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sábado, 31 de agosto de 2024

Ensaio - precisamos recomeçar: 06

primeiro dia

baitasar

o que mais escutamos nesse dia de reencontros, Precisamos recomeçar, eu sei, todos sabemos, os olhos na minha volta sabem, nos reconhecemos na escola, talvez já seja suficiente, talvez não, como cartões postais minguados, retratos distraídos de um pesadelo, ainda distantes uns dos outros, lembro que chorei prantos ocultos, quase morto, escapando em um barco anônimo, deixando para trás fotografias, livros, chinelos e cuecas

flutuava sobre as ruas, esquinas sumiram, Abaixa a cabeça! Cuidado com os fios, a dor da separação, muitos pedidos de socorro, nenhum aviso, Rompeu o dique! Saiam das suas casas!

canalhas derrubam árvores, velhacos anunciam promessas infames e continuam com suas histórias de mentiras e privilégios, várzeas aterradas, portas e comportas de ferro mal cuidadas, arrombadas, estradas arrancadas, outros enganadores se juntam e se anunciam diferentes, sinto a perturbação entre nós, até quando teremos medo das marias que anunciam um outro mundo possível, mais amoroso e cuidado, tenho pena dos achatados e perdidos na ânsia de sobreviver com suas salvaguardas e regalias, hesitantes em uma outra vida possível, então, seguem acreditando em mais mentiras, dia após dia, e nas ruas empilhadas com suas casas vazias e frias

a escola talvez rejunte nas pessoas os desejos

Como recomeçar, nos perguntamos, Precisamos parar de anunciar mentiras que sabemos que são mentiras bem cuidadas e protegidas pela ganância, respondo, silêncio, a conversa parece que não vai no rumo do esquecimento que muitos ainda querem, olho meu colega nos olhos, quase sussurro, E o muro, pergunto, O que tem o muro, pergunta sussurrando o cuidador de mentiras desatento, Vão continuar querendo derrubar o muro em nome do futuro, pergunto, mais silêncio, tenho medo desse silêncio complacente e arrogante ou ignorante, mas prefiro enfrentá-lo a ficar de joelhos, Um vexame... você não acha, insisto, Que vexame, pergunta murmurando, Pense, respondo

vou para um lugar estratégico, despercebido dos olhares, mas em prontidão permanente, todos aqui somos vítimas, não podemos ir embora e esquecer, estamos desenganados, condenados a carregar por muito tempo o medo das águas cobrindo nossas vidas

recebemos as boas-vindas, conversamos sobre esse retorno, as muitas coisas que nos aconteceram, um lugar que perdemos para as águas embarradas, encharcando até o topo com o aroma fedorento dos escombros, hesitamos, incertos no futuro, muitos não retornaram, outros não retornarão

E quando as águas voltarem... estaremos preparados, é a pergunta que todos se fazem

sinto meus olhos vermelhos, lagrimando, gostamos desta escola acolhedora, destes lugares em que crescemos, muitos nasceram nestas casas desmanteladas, o tempo das parteiras

estamos nos derramando sem enganação, precisamos da escola em pé, não é um faz-de-conta, olho para os lados, ninguém desatento ou hostil, gostamos destas paredes e das vidas acolhedoras, os abraços, os jogos, as brincadeiras, a cantoria da gincana, a festa junina, o dia das mães, o dia dos pais, a festa de natal, a páscoa, aprender e ensinar, educar nos educando, deve ser por isso que retornamos

construí relações amigáveis com alunos e alunas, colegas, funcionários e funcionárias, gosto de estar aqui, não tenho problemas com a garotada, e os que surgem não me assustam, pelo contrário, me fazem repensar meus caminhos

tiro o boné, coço a cabeça, olhos à volta novamente, sem dúvida não estamos alegres, estamos diferentes

Estamos de volta!, anuncia a diretora

gritos e assobios ensurdecem no ginásio, também dou minha contribuição, lanço o boné para o alto junto com todos os outros

corro e pulo, junto o boné caído no chão

sim, vamos conseguir ficar alegres, logo ali, mais na frente, e quem sabe, esses dias intermináveis não venham se repetir, o futuro dirá, por enquanto seguimos desconfiados, aquela incessante dança das águas derramadas sobre nós escreveu uma nova história nas páginas e nas vidas da cidade

