Simone de Beauvoir
02. A Experiência Vivida
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
SlMONE DE BEAUVOIR
SEGUNDA PARTE
SITUAÇÃO
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CAPÍTULO VI
SITUAÇÃO E CARÁTER DA MULHER
continuando...
Recusando os princípios lógicos, os imperativos morais, cética diante das leis da natureza, a mulher não tem o senso do universal; o mundo apresenta-se-lhe como um conjunto confuso
de casos singulares; eis por que acredita mais facilmente nos mexericos de uma vizinha do que numa exposição científica; sem
dúvida, respeita o livro impresso, mas esse respeito desliza ao
longo das páginas escritas sem apreender-lhes o conteúdo: ao
contrário, a anedota contada por um desconhecido numa fila ou
num salão reveste-se imediatamente de uma esmagadora autoridade; em seu domínio, tudo é magia; fora, tudo é mistério; ela
não conhece o critério da verossimilhança; só a experiência imediata conquista sua convicção, sua própria experiência ou a de
outrem, desde que a afirme com suficiente força. Quanto a ela,
por se achar isolada em seu lar, não se confronta ativamente com
outras mulheres, considera-se espontaneamente como um caso singular; está sempre à espera de que o destino e os homens façam
uma exceção em seu favor; muito mais do que nos raciocínios
válidos para todos, ela crê nas iluminações que a atravessam;
admite facilmente que lhes são enviadas por Deus ou por qual
quer espírito obscuro do mundo; com relação a certas desgraças,
a certos acidentes, ela pensa tranquilamente: "A mim isso não
acontecerá"; inversamente imagina que "para mim haverá uma
exceção": o comerciante fará um desconto, ou o guarda a dei
xará passar sem que tenha prioridade. Ensinaram-lhe a superestimar o valor de seu sorriso e esqueceram de lhe dizer que todas
as mulheres sorriem. Não acontece isso porque ela se imagine
mais extraordinária do que sua vizinha, mas sim porque não se
compara; pela mesma razão, é raro que a experiência lhe inflija
algum desmentido: experimenta um malogro, outro, mas não os
totaliza.
É por isso que as mulheres não conseguem construir solidamente um contra-universo, de onde possam desafiar os homens;
esporadicamente, deblateram contra os homens em geral, contam--se histórias de cama e de parto, trocam horóscopos e receitas
de beleza. Mas, para edificar realmente esse "mundo do ressenti
mento" que seu rancor almeja, carecem de convicção; sua atitude
em relação ao homem é demasiado ambivalente. Este é, com efeito, uma criança, um corpo contingente e vulnerável, um ingênuo,
um zangão importuno, um tirano mesquinho, um egoísta, um
vaidoso: mas é também o" herói libertador, a divindade que distribui valores. Seu desejo é um apetite grosseiro, seus amplexos
são uma tarefa degradante: entretanto, o entusiasmo, a força viril apresentam-se também como uma energia demiúrgica. Quando
uma mulher diz com êxtase: "É um homem!" evoca ao mesmo tempo o vigor sexual e a eficiência social do macho que admira:
em uma e outra coisa se exprime a mesma soberania criadora;
ela não imagina que ele seja um grande artista, um grande homem de negócios, um general, um chefe, sem ser um amante vigo
roso; os êxitos sociais dele têm sempre uma atração sexual; inversamente, ela se mostra disposta a emprestar gênio ao macho
que a satisfaz. É, de resto, um mito masculino que ela retoma
aqui. O falo, para Lawrence e muitos outros, é, ao mesmo tempo,
uma energia viva e a transcendência humana. Pode assim a mulher ver nos prazeres da cama uma comunhão com o espírito do
mundo. Dedicando ao homem um culto místico, perde-se e se
reencontra na glória masculina. A contradição é, aqui, facilmente suprimida graças à pluralidade dos indivíduos que participam da virilidade. Alguns — aqueles cuja contingência ela
experimenta na vida quotidiana — são a encarnação da miséria
humana; em outros exalta-se a grandeza do homem. Mas a
mulher aceita até que essas duas figuras se confundam em uma
só. "Se eu me tornar célebre, escrevia uma jovem apaixonada
por um homem que considerava superior, R... casará certamente comigo porque sua vaidade será lisonjeada; estufaria o peito
passeando de braço dado comigo." No entanto, ela o admirava
loucamente. O mesmo indivíduo pode muito bem ser, aos olhos
da mulher, avarento, mesquinho, vaidoso, irrisório e Deus: afinal os deuses têm suas fraquezas. Temos por um indivíduo que
amamos em sua liberdade, em sua humanidade, essa exigente
severidade que é o inverso de uma autêntica estima; ao passo que
uma mulher ajoelhada diante de seu homem pode muito bem
ufanar-se de "saber dominá-lo", de saber "manobrá-lo"; lisonjeia-lhe complacentemente "as pequenas qualidades" sem que êle
se dispa de seu prestígio; é a prova de que ela não tem amizade
especificamente por sua pessoa, tal qual se realiza em atos reais;
ela prosterna-se cegamente diante da essência geral de que o ídolo
participa: a virilidade é uma aura sagrada, um valor dado, está
tico, que se afirma a despeito das falhas do indivíduo que a tem;
este não conta; ao contrário, a mulher, com ciúme de seu privilegio, compraz-se em tomar atitudes de maligna superioridade
sobre ele.
