domingo, 20 de setembro de 2026

Odisseia: Parte II (Canto VI.a - Odisseu chega à Feácia)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹ 
Canto VI

Odisseu chega à Feácia

    “Atena aparece em sonho para Nausícaa, filha de Alcínoo, e manda-a ir lavar suas roupas no rio, pois seu casamento está próximo. Ela faz o que é pedido. Depois, ela brinca com suas servas. Odisseu ouvindo-as, acorda. Pedindo a Nausícaa, recebe alimento e vestimentas, seguindo-a, então, até a cidade.” (Scholie P Q V)


   Dessa maneira o divino e sofrido Odisseu repousava, 
pelo cansaço vencido e também pelo sono. Mas Palas 
se dirigiu para a terra e cidade dos homens Feácios, 
que em tempos idos moravam nas vastas planícies da Hipéria, 
junto dos homens Ciclopes, soberbos acima de todos, 
que lhes os bens depredavam por serem de muito mais força. 
Desse lugar conduziu-os Nausítoo de forma divina 
para o terreno da Esquéria, afastado dos homens industres. 
Fez circundar a cidade com muros, construir belas casas,

bem como templos aos deuses. O campo entre o povo divide. 
Mas, pela Parca apanhado, já havia descido para o Hades; 
era de Alcínoo o poder, que dos deuses obtinha conselhos. 
A de olhos glaucos, Atena, dirige-se para sua casa, 
a refletir como a volta do herói Odisseu aprestasse. 
Já pelo quarto de bela feitura penetra, onde encontra 
uma donzela a dormir, parecendo, no aspecto gracioso, 
deusa imortal: é Nausícaa, de Alcínoo magnânimo filha. 
Junto duas servas dormiam, das Graças irmãs favoritas, 
de cada lado da porta brilhante, que estava fechada.

Voa, qual sopro do vento, até o leito em que estava a donzela, 
fica-lhe junto à cabeça e lhe diz as seguintes palavras 
sob a aparência da filha do célebre nauta Dimante, 
que a mesma idade contava e Nausícaa entre as mais distinguia. 
A de olhos glaucos, Atena, lhe disse, sob essa aparência: 
   “Como, Nausícaa, tua mãe te gerou descuidada a tal ponto? 
Sem nenhum trato abandonas, assim, teus vestidos brilhantes? 
Próximo é o dia de teu casamento, em que é força te ornares 
com belas roupas; estas, também, ofertares ao cortejo. 
Disso virá receberes do povo os mais altos encômios

e sobremodo alegrar-se teu pai e a consorte pudica. 
Eia! Apressemo-nos logo a lavar, mal que a Aurora desponte. 
Quero ir contigo a ajudar-te, a fim que possas tudo depressa 
determinar, porque inupta não hás de ficar muito tempo. 
Já requestada por moços distintos amiúde tens sido 
entre os Feácios, a que por nobreza de origem pertences. 
Vamos! Exorta teu pai, antes mesmo que a Aurora apareça, 
porque te apreste a carruagem e as mulas de cascos possantes 
para que os cintos e peplos e as belas cobertas te levem. 
Muito mais próprio é que vás desse modo, que a pé pela estrada.

Os lavadoiros se encontram mui longe daqui da cidade.”¹ 
   A de olhos glaucos, Atena, afastou-se ao falar tais palavras, 
e retornou para o Olimpo, onde a sede, é sabido, se encontra, 
sempre tranquila, dos deuses. Por ventos jamais é abalada, 
nem por tormentas de chuva ou por neve; escampado, infinito, 
o éter por cima se estende, impregnado de luz irradiante. 
Todos os dias ali passam ledos os deuses beatos, 
para onde Atena retorna, depois de falar à donzela.
Logo que a Aurora de trono dourado surgiu no horizonte, 
do sono a jovem desperta. Admirou-se Nausícaa do sonho,

e aos genitores resolve contá-lo; à procura vai deles. 
Ambos despertos já estavam na sala interior do palácio. 
Junto do lar a mãe fiava, por servas prestantes cercada, 
lã cor de púrpura; ao pai a donzela encontrou justamente 
quando a soleira transpunha da porta para ir ao conselho 
dos altos príncipes Feácios, que o haviam, de pouco, chamado. 
Ao pai querido achegando-se, diz-lhe as seguintes palavras: 
   “Caro paizinho, seria possível o carro aprestares, 
alto e de rodas bem-feitas, a fim de que as roupas luzentes 
possa levar para o rio, que sujas bastante se encontram?

Fica-te muito mais próprio, com vestes bem limpas no corpo, 
entre os primeiros sentares-te, quando reunido o conselho. 
Meus cinco manos diletos também no palácio demoram: 
dois, já casados; os outros restantes, no viço da idade. 
Estes, só querem vestir-se com roupa lavada de pouco, 
sempre que vão para os bailes. É a mim que está afeto isso tudo.” 
   Disse, evitando, desta arte, por pejo, falar em noivado 
ao pai querido, que tudo compreende e lhe diz, em resposta: 
   “Nem te recuso essas mulas, ó filha, nem nada que peças. 
Vai que os criados o carro bonito irão logo aprontar-te,

alto e de rodas bem-feitas, provido, também, de capota.” 
   Tendo  isso dito, deu ordens aos servos, que logo obedecem. 
Do lado externo da casa aprontaram o carro de mulas, 
de boas rodas, e as mulas puseram no jugo e atrelaram. 
Sai dum dos quartos a serva trazendo os brilhantes vestidos, 
para depô-los em ordem, na caixa do carro polido, 
enquanto a mãe num cabaz gulodices gostosas dispunha, 
das mais variadas, além de manjares, enchendo de vinho 
odre de pele de cabra; a donzela subiu para o carro. 
Fez que levasse, também, óleo líquido num frasco de ouro

para com as servas ungir-se, depois que do banho saíssem. 
Toma das rédeas brilhantes Nausícaa e, também, do chicote, 
para que as mulas pudesse espertar, que arrancaram ruidosas, 
a galopar velozmente, levando a donzela e os vestidos, 
mas não sozinha, que a pé outras servas ao lado a seguiam. 
   Quando chegaram, por fim, ao lindíssimo curso do rio — 
lá se encontravam as fontes perenes, com água bastante, 
bela de ver e capaz de branquear até a roupa mais suja — 
foi nessa altura que as mulas tiraram do jugo do carro 
e as impeliram, depois, para a margem do rio revolto,

a fim de a grama gostosa pastarem. Do carro, no entanto, 
tomam as roupas nos braços e as levam para a água profunda, 
calcam-nas logo nos tanques, porfiando em perícia elas todas. 
Logo que as peças lavaram, limpando-as de todas as nódoas, 
em fila ao longo da praia estenderam-nas, por onde os seixos 
são pelas ondas lavados, que vêm contra a costa quebrar-se. 
Banho, depois, tomam todas, passando óleo puro no corpo, 
para, em seguida, almoçar junto à margem do rio elevada, 
onde ficaram à espera que o Sol toda a roupa secasse. 
Quando se acharam, porém, satisfeitas, Nausícaa e suas servas

de si lançaram os véus, entregando-se ao jogo da bola. 
Guia Nausícaa, de braços bonitos, as outras na dança. 
Ártemis dessa maneira costuma vagar pelos montes, 
quer no Taígeto longo, quer mesmo no próprio Erimanto, 
a deleitar-se na caça de cervos ou céleres gamos. 
Ninfas agrestes a seguem, as filhas de Zeus poderoso, 
a divertirem-se; no íntimo Leto também rejubila, 
e entre as demais sobressai, destacando-se a fronte e a cabeça; 
fácil será conhecê-la, conquanto as demais sejam belas: 
do mesmo modo salienta-se a casta donzela entre as servas.

Quando, porém, já pensava em voltar para casa de novo 
e pôr as mulas no carro e dobrar as esplêndidas roupas, 
a de olhos glaucos, Atena, concebe outro plano engenhoso 
para Odisseu acordar e ver logo a formosa donzela, 
que deveria levá-lo à cidade dos homens Feácios. 
Joga a princesa para uma das suas criadas a bola, 
sem que, porém, acertasse, indo a bola cair na corrente. 
Todas em grita prorrompem; desperta o divino guerreiro, 
senta-se e logo no espírito e no coração excogita: 
   “Pobre de mim! A que terra cheguei? Quais os homens que a habitam?