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Ensaio - precisamos recomeçar: 06

sábado, 24 de agosto de 2024

Ensaio - a porta sempre aberta: 05

primeiro dia

baitasar

entro no prédio, caminho ansioso até a sala dos professores, chão e paredes lavadas – cheiro de desinfetantes e tinta, as esquadrias das janelas, portas e teto foram pintadas, lousas quadro verde novas –, nuas, procuro as lindas gravuras que sempre nos esperam nos inícios de ano, acompanham nossas rotinas diárias, e muitas vezes, passam despercebidas nos corredores usados como um grande caminho de exposições, não estão nas paredes

as paredes estão desguarnecidas, descalças

chego 

a porta está aberta

abraços e sorrisos, meus movimento giram entre olhares e suspiros, está abafado aqui dentro, não há tempo para pensar, as brincadeiras não são as mesmas, não ríamos desbragadamente, estamos sóbrios e recatados, de volta ao lar para muitos, para mim, estou de volta ao meu lugar de trabalho, Colegas, vamos para o ginásio, a vice-diretora faz o seu convite parada na porta aberta, o burburinho não para, diminui um pouquinho, muitas histórias sendo contadas, medos, angústias e esperança para serem compartilhadas

caminhamos para o ginásio, entre a tinta fresca, o burburinho e a aglomeração de pais, alunos, funcionários e funcionárias, sem pressa, a diretora quer nos mostrar, anunciar toda a tribo envolvida na perspectiva de ensinar

caminhamos pela passarela desfilando sorrisos e olhares

não tem jeito, minha curiosidade faz meu olhar girar na minha volta, procuro rostos e olhares conhecidos, agora mais crescidos, com alívio foi encontrando os mesmos sorrisos, a alegria não é a mesma, algumas novidades me olham e aguçam minha curiosidade, deixo para depois, teremos muito tempo para encontros e reencontros na rotina de trabalhar antes de chegar ao trabalho para ter trabalho para fazer no trabalho, e depois do trabalho, trabalhar mais um pouco corrigindo, trinta ou mais vezes, o trabalho feito durante o trabalho, pois não se tem tempo de corrigir no trabalho porque se está trabalhando

não é resignação nem reclamação, apenas constatação, não deixamos o trabalho de ensinar nem em casa, por vezes, ficamos impotentes diante das nossas dores

essa porta está sempre aberta

sábado, 17 de agosto de 2024

Ensaio - a vida não é feita de ilusão: 04

primeiro dia

baitasar

a cândida deu um oi frio e rápido, passou direto, assim como apareceu do nada, seguiu em frente, não olhou, não viu meus olhos quentes e apaixonados, atravessou a cortina da sombra esparramada pelo pátio, continuei parado no cais do porto, o lugar seguro para os afogados, olhei para os lados, pensei, Vamos dar o fora daqui, não disse, não disse, não disse, ia continuar sentado esperando neste caminho sem fim, incapaz de acabar com qualquer esperança, o sol molhava meu rosto e eu sem nada, sem nenhuma palavra sequer, continuaria ali sentado pela vida inteira, babando, queimando, não sabia o que fazer, queria ser visto, tudo o que eu podia ver à minha frente era aquela lindinha, como deve ser se sentir gostosa e desejada, não sei como é se sentir assim, eu gostaria de saber o que ela pensa

o contrário de como me sinto, alguém que não existe, feio e recusável, não desperto apetência nenhuma, um resto de nenhuma esperança que o relógio nunca desperta, adormecido, um caso clássico de negligência da natureza, os deuses da beleza estavam bêbados na minha vez, meu desenho saiu grande, torto e feio, não gostavam de fato de mim, nenhuma chance de viver aquilo que mais quero, abandonar essa dor de ser invisível

tempos difíceis nestes dias que começam e não terminam

a cândida também está no terceiro ano do médio, no topo das meninas mais respeitadas da escola, no meu jeito de ver não tem para ninguém, é a mais lindinha e a mais poderosa com sua calça colada, tipo entrou e não sai mais, um perigo, ela parece que está na maldade, eu preciso saber como vai essa lindinha, gosto mais dela que de mim mesmo, não sei se isso é ruim

