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quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Poemança Africana: Poesia de Combate (Moçambique) - 39a

Poemança Africana - 39a


língua portuguesa


Poetas moçambicanos, militantes da FRELIMO, como os demais engajado na luta armada de libertação nacional.



Atumbwidao


É NOSSO DEVER

É nosso dever recordar
Que temos direito à Liberdade
Como a têm os Povos longínquos
Assim como os da nossa vigilância

A natureza não destinou aos Moçambicanos . 
Permanecerem colonizados sem nenhum direito
A natureza não modificará as condições de vida
Sem o nosso esforço para tal

Os nossas bravos antepassados
Combateram a invasão colonialista
Em vários pontos do País
Dos extremos Sul ao Norte

Os nossos antepassados servem de exemplo
Nós vamos aprender com eles
Rejeitando as nossas concepções velhas
Concebendo espírito de patriota.



Damião Cosme



O GUERRILHEIRO

Ai vem ele todo armado e feroz
Aí vem o homem que Liberdade traz

Todo roto e sujo, mas com coração de ferro
O Guerrilheiro sorri e canta.

Ele não tem casa,

Mas ele,: «Eu trago Liberdade e Paz
Com esta arma na minha mão
Eu expulsei Salazar e a sua tropa”.

Eis uma manhã linda e suave
O Guerrilheiro levanta-se
O orvalho serve de água

As aves espantadas perguntam:
“Por que sofres tu assim, rapaz?”
O Guerrilheiro, sorri e canta
“Liberdade para todos eu trago”.



O GUERRILHEIRO EM MARCHA

Eu bem contente estou
Pois sou militante
Cheio de alegria estou
Porque sei o que via e mal sabia

Sou guerrilheiro
Vim do Povo
Não pelo estrangeiro
Sim, sempre pelo Povo

Missão gloriosa tenho
Longa história escrevo
Angústia durante a marcha não tenho
Porque um acto sagrado levo

Cinco séculos passaram
Muitos camaradas tombaram,
Resistiram até que as forças
Se lhes esgotaram

Pela fadiga não se renderam
«Antes morrer que viver na escravidão».



A. Rufino Tembe


IRMÃOS DE QUE ESPERAM

Irmãos! De que esperam?
Estão sempre passando dias . . .
E o português jamais se transformará,
Deveis lutar pela liberdade de Moçambique!

Irmãos! termina o dia...
A primeira estrela resplandece
Procurem o vosso caminho de liberdade,
Dirigi-vos por onde estão os outros.

Dirigi-vos por onde estão os outros...
Pegar na arma contra Salazar . . .
E só assim poderão amanhã,
Ver os vossos pais livres da opressão.

Para que os vossos pais . . .
Querendo dizer, o Povo,
Do qual viestes e para o qual voltareis
Pague-vos em alegria o que sofrestes por ele.

Lutai, que o inimigo está no vosso leito,
Preparando para dormir contente.
Dormireis tranquilamente
Se expulsardes o vagabundo Salazar.
Sofrestes desde há séculos
Com nenhum dia vazio,
Trabalhastes e ganhastes nada,
Fostes oprimidos dentro do vosso País.



Jackson


MOÇAMBIQUE CHOROU E CHORA

Moçambique chorou e chora
Boa que é, massacrada sem razão.
Não dando por isso os seus filhos,
Moçambique chorou e chora.

Chorou e chora Moçambique
Pelas riquezas que lhe usurpam
Sem os filhos as utilizarem,
Moçambique chorou e chora.

Moçambique chorou e chora
Os filhos ouviram e perguntaram
De que chora nossa mãe?
Moçambique chorando explicou

«Chorei e choro das riquezas
Que os colonos me arrancam
Que muito me serviria

Para vocês todos meus filhos.»

Os filhos de Moçambique decidiram
Afastar os ladrões que levam
As riquezas da sua mãe
Que a eles muito bem pertencem.

Agora Moçambique chora de alegria
Pelo trabalho dos seus filhos
Que é para ela para sempre

Ficar livre dos ladrões.



Mahasule


A LUTA ARMADA

Sangue Moçambicano se derrama
E vidas de combatentes se perdem
Sangue Moçambicano estruma a terra
Novas gerações Revolucionárias nascem

Qual o motivo da perda deste sangue?
E da opressão e massacre deste Povo forte?

Este sangue é perdido pela justeza
Massacrado e oprimido este Povo é
Por de Moçambique quererem sugar toda a riqueza.



Alfredo Manuel


VENCEREMOS

O Sol rompeu
O homem se levanta
Para ver o que se passa em sua volta

Pega a enxada para a machamba
Os produtos são-lhe roubados
Pega o anzol para a pesca
Os produtos são-lhe roubados
Por fim a ele é exigido o imposto e oprimido

Todo pensativo
Finalmente o homem descobre
De que vive preso
Ligado com fios chamados colonialismo

Decidido pôs-se a lutar energicamente
Para se libertar das garras
Para lançar fora essas garras
Que lhe prendem as mãos, pés e consciência
Esses piolhos que só vivem à custa do sangue
dos outros

O homem, firme, decidido, avança e diz:
Sairão, sairão, caso contrário
A luta não acaba até que morra.



MOÇAMBIQUE DIZ

De mim saíste, p'ra mim virás.
O teu ser, dependeu de mim,
A formação do teu corpo
Dependeu das minhas riquezas.

Alimento que te dei desde a tua infância
Até aos dias da tua-adolescência
Saiu do meu solo.

O sangue que te corre nas veias
São as águas dos rios que correm em mim
Elas são as minhas veias.

O teu pensar, é o meu desejo;
O teu combate é a minha alegria
É a minha futura Liberdade.

Para que eu seja livre, é preciso que te levantes
E derrames o teu sangue heroico, dia após dia.
Sê conforme as circunstâncias
Pois a riqueza depende do futuro.

Para que eu venha a ficar alegre
É preciso que tu não vaciles.
O meu existir é somente para ti,
Meu filho.

Não tem lugar em mim,
Só se te portares bem, eu em ti, vice-versa.




______________________


POESIA DE COMBATE – 2ª. edição. [Maputo]: Departamento de Trabalho Ideológico do Partido – FRELIMO, 1979. 39 p. ilus. 14,5 x 21 cm. 10 000 exs.
Ex. bibl. Antonio Miranda. Doação do livreiro Jose Jorge Leite de Brito.


quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Poemança Africana: Hélder Proença (Guiné-Bissau)

Poemança Africana - 38


língua portuguesa


escritor, professor e político da Guiné-Bissau



a experiência brasileira de Hélder Proença:

"Os ventos, os montes, a dureza da vida, o movimento precipitado de tudo, até das horas, a intranquilidade brutal da chuva fria que cai sobre estas calçadas torturadas e infestadas de cadáveres, os sertões que gritam os Índios - raízes desta terra vermelha -, o Amazonas e todo o nordeste ameaçado, agora fazem parte de mim; e as minhas palavras já não são mais do que a voz asfixiada do asmático que golpeia o ar e profana a morte procurando viver mais um dia, para cheirar as flores e beijar a liberdade." (PROENÇA, 1987, p. 399-400).




