo de um bastão, - aproximei-me dela, e estalando os meus calcanhares juntos, convidei-a para a dança. Ela usava um vestido rosa, que parecia ter se desbotado recentemente e não completamente; acima de sua cabeça tremia uma espécie de mosca melancólica desbotada em uma mola de latão muito grossa; e, ao todo, a jovem mulher estava impregnada, se é que se pode expressar assim, com uma espécie de tédio azedo e um mal-estar antiquado. Desde o início da noite, ela não havia se mexido de seu assento; ninguém havia pensado em convidá-la para dançar. Uma jovem de dezesseis anos, em falta de qualquer outro parceiro, estava a ponto de apelar para esse jovem, e já havia dado um passo em sua direção, mas havia se desentendido, olhado para si mesma, e se escondeu rapidamente no meio da multidão. Você pode imaginar com que alegre surpresa ela aceitou minha proposta!
     Eu a conduzi solenemente por todo o corredor, encontrei duas cadeiras, e me sentei com ela no círculo da mazurca, o décimo par, quase em frente ao Príncipe, a quem, é claro, tinha sido concedido o primeiro lugar. O Príncipe, como já disse, estava dançando com Liza. Nem eu nem a minha parceira estávamos acostumados com convites; consequentemente, tínhamos muito tempo para conversar. Verdade seja dita, minha dama não se distinguia pela capacidade de pronunciar palavras em discurso coerente: ela empregava mais a boca para a execução de um estranho sorriso para baixo, até então não visto por mim; ao mesmo tempo, ela virava os olhos para cima, como se alguma força invisível esticasse o rosto; mas eu não precisava da sua eloquência. Felizmente, eu me sentia cruel, e minha parceira não me inspirou timidez. Comecei a criticar tudo e todos no mundo, colocando uma ênfase especial nos chicoteadores - os raptores da capital, e os fanfarrões de Petersburgo - e me enfureci tanto que, finalmente, minha senhora foi deixando de sorrir, e, em vez de rebolar os olhos para cima, ela começou - com espanto, deve ter sido - a olhar de olhos cruzados, e de uma maneira tão estranha, para começar, como se ela tivesse percebido, pela primeira vez, que tinha um nariz no rosto; e meu próximo vizinho, um daqueles leões de quem falei acima, mais de uma vez me escaneou com um olhar, até se virou para mim com a expressão de um ator no palco que despertou numa terra desconhecida, tanto quanto para dizer: "Ainda estás aí?" Entretanto, enquanto eu cantava como um rouxinol, como diz o ditado, eu ainda continuava a observar o Príncipe e Liza. Eles eram constantemente convidados; mas eu sofria menos quando ambos estavam dançando; e mesmo quando estavam sentados lado a lado e conversando um com o outro, e sorrindo com aquele sorriso suave que se recusa a deixar o rosto de amantes felizes, - mesmo assim eu não me sentia tão magoado; mas quando Liza estava agitando pelo salão com uma dança galante, e o Príncipe, com seu lenço de tecido azul nos joelhos, pensativamente a seguia com os olhos, como se admirasse sua conquista, - então, oh, então eu experimentei torturas insuportáveis, e no meu vexame eu emitia comentários tão maliciosos, que as pupilas dos olhos da minha companheira reclinavam-se completamente de ambos os lados, no nariz dela!
     Enquanto isso, a mazurca estava chegando ao fim.... Eles começaram a executar a figura conhecida como "la confidente". Nessa figura a senhora se senta no centro do círculo, escolhe outra senhora para sua confidente e sussurra em seu ouvido o nome do cavalheiro com quem deseja dançar; o cavaleiro leva até ela os dançarinos, um a um, e a confidente os recusa até que, finalmente, o homem feliz que já foi designado faz sua aparição. Liza senta-se no centro do círculo, e escolhe a filha da anfitriã, uma daquelas jovens de quem se diz que são "Deus as abençoe". Em vão apresentou cerca de meia partitura de jovens (a filha da anfitriã os recusou a todos, com um sorriso agradável), e, finalmente, recorreu a mim. Algo inusitado aconteceu em mim naquele momento: Eu parecia piscar o olho com todo o meu corpo, e tentei declinar; no entanto, levantei-me e fui. O Príncipe me conduziu até Liza..... Ela nem olhou para mim; a filha da anfitriã balançou a cabeça em negação, o príncipe se voltou para mim, e, provavelmente pela expressão do meu rosto em forma de ganso, fez de mim um arco profundo. Essa reverência zombeteira, essa recusa, apresentada a mim pelo meu triunfante rival, seu sorriso negligente, a desatenção indiferente de Liza, - tudo isso provocou uma explosão da minha parte. Eu me aproximei do Príncipe e sussurrei em uma fúria frenética: "Eu acho que você está se permitindo zombar de mim?"
     O Príncipe me olhou com surpresa desdenhosa, novamente me pegou pela mão, e com o ar de me levar de volta ao meu lugar, respondeu friamente: "Eu?".

"Sim, você, você!" - Eu prossegui num sussurro, obedecendo-lhe, no entanto; isto é, seguindo-o até o meu lugar; - "você! Mas eu não pretendo permitir que nenhum Petersburgo frívolo comece..."

