sexta-feira, 26 de junho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (I. Na antecâmara)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO IIi
OS SENSUAIS
I
NA ANTECÂMARA
    
     A casa de Fiódor Pávlovitch Karamázov estava situada bastante longe do centro da cidade, mas não totalmente na periferia. Achava-se bastante deteriorada, mas tinha um exterior agradável; de um só andar, com um sótão, pintada de cinzento e de telhado vermelho de ferro. Aliás, podia durar ainda muito tempo, era espaçosa e confortável. Havia nela muitos corredores, recantos e escadas ocultas. Os ratos pululavam, mas Fiódor Pávlovitch não se inquietava muito com isto: "Com eles as noites não são tão enfadonhas, quando se fica só!" Tinha, com efeito, o hábito de mandar os criados passarem a noite no pavilhão e fechava-se ele mesmo na casa. Esse pavilhão, situado no pátio, era vasto e sólido. Fiódor Pávlovitch instalara ali a cozinha, embora houvesse uma na casa; não gostava dos odores de cozinha e traziam os pratos através do pátio, tanto no inverno quanto no verão. Essa casa fora construída para uma grande família e ter-se-ia podido nela alojar cinco vezes mais senhores e criados. Mas, por ocasião de nossa narrativa, o corpo principal só era habitado por Fiódor Pávlovitch e seu filho Ivã, e o pavilhão da criadagem, somente por três criados: o velho Gregório, sua mulher Marfa e o jovem criado Smierdiákov. Teremos de falar mais detalhadamente desses três personagens. Já se tratou do velho Gregório Vassílievitch Kutúzov. Era um homem firme e inflexível, indo a seu alvo com uma retitude obstinada, contanto que esse alvo se lhe oferecesse, em virtude de quaisquer razões (muitas vezes espantosamente ilógicas), como uma verdade infalível. Numa palavra, era honesto e incorruptível. Sua mulher, Marfa Tgnátievna, se bem que cegamente submetida toda a sua vida à vontade de seu marido, havia-o atormentado, logo depois da libertação dos servos, para deixar Fiódor Pávlovitch e ir estabelecer uma casinha de comércio em Moscou (tinham economias); mas então Gregório decidiu, duma vez por todas, que sua, mulher não tinha razão, todas as mulheres são sempre desleais. Não deviam deixar seu antigo senhor, qualquer que ele fosse, "porque era o dever deles agora". 

— Compreendes tu o que é o dever? — perguntou a Marfa Tgnátievna. 
— Compreendo-o, Gregório Vassílievitch, mas em que é dever nosso ficar aqui? Eis o que não compreendo absolutamente — respondeu com firmeza Marfa Ignátievna. 
— Que o compreendas ou não, será assim! Doravante, cala-te.  

