contos e poesia no butekudu baitasar.
a humanidade solidária e amorosa construída com todos incluídos num outro mundo possível, por la vida... siempre!
li nas redes sociais: "se tua religião te faz odiar pessoas por qualquer razão, procura frequentar um buteku e paga os mesmos 10% ao garçom!", enfim... "descobri que a seu tempo vão me chorar e esquecer."
Minha mão tem manchas, pintas marrons como ovinhos de codorna. Crianças acham engraçado e exibem as suas com alegria, na certeza — que também já tive — de que seguirão imunes. Aproveito e para meu descanso armo com elas um pequeno circo. Não temos proteção para o que foi vivido, insônias, esperas de trem, de notícias, pessoas que se atrasaram sem aviso, desgosto pela comida esfriando na mesa posta. Contra todo artifício, nosso olhar nos revela. Não perturbe inocentes, pois não há perdas e, tal qual o novo, o velho também é mistério.
Ó mulher! Como és fraca e como és forte! Como sabes ser doce e desgraçada! Como sabes fingir quando em teu peito A tua alma se estorce amargurada!
Quantas morrem saudosas duma imagem Adorada que amaram doidamente! Quantas e quantas almas endoidecem Enquanto a boca ri alegremente!
Quanta paixão e amor às vezes têm Sem nunca o confessarem a ninguém Doces almas de dor e sofrimento!
Paixão que faria a felicidade Dum rei; amor de sonho e de saudade, Que se esvai e que foge num lamento!
C.G. Victorino Eu Sou: A Nova Voz Das Mulheres
Vão olhar para meu ventre e dizer que sou sua Vão olhar para meu corpo e dizer que estou nua
Vão olhar para minha face e me dizer especial Mas, vou virar o olhar de repulsa Vão me dizer que sou sem sal
Releve que o vento leva E o vento leva por gerações Não vou mais aguentar calada Mesmo que enfrente multidões
Agora sou dona de mim Não adianta afirmar que é banal A mulher é um ser pleno Não pode ser um ideal
A alma é livre de modelos Ela é um anexo espacial Quando me olham e me julgam Não vou fingir que é normal
A vida de fato é tênue Para eu levar sua miséria no âmago Agora que estou acordada Não vou me render a tiranos Que seja sua filha, sua mãe, Que seja sua irmã e sua prima Que seja na rua, na esquina O algoz amargura sua vítima
Mas veja que o pranto dos séculos Parou de sangrar pela dor A dor das mulheres forçadas A engolir solidão e temor
Agora acordamos das cinzas Somos frutos de um mundo opressor Ninguém mais ficará calada E sozinha enfrentará a dor
Vão olhar e gritar e bater Apontar, violentar para temer Mas agora é a hora do basta E não mais existirá perdão Não me calo frente ao soberano Não mais passará contradição
Mulher sou livre e sou plena Sou todas as vozes pequenas Sou nua, de burka, enfeitada Sou dona do meu coração Ninguém mais calará o meu pranto Para sua satisfação.
“Gostei de tudo e sofri. / Não tenho escolha senão me resignar a morrer. / Eu então criarei silenciosamente uma prole. / Quando um apetite maligno me empurrou / para os amores mortais, exaltei a vida. / Agora que também eu considero o amor como / garantia da espécie, olho para a morte”
ADIÓS
Con los ojos de la despedida os vi aquel día, cosas de nuestra vida. Con los ojos de la despedida, la vida parecía una cosa perdida. La casa estaba vacía en la hora de la despedida, y sin embargo quedaban las cosas de nuestra vida.
DESTIERRO
Mi vida es un destierro sin retorno. No tuvo casa mi errante infancia perdida, no tiene tierra mi destierro. Mi vida navegó en nave de nostalgia. Viví a orillas del mar mirando el horizonte: hacia mi casa ignorada pensaba zarpar un día, y el presentido viaje me dejó en otro puerto de partida. ¿Es el amor, acaso, mi última rada? Oh brazos que me hicieron prisionera, sin darme abrigo... También del cruel abrazo quise escaparme. Oh huyentes brazos, que en vano buscaron mis manos... Incesante fuga y anhelo incesante el amor no es puerto seguro. Ya no hay tierra prometida para mi esperanza.
La poeta que DICE TANTO EN TAN POCO |
La voz de una MUJER SUBVERSIVA en 4 POEMAS
EL CORAZÓN
Dicen que es del tamaño de mi puño cerrado. Pequeño, entonces, pero basta para poner en marcha todo ésto.
Es un obrero que trabaja bien aunque anhele el descanso, y es un prisionero que espera vagamente escaparse.
LOS PIES
Ya que no tengo alas, me bastan mis pies que danzan y que no acaban de recorrer el mundo.
Por praderas en flor corrió mi pie ligero, dejó su huella en la húmeda arena, buscó perdidos senderos, holló las duras aceras de las ciudades y sube por escaleras que no sabe a donde llegan.
MUJER
MUJER
LAS MANOS
Mis manos, débiles, inciertas, parecen vanos objetos para el brillo de los anillos, sólo las llena lo perdido, se tienden al árbol que no alcanzan, pero me dan el agua de la mañana, y hasta el rosado retoño de mis uñas llega el latido.
ORACIÓN
Dame, señor un silencio profundo y un denso velo sobre la mirada. Así seré un mundo cerrado: una isla oscura; cavaré en mí misma dolorosamente como en tierra dura Y cuando me haya desangrado ágil y clara será mi vida Entonces, como río sonoro y transparente, fluirá libremente el canto encarcelado.
¿QUIÉN ERES TÚ?
¿Quién eres tú, hijo tardío? De los otros me parece que algo sabía desde el primer día de duda y esperanza. Pero tú, inesperado, ¿Quién eres? en ti nunca había pensado. ¿Cómo vas a llegar a este mundo enemigo si ni siquiera yo te conozco? Perdóname, hijo: hasta me ha aprecido que no había lugar para ti. Mi corazón, ya lo verás, es una sangrienta granada abierta. Y yo estoy cansada. Además, tú me vas a quitar ese retazo de mi vida que me han dejado los otros: casi nada, pero me duele desprenderme de lo último que me queda. Tendrás que ayudarme a conocerte. Y ha de ser tu vida, tan vigorosa y fuerte, que devore la mía, alegremente, y yo lejana de mí misma y distraída, apenas lo lamente.
ELLA SE SIENTE
Ella se siente a veces como cosa olvidada en el rincón oscuro de la casa como fruto devorado adentro por pájaros rapaces, como sombra sin rostro y sin peso. Su presencia es apenas vibración leve en el aire inmóvil. Siente que la traspasan las miradas y que se vuelve niebla entre los torpes brazos que intentan circundarla. Quisiera ser siquiera una naranja jugosa en la mano de un niño -no corteza vacía- una imagen que brilla en el espejo -no sombra que se esfuma- y una voz clara -no pesado silencio- alguna vez escuchada.
Perfil biográfico da poetisa e feminista guatemalteca Alaíde Foppa Falla, assassinada pela ditadura militar que governou a Guatemala durante grande parte do século XX.
Alaíde Foppa Falla “A Infeliz”
Viento de primavera.
Antología poética (1945-1979) de Alaíde Foppa
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Alaíde Foppa nasceu em 3 de dezembro de 1914 em Barcelona, com um destino tão brilhante quanto trágico. Morou alguns anos na Argentina e passou a adolescência na Itália, país de origem de seu pai. Ela também passou uma temporada na Guatemala, onde obteve a cidadania por meio do marido. Por razões políticas, ele teve que se exilar no México por um tempo. Lá trabalhou como professora na Faculdade de Filosofia e Letras, responsável pela cátedra de Literatura Italiana. Ela apoiou fervorosamente os movimentos feministas; Fundou a revista FEM e colaborou por diversos meios contra a repressão às mulheres. Na década de 70, ela refletiu a profunda tristeza pela morte dos filhos e do marido em uma série de poemas muito comoventes. Ao retornar do exílio em 1980, ela foi sequestrada e nunca mais foi vista.