sigo olhando seu desfile, babando suas dobras e cruzamentos, sua lindeza, tudo se passa muito lentamente, penso o que seria bom para mim num domingo à tarde, meus olhos tristonhos desejando aquele paraíso, enfio as mãos nos bolsos vazios, é um cansaço estar sempre com os bolsos vazios, não tem explicação não ter coragem para falar do meu desejo pelo calor do seu corpo, esquecer tudo e ficar em paz num domingo à tarde

mais adiante, ela encontra outras meninas da turma, estão reunidas tagarelando, fazem o tipo se contorcendo, balançando a esmo, minhas malditas orelhas não escutam, não tem importância, fico vigiando seus movimentos pelo canto dos olhos, as mãos nos bolsos me alisando, me sinto um idiota envergonhado, como seria bom ficar com você

continuamos sentados, apenas olhando, realmente ela me parece a melhor, acho que isso é amor, te fazer companhia, falam alto, não entendo, acho que estão fingindo que não nos viram, como os guris elas fazem planos secretos para continuarem juntas, não são nada discretas, pensei em quantas estariam, daqui alguns anos, casadas, donas de casa, mães, divorciadas, mal amadas, sozinhas, esperando inutilmente num quarto vazio e frio, qual delas fingiria estar excitada num rio falso de vertigens, assim acontecia apenas porque teriam mais a perder que nós homens ou tinham sido ensinadas dessa maneira, não sei, quem sabe menos das coisas sabe muito mais que eu, mas conte sempre comigo

olho para gustavo e dalton, pensei em parar de fazer perguntas, gostaria que tivéssemos bastante dinheiro, em vez de caminhar em ruas esburacadas, continuava em silêncio, sentados, me voltei e anunciei, Sexo é um negócio, não é esporte, os dois me olharam em silêncio, o tempo parou esperando a continuação, mas não tem continuação, sei lá, parado assim eu sofro, fico imprudente com as palavras, talvez leviano, foi uma frase estúpida, talvez não

estávamos surpresos, eu também me surpreenderia, coisas da vida, enfim disse, Acho que com dinheiro podemos viver a vida que queremos, Tu é um idiota, Eu sei, eu sei... não me dou valor, mas se estivessem me enfiando dinheiro nos bolsos, essa cara feia, que tem uma vida inteira pra viver, não ficaria sozinha, encontraria as mais lindas companhias, as garotas me olharia com cobiça ao passar, encarando, sussurrando minha qualidades.

Tu ainda quer ser escritor?

Sim.

E quem vai enfiar dinheiro nesses bolsos vazios?

para o mundo inteiro era indiferente o que se passava aqui dentro de mim, sem recordações, nada demais, nada do que quero vai sobreviver nem a lembrança das minhas mãos me aquecendo, apenas meu pai e seus sonhos, Eu devia ter acreditado em meu pai.

dalton não parecia com paciência para me oferecer um funeral decente, Mas afinal, o que seu pai tem com isso tudo?

pensei, Vou dizer simplesmente dos sonhos de papai e dos meus medos, mas deixei que minha autoestima literária contasse uma pequena história de verdades e mentiras, É o seguinte, Dalton, para papai todo jogador de futebol tem uma vida de dinheirama, muita fortuna e fartura de garotas. Desde que dei meus primeiros passos, ele sonhava em me ver jogando num grande estádio, vestindo a camisa da seleção brasileira. Como muitos pais apaixonados pelo futebol, ele me imaginava driblando adversários, levantando a torcida com minhas jogadas enfeitiçadas, provocativas, fazendo o adversário sangrar com meus gols, levantando troféus. E assim, sábado após sábado, papai se tornava o meu motorista oficial, sempre animado e disposto a incentivar o seu pequeno atleta. A rotina dos sábados era intensa, cheguei quase a acreditar, mas no fundo, eu sabia que não ia ser daquele jeito nem do meu jeito nem de jeito nenhum, ainda não compreendia, apenas desconfiava que mostarda barata e aguada não faz um bom sanduíche.

