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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Conceição Evaristo

Lobo de lobo



Neste episódio de Lobo del Lobo, a escritora brasileira Conceição Evaristo compartilha seu processo criativo no mundo literário e revela a origem de sua capacidade de imaginar histórias.


"Nada do que está escrito é mentira, nada do que está escrito é verdade porque são ficções da memória."






"Tio Tatão dizia que as pessoas morrem, mas não morrem, continuam nas outras. Um dia, ele disse, quase como se estivesse dando uma ordem: "Menina, o mundo, a vida, tudo está aí. Nossa gente não tem conseguido quase nada. Todos aqueles que morreram sem se realizar, todos os negros escravizados de ontem, os supostamente livres de hoje, se libertam na vida de cada um de nós que consegue viver, consegue se realizar. A sua vida menina não pode ser só sua. Muitos vão se libertar, vão se realizar por meio de você."


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Mais cinema-documentário:

Menino 23 / CentralNey À Flor da Pele / Grávida /  Cidadão Boilesen / 1961 / Conceição Evaristo / 

sábado, 31 de maio de 2025

Mulher: Las Poetisas del Amor

Cecília Meireles


Mulher ao Espelho




Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena, 
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importo quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
se morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.


Florbela Espanca
A Mulher II 




Ó mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosas duma imagem
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca ri alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doces almas de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!



C.G. Victorino
Eu Sou: A Nova Voz Das Mulheres


Vão olhar para meu ventre e dizer que sou sua
Vão olhar para meu corpo e dizer que estou nua

Vão olhar para minha face e me dizer especial
Mas, vou virar o olhar de repulsa
Vão me dizer que sou sem sal

Releve que o vento leva
E o vento leva por gerações
Não vou mais aguentar calada
Mesmo que enfrente multidões

Agora sou dona de mim
Não adianta afirmar que é banal
A mulher é um ser pleno
Não pode ser um ideal

A alma é livre de modelos
Ela é um anexo espacial
Quando me olham e me julgam
Não vou fingir que é normal

A vida de fato é tênue
Para eu levar sua miséria no âmago
Agora que estou acordada
Não vou me render a tiranos
Que seja sua filha, sua mãe,
Que seja sua irmã e sua prima
Que seja na rua, na esquina
O algoz amargura sua vítima

Mas veja que o pranto dos séculos
Parou de sangrar pela dor
A dor das mulheres forçadas
A engolir solidão e temor

Agora acordamos das cinzas
Somos frutos de um mundo opressor
Ninguém mais ficará calada
E sozinha enfrentará a dor

Vão olhar e gritar e bater
Apontar, violentar para temer
Mas agora é a hora do basta
E não mais existirá perdão
Não me calo frente ao soberano
Não mais passará contradição

Mulher sou livre e sou plena
Sou todas as vozes pequenas
Sou nua, de burka, enfeitada
Sou dona do meu coração
Ninguém mais calará o meu pranto
Para sua satisfação.


terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Sarau... Mulheres: Essa velha é um país (Eduardo Galeano)

Mulheres




Eduardo Galeano


027.


ESSA VELHA É UM PAÍS

1

     A última vez que a Avó viajou para Buenos Aires chegou sem nenhum dente, como um recém-nascido. Eu fiz que não percebi. Graciela tinha me advertido, por telefone, de Montevidéu: “Está muito preocupada. Me perguntou: Eduardo não vai me achar feia?”.
     A Avó parecia um passarinho. Os anos iam passando e faziam com que ela encolhesse. 
     Saímos do porto abraçados. 
     Propus um táxi.

– Não, não – disse a ela. – Não é porque ache que você vá ficar cansada. Eu sei que você aguenta. É que o hotel fica muito longe, entende? 

     Mas ela queria caminhar.

– Escuta, vó – falei. – Por aqui não vale a pena. A paisagem é feia. Esta é uma parte feia de Buenos Aires. Depois, quando você tiver descansado, vamos juntos caminhar pelos parques.

     Parou, me olhou de cima a baixo. Me insultou. E me perguntou, furiosa: 

– E você acha que eu olho a paisagem, quando caminho com você?

     Se pendurou em mim. 

– Eu me sinto crescida – disse – debaixo da tua asa.

     Perguntou-me: “Você lembra quando me levava no colo, no hospital, depois da operação?”
     Falou-me do Uruguai, do silêncio e do medo:

– Está tudo tão sujo. Está tão sujo tudo.

     Falou-me da morte: 

– Vou me reencarnar num carrapicho. Ou em um neto ou bisneto seu vou aparecer.
– Mas, ô velha – falei. – Se a senhora vai viver duzentos anos. Não me fale da morte, que a senhora ainda vai durar muito. 
– Não seja perverso – respondeu.

     Disse que estava cansada de seu corpo.

– Volta e meia eu falo para ele, para meu corpo: “Não te suporto”. E ele responde: “Eu tampouco”.
– Olha – disse ela, e esticou a pele do braço.

     Falou da viagem:

– Lembra quando a febre estava te matando, na Venezuela, e eu passei a noite chorando, em Montevidéu, sem saber por quê? Na semana passada, disse para Emma: “Eduardo não está tranquilo”. E vim. E agora também acho que você não está tranquilo. 