O seu trabalho como poetisa talvez tenha começado na Itália, onde também completou os estudos universitários. Entre suas coleções de poemas mais notáveis estão "La sin Ventura", "Embora seja noite" e "Elogio do meu corpo". Destes últimos podemos apreciar “O Coração” e “As Mãos”. Aventurou-se também na crítica de arte, promovendo o trabalho de jovens artistas, e na tradução de poesia francesa e italiana.
Las mujeres nos lloramos y lloramos juntas porque cada vez que una es lastimada o desaparece nos arrancan un pedazo.
Quanto trabalho ela passa Para corrigir a falta de jeito Do marido e em casa, (deixe-me ficar surpresa) tão inepto quanto tolo ele ainda é a cabeça, porque ele é um homem.
uma mulher superior
nas eleições ele não vota,
e os piores canalhas votam;
(deixe-me ficar surpresa)
só saber assinar
um idiota pode votar
porque ele é um homem.
Ó mortal!
Ó mortal privilegiado,
que de perfeito e completo
goza seguro renome!
Para isso, o que foi suficiente para você?
Nasceu homem.
Quando você está com uma mulher.
Faça amor com ela, não apenas faça sexo.
Diga a ela que você a ama, que é louco por ela.
Não basta beijá-la e entrar imediatamente.
Beije seu corpo inteiro,
explorando seus cantos.
Reconheça com seus lábios o que as roupas
não deixam você ver.
Adela Zamudio é uma dessas pessoas que nasceu disposta a lutar contra a ignorância, a derrubar as numerosas barreiras que contêm as massas. Esta essencial escritora boliviana nasceu em Cochabamba em 11 de outubro de 1854 e faleceu no mesmo local em 2 de junho de 1928. As leis da época permitiam-lhe estudar até a terceira série, mas Adela continuou a se educar. Ela teve que enfrentar uma sociedade sexista e fechada, que valorizava o casamento e o papel escravo da dona de casa em detrimento da educação e da liberdade de pensamento.
Sua vida pessoal foi muito difícil, dada a falta de compreensão do entorno, mas do lado profissional, porém, nada a impediu; Além de seus cargos como professora e diretora, fundou seu próprio Liceo de Señoritas de mesmo nome. Em 1925 foi coroada como maior expoente da cultura do seu país. Um poema que sem dúvida nos permite conhecer esta incrível escritora através das suas palavras é “Nacer hombre”, que representa parte do seu trabalho em defesa dos direitos das mulheres. A sua obra incluiu teatro, contos e ensaios, sempre com uma perspectiva social profunda, à frente do seu tempo.
Nacer hombre
Cuánto trabajo ella pasa Por corregir la torpeza De su esposo, y en la casa, (permitidme que me asombre) tan inepto como fatuo sigue él siendo la cabeza, porque es hombre.
Si alguna versos escribe -De alguno esos versos son que ella sólo los suscribe; (permitidme que me asombre) Si ese alguno no es poeta ¿por qué tal suposición? -Porque es hombre.
Una mujer superior en elecciones no vota, y vota el pillo peor; (permitidme que me asombre) con sólo saber firmar puede votar un idiota, porque es hombre.
Él se abate y bebe o juega en un revés de la suerte; ella sufre, lucha y ruega; (Permitidme que me asombre). ella se llama ser débil, y él se apellida ser fuerte porque es hombre.
Ella debe perdonar si su esposo le es infiel; mas, él se puede vengar; (permitidme que me asombre) en un caso semejante hasta puede matar él, porque es hombre.
¡Oh, mortal! ¡Oh mortal privilegiado, que de perfecto y cabal gozas seguro renombre! para ello ¿qué te ha bastado? Nacer hombre.
¿Quo Vadis?
Sola, en el ancho páramo del mundo, Sola con mi dolor, En su confín, con estupor profundo Miro alzarse un celeste resplandor:
Es El! Aparición deslumbradora De blanca y dulce faz, Que avanza, con la diestra protectora En actitud de bendid6n y paz.
Inclino ante El mi rostro dolorido Temblando de ternura y de temor, Y exclamo con acento conmovido: - A donde vas, Señor?
- La Roma en que tus mártires supieron En horribles suplicios perecer Es hoy lo que Los césares quisieron: Emporio de elegancia y de placer.
Allí está Pedro. El pescador que un día Predicó la pobreza y la humildad, Cubierto de lujosa pedrería Ostenta su poder y majestad.
Feroz imitador de Los paganos, El Santo Inquisidor
Ha quemado en tu nombre a sus hermanos... Adónde vas, Señor?
Allá en tus templos donde el culto impera Oué hay en el fondo? O lucro o vanidad. Cuán pocos son los que con fe sincera Te adoran en espíritu y verdad!
El mundo con tu sangre redimido, Veinte siglos después de tu pasión, Es hay más infeliz, más pervertido, Más pagano que en el tiempo de Nerón.
Ante el altar de la Deidad impura, Huérfana de ideal, la juventud Contra el amor del alma se conjure Proclamando el placer como virtud.
Las antiguas barbaries que subsisten, Sólo cambian de nombre con la edad; La esclavitud y aun el tormento existen Y es mentira grosera la igualdad.
Siempre en la lucha oprimidos y opresores! De un lado, la fortuna y el poder, Del otro, la miseria y sus horrores; Y todo iniquidad... Hoy como ayer.
Hoy como ayer, Los pueblos de la tierra Se arman para el asalto y la traición, Y alza triunfante el monstruo de la guerra Su bandera de espanto y confusión.
Ciega, fatal, la humanidad se abisma En Los antros del vicio y del error. Y duda, horrorizada de sí misma... Adónde vas, Señor?
Sin palabras
Mil veces con palabras de dulzura
esta pasión comunicarte ansío;
mas, ¿qué palabras hallaré, bien mío,
que no haya profanado la impostura?
Penetre en ti callada mi ternura,
sin detenerse en el menor desvío,
como rayo de luna en claro río,
como aroma sutil en aura pura.
Ábreme el alma silenciosamente,
y déjame que inunde satisfecho
sus regiones, de amor y encanto llenas...
Fiel pensamiento, animaré tu mente;
afecto dulce, viviré en tu pecho;
llama suave, correré en tus venas.
Cuando estés con una mujer
Cuando estés con una mujer. Hazle el amor, no sólo tengas sexo. Dile que la amas, que estás loco por ella. No sólo la bese y entres de lleno. Besa su cuerpo entero, recorriendo sus rincones. Reconoce con tus labios lo que la ropa no deja ver.
Desea con todas tus fuerzas el poderla poseer. Sé amable y atento antes de hacerlo. Para que así no haya remordimiento. Sé dulce y tierno para que casi esté completo. Pero sobre todo ámala profundamente, porque amar es respetar, Y al respetar comprender el porqué de las cosas, el porqué de su entrega, pues es sólo su amor de verdad.
El cisne
Soy la flor que en su tallo se dobla,
porque sufre guardando en su seno.
De un gusano escondido el veneno,
que devora mi triste existir;
¡de un gusano escondido el veneno,
que devora mi triste existir!
Cuanta pena contiene un recuerdo
olvidando las penas se calma,
si el olvido es el sueño del alma,
pero mi alma no puede dormir…
¡Si el olvido es el sueño del alma,
pero mi alma no puede dormir!
Confundido por onda tristeza
el dolor se retrata en mi frente,
Cuán amarga es mi vida presente,
Cuán amargo será el porvenir
¡Cuán amarga es mi vida presente,
cuán amargo será el porvenir!