São, porventura, selvagens violentos, que as leis desconheçam, 
ou de estrangeiros amigos, e afeitos ao culto dos deuses? 
Como de moças, soou-me aos ouvidos um grito estridente, 
provavelmente de ninfas, que moram nos picos dos montes, 
pelas nascentes dos rios, ou mesmo nos prados ervosos. 
Eis-me, por certo, chegado ao convívio de gentes que falam. 
Vamos! Eu próprio hei de logo a verdade saber com meus olhos.” 
   Tendo isso dito, saiu de entre os ramos o divo guerreiro; 
quebra com mãos poderosas um galho da espessa floresta, 
cheio de folhas vivazes, a fim de esconder as vergonhas.

Como leão montanhês avançou, que, na força confiado, 
marcha, sem que possam ventos nem chuva detê-lo; cintilas 
lançam-lhe os olhos; no rasto se atira de bois e de ovelhas, 
ou mesmo corças silvestres; a fome a avançar o compele 
contra rebanhos e, até, a exp’rimentar-se em curral bem fechado: 
dessa maneira Odisseu se resolve a avançar para as moças 
de belas tranças, pesar de estar nu; era força fazê-lo. 
Desfigurado aparece-lhes pela salsugem marinha. 
Elas, com susto, correram de um lado para outro, até a margem. 
Somente a filha de Alcínoo ficou, pois lhe Atena infundira

grande coragem no peito, tirando-lhe o medo dos membros. 
Ante Odisseu se detém, enquanto ele reflete, indeciso, 
se, suplicante, os joelhos da bela menina abarcasse, 
ou, como estava, de longe a implorasse com termos melífluos, 
para mostrar-lhe a cidade e, também, qualquer roupa ceder-lhe. 
Tendo assim, pois, refletido, afinal pareceu-lhe mais certo 
de onde se achava, de longe, afetuosa linguagem falar-lhe, 
não fosse a jovem zangar-se, ao querer abraçar-lhe os joelhos. 
Por isso tudo, dá início ao discurso afetuoso e pensado: 
   “Os joelhos ora te abraço, senhora; és mortal ou divina?

Se uma das deusas tu fores, daquelas que o céu vasto habitam, 
é a Ártemis, principalmente, de Zeus poderoso nascida, 
que te comparo, na forma elegante e elevada estatura. 
Mas, se pertences à raça dos homens que vivem na terra,
julgo três vezes feliz ser teu pai e sua nobre consorte, 
três vezes, sim, teus irmãos. Quanto deve no peito estuar-lhes 
o coração, por tua causa, movido de pura alegria, 
ao contemplarem nos bailes criatura de tanta esbelteza! 
Mas, sobre todos, feliz no mais íntimo aquele que a casa 
vier a levar-te depois que exceler-se nos dotes da noiva,²

continua página 748...
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Prelúdio
Parte I
Parte II
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto VI.a /                      
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] A cena que você trouxe é um dos momentos mais delicados e encantadores da Odisseia: Atena, disfarçada, aparece a Nausícaa em sonho para incentivá‑la a ir lavar as roupas — ação que, no desenrolar do poema, levará ao encontro decisivo entre a jovem feácia e Odisseu.
     O sonho de Nausícaa: quando a deusa prepara o destino
- A deusa não surge em sua forma divina, mas disfarçada como uma amiga da jovem. Isso é típico da Odisseia: Atena age de modo sutil, doméstico, quase íntimo, moldando os acontecimentos sem violência.
- Ela repreende Nausícaa com doçura: A jovem está descuidada com seus vestidos; o casamento se aproxima; e é preciso preparar roupas bonitas para si e para o cortejo.
Esse detalhe é essencial: o casamento é o horizonte natural da vida de Nausícaa, e Atena usa esse tema para motivá‑la.
     Na cultura grega antiga, lavar e preparar roupas não é apenas tarefa doméstica: é um rito de passagem, ligado à maturidade, à honra familiar e à apresentação pública da mulher.
     Atena lembra que: o povo a louvará se ela se mostrar bem preparada; seus pais ficarão felizes; ela já é cortejada por jovens feácios. Ou seja, Nausícaa está entrando na idade adulta — e Atena a conduz nesse processo.
     A instrução prática da deusa
Atena orienta Nausícaa a: pedir ao pai a carruagem e as mulas; levar cintos, peplos e cobertas; ir aos lavadoiros, que ficam longe da cidade. Essa parte é quase prosaica, mas é justamente o que torna o episódio tão belo: o divino se mistura ao cotidiano. Atena não fala de batalhas, profecias ou monstros — fala de roupas, mulas e caminhos. E é essa simplicidade que abre espaço para o encontro com Odisseu.
     Por que este trecho é tão importante na narrativa?
É o início da virada da sorte de Odisseu, sem Nausícaa indo aos lavadoiros, ele não encontraria abrigo entre os feácios.
Mostra o cuidado de Atena, a deusa age como guia, protetora e estrategista, preparando o terreno para o herói.
Constrói Nausícaa como personagem, ela não é apenas uma princesa: é uma jovem à beira da vida adulta, sensível, responsável e graciosa.
Mistura o doméstico ao épico, a Odisseia é um poema que valoriza o cotidiano — e este episódio é exemplar.

[2] Este trecho é um outro dos momentos belos e delicados da Odisseia: o encontro entre Odisseu e Nausícaa, quando o herói, recém‑naufragado, precisa decidir como abordar a jovem princesa sem assustá‑la. É uma cena de extrema sensibilidade narrativa, e Homero trabalha aqui com nuances psicológicas raras na épica antiga.
     Odisseu diante de Nausícaa: hesitação, respeito e estratégia
Odisseu “reflete, indeciso” sobre como se aproximar:
Agarra os joelhos da jovem? Esse gesto é o símbolo máximo da súplica na cultura grega — mas também é íntimo demais para uma moça solteira.
Ou fala de longe, com doçura? Isso preservaria a dignidade da jovem e evitaria que ela se assustasse.
A escolha de Odisseu revela sua inteligência emocional: ele sabe que, sendo um desconhecido, nu, sujo e recém‑saído do mar, qualquer aproximação brusca poderia ser interpretada como ameaça.
     A decisão: falar de longe, com palavras melífluas. O herói opta por manter distância e usar a linguagem como ponte. Esse é um traço essencial de Odisseu: ele vence pela palavra antes de vencer pela força. Ele teme que Nausícaa se zangue se ele tocar seus joelhos — e essa preocupação mostra respeito, autocontrole e consciência social.
     O discurso: elogio, reverência e estratégia narrativa. Odisseu inicia sua fala com uma pergunta que mistura reverência e admiração: “És mortal ou divina?” Ele compara Nausícaa a Ártemis, deusa da juventude e da pureza — uma imagem que ressalta a beleza e a postura da jovem. 
Se ela for humana, Odisseu declara: 
feliz o pai, que gerou tal filha;
feliz a mãe, que a criou;
felizes os irmãos, que a veem brilhar nos bailes;
feliz sobretudo o futuro marido, que a levará para casa.
Esse elogio é mais que cortesia: é uma estratégia retórica perfeita.
Odisseu: exalta Nausícaa sem ultrapassar limites; mostra respeito à família; insinua que reconhece sua posição social; cria empatia e confiança. É o tipo de discurso que abre portas — e, de fato, abrirá.
     Por que este trecho é tão importante?
Marca o início da salvação de Odisseu. Sem Nausícaa, ele não chegaria ao palácio de Alcínoo nem retornaria a Ítaca.
Mostra o domínio absoluto de Odisseu sobre a palavra. Ele lê a situação, adapta o tom, escolhe a distância, molda o discurso.
Constrói Nausícaa como figura luminosa. Ela é pura, graciosa, acolhedora — e sua presença traz um sopro de serenidade ao poema.
Mistura o épico ao lírico. A cena é quase um encontro pastoral, suave, humano, em contraste com a violência da Ilíada.

Vozes femininas: Contraltos

Federica Moi

A voz contralto é o tipo vocal feminino mais raro e, ao mesmo tempo, o mais escuro e profundo. 

