domingo, 8 de março de 2026

Boa tarde, Poesia: O poder humanizador da poesia

Adélia Prado

Palestra da escritora brasileira, Adélia Prado, no programa Sempre um Papo de 2008.


"... não é a religião que inventou, não é a filosofia que inventou, está acenando de dentro do nosso próprio ser: é o desejo profundo que nós experimentamos na nossa orfandade original, nós já nascemos órfãos de ter sentido na vida, de ter significado e de ter perenidade, não pode acabar! esse é o desejo que nós temos... uma pessoa que tem vida interior, vida simbólica... a arte nasce daí e produz a partir daí..."








Tarde de Maio
Carlos Drummond de Andrade

Como esses primitivos que carregam por toda parte o
maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa. . .
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.



"... a beleza é uma experiência, ela não é um discurso..."


Exausto






"então, olha que maravilha se as escolas compreendessem isso e invés de discutir poesia... oferecessem a própria poesia, oferecessem a literatura, a arte, o teatro, tudo aquilo que na escola é humanizador. mas o ensino hoje está voltado para a parte lógica, intelectual - intelectual no sentido pior dessa palavra, aquilo que não toca o sentimento, 'eu sou um intelectual, eu não me comovo'."




Dona Doida 





"o verdadeiro artista está centrado na realidade. a arte não aliena ninguém, ela não tira da realidade, é o contrário, ela trás para o real."


Infância
Carlos Drummond de Andrade

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
Lia a história de Robinson Crusóe,
Comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
A ninar nos longes da senzala -- e nunca se esqueceu
Chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
Café gostoso
Café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
Olhando pra mim:
-- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
No mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
Era mais bonita que a de Robinson Crusoé.



"a cada um de nós cabe a vida comum, o cotidiano, e eu tenho absoluta convicção que é através do cotidiano que se revelam a metafísica, a beleza já está na criação, já está na nossa vida."

 e, em nome dessa beleza da criação de toda vida, a vida comum, precisamos lutar cotidianamente contra a feiura e a crueldade do fascismo e do nazismo que negam a beleza da vida, matam em nome da sua feiura... simples assim, a essência da nossa luta! baitasar
 
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Não sei quantas almas tenho / Falando um pouco de traduçãoO poder humanizador da poesia /    

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