Soy el cisne que canta doliente
de mi muerte el momento esperando
yo que siempre he vivido llorando
quiero al menos cantado morir
¡Yo que siempre he vivido llorando
quiero al menos cantando morir!
Cuento infantil "La Razón y la Fuerza", Adela Zamudio
La razón y la fuerza
La razón y la fuerza se presentaron un día ante el tribunal de la Justicia a resolver un reñido litigio. La Justicia se declaró en favor de la Razón. La Fuerza alegó sus glorias que llenan la historia y su innegable preponderancia universal en todas las épocas; pero la Justicia se mostró inflexible.
—Tus triunfos no significan para mí más que barbarie; sólo sentenciaré a tu favor cuando te halles de acuerdo con la Razón, le dijo.
Las dos litigantes se retiraron, cada cual por su lado, y en el camino, la Fuerza se encontró con la Hipocresía y le contó el fracaso que acababa de sufrir.
—Has declarado tus ambiciones con demasiada franqueza, dijóle ésta. — Si te hubieses revestido de los atributos de tu enemiga, el resultado hubiera sido distinto.
La Fuerza aprovechó el consejo: Aguardó a que la Razón estuviese dormida o descuidada, le robó sus estiduras, se disfrazó con ellas, y adoptando sus maneras y lenguaje, se presentó a la Justicia con su memorial en la mano.
—Leedlo, señora, le dijo. Todo lo que pido es en nombre de la Patria, de la Humanidad, de la Religión.
La justicia que es algo cegatona, se colocó los anteojos, puso su visto bueno al documento y le imprimió el sello augusto de su ministerio. La Fuerza se fue en busca de la Hipocresía.
—Eres hábil, le dijo, y me conviene tomarte a mi servicio; pero la vileza repugnante de tu aspecto podría perjudicarme. Es necesario que cambies de traje.
La Hipocresía se dirigió a casa de la Prudencia.
—Vecina, dijo, hágame el favor de prestarme uno de sus trajes, el más decente. Me propongo una loable empresa.
La Prudencia mantiene su lámpara encendida y goza de muy buena vista, pero el papel había estado tan bien representado que se engañó: Creyó en las buenas intenciones de aquella vecina y le confió un traje de diplomático. Desde entonces, cuando la Fuerza no puede realizar por sí sola alguna de sus hazañas, se asocia a la Hipocresía y casi siempre logra triunfar.
Agora depois de nada pergunte me se eu me importo. um motivo... o único que prega as divergências noite adentro me conclui em indiscutível solidão. Solidão indiscutível ou dissociada? Quando não há nada a dizer nós ouvimos o ouvido precisar da palavra nas coisas dos outros.
SÓLO POR HOY
Tengo menos compasión que gato hambriento.
La visión y el contacto con las bestias o con hombres que se comen entre ellos de un bocado es belleza de fuego.
El tocarlo todo
medirlo con vara del infierno, desear las piernas ajenas, la boca del otro, los muslos, el gemido, el fondo oscuro de las cosas.
Y no hablo de calmar esas bestias;
lejos de mí, tal vez, hable del silencio como un animal que persiste en el centro de la casa,
brutal casi ebrio.
ABRE
un motivo... el único que clava desacuerdos en la noche me concluye en soledad indiscutida. ¿Indiscutida o disociada soledad?
¿Se disocia el deseo de mujer en maquina de consumo masivo? ¿Se consume en medio deseo la ambición? ¿ambición de media mujer en sentido más sentido de su noche de pantalla? ¿se le nombra deseo?
Oquedad de maquillaje... o posible pedido de auxilio en un visor menos justo. Ausencia de mujer o ridícula sensación de sentirse un arrancado. Arrancado (hueco negro que dejaron en la tierra). ¿En maceta o en esta silla de ciber?
El agujero es siempre la ciudad y ella no comprende porqué se llora. Se llora el mensaje de uno mismo. Me compadezco de lo que escribo, y sigo el orden de lo que es mío. Mío en los ojos de la materia sola. En soledad de música fuerte y juegos no de red.
Juegos de vos. De lo tuyo, no lo mío. Lo mío no es hueco de gente. Lo mío es una mirada perfecta que clava desacuerdos en la noche; sol-sol- de- edad- solo-mio-sole-da-de-mí-solo-sol.
Y ser así, y ser gracia y hacer gracias para vos, para esa, tu otra soledad que sí tiene remedio.
No la mía. La mía no. A mí se me hizo tarde.
PREGÚNTAME
Hace más de diez años mi abuela moría en una noche como ésta (y hasta la tres de la tarde nadie dijo boludeces).
Borde limpio o jornada en que fracasa todo intento de rebeldía.
(Mi abuela no iba a morirse nunca, y yo iba a aprender a tejer) Arroz con leche, me quiero casar...................... Igual. Ningún desarreglo abandonaría el desequilibrio de padecerme, de ridiculizar este frío de muertes incompletas. ............................. ............................. Ahora, después de nada, pregúntame si me importa.
DESEO DE OTRO
Lo hacemos despacio para que no vuelque, no salpique toda excitación el abuso de la lengua.
Cuando no hay nada que decir hacemos del oído necesidad de palabra en lo ajeno.
(Qué se yo, algo así vendría a ser el poema.)
HABÍA UNA VEZ UN HOMBRE
Ayer estaba leyendo un libro de cuentos, esos en donde la princesa besa al sapo y se convierte en calabaza.
No, no era así.
Donde el sapo besa a la calabaza y se convierte en princesa.
No, no creo que el sapo haya querido el lado femenino,
más bien, el sapo, podría ser casi justo y llamarse a sí mismo hombre verde.
Pero esa es otra historia. Sí.
Esa es la historia del Increíble Hulk:
- “Había una vez, un hombre nervioso que se ponía verde cada vez que le hacían notar que una transición no se rebuzna, se concibe...”
QUEREMOS SER.
Saco las hojas amarillas del geranio y saco una sombra, una escritura. Ese espacio brota, abrirá destinos. Me dejo escribir y callo. Me dejo escuchar. Hurga la mano en la tierra porque es propio del alma buscar un sacrificio oscuro, una sed de raíces nuevas. Nosotros.... generamos el trazo fino, la apertura que dejamos en el ciego y en la controversia de su resplandor.
De todos esos equívocos seguiremos naciendo.
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Yanina Magrini nasceu na cidade de Río Cuarto, província de Córdoba, Argentina, em 1972. - Recebeu Menção Honrosa de Conteúdo do “Centro Internacional para Novos Escritores” (2002). - Obteve o 1º prémio no concurso internacional “Pablo Neruda III”, com a publicação do livro de poemas “miralo bien” (CIEN 2002).
- Ganhou também o 1º prémio “Juninpais 2003”, da Editorial de las Tres Lagunas, que publicou o livro de poesia “cromossomo em jeans” , com prólogo de Jorge Boccanera. - Em 2004 ganhou o “V Concurso Hispanoamericano Almafuerte”, com 1º prêmio em poesia e publicação de um livro em formato e-book. A partir de 2001 participou e conquistou diversos prêmios, publicando em diversas revistas e suplementos literários nacionais e internacionais. Integra diversas antologias poéticas e páginas na internet.
"A mulher que educou mulheres em pequenas comunidades rurais chilenas para que fossem livres."
LA MUJER FUERTE
Me acuerdo de tu rostro que se fijó en mis días, mujer de saya azul y de tostada frente, que en mi niñez y sobre mi tierra de ambrosía vi abrir el surco negro en un abril ardiente.
Alzaba en la taberna, honda, la copa impura el que te apegó un hijo al pecho de azucena, y bajo ese recuerdo, que te era quemadura, caía la simiente de tu mano, serena.
Segar te vi en enero los trigos de tu hijo, y sin comprender tuve en ti los ojos fijos, agrandados al par, de maravilla y llanto.