A ambiguidade dos sentimentos que a mulher dedica ao homem reencontra-se em sua atitude geral para consigo mesma e o
mundo; o domínio em que se acha encerrada é investido pelo
universo masculino; mas é habitado por forças obscuras de que
os próprios homens são joguetes. Aliando-se a essas virtudes mágicas, ela conquistará, por sua vez, o poder. A sociedade escraviza a Natureza, mas a Natureza a domina; o Espírito afirma-se
além da Vida; mas dissipa-se, se a vida não o sustenta mais. A
mulher apoia-se nesse equívoco para dar maior importância a
um jardim do que a uma cidade, a uma doença do que a uma
ideia, a um parto do que a uma revolução; esforça-se para restabelecer esse reinado da terra, da Mãe, sonhado por Baschoffen
a fim de reencontrar o essencial em face do inessencial. Mas
como é, ela também, um existente que habita uma transcendência,
só poderá valorizar a região em que se acha confinada transfigurando-a; empresta-lhe uma dimensão transcendente. O homem
vive num universo coerente que é uma realidade pensada. A
mulher está às voltas com uma realidade mágica que não se
deixa pensar: ela se evade dela através de pensamentos privados
de conteúdo real. Ao invés de assumir sua existência, contem
plano céu a pura Ideia de seu destino; em vez de agir, ergue
sua estátua no imaginário; em vez de raciocinar, sonha. Daí vem
que sendo "tão física" seja também tão artificial, que sendo tão
terrestre se faça tão etérea. Passa a vida limpando caçarolas
e é um romance maravilhoso; vassala do homem, acredita ser
seu ídolo; humilhada em sua carne, exalta o amor. Porque está
condenada a só conhecer a facticidade contingente da vida, faz-se sacerdotisa do Ideal.
Essa ambivalência marca-se na maneira por que a mulher
apreende o próprio corpo. É um fardo; roído pela espécie, sangrando todos os meses, proliferando passivamente, não é para
ela o instrumento puro de seu domínio sobre o mundo, mas uma
presença opaca; não lhe assegura com certeza o prazer e cria dores que a atormentam; encerra ameaças: ela sente-se em perigo
nos seus "interiores". É um corpo "histérico", por causa das
íntimas ligações das secreções endócrinas com os sistemas nervoso
e simpático que comandam músculos e vísceras; exprime reações
que a mulher se recusa a assumir: nos soluços, nas convulsões,
nos vômitos, ele lhe escapa, ele a trai; ele é sua verdade mais
íntima, mas é uma verdade vergonhosa e que ela esconde. E,
no entanto, ele é também seu duplo maravilhoso; ela contempla-o
com deslumbramento ao espelho; é promessa de felicidade, obra
de arte, estátua viva; ela o modela, enfeita, exibe. Quando se
sorri ao espelho, ela esquece sua contingência carnal; no amplexo
amoroso, na maternidade, a imagem aniquila-se. Mas, amiúde,
sonhando consigo mesma, ela se espanta com ser ao mesmo tempo
essa heroína e essa carne.
