Odisseia
Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹
Canto VI
Odisseu chega à Feácia
“Atena aparece em sonho para Nausícaa, filha de Alcínoo, e manda-a ir lavar
suas roupas no rio, pois seu casamento está próximo. Ela faz o que é pedido.
Depois, ela brinca com suas servas. Odisseu ouvindo-as, acorda. Pedindo a
Nausícaa, recebe alimento e vestimentas, seguindo-a, então, até a cidade.”
(Scholie P Q V)
pelo cansaço vencido e também pelo sono. Mas Palas
se dirigiu para a terra e cidade dos homens Feácios,
que em tempos idos moravam nas vastas planícies da Hipéria,
junto dos homens Ciclopes, soberbos acima de todos,
que lhes os bens depredavam por serem de muito mais força.
Desse lugar conduziu-os Nausítoo de forma divina
para o terreno da Esquéria, afastado dos homens industres.
Fez circundar a cidade com muros, construir belas casas,
bem como templos aos deuses. O campo entre o povo divide.
bem como templos aos deuses. O campo entre o povo divide.
Mas, pela Parca apanhado, já havia descido para o Hades;
era de Alcínoo o poder, que dos deuses obtinha conselhos.
A de olhos glaucos, Atena, dirige-se para sua casa,
a refletir como a volta do herói Odisseu aprestasse.
Já pelo quarto de bela feitura penetra, onde encontra
uma donzela a dormir, parecendo, no aspecto gracioso,
deusa imortal: é Nausícaa, de Alcínoo magnânimo filha.
Junto duas servas dormiam, das Graças irmãs favoritas,
de cada lado da porta brilhante, que estava fechada.
Voa, qual sopro do vento, até o leito em que estava a donzela,
fica-lhe junto à cabeça e lhe diz as seguintes palavras
sob a aparência da filha do célebre nauta Dimante,
que a mesma idade contava e Nausícaa entre as mais distinguia.
A de olhos glaucos, Atena, lhe disse, sob essa aparência:
“Como, Nausícaa, tua mãe te gerou descuidada a tal ponto?
Sem nenhum trato abandonas, assim, teus vestidos brilhantes?
Próximo é o dia de teu casamento, em que é força te ornares
com belas roupas; estas, também, ofertares ao cortejo.
Disso virá receberes do povo os mais altos encômios
e sobremodo alegrar-se teu pai e a consorte pudica.
Eia! Apressemo-nos logo a lavar, mal que a Aurora desponte.
Quero ir contigo a ajudar-te, a fim que possas tudo depressa
determinar, porque inupta não hás de ficar muito tempo.
Já requestada por moços distintos amiúde tens sido
entre os Feácios, a que por nobreza de origem pertences.
Vamos! Exorta teu pai, antes mesmo que a Aurora apareça,
porque te apreste a carruagem e as mulas de cascos possantes
para que os cintos e peplos e as belas cobertas te levem.
Muito mais próprio é que vás desse modo, que a pé pela estrada.
Os lavadoiros se encontram mui longe daqui da cidade.”¹
A de olhos glaucos, Atena, afastou-se ao falar tais palavras,
e retornou para o Olimpo, onde a sede, é sabido, se encontra,
sempre tranquila, dos deuses. Por ventos jamais é abalada,
nem por tormentas de chuva ou por neve; escampado, infinito,
o éter por cima se estende, impregnado de luz irradiante.
Todos os dias ali passam ledos os deuses beatos,
para onde Atena retorna, depois de falar à donzela.
Logo que a Aurora de trono dourado surgiu no horizonte,
do sono a jovem desperta. Admirou-se Nausícaa do sonho,
e aos genitores resolve contá-lo; à procura vai deles.
Ambos despertos já estavam na sala interior do palácio.
Junto do lar a mãe fiava, por servas prestantes cercada,
lã cor de púrpura; ao pai a donzela encontrou justamente
quando a soleira transpunha da porta para ir ao conselho
dos altos príncipes Feácios, que o haviam, de pouco, chamado.
Ao pai querido achegando-se, diz-lhe as seguintes palavras:
“Caro paizinho, seria possível o carro aprestares,
alto e de rodas bem-feitas, a fim de que as roupas luzentes
possa levar para o rio, que sujas bastante se encontram?
Fica-te muito mais próprio, com vestes bem limpas no corpo,
entre os primeiros sentares-te, quando reunido o conselho.
