terça-feira, 20 de agosto de 2024

Chet Baker Live and Ronnie Scott's Jazz Club

Chet Baker Live @ Ronnie Scott's



Clube no porão onde a vanguarda de artistas internacionais do jazz e blues se apresentaram, com bar noturno. Todos os caminhos levam ao Ronnie Scott's, em Londres. O número 47 da Frith Street, no Soho, é o local preferido de jazzistas e fãs de jazz desde 1965.

Endereço: 47 Frith St, London W1D 4HT, Reino Unido








Crônica: Das vantagens de ser bobo

Das vantagens de ser bobo 

- Clarice Lispector 

por Aracy Balabanian






Das vantagens de ser bobo

     O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntando por que não faz alguma coisa, responde: ¨Estou fazendo. Estou pensando".
     Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.
     O bobo tem oportunidades de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão sempre tão atentos as espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoiévski. 
     Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara pra a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O bobo não percebe que venceu.
     Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?¨
     Bobo não reclama. Compensação, como exclama!
     Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
     O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
     Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
     Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
Clarice Linspector


Histórias da Meia-Noite: A parasita azul (I)

A parasita azul

Machado de Assis

Conto

Advertência

     Vão aqui reunidas algumas narrativas, escritas ao correr da pena, sem outra pretensão que não seja a de ocupar alguma sobra do precioso tempo do leitor. Não digo com isto que o gênero seja menos digno da atenção dele, nem que deixe de exigir predicados de observação e de estilo. O que digo é que estas páginas, reunidas por um editor benévolo, são as mais desambiciosas do mundo.
     Aproveito a ocasião que se me oferece para agradecer à crítica e ao público a generosidade com que receberam o meu primeiro romance, há tempos dado à luz. Trabalhos de gênero diverso me impediram até agora de concluir outro, que aparecerá a seu tempo.

10 de novembro de 1873.
M.A


A parasita azul

Capítulo Primeiro
Volta ao Brasil

     Há cerca de dezesseis anos, desembarcava no Rio de Janeiro, vindo da Europa, o Sr. Camilo Seabra, goiano de nascimento, que ali fora estudar medicina e voltava agora com o diploma na algibeira e umas saudades no coração. Voltava depois de uma ausência de oito anos, tendo visto e admirado as principais coisas que um homem pode ver e admirar por lá, quando não lhe falta gosto nem meios. Ambas as coisas possuía, e se tivesse também, não digo muito, mas um pouco mais de juízo, houvera gozado melhor do que gozou, e com justiça poderia dizer que vivera.
     Não abonava muito os seus sentimentos patrióticos o rosto com que entrou a barra da capital brasileira. Trazia-o fechado e merencório, como quem abafa em si alguma coisa que não é exatamente a bem- aventurança terrestre. Arrastou um olhar aborrecido pela cidade, que se ia desenrolando à proporção que o navio se dirigia ao ancoradouro. Quando veio a hora de desembarcar fê-lo com a mesma alegria com que o réu transpõe os umbrais do cárcere. O escaler afastou-se do navio em cujo mastro flutuava uma bandeira tricolor; Camilo murmurou consigo:

— Adeus, França!

