quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Émile Zola - Germinal: Terceira Parte - (V.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Terceira Parte

V
 
     Transcorreu uma semana, o trabalho continuou num ambiente de desconfiança sombria, na expectativa do conflito.
     Na casa dos Maheu, a quinzena anunciava-se como devendo ser ainda mais magra. Por esse motivo, a mulher, apesar da sua moderação e bom senso, tornava-se cada vez mais azeda. Pois não é que sua filha, Catherine, tivera a audácia de passar uma noite fora? Na manhã seguinte voltara tão cansada e doente dessa aventura que não pôde ir trabalhar. Disse, chorando, que não tinha culpa, fora Chaval quem a obrigara, ameaçando-a com uma surra se escapasse. O amante estava enlouquecendo de tanto ciúme, queria impedi-la de voltar ao leito de Etienne, onde, tinha certeza — dizia ele —, a família a fazia dormir. A mãe, furiosa, após ter proibido sua filha de rever tal crápula, falou em ir a Montsou para esbofeteá-lo. Mas seria perder tempo, e a moça, já que tinha seu homem, preferia não o trocar.
     Dois dias mais tarde aconteceu outra história. Na segunda e na terça-feira, Jeanlin, que todos julgavam estar tranquilamente trabalhando na Voreux, escapou para uma incursão pelos pântanos e pela floresta de Vandame, carregando consigo Bébert e Lydie, por ele desencaminhados. Nunca se soube a que roubos, a que brinquedos proibidos de crianças precoces os três se entregaram. Jeanlin recebeu um forte corretivo, uma surra aplicada do lado de fora, na calçada, diante das apavoradas crianças do conjunto habitacional. Onde é que se vira coisa igual? Filhos que pusera no mundo, que desde o nascimento davam gastos, que deviam agora estar ajudando a manutenção da casa! Nesse grito havia a lembrança da sua atribulada juventude, da miséria hereditária que obrigava cada filho da família a ser um ganha-pão para o futuro.
     Nessa manhã, tendo os homens e a moça partido para a mina, a mulher levantou a cabeça do travesseiro para dizer a Jeanlin: 

— Escuta bem, cachorro sem-vergonha: se voltares a fazer o que fizeste eu te esfolo vivo.

     O novo local de trabalho exigia um esforço penoso de Maheu e seus companheiros. Aquele trecho do veio Filonnière era tão estreito que os britadores, espremidos entre o muro e o teto, esfolavam os cotovelos durante o abate. Além disso, era cada vez mais úmido, receava-se que a qualquer momento a água jorrasse, numa dessas bruscas torrentes que rebentam as rochas e arrastam os homens. Na véspera, quando Etienne trabalhava metendo violentamente sua picareta na hulha, ao retirá-la recebeu um jacto de água no rosto. Foi como um toque de alerta, e o recinto ficou simplesmente mais molhado e insalubre. Aliás, ele já nem pensava mais nas possíveis catástrofes, entrosado com os camaradas, esquecido do perigo. Viviam no meio do grisu sem mesmo sentir seu peso sobre as pálpebras o véu de teia de aranha que ele deixava nos cílios. Às vezes, quando a chama das lâmpadas enfraquecia e ficava muito azul, lembravam se de sua existência, e um mineiro encostava a cabeça no veio para escutar o leve ruído do gás, um ruído de bolha de ar borbulhando em cada fenda. Mas a constante ameaça eram os desmoronamentos, já que, além da insuficiência do estaqueamento, sempre feito às pressas, o terreno, minado pela água, não era firme. Por três vezes naquele dia Maheu tivera de mandar pôr reforços no estaqueamento. Eram duas e meia, os homens iam começar a subir. Deitado de lado, Etienne terminava o abate de um bloco quando um longínquo ribombar de trovão abalou toda a mina. 

— Que é isso? — gritou ele, largando a picareta para escutar.

     Por um momento acreditou que a galeria desabava por cima deles. Mas Maheu já escorregava pelo declive do filão, dizendo: 

— É um desmoronamento... Depressa! Depressa!

