Simone de Beauvoir
02. A Experiência Vivida
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
SlMONE DE BEAUVOIR
SEGUNDA PARTE
SITUAÇÃO
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CAPÍTULO V
DA MATURIDADE À VELHICE
A HISTÓRIA da mulher — pelo fato de se encontrar ainda
encerrada em suas funções de fêmea — depende muito mais
que a do homem de seu destino fisiológico. Todo período da
vida feminina é calmo e monótono: mas as passagens de um estágio para outro são de uma perigosa brutalidade; evidenciam-se
através de crises muito mais decisivas do que no homem: puberdade, iniciação sexual, menopausa. Enquanto ele envelhece de
maneira contínua, a mulher é bruscamente despojada de sua
feminilidade; perde, jovem ainda, o encanto erótico e a fecundidade de que tirava, aos olhos da sociedade e a seus próprios
olhos, a justificação de sua existência e suas possibilidades de
felicidade: cabe-lhe viver, privada de todo futuro, cerca de metade de sua vida de adulta.
"A idade perigosa" é caracterizada por certas perturbações
orgânicas (cf. vol. I, cap. I), mas o que lhes dá importância
é o valor simbólico de que se revestem. A crise é sentida de
maneira muito menos aguda pelas mulheres que não apostaram
particularmente na sua feminilidade; as que trabalham duramente
— em seus lares ou fora deles — acolhem com alívio o desaparecimento da servidão menstrual; a camponesa, a mulher do operário, que uma nova gravidez ameaça sem cessar, sentem-se
felizes quando veem enfim esse risco evitado. Nessa conjuntura,
como em muitas outras, é menos do próprio corpo que provêm
os incômodos da mulher que da consciência angustiada que
deles tem.
O drama, moral inicia-se antes que os fenômenos
fisiológicos se declarem e termina quando eles já de há muito
desapareceram.
Muito antes da mutilação definitiva, a mulher sente-se obcecada pelo horror de envelhecer. O homem maduro acha-se empenhado cm empresas mais importantes que as do amor; seus ardores eróticos são menos vivos do que na mocidade; e como não
lhe pedem as qualidades passivas de um objeto, as alterações de
seu rosto e de seu corpo não arruínam suas possibilidades de
sedução. Ao contrário, é geralmente por volta dos 35 anos que
a mulher, tendo enfim superado suas inibições, atinge sua plena
maturidade erótica: é então que seus desejos são mais violentos
e que ela deseja mais asperamente satisfazê-los; muito mais do
que o homem, ela apostou nos valores sexuais que detém; para
reter o marido, para se assegurar proteções, é necessário que
agrade na maior parte dos ofícios que exerce; não lhe permitiram ter algum domínio sobre o mundo, senão por intermédio
do homem: que lhe acontecerá quando não tiver mais domínio
sobre este? É o que se pergunta ansiosamente enquanto assiste
impotente à degradação desse objeto de carne com o qual se
confunde; luta, mas pintura, operações estéticas não podem senão
prolongar sua juventude agonizante. Pode trapacear com o espelho, mas quando se esboça o processo fatal, irreversível, que vai
destruir nela todo o edifício construído durante a puberdade,
sente-se tocada pela própria fatalidade da morte.
Poder-se-ia acreditar que é a mulher que mais ardentemente
se embriagou de sua beleza, de sua mocidade, quem conhece os
piores desatinos; mas não; a narcisista preocupa-se demais com
sua pessoa para não ter previsto a inelutável decadência e organizado posições de retirada. Sofrerá por certo com sua mutilação: mas não será pelo menos surpreendida e adaptar-se-á bastante depressa. A mulher que se esqueceu, que se dedicou, que
se sacrificou será muito mais desnorteada pela súbita revelação:
"Tinha só uma vida por viver; eis meu quinhão, agora!" Para
espanto dos que a cercam, produz-se nela então uma mudança
radical: desalojada de seus retiros, aTrancada a seus projetos,
acha-se colocada subitamente, sem ter para que apelar, em face
de si mesma. Ultrapassado este marco contra o qual s? chocou
sem esperar, parece-lhe que não faz senão sobreviver a si mesma; seu corpo será sem promessa; os sonhos, os desejos que não
realizou permanecerão para sempre insatisfeitos; é nesta nova perspectiva que se volta para o passado; é chegado o momento de
traçar um risco, de fazer as contas; é a hora do balanço. Ela
se apavora com as estreitas limitações que a vida lhe infligiu.
