Simone de Beauvoir
02. A Experiência Vivida
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
SlMONE DE BEAUVOIR
SEGUNDA PARTE
SITUAÇÃO
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CAPÍTULO IV
PROSTITUTAS E HETAIRAS
continuando...
Sabe-se que há recrudescência da prostituição durante as
guerras e as crises que a elas se seguem.
O autor de La vie d'une prostituée, publicada em parte em
Temps Modernes ¹, assim conta o início de sua carreira:
[1] Esta narrativa foi publicada clandestinamente sob o pseudônimo de Marie Thérèse; por este nome é que a designarei.
Casei-me aos 16 anos com um homem treze anos mais velho do que eu. Foi para sair de casa de meus pais que me casei. Meu marido só pensava em me fazer filhos. "Assim ficarás em casa, não sairás", dizia-me. Não queria que eu me pintasse, não queria levar-me ao cinema. Eu tinha que suportar a sogra, que vinha a nossa casa todos os dias e dava sempre razão ao salafrário do filho. Meu primeiro filho era um menino, Jacques; quatorze meses depois, dei à luz mais um menino, Pierre... Como me aborrecia muito, resolvi seguir um curso de enfermagem, isso me agradava muito. . . Entrei para um hospital, seção de mulheres, nos subúrbios de Paris. Uma enfermeira, que era ainda uma criança, ensinou-me coisas que eu não conhecia antes. Dormir com o marido era mais uma tarefa do que outra coisa. Na seção dos homens fiquei seis meses sem interessar ninguém. Eis que um dia um verdadeiro "duro", tipo de malandro, mas bonitão, entra no meu quarto particular... Dá-me a entender que poderia mudar de vida, que iria com ele para Paris, que não trabalharia mais... Durante um mês fui realmente feliz... uma mulher bem vestida, elegante, dizendo: Um dia le trouxe "Esta sabe defender-se". A princípio não quis. Arranjei mesmo um lugar de enfermeira numa clínica de bairro para mostrar-lhe que não queria prostituir-me, mas não podia resistir muito tempo. Ele me dizia: "Não me amas. Quando uma mulher ama seu homem, trabalha para ele". Eu chorava. Na clínica, andava triste. Finalmente deixei que me conduzisse ao cabeleireiro... Comecei a aceitar encontros. Julot seguia-me, para ver se eu sabia me defender direito e para me avisar no caso de surgirem tiras...
Por certos aspectos, esta história está de acordo com a
história clássica da mulher entregue à prostituição por um cáften.
Acontece ser este papel desempenhado pelo marido. Em alguns
casos por uma mulher. L. Faivre realizou em 1931 um inquérito
entre 510 prostitutas (Les Jeunes Prostituées vagabondes en
prison); verificou que 284 viviam sós, 132 tinham um amigo, 94 uma amiga a quem se achavam ordinariamente unidas por
laços homossexuais. Ele cita trechos das cartas seguintes:
Suzanne, 17 anos. Entreguei-me à prostituição principalmente com prostitutas. Uma que ficou comigo muito tempo era muito ciumenta, por isso saí da rua...Andrée, 15 anos e 1/2. Deixei meus pais para morar com uma amiga que encontrei num baile. Percebi logo que queria me amar como um homem, fiquei com ela quatro meses, depois...Jeanne, 14 anos. Meu pobre paizinho chamava-se X... Morreu, em consequência da guerra, no hospital, em 1922. Minha mãe tornou a casar-se. Eu ia à escola para obter meu diploma, e tendo-o conseguido tive que aprender a costurar... depois, ganhando muito pouco, começaram as discussões com meu padrasto... Tive que ser colocada como criada em casa 'de Mme X... Estava sozinha há dez dias com a filha dela, que podia ter cerca de 25 anos, quando notei uma grande mudança nesta. E um dia, como um rapaz, ela me confessou seu grande amor. Hesitei e depois, com medo de ser despedida, cedi; compreendi então certas coisas... Trabalhei e depois, ficando sem trabalho, tive que ir ao Bois para me prostituir com mulheres. Conheci uma senhora muito generosa etc.