2
 
     Vovó ficou uns dias e voltou para Montevidéu.
     Depois escrevi uma carta para ela. Escrevi que não cuidasse, que não se chateasse, que não se cansasse. Disse que eu sei direitinho de onde veio o barro com que me fizeram.
     E depois me avisaram que tinha sofrido um acidente.
     Telefonei para ela.

– Foi minha culpa – falou. – Escapei e fui caminhando até a Universidade, pelo mesmo caminho que fazia antes para ver você. Lembra? Eu já sei que não posso fazer isso. Cada vez que faço, caio. Cheguei ao pé da escada e disse, em voz alta: “Aroma do Tempo”, que era o nome do perfume que você uma vez me deu de presente. E caí. Me levantaram e me trouxeram aqui. Acharam que eu tinha quebrado algum osso. Mas hoje, nem bem me deixaram sozinha, me levantei da cama e fugi. Saí na rua e disse: “Eu estou bem viva e louca, como ele quer”. 

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Galeano, Eduardo, 3 set 1940 - 13 abr 2015
Mulheres / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno.
1. Ficção uruguaia- Crônicas. I. Título. II. Série.
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Leia também: 

Sarau... Mulheres: Para inventar o mundo cada dia
Sarau... Mulheres: Amares
Sarau... Mulheres: Essa velha é um país

pag 036...



Mármol que respira


     Afrodita fue la primera mujer desnuda en la historia de la escultura griega. 
     Praxíteles la talló con la túnica caída a sus pies, y la ciudad de Cos le exigió que la vistiera. Pero otra ciudad, Cnido, le dio la bienvenida y le ofreció un templo; y en Cnido vivió la más mujer de las diosas, la más diosa de las mujeres.
     Aunque estaba encerrada y muy custodiada, los guardias no podían evitar la invasión de los locos por ella.
     Un día como hoy, harta de tanto acoso, Afrodita huyó. 



terça-feira, 29 de outubro de 2024

Sarau... Mulheres: Confissão do artista (Eduardo Galeano)

Mulheres




Eduardo Galeano


026.


CONFISSÃO DO ARTISTA

     
     Eu sei que ela é uma cor e um som. Se pudesse mostrá-la a você!
     Dormia ali, nua, abraçando as próprias pernas. Eu amava nela a alegria de animal jovem e ao mesmo tempo amava o pressentimento da decomposição, porque ela havia nascido para desfazer-se e eu sentia pena que fôssemos parecidos nisso. Mostrava a pele do ventre, que parecia raspada por um pente de metal. Essa mulher! Algumas noites saía luz de seus olhos e ela não sabia.
     Passo as horas procurando-a, sentado na frente do cavalete, mordendo os punhos, com os olhos cravados numa mancha de tinta vermelha que parece ao entusiasmo dos músculos e a tortura dos anos. Olho até sentir que meus olhos doem e finalmente creio que começo a sentir, no escuro, as pulsações da pintura crescendo e transbordando, viva, sobre a tela branca, e creio que escuto o ruído dos pés descalços sobre a madeira do chão, sua canção triste. Mas não. Minha própria voz avisa: “A cor é outra. O som é outro”.
     Levanto, e cravo a espátula nessa víscera vermelha e rasgo a tela de cima para baixo. Depois de matá-la, deito de boca para cima, arfando como um cão.
     Mas não posso dormir. Lentamente vou sentindo que volta a nascer em mim a necessidade de pari-la. Ponho o casaco e vou beber vinho nos botecos do porto.


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Galeano, Eduardo, 3 set 1940 - 13 abr 2015
Mulheres / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno.
1. Ficção uruguaia- Crônicas. I. Título. II. Série.
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Leia também: 

Sarau... Mulheres: Para inventar o mundo cada dia
Sarau... Mulheres: Amares
Sarau... Mulheres: Confissão do artista 

pag 036...



Las intrusas perturban una tranquila digestión del cuerpo de Dios


1979. Madrid

     En una gran iglesia de Madrid, con misa especial se celebra el aniversario de la independencia argentina. Diplomáticos, empresarios y militares han sido invitados por el general Leandro Anaya, embajador de la dictadura que allá lejos se está ocupando de asegurar la herencia de la patria, la fe y demás propiedades.
     Bellas luces caen desde los vitrales sobre los rostros y vestimentas de señoras y señores. En domingos como este, Dios es digno de confianza. Muy de vez en cuando alguna tosecita decora el silencio, mientras el sacerdote va cumpliendo el rito: imperturbable silencio de la eternidad, eternidad de los elegidos del Señor.
     Llega el momento de la comunión. Rodeado de guardaespaldas, el embajador argentino se acerca al altar. Se arrodilla, cierra los ojos, abre la boca. Pero ya se despliegan los blancos pañuelos, ya los pañuelos están cubriendo las cabezas de las mujeres que avanzan por la nave central y las naves laterales: las madres de Plaza de Mayo caminan suavemente, algodonoso rumor, hasta rodear a los guardaespaldas que rodean al embajador. Entonces lo miran fijo. Simplemente, lo miran fijo. El embajador abre los ojos, mira a todas esas mujeres que lo están mirando sin parpadear y traga saliva, mientras se paraliza en el aire la mano del sacerdote con la hostia entre dos dedos.
     Toda la iglesia está llena de ellas. De pronto en el templo ya no hay santos ni mercaderes, ni nada más que una multitud de mujeres no invitadas, negras vestiduras, blancos pañuelos, todas calladas, todas de pie.


sábado, 21 de setembro de 2024

Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 12 e 13 (Eduardo Galeano)

Mulheres




Eduardo Galeano


025.