NÃO POSSO ADIAR A PALAVRA

Quando te propus
um amanhecer diferente
a terra ainda fervia em lavas
e os homens ainda eram bestas ferozes

Quando te propus
a conquista do futuro
vazias eram as mios
negras como breu o silêncio da resposta

Quando te propus
o acumular de forças
o sangue nómada e igual
coagulava em todos os cárceres
em toda a terra
e em todos os homens

Quando te propus
um amanhecer diferente, amor
a eternidade voraz das nossas dores
era igual a "Deus Pai todo-poderoso criador dos céus
e da terra"

Quando te propus
olhos secos, pés na terra, e convicção firme
surdos eram os céus e a terra
receptivos as balas e punhais
as amaldiçoavam cada existência nossa

Quando te propus
abraçar a história, amor
tantas foram as esperanças comidas
insondável a fé forjada
no extenso breu de canto e morte

Foi assim que te propus
no circuito de lágrimas e fogo. Povo meu
o hastear eterno do nosso sangue
para um amanhecer diferente!




NÓS SOMOS

Nós somos
aqueles que dia e noite
fazem com suas mãos
os alicerces da vida.

Nós somos
lágrimas, suor e sangue
que desafiando mortes e séculos...
fundiram esperanças e fé!

Nós somos, irmãos
o florir, a madrugada
e o verde selvagem dos maquis
que em noites sombrias
trazem a canção da vida.

Nós somos
dança, música e ritmo
que em anos 40
sobreviveram a tempestade da fome.

Nós somos irmãos
terra, chuva e arado
que alimentam vidas
e alicerçam o homem!

Nós somos
o tantã da verdade
em místicas noites do fanado*
nós somos irmãos
a certeza e o porvir!


*fanado = cerimônia de iniciação pela qual todos jovens da Guiné têm que passar.




NAS NOITES DE N'DJIMPOL

Nas noites de N’djimpol
vi a virtude dos homens sem amanhã...
légua a légua
conquistando o caudal do futuro.

Vi-os nas ondas tenebrosas
enfrentando e conquistando!

Vi braços robustos e livres
sonho campos loiros
espigas dardejando ao sabor do vento
brisas e pássaros cantando
sol e flautas beijando o suor fecundante.

Nas noites de N’djimpol
Vi a virtude dos homens sem amanhã...
légua a légua
conquistando o caudal do futuro...

Vi-os nas ondas tenebrosas
enfrentando e conquistando

Sim,
Vi nas noites de N’djimpol
sonho mamãe terra
sonho compassos rítmicos no capinzal
dilatando a fé do homem-terra
o horizonte e o brilho das nossas mãos.

Oiço o grito das brisas loiras...
na imensidão farta dos campos
sim mamãe terra
firmemente sonho
na certeza gritante
de sermos loiros e fortes

como espigas e o sol

fortes e loiros…
Mamãe terra
Sonho mas juramos-te!




CANTO A SUNDIATA*

Esta é a noite
do perfume
sorriso
brotando
E digo-te
canta flor
mas fita sério!
Este luar-guitarra
é longo e suave
e jovem e sorridente
solfeja e dedilha
refina ancas
emacia o beijo e a ternura
E também
amo
neste tom guitarra
do luar, Sundiata
E digo-te
canta flor
mas fita bem!
Neste luar prata
se atiçam sensibilidades
esqueço-me
e afirmo-me
Como fumos sorridentes
e prateados
em longas andanças
E digo-te
canta flor
mas fita bem!
Esta é a noite
do perfume sorriso
brotando

Os olhos de ver
morrem na doçura prateada do horizonte
Enamoro a cruel dureza das rochas
Caso-me com o cristal mais negro
e triste do debaixo da 1ª terra

E também
sonho
neste tom guitarra do luar, Sundiata

Neste luar prata
perfilo-me entre os lábios
mais usados
Hasteio como estandarte
o sexo de todos os Deuses,
enfim, e da virgem santíssima, também!

E digo-te
canta flor
mas fita sério
Também
agonizo neste tom guitarra do luar, Sundiata
E digo, Amem!
E digo-te — Sundiata:
«abô i fidjo di miséria
ca bu tchora bu sufrimentu»
Porque há sono de dormir
ainda
no solfejo cristalino
de cada nuance pequeno-burguês
se assim é...
em cada coisa, em tudo ou
em cada coisa?!
e digo, que assim seja, Sundiata!

Desenhando
este silêncio interno
esta música permanente
este retrato multifacético do luar e da agonia

Digo-te
não posso adiar a palavra, Sundiata
se pequei contra ti
e porque no
Amem
e Aleluia subescrevendo
Agora?!
E digo-te, Sundiata
canta flor
mas fita bem
Porque
esta é a noite
do perfume
sorriso
brotando.



* Sundiata: Sundiata Keita era o Imperador do Mali, nascido em 1190 em Niani (Reino Mandinga, atual Guiné) e faleceu em 1255. Filho de Naré Maghann Konaté (também conhecido Maghan Kon Fatta ou Maghan Keita) e Sogolon Djata (a mulher búfalo). O épico de Sundjata é contado pelos griots, através da tradição oral. A lenda conta a história de Sundiata um pouco diferente do que realmente aconteceu, era mágica, magia e várias outras coisas. A história verdadeira foi realmente apenas uma guerra que ele venceu e virou rei.




MÃE

Será que feri o teu coração materno?
porque as lágrimas não cesam de te
correr pela face?

Mãe deixa a noite com a sua tristeza,
deixa as aves cantarem livremente
deixa a lua minguante sorrir na plena noite da trevas

Mãe encara a madrugada e o sol nascente,
vê as flore desabrocharem no canteiro livre da nossa terra.
Mamã, se as aves não fossem ingratas dir-te-iam

Onde estou, mas talves os ventos te digam
que aqui estou neste maravilhoso paraiso
onde importa: liberdade, o trabalho e a felicidade!

Mamã, parti, parti buscando uma luz.
lua para a qual o sol é trevas.
A Lua da Liberdde




ESCREVEREI MAIS UM POEMA

viverei mais um dia
e escreverei mais um poema
poema que quebra as correntes
e faz ceder as montanhas!
Escreverei mais um poema
enquanto as minhas células morrem e vivem em mim

poema que desata as âncoras
e solta os navios

Escreverei mais um poema
poema que alimenta a vitalidade
ritmado pelo encadeamento do processo transformador.

Enquanto a minha decomposição
do superior ao inferior não se realizar
escreverei um poema que todas as crianças compreenderão

Enquanto há braços misticamente estendidos
sobre a fortaleza da resignação
escreverei um poema

Poema que será a arma dos oprimidos!
poema que se confunde com os anseios do povos
O MEU POEMA SERÁ A VOZ DO POVO

Enquanto a opressão perturba o cérebro humano
escreverei um poema - VITALIZDO PELA REVOLUÇÃO -
poema que alimenta as condições
para a transformação de velho em novo!
Mas se não conseguir viver mais um dia
se a minha decomposição vier a se realizar
A REVOLUÇÃO FA-LO-Á POR MIM!




O MEU POEMA DEIXARÁ DE SER
UM SIMPLES POEMA

lá onde a minha pátria chora
o meu poema fincará os pés- mesmo rijo-
sobre a terra firme!
e deixará de ser poema
e enxugará todas as lágrimas
e transformar-se-á numa labareda
iluminando os caminhos espinhosos.

