domingo, 7 de junho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 2 (I. A chegada ao mosteiro)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO II
UMA REUNIÃO INTEMPESTIVA
I
A CHEGADA AO MOSTEIRO
    
    Estava um dia magnífico, quente e claro. Era no fim de agosto. A entrevista com o stáriets fora marcada para imediatamente depois da última missa, às 11h30. Os nossos visitantes chegaram quase no fim da cerimônia, em duas carruagens. A primeira, uma elegante caleça puxada por dois cavalos de preço, estava ocupada por Piotr Alieksán-drovitch Miúsov e um parente afastado, Piotr Fomitch Kolgánov, de vinte anos de idade. Este rapaz preparava-se para entrar na universidade. Miúsov, de quem era ele hóspede, propunha-lhe levá-lo ao estrangeiro, a Zurique ou a Iena, para ali acabar seus estudos, mas ele não havia ainda tomado decisão. Pensativo e distraído, tinha um aspecto agradável, uma constituição robusta, a estatura bastante elevada. De olhar estranhamente fixo, o que é próprio das pessoas distraídas, olhava-nos por vezes muito tempo sem ver-nos; taciturno e algo embaraçado, acontecia-lhe — somente na intimidade — mostrar-se de repente bastante loquaz, veemente, jovial, rindo só Deus sabe de quê. Mas sua imaginação não passava de um fogo de palha, assim que se acendia logo se apagava. Andava sempre bem vestido e até mesmo com apuro. Possuidor de certa fortuna, tinha ainda mais em perspectiva. Entretinha com Aliócha relações amigáveis.
     Fiódor Pávlovitch e seu filho tinham tomado lugar em uma caleça de aluguel bastante estragada, mas espaçosa, atrelada a dois velhos cavalos malhados de preto e branco, que seguiam a uma distância respeitável. Dimítri tinha sido prevenido na véspera da hora da entrevista, mas estava atrasado. Os visitantes deixaram suas carruagens perto da cerca, na hospedaria, e transpuseram a pé as portas do mosteiro. Exceto Fiódor Pávlovitch, os três outros jamais tinham visto o mosteiro e Miúsov havia trinta anos que não entrava numa igreja. Olhava com certa curiosidade, assumindo um ar desenvolto. Mas o interior do mosteiro, de parte a igreja e as dependências, aliás bastante banais, nada oferecia a seu espírito observador. Os derradeiros fiéis que saíam da igreja benziam-se de gorros nas mãos. Entre o povinho viam-se também pessoas de uma posição mais elevada: duas ou três damas, um velho general, todos hospedados na pousada. Mendigos cercaram nossos visitantes, mas ninguém lhes deu esmola. Somente Pietrucha Kolgánov tirou JO copeques de seu porta-moedas e, acanhado Deus sabe por que, introduziu-os rapidamente na mão de uma mulher* murmurando: "Reparta-os". Nenhum de seus companheiros lhe fez qualquer observação, o que teve como resultado aumentar-lhe a confusão.
     Coisa estranha: deveriam deveras esperá-los e até mesmo testemunhar-lhes algumas atenções; um deles acabava de fazer um donativo de 1000 rublos, o outro era um proprietário bastante rico, que mantinha os monges mais ou menos sob sua dependência, no que dizia respeito à pesca, de acordo com o rumo que tomasse o processo. No entanto, nenhuma personalidade oficial se encontrava lá para recebê-los. Miúsov contemplava com ar distraído as lápides tumulares em redor da igreja e quis fazer a observação de que os ocupantes daqueles túmulos deviam ter pago bastante caro o direito de ser enterrados em um lugar tão "santo**, mas manteve-se em silêncio: sua ironia de liberal dava lugar à irritação.

— A quem, diabo, devemos dirigir-nos nesta casa onde todos mandam?... Seria preciso sabê-lo, porque o tempo passa — murmurou ele, como consigo mesmo. 