Muitas vezes a mulher encara a prostituição como um meio
provisório de aumentar seus recursos. Mas já se descreveu mais
de uma vez como se vê amarrada a seguir. Se os casos de
"tráfico de brancas" em que ela é arrastada para a engrenagem
pela violência, falsas promessas, mistificações etc, são relativa
mente raros, é frequente entretanto que fique retida na carreira
contra sua vontade. O capital necessário ao início foi-lhe fornecido por um cáften, ou uma caftina, que assim adquiriu direitos
sobre ela e recolhe a maior parte dos benefícios sem que ela
possa libertar-se. Marie Thérèse lutou verdadeiramente durante
anos antes de consegui-lo.
Compreendi finalmente que Julot só queria a "gaita" e pensei que, longe dele, poderia economizar algum dinheiro. . . No bordel, a princípio, eu era tímida, não ousava aproximar-me dos homens e dizer-lhes: Sobe comigo? A mulher de um amigo de Julot vigiava-me de perto e até contava meus encontros... Eis que Julot me escreve que devo entregar todas as noites meu dinheiro à patroa: "Assim não te roubarão..." Quando quis comprar um vestido, a patroa disse-me que Julot a proibira de me dar meu dinheiro... resolvi largar o mais depressa possível essa casa de tolerância. Quando a patroa soube que eu queria partir, não me deu o tampo² antes da visita, como das outras vezes, e fui detida e recolhida a um hospital... retornar ao bordel para ganhar o dinheiro de minha viagem... só fiquei lá durante quatro semanas... Tive que Mas Trabalhei alguns dias em Barbès como antes, mas estava por demais ressentida com Julot para ficar em Paris: discutíamos, ele me batia, de uma feita quase me jogou pela janela... Arranjei-me com um intermediário para ir para a província. Quando 'me dei conta de que ele conhecia Julot, não fui ao encontro combinado. As duas mulheres dele encontraram-me posteriormente na Rua Belhomme e deram-me uma sova... No dia seguinte fiz minha maleta e fui sozinha para a Ilha de T... Ao fim de três semanas estava farta do bordel, escrevi ao médico a fim de que me mandasse sair quando viesse para a visita... Julot viu-me no Bulevar Magenta e bateu-me... Fiquei com o rosto marcado depois da sova no Bulevar Magenta. Estava farta de Julot. Assinei por isso um contrato para partir para a Alemanha...
[2] Um tampo para adormecer os gonococos, que davam às mulheres antes da visita, de modo que o médico só deparava com uma mulher doente quando a proxeneta queria livrar-se dela.
A literatura popularizou a figura de "Julot". Ele desempenha
na vida da prostituta um papel de protetor. Adianta-lhe dinheiro
para que compre vestidos, defende-a contra a concorrência de
outras mulheres, contra a polícia — é ele próprio, por vezes, um
policial — contra os fregueses. Estes gostariam de poder consumir sem pagar; alguns satisfariam de bom grado seu sadismo
com a mulher. Em Madri, há alguns anos, a juventude fascista
e rica divertia-se jogando as prostitutas no rio, nas noites frias;
na Franga os estudantes, de farra, levam por vezes mulheres
para o campo a fim de abandoná-las, à noite, inteiramente nuas;
para receber seu dinheiro, evitar os maus tratos, a prostituta
tem necessidade de um homem. Ele lhe dá igualmente um apoio
moral: "Sozinha, a gente trabalha menos bem, tem menos coragem, relaxa", dizem algumas. Muitas vezes ela tem amor por ele; é por amor que se dedica à profissão ou a justifica; há
em seu meio uma enorme superioridade do homem sobre a
mulher: essa distância favorece o amor-religião, o que explica
a abnegação apaixonada de certas prostitutas. Na violência de
seu homem, elas veem um sinal de virilidade e tanto mais docemente se submetem a ele. Conhecem com ele ciúmes, tormentos,
mas também as alegrias da mulher apaixonada.
Entretanto, às vezes só têm por ele hostilidade, rancor: é
por medo, é porque eles as têm nas mãos que permanecem
submissas, como se viu no caso de Marie Thérèse. Muitas vezes,
consolam-se então com um "amor" escolhido entre os fregueses.