     O Príncipe sorriu com calma, quase com paternalismo, agarrou minha mão com força, sussurrou: 

"Eu te entendo; mas este não é o lugar certo; vamos conversar sobre isso", afastou-se de mim, aproximou-se de Bizmyónkoff e o levou até Liza. O pálido e mesquinho funcionário provou ser o cavaleiro escolhido. Liza se levantou para conhecê-lo.

     Quando me sentei ao lado do meu parceiro com a melancólica mosca na cabeça dela, senti-me quase um herói. Meu coração pulou violentamente dentro de mim, meu peito inchou nobremente sob minha camisa engomada - frente, minha respiração veio rápida e profunda - e de repente, eu olhei para o leão adjacente de uma maneira tão magnífica, que ele involuntariamente balançou a perna que estava voltada para mim. Tendo me livrado desse homem, passei os olhos pelo círculo dos dançarinos.... Parecia-me que dois ou três senhores me olhavam não sem assombro; mas, no geral, minha conversa com o Príncipe não havia sido notada.... Meu rival já estava sentado em sua cadeira, perfeitamente composto, e com o seu antigo sorriso no rosto. Bizmyónkoff levou Liza ao seu lugar. Ela acenou-lhe com um simpático aceno de cabeça e virou-se imediatamente para o Príncipe, como me pareceu, com certa ansiedade; mas ele riu em resposta, acenou graciosamente com a mão, e deve ter dito algo muito agradável para ela, pois ela se enxugava de prazer, soltou os olhos, e depois os repreendeu mais uma vez com carinhosa censura.
     O estado de espírito heroico que de repente se desenvolveu em mim não desapareceu até o fim da mazurca; mas eu não fiz mais besteiras, e não critiquei, e apenas lancei um olhar severo e sombrio de vez em quando para a minha senhora, que, evidentemente, começava a ter medo de mim, e foi reduzida a um estado de gaguez completo e piscou incessantemente, quando a conduzi ao reduto natural de sua mãe, uma mulher muito gorda, com um vestido vermelho. Tendo entregue a jovem assustada como se fosse minha amada, fui até a janela, apertei as mãos e esperei para ver o que iria acontecer. Esperei um bom tempo. O Príncipe estava constantemente cercado pelo anfitrião, -precisamente que, cercado, como a Inglaterra está cercada pelo mar, - sem mencionar os outros membros da família do Marechal da Nobreza, e os outros convidados; e, além disso, ele não podia, sem despertar surpresa universal, aproximar-se de um homem tão insignificante como eu, e entrar em conversa com ele. Essa minha insignificância, lembro-me, foi até uma fonte de deleite para mim, então. " Violinos!". Pensei, ao vê-lo voltar-se agora cortês para um, agora para outro personagem respeitado que buscava a honra de ser notado por ele, nem que fosse por "um piscar de olhos", como dizem os poetas:- " Violinos, meu caro amigo!.... Tu virás a mim por e por mim, porque eu te insultei".
     Finalmente o Príncipe, tendo-se livrado inteligentemente da multidão de seus adoradores, passou por mim, ousou olhar, não exatamente para a janela, nem ainda exatamente para o meu cabelo, estava a ponto de se afastar, e de repente parou, como se tivesse acabado de se lembrar de algo.

"Akh, sim!" - disse ele, dirigindo-se a mim com um sorriso;-"a propósito, tenho um pequeno assunto de negócios com você".

     Dois proprietários de terras, os mais persistentes de todos, que estavam seguindo obstinadamente o Príncipe, provavelmente pensaram que a "pequena questão de negócios" estava ligada ao serviço, e respeitosamente recuaram. O Príncipe colocou seu braço no meu, e me levou para um lado. Meu coração bateu no meu peito.

"Você," - começou ele, puxando a palavra você, e olhando para o meu queixo com uma expressão de desprezo que, estranhamente, estava se tornando infinitamente para o seu rosto fresco e bonito, - "você disse algo insolente para mim, creio eu".
"Eu disse o que pensava," - retorqui, levantando minha voz.
"Ssssh .... fala mais baixo," - comentou:-"homens de boa raça não gritam. Talvez você gostaria de brigar comigo"...
"Esse é o seu caso" - eu respondi, me preparando.
"Serei obrigado a te alertar," - disse ele descuidadamente, - "se você não retirar suas expressões....".
"Não tenho intenção de retirar nada," - respondi, com orgulho.
"A sério?" - comentou, não sem um sorriso de escárnio. - "Nesse caso," - prosseguiu, após uma breve pausa, - "terei a honra de lhe enviar o meu segundo amanhã".
"Muito bem, senhor" - disse eu, no tom mais indiferente que pude reunir.

     O Príncipe fez uma ligeira reverência.

"Não posso proibir que você me ache um homem frívolo", acrescentou, estreitando arrogantemente os olhos; - "mas é impossível que os príncipes N**** sejam iniciantes". Adeus ao presente, Sr..... Sr. Shtukatúrin".

     Ele rapidamente me virou as costas, e novamente se aproximou de seu anfitrião, que já havia começado a ficar agitado.

