quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (4)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO VI
SITUAÇÃO E CARÁTER DA MULHER
 continuando...

     Recusando os princípios lógicos, os imperativos morais, cética diante das leis da natureza, a mulher não tem o senso do universal; o mundo apresenta-se-lhe como um conjunto confuso de casos singulares; eis por que acredita mais facilmente nos mexericos de uma vizinha do que numa exposição científica; sem dúvida, respeita o livro impresso, mas esse respeito desliza ao longo das páginas escritas sem apreender-lhes o conteúdo: ao contrário, a anedota contada por um desconhecido numa fila ou num salão reveste-se imediatamente de uma esmagadora autoridade; em seu domínio, tudo é magia; fora, tudo é mistério; ela não conhece o critério da verossimilhança; só a experiência imediata conquista sua convicção, sua própria experiência ou a de outrem, desde que a afirme com suficiente força. Quanto a ela, por se achar isolada em seu lar, não se confronta ativamente com outras mulheres, considera-se espontaneamente como um caso singular; está sempre à espera de que o destino e os homens façam uma exceção em seu favor; muito mais do que nos raciocínios válidos para todos, ela crê nas iluminações que a atravessam; admite facilmente que lhes são enviadas por Deus ou por qual quer espírito obscuro do mundo; com relação a certas desgraças, a certos acidentes, ela pensa tranquilamente: "A mim isso não acontecerá"; inversamente imagina que "para mim haverá uma exceção": o comerciante fará um desconto, ou o guarda a dei xará passar sem que tenha prioridade. Ensinaram-lhe a superestimar o valor de seu sorriso e esqueceram de lhe dizer que todas as mulheres sorriem. Não acontece isso porque ela se imagine mais extraordinária do que sua vizinha, mas sim porque não se compara; pela mesma razão, é raro que a experiência lhe inflija algum desmentido: experimenta um malogro, outro, mas não os totaliza.
     É por isso que as mulheres não conseguem construir solidamente um contra-universo, de onde possam desafiar os homens; esporadicamente, deblateram contra os homens em geral, contam--se histórias de cama e de parto, trocam horóscopos e receitas de beleza. Mas, para edificar realmente esse "mundo do ressenti mento" que seu rancor almeja, carecem de convicção; sua atitude em relação ao homem é demasiado ambivalente. Este é, com efeito, uma criança, um corpo contingente e vulnerável, um ingênuo, um zangão importuno, um tirano mesquinho, um egoísta, um vaidoso: mas é também o" herói libertador, a divindade que distribui valores. Seu desejo é um apetite grosseiro, seus amplexos são uma tarefa degradante: entretanto, o entusiasmo, a força viril apresentam-se também como uma energia demiúrgica. Quando uma mulher diz com êxtase: "É um homem!" evoca ao mesmo tempo o vigor sexual e a eficiência social do macho que admira: em uma e outra coisa se exprime a mesma soberania criadora; ela não imagina que ele seja um grande artista, um grande homem de negócios, um general, um chefe, sem ser um amante vigo roso; os êxitos sociais dele têm sempre uma atração sexual; inversamente, ela se mostra disposta a emprestar gênio ao macho que a satisfaz. É, de resto, um mito masculino que ela retoma aqui. O falo, para Lawrence e muitos outros, é, ao mesmo tempo, uma energia viva e a transcendência humana. Pode assim a mulher ver nos prazeres da cama uma comunhão com o espírito do mundo. Dedicando ao homem um culto místico, perde-se e se reencontra na glória masculina. A contradição é, aqui, facilmente suprimida graças à pluralidade dos indivíduos que participam da virilidade. Alguns — aqueles cuja contingência ela experimenta na vida quotidiana — são a encarnação da miséria humana; em outros exalta-se a grandeza do homem. Mas a mulher aceita até que essas duas figuras se confundam em uma só. "Se eu me tornar célebre, escrevia uma jovem apaixonada por um homem que considerava superior, R... casará certamente comigo porque sua vaidade será lisonjeada; estufaria o peito passeando de braço dado comigo." No entanto, ela o admirava loucamente. O mesmo indivíduo pode muito bem ser, aos olhos da mulher, avarento, mesquinho, vaidoso, irrisório e Deus: afinal os deuses têm suas fraquezas. Temos por um indivíduo que amamos em sua liberdade, em sua humanidade, essa exigente severidade que é o inverso de uma autêntica estima; ao passo que uma mulher ajoelhada diante de seu homem pode muito bem ufanar-se de "saber dominá-lo", de saber "manobrá-lo"; lisonjeia-lhe complacentemente "as pequenas qualidades" sem que êle se dispa de seu prestígio; é a prova de que ela não tem amizade especificamente por sua pessoa, tal qual se realiza em atos reais; ela prosterna-se cegamente diante da essência geral de que o ídolo participa: a virilidade é uma aura sagrada, um valor dado, está tico, que se afirma a despeito das falhas do indivíduo que a tem; este não conta; ao contrário, a mulher, com ciúme de seu privilegio, compraz-se em tomar atitudes de maligna superioridade sobre ele.