continuávamos parados e sentados, acne e espinhas me marcando, orelhas redondas flutuando ao vento, Logo pela manhã, papai iniciava os preparativos. Ajeitava minha mochila, enquanto eu me amarrava nas chuteiras, as mesmas que ele havia escolhido com tanta esperança. A caminho do campo, ele contava histórias de grandes jogadores, partidas emocionantes e episódios heroicos de superação. Eu escutava encantado, atraído por cada palavra, enquanto sonhava acordado os sonhos de meu pai com os aplausos e fritos animados da torcida. Nessas histórias, não existiam as vaias, derrotas, fracassos, seus heróis eram invencíveis.

talvez, um dos três se tornasse um caminhoneiro invencível sentado na boleia do caminhão, no para-choque o nome dela, o coração no para-brisa cheio de desejo, No campo, papai observava cada um dos meus movimentos com atenção e cuidado, sentado à beira do gramado. Acompanhava o treino torcendo e vibrando a cada chute meu no gol. O calor do sol refletia em seu rosto, mas nada se comparava a emoção dele me ver correndo, me esforçando, mudando de direção como se o campo fosse uma pista de dança. A paixão que eu sentia era contagiante, ele me perguntava se estava colocando muita pressão sobre meus ombros e pés, vivia mais ansioso que eu. Afinal, o sonho era dele, eu tinha outros interesses nada parecidos com futebol. Em momentos de dúvida, papai se lembrava das manhãs em que vovô o levava aos campos, o seu desejo de ser atleta e a frustração de não ter conseguido. Agora, nem quero lembrar se era isso que queria pra mim.

os dois continuavam em silêncio e para minha surpresa estavam atentos, mistérios que se vão e vêm de longe, impotentes feridas, o tempo era ao mesmo tempo muito lento e muito rápido, eles podiam levantar e sair para viver as suas vidas e esquecer, mas estavam ao meu lado, coisas da vida, Sabia que a resposta não viria fácil. No final do treino, enquanto eu corria em sua direção com um sorriso no rosto, eu sentia meu coração aquecer. Ali estava a razão dos meus esforços, a alegria pura de um menino que ainda não sabia da pressão do mundo dos adultos, só queria o meu pai ao meu lado pra sempre, independente do caminho escolhido, fecho os olhos de saudade, ele sempre foi mais importante que o futebol, eu sentia que ele sabia tudo. Não se dedicava só em me levar, mas também observava meus interesses. Jogar bola era apenas parte do que eu gostava. Até que descobri a biblioteca da escola. Uma bruma leve me entrou de leve, caminhava pela biblioteca, brincando, olhando e cheirando os livros, sussurrando suas histórias, lentamente fui aprendendo contar e escrever histórias. Ele percebeu que meu futuro não era um caminho a ser traçado, mas uma viagem a ser explorada.

levantei, meus únicos dois ouvintes continuavam sentados, em silêncio, surpreendidos, a nossa conversa animada se perdera, voltei a observar as meninas, o pensamento em mim era uma navalha, um feioso covarde com um pai apoiador que jogou fora a oportunidade da dinheirama sem desejo de jogar futebol

a vida não é feita de ilusão


sábado, 10 de agosto de 2024

Ensaio - a dois passos do céu, as pernas tremendo: 03

primeiro dia

baitasar

E se chover... a terra voltará a ficar mole? E o dique vai suportar? Desta vez, não suportou. E as bombas vão continuar as mesmas? O desmatamento vai continuar livre e solto? Vamos continuar acreditando nas mesmas mentiras? A falta de manutenção não é crime? Vão continuar com a vontade insaciável de derrubar o muro? Vamos seguir resmungando sem pensar? E os oportunistas de plantão?

Não existem respostas fáceis, meu filho, Me sinto péssimo, mãe, Todos estamos nos sentindo assim, O que fazer, então, É preciso pensar, Esses tipos de sempre, Talvez sim, talvez não, quem sabe... querem que pensemos assim, Pai, estou perdido, só sei o que não quero,  Isso já é um começo, meu filho, Vamos dormir, meu bem.