A MOÇA DA CICATRIZ NO QUEIXO


12

     Decidi ir embora com Carrizo ao amanhecer.
     O velho Matias, que era guia, aprontou os cavalos.
     Ele nos acompanharia.

– Não vai me deixar dar-lhe um abraço? 

     O Capitão estava de costas. 
     Escutou minhas explicações. 
     Abriu a janela, observou o céu, farejou a brisa: era bom dia para navegar. 
     Esquentou água, parcimonioso, para o chimarrão. 
     Não dizia nada e continuava virado de costas. 
     Eu tossi.

– Vá – disse-me asperamente, por fim. – Vá de uma vez.

– Vamos queimar a sua casa – prosseguiu – e tudo o que é seu. 

     Montei e fiquei esperando, sem decidir-me. 
     Então ele saiu e deu uma chicotada na anca do cavalo.



13


     Íamos a trote e pensei nesse corpo terno e violento. Vai me perseguir até o fim, pensei. Quando abrir a porta, vou querer encontrar alguma mensagem dela e quando me deitar para dormir em algum chão ou cama vou escutar e contar os passos na escada, um a um, ou o barulho do elevador, andar a andar, não por medo dos milicos mas pelo louco desejo de que ela esteja viva e volte. Vou confundi-la com outras. Procurarei seu nome e sua voz e seu rosto. Sentirei seu cheiro na rua. Vou me embebedar e não me servirá de nada, pensei, se não é com saliva ou lágrimas dessa mulher.


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Galeano, Eduardo, 1940-
Mulheres / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno.
1. Ficção uruguaia- Crônicas. I. Título. II. Série.
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Leia também: 

Sarau... Mulheres: Para inventar o mundo cada dia
Sarau... Mulheres: Amares
Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 12 e 13

pag 036...



Celebración de la amistad


     Juan Gelman me contó que una señora se había batido a paraguazos, en una avenida de París, contra toda una brigada de obreros municipales. Los obreros estaban cazando palomas cuando ella emergió de un increíble Ford a bigotes, un coche de museo, de aquellos que arrancaban a manivela; y blandiendo su paraguas, se lanzó al ataque.
     A mandobles se abrió paso, y su paraguas justiciero rompió las redes donde las palomas habían sido atrapadas. Entonces, mientras las palomas huían en blanco alboroto, la señora la emprendió a paraguazos contra los obreros.
     Los obreros no atinaron más que a protegerse, como pudieron, con los brazos, y balbuceaban protestas que ella no oía: más respeto, señora, haga el favor, estamos trabajando, son órdenes superiores, señora, por qué no le pega al alcalde, cálmese, señora, qué bicho la picó, se ha vuelto loca esta mujer…
      Cuando a la indignada señora se le cansó el brazo, y se apoyó en una pared para tomar aliento, los obreros exigieron una explicación.
      Después de un largo silencio, ella dijo:

 —Mi hijo murió.

      Los obreros dijeron que lo lamentaban mucho, pero que ellos no tenían la culpa. También dijeron que esa mañana había mucho que hacer, usted comprenda…

 —Mi hijo murió —repitió ella.

      Y los obreros: que sí, que sí, pero que ellos se estaban ganando el pan, que hay millones de palomas sueltas por todo París, que las jodidas palomas son la ruina de esta ciudad…

 —Cretinos —los fulminó la señora.

     Y lejos de los obreros, lejos de todo, dijo:

—Mi hijo murió y se convirtió en paloma.

      Los obreros callaron y estuvieron un largo rato pensando. Y por fin, señalando a las palomas que andaban por los cielos y los tejados y las aceras, propusieron:

 —Señora: ¿por qué no se lleva a su hijo y nos deja trabajar en paz?

     Ella se enderezó el sombrero negro:

 —¡Ah, no! ¡Eso sí que no!

      Miró a través de los obreros, como si fueran de vidrio, y muy serenamente dijo:

 —Yo no sé cuál de las palomas es mi hijo. Y si supiera, tampoco me lo llevaría. Porque ¿qué derecho tengo yo a separarlo de sus amigos?

segue en la pag 27

domingo, 7 de abril de 2024

Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 10 e 11 (Eduardo Galeano)

Mulheres




Eduardo Galeano


024.


A MOÇA DA CICATRIZ NO QUEIXO


10

   Fomos dormir tarde e quando despertei estava só. 
   Tomei genebra. A minha mão tremia. Apertei o copo, forcei e o quebrei. Minha mão sangrou.




11

   Naquele mês, Carrizo chegou.
   Para ele, foi difícil contar-me.
   Não quis detalhes. Não quis guardar dela a memória de uma morte repugnante. Neguei-me a saber se a haviam asfixiado com uma bolsa de plástico, num barril com água e merda ou se lhe haviam arrebentado o fígado a pontapés.
   Pensei no pouco que durou para ela a alegria de chamar-se Mariana.


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Galeano, Eduardo, 1940-
Mulheres / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno.
1. Ficção uruguaia- Crônicas. I. Título. II. Série.
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Leia também: 

Sarau... Mulheres: Para inventar o mundo cada dia
Sarau... Mulheres: Amares
Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 10 e 11

pag 034...