Características femininas da voz contralto
1. Extensão vocal, algumas alcançam notas ainda mais graves, chegando ao E₃ ou D₃, o que dá à voz um caráter excepcionalmente escuro.
2. Timbre é escuro, encorpado e maduro, é uma voz que transmite profundidade emocional e autoridade.
3. Registro predominante, o domínio do registro grave é o que define a identidade da contralto.
4. Agilidade vocal, em geral, a contralto não é caracterizada pela velocidade, e sim pela profundidade.
5. Projeção, é uma voz que “enche” o espaço com calor, não com brilho.
6. Apoio respiratório, a contralto trabalha muito com coluna de ar estável e ressonância baixa.
7. Articulação e dicção, a dicção é crucial para que o timbre escuro não comprometa a inteligibilidade.


Contralto - A Voz que tem mais notas...e as mulheres mais bravas!





Federica Moi - Gaude Felix Bethulia Laetare, Ozias





Federica Moi - Qui Sedes, Gloria di vivaldi






Federica Moi e soprano Silvija Radjen
Handel: Son nata a lagrimar (Duet from "Giulio Cesare")
- XXIII Belgrade Baroque Academy (2024)




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Vozes femininas
Sopranos
Contraltos:
Federica Moi /  

Vozes Femininas: Sopranos

Natalia Ushakova 


A soprano se define menos pela altura das notas e mais pelo conjunto de características vocais que formam esse tipo de voz.
1. Extensão vocal, algumas alcançam notas ainda muito altas, acima de duas oitavas do Dó médio
2. Timbre brilhante, leve e capaz de projetar a voz mesmo em registros altos sem perder a clareza
3. Registro predominante, a habilidade de manter o som homogêneo no registro agudo é essencial.
4. Agilidade vocal, extrema agilidade, escalas rápidas, saltos amplos, leveza e flexibilidade, linhas longas, expressividade, potência, densidade, projeção sobre orquestras grandes
5. Projeção, a soprano precisa projetar o som e ultrapassar a orquestra, mantendo a clareza nas notas altas e sustentando frases longas sem perder o apoio (muita técnica respiratória e ressonância)
6. Apoio respiratório, o controle do diafragma e da coluna de ar é o que permite cantar agudos com naturalidade.
7. Articulação e dicção bem, mesmo em regiões altas, mantendo a inteligibilidade quando adapta vogais para facilitar a emissão

Divirtam-se com a soprano Natalia Ushakova


Ecstasy of Gold at Hollywood in Vienna 2012





Natalia Ushakova (2020) - La ille du Regiment - Chacun le Sait





Conductor JOHANNES HARNEIT
CZECH VIRTUOSI ORCHESTRA


Natalia Ushakova (2020) - Norma - Casta Diva + Stretta





Natalia Ushakova em Retrato (não esqueça de ativar as legendas)





Rusalka “Canção para a Lua” Natalia Ushakova 
Gala Noite de Verão, 16 de julho de 2023



Canção à Lua da ópera Rusalka, de Antonín Dvořák
Interpretada por Natalia Ushakova, no Concerto ao Ar Livre Austríaco - Noite de Gala de Verão, 16 de julho de 2023, no SommerTheaterPark

Maestro Michael Zehetner, moderação de Kai Uwe Garrels, Orquestra Sinfônica de Savaria

Sua luz brilha longe nos céus
Sobre o mundo, vagando
Contemplando as moradas humanas
Sobre o mundo, vagando...

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Vozes femininas
Sopranos
Natalia Ushakova /  
Contraltos:

sábado, 19 de setembro de 2026

Ilíada: Homero (Canto VI.b - O encontro de Heitor com Andrômaca)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto VI - O encontro de Heitor com Andrômaca
 
“O exército Troiano começa a se curvar diante das forças Gregas. Heitor vai, pelo conselho de Heleno, pedir à sua mãe que invoque a proteção de Atena para que ela retire Diomedes da guerra. Diomedes encontra-se com Glauco, e reconhecem que são descendentes de famílias amigas. Os heróis trocam armas. As mulheres Troianas seguem em procissão até o Templo de Palas Atena. Heitor exorta Páris a retornar ao combate, e procura, então, sua esposa, Andrômaca, e a encontra perto das Portas Ceias.”
continuando...

grato fruíam, ao lado de suas esposas legítimas. 
Foi nessa altura que a mãe amorosa ao encontro lhe veio, 
que acompanhava até a casa a mais bela das filhas, Laódice. 
Toma-lhe a mão e, falando, lhe diz as seguintes palavras: 
   “Filho, a que vens até aqui? Por que causa deixaste o combate? 
Sim, certamente é mui grande a pressão dos malditos Acaios 
contra a cidade sagrada. Por isso, teu peito te trouxe, 
para que do alto da Acrópole a Zeus as mãos ambas alçasses. 
Para, aqui, um pouco, que vinho mais doce que o mel vou buscar-te, 
para que libes a Zeus e às demais divindades eternas, 

e tuas forças restaures, também, pós haveres bebido. 
Tônico é o vinho, excelente, para o homem no extremo das forças, 
tal como te achas, de tanto lutar em defesa da pátria.” 
   Disse-lhe Heitor em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Mãe veneranda, não tragas a doce bebida; receio 
que os fortes braços me enerve, vindo eu a perder toda a força. 
A reverência me impede de vinho ofertar a Zeus grande 
com mãos impuras. É impróprio, assim, sujo de poeira e de sangue, 
preces alçar ao que nuvens cumula no Olimpo vastíssimo. 
Com muito incenso, no entanto, dirige-te ao templo de Palas,

a predadora, depois de as matronas haveres reunido. 
Toma do manto maior que na régia bem-feita encontrares, 
o de mais fino lavor e que ao peito mais caro te seja, 
e sobre os joelhos de Atena o coloca, de belos cabelos. 
Mais: doze vacas promete imolar no interior do santuário, 
ainda indomadas, apenas de um ano, sendo ela benigna 
para a cidade, as esposas dos Teucros e nossos filhinhos, 
longe mantendo dos muros sagrados de Troia o Tidida, 
suscitador poderoso do Medo guerreiro selvagem. 
Ao templo, pois, te dirige, de Palas Atena indomável,

enquanto eu vou à procura de Páris, a fim de incitá-lo 
para o combate, se ouvidos me der. Ah, se a terra se abrisse 
subitamente! Um fautor de desgraças nascer fez o Olimpo 
para o magnânimo Príamo, os filhos e o povo Troiano.      
Se concedido me fosse assistir-lhe à descida para o Hades, 
esquecer-se-ia minha alma, por certo, dos males presentes.”¹
Disse; ela, então, para casa voltou, tendo às servas dado ordens 
que as venerandas matronas, por toda a cidade, chamassem. 
Ao aposento flagrante baixou, logo após, onde peplos 
inumeráveis se achavam de grande brancura, tecidos

pelas mulheres Sidônias. O divo Alexandre os trouxera 
da populosa Sidão, justamente no tempo em que Helena, 
de nobilíssimo pai, por caminhos extensos raptara. 
Hécabe um desses tomou para a Palas Atena ofertá-lo, 
o mais bonito e maior, que se achava por baixo de todos, 
de brilho igual ao dos astros e enfeites de fino trabalho. 
Pelas matronas seguida, a caminho se pôs, sem demora. 
Logo que o templo de Atena alcançaram, no burgo elevado, 
Teano formosa, nascida do claro Cisseu, lhe abre as portas, 
filha e consorte do forte Antenor, domador de cavalos.