     De repente, aproximou-se deles uma personagem calva, de idade madura, numa ampla veste de verão e de olhos ternos. De chapéu na mão, apresentou-se, ceceando, como o proprietário de terras Maksímov, do governo de Tula. Deu-se conta imediatamente do embaraço daqueles senhores. 

— O stáriets Zósima mora no eremitério, à parte, a quatrocentos passos do mosteiro; é preciso atravessar o bosquezinho... 
— Sei bem — respondeu Fiódor Pávlovitch. — Não nos lembramos bem da estrada, pois faz muito tempo que não venho por aqui. 
— Passem por aquela porta, depois sigam diretamente pelo bosquezinho. Permitam-me que os acompanhe... eu mesmo... por aqui. por aqui...

     Saíram da cerca e meteram-se no bosque. O proprietário Maksímov, de uns sessenta anos de idade, caminhava, ou antes, corria ao lado deles, examinando-os a todos com uma curiosidade incômoda. Esbugalhava os olhos. 

— Fique o senhor sabendo que nós vamos à casa desse stáriets para tratar de um negócio pessoal — observou friamente Miúsov. — Obtivemos, por assim dizer, "uma audiência" dessa personagem; de modo que, malgrado nossa gratidão, não lhe propomos que entre conosco. 
— Já estive ali... Un chevalier parfait — declarou, dando um piparote no ar, o proprietário. 
— Quem é ce chevalier? — perguntou Miúsov. 
— O stáriets, o famoso stáriets... a glória e a honra do mosteiro, Zósima. Aquele stáriets, vejam...

     Sua tagarelice foi interrompida por um monge, com capuz, de pequena estatura, pálido e desfeito, que alcançou o grupo. Fiódor Pávlovitch e Miúsov pararam. O monge saudou-os com grande polidez e lhes disse: 

— Senhores, o padre abade convida-os a todos a jantar, depois da visita ao eremitério. É à 1 hora em ponto. O senhor também — disse ele a Maksímov.
— Não haverei de faltar — exclamou Fiódor Pávlovitch, encantado pelo convite. — O senhor sabe que todos prometemos portar-nos decentemente... E o senhor virá, Piotr Alieksándrovitch? 
— Como não? Por que estou aqui, senão para observar os costumes deles? Uma só coisa me embaraça, Fiódor Pávlovitch, é encontrar-me agora com o senhor. 
— Sim, Dimítri Fiódorovitch ainda não chegou. 
— Seria perfeito se ele faltasse; acredita o senhor que seja isso uni prazer para mim, essa estória dos senhores e o senhor ainda de quebra? Estaremos lá para o almoço; agradeça ao padre abade — disse ele ao monge. 
— Perdão, tenho de conduzi-los à casa do stáriets — respondeu este. 
— Neste caso vou diretamente à casa do padre abade, sim, vou durante este tempo à casa do padre abade — gorjeou Maksímov. 
— O padre abade está muito ocupado neste momento, mas será como o senhor quiser... — disse o monge, perplexo. 
— Que sujeito cacete esse velho! — observou Miúsov, quando Maksímov voltou ao mosteiro. 
— Parece-se com Von Sohn — declarou, de repente, Fiódor Pávlovitch. 
— É tudo quanto o senhor sabe... Em que se parece ele com Von Sohn? O senhor mesmo já o viu? 
— Vi-lhe a fotografia. Se bem que as feições não sejam idênticas, há qualquer coisa de indefinível. É totalmente o sósia de Von Sohn. Reconheço-o apenas pela fisionomia. 
— Ah! Talvez seja o senhor entendido nisso. Todavia, Fiódor Pávlovitch, o senhor acaba de lembrar que prometemos portar-nos decentemente; não se esqueça disto. Digo-lhe que se contenha. Se o senhor começa a fazer-se de palhaço, não tenho eu a intenção de ser metido no mesmo cesto que o senhor. Veja esse homem — disse ele dirigindo-se ao monge —, tenho medo de ir com ele à casa de pessoas distintas. 