amanheceu mais um dia cinzento

e o dalton, aluno do terceiro ano do médio, chega se anunciando, Ehaaí, Gustavo, os dois se cumprimentam, são meus colegas de turma, jamais me adularam, sempre os mesmos juntos, nos mesmos lugares, tudo normal, estávamos de volta, mas não éramos mais os mesmos

o aperto das mãos anuncia aquele pequeno encontro de atitude, um soco encurtado e frágil de mútuo consentimento, o ritual da tribo permanecia, me pergunto sobre o que ainda continuava

gente, eu sei que não parece, mas sou o mais moço dos três, também sou grande e o mais feio, aquele cara em que as garotas não se deitam no mesmo lençol, tenho quinze anos, às vezes, me sinto fora do lugar e do tempo, muito triste, sei lá, sinto um frio como se tivesse sessenta, e viajando no tempo com esses quinze anos, é isso, têm momentos em que estou sonhando fora do lugar para mais, outras vezes grito para menos, nem sempre faço o meu melhor

sentamos no mesmo banco de cimento desde o primeiro dia do primeiro ano, eles com sete, eu com seis anos, é bastante tempo observando o futuro duvidoso, imaginando loucuras e mascando chicles sem fazer nada, sobrevivendo aos alinhamentos pedagógicos – como sei sobre esses alinhamentos pedagógicos? sou filho de professores – com suas chamadas, avaliações, conselhos, gritos temáticos, risos recortados e avisos urgentes, para ser sincero, só não suporto professor sem paixão que não se arrisca fora do script, acomodado, medroso, gosto daqueles que nos levam para ver o sol se esconder, apreciar estrelas, complicam menos, enchem meu coração

Como vai tudo, Mauro?

senti vontade de chorar e dizer adeus, queria voltar, mas ainda não estou pronto, dá pra imaginar o medo da chuva no silêncio da noite, Fique calado, pensei, desatento a resposta pro dalton

Uma merda...

e esse sol que não vem, tudo ainda é frio, muito frio, pouco sol, os dias não estão fáceis, a vida devia ser melhor, o mau cheiro se espalhando, montanhas de entulho 

Sei... observamos as meninas e marcamos os chicles com dentes brancos e jovens, mordemos e vigiamos, os cabelos estão diferentes, não usamos mais o cabelo arrepiado e empastado de gel, tudo mais simples e curto, uma sequência dégradée contínua da altura do corte, suas intensidades formando uma transição suave entre as partes, bem normal, não é nada original, Fodam-se! Estivemos dois passos do inferno... estou só esperando pela noite longa pra poder chorar por mim e por nós, os afogados.

antes do aguaceiro usávamos calças folgadas, um número acima, nesta nova versão, estamos ajustados às calças desocupadas e doadas, a tempestade ainda não estava distante o suficiente, o medo deixa luzes acessas

eu, com o meu metro e noventa... por aí, parecia mais velho naquela pequena tribo, continuava com espinhas, cravos e a cara indecifrável, um nojo, pelo menos, eu me sentia nojento, por certo, os demais sentiam o mesmo, mas enfim, julgava ser uma troca justa, já que aturava suas súplicas de ajuda nas provas, tudo oportuno e proveitoso, algumas coisas não mudam

faço o estilo altíssimo magro, feio e fraco, acho que já disse isso, tudo bem repetir, as mentiras se repetem mais que as verdades, sou aquele sujeito que nenhuma garota vai fazer nada pra chamar minha atenção, eles, ao contrário, têm o charme fortão, músculos saltando, à vista de todas, muitos chicles e nem mesmo precisam dizer nada pra agradar

gustavo e dalton observam tudo por trás dos óculos ray-ban, só usam acessórios de marca importada às escondidas pela fronteira paraguaia, dignos representantes dos predadores desatinados, às vezes, por ser cedo, outras vezes, por ser tarde demais, ficamos sozinhos no banco de cimento, gustavo com armação dourada e o dalton com seus óculos de armação vermelha como brasas de cigarro, são garotões bonitos, ninguém fingirá dizer isso pra mim, não dou motivo pra tanto, me aproveito deles

nossas caras são todas conhecidas, o medo nelas é a novidade

sujeitos como eu, independente do que aconteça, não têm a menor chance ao lado desses garotos bonitos, a vida é isso mesmo, eu finjo não me importar, não fazer caso

Olhem aquela ali...