Sacerdotisa a elegeram, de Palas Atena, os Troianos. 
Todas a Palas elevam as mãos e, bradando, suplicam. 
Tendo tomado do peplo, Teano, de faces formosas, 
foi colocá-lo nos joelhos de Atena, de belos cabelos, 
e, em prece ardente, implorou à nascida de Zeus poderoso: 
   “Ó venerável Atena, defesa de nossa cidade, 
quebra do forte Diomedes a lança, ou o derruba tu própria 
das Portas Ceias em frente, de bruços no solo fecundo, 
que doze vacas ao templo, sem mora, viremos trazer-te, 
ainda indomadas, apenas de um ano, se fores benigna

para a cidade, as esposas dos Teucros e nossos filhinhos!” 
   Não foi a súplica, entanto, por Palas Atena acolhida. 
Enquanto à filha de Zeus poderoso elas todas oravam, 
encaminhava-se Heitor ao palácio do divo Alexandre, 
belo de ver, que ele próprio construíra com a ajuda de artífices 
de fama excelsa, os melhores da terra abençoada de Troia. 
Estes, o tálamo e a sala elevaram, e o pátio espaçoso, 
perto dos paços de Príamo e Heitor, no ponto alto da Acrópole. 
Entra o guerreiro, a Zeus caro, no belo palácio, levando 
a forte lança na mão, de onze cúbitos, com reluzente

extremidade de bronze firmada por círculo de ouro. 
Acha a Alexandre no tálamo, atento no exame das armas 
de primorosa feitura, a apalpar o arco forte e brunido. 
A Argiva Helena se achava a seu lado, no meio das servas, 
a dirigir os trabalhos que todas, cuidosas, faziam. 
Vendo-o, com termos violentos, Heitor o censura, dizendo: 
   “Recomendáveis não são, ó infelizes, esses teus sentimentos. 
Fora dos muros, o povo perece na crua peleja. 
Por tua causa, acendeu-se esta guerra, que em volta de Troia 
arde, sem pausa nenhuma. Tu próprio, quiçá, te indignaras,

caso encontrasses alguém que fugisse à defesa da pátria. 
Vamos; se não, logo, logo, há de a chama inimiga atingir-nos.” 
   Páris, de formas divinas, lhe disse, em resposta, o seguinte: 
“É justo, Heitor, o que dizes; contrário à razão não me falas. 
Por isso vou contestar-te, pedindo que ouvido me prestes. 
Certo, não foi achar-me agastado com os Troas, que ao tálamo 
me recolhi, mas por causa da dor que me o peito angustia. 
Neste momento, com doces palavras, a cara consorte 
me aconselhava a voltar para a luta. Eu, também, já pensara 
que é bem melhor desse modo. A vitória tem suas mudanças.

Por uns instantes espera que as armas de guerra eu envergue; 
ou melhor, vai; que em teus passos já sigo, esperando alcançar-te.” 
   Nada lhe disse, em resposta, o guerreiro do casco ondulante. 
Vira-se Helena para esse, com termos afáveis, e fala: 
   “Caro cunhado da pobre que apenas desgraças espalha! 
Fora melhor, bem melhor, que, no dia em que a luz vi do mundo, 
arrebatado me houvesse de casa terrível procela, 
para nos montes lançar-me, ou nas ondas do mar ressoante,
que me teriam tragado, evitando esta grande catástrofe. 
Mas já que os deuses quiseram que tudo, desta arte, se desse,

fosse-me, então, destinado marido melhor, que as censuras 
dos companheiros sentisse e a desonra daí decorrente. 
Este, porém, nunca teve firmeza, nem nunca há de tê-la. 
Por isso mesmo, estou certa, há de os frutos colher dentro em breve. 
Mas entra, um instante sequer, e repousa sobre esta cadeira, 
caro cunhado, que mais do que todos suportas o peso 
das consequências de minha cegueira e da culpa de Páris. 
Triste destino Zeus grande nos deu, para que nos celebrem, 
nas gerações porvindoiras, os cantos excelsos dos vates.” 
   Disse-lhe Heitor, em resposta, o guerreiro do casco ondulante:

 “Não é possível, Helena, aceitar-te o convite amigável, 
pois o meu peito me incita a correr em ajuda dos nossos, 
que já se encontram, por certo, impacientes com a minha demora. 
A este, porém, manda-o logo, ou se apresse, espontâneo, a vestir-se, 
para que possa alcançar-me ainda dentro dos muros de Troia, 
enquanto a casa, de bela feitura, dirijo-me para 
mais uma vez ver os criados, a esposa dileta e o filhinho. 
É, por sem dúvida, incerto se possa voltar a revê-los, 
ou se por mão dos Aquivos os deuses à Morte me entregam.” 
   Tendo assim dito, afastou-se, a agitar o penacho do casco.

 Pouco depois alcançava o palácio de bela feitura; 
mas não achou no interior do aposento a formosa consorte, 
que, juntamente com o filho e uma serva de manto vistoso, 
no alto da torre se fora postar, a chorar aflitíssima. 
Não tendo Heitor no palácio encontrado a impecável Andrômaca, 
para a saída retorna, apressado, e às escravas pergunta: 
   “Toda a verdade, donzelas, dizei-me, sem nada ocultar-me: 
para onde foi a senhora, se dentro de casa não se acha? 
Foi, porventura, em visita às cunhadas de peplos formosos, 
ou, com as outras Troianas, ao templo de Palas Atena,

onde procuram a deusa tremenda aplacar com pedidos?” 
   A despenseira, solícita, disse-lhe, então, em resposta: 
“Já que me mandas, Heitor, informar-te de toda a verdade, 
nem em visita se encontra às cunhadas de peplos formosos, 
nem, com as outras Troianas, no templo de Palas Atena, 
onde procurem a deusa tremenda aplacar com pedidos. 
Foi, sim, à torre altanada, depois de saber que os Troianos 
cedem terreno ante a força maior dos guerreiros Acaios. 
Fora de si, para os muros correu, onde, agora, se encontra, 
como uma louca; o menino pela ama, também, foi levado.”

A essas palavras da serva, Heitor sai, novamente, de casa, 
a desandar o caminho de bela feitura, apressado. 
Quando, depois de correr pela grande cidade, alcançara 
as Portas Ceias, por onde devia passar para o campo, 
sai-lhe ao encontro, a correr, a consorte de dote copioso, 
a nobre filha de Eecião, o guerreiro magnânimo, Andrômaca, 
o grande Eecião, que o palácio construíra no Placo selvoso 
e comandava os Cilícios em Tebas, chamada a Hipoplácia. 
A filha a Heitor, como esposa, entregara, o guerreiro arnesado. 
Esta, ao encontro lhe veio, seguida de uma ama solícita,

a qual nos braços trazia o filhinho de Heitor, ainda infante, 
só comparável à vista inefável de um astro fulgente. 
O nome, Heitor, de Escamândrio, lhe pôs; mas as outras pessoas, 
o de Astianacte, que o pai era o amparo dos muros de Troia. 
Ao ver o filho, o guerreiro sorriu, sem dizer coisa alguma. 
Pôs-se-lhe ao lado a impecável Andrômaca, em pranto desfeita; 
toma-lhe a mão e, falando, lhe diz as seguintes palavras: 
   “Tua coragem te perde, cruel! Não te apiadas, ao menos, 
de teu filhinho inocente, ou de minha desdita, ficando 
cedo viúva de ti quando os feros Aqueus te matarem?

A ti, somente, eles visam. Bem mais vantajoso me fora 
que, antes de vir a perder-te, se abrisse o chão duro. Nenhuma 
outra esperança me resta, colhendo-te o negro Destino. 
Dores, somente; nem pai ora tenho nem mãe veneranda. 
Foi por Aquiles divino meu pai da existência privado, 
quando a cidade imponente dos homens Cilícios destruiu, 
Tebas, de portas muito altas. Aquiles a Eecião tira a vida, 
sem despojá-lo das armas, contudo; a consciência o impediu. 
Tendo-o queimado na pira com as armas de fino trabalho, 
um monumento lhe fez erigir, que as Oréades, logo,

de olmos vistosos cercaram, as filhas de Zeus poderoso. 
Meus sete irmãos, que comigo viviam em nosso palácio, 
em um só dia baixaram para o Hades de aspecto sombrio, 
o divo Aquiles, de rápidos pés, a eles todos deu morte, 
quando guardavam bois tardos e ovelhas de velo argentino. 
A minha mãe, tão somente, senhora do Placo selvoso, 
que para aqui ele trouxe, com seus opulentos haveres, 
deu liberdade, depois de exigir um vultoso resgate; 
ela, no entanto, por Ártemis foi no palácio frechada. 
És para mim, caro Heitor, assim pai como mãe veneranda,

és meu irmão, de igual modo, e marido na idade florente. 
Tem, pois, piedade de mim; fica um pouco na torre; não queiras 
órfão o filho deixar, nem viúva a consorte querida. 
Junto da grande figueira coloca mais gente, onde há acesso, 
para a cidade, mais fácil, que o muro permite escalada. 
Já por três vezes tentaram subi-lo os heróis mais valentes 
da companhia dos fortes Ajazes, dos claros Atridas, 
de Idomeneu valoroso e do forte e preclaro Tidida, 
ou por conselho de algum sabedor do fatal vaticínio,
ou pela própria coragem a assim proceder impelidos.”

