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terça-feira, 25 de agosto de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (5)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO VI
SITUAÇÃO E CARÁTER DA MULHER
 continuando...

     Há uma justificação, uma compensação suprema que a sociedade sempre se esforçou por dispensar à mulher: a religião. É preciso uma religião para as mulheres, como é preciso uma para o povo, e exatamente pelas mesmas razoes: quando condenam um sexo, uma classe à imanência, é necessário oferecer-lhe a miragem de uma transcendência. O homem tem toda vantagem em fazer endossar por Deus os códigos que fabrica: e, particularmente, como exerce sobre a mulher uma autoridade soberana é útil que esta lhe seja conferida pelo ser soberano. Entre os judeus, os maometanos, os cristãos, entre outros, o homem é senhor por direito divino: o temor a Deus abafará no oprimido toda veleidade de revolta. Pode-se apostar em sua credulidade. A mulher adota em face do universo masculino uma atitude de respeito e de fé; Deus em seu céu aparece-lhe menos longínquo do que um ministro e o mistério da gênese nivela-se ao das usinas elétricas. Mas se se entrega assim de bom grado à religião, é principalmente porque esta vem satisfazer uma necessidade profunda. Na civilização moderna, que dá certo valor — mesmo quando se trata da mulher — à liberdade, a religião apresenta-se muito menos como um instrumento de constrangimento do que como um instrumento de mistificação. O que se pede à mulher é menos que aceite sua inferioridade em nome de Deus do que acredite ser, graças a ele, igual ao macho suserano. Suprime-se a própria tentação de uma revolta que pretende vencer a injustiça. A mulher não é mais frustrada de sua transcendência porque vai destinar sua imanência a Deus; é somente no céu que se medem os méritos das almas segundo suas realizações terrestres; aqui só há, na expressão de Dostoiewski, ocupações: engraxar sapatos ou construir uma ponte, tudo é igual mente vaidade; para além das discriminações sociais, a igualda de dos sexos é restabelecida. Eis por que a menina e a adolescente mergulham na devoção com um fervor muito maior do que o de seus irmãos; o olhar de Deus, que transcende sua transcendência humilha o menino: permanecerá sempre uma criança sob essa tutela poderosa, é uma castração mais radical do que aquela a que se sente ameaçado pela existência do pai. Ao passo que a "eterna criança" encontra sua salvação nesse olhar que a metamorfoseia em uma irmã dos anjos; anula o privilégio do pênis. Uma fé sincera auxilia muito a menina a evitar todo com plexo de inferioridade: ela não é macho nem fêmea e sim uma criatura de Deus. Eis por que encontramos em muitas grandes santas uma firmeza bem viril: Santa Brígida, Santa Catarina de Siena pretendiam arrogantemente reger o mundo, não reconheciam nenhuma autoridade masculina: Catarina dirigia mesmo com dureza seus diretores; Joana d'Arc, Santa Teresa seguiam seu caminho com uma intrepidez que nenhum homem superou.
     A Igreja cuida de que Deus nunca autorize as mulheres a se subtraírem à tutela dos homens; colocou exclusivamente em mãos masculinas estas armas terríveis: recusa de absolvição, excomunhão; obstinada em suas visões, Joana d'Arc foi queimada. Entretanto, embora submetida à lei dos homens pela própria vontade de Deus, a mulher encontra nele um sólido recurso contra eles. A lógica masculina é contestada pelos mistérios; o orgulho dos homens torna-se um pecado, sua agitação é não somente absurda mas culpada: por que refazer, remodelar este mundo que Deus criou? A passividade a que a mulher é votada é santificada. Debulhando o rosário junto à lareira, sente-se ela mais próxima do céu do que o marido, que participa de comícios políticos. Não é preciso fazer nada para salvar a alma, basta viver sem desobedecer. Consuma-se a síntese da vida e do espírito: a mãe não engendra apenas uma carne, dá a Deus uma alma; é uma obra mais elevada do que descobrir os segredos fúteis do átomo. Com a cumplicidade do pai celeste, a mulher pode reivindicar altivamente a glória de sua feminilidade.
     Não somente Deus restabelece, assim, o sexo feminino em geral em sua dignidade, como ainda cada mulher desta maneira encontra na celeste ausência um apoio singular; enquanto pessoa humana, ela não pesa muito; mas, desde que age em nome de uma inspiração divina, suas vontades tornam-se sagradas. Mme Guyon diz que aprendeu, a propósito da doença de uma religiosa, "o que era comandar pelo Verbo e obedecer pelo mesmo Verbo"; assim a devota mascara de obediência humilde sua autoridade; educando os filhos, dirigindo um convento, organizando uma obra, é apenas um instrumento dócil em mãos sobrenaturais; não se pode desobedecer-lhe sem ofender a Deus. Por certo os homens não desdenham tampouco um tal apoio; mas este não é muito sólido quando enfrentam semelhantes que o podem também reivindicar: o conflito resolve-se finalmente num plano humano. A mulher invoca a vontade divina para justificar absolutamente sua autoridade aos olhos dos que já lhe são naturalmente subordinados, para justificá-la aos próprios olhos. Se essa cooperação lhe é tão útil é porque ela se ocupa principalmente de suas relações consigo mesma — ainda que essas relações interessem a outrem: é somente nesses debates interiores que o silêncio supremo pode ter força de lei. Em verdade, a mulher vale-se da religião como pretexto para satisfazer seus desejos. Fria, masoquista, sádica, santifica-se renunciando à carne, fazendo-se de vítima, abafando em si qualquer impulso vital; mutilando-se, aniquilando-se, sobe na hierarquia dos eleitos; quando martiriza marido e filhos, privando-os de toda felicidade terrestre, prepara-lhes um lugar especial no paraíso; Margarida de Cortona "para se punir de ter pecado", dizem-no seus dois biógrafos, maltrata o filho de seu erro: só lhe dava comida depois de ter alimentado todos os mendigos; o ódio do filho não desejado é, como vimos, frequente: é uma dádiva poder entregar-se a ele com um ardor virtuoso. Por seu lado, uma mulher de moral pouco rigorosa arranja-se comodamente com Deus; a certeza de ser um dia redimida do pecado pela absolvição ajuda muitas vezes a mulher piedosa a vencer seus escrúpulos. Que tenha escolhido o ascetismo ou a sensualidade, o orgulho ou a humildade, a preocupação que tem de sua salvação encoraja-a a entregar-se a esse prazer que sobrepõe a todos: ocupar-se de si; escuta os movimentos do coração, espia os frêmitos de sua carne, justificada pela presença nela da graça, como a mulher grávida pela de seu fruto. Não somente se examina com terna vigilância, como ainda revela-se a seu confessor; em tempos idos podia mesmo gozar a embriaguez das confissões públicas. Contam-nos que Margarida de Cortona, para se punir de um impulso de vaidade, subiu ao terraço de sua casa e pôs-se a dar berros como uma parturiente: "Levantai-vos, habitantes de Cortona, levantai-vos com círios e lanternas e saí para ouvirdes a pecadora!" Enumerava todos os seus pecados clamando sua miséria aos céus. Com essa rui dosa humildade, satisfazia essa necessidade de exibicionismo de que se encontram tantos exemplos nas mulheres narcisistas. A religião autoriza na mulher a complacência para consigo mesma; dá-lhe o guia, o pai, o amante, a divindade tutelar de que ela tem nostálgica necessidade, alimenta-lhe os devaneios, ocupa-lhe as horas vazias. Mas, principalmente, confirma a ordem do mundo, justifica a resignação dando a esperança de um futuro melhor em um céu assexuado. Eis por que as mulheres são ainda hoje um trunfo tão poderoso nas mãos da Igreja; eis por que a Igreja é tão hostil a qualquer medida suscetível de facilitar a emancipação da mulher. É preciso uma religião para as mulheres: é preciso mulheres, "mulheres de verdade" para perpetuarem a religião. 
