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terça-feira, 2 de junho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 1 (III. Novo casamento e novos filhos)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO I
HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA
III
NOVO CASAMENTO E NOVOS FILHOS

     Fiódor Pávlovitch, depois de livrar-se do pequeno Mítia, contratou em breve um segundo casamento, que durou oito anos. Escolheu por esposa desta segunda vez também uma mulher bastante jovem, de uma outra província, aonde tinha ido, em companhia de um judeu, para tratar de um pequeno negócio. Embora boêmio, bêbedo e debochado, nunca deixava de ocupar-se com a boa colocação de seu capital e arranjava quase sempre bem os seus negócios, mas quase sempre desonestamente. Sofia Ivânovna, órfã desde a infância, filha de um obscuro diácono, vivera na opulenta casa de sua benfeitora, a viúva, altamente colocada, do General Vórokhov, que a educava e a maltratava. Ignoro os detalhes, ouvi simplesmente dizer que a moça, doce, paciente e cândida, tentara enforcar-se, pendurando-se dum prego, na despensa, tão farta estava dos caprichos e das eternas censuras daquela velha, não má no íntimo, mas a quem sua ociosidade tornava insuportável. Fiódor Pávlovitch pediu sua mão; tomaram informações a seu respeito e despacharam-no. Como por ocasião de seu primeiro casamento, propôs então à órfã raptá-la. Muito provavelmente, teria ela recusado tornar-se sua esposa, se tivesse tido melhores informações a seu respeito. Mas isto se passava em outra província; que podia, aliás, compreender uma moça de dezesseis anos, senão que valia mais lançar-se à água do que ficar em casa de sua benfeitora? Foi assim que a infeliz substituiu sua benfeitora por benfeitor. Desta vez, Fiódor Pávlovitch não recebeu um vintém, porque a generala, furiosa, nada dera, a não ser sua maldição. De resto, não contava ele com o dinheiro. A beleza notável da moça e sobretudo sua candura tinham-no encantado. Estava maravilhado, ele, o voluptuoso, até então apaixonado apenas pelos encantos grosseiros. "Aqueles olhos inocentes traspassavam me a alma", dizia mais tarde com um riso canalha. Aliás, aquela criatura corrupta não podia experimentar senão atração sensual. Fiódor Pávlovitch não se incomodou com sua mulher. Como era ela por assim dizer "cul pada" para com ele, que a havia quase "salvado da corda", aproveitando, além disso, de sua doçura e de sua resignação espantosas, pisou aos pés a decência conjugai mais elementar. Sua casa tornou-se teatro de orgias nas quais tomavam parte mulheres de má vida. Um traço a notar é que o criado Gregório, criatura taciturna, discutidor estúpido e teimoso, que detestava sua primeira patroa, tomou o partido da segunda, discutindo por causa dela com seu amo duma maneira quase intolerável da parte dum criado. Um dia, chegou a ponto de expulsar as mulheres que se entregavam a orgias em casa de Fiódor Pávlovitch. Mais tarde, a infeliz jovem senhora, aterrorizada desde a infância, foi presa duma doença nervosa, frequente entre as aldeãs, e que lhes vale o nome de "possessas". Por vezes, a doente, vítima de terríveis crises de histeria, perdia a razão. Deu, no entanto, a seu marido, dois filhos: o primeiro, Ivã, após um ano de casamento; o segundo, Alieksiéi, três anos mais tarde. Quando ela morreu, estava o jovem Alieksiéi com quatro anos de idade e, por mais estranho que isto pareça, nunca se esqueceu de sua mãe durante toda a sua vida, mas como através de um sonho. Morta sua mãe, tiveram os dois meninos a mesma sorte que o primeiro: seu pai esqueceu-se deles, abandonou-os totalmente, tendo sido eles recolhidos pelo mesmo Gregório na sua isbá. Foi lá que os encontrou a velha generala, a benfeitora que havia educado a mãe deles. Vivia ainda e, durante aqueles oito anos, seu rancor não se desarmara. Perfeitamente ao corrente da existência que levava sua Sofia, ao saber de sua doença e dos escândalos que ela suportava, declarou duas ou três vezes aos parasitas que a cercavam: "Bem feito; Deus a castiga por causa de sua ingratidão". Três meses, exatamente, após a morte de Sofia Ivânovna, apareceu a generala em nossa cidade e apresentou-se em casa de Fiódor Pávlovitch. Sua visita não durou senão uma meia hora, mas aproveitou seu tempo. Era de noite. Fiódor Pávlovitch, a quem não via desde oito anos, apresentou-se em estado de embriaguez. Conta-se que, desde que ela o viu, e sem explicações, lhe deu duas bofetadas ressoantes, e puxou-lhe de alto a baixo o topete umas três vezes. Sem acrescentar uma palavra, foi diretamente à isbá, onde se encontravam os meninos. Não estavam lavados, nem vestidos com roupas limpas; vendo isto, a irascível velha assestou também uma bofetada na cara de Gregório e declarou-lhe que levava os meninos. Tais como estavam, enrolou-os numa manta de viagem, pô-los na carruagem e tornou a partir. Gregório guardou a bofetada como bom servidor e absteve-se de qualquer insolência; ao reconduzir a velha senhora à carruagem, disse, num tom grave, depois de ter-se inclinado profundamente, que "Deus a recompensaria pela sua boa ação". "Não passas de um bobalhão", gritou-lhe ela à guisa de adeus. Tendo examinado o caso, Fiódor Pávlovitch declarou-se satisfeito, e concedeu mais tarde seu consentimento formal à educação dos meninos em casa da generala. Foi à cidade vangloriar-se das bofetadas recebidas.
     Pouco tempo depois, a generala morreu; deixava, por testamento, 1000 rublos a cada um dos dois petizes "para sua instrução"; esse dinheiro devia ser despendido integralmente em proveito deles, mas bastar até sua maioridade, sendo já tal soma muito para semelhantes crianças. Se outros quisessem dar mais, que dessem de seu bolso, etc. 
     Não li o testamento, mas trazia ele um trecho estranho, naquele gosto por demais original. O principal herdeiro da velha senhora era, por felicidade, um homem honesto, marechal da nobreza da província, Iefim Pietróvitch Poliénov. Tendo compreendido, pelas cartas de Fiódor Pávlovitch, que dele nada retiraria para a educação de seus filhos (contudo este último nunca recusava categoricamente, mas arrastava as coisas indefinidamente, fazendo por vezes sentimentalismo), interessou-se pelos órfãos e concebeu afeição especial pelo caçula, que ficou muito tempo na sua família. Chamo a atenção do leitor para isso. Se os jovens deviam a alguém sua educação e sua instrução, era justamente a Iefim Pietróvitch, caráter nobre raramente encontrado. Conservou intato para as crianças seu pequeno capital, que, na ocasião de sua maioridade, atingia 2 000 rublos com os juros, educou-os às suas custas, gastando nisso, para cada um, bem mais de 1 000 rublos. Não farei agora um relato detalhado da infância e da juventude deles, limitando-o às principais circunstâncias. O mais velho, Ivã, tornou-se um adolescente sombrio e fechado, nada tímido, mas compreendera bem cedo que seu irmão e ele cresciam em casa de estranhos, de graça, que tinham como pai um indivíduo que lhes causava vergonha, etc. Esse rapaz mostrou, desde sua mais tenra idade (pelo que se conta, pelo menos), brilhantes capacidades para o estudo. Com a idade de cerca de treze anos, deixou a família de Iefim Pietróvitch para seguir os cursos de um ginásio de Moscou, e tomar pensão em casa de um famoso pedagogo, amigo de infância de seu benfeitor. Mais tarde, Ivã contava que Iefim Pietróvitch fora inspirado por seu "ardor pelo bem" e pela idéia de que um adolescente genialmente dotado devia ser educado por um educador genial. De resto, nem seu protetor, nem o educador de gênio existiam mais, quando o rapaz entrou para a universidade. Não tendo Iefim Pietróvitch tomado bem suas disposições e como o pagamento do legado da generala ia-se arrastando, em consequência de diversas formalidades e retardamentos inevitáveis entre nós, o rapaz viu-se em apertos nos seus dois primeiros anos de universidade, obrigado a ganhar sua vida enquanto fazia seus estudos. É preciso notar que então não tentou de modo algum corresponder-se com seu pai — talvez por altivez, por desdém para com ele, talvez também o frio cálculo de sua razão lhe demonstrasse que nada tinha a esperar dele. Seja como for, o rapaz não se perturbou, encontrou trabalho, a princípio deu lições a 20 copeques, em seguida redigiu artigos de dez linhas a respeito de cenas da rua, assinados "Uma Testemunha Ocular", que levava a diversos jornais. Esses artigos, dizem, eram sempre curiosos e espirituosos, o que lhes assegurou bom êxito. Dessa maneira o jovem repórter mostrou sua superioridade prática e intelectual sobre os numerosos estudantes dos dois sexos, sempre necessitados, que, em Petersburgo e em. Moscou, assaltam ordinariamente, da manhã à noite, as redações dos jornais e revistas, não imaginando nada de melhor senão reiterar seu eterno pedido de traduções do francês e cópias. Uma vez conhecido nas redações, Ivã Fiódorovitch não perdeu o contato; nos seus derradeiros anos de universidade, pôs-se com muito talento a escrever resenhas de obras especiais, fazendo-se assim conhecido nos círculos literários. Mas somente para o fim é que conseguiu, por acaso, despertar uma atenção particular num círculo de leitores muito mais extenso. O caso era bastante curioso. À sua saída da universidade e quando se preparava para partir para o estrangeiro com seus 2000 rublos, publicou Ivã Fiódorovitch, num grande jornal, um artigo estranho, que atraiu a atenção até mesmo dos profanos. O assunto era-lhe aparentemente desconhecido, uma vez que seguira os cursos de Ciências Naturais e o artigo tratava a questão dos tribunais eclesiásticos, suscitada, então, por toda parte. Examinando algumas opiniões emitidas a respeito dessa matéria, expunha igualmente suas opiniões pessoais. O que impressionava era o tom e o inesperado da conclusão. Ora, muitos eclesiásticos tinham o autor como seu partidário. Por outra parte, os leigos, bem como os ateus, aplaudiam suas ideias. Afinal de contas, algumas pessoas decidiram que o artigo inteiro não passava de uma desavergonhada mistificação. Se menciono esse episódio é sobretudo porque o artigo em questão chegou até o nosso famoso mosteiro — onde havia interesse pela questão dos tribunais eclesiásticos — e ali provocou grande perplexidade. Uma vez conhecido o nome do autor, o fato de ser originário de nossa cidade e filho daquele mesmo Fiódor Pávlovitch aumentou o interesse. Pela mesma época, apareceu o autor em pessoa.  
     Por que Ivã Fiódorovitch viera à casa de seu pai, já o perguntava eu então a mim mesmo, lembro-me, com certa inquietude. Aquela chegada tão fatal, que engendrou tantas consequências, permaneceu por muito tempo inexplicada para mim. Na verdade, era estranho que um jovem tão sábio, de aparência tão altiva e tão reservada, aparecesse numa casa tão escandalosa, em casa de tal pai. Este ignorara-o toda a sua vida, não se lembrava dele e, se bem que não tivesse dado, por coisa alguma do mundo, dinheiro, se lho houvessem pedido, temia sempre que seus filhos aparecessem para lho reclamar. E eis que o rapaz se instala na casa de tal pai, passa junto com ele um mês, depois dois, e se entendem maravilhosamente. Não fui eu o único a espantar-me com tal acordo. Piotr Alieksándrovitch Miúsov, de quem já se falou, passava uma temporada então entre nós, na sua propriedade suburbana, vindo de Paris, onde fixara residência. Estava surpreendido mais que todos, tendo travado conhecimento com o rapaz que o interessava bastante e com o qual rivalizava em erudição. "Ele é altivo", dizia-nos. "Saberá sempre arranjar se; desde agora, tem com que partir para o estrangeiro. Que faz ele aqui? Todos sabem que não veio cá procurar seu pai para pedir dinheiro, que aquele lhe recusaria, aliás. Não gosta de beber, nem de requestar mulheres; no entanto, o velho não pode passar sem ele, de tal modo estão de acordo. " Era verdade; o jovem exercia visível influência sobre o velho, que por vezes o atendia, se bem que muito teimoso e caprichoso; começou mesmo a comportar-se mais decentemente...
     Soube-se mais tarde que Ivã chegara igualmente por causa da demanda e dos interesses de seu irmão mais velho, Dimítri, que ele viu pela primeira vez nessa ocasião, mas com o qual já se correspondia, a respeito de um negócio importante. Falar-se-á disso pormenorizadamente a seu tempo. Mesmo quando fiquei ao corrente, pareceu-me Ivã Fiódorovitch enigmático e sua chegada à nossa cidade difícil de explicar.
     Acrescentarei que ele mantinha papel de árbitro e de reconciliador entre seu pai e seu irmão mais velho, então totalmente desavindos, tendo este último intentado mesmo uma ação na justiça.
     Pela primeira vez, repito-o, essa família, da qual certos membros nunca se tinham visto, achou-se reunida. Somente o caçula, Alieksíéi, morava entre nós havia já um ano. É difícil falar dele neste preâmbulo, antes de pô-lo em cena no romance. Devo, no entanto, estender-me a seu respeito para elucidar um ponto estranho, isto é, que meu herói aparece, desde a primeira cena, sob o hábito de um noviço. Havia um ano, com efeito, que morava em nosso mosteiro e se preparava para ali passar o resto de seus dias.