Lá onde a agonia ferve
o meu poema cavalgará pelos atalhos da morte,
e transformar-se-á numa barreira contra a morte

descobrindo estrelas nas matas
semeando verdura em todas as negras nuvens.

Quando as noites se profanam
quando há turbilhão de sangue
quando sufoca o crescimento do nosso arroz
o meu primeiro poema se juntará a todos os outros poemas
proliferando transformando-se em orik
engravidando de sangue o amarelo da nossa colheita.
Ak então todos os meus poemas deixarão de ser simples poemas

sairão em noites de luar
e bailarão n’aiê incarnados em n’aiê
transmitindo força e vitalidade
porque o povo jamais dormiu no silêncio



Quando te propus





_____________________


Hélder Magno Proença Mendes Tavares (1956 - Bissau, 5 de junho de 2009), foi um escritor, professor e político da Guiné-Bissau, havendo lutado na guerra de independência do país, na década de 1970.

Desde a adolescência que Proença escrevia poemas, àquele tempo sob a temática anti-colonialista, que resultou na publicação, em 1977, da primeira antologia poética guineense, sob sua coordenação, entre outros, e que também prefaciou, intitulada "Mantenhamos Para Quem Luta!".

Não concluiu os estudos, havendo participado das lutas pela independência do país. Mais tarde, completou a formação no Rio de Janeiro, integrando os quadros do Ministério da Cultura de seu país, e principiando o magistério em História. Havia, antes, sido o responsável pela educação de Bolama.

Na política foi deputado na Assembleia Nacional Popular e membro do Comité Central do PAIGC (Partido único, de orientação marxista, que governou o país da independência em 1974 até a democratização nos anos 1990).

Ocupou, ainda, o cargo de Ministro da Defesa.

Como escritor publicou em vários periódicos, como Raízes (de Cabo-Verde), África (Portugal), e os panfletários Libertação e O Militante, ligados ao PAIGC. Em 1982 publicou o livro "Não posso adiar a palavra", que reuniu seus versos dos tempos de guerrilha.

Em junho de 2009 Hélder foi assassinado numa emboscada militar quando viajava do Senegal, onde residia, para Bissau. O motivo do assassinato está centrado numa presumível responsabilidade pela articulação de um golpe de Estado. A morte de Hélder Proença foi anunciada após o assassinato de Baciro Dabó (ministro da Administração Territorial), candidato às presidenciais, em 28 de junho (2009) e antigo aliado do ex-presidente Nino Vieira, assassinado em março do mesmo ano. Proença foi morto, juntamente com seus seguranças e motorista, após uma troca de tiros com uma força do governo que o prenderia. Outras versões são apontadas, o que revela uma complicada trama pelo poder neste pequeno país da África ocidental e também a multiplicidade de narrativas que se pode articular em torno de fatos históricos e políticos.


terça-feira, 5 de julho de 2022

Poemança Africana: António Nunes (Cabo Verde)

Poemança Africana - 37


língua portuguesa


o poeta do quotidiano



o “Poema de amanhã", é uma esperança-certeza, uma antevisão dum futuro melhor – a independência de Cabo Verde


Mamãi!
sonho que, um dia,
em vez dos campos sem nada,
do êxodo das gentes nos anos de estiagem
deixando terras, deixando enxadas, deixando tudo,
das casas de pedra solta fumegando do alto,
dos meninos espantalhos atirando fundas,
das lágrimas vertidas por aqueles que partem
e dos sonhos, aflorando, quando um barco passa,
dos gritos e maldições, dos ódios e vinganças,
dos braços musculados que se quedam inertes,
dos que estendem as mãos,
dos que olham sem esperança o dia que há-de vir

– Mamãi!
sonho que, um dia,
estas leiras de terra que se estendem,
quer sejam Mato Engenho, Dacabalaio ou Santana,
filhas do nosso esforço, frutos do nosso suor,
serão nossas.

E, então,
o barulho das máquinas cortando,
águas correndo por levadas enormes,
plantas a apontar,
trapiches pilando
cheiro de melaço estonteando, quente,
revigorando os sonhos e remoçando as ânsias
novas seivas brotarão da terra dura e seca,
vivificando os sonhos, vivificando as ânsias, vivificando a Vida!...





Ritmo de pilão

Bate, pilão, bate,
que o teu som é o mesmo
desde o tempo dos navios negreiros,
de morgados,
das casas-grandes,
e meninos ouvindo a negra escrava
contando histórias de florestas, de bichos, de encanta-
[das...

Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
e a casa-grande perdeu-se,
o branco deu aos negros cartas de alforria
mas eles ficaram presos a terra por raízes de suor...

Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
desde o tempo antigo
dos navios negreiros...

(Ai os sonhos perdidos lá longe!
Ai o grito saído do fundo de nos todos
ecoando nos vales e nos montes,
transpondo tudo...
Grito que nos ficou de traços de chicote,
da luta dia a dia,
e que em canções se reflecte, tristes...)

Bate, pilão, bate

que o teu som é o mesmo
e em nosso músculo está
nossa vida de hoje
feita de revoltas!

Bate, pilão, bate!...





Poema de longe

Acendo um cigarro
e ponho-me a olhar
as casas que se elevam pela encosta…

Longe,

o Sol morre numa lagoa de sangue…

Entristeço-me.

Meus sonhos tornaram-se em nada,
minhas ambições nunca passaram de planos,
meus enlevos de amor nunca passaram de ânsias.





Terra

Nha Chica, conte-me
aquela história
de meus irmãos
hoje perdidos
no mundo grande…

Nha Chica, eu sei:
anos de seca,
gentes morrendo,
casas sem telhas,
de porta em porta
olhos crescendo
barriga inchando,
um dia tombam
de olhos vidrados
por qualquer canto…

Lisboa, América,
Dakar ou Rio:
— dentro de nós
surge esta ideia
partir! partir!

Resignados,
os que ficaram
ficam esperando
que as nuvens toldem
que a chuva caia
que o chão fecunde
cobrindo os montes
cobrindo as várzeas…

Ah, anos fartos!
Milho, feijão,
pilão cohindo,
fumo no ar,
riso nos lábios,
grog, cigarros,
batuques, bailes
e casamentos…

Olho estes campos,
olho estes mares,
e sinto a Vida
prendida à terra,
feita de sonhos
que um dia esvaem-se
— mas surgem sempre…






Literatura Cabo-verdiana







___________________


António Nunes nasceu na cidade da Praia, capital da ilha de Santiago, Cabo Verde, a 9.12.1917 (e faleceu em Lisboa, a 14.5.1951, vítima de uma menigo-encefalite). Fixou-se em Lisboa, por volta de 1940, e nesta cidade conviveu assiduamente com o grupo neo-realista de que fazia parte o seu patrício Teixeira de Sousa, Manuel da Fonseca e Francisco José Tenreiro.
A sua estreia literária faz-se, em Cabo Verde, primeiro na imprensa, depois com o livro de poemas Devaneios, publicado em 1939, ao sabor ainda da estética anterior à Claridade. É aqui, em Lisboa, ao contacto com a nova geração neo-realista, que António Nunes se liberta dos cânones poéticos anteriores e envereda pela construção de um discurso poético social e autenticamente caboverdiano.
Estava-se no fim da Segunda Guerra Mundial e vivia-se em Cabo Verde a grande crise que viria a dar origem às fomes de 1943 e de 1947. De Lisboa, António Nunes integra a geração da Certeza, com o “Poema de Amanhã”, publicado no número 2 da folha dessa academia (Junho de 1944), considerado por Manuel Ferreira (1975) como “o ideário colectivo do grupo”.
Na sua fase ainda romântica António Nunes publicou o livro de poemas Devaneios (1938), que seriam, de facto, meros devaneios ou exercícios poéticos. Na fase posterior, de orientação neo-realista, publicou Poemas de Longe (1945).
Pedro da Silveira, poeta açoriano e estudioso da literatura cabo-verdiana, coadjuvado por Francisco José Tenreiro, pensou ainda em reunir todos os poemas de António Nunes da fase modernista. Poemas seria o título do livro e teria a seguinte organização: “iniciação”, com os poemas correspondentes a 1940-1942; “Poemas de Longe”, os aparecidos em caderno impresso sob esta designação; “Versos de Lisboa”, três poemas alheios à cabo-verdianidade; e “Outros Poemas”, contemporâneos ou posteriores ao Poemas de Longe. Contudo, por razões várias, o projecto não se concretizou.