     Vê-se que o conjunto do "caráter" da mulher — convicções, valores, sabedoria, moral, gostos e condutas — se explica pela sua situação. O fato de sua transcendência lhe ser recusada, interdita-lhe normalmente o acesso às mais elevadas atitudes humanas: heroísmo, revolta, desprendimento, invenção, criação; mas, mesmo entre os homens, elas não são tão comuns. Há muitos homens que, como a mulher, se confinam no terreno do intermediário, do meio inessencial; o operário evade-se pela ação política, exprimindo uma vontade revolucionária, mas os homens das classes que precisamente chamamos "classes médias" instalam--se deliberadamente nesse meio inessencial; destinados como a mulher à repetição das tarefas quotidianas, alienados em valores convencionais, respeitosos da opinião e procurando apenas um vago conforto na terra, o empregado, o comerciante, o burocrata, não detêm nenhuma superioridade sobre suas companheiras; cozinhando, lavando, dirigindo a casa, educando os filhos, ela, a companheira, manifesta mais iniciativa e independência do que o homem escravizado a palavras de ordem; ele deve obedecer o dia inteiro a seus superiores, usar colarinho e afirmar sua posição social; ela pode arrastar-se de roupão pelo apartamento, cantar, rir com as vizinhas; age como bem entende, corre pequenos riscos, procura alcançar eficientemente certos resultados. Vive muito menos do que o marido dentro de convenções e de aparência. O universo burocrático que Kafka — entre outras coisas — descreveu, esse universo de cerimônias, de gestos absurdos, de condutas sem objetivo, é essencialmente masculino; ela está muito mais em contato com a realidade. Quando acaba de alinhar cifras ou de converter latas de sardinha em dinheiro, só aprendeu abstrações; a criança alimentada no berço, a roupa limpa, o assado são bens mais tangíveis; entretanto, como na perseguição concreta desses fins ela experimenta a contingência deles — e correlativamente sua própria contingência — ocorre muitas vezes que não se aliene neles; permanece disponível. As empresas do homem são a um tempo projetos e fugas: ele se deixa devorar pela carreira, pela sua personagem; é amiúde importante, sério; contestando a lógica e a moral masculinas, ela não cai nessas armadilhas: é o que Stendhal tanto apreciava nela; não elide no orgulho a ambiguidade de sua condição; não se esconde atrás da máscara da dignidade humana; descobre com mais sinceridade seus pensamentos indisciplinados, suas emoções, suas reações espontâneas. Eis por que sua conversa é muito menos tediosa do que a do marido, desde que fale em seu próprio nome e não como leal metade de seu senhor. Ele enuncia ideias ditas gerais, isto é, palavras, fórmulas que se encontram nas colunas de seu jornal ou em obras especializadas; ela oferece uma experiência limitada mas concreta. A famosa "sensibilidade feminina" participa um pouco do mito, um pouco da comédia; mas o fato é, também, que a mulher se mostra mais atenta do que o homem a si mesma e ao mundo. Sexualmente, vive num clima masculino, que é áspero: tem como compensação o gosto das "coisas bonitas", o que pode engendrar certo pieguismo mas igualmente delicadeza. Como seu domínio é limitado, os objetos que alcança parecem-lhe preciosos: não os encerrando em conceitos, nem em projetos, desvenda-lhes as riquezas; seu desejo de evasão exprime-se em seu gosto pela festa; encanta-se com a gratuidade de um ramalhete de flores, de um bolo, de uma mesa bem posta; compraz-se em transformar o vazio de seus lazeres em uma oferenda generosa; amando os risos, as canções, os enfeites, os bibelôs, está disposta a acolher tudo o que palpita ao redor dela: o espetáculo da rua, o do céu, um convite, um passeio abrem-lhe novos horizontes. O homem, muitas vezes, recusa-se a participar desses prazeres; quando volta para casa as vozes alegres calam-se, as mulheres da família exibem o ar aborrecido e decente que ele espera delas. Do seio da solidão, da separação, a mulher tira o sentido da singularidade de sua vida: tem do passado, da morte, do correr do tempo, uma experiência mais íntima que o homem; interessa-se pelas aventuras de seu coração, de sua carne, de seu espírito, porque sabe que não tem na terra outro quinhão; e também, por ser passiva, sofre a realidade que a submerge de maneira mais apaixonada, mais patética do que o indivíduo absorvido por uma ambição, por um ofício; tem o lazer e o gosto de se entregar a suas emoções, de estudar suas sensações e entender-lhes o sentido. Quando sua imaginação não se perde em devaneios vãos, torna-se simpatia: ela procura compreender os outros em sua singularidade e recriá-los em si; é capaz de uma verdadeira identificação com o marido ou com o amante: faz seus os projetos e as preocupações dele, de uma maneira que ele não poderia imitar. Presta uma atenção ansiosa ao mundo inteiro, que se lhe apresenta como um enigma: cada ser, cada objeto pode ser uma resposta; ela interroga avidamente. Quando envelhece, sua espera desiludida converte-se em ironia e num cinismo amiúde saboroso; recusa as mistificações masculinas, vê o inverso contingente, absurdo, gratuito do imponente edifício construído pelos homens. Sua dependência proíbe-lhe o desprendimento; mas ela haure, por vezes, da dedicação que lhe é imposta, uma verdadeira generosidade; esquece-se em favor do marido, do amante, do filho, deixa de pensar em si, é toda oferenda, dom. Sendo mal adaptada à sociedade dos homens, e frequentemente obrigada a inventar ela própria suas condutas; pode contentar-se menos com receitas, com clichês; se tem boa vontade, há nela uma inquietação mais próxima da autenticidade do que a segurança importante do esposo.
     Mas ela só terá esses privilégios sobre o homem sob a condição de rechaçar as mistificações que ele lhe propõe. Nas classes superiores, as mulheres fazem-se ardentemente cúmplices de seus senhores porque desejam aproveitar-se dos benefícios que eles lhes asseguram. Vimos que as grandes burguesas, as aristocratas sempre defenderam seus interesses de classe mais obstinadamente ainda do que seus maridos: não hesitam em sacrificar a esses interesses sua autonomia de ser humano; abafam em si todo pensamento, todo juízo crítico, todo impulso espontâneo; repetem como papagaios as opiniões aceitas, confundem-se com o ideal que o código masculino lhes impõe; em seu coração, em seu rosto mesmo, toda sinceridade morre. A dona de casa reencontra uma independência em seu trabalho, no cuidado dos filhos; tira disto uma experiência limitada mas concreta: a que se "serve" não tem mais nenhum domínio sobre o mundo; vive no sonho e na abstração, no vazio. Ela ignora o alcance das ideias que proclama; as palavras que enuncia perderam em sua boca qualquer sentido; o financista, o industrial, até o general, por vezes, assumem fadigas, preocupações, riscos; compram seus privilégios mediante operações injustas, mas pelo menos se expõem; suas mulheres, em troca de tudo o que recebem, não dão nada, não fazem nada; e acreditam com uma fé tanto mais cega em seus direitos imprescritíveis. Sua arrogância vã, sua incapacidade radical, sua ignorância obstinada fazem delas os seres mais inúteis, mais nulos que produziu a espécie humana.
     É pois tão absurdo falar da "mulher" em geral como do "homem" eterno. E compreende-se por que todas as comparações com que se esforçam por decidir se a mulher é superior, inferior ou igual ao homem são inúteis: as situações são profundamente diferentes. Confrontando-se tais situações, faz-se evidente que a do homem é infinitamente preferível, isto é, ele tem muito mais possibilidades concretas de projetar sua liberdade no mundo; disso resulta necessariamente que as realizações masculinas são de longe mais importantes que as das mulheres; a estas é quase proibido fazer alguma coisa. Entretanto, confrontar o uso que em seus limites os homens e as mulheres fazem de sua liberdade é a priori uma tentativa desprovida de sentido, posto que, precisamente, eles a empregam livremente. Sob for mas diversas, as armadilhas da má-fé, as mistificações da seriedade ameaçam-nos a uns como a outros; a liberdade se encontra inteira em cada um. Somente como permanece abstrata e vazia na mulher, esta só poderia assumir-se autenticamente na revolta: é o único caminho aberto aos que não têm a possibilidade de construir o que quer que seja; cumpre-lhes recusar os limites de sua situação e procurar abrir para si os caminhos do futuro; a resignação não passa de uma demissão e de uma fuga; não há, para a mulher, outra saída senão a de trabalhar pela sua libertação.
     Essa libertação só pode ser coletiva e exige, antes de tudo, que se acabe a evolução econômica da condição feminina. Entre tanto, houve, há ainda, numerosas mulheres que buscam solitariamente realizar sua salvação individual. Tentam justificar sua existência no seio de sua imanência, isto é, realizar a transcendência na imanência. É este último esforço — por vezes ridículo, por vezes patético — da mulher encarcerada para converter sua prisão em um céu de glória, sua servidão em liberdade soberana, que encontramos na narcisista, na amorosa, na mística.