Em face dessa história breve e decepcionante que foi a sua, reencontra as condutas da adolescente no limiar de um futuro ainda
inacessível: recusa sua finidade; opõe à pobreza de sua existência a riqueza nebulosa de sua personalidade.
Pelo fato de que,
sendo mulher, suportou mais ou menos passivamente seu destino,
parece-lhe que lhe roubaram suas possibilidades, que a enganaram,
que escorregou da juventude para a maturidade sem ter tomado
consciência disso. Descobre que seu marido, meio e ocupações
não eram dignos de si; sente-se incompreendida. Isola-se do
meio a que se considera superior; encerra-se com o segredo que
traz no coração e é a chave misteriosa de sua sorte; procura tornar a ponderar as possibilidades que não esgotou. Põe-se a escrever um diário íntimo; se encontra confidentes compreensivos,
expande-se em conversas indefinidas; e rumina dias e noites suas
queixas e seus ressentimentos. Como a moça que sonha com
o que será seu futuro, ela evoca o que poderia ter sido o seu
passado; revê as oportunidades que deixou escapar e forja belos
romances retrospectivos. H. Deutsch cita o caso de uma mulher
que rompera, muito jovem, um casamento infeliz e passara em
seguida longos anos tranquila ao lado de um segundo marido;
com 45 anos, pôs-se a lamentar dolorosamente o primeiro marido
e abismar-se na melancolia. As preocupações da infância e da
puberdade reavivam-se, a mulher remói indefinidamente a história
de seus jovens anos e sentimentos adormecidos pelos pais, os
irmãos, as irmãs, amigos de infância, exaltam-se novamente. Por
vezes, entrega-se a uma melancolia sonhadora e passiva. Mas,
o mais das vezes, tenta bruscamente salvar sua existência falhada.
Essa personalidade que acaba de descobrir por contraste com a
mesquinhez de seu destino, ela a exibe, louva-lhe os méritos, reclama imperiosamente que lhe façam justiça. Amadurecida pela
experiência, pensa que é capaz enfim de se valorizar; gostaria
de recomeçar. Antes de tudo, procura deter o tempo num esforço
patético. Uma mulher maternal afirma que pode ainda conceber; procura apaixonadamente criar vida mais uma vez. Uma
mulher sensual esforça-se por conquistar um novo amante. A
coquete mostra-se, mais do que nunca, ávida de agradar. Declaram todas que nunca se sentiram tão jovens. Querem per
suadir os outros de que a passagem do tempo não as atingiu
efetivamente, põem-se a "vestir-se como jovens", adotam mímicas
infantis. A mulher que envelhece sabe muito bem que se deixa
de ser um objeto erótico não é somente porque sua carne não
oferece mais ao homem riquezas frescas: é também porque seu
passado, sua experiência fazem dela, queira ou não, uma pessoa;
lutou, amou, quis, sofreu, gozou por sua conta: esta autonomia
intimida-a; procura renegá-la; exagera sua feminilidade, enfeita-se, perfuma-se, faz-se toda encanto, graça, pura imanência; admira com um olhar ingênuo e entonações infantis o interlocutor
masculino, evoca com volubilidade suas recordações de menina;
ao invés de falar, cacareja, bate palmas, ri às gargalhadas. É
com uma espécie de sinceridade que representa essa comédia.
Pois o interesse novo que dedica a si mesma, o desejo de se arrancar às antigas rotinas e de partir novamente dão-lhe a impressão
de que recomeça.
Em verdade, não se trata de uma partida verdadeira; ela
não descobre, no mundo, objetivos para os quais possa projetar-se
num movimento livre e eficiente.
Sua agitação assume uma
forma excêntrica, incoerente e vã porque só se destina a com
pensar simbolicamente os erros e malogros do passado. Entre
outras coisas, a mulher esforçar-se-á por realizar, antes que seja
tarde demais, todos os seus desejos de criança e de adolescente:
uma volta ao piano, outra à escultura, ou a escrever, a viajar,
aprende a esquiar ou línguas estrangeiras. Tudo o que recusara
voluntariamente até então, ela resolve — antes que seja tarde
demais — acolher. Confessa sua repugnância por um marido
que tolerava antes e torna-se fria nos seus braços; ou, ao contrário, entrega-se a ardores que refreava; acabrunha o marido
com exigências, retorna à prática da masturbação, abandonada
desde a infância. As tendências homossexuais — que existem
de um modo larvar em quase todas as mulheres — manifestam-se.