"Sr. Shtukatúrin"!.... Meu nome é Tchulkatúrin..... Não encontrei resposta para este último insulto dele, e só olhei atrás dele com uma raiva violenta. - "Adeus até amanhã", sussurrei, arrumando os dentes, e imediatamente persegui um oficial meu conhecido, o Capitão Koloberdyáeff dos uhlans, um homem desesperado, carinhoso e esplêndido, narrei-lhe em poucas palavras minha briga com o Príncipe, e pedi-lhe que fosse meu segundo. Ele, é claro, consentiu imediatamente, e eu vim para casa.

     Não consegui dormir a noite toda - de agitação, não de pusilanimidade. Eu não sou covarde. Pensei mesmo muito pouco sobre a possibilidade iminente de perder minha vida, esse bem mais precioso da Terra, segundo os alemães. Pensei apenas em Liza, nas minhas esperanças mortas, no que eu deveria fazer. "Devo eu tentar matar o Príncipe?" Eu me perguntei, e, claro, queria matá-lo, não por vingança, mas por um desejo do bem de Liza. "Mas ela não vai sobreviver a esse golpe", eu prossegui. "Não, será melhor deixá-lo me matar!"
     Confesso que também foi agradável para mim pensar que eu, um homem obscuro do país, tinha forçado um personagem tão importante a lutar um duelo comigo.
     Dawn me encontrou absorto nessas cogitações; e mais tarde, pela manhã, Koloberdyáeff se apresentou.

"Bem" - ele me perguntou, entrando ruidosamente no meu quarto - "e onde está o segundo do Príncipe?
"Por que, meu Deus!" - respondi com irritação, - "são apenas sete horas da manhã; presumo que o Príncipe ainda esteja dormindo profundamente".
"Nesse caso," - devolveu-me o irreprimível capitão de cavalaria, - "manda que me façam um chá". Estou com dor de cabeça por causa dos feitos de ontem à noite..... Eu nem me despi. Entretanto," - acrescentou com um bocejo, - "eu raramente me dispo de qualquer maneira".

     O chá foi servido a ele. Ele bebeu seis copos com rum, fumou quatro cachimbos, me disse que no dia anterior havia comprado para uma canção um cavalo que os cocheiros haviam desistido por ser um mau negocio, e pretendia rompê-lo amarrando um de seus membros anteriores, - e adormeceu, sem se despir, no sofá, com o cachimbo ainda na boca. Levantei-me e pus os papéis em ordem. Uma nota de convite de Liza, a única nota que tinha recebido dela, estava a ponto de colocar no meu peito, mas mudei de ideia, e joguei-a numa caixa. Koloberdyáeff estava roncando fraco, com a cabeça pendurada nas almofadas de couro.... Eu me lembro de ter pesquisado durante muito tempo o seu rosto desgrenhado, arrojado, despreocupado e bondoso. Às dez horas, meu criado anunciou a chegada de Bizmyónkoff. O Príncipe o havia selecionado para o seu segundo.
     Juntos despertamos o capitão adormecido. Ele se levantou, olhou para nós com olhos estúpidos de sono, e com uma voz rouca pediu vodka;- ele se recuperou, e depois de ter trocado saudações com Bizmyónkoff, saiu com ele para a sala ao lado para uma consulta. A conferência dos segundos não durou muito. Um quarto de hora depois ambos vieram até mim no meu quarto; Koloberdyáeff me anunciou que "lutaremos hoje, às três horas, com pistolas". Eu baixei minha cabeça silenciosamente, em sinal de consentimento. Bizmyónkoff imediatamente se despediu de nós, e foi embora. Ele estava um pouco pálido e agitado interiormente, como um homem que não está acostumado a esse tipo de atuação, mas era muito educado e frio. Eu parecia, de alguma forma, sentir vergonha em sua presença, e não ousava olhá-lo nos olhos.
     Koloberdyáeff começou a falar de seu cavalo novamente. Esta conversa foi muito a meu gosto. Tive medo que ele pudesse mencionar Liza. Mas meu bom capitão não era um escândalo e, mais do que isso, desprezava todas as mulheres, chamando-as, sabe Deus por quê, "salada". Às duas horas almoçamos, e às três já estávamos no campo de ação - naquele mesmo pomar de bétula onde eu já passeei com Liza, a alguns passos daquele penhasco.
     Nós fomos os primeiros a chegar. Mas o Príncipe e o Bizmyónkoff não nos fizeram esperar muito por eles. O Príncipe era, sem exageros, tão fresco quanto uma rosa; seus olhos castanhos olhavam com extrema afabilidade de baixo da viseira de seu boné militar. Fumava um cigarro de palha, e ao ver Koloberdyáeff, apertou a mão de forma cordial. Ele até se curvou muito charmosamente para mim. Eu, ao contrário, sentia-me consciente de que estava pálido, e minhas mãos, ao meu intenso vexame, tremiam levemente;... minha garganta estava seca... Nunca, até aquele momento, eu havia travado um duelo. "Ó Deus!"... Pensei; "se ao menos aquele cavalheiro zombeteiro não me toma por timidez a minha agitação!" Entreguei interiormente meus nervos a todos os demônios; mas ao olhar, finalmente, direto para o rosto do Príncipe, e ao apanhar em seus lábios um sorriso quase imperceptível, de repente fiquei inflado de raiva, e imediatamente recuperei minha equanimidade.
     Enquanto isso, nossos segundos tinham arranjado a barreira, tinham percorrido a distância, e carregado as pistolas. Koloberdyáeff fez a maior parte da parte ativa; Bizmyónkoff o vigiava principalmente. Foi um magnífico dia-quadrado, igual ao dia do passeio nunca esquecido. O azul denso do céu novamente espreitava o verde dourado das folhas. O sussurro deles parecia me excitar. O príncipe continuou a fumar seu charuto, enquanto encostava seu ombro no tronco de um tília....