continua página 394...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (5)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"


POR QUE LER 'O SEGUNDO SEXO' DE SIMONE DE BEAUVOIR? | Filosofia | Thaís Lima #03




quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (4)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO VI
SITUAÇÃO E CARÁTER DA MULHER
 continuando...

     Recusando os princípios lógicos, os imperativos morais, cética diante das leis da natureza, a mulher não tem o senso do universal; o mundo apresenta-se-lhe como um conjunto confuso de casos singulares; eis por que acredita mais facilmente nos mexericos de uma vizinha do que numa exposição científica; sem dúvida, respeita o livro impresso, mas esse respeito desliza ao longo das páginas escritas sem apreender-lhes o conteúdo: ao contrário, a anedota contada por um desconhecido numa fila ou num salão reveste-se imediatamente de uma esmagadora autoridade; em seu domínio, tudo é magia; fora, tudo é mistério; ela não conhece o critério da verossimilhança; só a experiência imediata conquista sua convicção, sua própria experiência ou a de outrem, desde que a afirme com suficiente força. Quanto a ela, por se achar isolada em seu lar, não se confronta ativamente com outras mulheres, considera-se espontaneamente como um caso singular; está sempre à espera de que o destino e os homens façam uma exceção em seu favor; muito mais do que nos raciocínios válidos para todos, ela crê nas iluminações que a atravessam; admite facilmente que lhes são enviadas por Deus ou por qual quer espírito obscuro do mundo; com relação a certas desgraças, a certos acidentes, ela pensa tranquilamente: "A mim isso não acontecerá"; inversamente imagina que "para mim haverá uma exceção": o comerciante fará um desconto, ou o guarda a dei xará passar sem que tenha prioridade. Ensinaram-lhe a superestimar o valor de seu sorriso e esqueceram de lhe dizer que todas as mulheres sorriem. Não acontece isso porque ela se imagine mais extraordinária do que sua vizinha, mas sim porque não se compara; pela mesma razão, é raro que a experiência lhe inflija algum desmentido: experimenta um malogro, outro, mas não os totaliza.
     É por isso que as mulheres não conseguem construir solidamente um contra-universo, de onde possam desafiar os homens; esporadicamente, deblateram contra os homens em geral, contam--se histórias de cama e de parto, trocam horóscopos e receitas de beleza. Mas, para edificar realmente esse "mundo do ressenti mento" que seu rancor almeja, carecem de convicção; sua atitude em relação ao homem é demasiado ambivalente. Este é, com efeito, uma criança, um corpo contingente e vulnerável, um ingênuo, um zangão importuno, um tirano mesquinho, um egoísta, um vaidoso: mas é também o" herói libertador, a divindade que distribui valores. Seu desejo é um apetite grosseiro, seus amplexos são uma tarefa degradante: entretanto, o entusiasmo, a força viril apresentam-se também como uma energia demiúrgica. Quando uma mulher diz com êxtase: "É um homem!" evoca ao mesmo tempo o vigor sexual e a eficiência social do macho que admira: em uma e outra coisa se exprime a mesma soberania criadora; ela não imagina que ele seja um grande artista, um grande homem de negócios, um general, um chefe, sem ser um amante vigo roso; os êxitos sociais dele têm sempre uma atração sexual; inversamente, ela se mostra disposta a emprestar gênio ao macho que a satisfaz. É, de resto, um mito masculino que ela retoma aqui. O falo, para Lawrence e muitos outros, é, ao mesmo tempo, uma energia viva e a transcendência humana. Pode assim a mulher ver nos prazeres da cama uma comunhão com o espírito do mundo. Dedicando ao homem um culto místico, perde-se e se reencontra na glória masculina. A contradição é, aqui, facilmente suprimida graças à pluralidade dos indivíduos que participam da virilidade. Alguns — aqueles cuja contingência ela experimenta na vida quotidiana — são a encarnação da miséria humana; em outros exalta-se a grandeza do homem. Mas a mulher aceita até que essas duas figuras se confundam em uma só. "Se eu me tornar célebre, escrevia uma jovem apaixonada por um homem que considerava superior, R... casará certamente comigo porque sua vaidade será lisonjeada; estufaria o peito passeando de braço dado comigo." No entanto, ela o admirava loucamente. O mesmo indivíduo pode muito bem ser, aos olhos da mulher, avarento, mesquinho, vaidoso, irrisório e Deus: afinal os deuses têm suas fraquezas. Temos por um indivíduo que amamos em sua liberdade, em sua humanidade, essa exigente severidade que é o inverso de uma autêntica estima; ao passo que uma mulher ajoelhada diante de seu homem pode muito bem ufanar-se de "saber dominá-lo", de saber "manobrá-lo"; lisonjeia-lhe complacentemente "as pequenas qualidades" sem que êle se dispa de seu prestígio; é a prova de que ela não tem amizade especificamente por sua pessoa, tal qual se realiza em atos reais; ela prosterna-se cegamente diante da essência geral de que o ídolo participa: a virilidade é uma aura sagrada, um valor dado, está tico, que se afirma a despeito das falhas do indivíduo que a tem; este não conta; ao contrário, a mulher, com ciúme de seu privilegio, compraz-se em tomar atitudes de maligna superioridade sobre ele.
     A ambiguidade dos sentimentos que a mulher dedica ao homem reencontra-se em sua atitude geral para consigo mesma e o mundo; o domínio em que se acha encerrada é investido pelo universo masculino; mas é habitado por forças obscuras de que os próprios homens são joguetes. Aliando-se a essas virtudes mágicas, ela conquistará, por sua vez, o poder. A sociedade escraviza a Natureza, mas a Natureza a domina; o Espírito afirma-se além da Vida; mas dissipa-se, se a vida não o sustenta mais. A mulher apoia-se nesse equívoco para dar maior importância a um jardim do que a uma cidade, a uma doença do que a uma ideia, a um parto do que a uma revolução; esforça-se para restabelecer esse reinado da terra, da Mãe, sonhado por Baschoffen a fim de reencontrar o essencial em face do inessencial. Mas como é, ela também, um existente que habita uma transcendência, só poderá valorizar a região em que se acha confinada transfigurando-a; empresta-lhe uma dimensão transcendente. O homem vive num universo coerente que é uma realidade pensada. A mulher está às voltas com uma realidade mágica que não se deixa pensar: ela se evade dela através de pensamentos privados de conteúdo real. Ao invés de assumir sua existência, contem plano céu a pura Ideia de seu destino; em vez de agir, ergue sua estátua no imaginário; em vez de raciocinar, sonha. Daí vem que sendo "tão física" seja também tão artificial, que sendo tão terrestre se faça tão etérea. Passa a vida limpando caçarolas e é um romance maravilhoso; vassala do homem, acredita ser seu ídolo; humilhada em sua carne, exalta o amor. Porque está condenada a só conhecer a facticidade contingente da vida, faz-se sacerdotisa do Ideal.
     Essa ambivalência marca-se na maneira por que a mulher apreende o próprio corpo. É um fardo; roído pela espécie, sangrando todos os meses, proliferando passivamente, não é para ela o instrumento puro de seu domínio sobre o mundo, mas uma presença opaca; não lhe assegura com certeza o prazer e cria dores que a atormentam; encerra ameaças: ela sente-se em perigo nos seus "interiores". É um corpo "histérico", por causa das íntimas ligações das secreções endócrinas com os sistemas nervoso e simpático que comandam músculos e vísceras; exprime reações que a mulher se recusa a assumir: nos soluços, nas convulsões, nos vômitos, ele lhe escapa, ele a trai; ele é sua verdade mais íntima, mas é uma verdade vergonhosa e que ela esconde. E, no entanto, ele é também seu duplo maravilhoso; ela contempla-o com deslumbramento ao espelho; é promessa de felicidade, obra de arte, estátua viva; ela o modela, enfeita, exibe. Quando se sorri ao espelho, ela esquece sua contingência carnal; no amplexo amoroso, na maternidade, a imagem aniquila-se. Mas, amiúde, sonhando consigo mesma, ela se espanta com ser ao mesmo tempo essa heroína e essa carne.
     A Natureza oferece-lhe simetricamente uma dupla face: ela trata da sopa e incita às efusões místicas. Tornando-se dona de casa mãe, a mulher renuncia a suas livres escapadas por prados bosques, prefere cultivar calmamente sua horta, domestica flores coloca-as em vasos; entretanto, exalta-se ainda diante dos luares e dos crepúsculos. Na fauna e na flora terrestres, ela vê antes de tudo alimentos, ornatos; no entanto, nelas circula uma seiva que é generosidade e magia. A Vida não é apenas imanência e repetição: tem também uma deslumbrante face de luz; nos prados em flor ela se revela como Beleza. Ligada à Natureza pela fertilidade de seu ventre, a mulher sente-se igualmente varrida pelo sopro que a anima e que é espírito. E na medida em que permanecer insatisfeita, em que se sentir como a jovem irrealizada, ilimitada, sua alma também se engolfará pelas estra das indefinidamente desenroladas em direção a horizontes ilimitados. Escravizada ao marido, aos filhos, ao lar, com embriaguez é que se encontrará sozinha, soberana, no flanco das colinas; não é mais esposa, mãe, dona de casa, e sim um ser humano; contempla o mundo passivo; lembra-se de que é toda uma consciência, uma irredutível liberdade. No mistério da água, na vertigem das alturas, a supremacia do homem fica abolida; quando anda através das urzes, quando mergulha a mão no regato, não vive para outrem, vive para si. A mulher que manteve sua independência através de todas as suas servidões, amará ardentemente na Natureza sua própria liberdade. As outras nessa Natureza encontrarão somente um pretexto para êxtases distintos; hesitarão ao crepúsculo ante o receio de pegar um resfriado e o gozo intenso da alma.
     Essa dupla dependência do mundo carnal e do mundo "poético define a metafísica, a sabedoria a que adere mais ou menos explicitamente a mulher; ela se esforça por confundir vida e transcendência; isso equivale a dizer que recusa o cartesianismo e todas as doutrinas que a ele se aparentam; encontra-se à vontade em um naturalismo análogo ao dos estoicos ou dos neoplatônicos do século XVI: não é de espantar que as mulheres, com Margarida de Navarra à frente, se tenham apegado a uma filosofia ao mesmo tempo tão material e tão espiritual. Socialmente maniqueísta, a mulher tem profunda necessidade de ser ontologicamente otimista: as morais da ação não lhe convém porque lhe é proibido agir; ela suporta o dado, cumpre, por tanto, que o dado seja o Bem; mas um Bem que como o de Espinosa se reconhece pela razão, ou como o de Leibniz pelo uma Harmonia viva e no seio do qual ela se situa pelo único fato de viver. A noção de harmonia é uma das chaves do uni verso feminino: implica a perfeição na imobilidade, a justificação imediata de cada elemento a partir do todo e sua participação passiva na totalidade. Em um mundo harmônico, a mulher atinge, assim, o que o homem procurará na ação: age sobre o mundo, é por ele exigida, coopera para o triunfo do Bem. Os momentos que as mulheres consideram como revelações são aqueles em que descobrem seu acordo com uma realidade repousando em paz sobre si mesma: são os momentos de luminosa felicidade que V. Woolf — em Mrs. Dalloway, em Passeio ao Farol — que K. Mansfield, em toda a sua obra, concedem a suas heroínas como uma recompensa suprema. A alegria, que é um movimento, um impulso de liberdade, está reservada ao homem; o que a mulher conhece é uma impressão de sorridente plenitude¹. Compreende-se que a simples ataraxia possa assumir a seus olhos um grande valor, porquanto ela vive normalmente na tensão da recusa, da recriminação, da reivindicação; e não se pode censurá-la por apreciar uma bela tarde ou a doçura de uma noite. Mas é uma ilusão buscar nisso a definição verdadeira da alma recôndita do mundo. O Bem não é; o mundo não é harmonia e nenhum indivíduo tem nele um lugar necessário.

