sábado, 18 de outubro de 2025

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Segundo - O velho burguês / V - Biscainho e Nicolette

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Segundo — O velho burguês

V - Biscainho e Nicolette
     
     Gillenormand tinha as suas teorias. Eis uma delas:

«Quando um homem é apaixonado por mulheres e tem em casa uma, de quem nada se lhe dá, feia, rabugenta, legítima, amiga de andar sempre a falar nos seus direitos, lida no código, e ciosa até, se isso vem a talho, só lhe resta um meio de se livrar de tal praga e viver em paz: é largar-lhe os cordões da bolsa. Torna-o livre essa abdicação. A mulher tem então em que se ocupar, toma gosto pelo manusear do dinheiro que lhe enche os dedos de verdete, empreende a educação dos caseiros e a criação dos rendeiros, consulta os advogados, preside aos escrivães, arenga aos tabeliães, visita os juízes, acompanha os processos, redige os arrendamentos, dita os contratos, vê-se soberana, vende, compra, faz e desfaz ajustes, promete e compromete, liga e desliga, cede, concede e retrocede, arranja e desarranja, entesoura e esbanja, economiza e gasta à larga, faz asneiras, prazer supremo, e isso consola-a. Enquanto que o marido a deixa, tem ela a satisfação de lhe dar cabo do que ele possui».

     Esta teoria era a que ele a si mesmo aplicara, tornando-a toda a história da sua vida. A segunda mulher administrara-lhe a casa de modo que, quando ele por graça de Deus se achou viúvo, restava-lhe unicamente o necessário para poder passar, convertendo em renda vitalícia quase tudo, que vinham a ser uns quinze mil francos, três quartas partes dos quais se extinguiriam por sua morte. Dera este passo resolutamente, pouco preocupado com o cuidado de deixar uma herança. Além disso, tinha visto que os patrimónios corriam seus riscos, tornando-se às vezes bem nacionais. Gillenormand tinha presenciado os avatares do três por cento consolidados e acreditava pouco no livro da razão.

 «É tudo rua Quincampoix!» dizia.

     Como já dissemos, a casa em que ele morava, na rua das Mulheres do Calvário, era propriamente dele. Tinha dois criados, «um macho, outro fêmea». Costumava crismá-los quando entrava algum para o seu serviço. Aos homens punha-lhes o nome da província de que eram naturais: Nimense, Comtoassense, Poitevinense, Picardo. O último criado que o servia era um bochechudo e avermelhado velhote de cinquenta e cinco anos, que não era capaz de dar uma corrida de vinte passos, ao qual, como tinha nascido em Bayona, pusera o nome de Biscainho. Pelo que diz respeito às criadas, em casa dele chamavam-se todas Nicolettes (até a própria Magnon, de quem mais adiante se falará). Um dia apresentou-se-lhe uma cozinheira, mulher de créditos na sua arte, altiva descendente de uma nobre raça de porteiros.

— Quanto quer de soldada por mês? — perguntou-lhe Gillenormand. 
— Trinta francos. 
— Como se chama? 
— Olímpia. 
— Dar-lhe-ei cinquenta e chamar-se-á Nicolette.

continua na página 453...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Segundo - V - Biscainho e Nicolette
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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