Y el lodo de tus pies todavía besara, porque entre cien mundanas no he encontrado tu cara ¡y aun te sigo en los surcos la sombra con mi canto!
MIS LIBROS
Libros, callados libros de las estanterías, vivos en su silencio, ardientes en su calma; libros, los que consuelan, terciopelos del alma, y que siendo tan tristes nos hacen la alegría!
Mis manos en el día de afanes se rindieron; pero al llegar la noche los buscaron, amantes en el hueco del muro donde como semblantes me miran confortándome aquellos que vivieron.
¡Biblia, mi noble Biblia, panorama estupendo, en donde se quedaron mis ojos largamente, tienes sobre los Salmos las lavas más ardientes y en su río de fuego mi corazòn enciendo!
Sustentaste a mis gentes con tu robusto vino y los erguiste recios en medio de los hombres, y a mí me yergue de ímpetu sólo el decir tu nombre; porque yo de ti vengo he quebrado al Destino.
Después de ti, tan sólo me traspasó los huesos con su ancho alarido, el sumo Florentino. A su voz todavía como un junco me inclino; por su rojez de infierno fantástica atravieso.
Y para refrescar en musgos con rocío la boca, requemada en las llamas dantescas, busqué las Florecillas de Asís, las siempre frescas ¡y en esas felpas dulces se quedó el pecho mío!
Yo vi a Francisco, a Aquel fino como las rosas, pasar por su campiña más leve que un aliento, besando el lirio abierto y el pecho purulento, por besar al Señor que duerme entre las cosas.
¡Poema de Mistral, olor a surco abierto que huele en las mañanas, yo te aspiré embriagada! Vi a Mireya exprimir la fruta ensangrentada del amor y correr por el atroz desierto.
Te recuerdo también, deshecha de dulzuras, versos de Amado Nervo, con pecho de paloma, que me hiciste más suave la línea de la loma, cuando yo te leía en mis mañanas puras.
Nobles libros antiguos, de hojas amarillentas, sois labios no rendidos de endulzar a los tristes, sois la vieja amargura que nuevo manto viste: ¡desde Job hasta Kempis la misma voz doliente!
Los que cual Cristo hicieron la Vía-Dolorosa, apretaron el verso contra su roja herida, y es lienzo de Verònica la estrofa dolorida; ¡todo libro es purpúreo como sangrienta rosa!
¡Os amo, os amo, bocas de los poetas idos, que deshechas en polvo me seguís consolando, y que al llegar la noche estáis conmigo hablando, junto a la dulce lámpara, con dulzor de gemidos!
De la página abierta aparto la mirada, ¡oh muertos!, y mi ensueño va tejiéndoos semblantes: las pupilas febriles, los labios anhelantes que lentos se deshacen en la tierra apretada.
LA SOMBRA INQUIETA
Flor, flor de la raza mía, Sombra Inquieta, ¡qué dulce y terrible tu evocación! El perfil de éxtasis, llama la silueta, las sienes de nardo, l'habla de canción.
Cabellera luenga de cálido manto, pupilas de ruego, pecho vibrador; ojos hondos para albergar más llanto; pecho fino donde taladrar mejor.
Por suave, por alta, por bella, ¡precita! fatal siete veces; fatal, ¡pobrecita!, por la honda mirada y el hondo pensar.
¡Ay!, quien te condene, vea tu belleza, mire el mundo amargo, mida tu tristeza, ¡y en rubor cubierto rompa a sollozar!
**
¡Cuánto río y fuente de cuenca colmada, cuánta generosa y fresca merced de aguas, para nuestra boca socarrada! ¡Y el alma, la huérfana, muriendo de sed!
Jadeante de sed, loca de infinito, muerta de amargura la tuya en clamor, dijo su ansia inmensa por plegaria y grito: ¡Agar desde el vasto yermo abrasador!
Y para abrevarte largo, largo, largo, Cristo dio a tu cuerpo silencio y letargo, y lo apegó a su ancho caño saciador...
El que en maldecir tu duda se apure, que puesta la mano sobre el pecho juré; "Mi fe no conoce zozobra, Señor."
** Y ahora que su planta no quiebra la grama de nuestros senderos, y en el caminar notamos que falta, tremolante llama, su forma, pintando de luz el solar,
cuantos la quisimos abajo, apeguemos la boca a la tierra, y a su corazón, vaso de cenizas dulces, musitemos esta formidable interrogación:
¿Hay arriba tanta leche azul de lunas, tanta luz gloriosa de blondos estíos, tanta insigne y honda virtud de ablución
que limpien, que laven, que albeen las brunas manos que sangraron con garfios y en ríos, ¡oh Muerta!, la carne de tu corazón?
DESOLACIÓN
La bruma espesa, eterna, para que olvide dónde me ha arrojado la mar en su ola de salmuera. La tierra a la que vine no tiene primavera: tiene su noche larga que cual madre me esconde.
El viento hace a mi casa su ronda de sollozos y de alarido, y quiebra, como un cristal, mi grito. Y en la llanura blanca, de horizonte infinito, miro morir intensos ocasos dolorosos.
¿A quién podrá llamar la que hasta aquí ha venido si más lejos que ella sólo fueron los muertos? ¡Tan sólo ellos contemplan un mar callado y yerto crecer entre sus brazos y los brazos queridos!
Los barcos cuyas velas blanquean en el puerto vienen de tierras donde no están los que son míos; y traen frutos pálidos, sin la luz de mis huertos, sus hombres de ojos claros no conocen mis ríos.
Y la interrogación que sube a mi garganta al mirarlos pasar, me desciende, vencida: hablan extrañas lenguas y no la conmovida lengua que en tierras de oro mi vieja madre canta.
Miro bajar la nieve como el polvo en la huesa; miro crecer la niebla como el agonizante, y por no enloquecer no encuentro los instantes, porque la "noche larga" ahora tan solo empieza.
Miro el llano extasiado y recojo su duelo, que vine para ver los paisajes mortales. La nieve es el semblante que asoma a mis cristales; ¡siempre será su altura bajando de los cielos!
Siempre ella, silenciosa, como la gran mirada de Dios sobre mí; siempre su azahar sobre mi casa; siempre, como el destino que ni mengua ni pasa, descenderá a cubrirme, terrible y extasiada.
AUSENCIA
Se va de ti mi cuerpo gota a gota. Se va mi cara en un óleo sordo; se van mis manos en azogue suelto; se van mis pies en dos tiempos de polvo.
¡Se te va todo, se nos va todo! Se va mi voz, que te hacía campana cerrada a cuanto no somos nosotros.
Se van mis gestos, que se devanaban, en lanzaderas, delante tus ojos.
Y se te va la mirada que entrega, cuando te mira, el enebro y el olmo.
Me voy de ti con tus mismos alientos: como humedad de tu cuerpo evaporo.
Me voy de ti con vigilia y con sueño, y en tu recuerdo más fiel ya me borro.
Y en tu memoria me vuelvo como esos que no nacieron ni en llanos ni en sotos.
Sangre sería y me fuese en las palmas de tu labor y en tu boca de mosto.
Tu entraña fuese y sería quemada en marchas tuyas que nunca más oigo, ¡y en tu pasión que retumba en la noche, como demencia de mares solos!
¡Se nos va todo, se nos va todo!
"A mulher que apesar de todos os preconceitos venceu, em 1945, uma premiação dominada por homens até os dias de hoje."
Por que sabemos tão pouco sobre Gabriela Mistral?
"A mulher que representa toda a marginalização dos povos que defende. Carrega em si todos os requisitos para o esquecimento nessas terras."
Besos
"A mulher que ajudou a erradicar o analfabetismo no Chile., lutou pela educação básica de qualidade."