[1] Entre um punhado de textos, citarei estas linhas de Mabel Dodge, em que a passavam a uma visão global dó mundo não se acha explícita mas é claramente sugerida. "Era um dia calmo de outono, todo ouro e púrpura, Frieda e eu escolhíamos frutas e estávamos sentadas no chão, com as maçãs vermelhas empilhadas ao redor de nós. Tínhamos parado um momento. O sol e a terra fecunda aqueciam-nos e perfumavam-nos e as maçãs eram sinais vivos de plenitude, de paz e abundância. A terra transbordava uma seiva que nos escorria nas veias e sentíamo-nos alegres, indomáveis e carregadas de riquezas! como vergéis. Por um minuto estávamos unidas nesse sentimentos que as mulheres têm por vezes de ser perfeitas, de se bastar inteiramente a si mesmas, e que provinha de. nossa saúde rica e feliz."

continua página 386...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (4)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

terça-feira, 4 de agosto de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (3)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO VI
SITUAÇÃO E CARÁTER DA MULHER
 continuando...

     Se as lágrimas não bastam para lhe exprimir a revolta, ela se entregará a cenas cuja violência incoerente desnorteará ainda mais o homem. Em certos meios, o homem espanca a mulher; em outros, precisamente porque é o mais forte e porque seu punho é um instrumento eficaz, ele evita toda violência. Mas a mulher, como a criança, entrega-se a crises simbólicas: pode jogar-se contra o homem, arranhá-lo; são gestos apenas. Mas, principalmente, ela se põe a mimar em seu corpo, através de ataques de nervos, as recusas que não pode concretamente realizar. Não é somente por razões fisiológicas que ela é sujeita a manifestações convulsivas: a convulsão é uma interiorização de uma energia que, jogada no mundo, malogra em apreender qualquer objeto; é um dispêndio no vácuo de todas as potências de negação sus citadas pela situação. A mãe raramente tem crises de nervos em face de seus filhos pequenos porque os pode bater, punir: é em face do filho crescido, do marido, do amante, sobre os quais não tem influência, que a mulher se entrega a desesperos furiosos. As cenas histéricas de Sofia Tolstoi são significativas; sem dúvida ela cometeu o grande erro de nunca ter procurado entender o marido e através de seu diário não parece nem generosa, nem sensível, nem sincera, e está longe de se nos afigurar uma pessoa atraente; mas, tenha ou não tido razão, em nada modifica sua situação: durante toda a vida apenas suportou, através de constantes recriminações, os amplexos conjugais, as maternidades, a solidão, o modo de vida que seu marido lhe impunha; quando as novas decisões de Tolstoi exasperaram o conflito, ela se encontrou sem armas contra a vontade inimiga, que recusava com toda a sua vontade impotente; jogou-se em comédias de recusa — falsos suicídios, falsas doenças etc. — odiosas aos seus e exaustivas para ela própria: não vemos que outra saída lhe restava, posto que não tinha nenhuma razão positiva para calar seus sentimentos de revolta, e nenhum meio eficiente de exprimi-los.
     Há uma saída para a mulher que chega ao fim de sua recusa: suicídio. Mas parece que o emprega menos amiúde do que o homem. As estatísticas são muito ambíguas a esse respeito¹. Considerando os suicídios, há muito mais homens do que mulheres que atentam contra a vida; mas as tentativas de suicídio são mais frequentes entre as mulheres. Talvez porque se contentem o mais das vezes com comédias: representam o suicídio mais do que o homem, querem-no mais raramente. Isso também, em parte, porque os meios brutais lhes repugnam: quase nunca empregam armas brancas, nem armas de fogo. Afogam-se de bom grado, como Ofélia, manifestando a afinidade da mulher com a água passiva e noturna e na qual parece que a vida pode passivamente dissolver-se. Em conjunto, observa-se aqui a ambiguidade que já assinalei: a mulher não procura sinceramente largar o que detesta. Representa o drama da ruptura, mas finalmente fica com o homem que a faz sofrer; finge abandonar a vida que a molesta mas é relativamente raro que se mate. Não gosta das soluções definitivas: protesta contra o homem, contra a vida, contra sua condição, mas não se evade.

[1] Ver Halbwachs, Les Causes du Suicide.

