sexta-feira, 27 de março de 2026

Bom tarde, Poesia... Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo Neto


nessa Engenharia da Desesperança,  João Cabral de Melo Neto mostra que é possível produzir literatura ética diante do sofrimento alheio quando se recusa transformar o sofrimento em espetáculo, que não a converta em objeto de consumo emocional para o leitor confortável às variações de um mesmo destino dos muitos Severinos
 

Morte e Vida Severina | Animação





Morte e Vida Severina: 
Um texto perfeito 





João Cabral de Melo Neto: 
A engenharia do Verso e o rigor da Pedra





O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR  
QUEM É E A QUE VAI 


- O meu nome é Severino, 
 como não tenho outro de pia. 
 Como há muitos Severinos, 
 que é santo de romaria, 
 deram então de me chamar 
 Severino de Maria; 
 como há muitos Severinos 
 com mães chamadas Maria, 
 fiquei sendo o da Maria 
 do finado Zacarias.  
 Mais isso ainda diz pouco: 
 há muitos na freguesia, 
 por causa de um coronel 
 que se chamou Zacarias 
 e que foi o mais antigo 
 senhor desta sesmaria. 
 Como então dizer quem falo 
 ora a Vossas Senhorias? 
 Vejamos: é o Severino 
 da Maria do Zacarias, 
 lá da serra da Costela, 
 limites da Paraíba.  
 Mas isso ainda diz pouco: 
 se ao menos mais cinco havia 
 com nome de Severino 
 filhos de tantas Marias 
 mulheres de outros tantos, 
 já finados, Zacarias, 
 vivendo na mesma serra 
 magra e ossuda em que eu vivia.  
 Somos muitos Severinos 
 iguais em tudo na vida: 
 na mesma cabeça grande 
 que a custo é que se equilibra, 
 no mesmo ventre crescido 
 sobre as mesmas pernas finas 
 e iguais também porque o sangue, 
 que usamos tem pouca tinta.  
 E se somos Severinos 
 iguais em tudo na vida, 
 morremos de morte igual, 
 mesma morte severina: 
 que é a morte de que se morre 
 de velhice antes dos trinta, 
 de emboscada antes dos vinte 
 de fome um pouco por dia 
 (de fraqueza e de doença 
 é que a morte severina 
 ataca em qualquer idade, 
 e até gente não nascida).  
 Somos muitos Severinos 
 iguais em tudo e na sina: 
 a de abrandar estas pedras 
 suando-se muito em cima, 
 a de tentar despertar 
 terra sempre mais extinta, 
 a de querer arrancar 
 alguns roçado da cinza.
 Mas, para que me conheçam 
 melhor Vossas Senhorias 
 e melhor possam seguir 
 a história de minha vida, 
 passo a ser o Severino 

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