Me levanté temprano y anduve descalza Por los corredores; bajé a los jardines Y besé las plantas; Absorbí los vahos limpios de la tierra, Tirada en la grama; Me bañé en la fuente que verdes achiras
Circundan. Más tarde, mojados de agua Peiné mis cabellos. Perfumé las manos Con zumo oloroso de diamelas. Garzas
Quisquillosas, finas, De mi falda hurtaron doradas migajas.
Luego puse traje de clarín más leve Que la misma gasa. De un salto ligero llevé hasta el vestíbulo
Mi sillón de paja. Fijos en la verja mis ojos quedaron, Fijos en la verja. El reloj me dijo: diez de la mañana.
Adentro un sonido de loza y cristales; Comedor en sombras; manos que aprestaban Manteles.
Afuera, sol como no he visto Sobre el mármol blanco de la escalinata. Fijos en la verja siguieron mis ojos. Fijos. Te esperaba.
Levantei-me cedo e andei descalça pelos corredores: desci para os jardins E beijei as plantas absorvi as névoas limpas da terra, Deitada na grama; Tomei banho na fonte que as achiras verdes cercam. Mais tarde, molhada com água, penteei o cabelo. Perfumei minhas mãos, com suco perfumado de diamelas. Garças grossas e finas, da minha saia roubaram migalhas douradas. . Depois, coloquei um terno de corneta mais leve do que a própria gaze. Com um leve salto, carreguei minha poltrona de palha para dentro do corredor. Fixos na cerca meus olhos permaneceram, fixos no portão. O relógio me dizia: dez horas da manhã. No interior, um som de barro e cristais: Sala de jantar à sombra; mãos que preparavam toalhas de mesa. Lá fora, sol como eu não vi no mármore branco da escadaria. Fixados na cerca seguiram-me os olhos, fixos. Eu estava esperando por você.
La vida ha traspasado los olvidos en cada estante de la noche.
Hundida en el fracaso de un sueño esquivo, la siento fustigar en sucesivas imágenes que el espejo disloca.
Visito su choza de puertas giratorias; entro y salgo de las vísperas y de los futuros encuentros con la muerte que acecha.
Pasajera de instantes insufribles, logra rozar mis manos para robarme el hemisferio habitado y dejarme hueca, sólo multiplicada por esas aguas que copiarán a otros cuando yo me vaya.
LA PROFECÍA
Un grito que rotula el universo se impone entre las formas ígneas de mis pesadillas.
Se abre un libro de queja en la memoria y vuelvo a un tiempo que es antorcha en cárceles de mármol.
Hay un perfil con desniveles en carillas añosas; jardines de pájaros desnudos; ocasos que se duermen en aljibes y ojos que se agotan en océanos inútiles.
Con letras centinelas armo pocas palabras y rechazo las muertes que anteceden a mis pasos.
Algún recuerdo modificado deja en el camino una estela, y el eco del instante último, cuando todavía alguien me nombraba entre las cosas vivas, intenta el aprendizaje de una profecía que no me atrevo a asumir.
LOS EXTREMOS
Fuera de los muros rugen los fantasmas del rescate.
Con sonido de ironía, una madeja de buitres vuelve a parir la noche.
Hay manos en los ecos y ojos traicionados desaguando el olvido.
El tiempo cuelga un puente minucioso entre dos absolutos, y la muerte se pasea venenosa.
Pero la casa es un mausoleo al que la ausencia le ha amputado los cirios, y las flamas se marchan al sepulcro donde ya nadie duerme.
Abriré otra vez las puertas sin bisagras para buscar mi huella congelada en algún resto de espejo.
LA SILLA DE MIMBRE.
Sentada en un cuadrante remoto de la casa, se sostiene la silla como última invitada.
Hoy cuelgan sus harapos los domingos y gozan las polillas cavernas
Una araña ha tejido su aurora de una punta a la otra, y la ruina deambula con su capa preñada.
De pie frente a los zócalos, atiende comensales que esgrimen voz de nadie.
Sobre la carne viva de la memoria, estampa algunos nombres.
EL RESCATE
Cuando regrese otra vez a mi nombre, soltaré las amarras.
Allí estará la niña taciturna de un pueblo de juguete.
No hallaré calendarios en las vides salpicadas de besos, y caerá la soledad por un abismo de hambre.
En barrancas de pan tocaré las alianzas puras de otros días.
Vestiré soberana con algún tejido nuevo, y en el líquido creativo de mi heredad flotaré sin partirme.
Habrá de sucumbir la intemperie feroz que hoy me divide.
Está la puerta abierta. Veo una lámpara única sobre el piano.
Teresa Palazzo Conti Antes de Equinoccio
TERESA PALAZO
Presentacion Libro
O BASTA DE MORDAZAS
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TERESA PALAZZO CONTI palazzo_conti@hotmail.com
Cônsul do movimento “POETAS DO MUNDO” na Cidade Autônoma de Buenos Aires, República Argentina, onde reside. PROFESSOR DE EDUCAÇÃO PRIMÁRIA PROFESSOR SÊNIOR DE MÚSICA e PROFESSOR SÊNIOR DE INGLÊS DE LÍNGUA E CULTURA ITALIANA. EX-TITULAR DA CÁDEIRA DE POESIA DO CENTRO CULTURAL SAN MARTÍN da Cidade Autônoma de Buenos Aires. Participou de: XVIII SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE LITERATURA organizado pelo Instituto Hispânico Literário e Cultural (Guatemala de la Asunción- Guatemala). Ano 1999. XIX SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE LITERATURA (Lima-Peru). Ano 2000. XX SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE LITERATURA (Domínguez Hills University-Carson-Califórnia-EUA). Ano 2001. XXI SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE LITERATURA (Universidade Interamericana de Porto Rico-Porto Rico). Ano 2002. XXII SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE LITERATURA (Assunção do Paraguai-Paraguai). Ano 2003. XXIII SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE LITERATURA (Buenos Aires- Argentina). Ano 2004. CONGRESSO “INÉS ARREDONDO” (Guadalajara-México). Ano 2004. XXIV SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE LITERATURA (Universidade de Los Lagos- Puerto Varas- Chile). Ano 2005 XXV SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE LITERATURA (Domínguez Hills University-Califórnia-EUA) Ano 2006 DIPLOMA DE HONRA 2007, do Instituto Literário e Cultural Hispânico, Califórnia EUA Menção honrosa, 2008, GEORGES ZANUN EDITORES (Feira Internacional do Livro, Buenos Aires) Ouro Medalha, XXVIII CONGRESSO MUNDIAL DE POETAS, Acapulco 2008
OBRAS PUBLICADAS:
A PELE CATIVA (POEMAS) PASSA NA ÁGUA (POEMAS) PÁSSARO DE VENTO (POEMAS) MEMÓRIA DO ABISMO LÚMEN EDITORIAL (POEMAS) CHAMAS NO GELO A FRASE (COM EPÍLOGO DE DR. MANUEL LOZANO)
(POEMARIO VIRTUAL) EDITORIAL DOS QUATRO VENTOS (POEMAS) CD “TRAVESÍA” (NUEVO TANGO) (Letra de seus livros)
Membro da ANTOLOGIA DA NOVA POESIA HISPANOAMERICANA (Lima-Peru). Anos 2005 e 2006. Distinções e Prêmios recebidos: 2º Prêmio, homenagem ao poeta colombiano José Assunção Silva. (1997) 2º Prémio, Poesia Romântica (1998) 2º Prémio, Poesia Livre (1998) Primeiro Prémio CATHEDRA, em Poesia Livre e Romântica (1999)
Faz parte da ANTOLOGIA resultante do Concurso Nacional de Poesia 2000, convocado pela Sociedade Argentina de Escritores (SADE).
Sua coluna de rádio “SENTimiento Y COMUNICACIÓN” está no ar desde 2001. Atualmente é transmitida pela AM 1010 ONDA LATINA.