     A ambiguidade dos sentimentos que a mulher dedica ao homem reencontra-se em sua atitude geral para consigo mesma e o mundo; o domínio em que se acha encerrada é investido pelo universo masculino; mas é habitado por forças obscuras de que os próprios homens são joguetes. Aliando-se a essas virtudes mágicas, ela conquistará, por sua vez, o poder. A sociedade escraviza a Natureza, mas a Natureza a domina; o Espírito afirma-se além da Vida; mas dissipa-se, se a vida não o sustenta mais. A mulher apoia-se nesse equívoco para dar maior importância a um jardim do que a uma cidade, a uma doença do que a uma ideia, a um parto do que a uma revolução; esforça-se para restabelecer esse reinado da terra, da Mãe, sonhado por Baschoffen a fim de reencontrar o essencial em face do inessencial. Mas como é, ela também, um existente que habita uma transcendência, só poderá valorizar a região em que se acha confinada transfigurando-a; empresta-lhe uma dimensão transcendente. O homem vive num universo coerente que é uma realidade pensada. A mulher está às voltas com uma realidade mágica que não se deixa pensar: ela se evade dela através de pensamentos privados de conteúdo real. Ao invés de assumir sua existência, contem plano céu a pura Ideia de seu destino; em vez de agir, ergue sua estátua no imaginário; em vez de raciocinar, sonha. Daí vem que sendo "tão física" seja também tão artificial, que sendo tão terrestre se faça tão etérea. Passa a vida limpando caçarolas e é um romance maravilhoso; vassala do homem, acredita ser seu ídolo; humilhada em sua carne, exalta o amor. Porque está condenada a só conhecer a facticidade contingente da vida, faz-se sacerdotisa do Ideal.
     Essa ambivalência marca-se na maneira por que a mulher apreende o próprio corpo. É um fardo; roído pela espécie, sangrando todos os meses, proliferando passivamente, não é para ela o instrumento puro de seu domínio sobre o mundo, mas uma presença opaca; não lhe assegura com certeza o prazer e cria dores que a atormentam; encerra ameaças: ela sente-se em perigo nos seus "interiores". É um corpo "histérico", por causa das íntimas ligações das secreções endócrinas com os sistemas nervoso e simpático que comandam músculos e vísceras; exprime reações que a mulher se recusa a assumir: nos soluços, nas convulsões, nos vômitos, ele lhe escapa, ele a trai; ele é sua verdade mais íntima, mas é uma verdade vergonhosa e que ela esconde. E, no entanto, ele é também seu duplo maravilhoso; ela contempla-o com deslumbramento ao espelho; é promessa de felicidade, obra de arte, estátua viva; ela o modela, enfeita, exibe. Quando se sorri ao espelho, ela esquece sua contingência carnal; no amplexo amoroso, na maternidade, a imagem aniquila-se. Mas, amiúde, sonhando consigo mesma, ela se espanta com ser ao mesmo tempo essa heroína e essa carne.