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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 1 (II. Karamázov livra-se de seu primeiro filho)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO I
HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA
II
KARAMÁZOV LIVRA-SE DE SEU PRIMEIRO FILHO

     Pode-se bem imaginar que pai e que educador seria tal homem. Como era de prever, desinteressou-se totalmente do filho que tivera de Adelaide Ivânovna, não por animosidade ou rancor conjugal, mas simplesmente porque se esquecera dele por completo. Enquanto importunava todos com suas lágrimas e suas queixas e fazia de sua casa um antro de corrupção, foi o pequeno Mítia recolhido por Gregório, um servidor fiel; se não tivesse este tomado conta dele, o menino não teria tido talvez nem mesmo quem lhe trocasse as fraldas. Além disso, sua família por parte de mãe pareceu esquecê-lo. Seu avô morrera, sua avó, estabelecida em Moscou, era muito doente e suas tias haviam-se casado, de modo que Mítia teve de passar quase um ano em casa de Gregório e morar em sua isbá. Aliás, se seu pai se tivesse lembrado dele (de fato, não podia ignorar sua existência), teria mandado o menino de volta para a isbá, para não ser incomodado nas suas orgias. Mas, entrementes, chegou de Paris o primo da falecida Adelaide Ivânovna, Piotr Alieksándrovitch Miúsov, que devia, mais tarde, passar muitos anos no estrangeiro. Naquela época, era ainda bastante moço e se distinguia de sua família pela sua cultura, sua estada na capital e no estrangeiro. Tendo sempre tido a mentalidade ocidental, tornou-se, para o fim de sua vida, um liberal à moda dos anos 40 e 50. No curso de sua carreira, esteve em relações com numerosos ultraliberais, na Rússia e no estrangeiro, conheceu pessoalmente Proudhon e Bakunin. Gostava de evocar os três dias da Revolução de Fevereiro de 1848, em Paris, dando a entender que chegara mesmo a tomar parte nas barricadas. Era uma das melhores recordações de sua juventude. Possuía uma fortuna independente, cerca de 1000 al mas,2 para contar à moda antiga. Sua soberba propriedade encontrava-se nas proximidades de nossa cidadezinha e se limitava com as terras de nosso famoso mosteiro. Logo de posse de sua herança, Piotr Alieksándrovitch iniciou contra os monges um processo interminável, por causa de certos direitos de pesca ou de corte de madeira, não sei mais ao certo, mas achou de seu dever, na qualidade de cidadão esclarecido, processar os "clericais". Tendo sabido das desgraças de Adelaide Ivânovna, de quem se lembrava, e posto ao corrente da existência de Mítia, meteu-se no caso, malgrado sua indignação juvenil e seu desprezo por Fiódor Pávlovitch. Foi então que o viu pela primeira vez. Declarou-lhe abertamente sua intenção de encarregar-se da educação do menino. Muito tempo depois, contava, como traço característico, que Fiódor Pávlovitch, quando se tratou de Mítia, pareceu um momento não compreender absolutamente de qual filho se tratava e até mesmo admirar-se de ter um menino em alguma parte, em sua casa. Mesmo exagerado, o relato de Piotr Alieksándrovitch estava próximo da verdade. Efetivamente, Fiódor Pávlovitch gostou toda a sua vida de tomar atitudes, de representar um papel, por vezes sem necessidade nenhuma, e mesmo em detrimento seu, como naquele caso particular. Ê, aliás, um traço especial de muitas pessoas, mesmo inteligentes. Piotr Alieksándrovitch levou a coisa a sério e foi até nomeado tutor do menino (juntamente com Fiódor Pávlovitch), uma vez que a mãe dele deixara uma casa e terras. Mítia foi morar em casa daquele primo que não tinha família. Com pressa de regressar a Paris, depois de haver regularizado seus negócios e assegurado o pagamento de suas rendas, confiou o menino a uma de suas tias que morava em Moscou. Mais tarde, tendo-se aclimatado na França, esqueceu-se do menino, sobretudo quando estourou a Revolução de Fevereiro, que lhe impressionou a imaginação para o resto de seus dias. Tendo morrido a tia que morava em Moscou, Mítia foi recolhido por uma de suas filhas casadas. Mudou, ao que parece, pela quarta vez, de lar. Não me alongo a este respeito no momento, tanto mais quanto ainda muito se falará desse primeiro rebento de Fiódor Pávlovitch, e limito-me aos detalhes indispensáveis, sem os quais é impossível começar o romance. 
     Em primeiro lugar, esse Dimítri foi o único dos três filhos de Fiódor Pávlovitch que cresceu com a ideia de que tinha alguma fortuna e seria independente ao atingir a maioridade. Sua infância e sua juventude foram agitadas: deixou o ginásio antes do termo, entrou em seguida para uma escola militar, partiu para o Cáucaso, serviu no Exército, foi degradado por haver-se batido em duelo, voltou ao serviço, entregou-se à orgia, gastou dinheiro em quantidade. Recebeu dinheiro de seu pai somente quando atingiu a maioridade, mas fizera dívidas enquanto esperava. Só veio a ver pela primeira vez Fiódor Pávlovitch, depois de sua maioridade, quando chegou à nossa província especialmente para informar-se a respeito de sua fortuna. Seu pai, ao que parece, não lhe agradou desde o começo; ficou pouco tempo, em casa dele e apressou-se em partir, levando certa soma, depois de haver concluído um acordo a respeito das rendas de sua propriedade. Coisa curiosa: nada pôde arrancar de seu pai a respeito de seu rendimento e do valor do domínio. Fiódor Pávlovitch notou então — e importa notá-lo — que Mítia fazia de sua fortuna uma ideia falsa e exasperada. Ficou com isto muito contente, tendo em vista seus interesses particulares. Concluiu de tudo que o rapaz era estouvado, arrebatado, de paixões vivas, um boêmio ao qual bastava dar um osso a roer para acalmá-lo até nova ordem. Fiódor Pávlovitch explorou a situação, limitando-se a largar de tempos em tempos pequenas somas, até que um belo dia, quatro anos depois, Mítia, perdida a paciência, reapareceu na localidade para exigir uma regularização de contas definitiva. Para estupefação sua, aconteceu que não possuía mais nada; era mesmo difícil verificar as contas: já havia recebido em espécie, de Fiódor Pávlovitch, o valor total de seus bens; talvez mesmo viesse a ser seu devedor; de acordo com tal e tal arranjo, concluído em tal e tal data, não tinha o direito de reclamar mais, etc. O rapaz ficou consternado; suspeitou da falsidade, da fraude, ficou fora de si, quase perdeu a razão. Esta circunstância provocou a catástrofe cuja narrativa forma o assunto de meu primeiro romance, ou antes seu quadro exterior. Mas, antes de iniciar o dito romance, é preciso falar ainda dos dois outros filhos de Fiódor Pávlovitch e explicar-lhes a proveniência.  