segunda-feira, 16 de maio de 2022

Poemança Africana: Álvaro Macieira (Angola)

Poemança Africana - 36


língua portuguesa



Nunca saí de lá,
onde nós temos o nosso cordão umbilical
é como raiz que coexiste com a planta
eu sou a planta e minha raiz tá lá
portanto, vagueio pelo mundo
mas estou sempre ligado a minha terra natal




Poema para as próximas gerações

(Homenagem a poeta Alda do Espírito Santo)



Viste a Torre de Belém,
Além                       antes de nós

Atravessaste o Portal sul da igreja dos Jerónimos
Por nós                              antes de nós

Viste a Arte Românica e compreendeste a Gótica:
Monumentos, esculturas e pinturas
e literatura       Por nós       antes de nós

Viste o poder cego de uns quantos contra nós
Que somos tantos                 antes de nós

E nós contigo na mesma luta contra a opressão
uma multidão perene e translúcida no tempo colono
Por nós                              antes de nós

Deste-nos amor e dignidade humana
Travessias e memórias palpáveis sonhos certezas
na Casa dos estudantes do império da nossa Lisboa.
E abalaste o próprio império nas suas entranhas
Com tuas palavras e poesia sabor de mel do suor das roças de cacau 
do café e cheiro a chão molhado.
Por nós                                  antes de nós

E nos músculos Angolares da tua inigualável e imensa força telúrica, chuva torrencial
Disseste
Não à exploração de homens por homens entre homens
Por nós                                                  antes de nós

Porque sabias que o mundo cruzava-se em ti mesma
forte vento equatorial, pilar de todos os edifícios
Hemisférios da tua sapiência amadurecida em S. Tomé e Príncipe o mundo: 
húmus da terra verde tão amada.
E pedaços de liberdade por reconstituir     Por nós
antes de nós. Nossa Musa para sempre.





Vozes mudas do prazer


Tanto medo
De te entregares
nua e pura.

Tanto medo de sustentarmos
Desejos
Mudos e cristalinos.

Temos medo de nós.
Dos olhares perplexos dos outros
A questionar nossa sorte.

Tanto desejo.

E porque não aceitar
(sem complexos de culpa)
A ereção de meu corpo.

O gingar violento de tuas ancas
Ritmadas
No orgasmo
In (contido)
De meu peito
Em teus seios.





Séculos de amor


Aquele dia
Queria que fosse alegre
Como o canto das cigarras
ao sol.

Escutar a suave melodia
de teus impulsos , tuas palavras
Doces, doces como teus abraços.

Estacionou em cada esquina
Na cidade.
Toda a mocidade para esperar
Envelheci com a própria noite
Buzinas tocaram alarmadas
Meu corpo caiu na escuridão
Da saudade.

Esta minha sorte, meu caminho
Quanto desejo me inspiras.

Sou rochedo
Aguardando séculos de amor
Mesmo que minhas propostas
Não tenham as respostas
desejadas. Tu desejas?






FAIR PLAY com pintor e escritor Álvaro Macieira







Álvaro Macieira expõe "África Yetu-Ngassakidila"





_____________

Álvaro Macieira, jornalista, escritor, artista plástico, consultor cultural, nasceu a 13/5/ 1958 em Sanza-Pombo, (Pombo, Província do Uíge, Angola). Serviu às Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FPLA). Editou Cultura na Agência Angola Press. Começou no Jornal de Angola e no Correio da Semana. Colaborou para a Rádio Nacional de Angola, TPA – TV Pública e Tribuna Cultural da BBC de Londres. Foi assessor de Imprensa e Porta-voz em 1996 do Primeiro-ministro de Angola, Marcolino Moco. Membro da União dos Escritores Angolanos, publicou: Castro Soromenho: Cinco Depoimentos (1988),Cantos de Amor (1992), Séculos de Amor (2005, poesia) e Uanga ua Ngola – Subsídios para uma Biografia do escritor Órcar Ribas (no prelo). Preside o Conselho Fiscal da União dos Escritores Angolanos. Membro da União Nacional dos Artistas Plásticos. É um dos fundadores e ex-presidente da Associação dos Jornalistas Culturais de Angola. É membro honorário da Associação dos Jornalistas Económicos de Angola e um dos Vogais de Direção do Progresso Associação do Sambizanga, a única equipa de Futebol angolana que jogou no estádio do Maracaná (1980), Rio de Janeiro, Brasil. É Presidente da Mesa da Assembleia-geral da Associação dos Naturais e Amigos do Município de Sanza-Pombo. Foi Consultor na sede da CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em Lisboa. Prêmio de Pintura EnsArte (2000). Em 2002 conquistou o Primeiro Prêmio de Pintura EnsArte, o maior das artes plásticas. Em 2002 recebeu o prêmio Melhor Pintor do Ano pela Revista Tropical e pela Televisão Pública de Angola. Fez 25 exposições individuais e participou em mais de 20 coletivas. Suas obras pictóricas estiveram em cidades como Paris, Abuja, Moscou, Washington, Berlim, Bona, Bremen e Hannover.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Poemança Africana: Tomaz Medeiros (São Tomé e Príncipe)

Poemança Africana - 35


língua portuguesa


Na sexta-feira de Paixão
sairei à rua
vestido de branco — de luto
o ritmo do meu tambor silenciado,
os fios do meu cabelo embranquecidos,
meu coito denunciado e o esperma esterilizado,
meus filhos de fome engravidados,
minha ânsia e meu querer amordaçados,
minhas estátuas de heróis dinamitadas
agora?
Tu não conheces a ilha mestiça,
dos filhos sem pais
que as negras da ilha passeiam na rua?





O Novo Canto da Mãe


Mãe:
Nós somos os teus filhos
Que sem vergonha
Quebraram as fronteiras do silêncio.
Os filhos sem manhãs
Que rasgaram as noites que cobriam
As carnes das tuas carnes.

Nós somos, Mãezinha,
os teus filhos,
Os pés descalços,
Esfomeados,
Os meninos das roças,
Do cais,
Os capitães d’areia,
Os meninos negros à margem da vida,
Que desperdiçaram o destino do teu ventre,
Que endireitaram os instantes
Que marcaram socalcos na terra firme,
Na profundidade das trevas da tua vida.
Nós somos, Mãezinha, os teus filhos,
Sexos que germinaram vida,

Forças que desfloraram a virgindade dos dogmas,
Fecundaram minérios de esperança,
Olhos, dinamites de amor,
Mãos que esfacelaram a espessura dos obós,
E em cujo silêncio verde
Germina a Certeza:

Mãezinha:
Nós somos os teus filhos.