     A Natureza oferece-lhe simetricamente uma dupla face: ela trata da sopa e incita às efusões místicas. Tornando-se dona de casa mãe, a mulher renuncia a suas livres escapadas por prados bosques, prefere cultivar calmamente sua horta, domestica flores coloca-as em vasos; entretanto, exalta-se ainda diante dos luares e dos crepúsculos. Na fauna e na flora terrestres, ela vê antes de tudo alimentos, ornatos; no entanto, nelas circula uma seiva que é generosidade e magia. A Vida não é apenas imanência e repetição: tem também uma deslumbrante face de luz; nos prados em flor ela se revela como Beleza. Ligada à Natureza pela fertilidade de seu ventre, a mulher sente-se igualmente varrida pelo sopro que a anima e que é espírito. E na medida em que permanecer insatisfeita, em que se sentir como a jovem irrealizada, ilimitada, sua alma também se engolfará pelas estra das indefinidamente desenroladas em direção a horizontes ilimitados. Escravizada ao marido, aos filhos, ao lar, com embriaguez é que se encontrará sozinha, soberana, no flanco das colinas; não é mais esposa, mãe, dona de casa, e sim um ser humano; contempla o mundo passivo; lembra-se de que é toda uma consciência, uma irredutível liberdade. No mistério da água, na vertigem das alturas, a supremacia do homem fica abolida; quando anda através das urzes, quando mergulha a mão no regato, não vive para outrem, vive para si. A mulher que manteve sua independência através de todas as suas servidões, amará ardentemente na Natureza sua própria liberdade. As outras nessa Natureza encontrarão somente um pretexto para êxtases distintos; hesitarão ao crepúsculo ante o receio de pegar um resfriado e o gozo intenso da alma.
     Essa dupla dependência do mundo carnal e do mundo "poético define a metafísica, a sabedoria a que adere mais ou menos explicitamente a mulher; ela se esforça por confundir vida e transcendência; isso equivale a dizer que recusa o cartesianismo e todas as doutrinas que a ele se aparentam; encontra-se à vontade em um naturalismo análogo ao dos estoicos ou dos neoplatônicos do século XVI: não é de espantar que as mulheres, com Margarida de Navarra à frente, se tenham apegado a uma filosofia ao mesmo tempo tão material e tão espiritual. Socialmente maniqueísta, a mulher tem profunda necessidade de ser ontologicamente otimista: as morais da ação não lhe convém porque lhe é proibido agir; ela suporta o dado, cumpre, por tanto, que o dado seja o Bem; mas um Bem que como o de Espinosa se reconhece pela razão, ou como o de Leibniz pelo uma Harmonia viva e no seio do qual ela se situa pelo único fato de viver. A noção de harmonia é uma das chaves do uni verso feminino: implica a perfeição na imobilidade, a justificação imediata de cada elemento a partir do todo e sua participação passiva na totalidade. Em um mundo harmônico, a mulher atinge, assim, o que o homem procurará na ação: age sobre o mundo, é por ele exigida, coopera para o triunfo do Bem. Os momentos que as mulheres consideram como revelações são aqueles em que descobrem seu acordo com uma realidade repousando em paz sobre si mesma: são os momentos de luminosa felicidade que V. Woolf — em Mrs. Dalloway, em Passeio ao Farol — que K. Mansfield, em toda a sua obra, concedem a suas heroínas como uma recompensa suprema. A alegria, que é um movimento, um impulso de liberdade, está reservada ao homem; o que a mulher conhece é uma impressão de sorridente plenitude¹. Compreende-se que a simples ataraxia possa assumir a seus olhos um grande valor, porquanto ela vive normalmente na tensão da recusa, da recriminação, da reivindicação; e não se pode censurá-la por apreciar uma bela tarde ou a doçura de uma noite. Mas é uma ilusão buscar nisso a definição verdadeira da alma recôndita do mundo. O Bem não é; o mundo não é harmonia e nenhum indivíduo tem nele um lugar necessário.

[1] Entre um punhado de textos, citarei estas linhas de Mabel Dodge, em que a passavam a uma visão global dó mundo não se acha explícita mas é claramente sugerida. "Era um dia calmo de outono, todo ouro e púrpura, Frieda e eu escolhíamos frutas e estávamos sentadas no chão, com as maçãs vermelhas empilhadas ao redor de nós. Tínhamos parado um momento. O sol e a terra fecunda aqueciam-nos e perfumavam-nos e as maçãs eram sinais vivos de plenitude, de paz e abundância. A terra transbordava uma seiva que nos escorria nas veias e sentíamo-nos alegres, indomáveis e carregadas de riquezas! como vergéis. Por um minuto estávamos unidas nesse sentimentos que as mulheres têm por vezes de ser perfeitas, de se bastar inteiramente a si mesmas, e que provinha de. nossa saúde rica e feliz."

continua página 386...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (4)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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