Muitas vezes, o alvo dessas tendências transfere-as para a filha;
mas por vezes, também, é em relação a uma amiga que nascem
sentimentos insólitos.
Em sua obra Sex, life and faith, Rom
Landau conta a história seguinte, que lhe foi confiada pela interessada:Mme X. . . aproximava-se dos 50 anos; casada há vinte e cinco, mãe de três filhos adultos, ocupando uma posição proeminente nas organizações sociais e caritativas de sua cidade, encontrou em Londres uma mulher dez anos mais jovem e que, como ela, se dedicava a atividades sociais. Tornaram-se amigas e Mlle Y. . . ofereceu-lhe hospedagem para a viagem seguinte. Mme X... aceitou e, na segunda noite de sua estada, surpreendeu-se subitamente beijando apaixonada mente sua hospedeira: afirmou várias vezes não ter tido a menor ideia de como a coisa acontecera; passou a noite com a amiga e voltou para casa aterrorizada. Até então ignorava tudo da homossexualidade, não sabia sequer que "semelhante coisa" pudesse existir. Pensava em Mlle Y... com paixão e, pela primeira vez na vida, achou as carícias e o beijo quotidiano do marido pouco agradáveis. Resolveu rever a amiga para "tirar a limpo" as coisas e sua paixão aumentou ainda; essas relações enchiam-na de alegrias que jamais conhecera. Mas sentia-se atormentada pela ideia de ter cometido um pecado e consultou um médico, a fim de saber se havia uma "explicação científica" para seu estado e se este podia ser justificado por algum argumento moral.
Neste caso, o sujeito cedeu a um impulso espontâneo e ficou ele próprio profundamente desnorteado. Mas, muitas vezes, é
deliberadamente que a mulher procura viver os romances que
não conheceu, que dentro em breve não poderá mais conhecer.
Afasta-se do lar, já porque lhe parece indigno dela, e que deseja
a solidão, já porque busca a aventura. Se a encontra, lança-se
a ela avidamente. Assim ocorre nesta história narrada por Stekel:
Mme B. Z. tinha 40 anos, três filhos e atrás de si vinte anos de vida conjugal, quando começou a pensar que era incompreendida, que malograra na vida; dedicou-se a diversas atividades novas e, entre outras, esquiar nas montanhas; aí encontrou um homem de 30 anos, de quem se tornou amante; mas, dentro em breve, ele se apaixonou pela filha de Mme B. Z.; ela consentiu em que se casassem, para guardar junto de si o amante; havia entre a mãe e a filha um amor homossexual inconfessado, mas muito vivo, que explica em parte a decisão. Entretanto, a situação logo se tornou intolerável, o amante deixando algumas vezes o leito da mãe durante a noite para ir ter com a filha. Mme B. Z. tentou suicidar-se. Foi então — tinha 46 anos — que se tratou com Stekel. Decidiu-se por uma ruptura e a filha, por seu turno, renunciou a seu projeto de casamento. Mme B. Z. voltou a ser então uma esposa exemplar e abismou-se na devoção.
A mulher sobre quem pesa uma tradição de decência e de
honestidade nem sempre chega aos atos. Mas seus sonhos povoam-se de fantasmas eróticos que ela também suscita durante
a vigília; manifesta uma ternura exaltada e sensual pelos filhos,
nutre acerca do filho obsessões incestuosas, apaixona-se secretamente por um rapaz após outro; como a adolescente, é obceca
da por ideias de violação; conhece igualmente a vertigem da
prostituição; nela também a ambivalência de seus desejos e te
mores engendra uma ansiedade que por vezes provoca neuroses:
escandaliza seus parentes com condutas estranhas que, na verdade,
traduzem sua vida imaginária.
A fronteira entre o imaginário e o real é ainda mais indecisa nesse período turvo do que na puberdade. Um dos traços
mais marcados na mulher que envelhece é o sentimento de despersonalização que a faz perder todos os pontos de referência
objetivos. As pessoas que, em plena saúde, viram a morte de
muito perto, dizem ter experimentado uma curiosa impressão de
desdobramento; quando a gente se sente consciência, atividade,
liberdade, o objeto passivo cuja fatalidade se joga apresenta-se necessariamente como um outro: não é meu eu que um automóvel
atropela; não sou eu essa mulher velha que o espelho reflete.
A mulher que "nunca se sentiu tão jovem" e que nunca se viu
tão idosa, não consegue conciliar esses dois aspectos de si mesma; é em sonho que o tempo passa, que a duração a corrói.
