sábado, 18 de abril de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (1)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO III
A   VIDA SOCIAL


     A FAMÍLIA não é uma comunidade fechada em si mesma: para além de sua separação ela estabelece comunicações com outras células sociais; o lar não é apenas "um interior" em que se confina o casal; é também a expressão de seu padrão de vida, de sua fortuna, de seu gosto: deve ser exibido aos olhos de outrem. É essencialmente a mulher que ordena essa vida mundana. O homem acha-se ligado à coletividade, enquanto produtor e cidadão, por laços de uma solidariedade orgânica baseada na divisão do trabalho: o casal é uma pessoa social, definida pela família, a classe, o meio, a raça a que pertence, presa por laços de uma solidariedade mecânica aos grupos que se situam socialmente de maneira análoga; a mulher é que é suscetível de encarná-lo com mais pureza: as relações profissionais do marido muitas vezes não coincidem com a afirmação de seu valor social; ao passo que a mulher, não solicitada por algum trabalho, pode confinar-se na convivência com seus pares; de mais, tem ela os lazeres de assegurar em suas "visitas" e suas recepções ' essas relações praticamente inúteis e que, bem entendido, só têm importância nas categorias aplicadas em manter sua posição na hierarquia social, isto é, que se julgam superiores a certas outras. Seu interior, sua própria figura que marido e filhos não veem, por neles se acharem envolvidos, ela se encanta com os exibir. Seu dever mundano, que é "representar , confunde-se com o prazer que sente em se mostrar.  
     E, primeiramente, é preciso que ela se represente a si mesma; em casa, atenta a suas ocupações, ela está simplesmente vestida: para sair, para receber ela "se arranja". A toilette tem um duplo caráter: destina-se a manifestar a dignidade social da mulher (padrão de vida, fortuna, o meio a que pertence), mas ao mesmo tempo concretiza o narcisismo feminino; é uma libré e um adorno; através dela, a mulher que sofre por não fazer nada, acredita exprimir o seu ser. Cuidar de sua beleza, arranjar-se é uma espécie de trabalho que lhe permite apropriar-se de sua pessoa como se apropria do lar pelo seu trabalho caseiro; seu eu parece-lhe, então, escolhido e recriado por si mesma. Os costumes incitam-na a alienar-se assim em sua imagem. As roupas do homem, como seu corpo, devem indicar sua transcendência e não deter o olhar¹; para ele, nem a elegância nem a beleza consistem em se constituir em objeto; por isso não considera, normalmente, sua aparência como reflexo de seu ser. Ao contrário, a própria sociedade pede à mulher que se faça objeto erótico. O objetivo das modas, às quais está escravizada, não é revelá-la como um indivíduo autônomo, mas ao contrário privá-la de sua transcendência para oferecê-la como uma presa aos desejos masculinos; não se procura servir seus projetos mas, ao contrário, entravá-los. A saia é menos cômoda do que as calças, os sapatos de salto alto atrapalham o andar; os vestidos e os escarpins menos práticos, os chapéus e as meias mais frágeis é que são os mais elegantes; o vestido, quer fantasie, deforme ou modele o corpo, em todo caso o expõe aos olhares. Por isso é a toilette um jogo encantador para a menina que almeja contemplar-se; mais tarde, sua autonomia de criança insurge-se contra os constrangimentos das musselinas claras e dos sapatos de verniz; na idade ingrata ela hesita entre o desejo e a recusa de se exibir; quando aceita sua vocação de objeto sexual, compraz-se em se enfeitar.

[1] Ver vol. I. Há exceção para os pederastas que, precisamente, se apreendem como objetos sexuais; e também para os dândis, que de veríamos estudar em separado. Hoje, em particular, o zuitsuitismo dos negros dos Estados Unidos, que se vestem com roupas claras de corte extravagante, explica-se por motivos muito complexos.

     Pelo adorno, dissemo-lo (Vol. I), a mulher aparenta-se à natureza, embora emprestando-lhe a necessidade do artifício; torna-se, para o homem, a flor e a gema: e também para si mesma. Antes de dar-lhe as ondulações da água, a doçura quente das peles, delas se apropria. Mais intimamente do que sobre os bibelôs, os tapetes, as almofadas, os ramilhetes, ela reina sobre as plumas, as pérolas, os brocados, as sedas que mistura à sua carne; seu aspecto cambiante, seu doce contato compensam a aspereza do universo erótico que é seu quinhão: dá a tais coisas um valor tanto maior quanto mais insatisfeita sua sensualidade. Se muitas lésbicas se vestem virilmente não é somente para imitar o homem e desafiar a sociedade: elas não precisam das carícias do veludo e do cetim porque lhes apreendem as qualidades passivas em um corpo feminino² . A mulher votada ao rude amplexo masculino — ainda que o aprecie e, mais ainda, se o suporta sem prazer — não pode abraçar outra presa carnal que não seu próprio corpo: perfuma-o para mudá-lo em flor e o brilho dos diamantes que pendura ao pescoço não se distingue do de sua carne; a fim de os possuir, identifica-se com todas as riquezas do mundo. E não visa somente os tesouros sensuais, mas também, por vezes, os valores sentimentais, ideais. Tal joia é uma recordação, tal outra um símbolo. Há mulheres que se fazem ramilhete, outras viveiros de pássaros, outras são museus, outras hieróglifos. Georgette Leblanc diz-nos, em suas Mémoires, evocando os anos de sua juventude:

Andava sempre vestida como um quadro. Passeava de Van Eyck, alegoria de Rubens ou Virgem de Memling. Vejo-me ainda através sando uma rua de Bruxelas, num dia de inverno, com um vestido de veludo cor de ametista ornado de galões e prata tirados de uma casula. Arrastando uma cauda comprida de que me houvera parecido desprezível cuidar, varria conscienciosamente as calçadas. Minha touca amarela de pele enquadrava meus cabelos louros, mas o mais insólito era o diamante incrustado em cadeia de ouro que usava na fronte. Por que tudo isso? Simplesmente porque me agradava e porque, desse modo, eu acreditava viver à margem de qualquer convenção. Quanto mais riam quando eu passava, mais eu me despendia em invenções grotescas. Teria tido vergonha de mudar qualquer coisa em meu aspecto porque zombavam dele. Isso se me afigurava uma capitulação degradante. . . Em casa era ainda mais. Os anjos de Gozzoli, de Fra Angelico, os Burne Jones, os Watts eram meus modelos. Andava sempre vestida de azul e de aurora; 'meus vestidos amplos espalhavam-se em múltiplas caudas em torno de mim. 

[2] Sandor, cujo caso Krafft-Ebbing relatou, adorava as mulheres vestidas, mas não "se arranjava".