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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 1 (I. Fiódor Pávlovitch Karamázov)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO I
HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA
I
FIÓDOR PÁVLOVITCH KARAMÁZOV


     Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov era o terceiro filho de um proprietário de terras de nosso distrito, Fiódor Pávlovitch, tão conhecido em seu tempo (dele se lembram, aliás, ainda) pelo seu fim trágico, ocorrido há treze anos e de que falarei mais adiante. No momento, limitar-me-ei a dizer desse "proprietário" (chamavam-no assim, se bem que jamais tivesse morado em sua "propriedade") que era o tipo estranho, embora bastante frequente, da criatura vil e corrompida, ao mesmo tempo que absurda. Sabia arranjar perfeitamente seus negócios proveitosos, mas nada mais. Fiódor Pávlovitch, por exemplo, começou quase do nada: era um modesto proprietário, gostando muito de jantar em casa dos outros, com fama de parasita. E no entanto, ao morrer, possuía mais de 100 000 rublos em metal sonante. Isso não o impediu de ser, durante sua vida, um dos piores malucos de nosso distrito. Repito-o, não se trata de estupidez — a maior parte desses malucos é bastante inteligente e astuta —, mas de extravagância específica e nacional.
     Foi casado duas vezes e teve três filhos; o mais velho, Dimítri, da primeira mulher, e os dois outros, Ivã e Alieksiéi, da segunda. Sua primeira mulher pertencia a uma família nobre, os Miúsovi, proprietários bastante ricos do mesmo distrito. Como pôde uma moça, tendo um dote, bonita e, além do mais, viva e espirituosa, tal como se encontram muitas entre nossas contemporâneas, casar-se com tão nulo "doidelo" (era assim que o chamavam)? Creio inútil explicá-lo demasiado longamente. Conheci uma jovem, da penúltima geração "romântica", que, após vários anos de amor misterioso por um senhor, com o qual poderia casar-se bem tranquilamente, acabou imaginando obstáculos intransponíveis a esse casamento. Numa noite de tempestade precipitou-se, do alto de um penhasco, num rio impetuoso e profundo, e pereceu vítima de sua imaginação, unicamente para parecer-se com a Ofélia de Shakespeare. Se aquele penhasco, de que ela gostava particularmente, tivesse sido menos pitoresco ou substituído por uma margem chata e prosaica, não se teria ela, sem dúvida, suicidado. O fato é autêntico e creio que entre as duas ou três últimas gerações russas houve numerosos casos análogos. Semelhantemente, a decisão que Adelaide Miúsova tomou foi sem dúvida o eco de influências estrangeiras, a exasperação de uma alma cativa. Queria talvez afirmar sua independência de mulher, protestar contra as convenções sociais, contra o despotismo de sua família. Sua imaginação complacente pintou-lhe — por um curto momento — Fiódor Pávlovitch, malgrado sua reputação de papa-jantares, como uma das personagens mais ousadas e mais maliciosas daquela época em via de melhoramento, quando era ele muito simplesmente, um pregador de más peças. O picante da aventura foi um rapto que encantou Adelaide Ivânovna. A situação de Fiódor Pávlovitch dispunha-o então a semelhantes proezas; estava louco por abrir caminho a qualquer preço: introduzir-se em uma boa família e receber um dote era bastante atraente. Quanto ao amor, não se cuidava disso nem de um lado nem de outro, malgrado a beleza da moça. Esse episódio foi provavelmente único na vida de Fiódor Pávlovitch, grande amador do belo sexo, a vida inteira, sempre pronto a agarrar-se a qualquer saia, contanto que ela lhe agradasse. Ora, aquela mulher foi a única que não exerceu sobre ele atração nenhuma do ponto de vista sensual.
     Adelaide Ivânovna não tardou a verificar que só sentia desprezo pelo seu marido. Nessas condições, as consequências do matrimônio não se fizeram esperar. Se bem que a família se tivesse resignado bem depressa ao acontecido e remetido seu dote à fugitiva, uma existência desordenada e cenas contínuas começaram. Conta-se que a jovem senhora mostrou-se muito mais nobre e mais digna do que Fiódor Pávlovitch, que lhe escamoteou desde o começo, como se soube mais tarde, todo o seu capital, 25 000 rublos, de que ela não mais ouviu falar. Durante algum tempo fez ele tudo para que sua mulher lhe transmitisse, por um documento em boa e devida forma, uma pequena aldeia e uma casa de cidade bastante bonita, que faziam parte de seu dote. Teria certamente logrado isso, tanto era o desprezo e desgosto que lhe causava com suas extorsões e exigências descaradas, levando-a por lassidão a dizer "sim". Por felicidade, a família dela interveio e refreou a rapacidade de seu marido. É notório que os esposos chegavam frequentemente à troca de pancadas e pretende-se que não era Fiódor Pávlovitch quem as dava, mas Adelaide Ivânovna, mulher arrebatada, atrevida, morena irascível, dotada de estupendo vigor. Por fim abandonou a casa e fugiu com um seminarista que não tinha onde cair morto, deixando a cargo do marido um menino de três anos, Mítia. Fiódor Pávlovitch não tardou em transformar sua casa num harém e em organizar pândegas e bebedeiras. Entrementes, percorria toda a província, lamentando-se com todos da deserção de Adelaide Ivânovna, com pormenores chocantes sobre sua vida conjugai. Dir-se-ia que achava prazer em representar diante de todo mundo o papel ridículo de marido enganado, em pintar seu infortúnio, carregando as cores. "Acreditar-se-ia que você subiu de grau, Fiódor Pávlovitch, tão contente você se mostra, apesar de sua aflição", diziam-lhe os trocistas. Muitos ajuntavam que ele se sentia feliz em mostrar-se na sua nova atitude de bufão e que, de propósito, para fazer rir mais, fingia não notar sua situação cômica. Quem sabe, aliás, fosse ingenuidade de sua parte? Por fim, conseguiu descobrir a pista da fugitiva. A desgraçada achava-se em Petersburgo, para onde fora com seu seminarista e onde começara a agir publicamente com a maior liberdade. Fiódor Pávlovitch começou a agitar-se e preparou-se para partir — com que fim? ele mesmo não sabia ainda. Talvez tivesse verdadeiramente feito a viagem a Petersburgo, mas, tomada essa decisão, achou que tinha o direito, para se dar coragem, de embriagar-se desenfreadamente. Enquanto isso, soube a família de sua mulher da morte desta, em Petersburgo. Morrera de repente, num pardieiro, de febre tifoide, dizem uns, de fome, segundo outros. Fiódor Pávlovitch estava bêbedo, quando lhe anunciaram a morte de sua mulher; conta-se que correu para a rua e se pôs a gritar, na sua alegria, de braços levantados para o céu: "Agora, deixa morrer o teu servo". Outros pretendem que soluçava como uma criança, a ponto de causar pena vê-lo, malgrado a aversão que inspirava. Pode dar-se que ambas as versões sejam verdadeiras, isto é, que se regozijou com sua libertação, chorando a sua libertadora. Muitas vezes, as pessoas, mesmo más, são mais ingênuas, mais simples do que o pensamos. Nós também, aliás.

