sábado, 17 de outubro de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 4 (II. Alócha em casa de seu pai)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


SEGUNDA PARTE
LIVRO IV
OS TUMULTOS
II
ALIÓCHA EM CASA DE SEU PAI
 
     Aliócha começou por ir em primeiro lugar à casa de seu Ao aproximar-se, lembrou-se da recomendação feita na véspera, de entrar sem que Ivã ficasse sabendo. "Por quê?", perguntou a si mesmo. "Se meu pai quer fazer-me uma confidência, é esta uma razão para entrar furtivamente? Queria, sem dúvida, na sua emoção, dizer-me outra coisa ontem e não pôde", decidiu ele. No entanto, sentiu se satisfeito ao saber de Marfa Ignátievna, que lhe abriu a porta do jardim (Gregório estava deitado, doente), que Ivã saíra havia duas horas.

— E meu pai?
— Levantou-se, está tomando seu café — respondeu a velha. 

     Aliócha entrou.
     O velho, sentado à sua mesa, de chinelos e com um casaco bastante surrado, examinava contas para se distrair, sem grande interesse de resto. Encontrava-se sozinho na casa, tendo Smierdiákov saído para comprar provisões. Sua atenção estava alhures. Se bem que se tivesse levantado bem cedo e bancado o corajoso, parecia fatigado, fraco. Sua testa, onde, durante a noite, se haviam formado equimoses, estava enrolada num lenço de seda vermelha. O nariz, muito inchado, dava a seu rosto uma expressão particularmente má, irritada. O velho dava-se conta disso e acolheu Aliócha com um olhar pouco amigável.

— O café está frio — disse ele num tom seco —, não te ofereço. Hoje, meu caro, tenho apenas uma magra sopa de peixe e não convido ninguém. Por que vieste? 
— Vim saber notícias suas — declarou Aliócha.
— Sim. Aliás, tinha-te pedido ontem que viesses. Tolices tudo isso. Tu te incomodaste em vão. Sabia bem que haverias de vir... 

     Suas palavras refletiam o sentimento mais hostil. Entretanto, havia se levantado e examinava ansiosamente seu nariz no espelho (pela quadragésima vez talvez desde a manhã). Arranjou com extremo cuidado seu lenço vermelho na testa. 

— O vermelho assenta melhor, o branco lembra imediatamente o hospital — observou ele, num tom sentencioso.
— Pois bem! Que há de novo? Como vai teu stáriets? 
— Está muito mal, morrerá talvez hoje — disse Aliócha; mas seu pai não lhe prestou atenção.
— Ivã saiu — disse ele, de repente. — Esforça-se por furtar a noiva de Mítia. Por isso é que permanece aqui — acrescentou com raiva, a boca contraída, olhando Aliócha.
— Ele mesmo lhe disse? 
— Desde muito tempo, há já três semanas. Não foi para assassinar-me às ocultas que ele veio; tem pois um fito.
— Como! Por que diz isso? — perguntou Aliócha, com angústia.
— Não pede dinheiro, é verdade; aliás, não terá nada. Eu, meu caríssimo Alieksiéi Fiódorovitch, tenho a intenção de viver o mais tempo possível, toma nota disso; assim, tenho necessidade de todo o meu dinheiro, e quanto mais avançar em idade, mais precisarei — continuou Fiódor Pávlovitch, com as mãos nos bolsos de seu casaco manchado, de durante amarela. — Agora, aos 55 anos, conservo minha força viril, e conto bem que isso durará ainda vinte anos; ora, envelhecerei, tornar-me-ei repulsivo, as mulheres não virão mais de boa vontade; então, precisarei de dinheiro. Eis por que, agora, amealho o mais possível, para mim só, meu caro filho Alieksiéi Fiódorovitch, fica sabendo bem, porque quero viver até o fim na libertinagem. É a existência mais agradável; todo mundo deblatera contra ela e todo mundo nela vive, mas às ocultas, e eu, em pleno dia. É por causa de minha franqueza que todos os canalhas me caíram em cima. Quanto ao teu paraíso, Alieksiéi Fiódorovitch, fica sabendo que não o quero, é até mesmo inconveniente para um homem às direitas, se é que existe. A gente dorme para não mais despertar, eis minha ideia. Manda dizer uma missa por mim, se quiseres, senão, que o diabo te leve! Eis minha filosofia. Ontem, Ivã falou bem a este respeito, no entanto, estávamos bêbedos. É um falador desprovido de erudição... não tem instrução, cala-se e ri da gente em silêncio, eis todo o seu talento.

     Aliócha escutava sem dizer palavra.