     Depois envolveu-se num magnífico silêncio e deixou-se levar para terra.
     O espetáculo da cidade, que ele não via há tanto tempo, sempre lhe prendeu um pouco a atenção. Não tinha, porém, dentro da alma o alvoroço de Ulisses ao ver a terra da sua pátria. Era antes pasmo e tédio. Comparava o que via agora com o que vira durante longos anos, e sentia a mais e mais apertar-lhe o coração a dolorosa saudade que o minava. Encaminhou-se para o primeiro hotel que lhe pareceu conveniente, e ali determinou passar alguns dias, antes de seguir para Goiás. Jantou solitário e triste com a mente cheia de mil recordações do mundo que acabava de deixar, e para dar ainda maior desafogo à memória, apenas acabado o jantar, estendeu-se num canapé, e começou a desfiar consigo mesmo um rosário de cruéis desventuras.
     Na opinião dele, nunca houvera mortal que mais dolorosamente experimentasse a hostilidade do destino. Nem no martirológio cristão, nem nos trágicos gregos, nem no Livro de Jó havia sequer um pálido esboço dos seus infortúnios. Vejamos alguns traços patéticos da existência do nosso herói.
     Nascera rico, filho de um proprietário de Goiás, que nunca vira outra terra além da sua província natal. Em 1828 estivera ali um naturalista francês, com quem o comendador Seabra travou relações, e de quem se fez tão amigo, que não quis outro padrinho para o seu único filho, que então contava um ano de idade. O naturalista, muito antes de o ser, cometera umas venialidades poéticas que mereceram alguns elogios em 1810, mas que o tempo — velho trapeiro da eternidade — levou consigo para o infinito depósito das coisas inúteis. Tudo lhe perdoara o ex-poeta, menos o esquecimento de um poema em que ele metrificara a vida de Fúrio Camilo, poema que ainda então lia com sincero entusiasmo. Como lembrança desta obra da juventude, chamou ele ao afilhado Camilo, e com esse nome o batizou o padre Maciel, a grande aprazimento da família e seus amigos.

— Compadre, disse o comendador ao naturalista, se este pequeno vingar, hei de mandá-lo para sua terra, a aprender medicina ou qualquer outra coisa em que se faça homem. No caso de lhe achar jeito para andar com plantas e minerais, como o senhor, não se acanhe; dê-lhe o destino que lhe parecer como se fora seu pai, que o é, espiritualmente falando.

— Quem sabe se eu viverei nesse tempo? disse o naturalista.

— Oh! há de viver! protestou Seabra. Esse corpo não engana; a sua têmpera é de ferro. Não o vejo eu andar todos os dias por esses matos e campos, indiferente a sóis e a chuvas, sem nunca ter a mais leve dor de cabeça? Com metade dos seus trabalhos já eu estava defunto. Há de viver e cuidar do meu rapaz, apenas ele tiver concluído cá os seus primeiros estudos.

     A promessa de Seabra foi pontualmente cumprida. Camilo seguiu para Paris, logo depois de alguns preparatórios, e ali o padrinho cuidou dele como se realmente fora seu pai. O comendador não poupava dinheiro para que nada faltasse ao filho; a mesada que lhe mandava podia bem servir para duas ou três pessoas em iguais circunstâncias. Além da mesada, recebia ele por ocasião da Páscoa e do Natal amêndoas e festas que a mãe lhe mandava, e que lhe chegavam às mãos debaixo da forma de alguns excelentes mil francos.
     Até aqui o único ponto negro na existência de Camilo era o padrinho, que o trazia peado, com receio de que o rapaz viesse a perder-se nos precipícios da grande cidade. Quis, porém, a sua boa estrela que o ex-poeta de 1810 fosse repousar no nada ao lado das suas produções extintas, deixando na ciência alguns vestígios da sua passagem por ela. Camilo apressou-se a escrever ao pai uma carta cheia de reflexões filosóficas.
     O período final dizia assim:

Em suma, meu pai, se lhe parece que eu tenho o necessário juízo para concluir aqui os meus estudos, e se tem confiança na boa inspiração que me há de dar a alma daquele que lá se foi deste vale de lágrimas para gozar a infinita bem-aventurança, deixe-me cá ficar até que eu possa regressar ao meu país como um cidadão esclarecido e apto para o servir, como é do meu dever. Caso a sua vontade seja contrária a isto que lhe peço, diga-o com franqueza, meu pai, porque então não me demorarei um instante mais nesta terra, que já foi meia pátria para mim, e que hoje (hélas!) é apenas uma terra de exílio.