     Todos escorregaram declive abaixo, precipitadamente, levados por um impulso de fraternidade apreensiva. As lâmpadas balançavam nas suas mãos, no mortal silêncio que se fizera; corriam em fila ao longo das vias, de espinhas dobradas, como se estivessem galopando sobre os quatro membros. E, sem frear essa corrida, interrogavam-se, davam respostas sucintas: Onde? Onde? Seria nos desmontes? Não, o barulho vinha mais de baixo! Talvez da galeria de rodagem! Ao chegarem à chaminé de ventilação, precipitaram-se por ela, de cambulhada, sem se preocuparem com as contusões.
      Jeanlin, com o couro ainda ardendo da surra da véspera, não escapara da mina naquele dia. Trotava descalço atrás do seu comboio de vagonetes, fechando uma a uma as portas de ventilação. E às vezes, quando sabia que não encontraria um contramestre, subia no último vagonete, o que lhe estava proibido para evitar que dormisse. A sua grande distração era ir ter com Bébert, que viajava na frente, guiando, cada vez que o comboio entrava num desvio para deixar outro passar. Vinha em silêncio, sorrateiramente, sem a lâmpada, beliscava o companheiro até fazer sangue, inventava brincadeiras de menino perverso, com aqueles seus cabelos amarelos, suas orelhas enormes, sua cara magra iluminada por pequenos olhos verdes que brilhavam no escuro. De uma precocidade malsã, parecia ter a inteligência obscura e a destreza viva de um aborto humano que estivesse regredindo à animalidade de origem.
     À tarde, Mouque entregou aos aprendizes o Batalha, cujo turno de trabalho começava. E, como o animal resfolegasse num desvio. Jeanlin, que fora ter com Bébert, disse-lhe: 

— O que é que há com esse matungo, que toda hora estaca? Numa dessa vai quebrar-me as pernas...

     Bébert não pôde responder, retendo Batalha, que ficara todo alvoroçado com a aproximação de outro comboio. O cavalo reconhecera de longe, pelo faro, seu camarada Trombeta, pelo qual se tomara de grande ternura desde o dia em que o vira desembarcando no fundo do poço. Dir-se-ia a piedade afetuosa de um velho filósofo, desejoso de facilitar a vida do jovem amigo, inspirando-lhe resignação e paciência, porque Trombeta não se aclimatava, puxava os vagonetes sem vontade, permanecia de cabeça baixa, cego de tanta treva, com a constante nostalgia do sol. Assim, toda vez que Batalha o encontrava, espichava o pescoço, relinchando, incitando o outro com uma carícia de encorajamento.

— Raios de cavalos! — praguejou Bébert. — Já estão outra vez trocando carinhos...

     Após a passagem de Trombeta, ele respondeu a respeito de Batalha: 

— Este velhote é sabido. Quando estaca assim é porque está adivinhando algum tropeço pela frente, uma pedra, um buraco, sei lá... E ele se cuida, não quer machucar-se. Hoje não sei o que poderá haver logo depois da porta. Assim que a empurra, ele estaca... Sentiste alguma coisa tu também? 

— Não — respondeu Jeanlin. — Há água, fico com ela até os joelhos.

     O comboio voltou a partir. E na viagem seguinte, tendo aberto a porta de ventilação com a cabeça, Batalha, novamente, recusou-se a avançar, rinchando e tremendo. Por fim decidiu-se e partiu.
     Jeanlin, que fechava a porta, ficara para trás. Abaixou-se para observar o charco em que chafurdava; depois, levantando sua lâmpada, percebeu que as madeiras tinham vergado com a infiltração contínua de um ponto de água. Justamente nesse momento, um britador chamado Berloque, apelidado Chicot, vinha do seu veio, com pressa para ir ver sua mulher, que estava de parto. Ele também parou para examinar o estaqueamento. E, de repente, quando o menino ia sair correndo para alcançar seu comboio, ouviu-se um estalo formidável e o desabamento submergiu o homem e a criança.
     Houve um grande silêncio. Impelida pelo deslocamento de ar, uma poeira espessa invadiu as vias laterais. Cegos, sufocados, os mineiros surgiam de todas as partes, dos veios mais longínquos, com suas lâmpadas balouçantes que mal davam para iluminar essa correria de homens enegrecidos, no fundo daquelas tocas de toupeira. Quando os primeiros esbarraram nos escombros, começaram a gritar, chamando os camaradas. Um outro grupo, vindo pela via do fundo, achava-se do outro lado do desmoronamento, cuja massa selava a galeria. Imediatamente verificaram que o teto desabara numa extensão de aproximadamente dez metros. O estrago não tinha nada de grave, mas os corações apertaram-se quando um estertor saiu dos escombros.
      Bébert, largando seu comboio, acorreu repetindo: 