     Um pálido sorriso, não desprovido de astúcia, apareceu nos lábios exangues do monge, que, no entanto, nada respondeu, deixando ver claramente que se calava pela consciência de sua própria dignidade. Miúsov franziu ainda mais o cenho. 

 "Oh! Que o diabo leve a todas essas criaturas de exterior plasmado pelos séculos, mas cujo íntimo não é senão charlatanismo e absurdo!", dizia ele entre si.

— Eis o eremitério, chegamos — gritou Fiódor Pávlovitch, que se pôs a fazer grandes sinais-da-cruz diante dos santos pintados por cima e de lado do portal. 
— Cada qual vive como lhe agrada — declarou ele. — E o provérbio russo diz com razão: "A monge duma outra ordem não imponhas tua regra". Há aqui 25 bons padres que tratam de sua salvação, contemplam se uns aos outros e comem couves. E nem uma mulher transpôs esse portal, eis o que é espantoso. No entanto, ouvi dizer que o stáriets recebia senhoras — disse ele ao monge. 
— As mulheres do povo esperam-no lá embaixo, perto da galeria, veja, estão sentadas no chão. Para as senhoras da sociedade prepararam dois quartos na própria galeria, mas fora da cerca, veja aquelas janelas; o stáriets ali chega por um corredor interno, quando sua saúde o permite. Há uma Senhora Khokhlakova, proprietária em Khárkov, que quer consultá-lo a respeito de sua filha, atacada de fraqueza. Teve de prometer vir vê-las, se bem que nestes últimos tempos esteja muito fraco e não se mostre em público. 
— Há, pois, no eremitério uma porta entreaberta do lado das senhoras. Não estou fazendo mau juízo, meu padre! No Monte Atos, o senhor deve saber, não somente são proibidas as visitas femininas, mas não se tolera nenhuma mulher, nem fêmea, galinhas, peruas, bezerras... 
— Fiódor Pávlovitch, vou-me embora e deixo-o sozinho. Vão mandá-lo embora a braços, sou eu que lho predigo. 
— Em que é que eu o incomodo, Piotr Alieksándrovitch? Olhe! — exclamou ele, de repente, uma vez transposta a cerca. — Veja em que vale de rosas eles moram!

     Efetivamente, se bem que não houvesse então rosas, via-se uma profusão de flores outonais, magníficas e raras. Mãos experimentadas deviam cuidar delas. Havia canteiros em redor das igrejas e entre os túmulos. Flores cercavam ainda a casinha de madeira, um rés-do-chão, precedido duma galeria, onde se encontrava a cela do stáriets.

— Era assim também no tempo do stáriets precedente, Varsonófi? Dizem que ele não gostava da elegância, arrebatava-se e recebia mesmo as senhoras às bengaladas — observou Fiódor Pávlovitch, subindo o patamar. 
— O stáriets Varsonófi parecia por vezes, com efeito, um pobre de espírito, mas exagera-se muito a este respeito. Nunca bateu em ninguém com o báculo — respondeu o monge. Agora, senhores, um minuto, vou anunciá-los. 
— Fiódor Pávlovitch, pela derradeira vez lhe digo, comporte-se bem, do contrário, ai do senhor! — murmurou ainda uma vez Miúsov. 
— Gostaria bem de saber o que o comove dessa maneira — observou Fiódor Pávlovitch, zombeteiro. — São seus pecados que o amedrontam? Porque dizem que, com um simples olhar, adivinha ele com quem está tratando. Mas como pode fazer tal caso da opinião deles o senhor, um parisiense, um progressista? Palavra, o senhor me espanta! 

     Miúsov não teve oportunidade de responder a este sarcasmo: convidavam-nos a entrar. Sentiu ligeira irritação. "Pois bem! Sei de antemão que, nervoso como estou, irei discutir, acalorar-me... rebaixar-me, a mim e a minhas ideias", disse a si mesmo.

continua na página 34...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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