Las madres de Plaza de Mayo


1977. Buenos Aires.

   Las madres de Plaza de Mayo, mujeres paridas por sus hijos, son el coro griego de esta tragedia.
   Enarbolando las fotos de sus desaparecidos, dan vueltas y vueltas a la pirámide, ante la rosada casa de gobierno, con la misma obstinación con que peregrinan por cuarteles y comisarías y sacristías, secas de tanto llorar, desesperadas de tanto esperar a los que estaban y ya no están, o quizás siguen estando, o quién sabe:

—Me despierto y siento que está vivo —dice una, dicen todas.

   Me voy desinflando mientras pasa la mañana. Se me muere al mediodía. Resucita en la tarde. Entonces vuelvo a creer que llegará y pongo un plato para él en la mesa, pero se vuelve a morir y a la noche me caigo dormida sin esperanza. Me despierto y siento que está vivo…
   Las llaman locas. Normalmente no se habla de ellas. Normalizada la situación, el dólar está barato y cierta gente también. Los poetas locos van al muere y los poetas normales besan la espada y cometen elogios y silencios. Con toda normalidad el ministro de Economía caza leones y jirafas en la selva africana y los generales cazan obreros en los suburbios de Buenos Aires. Nuevas normas de lenguaje obligan a llamar Proceso de Reorganización Nacional a la dictadura militar.


segue en la pag 27

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 8 e 9 (Eduardo Galeano)

Mulheres




Eduardo Galeano


023.


A MOÇA DA CICATRIZ NO QUEIXO


8

   Coloquei as fotos no chá para envelhecê-las. Apaguei letra por letra com uns ácidos franceses que tinha guardado. Passei um solvente sobre a impressão digital e depois cola de farinha de trigo e borracha de tinta. Alisei as folhas com ferro de passar roupa morno. O passaporte ficou nu. Fui vestindo-o pouco a pouco. Deixei marcas de carimbos e fiz assinaturas. Depois friccionei as folhas com as unhas.



9

   Aproximava-se o fim do ano. Fazia um mês que Flávia estava ali. A lua nasceu com os cornos para cima.

   Longe, não tão longe, alguém se emputecia, alguém se despedaçava, alguém ficava louco de solidão ou de fome. Apertava-se um botão: a máquina zumbia, crepitava, abria as mandíbulas de aço. Um homem conseguia depois de muito tempo ver seu filho preso através de uma grade, e o reconhecia somente pelos sapatos marrons que tinha dado de presente a ele.

– Faça com que esses cachorros se calem.

   Flávia sentia-se culpada por comer comida quente duas vezes ao dia, ter abrigo no inverno e liberdade. Ela me disse:

– Faça com que esses cachorros se calem. Se eles se calam, eu fico.


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Galeano, Eduardo, 1940-
Mulheres / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno.
1. Ficção uruguaia- Crônicas. I. Título. II. Série.
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Leia também: 

Sarau... Mulheres: Para inventar o mundo cada dia
Sarau... Mulheres: Amares
Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 8 e 9

pag 033...



Llorar


   Fue en la selva, en la Amazonia ecuatoriana. Los indios shuar estaban llorando a una abuela moribunda. Lloraban sentados, a la orilla de su agonía. Un testigo, venido de otros mundos, preguntó:

—¿Por qué lloran delante de ella, si todavía está viva?

   Y contestaron los que lloraban: 

—Para que sepa que la queremos mucho. 


segue en la pag 26 

 

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 7 (Eduardo Galeano)

Mulheres




Eduardo Galeano


023.


A MOÇA DA CICATRIZ NO QUEIXO


7

   Em plena noite fomos despertados por fortes batidas na porta e por gritos. Por pouco a porta não veio abaixo.
   Eu e Flávia saímos correndo para a casa do maneta Justino. Peguei o que pude e voamos para lá.
   Anos atrás, um tubarão-tigre havia arrancado o braço de Justino. O tubarão tinha dado a volta quando Justino tentava tirá-lo da rede. Eu conhecia Justino muito pouco, mas disso eu sabia.
   No casebre, o lampião a querosene cambaleou.
   A mulher do sem-braço gritava com as pernas abertas. As coxas estavam inchadas e roxas. Na pele esticada via-se uma seiva de minúsculas veias.
   Pedi a Flávia para ferver uma panela de água. Mandei Justino, que estava muito nervoso e tropeçando em tudo, esperar lá fora. Um cachorro escondeu-se debaixo da cama e expulsei-o a pontapés.
   Com alma e vida debrucei-me sobre o ventre da mu-lher. Ela uivava como um animal, gemia e xingava – não aguento mais, está doendo, caralho, eu morro –, fervendo de suor, e a cabecinha vinha aparecendo entre as pernas mas não saía, não saía nunca, e eu fazia força com o corpo todo e aí a mulher deu um soco num travessão de madeira e o teto quase veio abaixo, e deu um longo grito esganiçado.
   Flávia estava ao meu lado.
   Fiquei paralisado. A pequenina tinha nascido com o cordão dando-lhe duas voltas no pescoço. O rostinho estava roxo, inchado, sem traços, e estava toda oleosa e coberta de sangue e de uma merda verde e tinha a dor estampada no rosto. Não se viam as feições mas se via a dor, e creio que pensei: pobrezinha, já tão cedo.
   Eu tremia da cabeça aos pés. Quis segurá-la. Faltavam-me mãos. Escorregou.
   Foi Flávia quem desenroscou o cordão. Eu atinei, não sei como, dar dois nós bem fortes com um fio qualquer, e com uma gilete cortei o cordão de uma vez.
   E esperei.
   Flávia segurava pelos pés e a mantinha suspensa no ar.
   Dei-lhe uma palmadinha nas costas.
   Os segundos voavam.
   Nada.
   E esperamos.
   Creio que Justino estava na porta, de joelhos, rezando. A mulher gemia, queixando-se com um fio de voz. Estava longe. E nós esperando, com a menininha de cabeça para baixo, e nada.
   Tornei a dar-lhe uma palmada nas costas.
   Aquele cheiro imundo e adocicado revirava o meu estômago.
   Aquele cheiro imundo e adocicado revirava o meu estômago. Então, rapidamente, Flávia agarrou-a pela cabeça, levou-a à boca e a beijou violentamente. Aspirou e cuspiu e tornou a aspirar e cuspir crostas e escarros e baba branca. E finalmente a pequenina chorou. Tinha nascido. Estava viva.
   Ela me entregou a menina e eu a lavei. As pessoas foram entrando. Flávia e eu saímos.
   Estávamos exaustos e atordoados. Fomos sentar na areia, junto ao mar, e sem dizer nada, nos perguntávamos: “Como foi? Como foi?”.
   Eu confessei:

– Nunca havia presenciado. Não sabia como era. Para mim, foi a primeira vez.

   E ela disse: 

– Nem eu.

   Apoiou a cabeça no meu peito. Senti a força de seus dedos agarrando-se nas minhas costas. Adivinhei que tinha lágrimas presas nos olhos.
   Depois perguntou ou fez a pergunta para si mesma:

– Como será ter um filho? Um filho próprio, da gente?

   E disse. 

– Eu nunca vou ter.

   E depois, um marinheiro chegou perto, mandado por Justino, perguntando a Flávia qual era seu nome. Precisavam do nome para o batismo.
   
– Mariana – respondeu Flávia.

   Fiquei surpreso. Não disse nada.
   O marinheiro deixou-nos uma garrafa de grapa. Bebi no gargalo. Flávia também.

– Sempre quis me chamar assim – disse-me.

   E eu me lembrei que esse era o nome que constava no passaporte que estava preparando – lenta, lentamente – para que ela fosse embora.

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Galeano, Eduardo, 1940-
Mulheres / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno.
1. Ficção uruguaia- Crônicas. I. Título. II. Série.
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Leia também: 

Sarau... Mulheres: Para inventar o mundo cada dia
Sarau... Mulheres: Amares
Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 7

pag 032...



El festejo que no fue


   Los peones de los campos de la Patagonia argentina se habían alzado en huelga, contra los salarios cortísimos y las jornadas larguísimas, y el ejército se ocupó de restablecer el orden.

   Fusilar cansa. En esta noche del 17 de febrero de 1922, los soldados, exhaustos de tanto matar, fueron al prostíbulo del puerto San Julián, a recibir su merecida recompensa.
   
   Pero las cinco mujeres que allí trabajaban les cerraron la puerta en las narices y los corrieron al grito de asesinos, asesinos, fuera de aquí

   Osvaldo Bayer ha guardado sus nombres. Ellas se llamaban Consuelo García, Ángela Fortunato, Amalia Rodríguez, María Juliache y Maud Foster.

   Las putas. Las dignas.

segue en la pag 25

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 6 (Eduardo Galeano)

Mulheres




Eduardo Galeano


022.


A MOÇA DA CICATRIZ NO QUEIXO


6

Íamos visitar o Capitão.  

O Capitão, em terra firme, estava sempre de passagem.

Sua verdadeira residência era o mar, o barco Foragido, que nos dias bons se perdia longe do horizonte.

Ele tinha armado uma barraca entre os carvalhos, para os maus dias, e ali ficava a vaguear na sombra, cercado por seus magros cachorros, pelas galinhas e porcos criados ao deus-dará.

O Capitão tinha músculos até nas sobrancelhas. 

Nunca tinha escutado uma previsão do tempo, nem consultado uma carta de navegação, mas conhecia como ninguém aquele mar.

Às vezes, ao entardecer, eu ia à praia para vê-lo chegar.

Via-o em pé na proa, com as pernas abertas e as mãos na cintura, aproximando-se da costa, e adivinhava sua voz dando ordens ao timoneiro. O Capitão subia na crista da onda brava, montava-a quando queria, cavalgava sobre ela, a domava; deixava-se levar tranquilamente, deslizando suavemente até a costa. 

O Capitão sabia executar o seu ofício, fazia-o bem, amava o que fazia e o que já havia feito. Eu gostava de ouvi-lo

Se um norte você perdeu, pelo sul ele se escondeu. O Capitão ensinou-me a pressentir as mudanças do vento. Ensinou-me também por que os tubarões, que não sabem nadar para trás e só têm olfato para o sangue, se enrolam nas redes, e como as corvinas negras comem mexilhões no fundo do mar, boca abaixo, cuspindo as cascas, e como as baleias fazem amor nos gelados mares do Sul e sobem à superfície com as caudas enroscadas.