POEMA


Na sexta-feira de Paixão
sairei à rua
vestido de branco — de luto.

Sairei à rua
com as minhas fantasias todas
com as minhas charruas todas
telefones
telefonias
buiques e cadilaques
colheres de alpaca
candeeiros de gás
máquinas de lavar roupa
aquecedores
e todo o meu progresso
suspenso
no fato que eu trago
pintado de branco.

Sairei à rua
e não tirarei os olhos da terra
nem rezarei orações preguiçosas.

Sairei à rua
om os meus sorrisos maduros
com todos os meus santos vencidos
para me rir às gargalhadas
do Deus morto, crucificado.

Na sexta-feira de Paixão
sairei à rua
vestido de branco — de luto.

Deixarei em casa
a minha família inteira
com os meus filósofos bantus
com os meus guerreiros balubas
cantando canções iorubas.

Deixarei as minhas forcas em casa
e não sairei à rua
mesmo que o sol me convide
se não for sexta-feira de Paixão





MEU CANTO EUROPA


Agora,
agora que todos os contactos estão feitos,
as linhas dos telefones sintonizadas,
as linhas dos morses ensurdecidas,
os mares dos barcos violados,
os lábios dos risos esfrangalhados,
os filhos incógnitos germinados,
os frutos do solo encarcerados,
os músculos definhados
e o símbolo da escravidão determinado.

Agora,
agora que todos os contactos estão feitos,
com a coreografia do meu sangue coagulada,
o ritmo do meu tambor silenciado,
os fios do meu cabelo embranquecidos,
meu coito denunciado e o esperma esterilizado,
meus filhos de fome engravidados,
minha ânsia e meu querer amordaçados,
minhas estátuas de heróis dinamitadas,
meu grito de paz com os chicotes abafado,
meus passos guiados como passos de besta,
e o raciocínio embotado e manietados,

Agora,
agora que me estampaste no rosto
os primores da tua civilização,
eu te pergunto, Europa,
eu te pergunto: AGORA?





UM SOCOPÉ PARA NICOLÁS GUILLÉN


Conheces tu
Nicolás Guillén
a ilha do nome santo?

Não? Tu não a conheces?
A ilha dos cafezais floridos
e dos cacaueiros balançando
como mamas de uma mulher virgem?

Bembon, Nicolás Guillén
Nicolás Guillén, bembom.

Tu não conheces a ilha mestiça,
dos filhos sem pais
que as negras da ilha passeiam na rua?

Tu não conheces a ilha-riqueza
onde a miséria caminha
nos passos da gente?

Bembon, Nicolás Guillén
Nicolás Guillén, bembom.

Oh! vem ver a minha ilha,
vem ver cá de cima,
da nossa Sierra Maestra.
Vem ver com a vontade toda,
na cova da mão cheia.

Aqui não há ianques, Nicolás Guillén,
nem os ritmos sangrentos dos teus canaviais.

Aqui ninguém fala de yes,
nem fuma charuto ou
tabaco estrangeiro.

(Qu'importa, Nicolás Guillén,
Nicolás Guillén, qu'importa?)

Conoces tu
La islã dei Golfo?

Bembom, bembom,
Nicolás, bembom.





Tomás Medeiros: Meu Canto Europa 
|Poesia São Tome e Príncipe 
|Recitar Poema Africano |Poeta Lusófono







Tomás Medeiros 
– Poeta e Médico Cego, já não volta a S. Tomé 
E tão perto do coração!






_________________________

Em Antônio Alves Tomaz Medeiros: (São Tomé, 5 de Novembro de 1931) vamos encontrar uma Poesia vinculada à sedimentação de uma consciência anticolonialista, que, mais do que a fala de cada poeta, ela se consubstancia na voz coletiva do são-tomense. Tomaz Medeiros foi dirigente da Casa dos Estudantes do Império onde foi diretor da revista Mensagem. Foi co-fundador do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e do Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe, (MLSTP). Lutou pela independência dos países de expressão portuguesa.



quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Poemança Africana: Amadeu Kazunde (Moçambique)

Poemança Africana - 34


língua portuguesa


Entre o calor das tuas pernas
com milhões de riachos prateados
em que me deliciarei diluído
nas cavernas negras e alagadas
sobre os recantos mais profundos
regressarei flácido mas
ressuscitado





Entre o calor das tuas pernas

Entre o calor das tuas pernas
sobressai firme e vigorosa
numa atitude de lascúdia
a rosa dos meus desejos.
E vejo em cada curva das tuas pétalas
milhões de gestos provocantes
que me inundam o corpo
com milhões de riachos prateados
Entre o calor das tuas pernas
desabrocha muda e esperançosa
a rosa dos meus desejos.
Por ela vivo uma ânsia profunda
de ver chegar o dia
em que me deliciarei diluído
no seu aroma inebriante.
E nesse dia,
milhões de forças gritantes
percorrerão o meu sangue
e galgarei sobre a montanha sagrada
abrindo trilhos por entre o mar de flores
penetrarei embriagado
nas cavernas negras e alagadas
de paredes desejosas
e descarregarei
todo o meu furor bastante
sobre os recantos mais profundos
dos subterrâneos conquistados
do jardim afrodisíaco
E então
regressarei flácido mas
ressuscitado
e sobre a montanha sagrada
dormirei um sonho profundo.


sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Poemança Africana: Carlos Schwartz (Guiné-Bissau)

  Poemança Africana - 33


língua portuguesa




Do Que Chora a Criança
(versão portuguesa)


Do que chora a criança?
É dor no seu corpo
Do que chora a criança?
É sangue que cansou de ver

Um pássaro grande chegou
Com ovos de fogo
0 pássaro grande veio
Com os ovos da morte

Caçadores desconhecidos
Enganados metralharam a tabanca
Caçadores, pretos como nós
Enganados metralharam a bolanha

Queimou-se o mato
Queimaram-se as casas
Perdurou a dor na nossa alma






Antes de Partir


Antes de partir
Encherei os meus olhos, a minha memória
Do verde (verde, verde!) do meu País
Para que quando tomado pela saudade
Verde seja a esperança
Do regresso breve
Antes de partir
Encherei os meus ouvidos, a minha memória
Do palpitar que esmorece, enquanto a noite
Cresce sobre a cidade e no campo
Feito o silêncio dos homens e dos rádis...






Canta Camarada


Canta camarada
Deixa que o teu sonho verdade
Flua límpido nos anseios da tua voz quente
Pois este é o teu dever, o teu direito.

Canta camarada
Que a recordação da tua dor
Seja como a terra revolvida
Em cada época, para a sementeira.

Canta camarada
Apenas alguns nomes, para que seja exaltado o anónimo
Apenas os mortos, porque os vivos
Ainda podem desmerecer da nossa gratidão.

Canta camarada
Pois é a única benesse
Que te reservaste na oferta da tua juventude
Em Holocausto no altar da revolução.