Todas as mulheres, além de seu Julot, tinham "amores", eu também, escreve Marie Thérèse. Era um marinheiro bonitão. Embora fizesse amor muito bem, eu não podia juntar-me com ele, mas tínhamos grande amizade um pelo outro. Muitas vezes ele subia comigo sem fazer amor, só para conversar, dizia-me que eu devia sair dali, que meu lugar não era ali.
Elas também se consolam com mulheres. Numerosas prostitutas são homossexuais. Vimos que havia muitas vêzes uma
aventura homossexual no início da carreira delas. Segundo Anna
Rueling, na Alemanha, cerca de 20% das prostitutas seriam
homossexuais. Faivre observa que, na prisão, jovens detentas
trocam cartas pornográficas e apaixonadas que assinam "Unidas
para toda a vida".
Tais cartas são homólogas às que se
escrevem as jovens escolares que alimentam "chamas" em seus
corações; estas são menos sabidas, mais tímidas; aquelas vão
até o fim de seus sentimentos, tanto nas palavras como nos
atos.
Vê-se na vida de Marie Thérèse — que foi iniciada na
volúpia por uma mulher — o papel privilegiado que desempenha a
"amiguinha" em face do freguês desprezado, do cáften autoritário:
Julot trouxera uma mulher, uma pobre criadinha que não tinha sequer sapatos. Compraram-lhe tudo na feira de objetos usados, depois veio ela ter comigo para trabalhar. Era muito gentil e como, além disso, gostava de mulheres, entendíamo-nos muito bem. Lembrava-me tudo o que aprendi com a enfermeira. Divertíamo-nos muitas vezes e, ao invés de trabalhar, íamos ao cinema. Eu estava contente por tê-la conosco.
Vê-se que a amiguinha desempenha mais ou menos o mesmo
papel que o amigo íntimo para a mulher honesta confinada entre
mulheres: é um companheiro de prazeres, é com ela que as relações são livres, gratuitas, e que, por conseguinte, podem ser
voluntárias; cansada dos homens, enojada deles ou desejando
uma diversão, é nos braços de outra mulher que muitas vezes
a prostituta procura relaxamento e prazer. Em todo caso, a
cumplicidade de que falei, e que une imediatamente as mulheres,
existe mais fortemente nesse caso do que em qualquer outro. Pelo
fato de suas relações com metade da humanidade serem de natureza comercial, pelo fato de o conjunto da sociedade as tratar como
párias, as prostitutas têm entre si uma solidariedade estreita;
podem ser rivais, ter ciúmes, insultar-se, brigar, mas têm profunda
necessidade umas das outras para construírem um "contra-universo" em que reencontram sua dignidade humana; a companheira é a confidente e a testemunha privilegiada; ela é quem
aprecia o vestido, o penteado — meios destinados a seduzir o
homem mas que se apresentam como fins em si aos olhos invejosos ou admirativos das outras mulheres.
Quanto às relações da prostituta com os fregueses, as opiniões se dividem e os casos são, sem dúvida, variáveis. Observou-se, amiúde, que reserva para o amante do coração o beijo na boca, a expressão de uma livre ternura © que não estabelece nenhuma comparação entre os amplexos amorosos e os profissionais. Os testemunhos dos homens são suspeitos porque a vaidade incita-os a se deixarem iludir por comédias de gozo. Cumpre dizer que as circunstâncias são muito diferentes, segundo se trata de uma "matança", frequentemente seguida de exaustão física, de um encontro rápido, de uma "dormida", ou de relações constantes com um freguês habitual. Marie Thérèse geralmente exercia a profissão com indiferença, mas evoca certas noites com delícia; teve "amores" e diz que todas as suas amigas também os tinham. Em certos casos a mulher recusa-se a receber dinheiro de um freguês que lhe agrada ou, às vezes, se ele está "apertado", oferece-lhe auxílio. Em geral, entretanto, a mulher trabalha "a frio". Algumas só têm, pelo conjunto