O Capitão tinha andado pelo mundo. Escutá-lo era como fazer uma longa viagem de trás para diante, do ponto de chegada ao ponto de partida, e pelo caminho apareciam o mistério e a loucura e a alegria do mar e alguma vez, rara vez, também a dor calada. As histórias mais antigas eram as mais divertidas e eu ficava imaginando que nos anos de sua juventude, antes das feridas das quais pouco falava, o Capitão tinha sabido ser feliz até nos velórios.

Enquanto falávamos, chegavam até a barraca do Capitão o barulho ininterrupto de uma serra e os mugidos das vacas na mansidão; chegavam também as marteladas do sapateiro que amaciava couros na forma de ferro apoiada em seus joelhos.

Falava-me de minha cidade, que conhecia bem. Isto é, conhecia o porto e a baía, mas principalmente as ruelas da parte baixa da cidade e os bares. Perguntava-me sobre certos botequins e mercadinhos e eu lhe dizia que haviam desaparecido e ele se calava e cuspia tabaco.

– Eu não acredito nos tempos de hoje – dizia o Capitão.

Uma vez ele me disse: 

– Quando as paredes duram menos que os homens, as coisas não andam bem. No seu país, as coisas não andam bem 

Também falava do passado daquele povoado de pescadores, que tinha conhecido suas épocas de glória quando o fígado do tubarão valia seu peso em ouro e os marinheiros passavam as noites de temporal com uma puta francesa em cada joelho e algum anão abanando e os violeiros cantando versos de amor.

Do pique da proa, olhou Flávia com desconfiança. 

Franziu a testa e lhe falou baixinho, para que eu não ouvisse: 

– Quando este homem chegou aqui – apontando-me e mentindo para Flávia –, matou com as próprias mãos o cavalo que o trouxe. Matou-o com um tiro.

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Galeano, Eduardo, 1940-
Mulheres / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno.
1. Ficção uruguaia- Crônicas. I. Título. II. Série.
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Sarau... Mulheres: Para inventar o mundo cada dia
Sarau... Mulheres: Amares
Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 6

pag 031...



El peligro de publicar

En el año 2004, el gobierno de Guatemala quebrantó por una vez la tradición de impunidad del poder, y oficialmente reconoció que Myrna Mack había sido asesinada por orden de la presidencia del país.

Myrna había cometido una búsqueda prohibida. A pesar de las amenazas, se había metido en las selvas y las montañas donde deambulaban, exiliados en su propio país, los indígenas que habían sobrevivido a las matanzas militares. Y había recogido sus voces.

En 1989, en un congreso de ciencias sociales, un antropólogo de los Estados Unidos se había quejado de la presión de las universidades que obligaban a producir continuamente:

—En mi país —dijo—, si no publicas, estás muerto. 

Y Myrna dijo:

—En mi país, estás muerto si publicas.

Ella publicó.

La mataron a puñaladas. 

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 4 e 5 (Eduardo Galeano)

Mulheres




Eduardo Galeano


021.


A MOÇA DA CICATRIZ NO QUEIXO


4

O céu amanheceu limpo e azul. 

Ao entardecer, vimos ao longe os barcos dos pescadores como pontinhos que vinham crescendo. Voltavam com os porões repletos de tubarões.

Eu conhecia essa horrível agonia. Os tubarões, estrangulados, remexiam-se nas redes, tentando cegamente lançar mordidas antes de caírem amontoados. 



5


– Aqui ninguém encontrará você. Fica, até que as coisas mudem. 

– As coisas mudam sozinhas? 

– O que você vai fazer? A revolução? 

– Eu sou uma formiguinha. As formiguinhas não fazem coisas tão grandes como a revolução ou a guerra. Levamos pedacinhos de folhas ou mensagens. Ajudamos um pouco. 

– Folhinhas, pode ser. Ficaram algumas plantas. 

– E algumas pessoas. 

– Sim: os velhos, os milicos, os presos e os loucos. 

– Não é bem assim

– Você não quer que seja bem assim. 

– Estive muito tempo fora. Longe. E agora... agora estou quase de volta. Pertinho, em frente. Sabe o que sinto? O que os bebezinhos sentem quando observam o dedão do pé e descobrem o mundo. 

– A realidade não se importa nem um pouco com o que você sente. 

– E vamos ficar chorando pelos cantos? 

– Seis vezes sete é quarenta e dois e não noventa e quatro, e você, furiosa grita: Quem é o filho da puta que anda mudando os números? 

– Mas... você pode me dizer como é que se acaba com uma ditadura? Com flechinhas de papel? 

– Com o quê, eu não sei. 

– Daqui, se acaba uma ditadura? Por controle remoto? 

– Ah, sim. A heroína solitária busca a morte. Não, não é machismo pequeno-burguês. É feminismo. 

– E você? Pior. É egoísmo. 

– Ou covardia. Diga. 

– Não, não. 

– Diga que sou enganador, desertor. 

– Você não entendeu. 

– É você quem não entende. 

– Por que reage assim? 

– E você?

– Eu já sei que você não precisa provar nada a você mesmo. Não seja bobo. 

– No entanto, você me disse que... 

– E você também me disse. Vamos começar outra vez? 

– Está bem. Eu me expressei mal. 

– Desculpe-me. 

– Seria uma estupidez discutirmos nestes poucos dias que... 

– Sim. Nestes poucos dias. 

– Escuta. 

– O quê? 

– Sabe de uma coisa? Estamos todos desamparados. 

– Sim. 

– Todos. Desamparados. 

– Sim. Mas eu te amo. 