     O bom velho não era homem que pudesse ver por entre as linhas desta lacrimosa epístola o verdadeiro sentimento que a ditara. Chorou de alegria ao ler as palavras do filho, mostrou a carta a todos os seus amigos, e apressou-se a responder ao rapaz que podia ficar em Paris todo o tempo necessário para completar os seus estudos, e que, além da mesada que lhe dava, nunca recusaria tudo quanto lhe fosse indispensável em circunstâncias imprevistas. Além disto, aprovava de coração os sentimentos que ele manifestava em relação à sua pátria e à memória do padrinho. Transmitia-lhe muitas recomendações do tio Jorge, do Padre Maciel, do Coronel Veiga, de todos os parentes e amigos, e concluía deitando-lhe a bênção.
     A resposta paterna chegou às mãos de Camilo no meio de um almoço, que ele dava no Café de Madri a dois ou três estroinas de primeira qualidade. Esperava aquilo mesmo, mas não resistiu ao desejo de beber à saúde do pai, ato em que foi acompanhado pelos elegantes milhafres seus amigos. Nesse mesmo dia planeou Camilo algumas circunstâncias imprevistas (para o comendador) e o próximo correio trouxe para o Brasil uma extensa carta em que ele agradecia as boas expressões do pai, dizia-lhe as suas saudades, confiava-lhe as suas esperanças, e pedia-lhe respeitosamente, em post scriptum, a remessa de uma pequena quantia de dinheiro.
     Graças a estas facilidades atirou-se o nosso Camilo a uma vida solta e dispendiosa, não tanto, porém, que lhe sacrificasse os estudos. A inteligência que possuía, e certo amor-próprio que não perdera, muito o ajudaram neste lance; concluído o curso, foi examinado, aprovado e doutorado.
     A notícia do acontecimento foi transmitida ao pai com o pedido de uma licença para ir ver outras terras da Europa. Obteve a licença, e saiu de Paris para visitar a Itália, a Suíça, a Alemanha e a Inglaterra. No fim de alguns meses estava outra vez na grande capital, e aí reatou o fio da sua antiga existência, já livre então de cuidados estranhos e aborrecidos. A escala toda dos prazeres sensuais e frívolos foi percorrida por este esperançoso mancebo com uma sofreguidão que parecia antes suicídio. Seus amigos eram numerosos, solícitos e constantes: alguns não duvidavam dar-lhe a honra de o constituir seu credor. Entre as moças de Corinto era o seu nome verdadeiramente popular; não poucas o tinham amado até o delírio. Não havia pateada célebre em que a chave dos seus aposentos não figurasse, nem corrida, nem ceata, nem passeio, em que não ocupasse um dos primeiros lugares cet aimable brésilien.
     Desejoso de o ver, escreveu-lhe o comendador pedindo que regressasse ao Brasil; mas o filho, parisiense até à medula dos ossos, não compreendia que um homem pudesse sair do cérebro da França para vir internar-se em Goiás. Respondeu com evasivas e deixou-se ficar. O velho fez vista grossa a esta primeira desobediência. Tempos depois insistiu em chamá-lo; novas evasivas da parte de Camilo. Irritou-se o pai e a terceira carta que lhe mandou foi já de amargas censuras. Camilo caiu em si e dispôs-se com grande mágoa a regressar à pátria, não sem esperanças de voltar e acabar os seus dias no Boulevard dos Italianos ou à porta do Café Helder.
     Um incidente, porém, demorou ainda desta vez o regresso do jovem médico. Ele, que até ali vivera de amores fáceis e paixões de uma hora, veio a enamorar-se repentinamente de uma linda princesa russa. Não se assustem; a princesa russa de quem falo, afirmavam algumas pessoas que era filha da Rua do Bac e trabalhara numa casa de modas, até a revolução de 1848. No meio da revolução apaixonou-se por ela um major polaco, que a levou para Varsóvia, donde acabava de chegar transformada em princesa, com um nome acabado em ine ou em off, não sei bem. Vivia misteriosamente, zombando de todos os seus adoradores, exceto de Camilo, dizia ela, por quem sentia que era capaz de aposentar as suas roupas de viúva. Tão depressa, porém, soltava estas expressões irrefletidas, como logo protestava com os olhos no céu:

— Oh! não! nunca, meu caro Alexis, nunca desonrarei a tua memória unindo-me a outro.