Disse-lhe Heitor em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Tudo isso, esposa, também me preocupa; mas quanta vergonha 
dos outros homens e, assim, das Troianas de peplos compridos, 
eu sentiria se, infame, fugisse às pelejas cruentas. 
Isso meu peito proíbe, ensinando-me a ser valoroso 
e a combater sempre à frente dos fortes guerreiros de Troia, 
para mor lustre da glória paterna e de meu próprio nome. 
O coração claramente mo diz e a razão mo confirma: 
dia virá em que Troia sagrada será destruída, 
bem como Príamo e o povo do velho monarca lanceiro.

Menos, porém, me acabrunha o destino que aos Teucros espera, 
ou mesmo o de Hécabe, ou a sorte que a Príamo está reservada, 
e a meus irmãos numerosos, que, embora valentes, na poeira 
hão de jogados ficar, sob os golpes de imigos ferozes, 
que imaginar-te arrastada por um desses duros Aquivos 
de vestes brônzeas, em prantos, sem nada dos dias felizes. 
Às ordens de outra mulher hás de, em Argos, tecer belos panos,
ou te verás obrigada a trazer, de Hipereia ou Messeida, 
água, bem contra a vontade, agravada por doestos pesados. 
E, porventura, dirá quem te vir humilhada chorando:

‘Eis aí a esposa de Heitor, o guerreiro mais forte e galhardo, 
quando, ao redor das muralhas de Troia, incessante era a luta.’ 
Isso dirão, aumentando-te a dor de não teres esposo, 
o homem capaz de livrar-te dos dias do vil cativeiro. 
É preferível que a terra fecunda meu corpo recubra, 
a ter de ouvir-te os lamentos, ao seres levada de rastos.” 
   Disse, e estendeu para o filho as mãos ambas, visando a abraçá-lo. 
Mas teve medo a criança do aspecto do pai; e, gritando, 
ao seio da ama acolheu-se, de bela cintura. Estranhara 
o inusitado fulgor do elmo aêneo de grande cimeira,

pelo galhardo e oscilante penacho de crina encimado. 
O pai e a mãe veneranda, a um só tempo, sorriram, de gozo. 
O refulgente elmo, então, da cabeça tirou o guerreiro, 
pondo-o, cuidoso, depois, ao seu lado, na terra fecunda. 
E, logo, o filho nos braços tomando, depois de beijá-lo, 
a Zeus e a todos os deuses eternos suplica, fervente: 
   “Zeus poderoso, e vós outros, ó deuses eternos do Olimpo, 
que venha a ser o meu filho como eu, distinguido entre os Teucros, 
de igual vigor, e que em Ílio, depois, venha a ter o comando. 
E que, ao voltar dos combates alguém diga, ao vê-lo: ‘É mais

ainda, que o pai!’ Possa a mãe veneranda à sua vista alegrar-se 
pós ter matado o inimigo, pesado de espólios cruentos!” 
   Disse, e nos braços da esposa dileta depõe o filhinho. 
Ela, afetuosa, o acolheu e o afagou no fragrante regaço, 
rindo, entre lágrimas. Mui comovido ante o quadro, o guerreiro, 
acariciando-a com a mão, lhe dirige as seguintes palavras: 
   “Minha tolinha, por que, desse modo, afliges tua alma? 
Homem nenhum poderá, contra o Fado, mandar-me para o Hades, 
pois quero crer que a ninguém é possível fugir ao destino, 
desde que nasça, seja ele um guerreiro de prol ou sem préstimo.

Para tua casa recolhe-te e cuida dos próprios lavores, 
roca e tear, assim como às criadas transmite tuas ordens, 
para que tudo executem, que aos homens que em Troia nasceram, 
mormente a mim, está afeto pensar quanto à guerra concerne.” 
   O elmo de equino penacho depois retomou o guerreiro. 
Para o palácio retorna, entrementes, a esposa, virando-se 
a cada passo, a verter, pela estrada, amaríssimo pranto. 
Quando chegou ao palácio de bela feitura do insigne 
e incontrastável guerreiro, cercada se viu pelas servas, 
que prorromperam, também, a chorar, quando aflita a enxergaram.

 Na própria casa de Heitor, ainda vivo, por morto o choravam, 
pois esperança não tinham de que ele voltar conseguisse 
salvo das mãos dos Aquivos, à fúria da guerra escapando. 
   Páris, também, não ficou muito tempo na estância elevada, 
mas, tendo as armas de bronze vestido, de fino trabalho, 
corta, apressado, a cidade, nos rápidos pés confiado. 
Como galopa um cavalo habituado no estábulo, quando 
pode do laço escapar e, fogoso, a planície atravessa 
para ir banhar-se, impaciente, na bela corrente do rio, 
cheio de orgulho, soleva a cabeça; por sobre as espáduas

bate-lhe a crina, agitada; consciente da própria beleza, 
levam-no os pés para o prado, onde os outros cavalos se reúnem: 
Páris, o filho de Príamo, assim, desce do alto da Acrópole 
da sacra Pérgamo, envolto em couraça que a vista ofuscava. 
Vem exultante; seus rápidos pés o conduzem em pouco 
tempo aonde Heitor se encontrava, o divino guerreiro, que tinha 
precisamente deixado o local em que à esposa falara. 
Foi o primeiro a falar Alexandre, de formas divinas: 
   “Mano, bem vejo que muito te fiz esperar, quando tinhas 
tão grande pressa; não fui diligente, conforme o ordenaste.”

Disse-lhe Heitor, em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Páris, nenhuma pessoa de espírito justo pudera 
desconhecer teu valor nos combates, porque és corajoso. 
Mas, voluntário, te escusas; não queres lutar. Isto o peito 
muito me punge, quando ouço as censuras que soem fazer-te 
os picadores Troianos, que tanto por ti têm sofrido. 
Mas, por agora, sigamos; que disso, depois, cuidaremos, 
quando Zeus pai consentir que ofertemos a grande cratera 
da liberdade aos eternos, nos nossos palácios bem-feitos, 
quando dos muros de Troia expulsarmos os fortes Aquivos.”² 

continua página 198...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto V.d / Canto VI.a / Canto VI.b /                      
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1} Aqui outro momento extraordinário da Ilíada: Heitor falando com sua mãe, Hécuba, antes de ir ao encontro de Páris. É uma cena cheia de religiosidade, tensão e frustração. 
*    O que está acontecendo na cena: Heitor retorna à cidade durante a batalha e encontra sua mãe, Hécuba, que lhe oferece vinho para revigorar as forças. Ele recusa — e a recusa é significativa:
Vinho enfraquece os braços, diz ele, e um guerreiro não pode perder vigor.
- Além disso, não é correto oferecer libações a Zeus com as mãos sujas de sangue e poeira. Heitor demonstra respeito religioso e autocontrole.
     Em vez disso, ele pede que Hécuba vá ao templo de Atena, levando as mulheres da cidade para suplicar proteção.
 *    O pedido ritual de Heitor, ele instrui sua mãe a:
- reunir as matronas troianas;
- escolher o manto mais belo e precioso do palácio;
- colocá-lo sobre os joelhos da deusa Atena;
- prometer o sacrifício de doze novilhas de um ano, ainda indomadas.
     O objetivo é claro: implorar que Atena afaste Diomedes, o “Tidida”, que naquele canto está devastando os troianos com força quase sobre-humana. Esse detalhe é importante: Heitor reconhece que Diomedes é, naquele momento, o maior perigo no campo de batalha.
*     A frustração com Páris
     Depois de orientar sua mãe, Heitor diz que irá atrás de Páris, para fazê-lo voltar ao combate. E aqui surge o tom mais humano e amargo da passagem:
Ah, se a terra se abrisse subitamente! Um 
fautor de desgraças nascer fez o Olimpo para 
o magnânimo Príamo, os filhos e o povo 
troiano.”
     Heitor expressa sua exasperação: Páris é visto como a causa da guerra, um peso para a família e para a cidade. Ele deseja, quase desesperadamente, que Páris desapareça — e confessa que isso o faria esquecer todos os males presentes. É um dos momentos em que Heitor revela sua profundidade emocional: ele é o defensor de Troia, mas carrega o fardo das escolhas de outros.
*     Por que esse trecho é tão importante?
1. Mostra o caráter de Heitor: disciplinado, religioso, responsável, consciente da gravidade da guerra.
2. Revela a fragilidade de Troia: a cidade depende da proteção divina e sofre com a irresponsabilidade de Páris.
3. Constrói o clima para o encontro com Andrômaca, que virá logo depois — um dos momentos mais tocantes da Ilíada.
4. Expõe a tensão entre dever e família, tema central do canto VI.