     Foi o que aconteceu; ficaram, e Fiódor Pávlovitch lhes marcou modestos ordenados pagos regularmente. Mais ainda, sabia Gregório que exercia sobre seu patrão uma influência incontestável. Ele o sentia e era justo; palhaço astucioso e obstinado, Fiódor Pávlovitch, de caráter muito firme "em certas coisas da vida", segundo sua expressão, era, para seu próprio espanto, pusilânime em algumas outras "coisas da vida". Ele próprio sabia quais e experimentava bastantes temores. Em certos casos era preciso manter-se de sobreaviso, não se podia passar sem um homem seguro; ora, Gregório era de uma fidelidade a toda prova. Por várias vezes, no curso de sua carreira, Fiódor Pávlovitch correu o risco de ser batido, e até mesmo cruelmente, mas foi sempre Gregório que o tirou de apuros, sem deixar de repreendê-lo todas as vezes. Mas os golpes somente não teriam amedrontado Fiódor Pávlovitch; havia casos mais salientes, por vezes mesmo bastante delicados e complicados, em que ele próprio teria sido incapaz de definir a necessidade extraordinária de alguém seguro e íntimo que se apoderava bruscamente dele, sem que soubesse por quê. Eram quase casos patológicos: visceralmente corrompido e muitas vezes luxurioso até a crueldade, tal como um inseto malfazejo, Fiódor Pávlovitch, em minutos de embriaguez, sentia de súbito uma apreensão, uma comoção moral, que tinham um contragolpe quase físico sobre sua alma. "Parece então que minha alma palpita na minha garganta", dizia ele por vezes. Era naqueles momentos que gostava de ter a seu lado, no seu círculo imediato, um homem devotado, firme, não corrompido como ele e que, muito embora testemunha de seu mau procedimento e ao corrente de seus segredos, tolerasse tudo isso por devotamento, não se lhe opusesse e, sobretudo, não lhe fizesse censuras, não o ameaçasse com nenhum castigo, quer neste mundo, quer no outro, mas que o defendesse em caso de necessidade — contra quem? Contra algo desconhecido, mas temível e perigoso. Tratava-se de ter perto de si um outro homem, devotado de longa data, para chamá-lo, num minuto de angústia, somente a fim de contemplar seu rosto, trocar talvez algumas palavras, mesmo completamente estranhas: se o via de bom humor, sentia-se aliviado, ao passo que a tristeza aumentava, se estava ele irritado. Acontecia (bastante raramente, aliás) a Fiódor Pávlovitch ir de noite ao pavilhão acordar Gregório, para que esse fosse ficar um momento junto dele. Gregório chegava, seu patrão falava a respeito de insignificantes bagatelas e o despedia em breve, por vezes mesmo com pilhérias e brincadeiras, depois metia-se na cama e dormia então o sono de um justo. Algo de análogo se passara por ocasião da chegada de Aliócha. Aliócha "traspassava o coração" de Fiódor Pávlovitch, porque "ouvia, via tudo e não censurava nada". Mais ainda, trazia consigo algo de inaudito: a ausência completa de desprezo para com ele, velho; pelo contrário, uma afabilidade constante e um apego totalmente natural e sincero, quando ele o merecia tão pouco. Tudo isto tinha sido, para o velho debochado sem família, uma surpresa completa, totalmente inesperada para ele, que, até então, não havia amado senão a "sujeira". Com a partida de Aliócha, teve de confessar a si mesmo que compreendera alguma coisa que não quisera compreender até então.
     Já mencionei, no começo de minha narrativa, que Gregório detestava Adelaide Ivânovna, a primeira mulher de Fiódor Pávlovitch e a mãe de seu primeiro filho, Dimítri, e que, ao contrário, defendera a segunda esposa dele, a possessa Sofia Ivânovna, contra seu próprio patrão e contra aqueles que tivessem tido a ideia de pronunciar a seu respeito uma palavra malévola ou sem consideração. Sua simpatia por aquela infeliz tornara-se alguma coisa de sagrado, a ponto de, vinte anos depois, não suportar que ninguém fizesse uma alusão malévola a seu respeito sem imediatamente replicar ao ofensor. No seu aspecto exterior, era Gregório um homem frio e grave, pouco falador, proferindo palavras ponderadas, isentas de frivolidades, À primeira vista, não se podia adivinhar se amava ou não sua mulher, doce e submissa, não obstante a amasse verdadeiramente e ela o compreendesse sem dúvida. Essa Marfa Ignátievna, longe de ser estúpida, era talvez mais inteligente que seu. marido, em todo caso mais judiciosa nos negócios da vida; entretanto, era-lhe cegamente submissa, desde o começo de seu casamento, e respeitava-o sem contradição pela sua altitude moral. É preciso notar que trocavam muito poucas palavras, somente a propósito das coisas indispensáveis da vida corrente. O grave e majestoso Gregório meditava sempre sozinho seus negócios e suas preocupações, de sorte que Marfa Ignátievna compreendera desde muito tempo que não tinha ele de modo algum necessidade de seus conselhos. Sentia que seu marido apreciava seu silêncio e via nisso uma prova de espírito. Ele nunca lhe batera, salvo uma vez, e não seriamente. No primeiro ano do casamento de Adelaide Ivânovna e de Fiódor Pávlovitch, no campo, as moças e as mulheres da aldeia, então ainda servas, tinham-se reunido no pátio dos patrões para dançar e cantar. Entoou-se a canção "Sobre o prado, sobre o prado", e de súbito Marfa Ignátievna, que, então, era jovem, veio colocar-se diante do coro e executou a dança russa, não como as outras, à moda rústica, mas como a executava, quando era arrumadeira em casa dos ricos Miúsovi, no teatro da propriedade deles, onde um mestre de dança vindo de Moscou ensinava sua arte aos atores. Gregório vira os passos de sua mulher e, uma hora depois, de volta à isbá, deu-lhe uma lição, puxando-lhe um pouco os cabelos. Mas os golpes se limitaram a isto e não se renovaram uma vez sequer em toda a vida deles; de resto, Marfa Ignátievna prometeu a si mesma não mais dançar dali por diante.
     Deus não lhes havia dado filhos, exceto um que morreu. Via-se que Gregório gostava de crianças, não o ocultava, aliás, isto é, não se envergonhava de mostrá-lo. Quando Adelaide Ivânovna fugiu, recolheu Dimítri Fiódorovitch, de três anos de idade, e tomou cuidado dele quase um ano inteiro, penteando-o e dando-lhe banho na gamela. Mais tarde, ocupou-se também com Ivã Fiódorovitch e Alieksiéi, o que lhe valeu uma bofetada, mas já narrei tudo isto; seu próprio4 filho só o alegrou pela esperança da expectativa, quando Marfa Ignátievna estava grávida. Quando ele nasceu, foi tomado de pesar e de horror, porque aquele menino tinha seis dedos, vendo o que ficou Gregório tão acabrunhado que não somente guardou silêncio até o dia do batizado, mas foi expressamente calar-se no jardim. Estava-se na primavera; durante três dias, ficou cavando na horta. Tendo chegado a hora do batizado, já havia Gregório imaginado alguma coisa. Entrando na isbá, onde se haviam reunido o clero, os convidados e por fim Fiódor Pávlovitch, vindo na qualidade de padrinho, anunciou que "não se deveria de modo algum batizar o menino", isto em voz baixa, lacônicamente, mal articulando uma palavra após a outra, fixando o padre com um ar idiota. 