A Natureza oferece-lhe simetricamente uma dupla face: ela
trata da sopa e incita às efusões místicas. Tornando-se dona de
casa mãe, a mulher renuncia a suas livres escapadas por prados
bosques, prefere cultivar calmamente sua horta, domestica flores coloca-as em vasos; entretanto, exalta-se ainda diante dos
luares e dos crepúsculos. Na fauna e na flora terrestres, ela vê
antes de tudo alimentos, ornatos; no entanto, nelas circula uma
seiva que é generosidade e magia. A Vida não é apenas imanência e repetição: tem também uma deslumbrante face de luz;
nos prados em flor ela se revela como Beleza. Ligada à Natureza pela fertilidade de seu ventre, a mulher sente-se igualmente
varrida pelo sopro que a anima e que é espírito. E na medida
em que permanecer insatisfeita, em que se sentir como a jovem
irrealizada, ilimitada, sua alma também se engolfará pelas estra
das indefinidamente desenroladas em direção a horizontes ilimitados. Escravizada ao marido, aos filhos, ao lar, com embriaguez é que se encontrará sozinha, soberana, no flanco das colinas; não é mais esposa, mãe, dona de casa, e sim um ser
humano; contempla o mundo passivo; lembra-se de que é toda
uma consciência, uma irredutível liberdade.
No mistério da
água, na vertigem das alturas, a supremacia do homem fica
abolida; quando anda através das urzes, quando mergulha a mão
no regato, não vive para outrem, vive para si. A mulher que
manteve sua independência através de todas as suas servidões,
amará ardentemente na Natureza sua própria liberdade. As outras
nessa Natureza encontrarão somente um pretexto para êxtases
distintos; hesitarão ao crepúsculo ante o receio de pegar um
resfriado e o gozo intenso da alma.
Essa dupla dependência do mundo carnal e do mundo "poético define a metafísica, a sabedoria a que adere mais ou menos
explicitamente a mulher; ela se esforça por confundir vida e
transcendência; isso equivale a dizer que recusa o cartesianismo e todas as doutrinas que a ele se aparentam; encontra-se à
vontade em um naturalismo análogo ao dos estoicos ou dos neoplatônicos do século XVI: não é de espantar que as mulheres,
com Margarida de Navarra à frente, se tenham apegado a uma
filosofia ao mesmo tempo tão material e tão espiritual. Socialmente maniqueísta, a mulher tem profunda necessidade de ser
ontologicamente otimista: as morais da ação não lhe convém
porque lhe é proibido agir; ela suporta o dado, cumpre, por
tanto, que o dado seja o Bem; mas um Bem que como o de
Espinosa se reconhece pela razão, ou como o de Leibniz pelo uma Harmonia viva e no seio do qual ela se situa pelo único
fato de viver. A noção de harmonia é uma das chaves do uni
verso feminino: implica a perfeição na imobilidade, a justificação
imediata de cada elemento a partir do todo e sua participação
passiva na totalidade. Em um mundo harmônico, a mulher atinge, assim, o que o homem procurará na ação: age sobre o
mundo, é por ele exigida, coopera para o triunfo do Bem. Os
momentos que as mulheres consideram como revelações são aqueles em que descobrem seu acordo com uma realidade repousando
em paz sobre si mesma: são os momentos de luminosa felicidade
que V. Woolf — em Mrs. Dalloway, em Passeio ao Farol —
que K. Mansfield, em toda a sua obra, concedem a suas heroínas
como uma recompensa suprema. A alegria, que é um movimento, um impulso de liberdade, está reservada ao homem; o que a
mulher conhece é uma impressão de sorridente plenitude¹. Compreende-se que a simples ataraxia possa assumir a seus olhos
um grande valor, porquanto ela vive normalmente na tensão da
recusa, da recriminação, da reivindicação; e não se pode censurá-la por apreciar uma bela tarde ou a doçura de uma noite.
Mas é uma ilusão buscar nisso a definição verdadeira da alma
recôndita do mundo. O Bem não é; o mundo não é harmonia
e nenhum indivíduo tem nele um lugar necessário.
continua página 386...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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Leia também:
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (4)
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Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"
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