Participa da Feira Internacional do Livro “DO AUTOR AO LEITOR”, na Cidade Autônoma de Buenos Aires, desde 2000, e da Feira do Livro MERCOSUL, em San Martín de los Andes, província de Neuquén, Argentina, com o patrocínio da Universidade de Comahue e da Rede Cultural Mercosul.
É membro do INSTITUTO LITERÁRIO E CULTURAL HISPANIC com sede em Los Angeles, EUA, e membro do conselho de administração da ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE POESIA na Cidade Autônoma de Buenos Aires (República Argentina).
Dormitei na noite coberta de frio Enquanto sonhava Com a tempestade que me cobria Quando subtilmente Entreabri os olhos E despertei sobressaltada Ouvindo uivos e ganidos do vento furioso a lamentar-se.
Subi os degraus da solidão E ouvi O vento chamar por mim, Como quem diz: — "Sai, Sai, procura os filhos que pariste perdidos algures pelas savanas distantes das praias ensolaradas africanas".
O medo entranhou-se-me Nas veias ensanguentas da carne Estremecendo a medula dos cérebros Que tão dificilmente carrego. O vento estava furioso comigo E a chuva castigava-me inocente. Estava tudo coberto e enevoado, A água escorria e encobria Todas as portas dos vizinhos desconhecidos, Nenhum som era desenhado na terra figura da chuva forte.
Chovia simplesmente
Saí... E meu corpo sacudiu estonteante Ao embate do vento E da chuva na pele Sangrava violentamente o espírito desesperado Que lutava pelo escasso espaço a circular pelas artérias, Lutava para me manter à tona. Os pulmões vomitavam os sons lindos da morte.
Estava a morrer Enquanto o mundo fugia devagar Por toda aquela maré. Já todos tinham ido embora, Tinham todos fugido da chuva E do vento Gritando os nomes sonantes dos parentes Já falecidos lá longe pelas velhas matas do Maiombe.
Estava a morrer, Mas ecoei os ecos dos mortos Enquanto lutava para chegar ao único sítio Onde seria feliz à sombra da minha árvore.
Despertei, Não choveu Eram as lágrimas de uma criança que me molhavam.
Finalmente a verdade
Estava linda e purpurina Saciando a fome e sede à solidão, Quando de entre as mãos sujas, Do Carteiro amarfanhado, Estremeci ao tocar na mensagem Vinda dos roseirais.
Mandaram-me os delírios da discórdia, Os insultos de paixões sovinas egoístas. Mandaram-me o corpo e A mulher negra tão amada. Mandaram-me o filho, Por mim mal parido.
Lágrimas correram ao ter nas mãos A mensagem que não tinha, O cheiro doce dos roseirais, Nem a cor mimosa das flores sensuais.
Continha, sim, finalmente a verdade; Das epopeias de um amor repudiado.
Faltava pouco amor, Para te encontrar então nas esquinas Mais queridas das cidades, Que em múltiplos orgasmos imorais, Naufragávamos juntos para além, Além dos roseirais...
Não estou em lugar nenhum Nem sítio para ir tenho eu, o que me esconda ou projeta – o tecto – não tenho. um colo macio, onde possa derramar toda essa mágoa, que me amarga o corpo e me dilacera as entranhas.
"A fragilidade do corpo do eu-lírico, nesse texto, é acentuada. “O pouco que sou” é o verso que sintetiza o poema, nas partes que moldam o corpo no tecido dos sofrimentos. Os “olhos grandes”, talvez porque choram? Pois num corpo franzino, magro, sofrido pela fome, pela miséria, o que se sobressai é o olhar de medo, de delírio e a sofreguidão pelo amor. “Os lábios grossos”, aqueles que antes tanto falavam, hoje “calam-se”. “O pouco” que “Esconde-se/por detrás/da figura baixa, oca/e óssea”, demonstra a fragilidade total desse sujeito." p.87 Larissa da Silva Lisboa Souza, Dissertação de Mestrado, UF de São Carlos, 2015
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Ana Maria José Dias Branco nasceu na Lunda Norte aos 24 de Maio de 1967. Obras Publicadas: «Meu Rosto e Minhas Magoas» (1997) e «A Despedida de Mim»
esqueceria outros pelo menos três ou quatro rostos que amei Num delírio de arquivística organizei a memória em alfabetos como quem conta carneiros e amansa no entanto flanco aberto não esqueço e amo em ti os outros rostos
Conversa de senhoras
Não preciso nem casar Tiro dele tudo que preciso Não saio mais daqui Duvido muito Esse assunto de mulher já terminou O gato comeu e regalou-se Ele dança que nem um realejo Escritor não existe mais Mas também não precisa virar deus Tem alguém na casa Você acha que ele aguenta? Sr. ternura está batendo Eu não estava nem aí Conchavando: eu faço a tréplica Armadilha: louca pra saber Ela é esquisita Também você mente demais Ele está me patrulhando Para quem você vendeu seu tempo? Não sei dizer: fiquei com o gauche Não tem a menor lógica Mas e o trampo? Ele está bonzinho Acho que é mentira Não começa
Sumário
Polly Kellog e o motorista Osmar. Dramas rápidos mas intensos. Fotogramas do meu coração conceitual. De tomara-que-caia azul-marinho. Engulo desaforos mas com sinceridade. Sonsa com bom-senso. Antena da praça. Artista da poupança. Absolutely blind. Tesão do talvez. Salta-pocinhas. Água na boca. Anjo que registra.
casablanca
Te acalma, minha loucura! Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados! Este som de serra de afiar as facas não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardias… Estas molas a gemer no quarto ao lado Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente no cinema… As chaminés espumam pros meus olhos As hélices do adeus despertam pros meus olhos Os tamancos e os sinos me acordam depressa na madrugada [feita de binóculos de gávea
e chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano
Dias não menos dias
Chora-se com a facilidade das nascentes Nasce-se sem querer, de um jato, como uma dádiva (às primeiras virações vi corações se entrefugindo todos ninguém soubera antes o que havia de ser não bater as pálpebras em monocorde
e a tarde pendurada ro raminho de um fogáceo arborescente deixava-se ir muda feita uma coisa ultima.
enciclopédia
Hácate ou Hécata, em gr. Hekáté. Mit. gr. Divindade lunar e marinha, de tríplice forma (muitas vezes com três cabeças e três corpos). Era uma deusa órfica, parece que originária da Trácia. Enviava aos homens os terrores noturnos, os fantasmas e os espectros. Os romanos a veneravam
como deusa da magia infernal.
Fagulha
Abri curiosa o céu. Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria entrar, coração ante coração, inteiriça ou pelo menos mover-me um pouco, com aquela parcimônia que caracterizava as agitações me chamando
Eu queria até mesmo saber ver, e num movimento redondo como as ondas que me circundavam, invisíveis, abraçar com as retinas cada pedacinho de matéria viva.
Eu queria (só) perceber o invislumbrável no levíssimo que sobrevoava.
Eu queria apanhar uma braçada do infinito em luz que a mim se misturava.
Eu queria captar o impercebido nos momentos mínimos do espaço nu e cheio
Eu queria ao menos manter descerradas as cortinas na impossibilidade de tangê-las
Eu não sabia que virar pelo avesso era uma experiência mortal.
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Ana Cristina Cruz Cesar (Rio de Janeiro RJ, 2 de junho de 1952 - idem, 29 de outubro de 1983). Poeta, ensaísta, tradutora. Filha de Maria Luiza César e do sociólogo e jornalista Waldo Aranha Lenz César, um dos responsáveis, com o editor Ênio Silveira (1925-1996), pela fundação da editora ecumênica Paz e Terra.
Aos sete anos, Ana Cristina tem seus primeiros poemas publicados no jornal Tribuna da Imprensa. Entre 1969 e 1970, interrompe o curso clássico no Colégio de Aplicação da Faculdade Nacional de Filosofia, para estudar inglês no Richmond School for Girls, em Londres, pelo programa de intercâmbio da juventude cristã. Ingressa, em 1971, na Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ).