     Isto eram punhais que dilaceravam o coração de Camilo. O jovem médico jurava por todos os santos do calendário latino e grego que nunca amara a ninguém como a formosa princesa. A bárbara senhora parecia às vezes disposta a crer nos protestos de Camilo; outras vezes porém abanava a cabeça e pedia perdão à sombra do venerando príncipe Alexis. Neste meio tempo chegou uma carta decisiva do comendador. O velho goiano intimava pela última vez ao filho que voltasse, sob pena de lhe suspender todos os recursos e trancar-lhe a porta.
     Não era possível tergiversar mais. Imaginou ainda uma grave moléstia; mas a ideia de que o pai podia não acreditar nela e suspender-lhe realmente os meios, aluiu de todo este projeto. Camilo nem ânimo teve de ir confessar a sua posição à bela princesa; receava além disso que ela, por um rasgo de generosidade, — natural em quem ama, — quisesse dividir com ele as suas terras de Novogorod. Aceitá-las seria humilhação, recusá-las poderia ser ofensa. Camilo preferiu sair de Paris deixando à princesa uma carta em que lhe contava singelamente os acontecimentos e prometia voltar algum dia.
     Tais eram as calamidades com que o destino quisera abater o ânimo de Camilo. Todas elas repassou na memória o infeliz viajante, até que ouviu bater oito horas da noite. Saiu um pouco para tomar ar, e ainda mais se lhe acenderam as saudades de Paris. Tudo lhe parecia lúgubre, acanhado, mesquinho. Olhou com desdém olímpico para todas as lojas da Rua do Ouvidor, que lhe pareceu apenas um beco muito comprido e muito iluminado. Achava os homens deselegantes, as senhoras desgraciosas. Lembrou-se, porém, que Santa Luzia, sua cidade natal, era ainda menos parisiense que o Rio de Janeiro, e então, abatido com esta importuna ideia correu para o hotel e deitou-se a dormir.
     No dia seguinte, logo depois do almoço, foi à casa do correspondente de seu pai. Declarou-lhe que tencionava seguir dentro de quatro ou cinco dias para Goiás, e recebeu dele os necessários recursos, segundo as ordens já dadas pelo comendador. O correspondente acrescentou que estava incumbido de lhe facilitar tudo o que quisesse no caso de desejar passar algumas semanas na corte.

— Não, respondeu Camilo; nada me prende à corte, e estou ansioso por me ver a caminho.

— Imagino as saudades que há de ter. Há quantos anos?

— Oito.

— Oito! Já é uma ausência longa.

     Camilo ia-se dispondo a sair, quando viu entrar um sujeito alto, magro, com alguma barba embaixo do queixo e bigode, vestido com um paletó de brim pardo e trazendo na cabeça um chapéu-de-chile. O sujeito olhou para Camilo, estacou, recuou um passo, e depois de uma razoável hesitação, exclamou:

— Não me engano! é o Sr. Camilo!

— Camilo Seabra, com efeito, respondeu o filho do comendador, lançando um olhar interrogativo ao dono da casa.

— Este senhor, disse o correspondente, é o Sr. Soares, filho do negociante do mesmo nome, da cidade de Santa Luzia.

— Quê! é o Leandro que eu deixei apenas com um buço... 

— Em carne e osso, interrompeu Soares; é o mesmo Leandro que lhe aparece agora todo barbado, como o senhor, que também está com uns bigodes bonitos!

— Pois não o conhecia...

— Conheci-o eu apenas o vi, apesar de o achar muito mudado do que era. Está agora um moço apurado. Eu é que estou velho. Já cá estão vinte e seis... Não se ria: estou velho. Quando chegou?

— Ontem.