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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov (Prefácio)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski

"Se Deus NÃO existe, tudo é permitido e o homem muito provavelmente não vai optar pelo bem ao invés do mal."

"Os Irmãos Karamazov é uma obra-prima da literatura russa escrita por Fiódor Dostoiévski e publicada pela primeira vez em 1880. O romance é uma exploração complexa da natureza humana, das questões morais e religiosas, e das questões familiares. É uma história envolvente que gira em torno da família Karamázov e seus três filhos: Dmitri, Ivan e Alexei."

Parte 1: Os Personagens Principais:
Fiódor Pavlovitch Karamázov, um palhaço devasso que subiu na vida principalmente devido aos dotes de suas duas mulheres, ambas mortas de forma precoce, e à sua mesquinharia.
Dmitri Karamazov, o filho mais velho, é impulsivo e apaixonado. Ele está envolvido em um conflito com o pai sobre uma herança e é acusado de assassinato.
Ivan Karamazov, o filho do meio, é um intelectual até que questiona a existência de Deus e os valores morais tradicionais.
Alexei Karamazov, o filho mais novo, é um monge ortodoxo que busca a espiritualidade e a fé em meio às relações familiares tumultuadas.

Os irmãos Karamázov deveria ter uma continuação, onde o narrador exporia de melhor forma o caráter de seu herói, o filho mais novo Aliêksei Fiodorovitch Karamázov, para o qual esta narrativa seria a primeira parte de sua biografia, porém Dostoiévski morreu antes de finalizar a segunda parte de sua obra. Dostoiévski declara no início do prólogo que a obra é, de fato, sobre Alieksiéi:

   Ao começar a biografia de meu herói, Alieksiéi Fiódorovitch, sinto-me um tanto perplexo. Com efeito, se bem que o chame meu herói, sei que ele não é um grande homem; prevejo também perguntas deste gênero: "Em que é notável Alieksiéi Fiódorovitch, para que tenha sido escolhido como seu herói? Que fez ele? Quem o conhece e por quê? Tenho eu, leitor, alguma razão para consagrar meu tempo a estudar-lhe a vida?".

O enredo gira em torno do misterioso assassinato de Fiódor Pavlovitch Karamazov, o pai dos três irmãos. Dmitri é acusado injustamente de cometer o assassinato, e o romance explora o julgamento, os depoimentos das testemunhas e as investigações, enquanto também mergulha profundamente nas psicologias dos personagens.



Resenha: Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski





Prefácio

     Ao começar a biografia de meu herói, Alieksiéi Fiódorovitch, sinto me um tanto perplexo. Com efeito, se bem que o chame meu herói, sei que ele não é um grande homem; prevejo também perguntas deste gênero: "Em que é notável Alieksiéi Fiódorovitch, para que tenha sido escolhido como seu herói? Que fez ele? Quem o conhece e por quê? Tenho eu, leitor, alguma razão para consagrar meu tempo a estudar-lhe a vida?"
     A derradeira pergunta é a mais embaraçosa, porque só lhe posso responder dizendo: "Talvez o senhor mesmo descubra isso no romance". Mas se o lerem, sem achar que meu herói é notável? Digo isto porque prevejo, infelizmente, a coisa. A meus olhos, é ele notável, mas duvido bastante de que consiga convencer o leitor. O fato é que ele age seguramente, mas de uma maneira vaga e obscura. Aliás, seria estranho, em nossa época, exigir clareza das pessoas! Uma coisa, no entanto, está fora de dúvida: é um homem estranho, até mesmo um original. Mas a estranheza e a originalidade prejudicam, em lugar de conferir um direito à atenção, sobretudo quando todo mundo se esforça por coordenar as individualidades e destacar um sentido geral do absurdo coletivo. O original, na maior parte dos casos, é o indivíduo que se põe de parte. Não é verdade?
     No caso de me contradizerem, a propósito deste último ponto, dizendo: "Não é verdade", ou "não é sempre verdade", retomo coragem a respeito do valor de meu herói. Porque não somente o original não é "sempre" o indivíduo que se põe de parte, mas acontece-lhe deter a quinta-essência do patrimônio comum, enquanto seus contemporâneos o repudiaram por algum tempo.
     Aliás, em vez de engajar-me nessas explicações destituídas de interesse e confusas, teria começado bem simplesmente, sem prefácio — se minha obra agradar, hão de lê-la —, mas a desgraça está em que, além de uma biografia, tenho dois romances. O principal é o segundo, é a atividade de meu herói em nossa época, no momento presente. O primeiro desenrola-se há treze anos, e, para dizer a verdade, é apenas um momento da primeira juventude do herói. Ê indispensável, porque, sem ele, muitas coisas ficariam incompreensíveis no segundo. Mas isso só faz aumentar o meu embaraço: se eu, biógrafo, acho que um romance teria bastado para um herói tão modesto e vago, como apresentar-me com dois e justificar tal pretensão?
     Desesperando de resolver essas questões, deixo-as em suspenso. Naturalmente, o leitor perspicaz já adivinhou que tal era meu fim desde o começo e leva-me a mal que perca um tempo precioso em palavras inúteis. Ao que responderei que o fiz por polidez, e em seguida por astúcia, a fim de que se fique prevenido de antemão. Além do mais, folgo que meu romance se divida por si mesmo em duas narrativas, "contudo conservando sua unidade integral"; depois de ter tomado conhecimento do primeiro, o leitor verá por si mesmo se vale a pena abordar o segundo. Sem dúvida, cada qual é livre; pode-se fechar o livro desde as primeiras páginas da primeira narrativa para não mais abri-lo. Mas há leitores delicados que querem ir até o fim, para não deixar de ser imparciais; tais são, por exemplo, todos os críticos russos. Sente-se a gente de coração mais leve para com eles. Malgrado sua consciência metódica, forneço-lhes um argumento dos mais fundamentados para abandonar a narrativa no primeiro episódio do romance. Eis terminado o meu prefácio. Convenho que é supérfluo, mas, já que está escrito, deixemo-lo.
     E agora, comecemos.
     O Autor.
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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Mais uma resenha...