     Há muitas condutas femininas que devem ser interpretadas como protestos. Vimos que muitas vezes a mulher engana o marido por desafio, não por prazer; será avoada e gastadora só porque ele é metódico e econômico. Os misóginos que acusam a mulher de "estar sempre atrasada" pensam que ela carece do "senso da exatidão". Na verdade, vimos como se dobra docilmente às exigências do tempo. Seus atrasos são deliberadamente consentidos. Certas coquetes acreditam exasperar assim o desejo do homem e dar tanto maior valor à própria presença; mas, infligindo ao homem alguns momentos de espera, a mulher protesta principalmente contra a longa espera que é a sua própria vida. Em certo sentido, toda a sua existência é uma espera, pois que está encerrada no limbo da imanência, da contingência e que sua justificação se acha sempre nas mãos de outrem; ela espera as homenagens, os sufrágios masculinos, espera o amor, a gratidão e os elogios do marido, do amante; espera deles suas razões de existir, seu valor e seu próprio ser. Deles espera a subsistência: que tenha em mãos o talão de cheques ou que receba semanal ou mensalmente as importâncias que o marido lhe outorga, é preciso que ele receba, que tenha conseguido esse aumento para que ela possa pagar ao vendeiro ou comprar um vestido novo. Ela espera a presença dele; sua dependência econômica coloca-a à disposição dele; ela é apenas um elemento da vida masculina ao passo que o homem é toda sua vida; o marido tem ocupações fora do lar, a mulher suporta-lhe a ausência ao longo dos dias; é o amante — ainda que apaixonado — que decide das separações e dos encontros de acordo com as obrigações que tem. Na cama, ela aguarda o desejo do homem, espera, por vezes ansiosamente, seu próprio prazer. Tudo o que pode fazer é chegar atrasada ao encontro marcado pelo amante, é não estar pronta na hora que o marido designou; ela afirma assim a importância de suas próprias ocupações, reivindica sua independência, torna a ser, por um momento, o sujeito essencial cuja vontade o outro suporta passivamente. Mas trata-se de tímidos revides; por mais que se obstine em fazer os homens "esperar", nunca compensará as horas infinitas que passa a vigiar, a esperar, a submeter-se ao bel-prazer do homem.
     De maneira geral, embora reconhecendo, em conjunto, a supremacia dos homens, aceitando-lhes a autoridade, adorando-lhes os ídolos, ela vai contestar-lhes o reinado palmo a palmo; daí o famoso "espírito de contradição" que amiúde lhe censuraram; não possuindo um domínio autônomo, não pode opor verdades, valores positivos aos que os homens afirmam; pode, entretanto, negá-los. Sua negação é mais ou menos sistemática segundo a maneira por que nela se dosam respeito e rancor. Mas o fato é que ela conhece todas as falhas do sistema masculino e se apressa em denunciá-las.
     As mulheres não têm domínio sobre o mundo masculino porque sua experiência não lhes ensina a manejar a lógica e a técnica: inversamente, o poder dos instrumentos masculinos abole-se às fronteiras do domínio feminino. Há toda uma região da experiência humana que o homem escolhe deliberadamente ignorar porque malogra em pensá-la: essa experiência, a mulher a vive. O engenheiro, tão preciso quando faz seus planos, conduz-se, em casa, como um demiurgo: uma palavra e eis servida a refeição, suas camisas engomadas, seus filhos silenciosos; procriar é um ato tão rápido quanto o golpe de vara de Moisés; ele não se espanta com tais milagres. A noção de milagre difere da ideia de magia; ela põe, no seio de um mundo racionalmente determinado, a descontinuidade radical de um acontecimento sem causa contra o qual todo pensamento se esboroa; ao passo que os fenômenos mágicos são unificados por forças secretas cujo devir contínuo uma consciência dócil — ainda que sem o compreender — pode desposar. 0 recém-nascido é milagroso para o pai demiurgo, mágico para a mãe que lhe suportou o amadurecimento no ventre. A experiência do homem é inteligível, mas pontilhada de vazios; a da mulher é, em seus limites próprios, obscura mas plena. Essa opacidade fá-la pesada; em suas relações com ela, o homem parece-lhe leve; ele tem a leveza dos ditadores, dos generais, dos juízes, dos burocratas, dos códigos e dos princípios abstratos. É o que sem dúvida queria dizer essa dona de casa que murmurava um dia, dando de ombros: "Os homens não pensam!" Elas dizem também: "Os homens não sabem, não conhecem a vida". Ao mito da fêmea do louva-a-deus, elas opõem o símbolo do zângão frívolo e importuno.
     Compreende-se que nessa perspectiva a mulher recuse a lógica masculina. Não somente esta não lhe perturba a experiência, como ela sabe ainda que nas mãos dos homens a razão se torna uma forma matreira de violência; as afirmações peremptórias deles destinam-se a mistificar. Querem encerrá-la em um dilema: ou estas de acordo, ou não estás; em nome de todo o sistema dos princípios admitidos, ela deve estar de acordo: recusando sua adesão, é todo o sistema que recusa; não pode permitir-se semelhante escândalo; não tem os meios de reconstruir outra sociedade: contudo, não adere a esta. A meio caminho entre a revolta e a escravidão, resigna-se a contragosto à autoridade masculina. É pela violência que se faz preciso, em cada ocasião, obrigá-la a endossar as consequências de sua submissão incerta. O homem persegue a quimera de uma companheira livremente escrava: quer que, cedendo-lhe, ela ceda à evidência de um teorema; mas sabe que ele próprio escolheu os postulados a que se prendem suas rigorosas deduções; enquanto ela evita rediscuti-las, ele lhe tapa facilmente a boca; nem por isso a convence, porquanto ela adivinha a arbitrariedade dessas deduções. Por isso ele a acusará com irritação e obstinação de ilogismo: mas ela recusa participar do jogo porque sabe que os dados são viciados.
     A mulher não pensa positivamente que a verdade seja outra que aquilo que os homens pretendem; ela admite antes que a verdade não é. Não é somente o devir da vida que a faz desconfiar do princípio de identidade, nem são os fenômenos mágicos de que se acha cercada que arruínam a noção de causalidade: é no próprio coração do mundo masculino, é em si, enquanto pertencendo a esse mundo, que apreende a ambiguidade de todo princípio, de todo valor, de tudo o que existe. Sabe que a moral masculina, no que lhe diz respeito, é uma vasta mistificação. O homem acena-lhe pomposamente com seu código de virtude e honra, mas em surdina incita-a a desobedecer: espera mesmo essa desobediência; sem esta, toda a bela fachada atrás da qual ele se abriga desmoronaria.
     O homem de bom grado se apoia na ideia hegeliana, segundo a qual o cidadão adquire sua dignidade ética transcendendo-se para o universal: enquanto indivíduo singular, tem direito ao desejo, ao prazer. Suas relações com a mulher situam-se pois numa região contingente em que a moral não mais se aplica, em que as condutas são indiferentes. Com os outros homens, ele tem relações em que se empenham valores; ele é uma liberdade enfrentando outras liberdades segundo leis que todos universalmente reconhecem; mas junto da mulher — ela foi inventada para esse fim — ele deixa de assumir sua existência, entrega-se a miragem do em-si, situa-se num plano inautêntico; mostra-se tirânico, sádico, violento, ou pueril, masoquista, queixoso; tenta satisfazer suas obsessões, suas manias; "distende-se", "relaxa-se, em nome dos direitos que adquiriu em sua vida pública. Sua mulher assusta-se por vezes — como Thérèse Desqueyroux — com o contraste entre o alto nível de suas palavras, de suas condutas públicas e "suas pacientes invenções de sombra".