— E quando segue viagem para Goiás?

— Espero o primeiro vapor de Santos.

— Nem de propósito! Iremos juntos.

— Como está seu pai? Como vai toda aquela gente? O Padre Maciel? O Veiga? Dê-me notícias de todos e de tudo. 

— Temos tempo para conversar à vontade. Por agora só lhe digo que todos vão bem. O vigário é que esteve dois meses doente de uma febre maligna e ninguém pensava que arribasse; mas arribou. Deus nos livre que o homem adoeça, agora que estamos com o Espírito Santo à porta.

— Ainda se fazem aquelas festas?

— Pois então! O imperador este ano, é o Coronel Veiga; e diz que quer fazer as coisas com todo o brilho. Já prometeu que daria um baile. Mas nós temos tempo de conversar, ou aqui ou em caminho. Onde está morando?

     Camilo indicou o hotel em que se achava, e despediu-se do comprovinciano, satisfeito de haver encontrado um companheiro que de algum modo lhe diminuísse os tédios de tão longa viagem. Soares chegou à porta e acompanhou com os olhos o filho do comendador até perdê-lo de vista.

— Veja o senhor o que é andar por essas terras estrangeiras, disse ele ao correspondente, que também chegava à porta. Que mudança fez aquele rapaz, que era pouco mais ou menos como eu!

 
continua na página 07

__________________

Leia também:
Histórias da Meia-Noite: A parasita azul (I)

__________________

Advertência

Vão aqui reunidas algumas narrativas, escritas ao correr da pena, sem outra pretensão que não seja a de ocupar alguma sobra do precioso tempo do leitor. Não digo com isto que o gênero seja menos digno da atenção dele, nem que deixe de exigir predicados de observação e de estilo. O que digo é que estas páginas, reunidas por um editor benévolo, são as mais desambiciosas do mundo.
Aproveito a ocasião que se me oferece para agradecer à crítica e ao público a generosidade com que receberam o meu primeiro romance, há tempos dado à luz. Trabalhos de gênero diverso me impediram até agora de concluir outro, que aparecerá a seu tempo.

10 de novembro de 1873.
M.A.


Texto-fonte: 
Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II, 
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994. 
Publicado originalmente por Editora Garnier, Rio de Janeiro, 1873

sábado, 17 de agosto de 2024

Dançando...

Grupo Corpo


Grupo Corpo | Edinburgh 2024


Gil Refazendo e Gira foram apresentados no Edinburgh International Festival, de 5 a 7 de agosto de 2024.







| Turnê EUA 2024





o corpo se move
cada giro um verso
uma linguagem
letras desenhadas
flutuando
encantadas


mãos tocando o vento
desenhos de alegria
deslizando suaves
a alma respira
a vida se refaz
o coração canta


emoções dançando
sonhos se revelando
o corpo poema sem papel
desenhando no ar outro céu
com giros e despedidas
da existência na poesia


Ensaio - a vida não é feita de ilusão: 04

primeiro dia

baitasar

a cândida deu um oi frio e rápido, passou direto, assim como apareceu do nada, seguiu em frente, não olhou, não viu meus olhos quentes e apaixonados, atravessou a cortina da sombra esparramada pelo pátio, continuei parado no cais do porto, o lugar seguro para os afogados, olhei para os lados, pensei, Vamos dar o fora daqui, não disse, não disse, não disse, ia continuar sentado esperando neste caminho sem fim, incapaz de acabar com qualquer esperança, o sol molhava meu rosto e eu sem nada, sem nenhuma palavra sequer, continuaria ali sentado pela vida inteira, babando, queimando, não sabia o que fazer, queria ser visto, tudo o que eu podia ver à minha frente era aquela lindinha, como deve ser se sentir gostosa e desejada, não sei como é se sentir assim, eu gostaria de saber o que ela pensa