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Galeano, Eduardo, 1940-
Mulheres / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno.
1. Ficção uruguaia- Crônicas. I. Título. II. Série.
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Leia também: 

Sarau... Mulheres: Para inventar o mundo cada dia
Sarau... Mulheres: Amares
Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 4 e 5

pag 029...



Louise

—Quiero saber lo que saben —explicó ella. 

Sus compañeros de destierro le advirtieron que esos salvajes no sabían nada más que comer carne humana:

—No saldrás viva.

Pero Louise Michel aprendió la lengua de los nativos de Nueva Caledonia y se metió en la selva y salió viva.

Ellos le contaron sus tristezas y le preguntaron por qué la habían mandado allí: 

—¿Mataste a tu marido?

Y ella les contó todo lo de la Comuna:

—Ah —le dijeron—. Eres una vencida. Como nosotros. 

terça-feira, 18 de julho de 2023

Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 3 (Eduardo Galeano)

Mulheres




Eduardo Galeano


021.


A MOÇA DA CICATRIZ NO QUEIXO

3

Conhecemo-nos por ocasião do estado de sítio. Tínhamos que caminhar abraçados e nos beijar caso se aproximasse qualquer vulto de uniforme. Os primeiros beijos foram por normas de segurança. Os seguintes, porque nos desejávamos. 

Naquele tempo, as ruas da cidade estavam vazias. 

Os torturados e os moribundos, entre si mesmos, diziam seus nomes e se tocavam nas pontas dos dedos. 

Flávia e eu nos encontrávamos cada vez em um lugar diferente, e ficávamos desesperados, em pânico, quando ocorriam alguns minutos de atraso.

Abraçados, escutávamos as sirenes das rondas pa-trulheiras e os sons do passo da noite, em direção àquela claridade indecisa que precede a aurora. Não dormíamos nunca. Do lado de fora, chegavam-nos o canto do ga-lo, a voz do garrafeiro, o barulho das latas de lixo e, então, tomar juntos o café da manhã era muito importante.

Nunca nos dissemos a palavra amor. Isso se deslizava, de contrabando, quando dizíamos: “Chove”, ou dizíamos: “Sinto-me bem”, mas eu teria sido capaz de meter-lhe uma bala na memória para que não lembrasse nada de nenhum outro homem. 

– Alguma vez – dizíamos –, quando as coisas mudarem. 

– Vamos ter uma casa. 

– Seria lindo.
 
Por algumas noites pudemos pensar, atordoados, que era por isso que se lutava. Que para que isso fosse possível é que as pessoas se atiravam na luta.

Mas era uma trégua. Logo soubemos, ela e eu, que antes disso iríamos esquecer ou morrer. 

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Galeano, Eduardo, 1940-
Mulheres / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno.
1. Ficção uruguaia- Crônicas. I. Título. II. Série.
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Sarau... Mulheres: Para inventar o mundo cada dia
Sarau... Mulheres: Amares
Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 3 

pag 028...



Florence


Florence Nightingale, la enfermera más famosa del mundo, dedicó a la India la mayor parte de sus noventa años de vida, aunque nunca pudo viajar a ese país que amó.

Florence era una enfermera enferma. Había contraído una enfermedad incurable en la guerra de Crimea. Pero desde su dormitorio de Londres escribió una infinidad de artículos y cartas que quisieron revelar la realidad hindú ante la opinión pública británica. 

* Sobre la indiferencia imperial ante las hambrunas: 

Cinco veces más muertos que en la guerra franco-prusiana. Nadie se entera. No decimos nada de la hambruna en Orissa, cuando un tercio de su población fue deliberadamente autorizada a blanquear los campos con sus huesos. 

* Sobre la propiedad rural: 

El tambor paga por ser golpeado. El campesino pobre paga por todo lo que hace, y por todo lo que el terrateniente no hace y hace que el campesino pobre haga en su lugar.

* Sobre la justicia inglesa en la India:

Nos dicen que el campesino pobre tiene la justicia inglesa para defenderse. No es así. Ningún hombre tiene lo que no puede usar.

* Sobre la paciencia de los pobres:

Las revueltas agrarias pueden convertirse en algo normal en toda la India. No tenemos ninguna seguridad de que todos esos millones de hindúes silenciosos y pacientes seguirán por siempre viviendo en el silencio y la paciencia. Los mudos hablarán y los sordos escucharán.


terça-feira, 13 de junho de 2023

Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 2 (Eduardo Galeano)

Mulheres




Eduardo Galeano


020.


A MOÇA DA CICATRIZ NO QUEIXO

2

Nessa noite, pela janela aberta de minha casa, contemplamos juntos as faíscas dos relâmpagos iluminando os casebres do vilarejo. Juntos, esperamos os trovões e o desaguar da chuva.
– Você sabe cozinhar?

– Sei alguma coisa. Batatas, peixes...

Eu passava as noites debruçado, sozinho, na janela, acariciando a garrafa de genebra e esperando pelo sono ou pelos doentes. Meu consultório, de chão de terra e lampião a querosene, consistia numa cama turca e um estetoscópio, algumas seringas, vendas, agulhas, linhas para dar pontos em cortes e as amostras grátis de remédios que Carrizo, de vez em quando, me mandava de Buenos Aires. Com isso, e com dois anos de faculdade, eu me arranjava para costurar homens e lutar contra as febres. Nas minhas noites solitárias sem querer desejava uma desgraça para não me sentir totalmente inútil.