Quem, perguntei, esperançoso de algum reconhecimento como um jovem macho alfa, perigoso e atraente que desafia às regras comuns da atração e comportamento, uma tempestade magnética silenciosa do segundo sol realinhando as órbitas dos planetas, com meu jeans, camiseta branca, músculos que não tenho para mostrar e aquele olhar que não tem explicação, parecendo saber um segredo que o mundo inteiro quer descobrir

um rosto feio com um charme intrigante, um furacão sem todo o tempo do mundo, um sorriso devastador que desafia e exige escolhas diferentes, anuncia que não é tempo perdido enquanto saboreamos aquela sobremesa ao final de um jantar

capaz de rir de mim mesmo, mas incapaz de mudar o mundo girando ao meu redor se assim o mundo deseja, pronto para gargalhadas, compaixão e até um pouco de confusão desajeitada como uma obrigação inevitável em frangalhos, um lembrete colorido que a vida é uma paixão bem-humorada com um toque de audácia, trazendo mais cores ao cotidiano

A Mariá... foi a resposta imediata do gustavo, fez um sinal à esquerda, olhei surpreendido, lá vinha ela toda bonitinha de blusinha branca, aparecendo do nada, continuei lutando com meus pensamentos, O amor não tem hora, não tem explicação, ele até se esconde, se deixa fingir como um bobo, uma distância tão pequena e tão longe, quis chamar, não disse nada, não sou um lobo mau, só quero ser feliz, gosto muito desta menina, é lindinha daquele jeito que dá vontade de ficar olhando, escutando as vozes do coração, quero uma chance saboreando com o olhar até ficar em frangalhos, hoje eu tô me repetindo adoidado

nunca senti o gosto de um beijo, acho que isso é um motivo para viver, quem sabe um anjo do céu me trás você

É menina muito parceira, a voz do gustavo está doce, sei que posso contar com essa gatinha a qualquer hora.

o dalton tirou seus óculos vermelhos, continuamos sentados sob a imensa figueira, a vida passando, ele deixa em seu olhar uma pequena nuvem de dúvida, Você tem certeza?

Ela é muito especial, foi a resposta acalorada, você não sabe quanto essa garota caminhou até chegar aqui.

Entendi, sutilmente disfarçou sua inveja, fechou os olhos e apenas deixou que sua voz fosse levada cheia de ironia nas entrelinhas, senti como se o mundo acabasse ali

confesso que imaginei vozes no meu deserto, estava perdendo minha chance de viver, nuvens escuras estavam lá no céu, no mesmo lugar, a menina bonita caminhando com seus olhos negros na sombra da figueira sob o amanhecer, Deixa eu te amar, a menina mais linda de toda escola, a mais bela com seus olhos negros, quero teu cheiro dos cabelos em meu rosto... vamos fugir, menina!

minhas pernas tremiam, mal conseguia ficar em pé, ela entrava em mim e colava meus pedaços

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sábado, 3 de agosto de 2024

Ensaio - cartão magnético: 02

primeiro dia

baitasar

têm coisas que não mudam, se você não paga o aluguel vai ser despejado, se você é um coitado perdedor e aposta pesado vai acabar engolindo terra, loira ou preta, jovem, bem vestida e gostosa não entra na minha vida, um merda romântico, não tem jeito, nunca vou ter um apartamento de luxo, curto cachorro-quente e muita mostarda apimentada, também não tenho nenhuma robustez carnuda, acho uma chatice ficar levantando aqueles ferros sempre mais pesados, as mangas das minhas camisas são bem largas, as calças também, às vezes parece que não tenho pernas, só as calças

por sorte, ainda não estou trabalhando nem tenho espinhas

tudo para algumas pessoas é serem obedecidas, sentem falta de darem ordens, realmente se excitam, se pudessem chicotear com seus cintos nossas pernas, bunda e coxas, nos deixariam tremendo e chorando; afinal, uma escola sem disciplinador não é respeitada como uma escola que ensina de verdade

um dos disciplinadores – sempre é um homem, pelo menos aqui – fica no portão para nos lembrar que depois que entramos pertencemos às regras da escola, não tem mesa-redonda, polêmica ou contestação, Regras precisam ser obedecidas, é o que nos repetem e repetem e repetem, é isso, aceitamos ou não entramos, ficamos nas ruas – ou pior, seremos aceitos em alguma escola pública da periferia com suas regras militarizadas, como aqui, também controladora das vontades com seus hinos, símbolos da família, deus e pátria, muito cinismo, mas sem os mesmos recursos