o contrário de como me sinto, alguém que não existe, feio e recusável, não desperto apetência nenhuma, um resto de nenhuma esperança que o relógio nunca desperta, adormecido, um caso clássico de negligência da natureza, os deuses da beleza estavam bêbados na minha vez, meu desenho saiu grande, torto e feio, não gostavam de fato de mim, nenhuma chance de viver aquilo que mais quero, abandonar essa dor de ser invisível

tempos difíceis nestes dias que começam e não terminam

a cândida também está no terceiro ano do médio, no topo das meninas mais respeitadas da escola, no meu jeito de ver não tem para ninguém, é a mais lindinha e a mais poderosa com sua calça colada, tipo entrou e não sai mais, um perigo, ela parece que está na maldade, eu preciso saber como vai essa lindinha, gosto mais dela que de mim mesmo, não sei se isso é ruim

sigo olhando seu desfile, babando suas dobras e cruzamentos, sua lindeza, tudo se passa muito lentamente, penso o que seria bom para mim num domingo à tarde, meus olhos tristonhos desejando aquele paraíso, enfio as mãos nos bolsos vazios, é um cansaço estar sempre com os bolsos vazios, não tem explicação não ter coragem para falar do meu desejo pelo calor do seu corpo, esquecer tudo e ficar em paz num domingo à tarde

mais adiante, ela encontra outras meninas da turma, estão reunidas tagarelando, fazem o tipo se contorcendo, balançando a esmo, minhas malditas orelhas não escutam, não tem importância, fico vigiando seus movimentos pelo canto dos olhos, as mãos nos bolsos me alisando, me sinto um idiota envergonhado, como seria bom ficar com você

continuamos sentados, apenas olhando, realmente ela me parece a melhor, acho que isso é amor, te fazer companhia, falam alto, não entendo, acho que estão fingindo que não nos viram, como os guris elas fazem planos secretos para continuarem juntas, não são nada discretas, pensei em quantas estariam, daqui alguns anos, casadas, donas de casa, mães, divorciadas, mal amadas, sozinhas, esperando inutilmente num quarto vazio e frio, qual delas fingiria estar excitada num rio falso de vertigens, assim acontecia apenas porque teriam mais a perder que nós homens ou tinham sido ensinadas dessa maneira, não sei, quem sabe menos das coisas sabe muito mais que eu, mas conte sempre comigo

olho para gustavo e dalton, pensei em parar de fazer perguntas, gostaria que tivéssemos bastante dinheiro, em vez de caminhar em ruas esburacadas, continuava em silêncio, sentados, me voltei e anunciei, Sexo é um negócio, não é esporte, os dois me olharam em silêncio, o tempo parou esperando a continuação, mas não tem continuação, sei lá, parado assim eu sofro, fico imprudente com as palavras, talvez leviano, foi uma frase estúpida, talvez não

estávamos surpresos, eu também me surpreenderia, coisas da vida, enfim disse, Acho que com dinheiro podemos viver a vida que queremos, Tu é um idiota, Eu sei, eu sei... não me dou valor, mas se estivessem me enfiando dinheiro nos bolsos, essa cara feia, que tem uma vida inteira pra viver, não ficaria sozinha, encontraria as mais lindas companhias, as garotas me olharia com cobiça ao passar, encarando, sussurrando minha qualidades.

Tu ainda quer ser escritor?

Sim.

E quem vai enfiar dinheiro nesses bolsos vazios?

para o mundo inteiro era indiferente o que se passava aqui dentro de mim, sem recordações, nada demais, nada do que quero vai sobreviver nem a lembrança das minhas mãos me aquecendo, apenas meu pai e seus sonhos, Eu devia ter acreditado em meu pai.

dalton não parecia com paciência para me oferecer um funeral decente, Mas afinal, o que seu pai tem com isso tudo?

