quinta-feira, 21 de maio de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (1)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO IV
PROSTITUTAS E HETAIRAS
 


     VIMOS que o casamento¹ tem como correlativo imediato a prostituição. "O hetairismo, diz Morgan, acompanha a humanidade até em sua civilização como uma sombra projetada sobre a família." Por prudência, o homem obriga a esposa à castidade, mas não se satisfaz com o regime que lhe impõe.

[1] Vol. I, 2ª. parte.

   Os reis da Pérsia, conta Montaigne, que lhes aprova a sabedoria, convidavam suas mulheres para lhes fazerem companhia em seus festins; mas, quando o vinho principiava a esquentá-los de verdade e lhes era preciso dar rédeas à volúpia, mandavam-nas de volta a seus lares para que não participassem de seus imoderados apetites e ordenavam que em seu lugar viessem mulheres que não tivessem a obrigação de respeitar.

     É preciso que haja esgotos para assegurar a salubridade dos palácios, diziam os Padres da Igreja. E Mandeville, em uma obra que teve repercussão: "É evidente que existe uma necessidade de sacrificar uma parte das mulheres para conservar a outra e evitar uma sujeira de natureza mais repugnante". Um dos argumentos dos escravocratas norte-americanos em favor da escravidão era que, estando os brancos do Sul desobrigados das tarefas servis, podiam manter entre si as relações mais democráticas, mais requintadas; do mesmo modo, a existência de uma casta de "mulheres perdidas" permite tratar as "mulheres honestas" com o mais cavalheiresco respeito. A prostituta é o bode expiatório; o homem liberta-se nela de sua turpitude e a renega. Quer um estatuto legal a coloque sob a fiscalização policial, quer trabalhe na clandestinidade, é ela sempre tratada como pária.
     Do ponto de vista econômico, sua situação é simétrica à da mulher casada. "Entre as que se vendem pela prostituição e as que se vendem pelo casamento, a única diferença consiste no preço e na duração do contrato", diz Marro (La Puberté). Para ambas, o ato sexual é um serviço; a segunda é contratada pela vida inteira por um só homem; a primeira tem vários clientes que lhe pagam tanto por vez. Aquela é protegida por um homem contra os outros, esta é defendida por todos contra a tirania exclusiva de cada um. Em todo caso, os benefícios que tiram de seu corpo são limitados pela concorrência; o marido sabe que poderia ter tido outra esposa: o cumprimento dos "deveres conjugais" não é uma graça, é a execução de um contrato. Na prostituição, o desejo masculino, sendo específico e não singular, pode satisfazer-se com qualquer corpo. Esposa ou hetaira só conseguem explorar o homem se assumem uma ascendência singular sobre ele. A grande diferença existente entre elas está em que a mulher legítima, oprimida enquanto mulher casada, é respeitada como pessoa humana; esse respeito começa a pôr seriamente em xeque a opressão. Ao passo que a prostituta não tem os direitos de uma pessoa; nela se resumem, ao mesmo tempo, todas as figuras da escravidão feminina.
     É ingênuo perguntar que motivos levam a mulher à prostituição; não se acredita mais hoje na teoria de Lombroso, que assimilava as prostitutas aos criminosos e via em ambos degenerados; é possível, como afirmam as estatísticas, que de uma maneira geral o nível mental das prostitutas esteja um pouco abaixo da média e que algumas sejam francamente débeis mentais: as mulheres cujas faculdades mentais são retardadas escolhem amiúde um ofício que não exija delas nenhuma especialização; mas em sua maioria elas são normais, algumas muito inteligentes. Nenhuma fatalidade hereditária, nenhuma tara fisiológica pesa sobre elas. Na verdade, em um mundo atormentado pela miséria e pela falta de