de sua freguesia, uma indiferença matizada de desprezo. "Como os homens são bobos! As mulheres podem encher-lhes a cabeça com o que querem!" escreve Marie Thérèse. Mas muitas sentem um rancor enojado contra os homens; sentem-se principalmente repugnadas com seus vícios. Seja porque vão ao bordel a fim de satisfazer os vícios que não ousam revelar à mulher ou à amante, seja porque o fato de estar no bordel os incita a inventar vícios, muitos homens exigem "fantasias" da prostituta. Marie Thérèse queixava-se, em particular, de terem os franceses uma imaginação insaciável. As doentes tratadas pelo Dr. Bizard confiaram-lhe que todos os homens são mais ou menos viciados. Uma de minhas amigas conversou longamente com uma jovem prostituta no hospital Beaujon, mulher muito inteligente, que começara como doméstica e vivia com um cáften que ela adorava. "Todos os homens são viciados, menos o meu, dizia. É por isso que o amo. Se um dia lhe descobrir um vício, abandono-o. Da primeira vez, nem sempre o freguês ousa, parece normal; mas quando volta começa a querer coisas... A senhora diz que seu marido não tem vícios: verá um dia. Todos têm." Por causa dos vícios ela os detestava. Em 1943, em Fresnes, outra amiga minha tornara-se íntima de uma prostituta. Esta sustentava que 90% dos fregueses eram viciados, 50% eram pederastas envergonhados. Os que se mostravam demasiado imaginosos assustavam-na. Um oficial alemão pedira-lhe que passeasse nua pelo quarto com flores nos braços enquanto ele imitava o voo de um pássaro: apesar da cortesia e da generosidade dele, ela fugia quando o divisava. Marie Thérèse tinha horror à "fantasia", embora fosse tabelada muito mais caro do que o coito simples e não raro exigisse menor fadiga da mulher. Essas três mulheres eram particular mente inteligentes e sensíveis. Sem dúvida, percebiam que a partir do momento em que não eram mais protegidas pela rotina da profissão, a partir do momento em que o homem deixava de ser um freguês em geral e se individualizava, elas eram a presa de uma consciência, de uma liberdade caprichosa; não se tratava mais de um simples negócio. Certas prostitutas, entretanto, especializam-se na "fantasia", porque rende mais. Em sua hostilidade contra o freguês entra, muitas vezes, um ressentimento de classe. Helen Deutsch conta longamente a história de Ana, uma bonita prostituta loura, infantil, geralmente muito meiga, mas que tinha crises de excitação furiosa contra certos homens. Vinha de uma família operária; o pai bebia, a mãe era doente: o casal infeliz inspirou-lhe tal horror à vida familiar que nunca consentiu em se casar, embora em sua carreira lhe tivessem proposto muitas vezes. Os rapazes do bairro perverteram-na; gostava da profissão; mas quando, por estar tuberculosa, a mandaram para um hospital, ela ficou com um ódio feroz contra os médicos; os homens "respeitáveis" eram-lhe odiosos, não suportava a cortesia, a solicitude de seu médico. "Pois não sabemos nós que esses homens deixam facilmente cair a máscara de sua amabilidade, de sua dignidade, de seu domínio sobre si e se conduzem como animais?", dizia. No restante, era mentalmente equilibrada. Afirmou mentirosamente que tinha um filho com uma ama, fora disso não mentia. Morreu de tuberculose. Outra jovem prostituta, Júlia, que desde a idade de 15 anos se entregava a todos os rapazes que encontrava, só gostava dos homens pobres e fracos; com eles era meiga e gentil; os outros, ela os considerava como "animais selvagens merecedores do pior tratamento". (Tinha um complexo muito acentuado que revelava uma vocação materna insatisfeita: caía furiosamente em transe quando pronunciavam diante dela as palavras mãe, filho, ou de sons semelhantes.)