"Sejam tão bons a ponto de tomar seus lugares, senhores; tudo está pronto" - disse Koloberdyáeff finalmente, entregando-nos as pistolas.

     O príncipe recuou alguns passos, parou, e virando a cabeça para trás sobre o ombro, perguntou-me: "E você ainda se recusa a retirar suas palavras?"... Tentei responder-lhe; mas minha voz falhou e me contentei com um movimento desdenhoso da mão. O Príncipe riu novamente, e tomou o seu lugar. Começamos a nos aproximar um do outro. Levantei minha pistola, e estava a ponto de mirar o peito do meu inimigo - naquele momento ele realmente era meu inimigo -, mas de repente levantei o cano, como se alguém tivesse jogado meu cotovelo, e atirei. O príncipe cambaleou, levantou a mão esquerda para a têmpora esquerda - uma fina corrente de sangue escorreu pela bochecha abaixo de sua luva branca de couro lavado. Bizmyónkoff voou até ele.

"Não é nada" - disse ele, tirando seu boné, que tinha sido perfurado; - "se não entrou na minha cabeça, isso significa que é apenas um arranhão".

     Ele tirou calmamente um lenço de batismo do bolso, e o colocou sobre seus cachos, que estavam molhados de sangue. Eu olhei para ele como se estivesse petrificado, e não me mexi do lugar.

"Por favor, vá para a barreira" - me disse Koloberdyáeff com severidade.

     Eu obedeci.

"O duelo vai continuar?" - acrescentou ele, dirigindo-se a Bizmyónkoff.

     Bizmyónkoff não lhe respondeu; mas o Príncipe, sem tirar o lenço da ferida, nem mesmo dar-se a si mesmo a satisfação de me provocar na barreira, respondeu com um sorriso: "O duelo está terminado", e disparou para o ar. Eu quase chorei de irritação e raiva. Aquele homem, pela sua magnanimidade, havia me pisoteado definitivamente na lama, havia me cortado a garganta. Eu queria protestar, queria exigir que ele disparasse contra mim; mas ele se aproximou de mim e me ofereceu sua mão: "Tudo está esquecido entre nós, não está?" - disse ele, em voz cordial.
     Eu dei uma olhada no seu rosto pálido, naquele lenço manchado de sangue, e perdendo totalmente a cabeça, corando de vergonha, aniquilado, apertei-lhe a mão...

"Senhores!" - ele acrescentou, dirigindo-se aos segundos:- "Espero que tudo isso permaneça em segredo?"
"Claro!"-exclamou Koloberdyáeff,-"mas, Príncipe, permita-me...."

     E ele mesmo amarrou sua cabeça.
     O Príncipe, ao partir, curvou-se mais uma vez para mim; mas Bizmyónkoff nem sequer me deu um olhar. Slain,-moralmente morto,-Eu voltei para casa com Koloberdyáeff.

"Mas o que te aflige" - perguntou-me o capitão. "Acalme-se; a ferida não é perigosa". Ele pode dançar até amanhã, se quiser. Ou você sente muito por não tê-lo matado? Nesse caso, você está errado; ele é um sujeito esplêndido".
"Por que ele me poupou?" - Finalmente murmurei.
"Oho! então é isso!" - retorquiu calmamente o capitão... "Okh, esses romancistas vão ser a minha morte!"