pensei, Vou dizer simplesmente dos sonhos de papai e dos meus medos, mas deixei que minha autoestima literária contasse uma pequena história de verdades e mentiras, É o seguinte, Dalton, para papai todo jogador de futebol tem uma vida de dinheirama, muita fortuna e fartura de garotas. Desde que dei meus primeiros passos, ele sonhava em me ver jogando num grande estádio, vestindo a camisa da seleção brasileira. Como muitos pais apaixonados pelo futebol, ele me imaginava driblando adversários, levantando a torcida com minhas jogadas enfeitiçadas, provocativas, fazendo o adversário sangrar com meus gols, levantando troféus. E assim, sábado após sábado, papai se tornava o meu motorista oficial, sempre animado e disposto a incentivar o seu pequeno atleta. A rotina dos sábados era intensa, cheguei quase a acreditar, mas no fundo, eu sabia que não ia ser daquele jeito nem do meu jeito nem de jeito nenhum, ainda não compreendia, apenas desconfiava que mostarda barata e aguada não faz um bom sanduíche.

continuávamos parados e sentados, acne e espinhas me marcando, orelhas redondas flutuando ao vento, Logo pela manhã, papai iniciava os preparativos. Ajeitava minha mochila, enquanto eu me amarrava nas chuteiras, as mesmas que ele havia escolhido com tanta esperança. A caminho do campo, ele contava histórias de grandes jogadores, partidas emocionantes e episódios heroicos de superação. Eu escutava encantado, atraído por cada palavra, enquanto sonhava acordado os sonhos de meu pai com os aplausos e fritos animados da torcida. Nessas histórias, não existiam as vaias, derrotas, fracassos, seus heróis eram invencíveis.

talvez, um dos três se tornasse um caminhoneiro invencível sentado na boleia do caminhão, no para-choque o nome dela, o coração no para-brisa cheio de desejo, No campo, papai observava cada um dos meus movimentos com atenção e cuidado, sentado à beira do gramado. Acompanhava o treino torcendo e vibrando a cada chute meu no gol. O calor do sol refletia em seu rosto, mas nada se comparava a emoção dele me ver correndo, me esforçando, mudando de direção como se o campo fosse uma pista de dança. A paixão que eu sentia era contagiante, ele me perguntava se estava colocando muita pressão sobre meus ombros e pés, vivia mais ansioso que eu. Afinal, o sonho era dele, eu tinha outros interesses nada parecidos com futebol. Em momentos de dúvida, papai se lembrava das manhãs em que vovô o levava aos campos, o seu desejo de ser atleta e a frustração de não ter conseguido. Agora, nem quero lembrar se era isso que queria pra mim.

os dois continuavam em silêncio e para minha surpresa estavam atentos, mistérios que se vão e vêm de longe, impotentes feridas, o tempo era ao mesmo tempo muito lento e muito rápido, eles podiam levantar e sair para viver as suas vidas e esquecer, mas estavam ao meu lado, coisas da vida, Sabia que a resposta não viria fácil. No final do treino, enquanto eu corria em sua direção com um sorriso no rosto, eu sentia meu coração aquecer. Ali estava a razão dos meus esforços, a alegria pura de um menino que ainda não sabia da pressão do mundo dos adultos, só queria o meu pai ao meu lado pra sempre, independente do caminho escolhido, fecho os olhos de saudade, ele sempre foi mais importante que o futebol, eu sentia que ele sabia tudo. Não se dedicava só em me levar, mas também observava meus interesses. Jogar bola era apenas parte do que eu gostava. Até que descobri a biblioteca da escola. Uma bruma leve me entrou de leve, caminhava pela biblioteca, brincando, olhando e cheirando os livros, sussurrando suas histórias, lentamente fui aprendendo contar e escrever histórias. Ele percebeu que meu futuro não era um caminho a ser traçado, mas uma viagem a ser explorada.

levantei, meus únicos dois ouvintes continuavam sentados, em silêncio, surpreendidos, a nossa conversa animada se perdera, voltei a observar as meninas, o pensamento em mim era uma navalha, um feioso covarde com um pai apoiador que jogou fora a oportunidade da dinheirama sem desejo de jogar futebol

a vida não é feita de ilusão