Desde a vida universitária, participa ativamente da cena cultural carioca e do movimento da poesia marginal, convivendo com poetas como Cacaso (1944-1987) e intelectuais como Heloísa Buarque de Hollanda (1939). Ainda em 1971, inicia a atuação como professora, em escolas de 2º grau e de idiomas. Após a conclusão da graduação, em 1975, colabora para publicações como Opinião, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, com destaque para Beijo, importante periódico de cultura, com sete números impressos, cujo processo acompanha desde sua criação.
Em 1979 lança, de forma independente, o primeiro livro de poesia, Cenas de Abril. Seguem-se Correspondência Completa, uma carta ficcional, e Luvas de Pelica, publicado em 1980. Dessa mesma época datam as primeiras traduções, atividade que se torna objeto de estudo na pós-graduação: em 1981, torna-se mestre em teoria e prática da tradução literária pela Universidade de Essex, Inglaterra.
De volta ao Brasil, é contratada como analista de textos pela Rede Globo de Televisão e lança, em 1982, A Teus Pés - reunião de títulos publicados até então e ainda o inédito que nomeia o volume.
Aos 31 anos, em 1983, comete suicídio. Após sua morte, o poeta e amigo Armando Freitas Filho (1940) organiza sua obra e promove o lançamento dos livros Inéditos e Dispersos, em 1985, Escritos da Inglaterra, 1988, e Escritos no Rio, 1993.
A noite não adormece nos olhos das mulheres Em memória de Beatriz Nascimento
A noite não adormece nos olhos das mulheres a lua fêmea, semelhante nossa, em vigília atenta vigia a nossa memória.
A noite não adormece nos olhos das mulheres há mais olhos que sono onde lágrimas suspensas virgulam o lapso de nossas molhadas lembranças.
A noite não adormece nos olhos das mulheres vaginas abertas retêm e expulsam a vida donde Ainás, Nzingas, Ngambeles e outras meninas luas afastam delas e de nós os nossos cálices de lágrimas.
A noite não adormecerá jamais nos olhos das fêmeas pois do nosso sangue-mulher de nosso líquido lembradiço em cada gota que jorra um fio invisível e tônico pacientemente cose a rede
– Conceição Evaristo, em Cadernos Negros, vol. 19.
Conceição Evaristo
| Escrevivência
Da calma e do silêncio Quando eu morder a palavra, por favor, não me apressem, quero mascar, rasgar entre os dentes, a pele, os ossos, o tutano do verbo, para assim versejar o âmago das coisas.
Quando meu olhar se perder no nada, por favor, não me despertem, quero reter, no adentro da íris, a menor sombra, do ínfimo movimento.
Quando meus pés abrandarem na marcha, por favor, não me forcem. Caminhar para quê? Deixem-me quedar, deixem-me quieta, na aparente inércia. Nem todo viandante anda estradas, há mundos submersos, que só o silêncio da poesia penetra.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
Da menina, a pipa Da menina a pipa e a bola da vez e quando a sua íntima pele, macia seda, brincava no céu descoberto da rua um barbante áspero, másculo cerol, cruel rompeu a tênue linha da pipa-borboleta da menina.
E quando o papel seda esgarçada da menina estilhaçou-se entre as pedras da calçada a menina rolou entre a dor e o abandono.
E depois, sempre dilacerada, a menina expulsou de si uma boneca ensangüentada que afundou num banheiro público qualquer.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
§
De mãe O cuidado de minha poesia aprendi foi de mãe, mulher de pôr reparo nas coisas, e de assuntar a vida.
A brandura de minha fala na violência de meus ditos ganhei de mãe, mulher prenhe de dizeres, fecundados na boca do mundo.
Foi de mãe todo o meu tesouro veio dela todo o meu ganho mulher sapiência, yabá, do fogo tirava água do pranto criava consolo.
Foi de mãe esse meio riso dado para esconder alegria inteira e essa fé desconfiada, pois, quando se anda descalço cada dedo olha a estrada.
Foi mãe que me descegou para os cantos milagreiros da vida apontando-me o fogo disfarçado em cinzas e a agulha do tempo movendo no palheiro.
Foi mãe que me fez sentir as flores amassadas debaixo das pedras os corpos vazios rente às calçadas e me ensinou, insisto, foi ela a fazer da palavra artifício arte e ofício do meu canto da minha fala.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
§
Do fogo que em mim arde Sim, eu trago o fogo, o outro, não aquele que te apraz. Ele queima sim, é chama voraz que derrete o bivo de teu pincel incendiando até ás cinzas O desejo-desenho que fazes de mim.
Sim, eu trago o fogo, o outro, aquele que me faz, e que molda a dura pena de minha escrita. é este o fogo, o meu, o que me arde e cunha a minha face na letra desenho do auto-retrato meu.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
§
Do velho ao jovem Na face do velho as rugas são letras, palavras escritas na carne, abecedário do viver.
Na face do jovem o frescor da pele e o brilho dos olhos são dúvidas.
Nas mãos entrelaçadas de ambos, o velho tempo funde-se ao novo, e as falas silenciadas explodem.
O que os livros escondem, as palavras ditas libertam. E não há quem ponha um ponto final na história Infinitas são as personagens… Vovó Kalinda, Tia Mambene, Primo Sendó, Ya Tapuli, Menina Meká, Menino Kambi, Neide do Brás, Cíntia da Lapa, Piter do Estácio, Cris de Acari, Mabel do Pelô, Sil de Manaíra, E também de Santana e de Belô e mais e mais, outras e outros…
Nos olhos do jovem também o brilho de muitas histórias. e não há quem ponha um ponto final no rap É preciso eternizar as palavras da liberdade ainda e agora…
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
§
Eu-Mulher Uma gota de leite me escorre entre os seios. Uma mancha de sangue me enfeita entre as pernas. Meia palavra mordida me foge da boca. Vagos desejos insinuam esperanças. Eu-mulher em rios vermelhos inauguro a vida. Em baixa voz violento os tímpanos do mundo. Antevejo. Antecipo. Antes-vivo Antes – agora – o que há de vir. Eu fêmea-matriz. Eu força-motriz. Eu-mulher abrigo da semente moto-contínuo do mundo.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
§
Fêmea-Fênix Para Léa Garcia
Navego-me eu–mulher e não temo, sei da falsa maciez das águas e quando o receio me busca, não temo o medo, sei que posso me deslizar nas pedras e me sair ilesa, com o corpo marcado pelo olor da lama.
Abraso-me eu-mulher e não temo, sei do inebriante calor da queima e quando o temor me visita, não temo o receio, sei que posso me lançar ao fogo e da fogueira me sair inunda, com o corpo ameigado pelo odor da chama.
Deserto-me eu-mulher e não temo, sei do cativante vazio da miragem, e quando o pavor em mim aloja, não temo o medo, sei que posso me fundir ao só, e em solo ressurgir inteira com o corpo banhado pelo suor da faina.
Vivifico-me eu-mulher e teimo, na vital carícia de meu cio, na cálida coragem de meu corpo, no infindo laço da vida, que jaz em mim e renasce flor fecunda. Vivifico-me eu-mulher. Fêmea. Fênix. Eu fecundo.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
§
Filhos na rua O banzo renasce em mim. Do negror de meus oceanos a dor submerge revisitada esfolando-me a pele que se alevanta em sóis e luas marcantes de um tempo que aqui está.
O banzo renasce em mim e a mulher da aldeia pede e clama na chama negra que lhe queima entre as pernas o desejo de retomar de recolher para o seu útero-terra as sementes que o vento espalhou pelas ruas…
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
§
Frutífera – Da solidão do fruto – De meu corpo ofereço as minhas frutescências, casca, polpa, semente. E vazada de mim mesma com desmesurada gula apalpo-me em oferta a fruta que sou.