— Por que isto? — informou-se o padre com uma surpresa divertida.
— Porque é... um dragão... — murmurou Gregório. 
— Como um dragão, que dragão? Gregório calou-se algum tempo. 
— Produziu-se uma confusão da natureza... — murmurou ele duma maneira bastante confusa, mas muito firme, e via-se que não desejava estender-se em palavras. 

     Houve risos e, bem entendido, o pobre menino foi batizado. Gregório rezou com fervor perto das fontes batismais, mas persistiu na sua opinião a respeito do recém-nascido. De resto, não se opôs a nada; somente, durante as duas semanas em que viveu esse menino doentio quase não olhou para ele; não queria mesmo vê-lo e ausentava-se frequentemente da isbá. Mas, quando o bebê morreu de aftas ao fim de duas semanas, ele mesmo o pôs no caixão, contemplou-o com profunda angústia e, uma vez enchida de terra a pequena cova, pôs-se de joelhos e prosternou-se até o chão. Posteriormente, durante muitos anos, não falou jamais de seu filho; por seu lado Marfa Ignátievna jamais fazia alusão a ele em sua presença e, se lhe acontecia conversar com alguém a respeito de seu "filhinho", falava em voz baixa, muito embora Gregório Vassílievitch não estivesse presente. De acordo com a observação de Marfa lgnátievna, depois daquela morte interessou-se ele de preferência pelo "divino", leu as Vidas dos Santos, a maior parte das vezes sozinho e em silêncio, pondo de cada vez seus grandes óculos redondos de prata. Lia raramente em voz alta, quando muito durante a Quaresma. Gostava extremamente do Livro de Jó, arranjara uma coletânea das palavras e sermões de "nosso Santo Padre Isaac, o Sírio", que se obstinou em ler durante anos, quase sem nada compreender daquilo, mas por esta razão talvez apreciasse e amasse aquele livro acima de tudo. Nos últimos tempos, prestou ouvidos à doutrina dos khlisti, tendo tido a ocasião de aprofundá-la na vizinhança; ficou visivelmente abalado, mas não se decidiu a adotar a fé nova. Essas piedosas leituras tornavam naturalmente sua fisionomia ainda mais grave.
     Talvez fosse ele inclinado ao misticismo. Ora, como fato expresso, a vinda ao mundo e a morte de seu filho de seis dedos coincidiram com outro caso bastante estranho, inesperado e original, que deixou em sua alma, como o disse ele uma vez mais tarde, "uma marca". Na noite que se seguiu ao enterro do bebê, tendo Marfa lgnátievna despertado, creu ouvir o choro de um recém-nascido. Ficou amedrontada e acordou seu marido. Este, prestando ouvido, notou que eram antes gemidos, * "dir-se-iam de uma mulher". Levantou-se, vestiu-se; era uma noite de maio bastante quente. Saiu para o patamar e verificou que os gemidos vinham do jardim. Mas, de noite, o jardim era fechado a chave do lado do pátio, e não se podia nele entrar senão por ali, dando-lhe volta uma alta e sólida paliçada. Voltando para casa, Gregório acendeu a lanterna, pegou a chave e, sem prestar atenção ao pavor histérico de sua mulher, persuadida de que era o choro de seu filho que a chamava, entrou em silêncio no jardim; ali, deu-se conta de que os gemidos partiam de sua sala de banhos, situada não longe da entrada, e que era, com efeito, uma mulher que gemia. Tendo aberto o banheiro, viu um espetáculo diante do qual permaneceu estupefato; uma idiota da cidade, que vagava pelas ruas, conhecida de toda a gente pelo nome de Lisavieta Smierdiáchtchaia, tendo penetrado no banheiro deles, acabava de ali dar à luz. O menino jazia ao lado dela, que estava moribunda. Não dizia nada, pela simples razão de que não sabia falar. Mas tudo isto exige explicações.

continua na página 95...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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