— Jeanlin está aí embaixo! Jeanlin está aí embaixo!

      Nesse exato momento, Maheu, acompanhado de Zacharie e Etienne, surgia na boca da chaminé. Foi tomado por um furor desesperado e só conseguiu praguejar: 

— Com mil raios! Com mil raios! Com mil raios! 

     Catherine, Lydie e a filha de Mouque, que também tinham acorrido, puseram-se a soluçar, a gritar de terror, em meio à pavorosa desordem que as trevas aumentavam. Tentaram fazê-las calar, mas elas estavam enlouquecidas e a cada estertor gritavam mais forte.
     O contramestre Richomme chegou correndo, contrariado por não estarem na mina nem o engenheiro Négrel, nem Dansaert. Com o ouvido colado ao entulho, escutou, e acabou declarando que aqueles queixumes não eram de criança. Um homem, certamente, estava soterrado ali. Maheu gritou umas vinte vezes o nome do filho, mas nem sua respiração era ouvida. O menino devia estar esmagado.
     Mas o estertor continuava, monótono. Falaram com o agonizante, perguntaram seu nome, apenas o gemido vinha como resposta. 

— Apressemo-nos! — gritou Richomme, que já organizara os serviços de salvamento. — Depois se conversa.

     De ambos os lados, os mineiros começaram a desentulhar, com picaretas e pás. Chaval trabalhava em silêncio ao lado de Maheu e de Etienne, enquanto Zacharie dirigia a remoção dos escombros. Era a hora de deixar o trabalho, ninguém comera ainda; mas quem abandonaria companheiros em perigo para ir comer tranqüilamente sua sopa? No entanto, pensaram no pessoal do conjunto habitacional, que já devia estar inquieto vendo que ninguém voltava, e alguém propôs enviar as mulheres. Nem Catherine, nem a filha de Mouque nem mesmo Lydie quiseram afastar-se, roídas pelo desejo de saber quem estava ali, ajudando o desentulhar. Levaque aceitou então a missão de anunciar o desmoronamento como um simples estrago que estava sendo reparado. Eram quase quatro horas, em menos de uma hora os operários tinham feito o trabalho de um dia; metade do entulho já podia ter sido removido se não tivessem caído do teto outras rochas. Maheu trabalhava com tal obstinação e fúria que, se alguém se aproximava para substituí-lo, ele o afastava com um gesto terrível. 

— Devagar, devagar... — disse enfim Richomme. — Já estamos perto deles, dessa maneira acabaremos de matá-los.

     Realmente, o estertor era cada vez mais distinto. Era esse gemido contínuo que guiava os trabalhadores; agora eles pareciam estar por baixo das picaretas. Bruscamente, cessaram.
      Todos se olharam em silêncio, arrepiados por terem sentido passar o frio da morte pelas trevas. Continuaram a cavar, inundados de suor, os músculos retesados a ponto de se romperem. Encontraram um pé e a partir daí o entulho foi retirado com a mão. Os membros foram aparecendo. A cabeça não tinha sofrido. As lâmpadas o iluminaram e o nome de Chicot passou de boca em boca. Ainda estava quente, mas com a coluna vertebral quebrada por uma rocha. 

— Enrolem-no com uma manta e ponham-no num vagonete — ordenou o contramestre. — Agora ao garoto, depressa!

continua na página 164...
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Terceira Parte - (V.a) 
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando — se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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