Mastigo-me e encontro o coração de meu próprio fruto, caroço aliciado, a entupir os vazios de meus entrededos.
– Da partilha do fruto – De meu corpo ofereço as minhas frutescências, e ao leve desejo-roçar de quem me acolhe, entrego-me aos suados, suaves e úmidos gestos de indistintas mãos e de indistintos punhos, pois na maturação da fruta, em sua casca quase-quase rompida, boca proibida não há.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
§
Malungo, brother, irmão
No fundo do calumbé nossas mãos ainda espalmam cascalhos nem ouro nem diamante espalham enfeites em nossos seios e dedos.
Tudo se foi mas a cobra deixa o seu rastro nos caminhos aonde passa e a lesma lenta em seu passo-arrasto larga uma gosma dourada que brilha no sol.
um dia antes um dia avante a dívida acumula e fere o tempo tenso da paciência gasta de quem há muito espera.
Os homens constroem no tempo o lastro, laços de esperanças que amarram e sustentam o mastro que passa da vida em vida. no fundo do calumbé nossas mãos sempre e sempre espalmam nossas outras mãos moldando fortalezas e esperanças, heranças nossas divididas com você: malungo, brother, irmão.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
§
Meia lágrima
Não, a água não me escorre entre os dedos, tenho as mãos em concha e no côncavo de minhas palmas meia gota me basta.
Das lágrimas em meus olhos secos, basta o meio tom do soluço para dizer o pranto inteiro.
Sei ainda ver com um só olho, enquanto o outro, o cisco cerceia e da visão que me resta vazo o invisível e vejo as inesquecíveis sombras dos que já se foram.
Da língua cortada, digo tudo, amasso o silencio e no farfalhar do meio som solto o grito do grito do grito e encontro a fala anterior, aquela que emudecida, conservou a voz e os sentidos nos labirintos da lembrança.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
Menina Menina, eu queria te compor Em verso, Cantar os desconcertantes Mistérios Que brincam em ti, Mas teus contornos me Escapolem. Menina, meu poema primeiro,
Cuida de mim.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
§
Meu rosário
Meu rosário é feito de contas negras e mágicas. Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo padres-nossos e ave-marias. Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques do meu povo e encontro na memória mal adormecida as rezas dos meses de maio de minha infância. As coroações da Senhora, em que as meninas negras, apesar do desejo de coroar a Rainha, tinham de se contentar em ficar ao pé do altar lançando flores. As contas do meu rosário fizeram calos em minhas mãos, pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas, nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo. As contas do meu rosário são contas vivas. (Alguém disse um dia que a vida é uma oração, eu diria, porém, que há vidas-blasfemas). Nas contas de meu rosário eu teço intumescidos sonhos de esperanças. Nas contas de meu rosário eu vejo rostos escondidos por visíveis e invisíveis grades e embalo a dor da luta perdida nas contas de meu rosário. Nas contas de meu rosário eu canto, eu grito, eu calo. Do meu rosário eu sinto o borbulhar da fome no estômago, no coração e nas cabeças vazias. Quando debulho as contas do meu rosário, eu falo de mim mesma um outro nome. E sonho nas contas de meu rosário lugares, pessoas, vidas que pouco a pouco descubro reais. Vou e volto por entre as contas de meu rosário, que são pedras marcando-me o corpo caminho. E neste andar de contas-pedras, o meu rosário se transmuta em tinta, me guia o dedo, me insinua a poesia. E depois de macerar conta por conto do meu rosário, me acho aqui eu mesma e descubro que ainda me chamo Maria.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
§
Para a menina
Desmancho as tranças da menina e os meus dedos tremem medos nos caminhos repartidos de seus cabelos.
Lavo o corpo da menina e as minhas mãos tropeçam dores nas marcas-lembranças de um chicote traiçoeiro.
Visto a menina e aos meus olhos a cor de sua veste insiste e se confunde com o sangue que escorre do corpo-solo de um povo.
Sonho os dias da menina e a vida surge grata descruzando as tranças e a veste surge farta justa e definida e o sangue se estanca passeando tranqüilo na veia de novos caminhos, esperança.
– Conceição Evaristo,no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
§
Pedra, pau, espinho e grade
“No meio do caminho tinha uma pedra”, Mas a ousada esperança de quem marcha cordilheiras triturando todas as pedras da primeira à derradeira de quem banha a vida toda no unguento da coragem e da luta cotidiana faz do sumo beberragem topa a pedra pesadelo é ali que faz parada para o salto e não o recuo não estanca os seus sonhos lá no fundo da memória, pedra, pau, espinho e grade são da vida desafio. E se cai, nunca se perdem os seus sonhos esparramados adubam a vida, multiplicam são motivos de viagem.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
§
Recordar é preciso
O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos A memória bravia lança o leme: Recordar é preciso.
O movimento vaivém nas águas-lembranças dos meus marejados olhos transborda-me a vida, salgando-me o rosto e o gosto. Sou eternamente náufraga, mas os fundos oceanos não me amedrontam e nem me imobilizam.
Uma paixão profunda é a bóia que me emerge. Sei que o mistério subsiste além das águas.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
§
Todas as manhãs
Todas as manhãs acoito sonhos e acalento entre a unha e a carne uma agudíssima dor.
Todas as manhãs tenho os punhos sangrando e dormentes tal é a minha lida cavando, cavando torrões de terra, até lá, onde os homens enterram a esperança roubada de outros homens.
Todas as manhãs junto ao nascente dia ouço a minha voz-banzo, âncora dos navios de nossa memória. E acredito, acredito sim que os nossos sonhos protegidos pelos lençóis da noite ao se abrirem um a um no varal de um novo tempo escorrem as nossas lágrimas fertilizando toda a terra onde negras sementes resistem reamanhecendo esperanças em nós.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
§
Vozes-mulheres
A voz de minha bisavó ecoou criança nos porões do navio. ecoou lamentos de uma infância perdida. A voz de minha avó ecoou obediência aos brancos-donos de tudo. A voz de minha mãe ecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas alheias debaixo das trouxas roupagens sujas dos brancos pelo caminho empoeirado rumo à favela. A minha voz ainda ecoa versos perplexos com rimas de sangue e fome. A voz de minha filha recolhe todas as nossas vozes recolhe em si as vozes mudas caladas engasgadas nas gargantas. A voz de minha filha recolhe em si a fala e o ato. O ontem – o hoje – o agora. Na voz de minha filha se fará ouvir a ressonância o eco da vida-liberdade.
– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
Conceição Evaristo
- Olhos D'Água
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Maria da Conceição Evaristo de Britonasceu em Belo Horizonte, em 29 de novembro de 1946. De origem humilde, migrou para o Rio de Janeiro na década de 1970. Graduada em Letras pela UFRJ, trabalhou como professora da rede pública de ensino da capital fluminense. É Mestre em Literatura Brasileira pela PUC do Rio de Janeiro, com a dissertação Literatura Negra: uma poética de nossa afro-brasilidade (1996), e Doutora em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense, com a tese Poemas malungos, cânticos irmãos (2011), na qual estuda as obras poéticas dos afro-brasileiros Nei Lopes e Edimilson de Almeida Pereira em confronto com a do angolano Agostinho Neto.
Participante ativa dos movimentos de valorização da cultura negra em nosso país, estreou na literatura em 1990, quando passou a publicar seus contos e poemas na série Cadernos Negros. Escritora versátil, cultiva a poesia, a ficção e o ensaio. Desde então, seus textos vêm angariando cada vez mais leitores. A escritora participa de publicações na Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos. Seus contos vêm sendo estudados em universidades brasileiras e do exterior. Em 2003, publicou o romance Ponciá Vicêncio, pela Editora Mazza, de Belo Horizonte.