      Recuso-me positivamente a descrever minhas torturas no decorrer da noite que se seguiu a este duelo azarado. Meu orgulho sofreu inexpressivamente. Não foi a minha consciência que me atormentou; a consciência da minha estupidez me aniquilou. "Eu mesmo me dei o último golpe, o golpe final". Eu continuava repetindo enquanto caminhava no meu quarto com longos passos.... "O Príncipe ferido por mim e que me perdoa.... sim, Liza é dele agora. Nada pode salvá-la agora, nem detê-la à beira da perdição". Eu sabia muito bem que nosso duelo não poderia permanecer em segredo, apesar das palavras do Príncipe; em todo caso, não poderia permanecer em segredo para Liza. "O Príncipe não é tão estúpido" - sussurrei num frenesim - "a ponto de não tirar proveito disso"... E, no entanto, estava enganado: toda a cidade ouviu falar do duelo e de sua causa real,- no dia seguinte, é claro; mas não foi o Príncipe que balbuciou - pelo contrário; quando ele se apresentou a Liza com uma cabeça enfaixada e uma desculpa preparada com antecedência, ela já sabia de tudo... Se Bizmyónkoff havia traído a si mesmo, ou se a notícia a havia alcançado por outros caminhos, não posso dizer. E, afinal, é possível esconder alguma coisa em uma cidade pequena? Você pode imaginar como Liza tomou, como toda a família Ozhógin tomou! Quanto a mim, de repente me tornei objeto de indignação universal, de repugnância, um monstro, um homem loucamente ciumento, e um canibal. Meus poucos conhecidos renunciaram a mim, pois teriam renunciado a um leproso. As autoridades da cidade apelaram ao Príncipe com a proposta de me castigar de maneira severa e exemplar; apenas as persistentes e importunas súplicas do próprio Príncipe afastaram a calamidade que ameaçou minha cabeça. Este homem estava destinado a aniquilar-me de todas as maneiras. Pela sua magnanimidade, ele me calou como se estivesse com o meu caixão fechado. É desnecessário dizer que a casa dos Ozhógins foi imediatamente fechada para mim. Kiríla Matvyéevitch até me devolveu um lápis liso, que eu havia deixado em sua residência. Na realidade, ele foi precisamente o último homem que deveria ter ficado irritado comigo. Meu ciúme "louco", como lhe chamavam na cidade, tinha definido, elucidado, por assim dizer, as relações entre Liza e o Príncipe. Os próprios Ozhógins e os outros moradores começaram a olhar para ele quase à luz de um marido desposado. Na realidade, isso não poderia ter sido muito agradável para ele; mas ele gostava muito de Liza; e, além disso, naquela época, ainda não havia atingido seu objetivo... Com todo o tato de um homem inteligente do mundo, acomodou-se à sua nova posição, entrou imediatamente no espírito da sua nova parte, como diz o ditado....
     Mas eu!... Eu então desisti em desespero, no que me dizia respeito, e no que diz respeito ao meu futuro. Quando os sofrimentos chegam a tal ponto que fazem todo o nosso ser interior rachar e ranger como uma carroça sobrecarregada, eles devem deixar de ser ridículos.... Mas não! O riso não só acompanha as lágrimas até o fim, até a exaustão, até o ponto em que é impossível derramar mais nenhuma delas, - de jeito nenhum! ele ainda toca e ressoa num ponto em que a língua se torna burra e a própria lamentação morre... E então, em primeiro lugar, como não tenho a intenção de parecer absurdo até para mim mesmo, e em segundo lugar, como estou assustadoramente cansado, adiarei a continuação e, se Deus quiser, a conclusão da minha história para amanhã....

continua em... 29 de março 
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25 de março - Um dia branco de inverno / 26 de março - Um descongelamento / 27 de março - O descongelamento continua /     
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Cinema: Os Irmãos Karamazov - Parte 1

OS IRMÃOS KARAMAZOV 

 - (URSS - 1969)

'Os Irmãos Karamazov' é um filme de drama soviético de 1969, dirigido por Kirill Lavrov, Ivan Pyryev e Mikhail Ulyanov. O filme é uma adaptação da obra de Dostoéievski e retrata a vida dos irmãos Karamazov na Rússia do século XIX, explorando temas de espiritualidade, amor, ambição e moralidade. O elenco principal inclui Mikhail Ulyanov, Kirill Lavrov e Lionella Pyryeva. O filme foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro na edição de 1970, representando a União Soviética.

Direção
Kirill Lavrov
Ivan Pyrev
Mikhail Ulyanov

Roteiristas
Fyodor Dostoevsky
Ivan Pyrev





"Neste exato momento já passei da metade do livro e confesso que nunca vi algo tão fascinante como esse romance. Dostoiévski foi um gênio que passou pela terra e seu legado está eternizado nas estantes das pessoas, das bibliotecas e das livrarias!"


Elenco
Mark Prudkin como Fyodor Pavlovich Karamazov
Mikhail Ulyanov como Dmitriy Karamazov
Kirill Lavrov como Ivan Karamazov
Andrey Myagkov como Alyosha Karamazov
Lionella Pyryeva como Agrafena 'Grushenka' Svetlova
Svetlana Korkoshko como Yekaterina Ivanovna Verkhovtseva
Valentin Nikulin como Pavel Smerdyakov
Pavel Pavlenko como Zosima
Andrei Abrikosov como Kuzma Samsonov
Gennadiy Yukhtin como Padre Paisiy
Anatoliy Adoskin como Nikolay Nelyudov - Juiz examinador
Rada Volshaninova como Gipsy
Tamara Nosova como Marya Kondratyevna
Nikita Podgorny como Mikhail Rakitin
Ivan Lapikov como Stepan 'Lyagavyy' Gorskiy
Varvara Popova como Matryona
Yevdokiya Urusova como Marfa Osipovna
Stanislav Chekan como filho de Samsonov
Aleksandra Danilova como Relative
Aleksandr Khvylya como Ferapont
Nikolai Ryzhov como Trifon Borisovich Plastunov
Nikolai Prokopovich como Mussyalovich
Evgeniy Teterin como Padre Iosif
Mark Pertsovskiy como Vrublyovskiy
Lyubov Korneva como Fedosya 'Fenya' Markovna
Sergei Kalinin como Sacerdote
Vladimir Osenev como Juiz
Nikolai Bubnov como Clerk
Viktor Filippov
Olga Gasparova como Maidservant
Georgiy Georgiu
Oleg Golubitsky
Grigore Grigoriu
Grigori Kirillov como Promotor
Viktor Kolpakov como Grigoriy
Nikolay Kutuzov como Monge Negro
Nikolay Parfyonov como Barman
Yuri Rodionov como Attorney
Ivan Savkin
V. Sokolov como gospodin v Sude
Georgiy Svetlani
Nikolay Svetlovidov como Maksimov
Ivan Vlasov como Pyotr Kalganov
Nikolay Sibeikin como Aparecendo (não creditado)