“Os Irmãos Karamazov”, de Dostoiévski



domingo, 17 de agosto de 2025

Dostoiévski - O Idiota: Quarta Parte - Epílogo

O Idiota

Fiódor Dostoiévski

Tradução portuguesa por José Geraldo Vieira

Quarta Parte

Epílogo

.     Precipitando-se para Pávlovsk a viúva do mestre-escola se dirigiu direta- mente a Dária Aleksiéievna que já estando assombrada com os acontecimentos da véspera, ainda ficou em um pânico maior, ante o que lhe foi contado. Resolveram as duas senhoras comunicarem-se imediatamente com Liébediev que, como era natural, estava preocupadíssimo com o seu inquilino e amigo.
     Contou-lhes Vera Liébedieva tudo quanto sabia.
     A conselho de Liébediev decidiram seguir os três para Petersburgo com o fim de o mais depressa possível evitar o que pudesse estar para acontecer. E assim foi que, cerca das onze horas da manhã do dia seguinte, o apartamento de Rogójin foi arrombado na presença da polícia, das senhoras, de Liébediev e de um irmão de Rogójin, Semión Semiónovitch, que morava na outra ala - ato esse facilitado pela declaração do porteiro que, depondo, disse ter visto à noite Parfión Semiónovitch entrar pela porta da frente, com uma visita, mas, pelo que lhe pareceu, às escondidas.
     Durante dois meses esteve Rogójin prostrado, com inflamação cerebral, tendo sido julgado logo que se restabeleceu. Com muita exatidão deu provas irretorquíveis sobre cada ponto do libelo, em consequência do que absolutamente não foi trazido à baila o nome de Míchkin. Durante o julgamento, conquanto taciturno, não contradisse Rogójin o eloquente conselho judicial que provou, com clareza e lógica, ter o crime sido cometido em consequência da febre cerebral que acometera o réu muito antes da perpetração do crime que, assim, pois, mais não foi do que um resultado de suas perturbações. Não acrescentou Rogójin coisa alguma em contestação, mantendo com a mesma clareza exata o seu depoimento feito durante o inquérito relativamente às circunstâncias ligadas ao crime. Foi sentenciado, em vista das circunstâncias atenuantes, a somente quinze anos de servidão penal na Sibéria. Ouviu a sentença soturnamente calado e como que “sonhando”. Toda a sua enorme fortuna, de que só uma parte comparativamente pequena fora dilapidada nos primeiros meses de libertinagem, passou para o seu irmão, Semión Semiónovitch, com grande satisfação deste. Sua velha mãe ainda vive, e parece que, lá uma vez ou outra, se recorda de seu filho favorito, Parfión, decerto, porém, muito vagamente, Deus lhe tendo poupado o espírito e o coração do conhecimento do golpe desferido sobre o seu melancólico lar.
     Liébediev, Keller, Gánia, Ptítsin, e muitas outras pessoas desta história, continuam a viver, tendo mudado pouco, quase nada havendo a relatar sobre eles.
     Ippolít, quinze dias depois de Nastássia Filíppovna, morreu em terrível estado de excitação, e decerto mais cedo do que calculara.
     Kólia ficou profundamente marcado pelos acontecimentos, ligando-se mais intimamente do que nunca à sua mãe, Nina Aleksándrovna, que vive inquieta com esse seu filho demasiado pensativo para a idade. Mas de uma coisa ela não tem dúvida: ele tornar-se-á um homem útil e ativo; entre outras coisas, a acomodação do futuro de Míchkin foi, parcialmente, obra sua.
     Desde muito tendo notado que Evguénii Pávlovitch Radómskii era uma pessoa diferente das outras cujas amizades fora fazendo, o procurou para contar o caso do príncipe e sua consequente situação. Evguénii Pávlovitch não o decepcionou na estima com que era distinguido, pois tomou logo o maior interesse pela sorte do infortunado “idiota” que, devido a seus cuidados e diligências, foi reenviado ao Dr. Schneider, na Suíça.
     Considerando-se, francamente, um homem supérfluo na Rússia, Evguénii Pávlovitch seguiu para o estrangeiro, decidido a passar uma grande temporada na Europa, fazendo, então, várias visitas a seu amigo doente na instituição do Dr. Schneider. Visitava-o, no mínimo, de três em três meses. Mas Schneider franzia as sobrancelhas e meneava a cabeça, cada vez mais desanimado; pressentia, categoricamente, ser impossível uma remissão, de vez em quando se permitindo um ou outro vaticínio quanto a possibilidades ainda mais melancólicas. Isso afetou muito o coração de Evguénii Pávlovitch; e não é um coração qualquer, esse seu, como fica demonstrado ante o fato de Kólia lhe escrever cartas que recebem constantes respostas.
     Há ainda um outro fato que patenteia um traço bondoso do seu caráter, e aqui nos apressamos em mencionar qual seja: depois de cada visita sua ao Dr. Schneider, Evguénii Pávlovitch sempre remete uma carta a certa pessoa de Petersburgo, com as mais simpáticas e minuciosas informações sobre o estado da saúde do príncipe. Acompanhadas com as mais respeitosas expressões de devotamento, essas cartas invariavelmente (e cada vez com mais frequência) contêm um franco desenvolvimento de ideias, vistas e sentimentos, qualquer coisa que, em realidade, se aproxima de um sentimento fervoroso de amizade mal disfarçada através disso tudo. Essa pessoa, que se corresponde com ele (conquanto, deste lado, as cartas sejam menos frequentes) e que é assim merecedora de tanta atenção e respeito da sua parte, é Vera Liébedieva.
     Nunca nos foi dado nos certificarmos de como essas relações nasceram entre ambos; não resta dúvida, porém, terem começado ao tempo do colapso total do príncipe, quando Vera Liébedieva ficou tão aflita que até caiu doente. Mas, de um modo exato, qual o incidente que os levou a esse conhecimento e amizade, não sabemos informar.
     Aludimos a essas cartas principalmente porque contêm notícias sobre os Epantchín e, especialmente, sobre Agláia. Segundo uma carta de Paris, um pouco desconexa, Evguénii Pávlovitch contava que, após uma súbita e extraordinária atração por um conde polaco exilado, Agláia se casara logo, apesar da oposição dos pais que só tinham acabado dando consentimento por haver possibilidades de um terrível escândalo.
     Depois de seis meses de silêncio, chegou nova carta de Evguénii Pávlovitch, mandando à pessoa com quem se correspondia uma comprida e minuciosa descrição de como, em sua última visita à instituição do Dr. Schneider, se tinha encontrado lá com o Príncipe Chtch... e toda a família Epantchín (exceto, naturalmente, Iván Fiódorovitch, retido, pelos negócios, em Petersburgo). E que fora um estranho encontro, todos tendo demonstrado extraordinário contentamento, não cessando Adelaída e Aleksándra de se demonstrarem incalculavelmente gratas a ele. “por sua angélica bondade para com o desgraçado príncipe”.
     Lizavéta Prokófievna não parava de chorar amargamente, à vista da aflita e humilhada condição de Míchkin. Evidentemente tudo lhe fora perdoado. O Príncipe Chtch... fizera mesmo umas poucas observações justas e sinceras. Que lhe parecera a ele, Evguénii Pávlovitch, que Adelaída e o marido não estavam em muito perfeita harmonia, mas que, com certeza, no futuro, Adelaída ainda viria a permitir que o seu impetuoso temperamento fosse guiado pelo Príncipe Chtch... que tinha bom senso e experiência. E seria de esperar, de mais a mais, que as cruéis experiências que a família sofrera através, principalmente, da recente aventura de Agláia com o conde exilado, viessem a causar profunda impressão na irmã. Que tudo quanto a família receara ao negar Agláia ao conde polaco, se tinha, em menos de seis meses, confirmado, e até da pior maneira, com surpresa que eles nunca haviam sequer sonhado.
     Esclareceu-se que o conde nem conde era e que, se estava exilado como dizia, era isso devido a certa aventura sombria e duvidosa do seu passado. O tratante fascinara Agláia pela sua extraordinária “nobreza” de alma dilacerada em angústia patriótica. Fascinação essa que, mesmo depois de casada, subira a ponto de fazer que ela se tornasse sócia de um Comitê pela restauração da Polônia e desse em frequentar o confessionário de um célebre pregador católico, passando logo o seu espírito a lhe sofrer a influência.
     Quanto às vastas propriedades do conde polaco, e de que antes mostrara ao Príncipe Chtch... e a Lizavéta Prokófievna as mais incontestáveis provas, não passavam de um mito. E ainda mais: que seis meses após o casamento, o conde e o seu amigo, o célebre confessor, haviam conseguido indispor Agláia completamente com a família, de modo que desde meses nem sequer tinham notícias dela.
     Restava de fato ainda muita coisa a contar: mas Lizavéta Prokófievna, filha e genro estavam tão aborrecidos com esse “terrível caso” que relutaram em aludir a outros pontos durante essa conversa com Evguénii Pávlovitch, muito embora cientes de que ele já sabia a história da última peripécia de Agláia. Como Lizavéta Prokófievna se sentia ansiosa por voltar à Rússia! Segundo o relato de Evguénii Pávlovitch, ela agora se mostrava mais amarga e injusta do que nunca em suas críticas contra tudo da Europa.

-  Eles aqui nem sabem fazer um pão decente! No inverno ficam mais entanguidos do que camundongos em uma adega. Aqui só me foi dado o consolo de ao menos poder chorar lágrimas bem russas por este desgraçado. (Apontava para o príncipe que nem a tinha reconhecido.) Já chega de seguir as nossas venetas! Já é tempo de sermos sensatos. Tudo isto, toda esta vida aqui no estrangeiro, e toda esta Europa tão gabada, tudo, mas tudo, não passa de uma fantasia! E todos nós, no estrangeiro, somos fantasia e nada mais!... Guarde bem estas minhas palavras, pois irá me dar razão pessoalmente! - concluiu ela, de modo quase raivoso, ao se despedir de Evguénii Pávlovitch.

FIM

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Perfil biográfico: Fiodor Dostoiévski