Na Kolonia 
· José Carlos Schwarz & Le Cobiana Djazz · Aliu Barry








Nó cana seta
- José Carlos Schwarz







Mindjeres di pano preto
- José Carlos Schwarz




Mindjeris de pano preto
Ka bo tchora pena

Si kontra bo pudi
Ora ke un son di nos fidi
Bo ba ta rasa
Pa tisinu no kasa

Pabia li ki no tchon
No ta bai nan te
Bolta di mundu
I rabu di pumba

Ma bo na limpa korson
Ku no sangi
Ki na kai na tchon

Composição: José Carlos Schwarz






[Documentario]
- A Voz do Povo (Parte 1)
José Carlos Schwarz








[Documentario]
- A Voz do Povo (Parte 2)
José Carlos Schwarz




______________________

José Carlos Schwarz (Bissau, 6 de Dezembro, 1949 – Havana, 27 de Maio, 1977) foi um poeta e músico da Guiné-Bissau. Ele é amplamente reconhecido como um dos mais importantes e notáveis músicos da Guiné-Bissau.


Combatente de Liberdade da Pátria, Herói Nacional, Poeta e Musico, Ícone da Musica Moderna Guineense. 

Ele escreveu em português e francês, porém cantava em crioulo. Em 1970 ele formou o "Cobiana Djazz", banda formada por um grupo de amigos. Após a independência da Guiné-Bissau, Schwarz tornou-se o diretor do Departamento de Artes e Cultura, e também o responsável pela política de infância guineense. Em 1977 iniciou sua carreira na Embaixada da Guiné-Bissau em Cuba. No dia 27 de Maio do mesmo ano, Schwarz morreu em acidente de avião próximo a Havana.



domingo, 12 de setembro de 2021

Poemança Africana: Alzira Cabral (Cabo Verde)

 Poesia Africana - 32


língua portuguesa




Mantenha



Filha do teu adultério
existo
queiras ou não com a mesma pele.
Exilada
sobrevivo contente na terra dos sem cor.
Com a boa vontade que ganhei
das gentes daqui,
sem ressentimentos nem vergonha
cultivo a mentira da tua grandeza
no existir dos meus descendentes.

E mando mantenhas, oh terra
através dos meus poemas vermelhos:

A cor que me deste!







(...)
é porque não sei (incrível !...)
se saberia
descrever-te com palavras
os contornos do meu amor.


(Silêncio, Alzira Cabral)






________________________

Biografia

Alzira Cabral nasceu em Cabo Verde (Bissau) em 1955. Sua obra encontra-se dispersa em revistas e uma seleção dos seus poemas foi publicada na antologia “Mirabilis de veias ao sol” (AAVV, 1991) que divulga a poesia pós-colonial de Cabo Verde, trazendo a público nomes novos como Paula Martins, Alzira Cabral, Arcília Barreto e Ana Júlia e outros já conhecidos, como Dina Salústio, Vera Duarte.

O poema Mantenha foi extraído da antologia “Poesia Africana de Língua Portuguesa”, organizado por Lívia Apa, Arlindo Barbeitos e Maria Alexandre Dáskalos. Lacerda Editores, RJ, 2003.


Poemas publicados em Mirabilis de veias ao sol:

Psicose

Como antes

Recado

Julgamento

Abram alas!

Silêncio

sábado, 17 de julho de 2021

Poemança Africana: Alice Palmira (Angola)

Poesia Africana - 31


língua portuguesa




Certo Olhar


Estimula
A natureza
Certo
Aberto
Afasta-se
Ao ritmo
Sedutor
Do amor
Sem cor
Sem fronteira
Com firmeza
Com conhecimento
Com confirmação
O teu certo olhar
Não abraça o pejo
E não é ausência
Mas desperta
A duração
Das coisas






Teu Nome

Sou feliz
Ao escrever
O teu nome
Poesio-te
Ouço o sussurro
Das tuas palavras
De amor que guardo
No meu peito
Em cada palavra
Existe um lugar
Partilhando a nossa
Vontade de amar
Ao longo do tempo
Idealizo-te
Vivo-te
Esperando o momento
Propício
Com o tempo leva tudo
Ouvindo a tua voz
De sexo a limpo





Sou Sacana 

Se a amargura do amor 
Me sacode 
Vou a banho 
Molho bem a cabeça 
Que é o responsável de tudo 
Sem confiança 
E sem modo 
Uiii sou sacana 
Não quero esta 
Amargura 
Entre as costelas 
E no sexo 
Não quero morrer 
De trombose 
Mas sim 
Quero essa 
Amargura 
Do amor por você





MINHA POESIA

Dá-me a tua luz
A verdade do olhar
Não é mal nenhum escrever meu nome
Não é mal nenhum escrever poesia
Não é mal nenhum escrever teu nome
Não é mal nenhum escrever teu gozo
Não é mal nenhum escrever liberdade
A paz
O amor
A bondade
A mansidão
A temperança
Dá-me a tua luz
A verdade do teu olhar
Onde vai a poesia?
Onde para a poesia?
Se a sinceridade e a poesia dói, isto é
Escrever um poema.






A MULEMBA DA ESPERANÇA

        A Mulemba do Huambo
É também a mulemba de renascer
E vim replantar o meu sentido ao pé de ti
Havemos de nos encontrar um dia para nos perdoar

        A mulemba da saudade
É também a mulemba do nosso ponto de encontro semanal
O homem vale o que vale pelas suas armas
Havemos de nos encontrar um dia para dar-nos kandandu

       A mulemba da esperança
É também a mulemba do regresso ao país, da qual nos
Sentamos a contemplar a paisagem para escrever a
Literatura e o jornalismo da nossa terra Angola
Havemos de nos encontrar um dia para dar-nos kandandu






Dormir no Chão


Narração Jorge Manuel Ramos




Alice Palmira nasceu em Brazzaville, República do Congo, a 7 de Julho de 1944, mas de nacionalidade angolana. Descendente de angolanos, aí fez os estudos primários e liceais. Para ajudar a família em dificuldades, teve que abandonar os seus estudos liceais para se matricular numa escola de dactilografia.

Foi secretária do Bureau Político do Partido Congolês do Trabalho. Trabalhou sucessivamente no Ministério do Trabalho, Previdência Social, Ministério da Indústria e na Direcção Geral do Trabalho da República do Congo.

Regressou a Angola em 1976 integrada na comitiva de António Agostinho Neto tendo sido redactora estagiária na Rádio Nacional de Angola e tradutora na Angodiplo, U.E.E. em Luanda.

Por razões pessoais abandona Angola e estabelece-se em Portugal onde vive desde 1982.
É membro e co-fundadora da União de Escritores Angolanos.

Publicou em Brazzaville em 1981, a obra poética "Liberté". Em 2005 publica em Luanda a obra "Mulemba da Saudade".

__________


VASCONCELOS, Adriano Botelho de, org. Todos os sonhos. Antologia da Poesia Moderna Angolana. Luanda: União dos Escritores Angolanos "Guaches da Vida", 2005. 593 p.