[2] Aqui a continuação perfeita do episódio entre Heitor e Páris — e este trecho é especialmente rico para análise, porque mostra o contraste entre os dois irmãos e aprofunda o drama moral da Ilíada
*     O diálogo entre Heitor e Páris: coragem, vergonha e esperança
1. Páris fala primeiro — e tenta justificar-se (Páris, “de formas divinas”, começa reconhecendo que demorou e que não cumpriu o que Heitor lhe pediu. É uma fala suave, quase resignada, que tenta atenuar sua falta de prontidão.)
     Esse detalhe é importante: Páris não é covarde no sentido físico — ele luta bem quando quer — mas é irresponsável, volúvel, incapaz de assumir o peso das consequências de seus atos.
2. A resposta de Heitor: elogio e reprovação ao mesmo tempo
     Heitor responde com uma mistura de verdade e dor:
- Ele admite que ninguém de espírito justo negaria o valor de Páris no combate.
- Mas logo acrescenta: Páris evita lutar voluntariamente, e isso “punge” seu peito.
     Heitor sofre não apenas pela guerra, mas pela vergonha que Páris traz à família e à cidade. Os “picadores troianos” — os cidadãos comuns — murmuram contra Páris, e Heitor sente o peso dessas críticas. Esse é um dos momentos mais humanos do poema: Heitor ama o irmão, mas não consegue esconder sua frustração.
3. A promessa de futuro — quando Troia expulsar os aqueus
     Heitor tenta encerrar o assunto, porque a urgência da guerra não permite longas discussões. Ele diz:
Por agora, sigamos; que disso, depois, 
cuidaremos.”
     E então imagina um futuro idealizado:
- Zeus permitirá que os troianos ofereçam a “cratera da liberdade” aos deuses.
- Eles celebrarão nos palácios bem-feitos.
- Os aqueus serão expulsos dos muros de Troia.
     Esse momento é profundamente irônico: Heitor fala com esperança, mas o leitor sabe que Troia jamais verá essa celebração. A frase revela sua , sua honra, mas também sua tragédia.
*     Por que este trecho é tão significativo?
1. Constrói o contraste entre os irmãos:
     - Heitor: dever, disciplina, responsabilidade.
     - Páris: beleza, talento, mas falta de compromisso.
2. Mostra a tensão interna de Troia:
     A guerra não é apenas contra os aqueus — é também contra a desordem moral dentro da própria cidade.
3. Revela a liderança de Heitor:
     Ele não humilha Páris; ele o chama à luta, tentando preservar a unidade.
4. Antecipação trágica:
     A esperança de expulsar os aqueus é uma sombra do destino inevitável de Troia
.


Ilíada, de Homero - Canto VI




Ilíada: Homero (Canto VI.a - O encontro de Heitor com Andrômaca)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto VI - O encontro de Heitor com Andrômaca
 
“O exército Troiano começa a se curvar diante das forças Gregas. Heitor vai, pelo conselho de Heleno, pedir à sua mãe que invoque a proteção de Atena para que ela retire Diomedes da guerra. Diomedes encontra-se com Glauco, e reconhecem que são descendentes de famílias amigas. Os heróis trocam armas. As mulheres Troianas seguem em procissão até o Templo de Palas Atena. Heitor exorta Páris a retornar ao combate, e procura, então, sua esposa, Andrômaca, e a encontra perto das Portas Ceias.”

   Ficam sozinhos na luta os Troianos e os Dânaos grevados, 
recrudescendo na vasta planície a terrível batalha. 
Uns contra os outros, as lanças de bronze os guerreiros atiram, 
entre a corrente do Xanto divino e do belo Simoente. 
   Primeiramente, o baluarte dos Gregos, Ajaz Telamônio, 
rompe a falange dos Troas, abrindo uma luz para os sócios,
com derrubar o melhor dos guerreiros chegados da Trácia, 
o destemido e membrudo Acamante, nascido de Eussoro. 
Na crista do elmo ondulante certeira pancada lhe assesta,

indo encravar-se na testa do herói a hasta longa de bronze, 
atravessando-lhe os ossos; as trevas os olhos lhe envolvem. 
Mata Diomedes, de voz retumbante, o admirável Axilo, 
filho do forte Teutrante, que tinha em Arisbe a morada 
bem-construída e opulenta; por todos era ele estimado, 
pois para todos sua casa, na beira da estrada, era franca. 
Mas nenhum desses amigos lhe veio servir de anteparo, 
para livrá-lo da Morte; Diomedes a vida tirou-lhe 
e ao próprio pajem Calésio que, então, dirigia os cavalos,
na qualidade de auriga; ambos eles à terra baixaram.

Priva das armas brilhantes Euríalo a dois, Dreso e Oféltio, 
indo, depois, contra Pédaso e Esepo que, outrora, uma náiade, 
Abarbareia, gerou do formoso pastor Bucolionte, 
de Laomedonte divino o mais velho dos filhos, embora 
de nascimento sem brilho, provindo de amores furtivos. 
Quando cuidava das belas ovelhas, à náiade uniu-se, 
de quem, ali concebidos, dois gêmeos famosos nasceram. 
Mas o vigor lhes dissolve dos joelhos e membros o filho 
de Mecisteu, que dos ombros as armas, também, lhes retira. 
A morte a Astíalo deu Polipetes, guerreiro ardoroso;

com sua lança de bronze Odisseu tira a vida a Pedites, 
nado em Percote; Aretáone divo por Teucro foi morto; 
foi pela lança brilhante de Antíloco, o moço Nestórida, 
Áblero morto; Agamémnone a Elato, também, prostra exânime 
o qual em Pédaso excelsa morava, nas margens do rio 
Sátnio, de bela corrente, ao fugir, foi por Lito alcançado 
Fílaco; as armas Eurípilo toma do escuro Melântio. 
   Por Menelau gritador foi Adrasto com vida apanhado; 
desobedientes ao freio, corriam no plaino os cavalos, 
os quais levaram o carro recurvo a chocar contra um galho

de tamargueira, o que fez que o timão se partisse; assustados, 
para a cidade os cavalos retornam, no rasto dos outros. 
Cai o guerreiro de bruços, bem junto da roda do carro, 
indo de boca no chão; logo perto se achou dele o louro 
filho de Atreu, Menelau, com sua lança de sombra comprida. 
Passa-lhe os braços à volta dos joelhos Adrasto e suplica: 
   “Ó Menelau, não me mates; aceita resgate condigno. 
Em seu palácio, meu pai acumula preciosos tesouros, 
bem trabalhados objetos de ferro, e ouro e bronze abundantes. 
Meu genitor te dará, de boamente, um resgate elevado,

quando souber que me encontro com vida nas naus dos Aquivos.”¹
   Isso disse ele, abalando, sem dúvida, o peito do Atrida, 
que já inclinado se achava a entregá-lo a um dos servos, que o fosse 
para os navios velozes levar, quando o Atrida Agamémnone 
chega, apressado, e o impediu, com dizer-lhe, em voz alta, o seguinte: 
   “Ó Menelau compassivo, por que para os homens te mostras 
tão sem vigor? Belas coisas, de fato, em tua casa fizeram 
esses Troianos! Por isso da Morte escapar não deixemos 
quantos às mãos nos caírem, sendo homens, embora ainda se achem 
no próprio ventre materno. Que todos pereçam bem longe

de Ílio destruída, sem túmulo algum, nem memória, deixarem.” 
   Essas palavras do herói, de fatais e prudentes conceitos, f
azem que o peito mudasse do irmão, que, com o braço, repele 
o suplicante. Este foi pelo forte guerreiro Agamémnone 
no baixo-ventre ferido, caindo de costas; o Atrida 
sobe-lhe em cima do peito, arrancando a hasta longa de freixo. 
   Em altas vozes Nestor os guerreiros Argivos exorta: 
“Dânaos guerreiros, amigos diletos, discípulos de Ares! 
Nenhum se deixe ficar para trás, tendo em vista, somente, 
presas valiosas levar para as naves de casco anegrado.