Assim, a realidade dissipa-se e se ameniza: ao mesmo tempo
não se distingue muito bem da ilusão. A mulher confia em suas
evidências interiores, mais do que nesse estranho mundo em
que o tempo avança recuando, em que seu duplo não se parece
mais com ela, em que os acontecimentos a traíram. Por isso,
está ela predisposta aos êxtases, às iluminações, aos delírios.
E como o amor é então mais do que nunca sua preocupação essencial, é normal que se entregue à ilusão de que é amada. Nove em
dez dos erotômanos são mulheres, quase todas de 40 a 50 anos.
Entretanto, não é dado a toda gente transpor tão ousadamente o muro da realidade. Frustradas mesmo em seus sonhos, muitas mulheres procuram auxílio junto de Deus, contra todo o
amor humano; é no momento da menopausa que a coquete, a
apaixonada, a devassa se faz devota; as vagas ideias de destino,
de segredo, de personalidade incompreendida, que a mulher acaricia à beira de seu outono, encontram na religião uma unidade
racional.
A devota considera sua vida malograda como uma
provação enviada pelo Senhor; sua alma hauriu na desgraça méritos excepcionais que lhe outorgam a graça singular de ser visitada por Deus; ela acreditará de bom grado que o céu lhe envia
iluminações ou até — como Mme Krüdener — que a encarrega
piedosamente de uma missão. Tendo mais ou menos perdido o
sentido do real, a mulher é acessível a todas as sugestões durante
essa crise: um mentor está bem colocado para assumir uma
ascendência profunda sobre sua alma. Ela colherá também com
entusiasmo autoridades mais contestadas; é uma presa de antemão
designada às seitas religiosas, aos espíritos, aos profetas, aos curandeiros, a todos os charlatães. Isso não somente porque perdeu
todo senso crítico, ao perder o contato com o mundo dado, mas
ainda porque é ávida de uma verdade definitiva. Precisa de
um remédio, de uma fórmula, da chave que bruscamente a salvará, salvando o universo. Despreza mais do que nunca uma
lógica que evidentemente não poderia aplicar-se a seu caso singular; só lhe parecem convincentes os argumentos que lhe são
especialmente destinados: as revelações, as inspirações, as mensagens, os sinais, e até os milagres põem-se a florescer ao redor
dela. Suas descobertas levam-na por vezes aos caminhos da ação: lança-se a negócios, empresas, aventuras cuja ideia lhe foi insuflada por algum conselheiro ou alguma voz interior. Por vezes,
limita-se a sagrar-se detentora da verdade e da sabedoria absoluta.
Ativa ou contemplativa, sua atitude acompanha-se de exaltações
febris. A crise da menopausa corta em dois, brutalmente, a vida
feminina; é essa descontinuidade que dá à mulher a ilusão de
uma "vida nova"; é outro tempo que se abre diante dela; aborda-o com o fervor da convertida, convertida ao amor, à vida, a
Deus, à humanidade; nestas entidades, perde-se e magnifica-se.
Morreu e ressuscitou, encara a terra com um olhar que desvendou
os segredos do além e crê levantar voo para píacaros intatos.
Mas a terra não muda; os cimos continuam inatingíveis; as
mensagens recebidas — ainda que numa deslumbrante evidência
— decifram-se mal; as luzes interiores apagam-se; sobra diante
do espelho uma mulher que envelheceu de mais um dia desde a
véspera. Aos momentos de fervor sucedem mornas horas de de
pressão. O organismo indica esse ritmo, pois a diminuição hormônica é compensada por uma superatividade da hipófise; mas
é principalmente a situação psicológica que comanda essa alternância. Porque a agitação, as ilusões, o fervor são apenas uma
defesa contra a fatalidade do que foi. Novamente a angústia sufoca quem já tem a vida consumida sem que a morte a acolha.
Em lugar de lutar contra o desespero, ela escolhe frequente
mente intoxicar-se com ele. Remói queixas, saudades e recriminações; imagina maquinações tenebrosas da parte dos vizinhos
e dos parentes; se tem uma irmã ou uma amiga de sua idade
associada a sua vida, constroem por vezes, em conjunto, delírios
de perseguição. Mas principalmente põe-se a alimentar contra
o marido um ciúme mórbido: tem ciúme dos amigos, das irmãs,
do trabalho dele; e, com ou sem razão, acusa alguma rival de
ser responsável por todos esses males. É entre 50 e 55 anos
que os casos patológicos de ciúmes são mais numerosos.
As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
continua página 349...
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Leia também:
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
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Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"
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