As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
Quanto às relações da prostituta com os fregueses, as opiniões se dividem e os casos são, sem dúvida, variáveis. Observou-se, amiúde, que reserva para o amante do coração o beijo na boca, a expressão de uma livre ternura © que não estabelece nenhuma comparação entre os amplexos amorosos e os profissionais. Os testemunhos dos homens são suspeitos porque a vaidade incita-os a se deixarem iludir por comédias de gozo. Cumpre dizer que as circunstâncias são muito diferentes, segundo se trata de uma "matança", frequentemente seguida de exaustão física, de um encontro rápido, de uma "dormida", ou de relações constantes com um freguês habitual. Marie Thérèse geralmente exercia a profissão com indiferença, mas evoca certas noites com delícia; teve "amores" e diz que todas as suas amigas também os tinham. Em certos casos a mulher recusa-se a receber dinheiro de um freguês que lhe agrada ou, às vezes, se ele está "apertado", oferece-lhe auxílio. Em geral, entretanto, a mulher trabalha "a frio". Algumas só têm, pelo conjunto de sua freguesia, uma indiferença matizada de desprezo. "Como os homens são bobos! As mulheres podem encher-lhes a cabeça com o que querem!" escreve Marie Thérèse. Mas muitas sentem um rancor enojado contra os homens; sentem-se principalmente repugnadas com seus vícios. Seja porque vão ao bordel a fim de satisfazer os vícios que não ousam revelar à mulher ou à amante, seja porque o fato de estar no bordel os incita a inventar vícios, muitos homens exigem "fantasias" da prostituta. Marie Thérèse queixava-se, em particular, de terem os franceses uma imaginação insaciável. As doentes tratadas pelo Dr. Bizard confiaram-lhe que todos os homens são mais ou menos viciados. Uma de minhas amigas conversou longamente com uma jovem prostituta no hospital Beaujon, mulher muito inteligente, que começara como doméstica e vivia com um cáften que ela adorava. "Todos os homens são viciados, menos o meu, dizia. É por isso que o amo. Se um dia lhe descobrir um vício, abandono-o. Da primeira vez, nem sempre o freguês ousa, parece normal; mas quando volta começa a querer coisas... A senhora diz que seu marido não tem vícios: verá um dia. Todos têm." Por causa dos vícios ela os detestava. Em 1943, em Fresnes, outra amiga minha tornara-se íntima de uma prostituta. Esta sustentava que 90% dos fregueses eram viciados, 50% eram pederastas envergonhados. Os que se mostravam demasiado imaginosos assustavam-na. Um oficial alemão pedira-lhe que passeasse nua pelo quarto com flores nos braços enquanto ele imitava o voo de um pássaro: apesar da cortesia e da generosidade dele, ela fugia quando o divisava. Marie Thérèse tinha horror à "fantasia", embora fosse tabelada muito mais caro do que o coito simples e não raro exigisse menor fadiga da mulher. Essas três mulheres eram particular mente inteligentes e sensíveis. Sem dúvida, percebiam que a partir do momento em que não eram mais protegidas pela rotina da profissão, a partir do momento em que o homem deixava de ser um freguês em geral e se individualizava, elas eram a presa de uma consciência, de uma liberdade caprichosa; não se tratava mais de um simples negócio. Certas prostitutas, entretanto, especializam-se na "fantasia", porque rende mais. Em sua hostilidade contra o freguês entra, muitas vezes, um ressentimento de classe. Helen Deutsch conta longamente a história de Ana, uma bonita prostituta loura, infantil, geralmente muito meiga, mas que tinha crises de excitação furiosa contra certos homens. Vinha de uma família operária; o pai bebia, a mãe era doente: o casal infeliz inspirou-lhe tal horror à vida familiar que nunca consentiu em se casar, embora em sua carreira lhe tivessem proposto muitas vezes. Os rapazes do bairro perverteram-na; gostava da profissão; mas quando, por estar tuberculosa, a mandaram para um hospital, ela ficou com um ódio feroz contra os médicos; os homens "respeitáveis" eram-lhe odiosos, não suportava a cortesia, a solicitude de seu médico. "Pois não sabemos nós que esses homens deixam facilmente cair a máscara de sua amabilidade, de sua dignidade, de seu domínio sobre si e se conduzem como animais?", dizia. No restante, era mentalmente equilibrada. Afirmou mentirosamente que tinha um filho com uma ama, fora disso não mentia. Morreu de tuberculose. Outra jovem prostituta, Júlia, que desde a idade de 15 anos se entregava a todos os rapazes que encontrava, só gostava dos homens pobres e fracos; com eles era meiga e gentil; os outros, ela os considerava como "animais selvagens merecedores do pior tratamento". (Tinha um complexo muito acentuado que revelava uma vocação materna insatisfeita: caía furiosamente em transe quando pronunciavam diante dela as palavras mãe, filho, ou de sons semelhantes.)
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Leia também:
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
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Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"
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