     Prega a repopulação e mostra-se hábil em não engendrar mais filhos do que os que lhe convém. Exalta as esposas castas e fiéis, mas incita ao adultério a mulher do vizinho. Vimos com que hipocrisia os homens decretam que o aborto é criminoso, quando todos os anos na França um milhão de mulheres são colocadas pelo homem em situação de precisarem abortar; muitas vezes o marido ou o amante lhe impõe tal solução; muitas vezes eles supõem tacitamente que, em caso de necessidade, ela será adotada. Esperam confessadamente que a mulher consentirá em tornar-se culpada de um delito: sua "imoralidade" é necessária à harmonia da sociedade moral respeitada pelos homens. O exemplo mais flagrante dessa duplicidade é a atitude do homem em face da prostituição: é sua procura que cria a oferta; disse eu com que ceticismo enojado as prostitutas encaram os senhores respeitáveis que profligam o vício, mas demonstram muita indulgência por suas manias pessoais; entretanto consideram perversas e debochadas as mulheres que vivem de seu corpo, não os homens que os usam. Uma anedota ilustra esse estado de espírito: no fim do século passado, a polícia descobriu num bordel duas meninas de 12 a 13 anos; houve um processo em que elas depuseram; falaram de seus fregueses, que eram homens importantes; uma delas abriu a boca para revelar um nome. O procurador deteve-a precipitadamente: Não suje o nome de um homem honesto! Um senhor condecorado com a Legião de Honra continua um homem de bem quando deflora uma menina; tem suas fraquezas, quem não as tem? Ao passo que a menina que não atinge a região ética do universal — que não é um magistrado, nem um general, nem um grande francês, mas apenas uma menina — joga seu valor moral na região contingente da sexualidade; é uma perversa, uma transviada, uma viciada, boa para uma casa de correção. O homem pode, em muitos casos e sem macular sua "dignidade", perpetrar em cumplicidade com a mulher atos que para ela são condenáveis, enxovalhantes. Ela compreende mal tais sutilezas; o que compreende é que o homem não age de conformidade com os princípios que proclama e pede-lhe que a estes desobedeça. Ele não quer o que diz querer: por isso não lhe dá ela o que finge dar-lhe. Será uma esposa casta e fiel e às escondidas cederá aos próprios desejos; será uma mãe admirável mas praticará cuidadosamente o biríh-control e, se necessário, irá até o aborto. O homem oficialmente a condena, é a regra do jogo; mas mostra-se reconhecido a uma pela sua "pequena virtude" e a outra pela sua esterilidade. A mulher desempenha o papel desses agentes secretos que deixam fuzilar, se são presos e que enchem de recompensas, se logram êxito; cabe a ela endossar toda a imoralidade dos homens: não é somente a prostituta, são todas as mulheres que servem de esgoto ao palácio luminoso e saudável em que habitam as pessoas honestas. Quando, em seguida, lhes falam de dignidade, de honra, de lealdade, de todas as grandes virtudes viris, cumpre não se espantar que se recusem a "ir na onda". Escarnecem particularmente quando os homens virtuosos as censuram por serem interesseiras, comediantes, mentirosas¹: bem sabem que não lhes oferecem nenhuma outra saída. O homem também "se interessa" pelo dinheiro, pelo êxito: mas tem os meios de conquistá-los pelo trabalho; à mulher assinalaram um papel de parasita: todo parasita é necessariamente um explorador; ela precisa do homem para adquirir dignidade humana, para comer, gozar, procriar; é através dos serviços que presta com o sexo que assegura as generosidades masculinas; e como a encerram nessa função, ela se transforma inteiramente num instrumento de exploração. Quanto às mentiras, salvo no caso da prostituição, não se trata, entre ela e o protetor, de um negócio franco. O próprio homem reclama que ela represente uma comédia: quer que ela seja o Outro; mas todo existente, por mais perdidamente que se renegue, permanece sujeito; ele a quer objeto: ela faz-se objeto; no momento em que ela se faz ser, exerce uma livre atividade; aí está sua traição original; a mais dócil, a mais passiva é ainda consciência; basta, por vezes, que o homem se aperceba de que, entregando-se a ele, ela o encara e julga, para que ele se sinta enganado; ela deve ser apenas uma coisa oferecida, uma presa. Entretanto, essa coisa, o homem exige também que ela a entregue livremente: pede-lhe que sinta prazer no leito, que lhe reconheça sinceramente a superioridade e os méritos no lar; no instante em que obedece, a mulher deve, pois, fingir independência enquanto, em outros momentos, representa ativamente a comédia da passividade. Ela mente para reter o homem que lhe assegura o pão quotidiano: cenas, lágrimas, transportes de amor, crises de nervos. E ela mente também para escapar à tirania que por interesse aceita. O homem a incita a comédias de que se aproveitam seu imperialismo e sua vaidade: ela volta contra ele seus poderes de dissimulação; consegue também revides duplamente deliciosos: por que enganando-o, satisfaz desejos singulares, experimenta o prazer de achincalhá-lo. A esposa, a cortesã mentem fingindo sensações que não têm; depois, divertem-se com um amante, com amigas, zombando da ingênua vaidade de sua vítima: "Não somente eles falham, como ainda querem que nos cansemos de gritar de prazer", dizem com rancor. Tais conversas assemelham-se às das criadas que, na copa, falam mal dos patrões. A mulher tem os mesmos defeitos porque é vítima da mesma opressão paternalista; tem o mesmo cinismo, porque vê o homem de baixo para cima, como o lacaio vê o patrão. Mas é claro que nenhum de seus traços manifesta uma essência ou uma vontade original pervertidas: refletem uma situação. "Há falsidade sempre que há regime coercivo", diz Fourier. "A proibição e o contrabando são inseparáveis, no amor como no comércio." E os homens sabem tão bem que os defeitos da mulher manifestam a condição dela, que, preocupados com manter a hierarquia dos sexos, incentivam, em suas companheiras, os próprios traços que lhes permitem desprezá-las. Sem dúvida, o marido, o amante irritam-se com as taras da mulher singular com quem vivem; entretanto, propugnando os encantos da feminilidade em geral, eles a imaginam inseparável de tais taras. Se não é pérfida, fútil, covarde, indolente, a mulher perde sua sedução. Na Casa das Bonecas, Helmer explica o quanto o homem se sente justo, forte, compreensivo, indulgente, quando perdoa as faltas pueris da frágil mulher. Assim também os maridos de Bernstein se enternecem — com a cumplicidade do autor — diante da mulher ladra, má, adúltera; eles medem, debruçando-se sobre ela com indulgência, a própria sabedoria viril. Os racistas americanos e os colonos franceses, desejam também que o negro se mostre gatuno, preguiçoso, mentiroso: com isso prova sua indignidade, põe o direito do lado dos opressores; se se obstina em ser honesto, leal, olham-no como um revoltado. Os defeitos da mulher exageram-se, pois, tanto mais quanto ela tenta não combatê-los mas, ao contrário, faz deles um adorno.