Meus cinco manos diletos também no palácio demoram:
dois, já casados; os outros restantes, no viço da idade.
Estes, só querem vestir-se com roupa lavada de pouco,
sempre que vão para os bailes. É a mim que está afeto isso tudo.”
Disse, evitando, desta arte, por pejo, falar em noivado
ao pai querido, que tudo compreende e lhe diz, em resposta:
“Nem te recuso essas mulas, ó filha, nem nada que peças.
Vai que os criados o carro bonito irão logo aprontar-te,
alto e de rodas bem-feitas, provido, também, de capota.”
Tendo isso dito, deu ordens aos servos, que logo obedecem.
Do lado externo da casa aprontaram o carro de mulas,
de boas rodas, e as mulas puseram no jugo e atrelaram.
Sai dum dos quartos a serva trazendo os brilhantes vestidos,
para depô-los em ordem, na caixa do carro polido,
enquanto a mãe num cabaz gulodices gostosas dispunha,
das mais variadas, além de manjares, enchendo de vinho
odre de pele de cabra; a donzela subiu para o carro.
Fez que levasse, também, óleo líquido num frasco de ouro
para com as servas ungir-se, depois que do banho saíssem.
Toma das rédeas brilhantes Nausícaa e, também, do chicote,
para que as mulas pudesse espertar, que arrancaram ruidosas,
a galopar velozmente, levando a donzela e os vestidos,
mas não sozinha, que a pé outras servas ao lado a seguiam.
Quando chegaram, por fim, ao lindíssimo curso do rio —
lá se encontravam as fontes perenes, com água bastante,
bela de ver e capaz de branquear até a roupa mais suja —
foi nessa altura que as mulas tiraram do jugo do carro
e as impeliram, depois, para a margem do rio revolto,
a fim de a grama gostosa pastarem. Do carro, no entanto,
tomam as roupas nos braços e as levam para a água profunda,
calcam-nas logo nos tanques, porfiando em perícia elas todas.
Logo que as peças lavaram, limpando-as de todas as nódoas,
em fila ao longo da praia estenderam-nas, por onde os seixos
são pelas ondas lavados, que vêm contra a costa quebrar-se.
Banho, depois, tomam todas, passando óleo puro no corpo,
para, em seguida, almoçar junto à margem do rio elevada,
onde ficaram à espera que o Sol toda a roupa secasse.
Quando se acharam, porém, satisfeitas, Nausícaa e suas servas
de si lançaram os véus, entregando-se ao jogo da bola.
Guia Nausícaa, de braços bonitos, as outras na dança.
Ártemis dessa maneira costuma vagar pelos montes,
quer no Taígeto longo, quer mesmo no próprio Erimanto,
a deleitar-se na caça de cervos ou céleres gamos.
Ninfas agrestes a seguem, as filhas de Zeus poderoso,
a divertirem-se; no íntimo Leto também rejubila,
e entre as demais sobressai, destacando-se a fronte e a cabeça;
fácil será conhecê-la, conquanto as demais sejam belas:
do mesmo modo salienta-se a casta donzela entre as servas.
Quando, porém, já pensava em voltar para casa de novo
e pôr as mulas no carro e dobrar as esplêndidas roupas,
a de olhos glaucos, Atena, concebe outro plano engenhoso
para Odisseu acordar e ver logo a formosa donzela,
que deveria levá-lo à cidade dos homens Feácios.
Joga a princesa para uma das suas criadas a bola,
sem que, porém, acertasse, indo a bola cair na corrente.
Todas em grita prorrompem; desperta o divino guerreiro,
senta-se e logo no espírito e no coração excogita:
“Pobre de mim! A que terra cheguei? Quais os homens que a habitam?
São, porventura, selvagens violentos, que as leis desconheçam,
ou de estrangeiros amigos, e afeitos ao culto dos deuses?
Como de moças, soou-me aos ouvidos um grito estridente,
provavelmente de ninfas, que moram nos picos dos montes,
pelas nascentes dos rios, ou mesmo nos prados ervosos.
Eis-me, por certo, chegado ao convívio de gentes que falam.
Vamos! Eu próprio hei de logo a verdade saber com meus olhos.”
Tendo isso dito, saiu de entre os ramos o divo guerreiro;
quebra com mãos poderosas um galho da espessa floresta,
cheio de folhas vivazes, a fim de esconder as vergonhas.