Os Irmãos Karamazov: O Livro Mais Sombrio por Dostoiévski 
- Documentário
 


Neste vídeo de Os Irmãos Karamazov: O Livro Mais Sombrio por Dostoiévski – Documentário, analisamos uma das obras mais profundas de Fiódor Dostoiévski, onde a fé, a culpa e o conflito moral se confrontam intensamente. O documentário percorre os dilemas filosóficos e espirituais que atravessam a história. Este documentário sobre Os Irmãos Karamazov apresenta claramente as ideias que transformam este romance em uma reflexão sobre a liberdade, o mal e a responsabilidade humana. Uma abordagem simples a um dos textos mais sombrios e poderosos da literatura mundial.

A Morte e a Donzela / Vá e Veja / Elas por Elas / O Samurai Corvo Errante / O Caso Collini / Meu Vizinho Adolf /
O Vento Silencioso da Montanha / Eles Não Usam Black Tie / O Homem Que Copiava
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Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 1 (II. Karamázov livra-se de seu primeiro filho)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO I
HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA
II
KARAMÁZOV LIVRA-SE DE SEU PRIMEIRO FILHO

     Pode-se bem imaginar que pai e que educador seria tal homem. Como era de prever, desinteressou-se totalmente do filho que tivera de Adelaide Ivânovna, não por animosidade ou rancor conjugal, mas simplesmente porque se esquecera dele por completo. Enquanto importunava todos com suas lágrimas e suas queixas e fazia de sua casa um antro de corrupção, foi o pequeno Mítia recolhido por Gregório, um servidor fiel; se não tivesse este tomado conta dele, o menino não teria tido talvez nem mesmo quem lhe trocasse as fraldas. Além disso, sua família por parte de mãe pareceu esquecê-lo. Seu avô morrera, sua avó, estabelecida em Moscou, era muito doente e suas tias haviam-se casado, de modo que Mítia teve de passar quase um ano em casa de Gregório e morar em sua isbá. Aliás, se seu pai se tivesse lembrado dele (de fato, não podia ignorar sua existência), teria mandado o menino de volta para a isbá, para não ser incomodado nas suas orgias. Mas, entrementes, chegou de Paris o primo da falecida Adelaide Ivânovna, Piotr Alieksándrovitch Miúsov, que devia, mais tarde, passar muitos anos no estrangeiro. Naquela época, era ainda bastante moço e se distinguia de sua família pela sua cultura, sua estada na capital e no estrangeiro. Tendo sempre tido a mentalidade ocidental, tornou-se, para o fim de sua vida, um liberal à moda dos anos 40 e 50. No curso de sua carreira, esteve em relações com numerosos ultraliberais, na Rússia e no estrangeiro, conheceu pessoalmente Proudhon e Bakunin. Gostava de evocar os três dias da Revolução de Fevereiro de 1848, em Paris, dando a entender que chegara mesmo a tomar parte nas barricadas. Era uma das melhores recordações de sua juventude. Possuía uma fortuna independente, cerca de 1000 al mas,2 para contar à moda antiga. Sua soberba propriedade encontrava-se nas proximidades de nossa cidadezinha e se limitava com as terras de nosso famoso mosteiro. Logo de posse de sua herança, Piotr Alieksándrovitch iniciou contra os monges um processo interminável, por causa de certos direitos de pesca ou de corte de madeira, não sei mais ao certo, mas achou de seu dever, na qualidade de cidadão esclarecido, processar os "clericais". Tendo sabido das desgraças de Adelaide Ivânovna, de quem se lembrava, e posto ao corrente da existência de Mítia, meteu-se no caso, malgrado sua indignação juvenil e seu desprezo por Fiódor Pávlovitch. Foi então que o viu pela primeira vez. Declarou-lhe abertamente sua intenção de encarregar-se da educação do menino. Muito tempo depois, contava, como traço característico, que Fiódor Pávlovitch, quando se tratou