A obra do romancista russo Dostoiévski foi uma das mais fluentes de seu tempo e a que mais fascínio despertou, quer pelos Conflitos de seus personagens quer por seus temas invulgarmente complexos e, sobretudo, pela intensidade passional da ação que se desenrola em seus enredos. Fiodor Mikhaílovitch Dostoiévski nasceu em Moscou em 11 de novembro (30 de outubro segundo o calendário juliano) de 1821. Mikhail Andreievitch, seu pai, era médico do Hospital dos Pobres, onde residia com a mulher, Maria Fiodorovna Netchaiev. O futuro escritor cresceu nesse ambiente. Em 1831 a família mudou-se para Tula, perto de Moscou, onde Fiodor e seus quatro irmãos desfrutaram de vida mais livre do autoritarismo paterno. Em 1834 Fiodor e Mikhail, o irmão mais velho, foram para o Liceu Tchermak de Moscou e, três anos mais tarde, perderam a mãe. Dostoiévski cursou em seguida a Escola de Engenharia Militar. Em 1839, seu pai foi assassinado por servos revoltados contra Sua conduta despótica: o fato causou forte comoção no jovem Fiodor.
Começava a projetar-se nos meios culturais e a frequentar um círculo de socialistas. Preso em abril de 1849, em dezembro se viu condenado ao fuzilamento. Já sob a tensão dos preparativos, recebeu a notícia da comutação da pena pelo czar. Lembranças angustiadas desse episódio doloroso povoariam toda sua obra posterior. A sentença foi transformada em exílio na Sibéria, com trabalhos forçados, e Dostoiévski ficou preso na fortaleza de Omsk por quatro anos. Sofreu então o primeiro ataque de epilepsia, doença que o perseguiu por muito tempo. Libertado em 1854, retomou a atividade literária e fundou, com o irmão Mikhail, a revista Vremia, suspensa depois pelo governo. Casou-se duas vezes: a primeira, em 1857, com Maria Dmitrievna Issaiev, e depois com Anna Grigorievna Snitkína, a quem, premido pelas dívidas acumuladas, ditaria, em 1866, o romance Igrok (O jogador), obra de fundo autobiográfico, escrita em apenas 26 dias para saldar dívidas com um editor. 
Em 1868 apareceu Idiot (O idiota), talvez o romance mais típico de Dostoiévski, que provocou perplexidade geral nos meios intelectuais. Mesmo um inimigo como o conde Saltikov (N. Chchedrin), parodiado na obra, não deixou de reconhecer o valor de muitas partes do romance, assim como Tolstói, que, embora reclamasse de sua construção “caótica”, se encantou com a obra. Em meio a paixões, crimes e baixezas de todo tipo, o príncipe Míchkin é uma espécie de Dom Quixote do cristianismo mais puro, um ideal daquilo pelo que o próprio Dostoiévski ansiava desesperadamente e que não conseguiu acreditar. Pois o cristianismo do escritor é radical, mas impuro e não sabe resistir às tentações da carne e da vontade demoníaca de destruir. Na época, porém, perguntava-se aonde queria chegar Dostoiévski com aquela atmosfera “de demência”, conforme um de seus críticos. O príncipe Míchkin é idealizado como uma antítese de Raskolnikov (estudante e homicida perseguido pela memória de seu crime quando paupérrimo, resolve matar uma miserável e inútil usurária, para salvar a si próprio e a sua família, em Crime e Castigo). Se este acha que pode tudo, o príncipe é a vítima de tudo que o circunda, mas uma vítima eleita, imagem simbólica do eslavismo cristão do autor, vencido pelas forças maléficas desencadeadas a seu redor.
     Na segunda década do século XX começou uma revisão crítica que abandonou clichês sobre o messianismo do autor, passou a valorizar os aspectos paródicos de sua obra e de sua capacidade de construção artística por trás do aparente “caos”. Por fim, com as ideias de Mikhail Bakhtin sobre o “romance polifônico”, ou seja, aquele em que se apresentaria uma multiplicidade de vozes, surgiu a ideia de um Dostoiévski menos rigidamente messiânico e ainda mais complexo. Dostoiévski morreu em São Petersburgo, em 9 de fevereiro (28 de janeiro, segundo o calendário juliano) de 1881. Sua influência sobre toda a literatura universal do século XX foi avassaladora. E sem Dostoiévski não teriam sido possíveis as pesquisas em profundidade de psicólogos como Nietzsche e Freud, além de um conhecimento por assim dizer íntimo dos motivos da alienação humana e dos caminhos para sua superação.
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O Idiota (Fiódor Dostoiévski) 
| Tatiana Feltrin




Terceira Parte
O Idiota: Quarta Parte - Epílogo
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sábado, 16 de agosto de 2025

Dostoiévski - O Idiota: Quarta Parte (11c) - Saíram da alcova e se sentaram

O Idiota

Fiódor Dostoiévski

Tradução portuguesa por José Geraldo Vieira

Quarta Parte

11.

continuando...

.     Saíram da alcova e se sentaram nas mesmas cadeiras, novamente um defronte do outro. Tremendo com uma violência cada vez mais incontida, Míchkín não tirava os olhos indagadores do rosto de Rogójin.

- Noto que estás tremendo, Liév Nikoláievitch, muito mais do que quando estiveste doente. Lembras-te, em Moscou? Tal qual como antes de te vir o acesso, aquela vez!... Fica bem calmo, senão, que vou fazer contigo agora?

     O príncipe escutou, fez todo o esforço para ficar em condições de compreender; mas os seus olhos não paravam de perguntar que é que fora aquilo...

- Quem foi? Foi você? - conseguiu dizer, por fim, mostrando a cortina.
- Fui eu. - Rogójin ciciou; e não pôde erguer os olhos. 

     Mantiveram-se calados cinco minutos. Cinco minutos...

- Escuta aqui - recomeçou Rogójin, como se não tivesse interrompido a sua confissão -, como és doente e tens ataques e convulsões, não vá alguém ouvir do pátio, ou da rua.., e descobrir, assim, que há gente aqui nos meus aposentos. Se descobrirem... começarão a bater e entrarão.., pois todos estão convencidos de que não estou em casa. Já foi por isso que não acendi luz... podiam perceber da área ou da calçada... Quando saio, levo, sempre, a chave.., e ninguém entra aqui, nem para a limpeza, enquanto dura a minha ausência. Dois.., as vezes três dias... É hábito meu. Tomei bastante cuidado para que não percebessem que estamos aqui...
- Pode continuar... - disse o príncipe. - Eu perguntei, tanto ao porteiro como à empregada, se Nastássia Filíppovna não tinha passado a noite aqui. Portanto... isto é... 
- Eu sei que perguntaste. Mas eu disse à Pafnútievna que Nastássia Filíppovna estivera aqui ontem apenas uns dez minutos e que já havia regressado para Pávlovsk. Ninguém sabe que ela ficou aqui, de noite. Entrei, ontem, com ela, às escondidas, tal como nós dois fizemos ainda agora. Quando vínhamos para cá eu pensei que ela não tomaria cuidado para entrar em segredo. Mas qual o quê! Entrou na ponta dos pés, suspendeu e dobrou a cauda do vestido em volta do corpo, segurando a ponta na mão, para que a seda não rugisse; e quando falou, foi sempre ciciando... Chegou a me balançar o dedo, escadas acima - era de ti que ela tinha medo! No trem, se visses, estava louca de terror! E foi ela quem quis passar a noite aqui. Porque eu, eu tinha pensado em levá-la ao apartamento dela, na casa da viúva; mas, qual o quê! “Mal o dia raie, ele me achará lá!” Foi o que ela disse. Mas você (referia-se a mim) vai me esconder hoje, e amanhã de manhã, cedinho, partiremos para Moscou”. Depois, já não era para Moscou que queria ir... Qualquer outra cidade... Oriól, por exemplo... Até mesmo já deitada, me dizia, de lá, que tínhamos de ir para Oriól... 
- Escute, Parfión! Que é que você vai fazer, agora? Que é que pensa fazer?
- Mas para de tremer! Eu fico espantado, por tua causa! Nós vamos ficar aqui, toda a noite. A cama é aquela só... Mas acho que podemos pegar as almofadas e os coxins dos dois sofás, e fazer uma espécie de cama para mim e para ti, do lado de cá da cortina... Para ficarmos juntos. Pois se eles vierem para cá e começarem a pesquisar, a indagar, e entrarem, darão logo com ela e a levarão. E... me achando.., me perguntarão... eu direi que fui eu e me levarão imediatamente. Assim, pois, se ficares, é melhor, não é? Ela agora fica conosco, ao nosso lado, junto de ti... e junto de mim... 
- Sim, sim! - concordou o príncipe vivamente. Quando vierem.., nós não confessaremos não, e não deixaremos que a levem!
- É sim! Não deixaremos não, de forma alguma, custe o que custar. Isso mesmo... - decidiu o príncipe. 
- Foi o que eu decidi também, rapaz, não a entregar de forma alguma. A ninguém! Ficaremos quietos aqui; a noite inteira. Hoje só saí, de manhã, por menos de uma hora. Não contando esse tempo, estive sempre com ela. E depois só saí para te ir buscar, de noite já. Mas uma outra coisa.., de que estou com medo: está muito quente e talvez comece a cheirar mal... Tu estás sentindo algum cheiro?... Eu...
- Talvez esteja... Nem sei... Mas... de madrugada, certamente...
- Eu a cobri com um oleado americano! Um bom oleado. Estendi o lençol por cima e coloquei em volta, embaixo, rente à cama, quatro botijas de desinfetante Jdánov. Desarrolhei... Ainda estão lá... Devem servir... 
- Ah! Sim, como leu que fizeram aquela vez em Moscou!?... - Por causa do cheiro, irmão! Viste como ela está... deitadinha... De manhã quando houver luz é que deves ir olhá-la... Que é isso? Não te podes erguer? - perguntou Rogójin, com espanto, vendo, todo apreensivo, que Míchkin estava tremendo de maneira tão absurda que, apesar do esforço para ir ver outra vez Nastássia Filíppovna, não conseguia se pôr em pé...
- As minhas pernas não.., obedecem - explicou baixinho o príncipe - e creio que é... terror! Mas quando isto passar, me levantarei para ir... vê-la.
- Sossega; vou arranjar uma cama para nós. Deitando, ficarás logo melhor. Eu deitarei também... E ficaremos escutando... Pois é, rapaz, não compreendo ainda, não compreendo como tudo isso foi... Bem que te avisei, que te preveni, de antemão.., de modo a que ficasses sabendo...