Através 

Não é através 
Da poesia 
Das histórias 
Das pesquisas 
Que é possível 
Humanizar 
A criatura 
Mas é através 
Da atitude 
Na vida 
Na observação 
E no dia-a-dia 
É ter sensação 
De gostar 
A natureza 
É através 
Da poesia 
A criatura precisa 
Dos atos de presença 
De diálogo 
Da procura 
Que dá origem 
À identidade 
Se torna mais 
Generosa 
E mais Solidária





Cabeça rapada


Irei a África
Os meus olhos lembram-se
O mufete com mandioca e
Feijão de óleo de palma

Irei cumprimentar a rainha
De cabeça rapada de joelhos
A África é um fogo de mata que conheço
Como os segundos dos meus minutos esfaimados

Não tenho, agora, de comum com África
O fogo que habita África, berço do meu ombro.





Nota de André Capilé retirada do blog Revista Modo de Usa & Co.


As comunidades linguísticas de origem bantu comportam um sem número de idiomas, com características mais ou menos aparentadas, criando um complexo emaranhado de significações que nem a violência dos processos de colonização conseguiu extinguir. Contudo, elementos de contaminação entre elas, as línguas nativas, e também a língua dos colonizadores, gerou em seu cerne uma série de variantes. Algumas delas saborosas; outras, nem tanto. Todavia, diante de determinados cenários, a linguagem comparece como efeito de resistência, rasurando espaços de enunciação que entregam corpos e cenários, não apenas como nuance de cor local, mas como registro de reconhecimento dos circuitos de ancestralidade – o que não quer dizer que sejam fenômenos apaziguadores.

Entre nós, falantes da língua brasileira, em muito devemos, também, a esses complexos linguísticos. Embora tenhamos apagado certos rastros de origem, são idiomas que espectram a nossa fala cotidiana. “Moleque”, por exemplo, do kimbundu “mulêke”, se dá como acepção: “garoto; rapaz; criado de servir” – embora o termo, sob certos aspectos, tenha sido ressemantizado, devemos, ainda, brigar com certas fixações nos dicionários. “Kandenge”, por exemplo, poderia hoje ser traduzido, no Brasil, como “de menor”? O mesmo serviria para “kafioto”?

O recente interesse pelas literaturas de expressão portuguesa em África gerou uma série de consequências interessantes no Brasil. Uma delas, e é uma hipótese em que não se pode contar certeza, renovou um olhar diferenciado para alguns segmentos das religiões de matriz africana, principalmente as de origem bantu – o candomblé de raiz Angola-Kongo. Talvez seja assunto para outro momento, embora ao ler “A mulemba da esperança”, poema de Alice Palmira, alguns desses caminhos se cruzem.

A escolha pela “mulemba” é muito significativa, a meu ver, por dois vetores: 1) árvore muito importante para a tradição bantu, por ser um lugar de encontro – principalmente dos guardiões dos clãs – é, também, um espaço de um processo de iniciação que só ocorre durante a noite – o que garante a enunciação mística da mulemba; 2) no Brasil, a figueira é uma das mais importantes árvores rituais no circuito das religiões de matriz africana. Nas raízes Angola-Kongo, a mulemba – ou Figueira – está intimamente ligada ao culto da ancestralidade e ao nkisi Kitembo [ou Kindembu] que é o rei da nação – assim como Oxóssi está para o Ketu e Besen está para os Fon. Kitembo é um nkisi ligado à atmosfera e o vento, também às estações do ano, o tempo cronológico e mitológico. Entre os elementos que o representam, há uma bandeira branca que serve como referência espacial para a chegada da caça, o registro de que naquele lugar há água, entre outras coisas. Nas casas de santo no Brasil é marca, também, de identidade ritual.

Outra palavra que vemos no poema é “kandandu”. A acepção direta desse termo signifca “abraço”. Contudo, há uma variante que liga a palavra a uma presença familiar. O termo “ka” é um artigo definido, “ndandu” comparece como “consanguinidade; parentesco” e, por extensão, “afinidade”; “o parente”, por assim dizer. O último termo, do qual tomo nota agora, é “Huambo”, uma província de Benguela. O termo chegou nessa forma como uma corruptela da língua portuguesa, antes funcionava como adjetivação para “mar grande”, ou, melhor dito: “wambu kalunga”.

Acredito que tanto conhecer as acepções duras dos vocábulos, quanto tomar a partida de possíveis ressemantizações desses mesmos termos, podem render, e muito, na leitura desse, e de outros, poemas africanos de expressão portuguesa.

Embora não vá mais me extender, cabe, a título de registro, que entre os poetas brasileiros vivos, e muito vivos, tenho visto Edimilson de Almeida Pereira fazer, com seu arsenal e repertório de linguagem, o uso mais significativo das nuances das línguas de matriz bantu. A nossa rotina, por aqui, é entender África sob perspectivas nagôs –admito o reducionismo generalista, contudo temos notícia dos itans e orikis, traduzidos por Risério e, também, reconfigurados por Ricardo Aleixo e, ainda, o próprio Edimilson com o seu belo Livro de Falas – talvez por conta dos orixás, e suas comidas votivas, estarem mais aclimatados em nosso imaginário, mas muito pouco se diz, e se faz, com e sobre a incidência bantu em nossos repertórios de leitura e escrita.

Uma anedota: imagino que um número considerável de pessoas tenha assistido o desenho Bambi, aquele de Walt Disney, ora pois: “Mbambi”: “Antílope maior que a Corça; Cervo; Veado”.


Kandandu.


terça-feira, 2 de março de 2021

Poesia Africana: Campos D'Oliveira (Moçambique)

 Poesia Africana - 29


língua portuguesa




A UMA VIRGEM
(Improviso)

Motora dos meus martírios!
Causa da minha saudade!
Ingénua e casta deudade!
Minha terna inspiração!
Condoi-te da triste sorte
Do jovem que te ama tanto,
Que por ti verte agro pranto
Gerado no coração!

Rasga-me o peito, se queres,
E vê nele a intensa chama,
Que há três anos o inflama
Em cruas dores, sem fim...
De padecer já cansado
Vou sentindo a morte dura
Arrastar-me à sepultura,
E na flor da idade assim!...

E podes ser tão tirana,
Que possas ver indif´rente
D´anos de´nove somente
Morrer o teu trovador?!
Ai! Não! Alenta-me a vida,
Reprime esta dor infinda
Dando-me só, virgem linda,
O teu puro e casto amor!...




O PESCADOR DE MOÇAMBIQUE

— Eu nasci em Moçambique,
de pais humildes provim,
a cor negra que eles tinham
é a cor que tenho em mim;
sou pescador desde a infância,
e no mar sempre vaguei;
a pesca me dá sustento,
nunca outro mister busquei.

Antes que o sol se levante
eis que junto à praia estou;
se ao repouso marco as horas
à preguiça não as dou;
em frágil casquinha leve,
sempre longe do meu lar,
ando entregue ao vento e às ondas
sem a morte recear.

Ter contínuo a vida em risco
é triste coisa — sei que é!
mas do mar não teme as iras
quem em Deus depõe a fé;
é pequena a recompensa
da vida custosa assim;
mas se a forme não me mata
que me importa o resto a mim?

Vou da Cabeceira às praias,
atravesso Mussuril,
traje embora o céu d´escuro,
u todo seja d´anil;
de Lumbo visito as águas
e assim vou até S ancul,
chego depois ao mar-alto
sopre o note ou ruja o sul.

Só à noite a casca atraco
para o corpo repousar,
e ao pé da mulher que estimo
ledas horas ir passar:
da mulher doces carícias
também quer o pescador,
pois d´esta vida os pesares
faz quase esquecer o amor!