de Mítia, pareceu um momento não compreender absolutamente de qual filho se tratava e até mesmo admirar-se de ter um menino em alguma parte, em sua casa. Mesmo exagerado, o relato de Piotr Alieksándrovitch estava próximo da verdade. Efetivamente, Fiódor Pávlovitch gostou toda a sua vida de tomar atitudes, de representar um papel, por vezes sem necessidade nenhuma, e mesmo em detrimento seu, como naquele caso particular. Ê, aliás, um traço especial de muitas pessoas, mesmo inteligentes. Piotr Alieksándrovitch levou a coisa a sério e foi até nomeado tutor do menino (juntamente com Fiódor Pávlovitch), uma vez que a mãe dele deixara uma casa e terras. Mítia foi morar em casa daquele primo que não tinha família. Com pressa de regressar a Paris, depois de haver regularizado seus negócios e assegurado o pagamento de suas rendas, confiou o menino a uma de suas tias que morava em Moscou. Mais tarde, tendo-se aclimatado na França, esqueceu-se do menino, sobretudo quando estourou a Revolução de Fevereiro, que lhe impressionou a imaginação para o resto de seus dias. Tendo morrido a tia que morava em Moscou, Mítia foi recolhido por uma de suas filhas casadas. Mudou, ao que parece, pela quarta vez, de lar. Não me alongo a este respeito no momento, tanto mais quanto ainda muito se falará desse primeiro rebento de Fiódor Pávlovitch, e limito-me aos detalhes indispensáveis, sem os quais é impossível começar o romance. 
     Em primeiro lugar, esse Dimítri foi o único dos três filhos de Fiódor Pávlovitch que cresceu com a ideia de que tinha alguma fortuna e seria independente ao atingir a maioridade. Sua infância e sua juventude foram agitadas: deixou o ginásio antes do termo, entrou em seguida para uma escola militar, partiu para o Cáucaso, serviu no Exército, foi degradado por haver-se batido em duelo, voltou ao serviço, entregou-se à orgia, gastou dinheiro em quantidade. Recebeu dinheiro de seu pai somente quando atingiu a maioridade, mas fizera dívidas enquanto esperava. Só veio a ver pela primeira vez Fiódor Pávlovitch, depois de sua maioridade, quando chegou à nossa província especialmente para informar-se a respeito de sua fortuna. Seu pai, ao que parece, não lhe agradou desde o começo; ficou pouco tempo, em casa dele e apressou-se em partir, levando certa soma, depois de haver concluído um acordo a respeito das rendas de sua propriedade. Coisa curiosa: nada pôde arrancar de seu pai a respeito de seu rendimento e do valor do domínio. Fiódor Pávlovitch notou então — e importa notá-lo — que Mítia fazia de sua fortuna uma ideia falsa e exasperada. Ficou com isto muito contente, tendo em vista seus interesses particulares. Concluiu de tudo que o rapaz era estouvado, arrebatado, de paixões vivas, um boêmio ao qual bastava dar um osso a roer para acalmá-lo até nova ordem. Fiódor Pávlovitch explorou a situação, limitando-se a largar de tempos em tempos pequenas somas, até que um belo dia, quatro anos depois, Mítia, perdida a paciência, reapareceu na localidade para exigir uma regularização de contas definitiva. Para estupefação sua, aconteceu que não possuía mais nada; era mesmo difícil verificar as contas: já havia recebido em espécie, de Fiódor Pávlovitch, o valor total de seus bens; talvez mesmo viesse a ser seu devedor; de acordo com tal e tal arranjo, concluído em tal e tal data, não tinha o direito de reclamar mais, etc. O rapaz ficou consternado; suspeitou da falsidade, da fraude, ficou fora de si, quase perdeu a razão. Esta circunstância provocou a catástrofe cuja narrativa forma o assunto de meu primeiro romance, ou antes seu quadro exterior. Mas, antes de iniciar o dito romance, é preciso falar ainda dos dois outros filhos de Fiódor Pávlovitch e explicar-lhes a proveniência.  