     Sussurrando essas palavras ininteligíveis, Rogójin começou a fazer as camas no chão. Era evidente que só essa noite é que lhe tinha vindo à cabeça improvisar essa cama no chão. A outra noite, ficara no sofá. Mas não havia agora lugar para dois, no sofá estreito, e Rogójin resolveu e combinou que deviam deitar juntos. Eis por que, com muito esforço, ele agora arrastava os vários Coxins do sofá e os depunha ao rés da cortina. Fez a cama de qualquer modo. Aproximou-se do Príncipe afavelmente e, com certo entusiasmo macabro, o conduziu pelo braço. Mas o príncipe achou que podia ir, e se desvencilhou pensando que o tremor já havia passado. Rogójin fez o príncipe estirar-se nos coxins, à esquerda, e depois, sem se despir se arrojou, pesadamente.
     Cruzou as mãos debaixo da cabeça e começou a balbuciar:

- Está quente, sim, está quente, irmão! E, como sabes, vai começar a cheirar. Acho que não devemos abrir as janelas... Minha mãe tem sempre jarros com flores... Uma porção de flores... E que perfume delicioso que elas têm! Cheguei a pensar em trazer.., mas Pafnútievna podia desconfiar.., ela repara em tudo...
- É reparadeira, sim,.. - concordou o príncipe, aparvalhadamente.
- Achas que devíamos comprar punhados e mais punhados de flores para rodeá-la toda? Mas.., pensando bem, amigo, vê-la rodeada de flores nos causaria tamanha tristeza!
- Escute - disse o príncipe, de modo incerto, como se estivesse procurando o que ia dizer, já esquecido outra vez do que era - Escute. Como foi que fez isso? Com uma faca? Com aquela mesma? 
- Com aquela! 
- Outra coisa, ainda. Quero perguntar-lhe outra coisa, Parfión. Quero fazer- lhe uma porção de perguntas. Quero que me conte tudo... Mas, para começar, será melhor me dizer, primeiro, para eu entender bem... Você pensava em matá-la antes do nosso casamento com uma faca, à entrada da igreja? 
- Não sei se pensei, ou não - respondeu Rogójin, secamente, parecendo até surpreendido com a pergunta, ou não a compreendendo.
- Você chegou a levar consigo a faca para Pávlovsk?
- Não, nunca! Tudo quanto te posso dizer a respeito da faca é que eu a tirei de uma gaveta esta madrugada... pois tudo aconteceu de madrugada, mais ou menos às quatro horas... A faca esteve enfiada dentro de um livro, sempre, aqui, em casa. E... e... coisa estranha. Afundou três ou quatro polegadas, bem debaixo do seio esquerdo. Não saiu mais do que uma quantidade assim.., de uma meia colher de sopa... de sangue... que se espalhou pela camisola. Nem tanto!...
- Isso.., isso.., isso eu sei, já li a respeito, é o que eles chamam de hemorragia interna – esclareceu sinistramente o príncipe, em grande agitação. - Às vezes, não dá uma gota... Quando a punhalada vai certeira ao coração e encrava... 
- Para! Não estás ouvindo? - Rogójin interrompeu-o imediatamente, sentando-se, apavorado, sobre o coxin. - Escuta só!
- Não ouço nada - respondeu Míchkin tão rápido quanto apavorado.
- Passos! Ouves? Na sala de visitas... - puseram-se ambos a escutar.
- Ouço - disse o príncipe, sem a menor hesitação. 
- Passos de gente! 
- Sim. 
- Convém, ou não, fechar a porta? 
- Feche.

     Foram fechar a porta e vieram deitar outra vez. Ficaram calados uma porção de tempo. 

- Ah! É mesmo! - começou inesperadamente o príncipe, com um sussurro farfalhante, como retomando um pensamento e querendo falar depressa antes de o esquecer de novo; sentou-se no chão. - É mesmo! Eu queria aquele baralho de cartas!... As cartas... Elas me disseram que você jogava com ela!
- Jogava, sim - confirmou Rogójin, depois de curto silêncio.  
- Onde estão... as cartas? 
- Estão aqui - disse Rogójin. depois de uma pausa maior - Aqui. 

     Tirou do bolso um baralho de cartas enrolado em papel e deu a Míchkin, que o tomou com uma espécie de marasmo. Um sentimento novo, de desesperadora tristeza, pesava em seu coração. Compreendeu, subitamente, que nesse momento e durante muito tempo, antes, não estivera a dizer o que desejava; e que isso não era direito; estava fazendo uma coisa má. E compreendeu, também, que nessas cartas que segurava agora, e que, só de as ver, lhe davam tanto conforto, não eram de ajuda nenhuma, absolutamente não serviam para coisa alguma, agora... Levantou-se, comprimindo o baralho na mão fechada. Rogójin continuava deitado e não parecia ouvir nada, nem nada ver dos gestos do príncipe; mas os seus olhos cintilavam na treva, e estavam muito arregalados, com uma expressão fixa. O príncipe foi sentar-se na cadeira, começando a olhá-lo de lá, com terror.
     Passou meia hora.
     E então Rogójin se pôs a falar alto, e a rir, como se tivesse esquecido que deviam falar somente ciciando.

- Aquele oficial, aquele!... Tu te lembras como ela chicoteou aquele oficial, perto do coreto da música? Ah! Ah! Ah! E havia um cadete.,, um cadete.., um cadete também que interveio...

     O príncipe pulou da cadeira, com redobrado pavor. Nisto, Rogójin ficou quieto (e foi subitamente que se calou) e o príncipe se curvou docilmente sobre ele, depois se sentou ao lado e, com o coração batendo violentamente e a respiração aos arrancos, começou a fitá-lo. Rogójin nem virou a cabeça para ele, como se o tivesse esquecido. O príncipe olhava e esperava. O tempo foi passando.
     Começou a clarear.
     De vez em quando, Rogójin recomeçava a murmurar coisas, com voz rígida, incoerentemente; ria e soltava exclamações. Então o príncipe estendia a mão trêmula até ele e mansamente lhe tocava a cabeça, os cabelos, acariciando os, ou lhe afagava as faces.., pois não podia fazer mais nada!
     Começou a tremer, outra vez. E as pernas, de novo, pareceram nem existir.
     Uma sensação nova lhe corroía o coração com infinita angústia. No entanto, tinha clareado completamente. Em dado instante ele se estirou sobre as almofadas, como que absolutamente inerme, sem esperança e sem solução. Juntou o seu rosto ao rosto petrificado de Rogójin, as suas lágrimas escorrendo para as dele, ambos, decerto, nem as percebendo nem se importando com elas.
     Fosse como fosse, quando, depois de muitas horas, as portas foram arrombadas e pessoas estranhas entraram, deram com o assassino completamente inconsciente, a delirar. Míchkin estava sentado no assoalho, sem se mover dali, ao lado dele. E sempre que o homem que se achava delirando desandava a dar gritos e a tartamudear, ele se apressava em lhe passar a mão trémula, suavemente, sobre os cabelos e sobre as faces, como o acariciando e acalmando, mas nem por isso conseguiu compreender nenhuma pergunta que lhe foi feita e nem reconheceu as pessoas que o rodeavam. Se Schneider, em pessoa, viesse da Suíça para olhar o seu antigo pupilo e paciente, ligando a cena de agora à recordação do estado em que o príncipe, às vezes, ficava naqueles seus primeiros anos de estada no estrangeiro, teria erguido as mãos para o ar, desesperançado, e diria, como dizia naquele tempo: “Um idiota!”

Terceira Parte
O Idiota: Quarta Parte (11c) - Saíram da alcova e se sentaram
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quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Dostoiévski - O Idiota: Quarta Parte (11b) - Àquela hora o corredor estava escuro

O Idiota

Fiódor Dostoiévski

Tradução portuguesa por José Geraldo Vieira

Quarta Parte

11.

continuando...

.     Àquela hora o corredor estava escuro. "E se ele, de repente, saísse daquele vão e investisse contra mim, na escada?” Foi a ideia que lhe relampejou no espírito quando se sentiu perto do mesmo lugar daquela vez passada. Mas não surgiu ninguém.
     Alcançou a porta da rua, saiu, admirou-se ao ver a densa multidão que se espraiava pelas ruas (como sempre, no verão, à hora do poente, acontece em Petersburgo). Virou na direção da Gorókhovaia. Devia já estar distanciado do hotel uns cinquenta passos quando, na primeira rua que ia atravessar, alguém, na multidão, sem ele esperar, lhe tocou o cotovelo e lhe sussurrou ao ouvido:

- Liév Nikoláievitch, meu irmão, preciso de ti. Segue-me.

     Era Rogójin.
     Foi uma coisa estranha, mas deve ser dita: o príncipe pôs-se logo a lhe contar efusivamente, muito além de qualquer propósito, de modo atabalhoado, que estivera a esperá-lo no hotel e que até pensara encontrá-lo no corredor.

- Eu estive lá - respondeu Rogójin. - Vem comigo!

     Esta resposta surpreendente só espantou o príncipe dois minutos depois, quando a entendeu bem. E, tendo compreendido, ficou alarmado, a olhar com toda a atenção para Rogójin, que caminhava na sua frente, à distância de um passo, abrindo passagem para ele, Míchkin, com cuidado mecânico, alheio a todo o mundo.