com sorte – não gosto muito da ideia de confiar na sorte – encontramos um lugar com aparência agradável, sem gaiolas para nos obrigar a ficar olhando juntos na mesma direção, alguma escola que mais conversa do que manda, acho que elas existem espalhadas por aí, lugares em que parece que a vida é maravilhosa, um milagre de bonita, mágica, pássaros nos galhos verdes, festa e alegria, cantando juntos, tagarelando na sombra das folhas da vida pulsando, sonhando pingos de cores, brincando, acariciando o coração, observando outras caturritas, pombas e pardais pelo pátio, as notas de uma sinfonia barulhenta, e ao entardecer o sol se despedindo, a dança nas árvores cedendo, aguardando a luz plena de outro dia, para mais risos e voos entre suas paredes

por aqui, querem nos ensinar como sermos sensatos, lógicos, responsáveis, práticos, intelectuais e cínicos, nos mostram um mundo clínico, mas pouco confiável, Cuidado ou o mundo engole vocês, estou me lixando para esse mundo estúpido, na maior parte do tempo estamos dormindo, as perguntas não se aprofundam, e o que aprendemos é que não sabemos quem somos, mas logo saberemos, viva o teste vocacional

manos, não sou das bagunça pela bagunça, longe disso, mas confiaria mais – também não é bem assim –, obedeceria sem uma inquietação maior se as regras também fossem discutidas com alunos e alunas, desconfio de qualquer um que se impõe sobre os demais e não aceita conversar sobre suas ideias, suas regras são para serem seguidas sem trocação, sem contestação – a teoria do controle ou descontrole

hoje, o primeiro dia do retorno desta parada selvagem da destruição geral

a catraca não está funcionando

antes dessa fartura de água, existiu o modo seco e quente, conforme íamos chegando, passávamos o cartão magnético na catraca do portão, um cartão magnético comum com foto, nome e código de barras, o registro da nossa presença, tudo muito eficiente e limpo até chegarem as águas

muitos dos que chegavam no carro do papai e da mamãe estão aprendendo a conhecer as ruas do bairro à pé, tudo muito quieto e silencioso

no horário anunciado o portão é fechado – hoje, vamos ter tolerância para atrasos –, os retardatários entram na escola somente pela portaria dos visitantes

o pátio segue cercado por prédios – cheirando à tinta fresca – e árvores tristes e feridas, os reencontros são muitos

lá está o profe Tiago

Ehaaí, Gustavo?

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sábado, 27 de julho de 2024

Ensaio - primeiro dia: 01

primeiro dia

baitasar


esse primeiro dia do resto das nossas vidas promete o recomeço do começo ou começo do recomeço, aqui ao sul de lugar nenhum, não será mais como em todos outros anos e seus incontáveis 200 dias, nossas vidas anônimas mudaram

desaparecemos, nossos mortos extraviados em imagens descoloridas e borradas

a repetição replica  imitações como uma melodia constante enquanto dançamos em círculos inundados por simulações, incompetências, más intenções e medos, ressurgimos esperando e torcendo que tudo dê certo, apesar das desinformações e disfarces crônicos das nossas escolhas, somos as gorjetas ao barman, não há como copiar, colar ou imitar, uma confusão sem fim com tantas e diferentes máscaras que nunca antes havia ecoado com tanta incredulidade em nossas vidas submersas  

quem ganha e quem perde, é apenas uma pergunta que a maioria finge ser incapaz de se fazer, mesmo repetindo as promessas do mesmo filme num clima de déjà-vu, a sensação de já ter vivido esse primeiro dia por tantos anos, nunca tão dolorido e fora do lugar

não é muito difícil prever os resultados quando pensamentos desafinados se deparam com as dificuldades do dia-a-dia, somos convencidos que é preciso aceitar a rotina da travessia, apesar da mundanalidade dos nossos defeitos e infâmias, apoiados, quem sabe, na coragem e virtudes da humanidade amorosa nos compelindo fazer de cada dia outro dia possível