— Por que não me fala ele? E, quando fala, faz-se malicioso; é um miserável o teu Ivã! Casarei imediatamente com Grúchenhka, se quiser. Porque com dinheiro basta querer. Alieksiéi Fiódorovitch, tem-se tudo. É disto que Ivã tem medo, vigia-me para impedir meu casamento, e com este fito impele Mítia a fazer dela sua esposa; dessa maneira, entende preservar-me de Gruchka (na esperança de herdar, se não me casar com ela!); por outra parte, se Mítia se casar com ela, toma-lhe Ivã sua rica noiva, eis seu cálculo! É um miserável o teu Ivã!
— Como está o senhor irascível! É o resultado de ontem; o senhor deveria deitar-se — disse Aliócha.
— Tuas palavras não me irritam — observou o velho —, ao passo que vindas de Ivã me zangariam; somente contigo tenho tido bons momentos, porque sou mau. 
— O senhor não é mau, o senhor tem é o espírito corrompido — sorriu Aliócha. 
— Pois seja, eu queria mandar prender aquele bandido do Mítia e agora não sei que partido tomar. Sem dúvida, em nosso tempo, passa por preconceito respeitar pai e mãe; entretanto, as leis não permitem ainda arrastar um pai pelos cabelos, bater lhe no rosto com golpes de botas, em sua própria casa, e ameaçá-lo, diante de testemunhas, de vir liquidá-lo. Se eu quisesse, domá-lo-ia e poderia mandá-lo prender por causa da cena de ontem. 
— Então, não quer dar queixa? 
— Ivã dissuadiu-me disso. Zombo de Ivã, mas há uma coisa... Inclinou-se para Aliócha e continuou num tom confidencial: — Se mandar prender o canalha, ela ficará sabendo e correrá para ele. Mas se souber que ele quase me mata, a mim, débil velho, abandoná-lo-á talvez e virá ver-me... Tal é seu caráter, só age contraditoriamente. Conheço-a a fundo! Não queres conhaque? Toma café frio, servir-te-ei um quarto de cálice, isto dá bom gosto.  
— Não, obrigado. Levarei este pão, se o permitir — disse Aliócha, pegando um pãozinho francês de 3 copeques, que meteu no bolso de sua batina. — O senhor não deveria beber mais conhaque — aconselhou, timidamente, lançando uma olhadela furtiva para o velho.
— Tens razão, isto irrita. Mas só um copinho...

     Abriu o armário, serviu-se um copinho, tornou a fechar o armário e a pôr a chave no bolso. 

— Isto basta, não rebentarei por causa dum copinho...
— Ei-lo melhor! 
— Hum! Gosto de ti, mesmo sem conhaque, e sou um canalha para os canalhas! Ivã não parte para Tchermachniá porque tem intenção de espionar-me. Quer saber quanto darei a Grúchenhka, se ela vier. Todos uns miseráveis! Aliás, renego Ivã, não o compreendo. Donde vem ele? Sua alma não é como a nossa. Conta com minha herança. Mas não deixarei testamento, fica sabendo. Quanto a Mítia, eu o esmagarei como a uma barata; faço-as rebentar à noite sob meu chinelo; teu Mítia rebentará da mesma maneira. Digo "teu" Mítia porque o amas. mas isto não me faz medo. Se fosse Ivã que o amasse, temeria por mim mesmo. Mas Ivã não ama ninguém, não é dos nossos, as pessoas como ele, meu caro, não são semelhantes a nós, são poeira... Se o vento sopra, essa poeira se levanta... Foi uma fantasia que se apoderou de mim ontem, quando te disse que viesses hoje; queria informar-me por meio de ti a respeito de Mítia; será que em troca de 1 000 ou 2 000 rublos aquele tratante, aquele bandido, consentiria em ir-se daqui por cinco anos, ou melhor, por 35 anos, e em renunciar a Grúchenhka? Hein? — Eu... eu lhe perguntarei — murmurou Aliócha. — Por 3 000 rublos, talvez ele...
— Não, senhor! Não é preciso perguntar nada agora! Mudei de ideia. Foi um capricho que me deu ontem. Não darei nada. nem 1 níquel, eu mesmo tenho necessidade de meu dinheiro. (O velho teve um gesto expressivo. ) De qualquer maneira, esmagá-lo ei como a uma barata. Não lhe digas nada, senão vai imaginar coisas. Mas tu mesmo nada tens a fazer em minha casa, vai-te. E sua noiva, Catarina Ivânovna, que sempre ocultou de mim tão cuidadosamente, casar-se-á com ela ou não? Estavas ontem em casa dela, certo? 
— Ela não quer abandoná-lo por preço nenhum.
— Eis os indivíduos a quem essas ternas senhoritas amam: farristas, malandros! Não valem nada essas pálidas criaturas. Que idéia! Pois bem, se tivesse a juventude dele e meu corpo de então (porque aos 28 anos era melhor do que ele), lograria o mesmo êxito. Canalha, sim!... Mas não terá Grúchenhka, não a terá... Eu o esmagarei... — tornou-se de novo colérico ao proferir estas últimas palavras. — Vai-te também, nada tens a fazer em minha casa hoje — disse, secamente.  

     Aliócha aproximou-se dele para despedir-se e beijou o no ombro.

— Por quê? — espantou-se o velho. — Nós nos tornaremos a ver, ou pensas que é a derradeira vez? 
— Absolutamente, foi por acaso...
— Eu também... digo isto por dizer... — declarou o velho, fitando- o. — Escuta, escuta — gritou ele às costas de Aliócha —, volta em breve, haverá uma sopa de peixe famosa, não como hoje. Vem amanhã, ouviste? 

     Assim que Aliócha saiu, voltou o velho ao armário e tomou meio copo. 

— Basta — murmurou ele, resfolegando.

     Tornou a fechar o armário, repôs a chave no bolso, depois, já sem forças, foi estender-se sobre seu leito, onde adormeceu imediatamente.
      continua na página 248...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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