- Mas, se esteve no hotel, por que não foi me procurar no quarto?

     Rogójin parou, olhou-o um pouco e, como se não tivesse ouvido direito a pergunta, disse:

- Presta atenção no que te vou pedir, Liév Nikoláievitch. Segue sempre à direita, rua acima, até a minha casa; e eu atravesso e vou pelo outro lado da rua. Mas repara que um tome conta do outro.

     Dito o que, atravessou a rua, para a outra calçada, parou, a ver, de lá, se o príncipe estava andando. Vendo, porém, que não, fez-lhe um sinal com os olhos, tomou a direção de Gorókhovaia e seguiu, virando a todo momento para olhar o príncipe, e lhe fazendo sinal para o seguir. E evidentemente se certificou logo que o príncipe o tinha compreendido e o estava já seguindo, pelo outro lado da rua, na calçada paralela. O príncipe pensou que, com certeza, Rogójin queria espreitar alguma pessoa que lhe não conviria que passasse por ele ou o seguisse. E tinha atravessado para o outro lado, por precaução.

“Mas, ao menos, por que não me disse de quem está com receio?”

     Caminharam, assim, uns quinhentos passos. De repente, sem saber direito por que, Míchkin começou a tremer. Rogójin continuava a olhá-lo, de quando em quando, porém mais espaçadamente. Sentindo que não podia prosseguir, o príncipe lhe fez um sinal, chamando-o. Rogójin atravessou imediatamente a rua, enviesando-se na sua direção.

- Nastássia Filíppovna está em sua casa? 
- Está. 
- Foi você que me olhou, por detrás da cortina, esta manhã? 
- Fui. 
- Como? Era você?

     E o príncipe não soube o que perguntar a seguir e nem como acabar a sua interrogação. De mais a mais, o seu coração batia tanto que mal poderia continuar a falar. Rogójin também ficou calado e continuou a olhar para ele, como ainda agora, com uma expressão de sonho...

- Bem, então vou indo - disse, afinal, preparando-se para atravessar para o outro lado - Tu vais sozinho, pois fica melhor cada um seguir separadamente...

     Quando, por fim, dobraram a esquina para a Gorókhovaia, já próximos da casa de Rogójin, as pernas do príncipe começaram a fraquejar a ponto de lhe ser quase impossível poder prosseguir. Eram mais ou menos dez horas da noite. As janelas do lado da velha ainda estavam escancaradas, como de dia. As da parte de Rogójin permaneciam todas fechadas e, na penumbra, as cortinas ficavam mais visíveis. O príncipe aproximava-se pela calçada oposta à casa. Rogójin, sempre pela sua calçada, chegou, dobrou para as escadas e, lá do vão, lhe acenou. Míchkin atravessou e veio se juntar a ele.

 - O porteiro ignora que estou aqui. Menti-lhe, esta manhã, que ia para Pávlovsk e deixei uma palavra neste sentido também à minha mãe. - sussurrou, com um sorriso dissimulado e quase jactancioso - Vamos entrar de maneira que ninguém ouça. 

     A chave já estava na sua mão. Subindo a escada, virou-se, fez com o dedo no ar um gesto bem significativo, dando a entender ao príncipe que subisse sem nenhum ruído. Abriu sem o menor estalido a porta dos seus aposentos, fez o príncipe passar, entrou também, com muita cautela, fechou a porta, guardou a chave no bolso.

- Vem - ciciou ele.

     Desde a Litéinaia que só falava por cicios, estando, por dentro, a despeito de toda a calma aparente, em um estado de intensa agitação. Chegando à sala de visitas, a caminho do gabinete, se dirigiu para a janela e fez um gesto para Míchkin. 

- Esta manhã, quando tocaram, adivinhei logo que eras tu. Fui, na ponta dos pés, até àquela porta e te ouvi falar com a Pafnútievna. Mal o dia raiou eu dei ordem a ela para que se tu, ou qualquer pessoa mandada por ti, batesse na minha porta, não dissesse absolutamente que eu estava aqui: principalmente se fosses tu, e lhe dei o teu nome. Depois, quando te foste embora, me veio o pensamento: “E se ele fica parado a espiar lá da rua, vigiando?” Aproximei-me então desta janela. aqui. franzi um pouco a cortina.... E lá estavas tu, e me olhaste até... Foi assim. 

- Onde está Nastássia Filíppovna? - perguntou o príncipe, quase sem fôlego. 
- Ela... está... aqui... - respondeu Rogójin, baixo, demorando a falar. 
- Onde? 

     Rogójin ergueu os olhos e fitou o príncipe. 

-Vem...  

     Falava sempre ciciando, com aquele mesmo ar de sonho. Já um pouco antes, ainda agora mesmo, quando contou aquela coisa a respeito da cortina, parecia querer dizer coisa muito outra, apesar de ter simulado estar falando espontaneamente.
     Entraram no gabinete.
     Havia qualquer mudança naquela sala, depois da anterior vinda do príncipe. Uma pesada cortina verde, que devia ter servido para outro fim, pendia de viés, separando a ala da alcova de Rogójin. Estava escuro. As noites brancas, do verão de Petersburgo, já se iam alterando, e se não houvesse lua cheia teria sido difícil distinguir qualquer coisa nessas peças com janelas tapadas por cortinas. Em todo o caso podiam distinguir o rosto um do outro, embora mal. As faces de Rogójin estavam pálidas como de costume. Os seus olhos cintilantes continuavam a vigiar o príncipe, com um brilho seco

- Seria melhor acender uma luz - sugeriu Míchkin. 
- Não. Não precisa respondeu o outro - que, tocando a mão do príncipe, o fez sentar. 

     Sentou-se também, por sua vez, tendo trazido a cadeira para tão perto que quando se sentou, ficou roçando os joelhos do outro. Junto deles, um pouco para um lado, havia uma mesinha redonda. 

- Fiquemos aqui um pouco - disse, como querendo persuadir o príncipe a não se levantar.
- Bem me pareceu que devias estar lá naquele hotel, de novo - começou ele, com aquela maneira por que certas pessoas, iniciando um assunto importante, preludiam antes com ninharias que não vêm a propósito. - Mal entrei pelo corredor adentro, pensei: “E se ele estiver sentado lá dentro esperando por mim, enquanto eu estou aqui em pé, esperando por ele?” Estiveste na casa da viúva do mestre-escola? 

     Devido ao violento palpitar do seu coração, o príncipe mal pôde responder: 

- Estive. 
- Pensei nisso, também “Vão acabar falando”, pensei.., então disse comigo assim: “Vou trazê-lo aqui, esta noite, de maneira a passarmos a noite juntos... 
- Rogójín! Onde está Nastássia Filíppovna? - perguntou o príncipe, prontamente.

     E todos os seus membros começaram a tremer, quando ficou de pé. Rogójin também se levantou, e sussurrou, apontando para a cortina:

- Está ali. 
- Dormindo? - balbuciou o príncipe. 

     Rogójin tornou a olhar para ele com profunda atenção. 

- Bem, entra, tu... somente... Entra... 

     Ergueu a cortina, assim, em pé, voltado para o príncipe. 

- Entra! - disse, reforçando, com um gesto, empurrando-o mansamente para dentro da cortina. 

     Míchkin entrou. 

- Está escuro... - disse. 
- Mas se vê... - ciciou Rogójin. 
- Vejo muito mal... Aqui... é... uma cama? 
- Aproxima-te - sugeriu Rogójin, brandamente. 

     O príncipe deu o primeiro passo; depois o segundo e parou. Parou e ficou olhando. Passou um minuto. Custou muito a passar outro minuto. Permaneciam perto da cama, bem rente. Não falavam absolutamente nada. O coração do príncipe batia tão violentamente que era agora a única coisa audível na quietude mortal da alcova.
     Os seus olhos já se estavam acomodando na treva e então começou a distinguir a cama inteira. Alguém jazia nela, dormindo um sono de perfeita imobilidade, sem fazer ruído algum, por mais insignificante que fosse: nem mesmo o da respiração. E quem assim dormia estava coberto desde a cabeça até aos pés com um lençol branco sob o qual os membros vagamente se configuravam. Tudo quanto se podia ver era que um corpo humano jazia ali, estendido em todo o seu comprimento.
     Na mais completa desordem, aos pés da cama, sobre as cadeiras ao lado, e pelo chão, havia roupas jogadas. Um rico vestido de seda branca. Flores. E fitas. Em uma pequenina mesa, junto à cabeceira da cama, um diadema de diamantes que tinha sido tirado e posto ali. Do lado dos pés da cama havia um monte de sedas e cambraias amarrotadas, e sobre elas emergia de uma nesga do lençol um pé nu. Tão branco, tão imóvel que parecia de mármore. O príncipe olhava... E, olhando, sentia que a alcova cada vez se ornava mais sepulcralmente silenciosa. Nisto ouviu o zunido de uma mosca que voou sobre o leito e foi pousar no travesseiro. O príncipe recuou.

- Agora, vem comigo! - era Rogójin, que lhe tocava no braço.

Terceira Parte
O Idiota: Quarta Parte (11b) - Àquela hora o corredor estava escuro
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