     É nos hospícios que se encontram os mais belos exemplos dessa apropriação mágica do universo. A mulher, que não controla seu amor pelos objetos preciosos e pelos símbolos, esquece sua própria imagem e arrisca-se a vestir-se com extravagância. Assim é que a menina vê principalmente em sua toalete uma fantasia que a transforma em fada, em rainha, em flor; acredita ser bela quando se sobrecarrega de guirlandas e de fitas porque se identifica com esses ouropéis maravilhosos; encantada com a cor de um tecido, a moça ingênua não nota o tom lívido que se reflete em seu rosto. Depara-se também com esse mau gosto generoso em adultas artistas ou intelectuais mais fascinadas pelo mundo exterior do que conscientes de sua própria figura: apaixonadas por esses tecidos antigos, por essas joias velhas encantam-se com evocar a China ou a Idade Média e só deitam ao espelho um olhar rápido ou prevenido. Espantamo-nos, por vezes, com os estranhos e ridículos atavios que tanto agradam às mulheres idosas: diademas, rendas, vestidos provocantes, colares barrocos, chamam desagradavelmente a atenção para a ruí na dos rostos. Isso ocorre amiúde porque, tendo renunciado a seduzir, a toalete se torna para elas um jogo gratuito como na infância. Uma mulher elegante, ao contrário, pode a rigor tirar da toalete prazeres sensuais ou estéticos, mas é preciso que os concilie com a harmonia de sua imagem. A cor do vestido tem que lhe favorecer a tez, o corte acentuar ou retificar a linha; é dela própria enfeitada que gosta com complacência e não dos objetos que a enfeitam.
     A toalete não é simplesmente um adorno: exprime, já o dissemos, a situação social da mulher. Somente a prostituta, cuja função é exclusivamente a de um objeto erótico, deve manifestar-se sob esse aspecto único; como outrora, os cabelos cor de açafrão e as flores do vestido, boje os saltos altos, os cetins colantes, a maquilagem violenta, os perfumes pesados anunciam--lhe a profissão. A qualquer outra mulher censuram-lhe "vestir--se como uma puta". Suas virtudes eróticas acham-se integra das na vida social e não devem apresentar-se senão sob esse aspecto bem comportado. Mas é preciso acentuar que a decência não consiste em se vestir com rigoroso recato. Uma mulher que solicita por demais abertamente o desejo do macho é mal vista; mas a que parece repudiá-lo não é muito mais recomendável: pensam que ela quer masculinizar-se, que é uma lésbica; ou singularizar-se: é uma excêntrica; recusando seu papel de objeto, desafia a sociedade: é uma anarquista. Se deseja tão somente não ser notada, cumpre que conserve sua feminilidade. São os costumes que regulamentam o compromisso entre o exibicionismo e o pudor; ora é o colo, ora o tornozelo que a mulher honesta deve esconder; ora a moça tem o direito de acentuar seus encantos a fim de atrair os pretendentes, enquanto a mulher casada renuncia a quaisquer adornos, ora impõem-se às moças toaletes vaporosas, de cores delicadas e corte discreto, enquanto as mais velhas têm direito a vestidos colantes, tecidos pesados de cores vivas, de cortes provocantes. Num corpo de 16 anos o preto parece vistoso porque a regra é não usá-lo1. É naturalmente necessário dobrar-se a tais leis; mas em todo caso, mesmo nos meios mais austeros, o caráter sexual da mulher será acentuado; uma mulher de pastor protestante ondula os cabelos, pinta-se ligeiramente, segue a moda com discrição, assinalando, com preocupação de seu encanto físico, que aceita seu papel de fêmea. Essa integração do erotismo na vida social é particularmente evidente nos "vestidos de noite". Para significar que há festa, isto é, luxo e desperdício, esses vestidos devem ser caros e frágeis, tão incômodos quanto possível; as saias são tão compridas, tão largas ou tão estreitas que atrapalham o andar; por baixo das joias, das anáguas, das lantejoulas, das flores, das plumas, das perucas, a mulher é transformada em boneca de carne; mesmo essa carne se exibe; assim como gratuitamente desabrocham as flores, a mulher exibe os ombros, o dorso, o seio; a não ser em orgias, o homem não deve mostrar que a deseja: só tem direito aos olhares e aos amplexos da dança; mas pode encantar-se com ser o rei de um mundo de tão doces tesouros. De homem para homem, a festa assume então um ar de potlatch; cada qual oferece como presente, a todos os outros, a visão desse corpo de sua propriedade. Em vestido de noite, a mulher fantasia-se de mulher para o prazer de todos os machos, e o orgulho de seu proprietário.
     Essa significação social da toalete permite à mulher exprimir pela sua maneira de vestir-se sua atitude em relação à sociedade; submetida à ordem estabelecida, ela confere a si mesma uma personalidade discreta e de bom-tom; muitos matizes são possíveis: ela se fará frágil, infantil, misteriosa, cândida, austera, alegre, distinta, algo ousada, apagada, segundo sua vontade. Ou, ao contrário, ela se afirmará pela originalidade, hostilidade as convenções. É de notar que em muitos romances a mulher livre" se singularize por uma ousadia de toalete que lhe acentua o caráter de objeto sexual e portanto de dependência. Assim, em This age o/ innocence, de Edith Wbarton, a jovem divorciada de passado aventuroso, de coração audacioso, é primeiramente apresentada como exageradamente decotada; o arrepio de escândalo que suscita devolve-lhe o reflexo tangível de seu desprezo ao conformismo. Assim, a jovem divertir-se-á em vestir-se como mulher, a mulher idosa como menina, a cortesã como mulher da sociedade e esta como vamp, Ainda que cada qual se vista segundo sua condição, há nisso, também, um jogo. O artifício, como a arte, situa-se no imaginário. Não somente bainhas, porta-seios, tingimentos, maquilagens fantasiam corpo e rosto, mas a mulher menos sofisticada, desde que se "vista", não se propõe à percepção: é como o quadro, a estátua, como o ator no palco, um analogon através do qual é sugerido um objeto ausente que é sua personagem mas que ela não é. É essa confusão com um objeto irreal, necessário, perfeito como um herói de romance, como um retrato ou um busto que a lisonjeia; ela se esforça por se alienar nele ou se apresentar a si mesma petrificada, justificada. 
     É assim que, através dos Écrits intimes, de Maria Bashkirtseff, nós a vemos em cada página multiplicar infatigavelmente sua imagem. Não nos poupa nenhum de seus vestidos: a cada nova toalete ela se acredita diferente e se adora novamente.

   Peguei um xale grande de mamãe, abri uma fenda para a cabeça e costurei-o de ambos os lados. Esse xale que cai em pregas clássicas dá-me um ar oriental, bíblico, estranho.
   Vou ao Laferrière e Carolina em três horas faz-me um vestido dentro do qual pareço estar envolvida numa nuvem. É tudo uma peça de crepe inglês com que ela me envolve e que me torna esbelta, elegante, alongada. 
   Envolta num vestido de lã quente de pregas harmônicas, uma figura de Lefebvre, que tão bem sabe desenhar esses corpos flexíveis e jovens em roupagens pudicas. 

     Esse estribilho repete-se diariamente: "Estava encantadora de preto. .. Estava encantadora de cinza. .. Estava de branco, encantadora".
     Mme de Noailles, que dava também muita importância a seus adornos, evoca com tristeza em suas Mémoires o drama de um vestido falhado.

   Gostava da vivacidade das cores, de seu contraste audacioso, um vestido parecia-me uma paisagem, uma isca para o destino, uma promessa de aventura. No momento de vestir o vestido executado por mãos hesitantes, não deixava nunca de sofrer com todos os defeitos que me eram revelados.


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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (1)  
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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