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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 1 (I. Fiódor Pávlovitch Karamázov)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO I
HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA
I
FIÓDOR PÁVLOVITCH KARAMÁZOV


     Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov era o terceiro filho de um proprietário de terras de nosso distrito, Fiódor Pávlovitch, tão conhecido em seu tempo (dele se lembram, aliás, ainda) pelo seu fim trágico, ocorrido há treze anos e de que falarei mais adiante. No momento, limitar-me-ei a dizer desse "proprietário" (chamavam-no assim, se bem que jamais tivesse morado em sua "propriedade") que era o tipo estranho, embora bastante frequente, da criatura vil e corrompida, ao mesmo tempo que absurda. Sabia arranjar perfeitamente seus negócios proveitosos, mas nada mais. Fiódor Pávlovitch, por exemplo, começou quase do nada: era um modesto proprietário, gostando muito de jantar em casa dos outros, com fama de parasita. E no entanto, ao morrer, possuía mais de 100 000 rublos em metal sonante. Isso não o impediu de ser, durante sua vida, um dos piores malucos de nosso distrito. Repito-o, não se trata de estupidez — a maior parte desses malucos é bastante inteligente e astuta —, mas de extravagância específica e nacional.
     Foi casado duas vezes e teve três filhos; o mais velho, Dimítri, da primeira mulher, e os dois outros, Ivã e Alieksiéi, da segunda. Sua primeira mulher pertencia a uma família nobre, os Miúsovi, proprietários bastante ricos do mesmo distrito. Como pôde uma moça, tendo um dote, bonita e, além do mais, viva e espirituosa, tal como se encontram muitas entre nossas contemporâneas, casar-se com tão nulo "doidelo" (era assim que o chamavam)? Creio inútil explicá-lo demasiado longamente. Conheci uma jovem, da penúltima geração "romântica", que, após vários anos de amor misterioso por um senhor, com o qual poderia casar-se bem tranquilamente, acabou imaginando obstáculos intransponíveis a esse casamento. Numa noite de tempestade precipitou-se, do alto de um penhasco, num rio impetuoso e profundo, e pereceu vítima de sua imaginação, unicamente para parecer-se com a Ofélia de Shakespeare. Se aquele penhasco, de que ela gostava particularmente, tivesse sido menos pitoresco ou substituído por uma margem chata e prosaica, não se teria ela, sem dúvida, suicidado. O fato é autêntico e creio que entre as duas ou três últimas gerações russas houve numerosos casos análogos. Semelhantemente, a decisão que Adelaide Miúsova tomou foi sem dúvida o eco de influências estrangeiras, a exasperação de uma alma cativa. Queria talvez afirmar sua independência de mulher, protestar contra as convenções sociais, contra o despotismo de sua família. Sua imaginação complacente pintou-lhe — por um curto momento — Fiódor Pávlovitch, malgrado sua reputação de papa-jantares, como uma das personagens mais ousadas e mais maliciosas daquela época em via de melhoramento, quando era ele muito simplesmente, um pregador de más peças. O picante da aventura foi um rapto que encantou Adelaide Ivânovna. A situação de Fiódor Pávlovitch dispunha-o então a semelhantes proezas; estava louco por abrir caminho a qualquer preço: introduzir-se em uma boa família e receber um dote era bastante atraente. Quanto ao amor, não se cuidava disso nem de um lado nem de outro, malgrado a beleza da moça. Esse episódio foi provavelmente único na vida de Fiódor Pávlovitch, grande amador do belo sexo, a vida inteira, sempre pronto a agarrar-se a qualquer saia, contanto que ela lhe agradasse. Ora, aquela mulher foi a única que não exerceu sobre ele atração nenhuma do ponto de vista sensual.
     Adelaide Ivânovna não tardou a verificar que só sentia desprezo pelo seu marido. Nessas condições, as consequências do matrimônio não se fizeram esperar. Se bem que a família se tivesse resignado bem depressa ao acontecido e remetido seu dote à fugitiva, uma existência desordenada e cenas contínuas começaram. Conta-se que a jovem senhora mostrou-se muito mais nobre e mais digna do que Fiódor Pávlovitch, que lhe escamoteou desde o começo, como se soube mais tarde, todo o seu capital, 25 000 rublos, de que ela não mais ouviu falar. Durante algum tempo fez ele tudo para que sua mulher lhe transmitisse, por um documento em boa e devida forma, uma pequena aldeia e uma casa de cidade bastante bonita, que faziam parte de seu dote. Teria certamente logrado isso, tanto era o desprezo e desgosto que lhe causava com suas extorsões e exigências descaradas, levando-a por lassidão a dizer "sim". Por felicidade, a família dela interveio e refreou a rapacidade de seu marido. É notório que os esposos chegavam frequentemente à troca de pancadas e pretende-se que não era Fiódor Pávlovitch quem as dava, mas Adelaide Ivânovna, mulher arrebatada, atrevida, morena irascível, dotada de estupendo vigor. Por fim abandonou a casa e fugiu com um seminarista que não tinha onde cair morto, deixando a cargo do marido um menino de três anos, Mítia. Fiódor Pávlovitch não tardou em transformar sua casa num harém e em organizar pândegas e bebedeiras. Entrementes, percorria toda a província, lamentando-se com todos da deserção de Adelaide Ivânovna, com pormenores chocantes sobre sua vida conjugai. Dir-se-ia que achava prazer em representar diante de todo mundo o papel ridículo de marido enganado, em pintar seu infortúnio, carregando as cores. "Acreditar-se-ia que você subiu de grau, Fiódor Pávlovitch, tão contente você se mostra, apesar de sua aflição", diziam-lhe os trocistas. Muitos ajuntavam que ele se sentia feliz em mostrar-se na sua nova atitude de bufão e que, de propósito, para fazer rir mais, fingia não notar sua situação cômica. Quem sabe, aliás, fosse ingenuidade de sua parte? Por fim, conseguiu descobrir a pista da fugitiva. A desgraçada achava-se em Petersburgo, para onde fora com seu seminarista e onde começara a agir publicamente com a maior liberdade. Fiódor Pávlovitch começou a agitar-se e preparou-se para partir — com que fim? ele mesmo não sabia ainda. Talvez tivesse verdadeiramente feito a viagem a Petersburgo, mas, tomada essa decisão, achou que tinha o direito, para se dar coragem, de embriagar-se desenfreadamente. Enquanto isso, soube a família de sua mulher da morte desta, em Petersburgo. Morrera de repente, num pardieiro, de febre tifoide, dizem uns, de fome, segundo outros. Fiódor Pávlovitch estava bêbedo, quando lhe anunciaram a morte de sua mulher; conta-se que correu para a rua e se pôs a gritar, na sua alegria, de braços levantados para o céu: "Agora, deixa morrer o teu servo". Outros pretendem que soluçava como uma criança, a ponto de causar pena vê-lo, malgrado a aversão que inspirava. Pode dar-se que ambas as versões sejam verdadeiras, isto é, que se regozijou com sua libertação, chorando a sua libertadora. Muitas vezes, as pessoas, mesmo más, são mais ingênuas, mais simples do que o pensamos. Nós também, aliás.

continua na página 7...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.