trabalho, desde que se ofereça uma profissão, há quem a siga; enquanto houver polícia e prostituição, haverá policiais e prostitutas. Tanto mais quanto tais profissões rendem muito mais do que outras. É muita hipocrisia espantar-se com as ofertas que suscita a procura masculina; trata-se de um processo econômico rudimentar e universal. "De todas as causas da prostituição, escrevia em 1857 Parent-Duchâtelet durante um inquérito, nenhuma é mais ativa do que a falta de trabalho e a miséria, consequência inevitável dos salários insuficientes." Os moralistas bem pensantes respondem, escarnecendo, que as histórias comoventes das prostitutas são romances para uso do cliente ingênuo. Com efeito, em muitos casos, a prostituta teria podido ganhar a vida de outro modo: mas, se o que escolheu não lhe parece o pior, não é prova de que tenha o vício no sangue; isso antes condena uma sociedade em que tal pro fissão é ainda uma das que parecem menos rebarbativas a muitas mulheres. Perguntam: Por que a escolheu ela? A pergunta deveria ser antes: Por que não a teria escolhido? Observou-se, entre outras coisas, que boa parte das prostitutas se recrutava entre as domésticas; foi o que estabeleceu Parent-Duchâtelet para todos os países, o que Lily Braun notava na Alemanha e Rickère na Bélgica. 50% mais ou menos das prostitutas foram primeiramente criadas. Um olhar nos "quartos de criadas" basta para explicar o fato. Explorada, escravizada, tratada como objeto mais do que como pessoa, a arrumadeira, a criada de quarto, não espera nenhuma melhoria da sorte no futuro; por vezes, é-lhe necessário suportar os caprichos do dono da casa: da escravidão doméstica, dos amores ancilares, ela desliza para uma escravidão que não pode ser mais degradante e que ela imagina mais feliz. Demais, as empregadas domésticas são o mais das vezes desarraigadas: calcula-se que 80% das prostitutas parisienses vêm da província ou do campo. A proximidade da família, a preocupação com a reputação impediriam a mulher de abraçar uma profissão geralmente desconsiderada; mas, perdida na cidade grande, não estando mais integrada na sociedade, a ideia abstrata de moralidade não lhe opõe nenhum obstáculo. Assim como a burguesia cerca o ato sexual — e principalmente a virgindade — de tabus temíveis, em muitos meios camponeses e operários isso tudo se afigura indiferente. Muitos inquéritos concordam a esse respeito: há muitas mulheres que se deixam deflorar pelo primeiro que aparece e que acharão em seguida natural entregar-se ao primeiro que surgir. Em um inquérito realizado com cem prostitutas, o Dr. Bizard salientou os fatos seguintes: uma fora deflorada aos 11 anos, duas aos 12, duas aos 13, seis aos 14, sete aos 15, vinte e uma aos 16, dezenove aos 17, dezessete aos 18, seis aos 19; as outras depois dos 21 anos. Havia portanto 5% que tinham sido violentadas antes de formadas. Mais de metade dizia ter-se entregue por amor; as outras tinham consentido por ignorância. O primeiro sedutor é muitas vezes jovem. É frequentemente um camarada de oficina, um colega de escritório, um amigo de infância; vêm a seguir os militares, os contramestres, os criados, os estudantes; a lista do Dr. Bizard comportava, ademais, dois advogados, um arquiteto, um médico, um farmacêutico. É bastante raro que seja, como quer a lenda, o próprio patrão quem desempenhe esse papel de iniciador: mas é o filho dele, muitas vezes, ou o sobrinho, ou um amigo. Commenge, em seu estudo, assinala também quarenta e cinco jovens de 12 a 17 anos, que teriam sido defloradas por desconhecidos que nunca mais teriam visto; tinham consentido com indiferença, sem experimentar nenhum prazer. Entre outros casos, o Dr. Bizard assinala mais precisamente os seguintes:

       Mlle G., de Bordéus, voltando do convento aos 18 anos, deixa-se arrastar, sem pensar nas consequências, para um carro de saltimbancos, onde é deflorada por um cigano desconhecido.
   Uma menina de 13 anos entrega-se sem refletir a um senhor que encontrou na rua e que nunca mais verá.
   M. . . conta-nos textualmente que foi deflorada aos 17 anos por um rapaz que não conhecia.. . deixou-o fazer por completa ignorância. 
   R. . . deflorada com 17 anos e 1/2 por um homem que nunca vira e que, por acaso, encontrara no consultório de um médico da vizinhança, que fora chamar para a irmã doente, um homem que a ia conduzir de automóvel para que chegasse mais depressa e, na realidade, a largara em plena rua. 
   B. . . deflorada com 15 anos e 1/2, "sem pensar no que fazia", diz textualmente nossa cliente, por um jovem que nunca tornou a ver; nove meses depois, deu à luz um filho com boa saúde. 
   S... deflorada aos 14 anos por um rapaz que a levou para casa a pretexto de lhe apresentar a irmã. O rapaz na realidade não tinha irmã, mas tinha sífilis e contaminou a menina. 
   R. . . deflorada aos 18 anos, numa antiga trincheira da frente, por um primo casado e com quem visitava os campos de batalha. Pô-la grávida, o que a obrigou a abandonar a família. 
   C. . . deflorada aos 17 anos, na praia, numa noite de verão, por um jovem que acabara de conhecer no hotel, a cem metros das duas mães que falam de frivolidades. Contaminada por blenorragia. 
   L... deflorada com 13 anos, pelo tio, ouvindo rádio, enquanto a tia, que gostava de dormir cedo, repousava tranquilamente no quarto ao lado.

     Essas jovens, que cederam passivamente, nem por isso deixaram de sofrer o traumatismo do defloramento; desejaríamos saber que influência psicológica teve essa experiência brutal no futuro delas; mas não se psicanalisam prostitutas: são inábeis na descrição de si mesmas e escondem-se atrás de lugares-comuns. Em algumas, a facilidade de se entregar a qualquer um explica-se pela existência de fantasmas de prostituição de que falamos: por rancor familiar, horror à sexualidade nascente, desejo de desempenhar o papel de adulto; há moças que imitam as prostitutas: pintam-se exageradamente, recebem rapazes, mostram-se coquetes e provocantes; ainda infantis, assexuadas, frias, acre ditam poder brincar com o fogo impunemente; um dia um homem as toma a sério e elas passam dos sonhos aos atos.
     "Quando uma porta foi arrombada, é difícil depois mantê-la fechada", dizia uma jovem prostituta de 14 anos². Entretanto a moça raramente se decide a "fazer o trottoir" logo depois do defloramento. Em certos casos, continua apegada ao primeiro amante e a viver com ele; arranja um ofício "honesto"; quando o amante a abandona, outro a consola; como não pertence a um homem só, acha que pode dar-se a todos; por vezes é o amante — o primeiro ou o segundo — que sugere esse meio de ganhar dinheiro. Há também muitas moças que são prostituídas pelos pais: em certas famílias — como na célebre família norte--americana dos Juke — todas as mulheres são destinadas a essa profissão. Entre as jovens vagabundas, numerosas meninas abandonadas pelos seus começam pela mendicância e deslizam para a prostituição. Em 1857, Parent-Duchâtelet verificara que, em 5.000 prostitutas, 1.441 tinham sido influenciadas pela pobreza, 1.425 seduzidas e abandonadas, 1.255 abandonadas e deixadas sem recursos pelos pais. Os inquéritos modernos sugerem mais ou menos as mesmas conclusões. A doença leva muitas vezes à prostituição a mulher incapacitada para um trabalho verdadeiro, ou que perdeu seu lugar; ela destrói o equilíbrio precário do orçamento, obriga a mulher a inventar apressadamente novos recursos. De igual modo, o nascimento de um filho. Mais de metade das mulheres de Saint-Lazare tiveram um filho pelo menos; muitas criaram de três a seis; o Dr. Bizard refere-se a uma que deu à luz quatorze, oito dos quais viviam ainda quando êle a conheceu. Poucas há, diz ele, que abandonam o filho; e acontece ser para alimentá-lo que se fazem prostitutas. Ele cita este caso entre outros:

[2] Citado por Marro, La Puberté.

   Deflorada na província, com a idade de 19 anos, por um patrão de 60 quando ainda vivia com a família, foi obrigada, estando grávida, a abandonar os seus para dar à luz uma menina com boa saúde e que educou muito corretamente. Depois do parto veio para Paris, onde trabalhou como ama, tendo começado a prostituir-se aos 29 anos. Prostitui-se, portanto, há 33 anos. Sem mais forças nem coragem, pede agora para ser hospitalizada em Saint-Lazare.

continua página 328...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (1)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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