[1] "Todas com esse arzinho delicado de santa, acumulado por todo um passado de escravidão, sem outra arma de salvação e ganha--pão senão esse ar sedutor involuntário que aguarda a hora propícia." (Jules Laforgue.)
continua página 381...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (3)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

terça-feira, 21 de julho de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (2)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO VI
SITUAÇÃO E CARÁTER DA MULHER
 

     Muitos defeitos que lhes censuram — mediocridade, pequenez, timidez, mesquinharia, preguiça, frivolidade, servilismo — exprimem simplesmente o fato de que o horizonte lhes está barrado. A mulher é, dizem, sensual, chafurda na imanência; mas antes de mais nada aí a encerraram. A escrava presa no harém não experimenta nenhuma paixão mórbida pela geleia de rosas, pelos banhos perfumados: precisa passar o tempo; na medida em que sufoca em um morno gineceu — bordel ou lar burguês — a mulher se refugiará no conforto e no bem-estar; demais, se busca avidamente a volúpia é muitas vezes porque dela se acha frustrada; sexualmente insatisfeita, votada à gana do macho, "condenada às feiuras masculinas", consola-se com molhos cremosos, vinhos capitosos, veludos, carícias da água, do sol, de uma amiga, de um jovem amante. Se se apresenta ao homem como um ser "tão físico", é porque sua condição a incita a dar extrema importância à própria animalidade. A carne não grita mais forte nela do que no homem: mas fica atenta aos seus mais insignificantes murmúrios e os amplia; a volúpia, como a dor do sofrimento, é o fulminante triunfo do imediato; pela violência do instante, o futuro e o universo são negados: fora da centelha carnal, o que existe não é nada; durante essa breve apoteose ela não é mutilada nem frustrada. Mas, digamo-lo mais uma vez, ela só em presta tão grande valor a esses triunfos porque a imanência é seu quinhão. Sua frivolidade tem a mesma causa que seu "materialismo sórdido"; ela dá importância às pequenas coisas por não ter acesso às grandes: além disso, as futilidades que lhe enchem os dias são, muitas vezes, das mais sérias; à sua toilette, à sua beleza, deve seu encanto e possibilidades. Mostra-se frequente mente indolente, preguiçosa, mas as ocupações que a ela se pro põem são tão vãs quanto o simples escoar do tempo; se é tagarela, escrevinhadora, é para obviar a ociosidade: substitui palavras a atos impossíveis. O fato é que, quando se empenha numa empresa digna de um ser humano, a mulher sabe mostrar-se tão ativa, eficiente, silenciosa, ascética como um homem. Acusam-na de ser servil. Está sempre disposta, dizem, a deitar-se aos pés do senhor e a beijar a mão que a bateu; é verdade que carece geralmente de verdadeiro orgulho; os conselhos que os "consultórios sentimentais" dispensam às mulheres enganadas, às amantes abandonadas são inspirados em um espírito de abjeta submissão; a mulher esgota-se em cenas arrogantes e acaba colhendo as migalhas que o macho consente em deixar-lhe. Mas que pode fazer sem apoio masculino uma mulher para quem o homem é ao mesmo tempo o único meio e a única razão de viver? Bem que ela é obrigada a aceitar todas as humilhações; a escrava não pode ter o senso da dignidade humana; basta-lhe que dê um jeito. Enfim, se é "terra-a-terra", caseira, baixamente utilitária, é porque lhe impõem consagrar sua existência a preparar alimentos e limpar sujeiras: não é disso que pode tirar o sentido da grandeza. Ela deve assegurar a monótona repetição da vida em sua contingência e sua facticidade: é natural que ela própria repita, recomece, sem jamais inventar, que o tempo lhe pareça girar sobre si mesmo sem conduzir a nenhum lugar; ocupa-se sem nunca fazer nada; aliena-se pois no que tem; essa dependência em relação às coisas, consequências da dependência em relação aos homens, explica sua prudente economia, sua avareza. Sua vida não é mais dirigida para fins; absorve-se em produzir ou manter coisas que nunca passam de meios: alimento, roupas, residência; são intermediários inessenciais entre a vida animal e a livre existência; o único valor ligado ao meio inessencial e a utilidade; é no nível do útil que vive a dona-de-casa e ela só se vangloria de ser útil a seus parentes. Mas nenhum existente poderia satisfazer-se com um papel inessencial: logo transforma os meios em fins — como se verifica entre os políticos — e o valor dos meios torna-se a seus olhos valor absoluto. Assim a utilidade reina no céu da dona-de-casa mais alto do que a verdade, a beleza, a liberdade e é nessa perspectiva, que é a sua, que ela encara todo o universo; e é porque adota a moral aristotélica do justo meio-termo da mediocridade. Como encontraria em si audácia, ardor, desapego, grandeza? Tais qualidades só aparecem no caso em que uma liberdade se lança através de um futuro aberto emergindo além de todo o dado. Fecham a mulher numa cozinha ou num camarim e se espantam de que seu horizonte seja limitado; cortam suas asas e lamentam que não saiba voar. Que lhe abram o futuro e ela não será mais obrigada a instalar-se no presente.
     Dão prova da mesma inconsequência quando, fechando-a dentro dos limites de seu eu ou do lar, censuram-lhe o narcisismo, o egoísmo com seu cortejo: vaidade, suscetibilidade, maldade etc.; tiram-lhe toda possibilidade concreta de comunicação com outrem; ela não sente em sua experiência o apelo nem os benefícios da solidariedade, porquanto está inteiramente consagrada à sua própria família, separada; não se pode, por tanto, esperar que se supere em prol do interesse geral. Confina-se obstinadamente no único terreno que lhe é familiar, em que ela pode exercer um domínio sobre as coisas e no seio do qual reencontra uma soberania precária.
     Entretanto, por mais que feche as portas e as janelas, a mulher não encontra, em seu lar, uma segurança absoluta; esse universo masculino que ela respeita de longe, sem ousar aventurar-se nele bloqueia-a; e justamente porque é incapaz de apreendê-lo através de técnicas, de uma lógica segura, de conhecimentos articulados, ela se sente como a criança e o primitivo cercada de mistérios perigosos. Neles projeta sua concepção mágica da realidade: o curso das coisas parece-lhe fatal e, no entanto, tudo pode acontecer; ela mal distingue o possível do impossível; está disposta a acreditar em qualquer coisa; acolhe e propaga todos os rumores, provoca pânicos. Mesmo nos períodos de calma vive preocupada; à noite, na sonolência, o jacente inerte assusta-se com figuras de pesadelo que a realidade reveste; assim, para a mulher condenada à passividade, o futuro opaco é povoado pelos fantasmas da guerra, da revolução, da fome, da miséria; não podendo agir, ela se inquieta. O marido, o filho, quando são arrastados por um acontecimento, assumem seus riscos por sua própria conta: seus projetos, as normas a que obedecem traçam na obscuridade um caminho seguro; mas a mulher debate-se numa noite confusa; ela preocupa-se porque não faz nada; na imaginação, todos os possíveis têm a mesma realidade: o trem pode descarrilar, a operação pode falhar, o negócio malograr; o que ela tenta em vão conjurar, em suas longas ruminações melancólicas, é o espectro de sua própria impotência.