Sou pescador desde a infância
e no mar sempre vaguei;
a pesca me dá sustento,
nunca outro mister busquei;
e enquanto tiver os braços,
a pá e a casquinha ali,
viverei sempre contente
neste lidar que escolhi! —





_________________



José Pedro da Silva Campos d´Oliveira na Ilha de Moçambique. Poeta e contista.

Obra publicada: O mancebo e rovador Campos Oliveira (1985), org. de Manuel Ferreira.

Nasceu (Ilha de Moçambique, 1847 — 1911) foi um jornalista, poeta e prosador moçambicano. A sua poesia representa o o despertar da poesia moçambicana.

Filho de pai goês, viveu e estudou na Índia. Viveu em Nova Goa até 1867, regressando à Ilha de Moçambique para desempenhar vários cargos como funcionário público, inclusive como diretor do correio e escrivão da Capitania dos Portos.

Trabalhou como jornalista em diferentes publicações como O Ultramar, a Illustração Goana, Almanach Literário, Almanach de Lembranças Luso-Indiano e Almanach Popular em 1865.

Esteve envolvido na criação da primeira revista literária de Moçambique, a Revista Africana (editada entre 1885- 1887).

Obras:

A Uma Senhora Muito Feia
Charada


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Poesia Africana: António Baticã Ferreira (Guiné-Bissau)

   Poesia Africana - 28


língua portuguesa



Um sentimento de amor pátrio sobe no meu coração,
Em espírito demando o meu país natal,
E lembro aquela floresta africana,
Cheia de caça e de verdura;
Lembro as suas imensas árvores gigantes,
A folhagem verde ou amarela
Que nos perfuma






A FONTE


I


Eis-me perto da Fonte, muito perto.
Vejo brotar a água,
Uma água clara e límpida,
Boa, amável!

Eis a Fonte:
Fica perto de Badiopor.
Junto dela nasci:
Eis a Fonte da minha infância.

Sim, eu amo essa Fonte,
Admiro-a,
Brinco,
Eu e meus irmãos, à sua beira.

Fica, fica perto de Badiopor,
Desse lugar quase sagrado,
Desse lugar ensombrado;
Badiopor, fonte de nossas almas.

A sua água nos atrai,
E acarinha-nos.
Vemo-la noite e dia;

E a Fonte que está mais perto.

Olha: a água a brotar da nascente,
Como de fonte,
Como um regato!

(Sim, parece-se mais com um regato.)




II


Mais pequena ainda que a Fonte,
É a nascente onde tudo vem beber.
A nascente, nossos pais, amamo-la.
Nossa.

A nascente é fonte das árvores e das folhas.
Olhamos a nascente, o ribeiro,
Manancial de nossos pais.

É verdade:

Esta Fonte é mui antiga,

Nascente da Tradição,
Fonte da Historia; eis
O manancial do Reino,
Tão perto de Badiopor!

Bem me lembro:
Ha muito que ela se conserva no mesmo lugar,
Manando água cristalina.
Eis, eis a Fonte do Reino.

Ela protege-nos,
Ela é a alma das crianças;
Fonte do Reino, força nossa,
Ela é a nossa protectora.

As chaves do Reino onde estão?

Nessa Fonte,
Onde meus irmãos e eu vemos às vezes monstros
E trememos então de medo,
Ou choramos.

(Nós, filhos do Reino,
Nos, príncipes desse seu Reino.)



III


É verdade, como príncipes,
De tudo cantamos,

Nos, príncipes de Baboque
Bem amados,
Pelo sangue
Oriundos daquele Rei,

Daquele que é Rei dos Reis;
Nos que vimos do seu Reino,
De todos o mais poderoso e vasto,
Como o Reino de Baçarel.

(E Baçarel é um grande Reino,
Onde príncipes vêm a luz;
Baçarel, terra bem nobre,
Seu lugar de nascimento.)





O MAR


Olhai: o Mar tem influência singular
Sobre mim. Os animais aquáticos são tantos
Valia a pena persegui-los no mar alto;

Valia a pena vê-los saltar através das ondas.

O Mar, esse mundo que os homens não habitam,
É imenso, tão belo e tão perfeito!
O Mar tem influência singular
Sobre mim. Eu bem queria ir ver as ondas;

Valia a pena olhá-las a correr
Loucamente; valia a pena
Ver qual delas primeiro entrava na baía.

Ah!, o Mar vasto, no entanto, aqui nos fala
Sim, fala-nos interiormente,
E nos compreendemos a sua língua:
E uma língua que se entende.

(Ah!, que impressão nos faz o Mar!)





INFÂNCIA


Eu corria através dos bosques e das florestas
Eu corno o ruído vibrante de um bosque desvendado,
Eu via belos pássaros voando pelos campos
E parecia ser levado por seus cantos.

Subitamente, desviei os meus olhos
Para o alto mar e para os grandes celeiros
Cheios da colheita dos bravos camponeses
Que, terminando o dia, regressavam à noite entoando

Canções tradicionais das selvas africanas
Que lhes lembravam os ódios ardentes
Dos velhos. Subitamente, uma corça gritou
Fugindo na frente dos leões esfomeados.

Aos saltos, os leões perseguiram a corça
Derrubando as lianas e afugentando os pássaros.
A desgraçada atingiu a planície
E os dois reis breve a alcançaram



PAÍS NATAL


Um sentimento de amor pátrio sobe no meu coração,
Em espírito demando o meu país natal,
E lembro aquela floresta africana,
Cheia de caça e de verdura;
Lembro as suas imensas árvores gigantes,
A folhagem verde ou amarela
Que nos perfuma.
Revejo a minha infância,
Toda cheia de alegrias:
Eu corria pelo mato,
Espiava os animais selvagens,
Sem medo;
E olhava os lavradores nos campos,
E, no mar, os pescadores,
Que lutavam contra o vento, para agarrar o peixe,
E que eu, atento, seguia com o olhar:
Como gostava de os ver no oceano
Domar as vagas, que lhes queriam virar as barcas!
(Ah!, bem me lembro, bem me lembro do meu país natal!)



__________________________



António Baticã Ferreira nasceu em Texeira Pinto no Canchungo (Guiné-Bissau) no ano de 1939. Estudou em França onde concluiu o liceu.

Na Suíça formou-se em medicina na Universidade de Lausana. Sabe-se que exerceu medicina no Hospital de Santa Maria em Lisboa (Portugal), mas desconhece-se quanto tempo viveu em Portugal.

De acordo com Luís Graça (bloguer), Albano de Matos disse-lhe que conheceu António Baticã na Sociedade da Língua Portugues e que este ter-lhe-á publicado colectânea de poesia de nominada “Poesia & Ficção".

Em 1945 António Baticã Ferreira e Amílcar Cabral estavam ligados ao partido PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde) na luta pela independência da Guiné-Bissau contra o domínio Português e com a denominada “poesia de combate” que incitava a luta pela libertação

No que diz respeito a musica cabo verdiana, Baticã também teve grande relevo, pois no período que antecedeu a libertação os seus escritos foram considerados com forma de expressão fizeram cultural na Guiné-Bissau.

A sua poesia está dispersa por diversas publicações francesas e portuguesas, nomeadamente La Tribune Internacional des Poètes, L’Afrique Nouvelle e La Croix; Poesia & Ficção, Diário Popular e Debate.