Rádio, eu não escutava, pois no litoral corria o perigo ou a tentação de sintonizar alguma emissora do meu país.

– Não vi nenhuma mulher neste vilarejo. Também isso você deixou para trás?

? Eu dormia sozinho na minha cama de faquir. Os elásticos do colchão já estavam à vista e as pontas das molas em espiral apareciam perigosamente. Tinha que dormir todo encolhido para não ser espetado por elas.

– Sim – respondi-lhe, com ar zombeteiro. – Para mim acabou-se a clandestinidade. Nem com mulheres casadas tenho encontros clandestinos.

Ficamos calados.

Fumei um cigarro, dois.

Por fim, perguntei-lhe para que tinha vindo. Respondeu-me que precisava de um passaporte.

– Você ainda faz passaportes?

– Pensa voltar?

Disse-lhe que, tal como estavam as coisas, voltar seria uma estupidez. Que não existia o heroísmo inútil. Que...

– Isso é coisa minha – disse ela. – Perguntei se você ainda faz passaportes.

– Se você precisar.

– Quanto tempo leva?

– Para os outros – disse-lhe –, um dia. Para você, uma semana.

Riu

Nessa noite cozinhei com vontade pela primeira vez. Fiz para Flávia uma corvina na brasa. Ela preparou um molho com o pouco que havia.

Fora, chovia a cântaros.


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Galeano, Eduardo, 1940-
Mulheres / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno.
1. Ficção uruguaia- Crônicas. I. Título. II. Série.
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Leia também: 

Sarau... Mulheres: Para inventar o mundo cada dia
Sarau... Mulheres: Amares
Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 2
Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 3 

pag 026...



Día de los pueblos indígenas


Rigoberta Menchú nació en Guatemala, cuatro siglos y medio después de la conquista de Pedro de Alvarado y cinco años después de la conquista de Dwight Eisenhower.

En 1982, cuando el ejército arrasó las montañas mayas, casi toda la familia de Rigoberta fue exterminada, y fue borrada del mapa la aldea donde su ombligo había sido enterrado para que echara raíz.

Diez años después, ella recibió el premio Nobel de la Paz. Y declaró:

—Recibo este premio como un homenaje al pueblo maya, aunque llegue con quinientos años de demora.

Los mayas son gente de paciencia. Han sobrevivido a cinco siglos de carnicerías.

Ellos saben que el tiempo, como la araña, teje despacio.


pag 021...

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 1 (Eduardo Galeano)

Mulheres




Eduardo Galeano


019.


A MOÇA DA CICATRIZ NO QUEIXO

1

Veio trazida pelo temporal.

Chegou do norte, cortando vento, na carroça do velho Matias. Eu a vi chegar e as minhas pernas bambearam. Usava uma fita vermelha nos cabelos revoltos pelo forte vento arenoso. 

O tempo estava maltratando-nos. A tormenta havia chegado uma semana antes, mostrando uma escuridão pelos lados do sul. No céu, flocos de nuvens corriam como brancos rabos de égua, e no mar, as toninhas saltavam como loucas: a tormenta veio e ficou. 

Era novembro. As fêmeas dos tubarões aproximavam-se da costa para parir. Esfregavam os ventres contra a areia do fundo do mar.

Nesses dias, quando a tormenta permitia uma trégua, os cavalos percherões conduziam os barcos além da arrebentação e os pescadores saíam mar adentro. Mas o mar estava muito agitado. Os molinetes giravam e as redes subiam com uma confusão de algas e sujeiras e uns poucos tubarões mortos ou moribundos. Perdia-se o tempo em desembaraçar aquela confusão e consertar as redes. De repente o vento mudava sua direção, vinha forte pelo leste ou pelo sul, carbonizava-se o céu, as ondas varriam as cobertas dos barcos: era necessário virar a proa rapidamente rumo à costa.

Três dias antes de ela chegar, um barco havia virado, traído pela ventania. A maré tinha levado um pescador. Não o devolveu.

Estávamos falando desse homem, o Calabrês, e eu estava de costas, inchado sobre o balcão. Então, como obedecendo a um chamado, virei-me e vi.



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Galeano, Eduardo, 1940-
Mulheres / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno.
1. Ficção uruguaia- Crônicas. I. Título. II. Série.
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Sarau... Mulheres: Amares
Sarau... Mulheres: A moça da cicatriz no queixo 1

pag 026...




La dama que atravesó tres siglos


Alice nació esclava, en 1686, y esclava vivió ciento dieciséis años.

Cuando murió, en 1802, con ella murió una parte de la memoria de los africanos en América. Alice no sabía leer ni escribir, pero estaba toda llena de voces que contaban y cantaban leyendas llegadas de lejos y también historias vividas de cerca. Algunas de esas historias venían de los esclavos que ella ayudaba a fugarse.

A los noventa años, quedó ciega.

A los ciento dos, recuperó la vista:

—Fue Dios —dijo—. Él no me podía fallar.

La llamaban Alice del Ferry Dunks. Al servicio de su dueño, trabajaba en el ferry que llevaba y traía pasajeros a través del río Delaware.

Cuando los pasajeros, siempre blancos, se burlaban de esta vieja viejísima, ella los dejaba varados en la otra orilla del río. Ellos la llamaban a gritos, pero no había caso. Era sorda la que había sido ciega.


pag 020...