é preciso entender que cada repetição carrega consigo uma promessa de familiaridade, a ilusão do controle, no entanto, esse véu de semelhanças não consegue esconder as nuances sutis que revelam a natureza de cada momento repetido se repetindo

fico ansioso com essas datas especiais, acho que por isso cheguei tão cedo, não quero perder nada, quase não consegui sentar à mesa, engolir o café, saborear delícias do pão e misturas das geleias do mercadinho colonial do Pedro, nos arredores do nosso Rondon

saí alguns passos e voltei, esqueci meu alicate de unhas antes de sair para outro dia de quadro e giz, hábito de anos, não lembrava se havia fechado a porta, estava trancada, eu desatento querendo abreviar tempo e distância deixei o alicate de unhas para trás, já havia deixado tantas coisas para trás, boletos vencidos, livros alagados, memórias submersas

neste novo mundo de conexões instantâneas, apertar um botão leva ou trás perguntas e respostas em questão de segundos, vivemos a tapeação que tempo e distância foram dobrados à nossa vontade, acreditamos ingenuamente que barreiras foram derrubadas de uma vez por todas enquanto a sopa de cabeça de porco e repolho da idade média religiosa nos persegue pendurada na janela

mas à noite, com olhos cansados pela luz da tela que me consome em mais um vídeo, mais uma mensagem, mais uma notificação no aparelho mágico que seguro com minhas mãos e resplandece como um totem prometendo me conectar a todos, tudo em um piscar de olhos

vai longe o tempo das histórias contadas olhos nos olhos, longas cartas esperadas com ansiedade, encontros marcados com antecedência e a emoção única de cada reencontro, abraçamos comodidade moderna com toda intensidade, certos de que vivemos na era da comunicação verdadeira sem cortinas e luzes apagadas, pelo menos, é a sensação que toda essa correria me causa

assim como um espelho reflete infinitas cópias de si mesmo, repetição nos confronta com reflexos das nossas escolhas, desdobrando-se em padrões entrelaçados que nos moldam melodramaticamente, ficou difícil dormir à noite, saudade dos gemidos da casa

a cada repetição somos desafiados a aprender com o que veio antes, encontrar novos significados nas velhas narrativas e abraçar a mudança que inevitavelmente acompanha a constância meia bêbada do vento soprando, aluguel vencido, fedor nauseabundo dos entulhos, a decomposição ao vivo e em cores, não há mais posição de largada ou chegada entre tantos destroços

na dança cíclica da repetição encontramos a oportunidade de transcender a imitação do passado e abraçar a autenticidade do aqui e agora, antes da mensagem: transmissão encerrada. é preciso reconhecer as diferentes nuances que compõe cada repetição, podemos sair da sujeira, arranjar algum emprego, mas continuamos esticados procurando por uma porta para desvendar camadas profundas da nossa própria jornada em busca da conscientização, nos permitir descobrir a beleza cínica que reside na imitação da cópia de si mesmo pode nos levar às corridas do dia seguinte

cheguei junto com a abertura do portão, esvoaçava como uma borboleta, outros me seguiam como gaviões, havia urubus, claro, pairando sobre caturritas, pombas e pardais tagarelando

o tempo me invadiu da saudade de ensinar ler histórias da rua e dos livros, tirando tampas da inocência, atento as coberturas da imprensa e televisão

a marca das águas não desapareceu, resiste nos fragmentos escondidos, memórias, frases, lodo fedorento encrustado por trás das cadeiras duras de fórmica, ainda dá tempo de olhar as paredes, as árvores adormecidas, os bancos de cimento feridos, caminhos de pedra revirados, jardins destruídos, botecos fechados, entulhos de volta para o nada

o burburinho se forma ligeiro e o chão se preenche de maneira desordenada, as vidas dispersas se aglomerando no pátio, caminhando, correndo, esperando um sinal, gostava de escutar a chuva, mas agora a chuva não ajuda, acende nossos medos

as conversas e as histórias parecidas, inevitavelmente repetiam a mesma frase, Perdemos tudo.

antigas amizades sobreviveram, novas amizades se encontraram no abrigo dos ginásios, escolas, o socorro das doações chegaram em meio a escuridão das vidas perdidas, animais deixados para trás, gente e bichos desaparecidos, muitas histórias e resgates, barcos, voluntários

filas silenciosas e longas, atordoadas e tristes se formavam

caminhões gigantes de solidariedade chegando com muita água, arroz, feijão, farinhas, açúcar, cobertas, mantas, colchões, travesseiros, abrigos esportivos, calçados, calças jeans, blusões, algumas bermudas, piercings, tatuagens

é o primeiro dia do resto das nossas vidas

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