Como leão montanhês avançou, que, na força confiado,
marcha, sem que possam ventos nem chuva detê-lo; cintilas
lançam-lhe os olhos; no rasto se atira de bois e de ovelhas,
ou mesmo corças silvestres; a fome a avançar o compele
contra rebanhos e, até, a exp’rimentar-se em curral bem fechado:
dessa maneira Odisseu se resolve a avançar para as moças
de belas tranças, pesar de estar nu; era força fazê-lo.
Desfigurado aparece-lhes pela salsugem marinha.
Elas, com susto, correram de um lado para outro, até a margem.
Somente a filha de Alcínoo ficou, pois lhe Atena infundira
grande coragem no peito, tirando-lhe o medo dos membros.
Ante Odisseu se detém, enquanto ele reflete, indeciso,
se, suplicante, os joelhos da bela menina abarcasse,
ou, como estava, de longe a implorasse com termos melífluos,
para mostrar-lhe a cidade e, também, qualquer roupa ceder-lhe.
Tendo assim, pois, refletido, afinal pareceu-lhe mais certo
de onde se achava, de longe, afetuosa linguagem falar-lhe,
não fosse a jovem zangar-se, ao querer abraçar-lhe os joelhos.
Por isso tudo, dá início ao discurso afetuoso e pensado:
“Os joelhos ora te abraço, senhora; és mortal ou divina?
Se uma das deusas tu fores, daquelas que o céu vasto habitam,
é a Ártemis, principalmente, de Zeus poderoso nascida,
que te comparo, na forma elegante e elevada estatura.
Mas, se pertences à raça dos homens que vivem na terra,
julgo três vezes feliz ser teu pai e sua nobre consorte,
três vezes, sim, teus irmãos. Quanto deve no peito estuar-lhes
o coração, por tua causa, movido de pura alegria,
ao contemplarem nos bailes criatura de tanta esbelteza!
Mas, sobre todos, feliz no mais íntimo aquele que a casa
vier a levar-te depois que exceler-se nos dotes da noiva,²
O discurso: elogio, reverência e estratégia narrativa. Odisseu inicia sua fala com uma pergunta que mistura reverência e admiração: “És mortal ou divina?” Ele compara Nausícaa a Ártemis, deusa da juventude e da pureza — uma imagem que ressalta a beleza e a postura da jovem.
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b / Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c / Canto IV.d /
Parte II
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] A cena que você trouxe é um dos momentos mais delicados e encantadores da Odisseia: Atena, disfarçada, aparece a Nausícaa em sonho para incentivá‑la a ir lavar as roupas — ação que, no desenrolar do poema, levará ao encontro decisivo entre a jovem feácia e Odisseu.
O sonho de Nausícaa: quando a deusa prepara o destino
- A deusa não surge em sua forma divina, mas disfarçada como uma amiga da jovem. Isso é típico da Odisseia: Atena age de modo sutil, doméstico, quase íntimo, moldando os acontecimentos sem violência.
- Ela repreende Nausícaa com doçura: A jovem está descuidada com seus vestidos; o casamento se aproxima; e é preciso preparar roupas bonitas para si e para o cortejo.
Esse detalhe é essencial: o casamento é o horizonte natural da vida de Nausícaa, e Atena usa esse tema para motivá‑la.
Na cultura grega antiga, lavar e preparar roupas não é apenas tarefa doméstica: é um rito de passagem, ligado à maturidade, à honra familiar e à apresentação pública da mulher.
Atena lembra que: o povo a louvará se ela se mostrar bem preparada; seus pais ficarão felizes; ela já é cortejada por jovens feácios. Ou seja, Nausícaa está entrando na idade adulta — e Atena a conduz nesse processo.
A instrução prática da deusa
Atena orienta Nausícaa a: pedir ao pai a carruagem e as mulas; levar cintos, peplos e cobertas; ir aos lavadoiros, que ficam longe da cidade. Essa parte é quase prosaica, mas é justamente o que torna o episódio tão belo: o divino se mistura ao cotidiano. Atena não fala de batalhas, profecias ou monstros — fala de roupas, mulas e caminhos. E é essa simplicidade que abre espaço para o encontro com Odisseu.
Por que este trecho é tão importante na narrativa?