Ora, inimigos maternos; depois, com vagar, na planície 
procurareis os cadáveres, para das armas despi-los.” 
   Por esse modo incitava o furor e a coragem de todos. 
E, porventura, os Troianos teriam para Ílio fugido, 
sob a pressão dos Acaios valentes, em franco desânimo, 
se para Eneias e Heitor não tivesse falado nesta hora 
o nobre filho de Príamo, Heleno, excelente adivinho: 
   “Em vós, Eneias e Heitor, os Troianos e os Lícios confiam 
os mais pesados trabalhos da guerra, por terdes em tudo 
a iniciativa, não só nos combates, também nos conselhos.

Ora, detende-vos para correr as fileiras e os nossos 
homens conter ante as portas, se não todos eles aos braços 
se atirarão das mulheres, objetos de mofa do imigo. 
Mas, uma vez as falanges em ordem, de novo, e inflamadas, 
procuraremos, também, contra os Dânaos lutar aqui mesmo, 
ainda que muito cansados, que o aperto é, de fato, imperioso. 
Para a cidade, depois, Heitor corre, e instruções leva logo 
à nossa mãe, que, sem perda de tempo, as matronas reúna 
no alto da rocha, onde o templo se encontra de Palas Atena. 
Pós ter franqueado com a chave o recesso sagrado do templo,

tome no manto maior que na régia bem-feita se encontra, 
o de mais fino lavor e que ao peito mais caro lhe seja, 
e sobre os joelhos de Atena, de belos cabelos, deponha. 
Mais: doze vacas prometa imolar no interior do santuário 
ainda indomadas, apenas de um ano, sendo ela benigna 
para a cidade, as esposas dos Teucros e nossos filhinhos, 
longe mantendo dos muros sagrados de Troia o Tidida, 
suscitador poderoso do Medo, selvagem guerreiro, 
o qual, afirmou-o, é o mais forte de todos os homens Acaios. 
Tanto pavor nem de Aquiles sentimos, senhor de guerreiros,

filho, segundo se diz, de uma deusa. Porém tanta é a fúria 
deste, que fora estultícia a um dos nossos querer enfrentá-lo.” 
   Obedeceu, logo, Heitor ao conselho que Heleno lhe dera. 
Rapidamente do carro pulou, sem que as armas soltasse, 
e, duas lanças brandindo, correu as fileiras do exército, 
a concitar para a luta os guerreiros; a pugna se instaura. 
Voltam agora os Troianos, de novo, a enfrentar aos Aquivos 
que, por sua vez, retrocedem; cessou desse modo a matança. 
Imaginaram que algum dos eternos do Céu se atirara 
para ajudar os Troianos, que insólito ardor manifestam.

Em altos brados Heitor se dirige aos guerreiros Troianos: 
   “Vós, corajosos Troianos e aliados de fama excelente! 
Sede homens, caros amigos, e força mostrai impetuosa, 
enquanto vou à cidade falar aos anciões do conselho 
e a nossas caras esposas, que preces aos deuses elevem, 
a todos eles perfeita hecatombe ofertar prometendo.” 
   Tendo assim dito, afastou-se, a agitar o penacho do casco. 
Nos calcanhares e no alto da nuca o debrum lhe batia, 
de couro preto, que à volta se achava do escudo de umbigo. 
   Glauco, nascido de Hipóloco, e o grande e valente Tidida,

cheios de ardor, se avistaram no meio do teatro da luta, 
e, caminhando um para o outro, afinal frente a frente ficaram. 
Disse Diomedes, de voz retumbante, falando primeiro: 
“Homem de grande valor, de que estirpe mortal te originas? 
Ainda não tive ocasião de te ver nas batalhas, que aos homens 
glória concedem; no entanto, os demais, em coragem, superas, 
pois vens, agora, enfrentar a minha lança de sombra comprida. 
Os que se medem comigo são filhos de pais sem ventura. 
Mas, se um dos deuses tu fores, que moram no Olimpo vastíssimo, 
sabe que contra os eternos não quero em combate medir-me.

Nem mesmo o filho de Driante, Licurgo valente, mui longa 
vida alcançou, por haver contra os deuses celestes lutado. 
Ébrio, uma vez, de Dioniso ele as amas, violento, repele 
do sacro monte de Nisa. Tomadas de medo indizível, 
quando o homicida Licurgo, contra elas, brandiu a aguilhada, 
os tirsos jogam no chão. Aterrado, nas ondas marinhas 
corre Dioniso a lançar-se, onde, trêmulo, Tétis ao seio 
o recolheu, que assaz medo sentia do herói com seus gritos. 
Mas, depois disso, contra ele irritaram-se os deuses felizes, t
endo-o cegado Zeus Crônida. A vida bem curta ele teve,

por se ter feito odioso aos eternos que moram no Olimpo. 
Por isso tudo, não quero lutar contra os deuses beatos. 
Mas se, contrário, és humano e te nutres dos frutos da terra, 
chega-te, e logo hás de ver-te, por certo, no extremo funesto.” 
   Disse-lhe, então, em resposta o preclaro rebento de Hipóloco: 
“Grande Tidida, por que saber queres a minha ascendência? 
As gerações dos mortais assemelham-se às folhas das árvores, 
que, umas, os ventos atiram no solo, sem vida; outras, brotam 
na primavera, de novo, por toda a floresta viçosa. 
Desaparecem ou nascem os homens da mesma maneira.

Já que desejas, porém, conhecer meus avós, vou dizer-te 
qual seja a minha progênie, por muitos, decerto, sabida. 
No centro de Argos, nutriz de cavalos, os muros se elevam 
de Éfira, sob o comando do mais astucioso dos homens, 
Sísifo, de Éolo filho; de Sísifo Glauco proveio. 
Belerofonte, o admirável, de Glauco a existência recebe. 
Deram-lhe os deuses beleza e vigor varonil aliado 
a gênio afável. Mas Preto, insidioso, da pátria o repele, 
pois tinha mais influência do que ele entre os homens Argivos, 
por os haver submetido ao seu cetro o nascido de Crono.

A diva Anteia, consorte de Preto, em desejos ardia 
de, às escondidas, unir-se-lhe, sem ter, contudo, abalado 
Belerofonte prudente, de castos e leais pensamentos. 
Vira-se, então, para o esposo, e, falseando a verdade, lhe disse: 
‘Ou tira a vida de Belerofonte, ou consente em morreres. 
Preto, por ter querido ele obrigar-me a um ilícito amplexo.’ 
A essas palavras, o rei foi tomado de cólera ingente. 
Não quis da vida privá-lo, por ter, em verdade, receio; 
mas para a Lícia o enviou, tendo escrito uns sinais mui funestos 
em duas tábuas fechadas, que ao sogro mandou que entregasse,

para que viesse a morrer, visto morte os sinais inculcarem. 
Em companhia dos deuses, se pôs a caminho o guerreiro. 
Quando, porém, alcançou a corrente do Xanto, na Lícia, 
foi pelo rei do amplo reino, por modo benigno, acolhido. 
Em nove dias matou nove bois, que aos celestes oferta: 
mas, quando, ao décimo, a Aurora de dedos de rosa surgiu, 
fez-lhe perguntas, de ver os sinais desejoso mostrando-se 
que de seu genro, da parte de Preto, lhe tinha trazido. 
Logo, porém, que o sentido aventou dos fatais caracteres, 
primeiramente, a incumbência lhe deu de extinguir a Quimera

originária, não de homens mortais, mas de estirpe divina: 
era, na frente, leão; drago, atrás, e, no meio, quimera, 
que borbotões horrorosos de fogo lançava das fauces. 
Certo do amparo dos deuses, sozinho, ele o monstro aniquila. 
Teve, depois, de lutar contra os Sólimos fortes, sozinho, 
seu mais terrível encontro, segundo ele próprio o dizia. 
Como terceira incumbência, destruiu as viris Amazonas. 
Outra perfídia contra ele, ao voltar, o hospedeiro excogita: 
tendo escolhido os melhores guerreiros da Lícia vastíssima, 
numa emboscada os postou; não reviu nenhum deles a pátria;

Belerofonte, o impecável, a todos privou da existência. 
Reconhecendo, afinal, que um dos deuses o tinha gerado, 
soube retê-lo no reino, fazendo-o casar com a filha 
e dividindo com ele a honraria e o poder da realeza. 
Deram-lhe os Lícios, também, um pedaço excelente de terra, 
própria, igualmente, para uso do arado e cultivo de frutas. 
Três filhos teve da esposa o magnânimo Belerofonte; 
foram: Hipóloco, Isandro e Laodâmia gentil e formosa. 
A esta se uniu, em conúbio amoroso, Zeus grande e prudente, 
tendo gerado ao guerreiro esforçado, o divino Sarpédone.