     A preocupação traduz a desconfiança em relação ao mundo dado; se ele se lhe afigura carregado de ameaças, prestes a soçobrar em obscuras catástrofes, é porque ela não se sente feliz. Na maior parte do tempo ela não se resigna em se resignar; sabe muito bem o que suporta, ela suporta contra sua vontade; é mulher sem ter sido consultada; não ousa revoltar-se; é irritada que se submete; sua atitude é uma recriminação constante. Todos os que recebem as confidencias das mulheres — médicos, padres, assistentes sociais — sabem que a maneira mais comum é a queixa; entre amigas, geme cada uma sobre seus próprios males e todas juntas sobre a injustiça da sorte, o mundo e os homens em geral. Um indivíduo livre somente a si censura seus malogros, assume-os, mas é através de outrem que tudo acontece à mulher, é outro que é responsável por suas desgraças. Seu desespero furioso recusa todos os remédios; propor soluções a uma mulher resolvida a queixar-se não arranja coisa alguma: nenhuma lhe parece aceitável. Ela quer viver sua situação precisamente como a vive: numa cólera impotente. Que lhe proponham uma mudança, ergue os braços ao céu: "Não faltava mais nada!" Sabe que seu mal-estar é mais profundo do que os pretextos que dá, e que não basta um expediente para libertá-la: ressente-se contra o mundo inteiro, porque foi edificado sem ela e contra ela; desde a adolescência, desde a infância, protesta contra sua condição; prometeram-lhe compensações, asseguraram-lhe que, se abdicasse suas possibilidades nas mãos de um homem, elas lhe seriam de volvidas centuplicadas e considera-se mistificada; acusa todo o universo masculino; o rancor é o reverso da dependência: quando se dá tudo, nunca se recebe bastante de volta. Entretanto, ela também tem necessidade de respeitar o universo masculino; sentir-se-ia em perigo sem um teto em cima da cabeça, se o contestasse em seu todo: ela adota a atitude maniqueísta que também lhe é sugerida pela sua experiência caseira. 0 indivíduo que age reconhece-se responsável do mesmo modo que os outros pelo mal e pelo bem, sabe que lhe cabe definir os fins e fazer com que triunfem; sente na ação a ambiguidade de toda solução; justiça e injustiça, lucros e perdas acham-se inextricavelmente mistura dos. Mas quem é passivo coloca-se fora do jogo e recusa-se a colocar, ainda que em pensamento, os problemas éticos: o bem deve ser realizado e, se não o é, há uma falta cujos culpados de vem ser punidos. Como a criança, a mulher representa o bem e o mal em simples imagens de Epinal; o maniqueísmo tranquiliza o espírito, suprimindo a angústia da escolha; escolher entre uma praga e outra menor, entre um benefício presente e um futuro maior, ter que definir o que é derrota, o que é vitória, é assumir riscos terríveis; para o maniqueísta, o trigo bom está claramente separado do joio e basta arrancar este último; a poeira condena-se a si própria e a limpeza é a perfeita ausência de sujeira; limpar é expulsar detritos e lama. Assim a mulher pensa que "tudo é culpa dos judeus" ou dos maçons, ou dos bolcheviques, ou do governo; ela é sempre contra alguém ou alguma coisa; entre os anti-dreyfusistas, as mulheres eram mais encarniçadas ainda do que os homens; elas nem sempre sabem onde reside o princípio maligno, mas o que esperam de um bom governo é que êle o expulse, como se expulsa a poeira da casa. Para as gaullistas fervorosas, De Gaulle se apresenta como o rei dos varredores; de espanadores e trapos nas mãos, elas o imaginam limpando e fazendo brilhar uma França "limpa".
     Mas essas esperanças situam-se sempre num futuro incerto; enquanto se espera, o mal continua a roer o bem; e como não tem à mão os judeus, os maçons, os bolcheviques, a mulher procura um responsável contra quem possa concretamente indignar-se: o marido é a vítima predileta. É nele que se encarna o universo masculino, é através dele que a sociedade masculina assumiu o encargo da mulher e a mistificou; ele suporta o peso do mundo e, se as coisas vão mal, é culpa dele. Quando volta, à noite, ela se queixa dos filhos, dos fornecedores, do lar, do custo de vida, de seu reumatismo, do tempo que faz: e quer que o esposo se sinta culpado. Muitas vezes alimenta em relação a ele ressentimentos particulares; mas o marido é culpado antes de tudo de ser um homem; também pode ter suas doenças, suas preocupações: "Não é a mesma coisa"; ele detém um privilégio que ela sente constantemente como uma injustiça. É de notar que a hostilidade que ela experimenta em relação ao marido, ao amante, a prenda a eles ao invés de a afastar; um homem que se pôs a detestar a mulher ou a amante procura fugir dela: mas ela quer ter na mão o homem que odeia, para fazê-lo pagar. Escolher recriminar, não é escolher desembaraçar-se de seus males e sim chafurdar neles; seu supremo consolo é apresentar-se como mártir. A vida, os homens venceram-na: ela fará dessa derrota uma vitória. Eis porque, como em sua infância, ela se entregará tão displicentemente ao frenesi das lágrimas e das cenas.
     É sem dúvida porque sua vida se constrói sobre um fundo de revolta impotente que a mulher chora tão facilmente; por certo tem ela fisiologicamente um menor controle do sistema nervoso e simpático do que o homem; sua educação ensinou-lhe a entregar-se: as normas de conduta desempenham aqui um grande papel: Diderot, Benjamin Constant vertiam dilúvios de lágrimas; mas os homens deixaram de chorar, desde que o costume o proibiu. Mas a mulher está sempre disposta a adotar em relação ao mundo uma conduta de malogro, porque nunca o enfrentou francamente. O homem aceita o mundo; a própria desgraça não mudará sua atitude, ele a enfrentará, não se deixará vencer; ao passo que basta uma contrariedade para pôr novamente a descoberto, para a mulher, a hostilidade do universo e a injustiça de sua sorte; então ela se precipita em seu mais seguro refúgio: ela mesma; essa esteira quente em suas faces, essa queimadura em suas órbitas é a presença sensível de sua alma dolorosa; doces na pele, ligeiramente salgadas na língua, as lágrimas são também uma terna e amarga carícia; o rosto queima sob um derrame de água clemente; as lágrimas são ao mesmo tempo queixa e consolo, febre e calmante frescor. São também um supremo álibi; bruscas como a borrasca, caindo intermitentes, ciclone, aguaceiro, chuvisco, metamorfoseiam a mulher numa fonte queixosa, num céu atormentado; seus olhos não veem mais, vela-os uma cerração; não são mais sequer um olhar, fundem-se em chuva. Cega, a mulher retorna à passividade das coisas naturais. Querem-na vencida: ela soçobra na derrota; vai a pique, afoga-se, escapa ao homem que a contempla, impotente como diante de uma cata rata, Ele julga o processo desleal: mas ela considera que a luta é desleal porque não lhe deram nenhuma arma eficaz, Ela recorre uma vez a uma conjuração mágica. E o fato de seus soluços exasperarem o homem fornece-lhe uma razão a mais para utilizá-los.

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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (2)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"