- É o início da virada da sorte de Odisseu, sem Nausícaa indo aos lavadoiros, ele não encontraria abrigo entre os feácios.
- Mostra o cuidado de Atena, a deusa age como guia, protetora e estrategista, preparando o terreno para o herói.
- Constrói Nausícaa como personagem, ela não é apenas uma princesa: é uma jovem à beira da vida adulta, sensível, responsável e graciosa.
- Mistura o doméstico ao épico, a Odisseia é um poema que valoriza o cotidiano — e este episódio é exemplar.
[2] Este trecho é um outro dos momentos belos e delicados da Odisseia: o encontro entre Odisseu e Nausícaa, quando o herói, recém‑naufragado, precisa decidir como abordar a jovem princesa sem assustá‑la. É uma cena de extrema sensibilidade narrativa, e Homero trabalha aqui com nuances psicológicas raras na épica antiga.
Odisseu diante de Nausícaa: hesitação, respeito e estratégia
Odisseu “reflete, indeciso” sobre como se aproximar:
- Agarra os joelhos da jovem? Esse gesto é o símbolo máximo da súplica na cultura grega — mas também é íntimo demais para uma moça solteira.
- Ou fala de longe, com doçura? Isso preservaria a dignidade da jovem e evitaria que ela se assustasse.
A escolha de Odisseu revela sua inteligência emocional: ele sabe que, sendo um desconhecido, nu, sujo e recém‑saído do mar, qualquer aproximação brusca poderia ser interpretada como ameaça.
A decisão: falar de longe, com palavras melífluas. O herói opta por manter distância e usar a linguagem como ponte. Esse é um traço essencial de Odisseu: ele vence pela palavra antes de vencer pela força. Ele teme que Nausícaa se zangue se ele tocar seus joelhos — e essa preocupação mostra respeito, autocontrole e consciência social.O discurso: elogio, reverência e estratégia narrativa. Odisseu inicia sua fala com uma pergunta que mistura reverência e admiração: “És mortal ou divina?” Ele compara Nausícaa a Ártemis, deusa da juventude e da pureza — uma imagem que ressalta a beleza e a postura da jovem.
Se ela for humana, Odisseu declara:
- feliz o pai, que gerou tal filha;
- feliz a mãe, que a criou;
- felizes os irmãos, que a veem brilhar nos bailes;
- feliz sobretudo o futuro marido, que a levará para casa.
Esse elogio é mais que cortesia: é uma estratégia retórica perfeita.
Odisseu: exalta Nausícaa sem ultrapassar limites; mostra respeito à família; insinua que reconhece sua posição social; cria empatia e confiança. É o tipo de discurso que abre portas — e, de fato, abrirá.
- feliz o pai, que gerou tal filha;
- feliz a mãe, que a criou;
- felizes os irmãos, que a veem brilhar nos bailes;
- feliz sobretudo o futuro marido, que a levará para casa.
Esse elogio é mais que cortesia: é uma estratégia retórica perfeita.
Odisseu: exalta Nausícaa sem ultrapassar limites; mostra respeito à família; insinua que reconhece sua posição social; cria empatia e confiança. É o tipo de discurso que abre portas — e, de fato, abrirá.
Por que este trecho é tão importante?
- Marca o início da salvação de Odisseu. Sem Nausícaa, ele não chegaria ao palácio de Alcínoo nem retornaria a Ítaca.
- Mostra o domínio absoluto de Odisseu sobre a palavra. Ele lê a situação, adapta o tom, escolhe a distância, molda o discurso.
- Constrói Nausícaa como figura luminosa. Ela é pura, graciosa, acolhedora — e sua presença traz um sopro de serenidade ao poema.
- Mistura o épico ao lírico. A cena é quase um encontro pastoral, suave, humano, em contraste com a violência da Ilíada.
- Marca o início da salvação de Odisseu. Sem Nausícaa, ele não chegaria ao palácio de Alcínoo nem retornaria a Ítaca.
- Mostra o domínio absoluto de Odisseu sobre a palavra. Ele lê a situação, adapta o tom, escolhe a distância, molda o discurso.
- Constrói Nausícaa como figura luminosa. Ela é pura, graciosa, acolhedora — e sua presença traz um sopro de serenidade ao poema.
- Mistura o épico ao lírico. A cena é quase um encontro pastoral, suave, humano, em contraste com a violência da Ilíada.