Mas, quando, alfim, se tornara também, pelos deuses, odiado, 
e pelos campos Aleios famosos vagava sozinho, a alma por dentro
a roer e a fugir do convívio dos homens, 
Ares, o deus insaciável, a Isandro privou da existência 
em um combate com os Sólimos fortes, de fama excelente. 
Ártemis, das rédeas de ouro, zangada, matou a Laodâmia. 
Enquanto a mim, tenho orgulho de filho chamar-me de Hipóloco, 
que me mandou para Troia sagrada, insistindo comigo 
para ser sempre o primeiro e de todos os mais distinguir-me, 
sem desonrar a linhagem dos nossos, que sempre entre os fortes

de Éfira foram contados, bem como na Lícia vastíssima. 
Esse o meu sangue, essa a estirpe, que só de nomear me envaideço.” 
   Isso disse ele; alegrou-se Diomedes, de voz retumbante; 
finca a hasta brônzea na terra, de heróis a nutriz generosa, 
e, com palavras afáveis, saudou o pastor de guerreiros: 
   “Hóspede és meu desde o tempo de nossos avós, vejo-o agora. 
Por vinte dias seguidos Eneu, o divino, agasalho 
deu em seu belo palácio ao magnânimo Belerofonte, 
tendo ambos dons hospedais, de subido valor permutado. 
Foi o penhor da amizade de Eneu cinturão purpurino;

Belerofonte lhe deu uma copa, adornada com alça, 
de ouro, que em casa deixei quando tive de vir para Troia. 
Quanto a Tideu, não me lembro, pois era criança quando ele 
foi para Tebas e o exército Acaio ficou destruído. 
Por essa antiga amizade, és meu hóspede em Argos, ao passo 
que me farás grato hospício se um dia eu chegar até a Lícia. 
Cumpre, portanto, que, em meio da pugna, um ao outro poupemos. 
Para matar, não me faltam Troianos excelsos e aliados, quem 
quer que um deus me conceda, ou quem chegue a alcançar na carreira; 
sobram-te Aqueus, outrossim, para a muitos privares da vida.

Ora troquemos as armas, porque possam todos os outros 
reconhecer que nós dois nos gloriamos da avita amizade.”²
   Ambos dos carros desceram, depois de assim terem falado, 
e, logo, apertos de mão, como prova de afeto, trocaram. 
Foi quando o Crônida Zeus o juízo de Glauco conturba, 
por ter querido trocar com Diomedes as armas que tinha, 
ouro por bronze, o valor de cem bois pelo preço de nove. 
   Às Portas Ceias Heitor, entrementes, e à faia chegando, 
pelas esposas e filhas dos Teucros se viu circundado, 
que pelos seus perguntavam, ansiosas, por filhos e manos,

primos e esposos. Heitor recomenda que aos deuses orassem, 
em procissão; mas a muitos já havia a desgraça atingido. 
Logo depois, alcançou o palácio mui belo de Príamo, 
todo ladeado de pórticos feitos de pedras lavradas. 
Nele cinquenta aposentos se viam, de mármore polido, 
todos contíguos, nos quais, numerosos, os filhos de Príamo 
do grato sono fruíam ao lado de suas esposas. 
Do lado oposto do pátio, de frente para estes, havia 
doze aposentos, também, para as filhas, de mármore polido, 
todos contíguos. Os genros de Príamo, ali, do repouso

continua página 180...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto V.d / Canto VI.a / Canto VI.b /                      
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1A cena é um trecho do momento em que Adrasto, um dos troianos, é capturado vivo por Menelau, irmão de Agamêmnon. 
    O que acontece na cena:
Adrasto é derrubado do carro quando seus cavalos, em pânico, chocam o veículo contra um galho de tamargueira. O timão se parte, os animais fogem de volta para a cidade, e o guerreiro cai de bruços no chão, indefeso.
Menelau, o “louro filho de Atreu”, se aproxima com a lança. Adrasto, percebendo que não tem como lutar, agarra os joelhos de Menelau — gesto clássico de súplica na tradição grega — e implora por sua vida.
Ele oferece resgate: seu pai possui grandes riquezas e pagará generosamente se souber que o filho está vivo entre os aqueus.
     Significado literário do episódio:
O gesto de suplicar pelos joelhos é um símbolo forte de submissão e pedido de misericórdia na cultura grega.
- Adrasto tenta escapar da morte apelando ao código de honra dos guerreiros, que muitas vezes aceitavam resgates.
- A cena prepara o conflito moral entre Menelau, inclinado a poupar o suplicante, e Agamêmnon, que logo adiante exigirá que nenhum troiano seja poupado — um dos momentos que mostram a brutalidade crescente da guerra.

[2] Aqui outro momento belíssimo da Ilíada: o encontro entre Diomedes e Glauco, quando dois guerreiros, prestes a lutar, descobrem que seus avós foram hóspedes e amigos — e, por isso, não devem se enfrentar. É um dos episódios mais humanos e simbólicos de todo o poema.
     O sentido da cena: a amizade antiga que suspende a guerra
O trecho pertence ao famoso episódio da xenia — a hospitalidade sagrada entre famílias — que une Diomedes (aqueu) e Glauco (lício). Eles se encontram no campo de batalha, prontos para lutar, mas antes trocam palavras sobre suas origens.
     O que Glauco revela: Glauco conta que seu avô, Belerofonte, foi recebido por Eneu, avô de Diomedes. Durante essa estadia:
- Eneu ofereceu a Belerofonte um cinturão púrpura como presente de hospitalidade.
- Belerofonte retribuiu com uma taça de ouro com alça, que Diomedes diz ter deixado em casa ao partir para Troia.
     Esses presentes eram o selo de uma amizade hereditária, transmitida de geração em geração.
     Glauco conclui:
Por essa antiga amizade, és meu hóspede em 
           Argos, e eu serei teu hóspede na Lícia.”
     Ou seja: mesmo em lados opostos da guerra, eles pertencem a uma mesma rede de respeito e obrigação moral.
     A decisão: não lutar entre si - Glauco propõe que ambos evitem ferir um ao outro no combate, pois há muitos outros inimigos disponíveis. É uma forma de preservar a honra sem quebrar o vínculo ancestral. Ele então sugere o gesto simbólico:
“Ora troquemos as armas, para que todos 
reconheçam que nos gloriamos da avita amizade.”
     Esse ato — trocar armaduras — é um sinal público de que a amizade entre suas casas é mais antiga e mais forte que a guerra presente.
     Por que esse episódio é tão famoso?
1. Humaniza a guerra: mostra que, mesmo em meio à carnificina, há memória, tradição e respeito.
2. Ilustra a força da xenia: um valor sagrado que ultrapassa fronteiras e conflitos.
3. Cria um contraste dramático: dois guerreiros que deveriam se matar escolhem a paz por causa de seus antepassados.
4. Tem um detalhe irônico (que aparece logo depois no poema): Zeus faz Glauco perder o juízo e ele troca sua armadura de ouro pela de bronze de Diomedes — um negócio terrível, lembrado até hoje como símbolo de ingenuidade.