Simone de Beauvoir
02. A Experiência Vivida
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
SlMONE DE BEAUVOIR
SEGUNDA PARTE
SITUAÇÃO
______________________________________________________
CAPÍTULO VI
SITUAÇÃO E CARÁTER DA MULHER
É POSSÍVEL agora compreender por que, nos requisitórios contra a mulher, dos gregos aos nossos dias, se encontram tantos traços comuns; sua condição permaneceu a mesma
através de mudanças superficiais e define isso que se chama
o "caráter" da mulher: esta "chafurda na imanência", é prudente
e mesquinha, tem espírito de contradição, não tem o senso da
verdade nem da exatidão, carece de moralidade, é baixamente
utilitária, mentirosa, comediante, interesseira...
Há em todas
estas afirmações uma verdade. Só que as condutas que se de
nunciam não são ditadas à mulher pelos seus hormônios nem
prefiguradas nos compartimentos de seu cérebro: são marcadas
pela sua situação. Dentro desta perspectiva, tentaremos esboçar
um panorama sintético que nos obrigará a certas repetições, mas
que nos permitirá apreender no conjunto de seu condicionamento
econômico, social, histórico, "o eterno feminino".
Opõe-se por vezes o "mundo feminino" ao universo masculino, mas é preciso sublinhar mais uma vez que as mulheres nunca
constituíram uma sociedade autônoma e fechada; estão integra
das na coletividade governada pelos homens e na qual ocupam
um lugar de subordinadas; estão unidas somente enquanto semelhantes por uma solidariedade mecânica: não há entre elas essa
solidariedade orgânica em que assenta toda uma comunidade uni
ficada; elas se esforçaram sempre — nos tempos dos mistérios
de Líêusis como hoje nos clubes, nos salões, nas reuniões beneficentes — por se ligar a fim de afirmarem um "contra-universo, mas é ainda no seio do universo masculino que o colocam.
E daí vem o paradoxo de sua situação: elas pertencem ao mesmo
tempo ao mundo masculino e a uma esfera em que esse mundo
e contestado; encerradas nessa esfera, investidas por aquele mundo, não podem instalar-se em nenhum lugar com tranquilidade.
Sua docilidade comporta sempre uma recusa, a recusa de uma
aceitação; nisto sua atitude aproxima-se da atitude da moça;
mas é mais difícil de sustentar porque não se trata somente
para a mulher adulta de sonhar sua vida através de símbolos,
e sim de vivê-la.
A própria mulher reconhece que o universo em seu conjunto é masculino; os homens modelaram-no, dirigiram-no e
ainda hoje o dominam; ela não se considera responsável; está
entendido que é inferior, dependente; não aprendeu as lições da
violência, nunca emergiu, como um sujeito, em face dos outros
membros da coletividade; fechada em sua carne, em sua casa,
apreende-se como passiva em face desses deuses de figura humana que definem fins e valores. Neste sentido, há verdade
no slogan que a condena a permanecer "uma eterna criança";
também se dizia dos operários, dos escravos negros, dos indígenas colonizados que eram "crianças grandes", enquanto não os
temeram; isso significava que deviam aceitar, sem discussão, verdades e leis que outros homens lhes propunham. O quinhão
da mulher é a obediência e o respeito. Ela não tem domínio,
nem sequer em pensamento, sobre essa realidade que a cerca.
É essa realidade a seus olhos uma presença opaca. Efetivamente,
ela não fez a aprendizagem das técnicas que lhe permitiriam
dominar a matéria; não é com a matéria que lhe cabe lutar, e
sim com a vida e esta não se deixa dominar pelas ferramentas;
não se pode senão suportar-lhe as leis secretas. O mundo não se
apresenta à mulher como um "conjunto de utensílios" intermediário entre sua vontade e seus fins, tal qual o define Heidegger: é
ao contrário uma resistência obstinada, indomável; ele é dominado pela fatalidade e cortado de caprichos misteriosos. Esse
mistério de um morango de sangue que se transforma em um
ser humano no ventre da mãe, nenhuma matemática o põe em
equação, nenhuma máquina o poderá apressar ou retardar; ela
experimenta a resistência da duração que os mais engenhosos
aparelhos malogram em dividir ou multiplicar; experimenta-a
em sua carne submetida ao ritmo da lua e que os anos amadure
cem primeiramente e depois corroem. Quotidianamente, a cozinha ensina-lhe paciência e passividade; é uma alquimia; cabe-lhe
obedecer ao fogo, à água; "esperar que o açúcar derreta", que
a pasta fermente e também que a roupa seque, que as frutas
amadureçam. Os trabalhos caseiros aparentam-se a uma atividade técnica; mas são por demais rudimentares, por demais monótonos para convencer a mulher das leis da causalidade mecânica.
Aliás mesmo nesse terreno, as coisas têm seus caprichos; há
tecidos que encolhem e outros que não encolhem ao serem lava
dos manchas que desaparecem e outras que não, objetos que se
quebram sozinhos, poeiras que germinam como plantas. A mentalidade da mulher perpetua a das civilizações agrícolas que adoram as virtudes mágicas da terra: ela acredita na magia. Seu
erotismo passivo desvenda-lhe o desejo, não como vontade e agres
são, mas como uma atração análoga à que faz oscilar a varinha
do pesquisador de nascentes; a simples presença de sua carne
incha e entesa o sexo do macho, porque uma água escondida
não faria tremer a vara da aveleira? Ela sente-se cercada de
ondas, de radiações, de fluidos; acredita na telepatia, na astrologia, na radiestesia, na tina de Mesmer, na teosofia, nas mesas
giratórias, nas videntes, nos curandeiros; introduz na religião as
superstições primitivas: círios, ex-votos etc; encarna nos santos
os antigos espíritos da natureza: este protege os viajantes, outro
as parturientes, outro encontra os objetos perdidos; e naturalmente
nenhum prodígio a espanta; sua atitude será a da conjuração
e da prece; para obter determinado resultado, obedecerá a certos
ritos comprovados. É fácil compreender por que é rotineira;
o tempo não tem para ela uma dimensão de novidade, não é um
jorro criador; como é destinada à repetição só vê no futuro
uma duplicata do passado; conhecendo-se a palavra e a fórmula,
a duração alia-se às forças da fecundidade: mas mesmo esta obedece ao ritmo dos meses, das estações; o ciclo de cada gravidez, de
cada floração reproduz identicamente o que o precedeu; neste movimento circular, o único devir do tempo é uma lenta degradação: ele corrói os móveis e as roupas, como estraga o rosto; as forças
férteis são pouco a pouco destruídas pela fuga dos anos. Por isso,
a mulher não confia nessa força que se obstina em desfazer.
Não somente ela ignora o que seja uma verdadeira ação,
capaz de mudar a face do mundo, mas ainda perde-se no meio
desse mundo como no coração de uma imensa e confusa nebulosa.
Sabe servir-se mal da lógica masculina. Stendhal observava que a
manejava tão espertamente quanto o homem, quando a necessidade a obrigava a isso, mas trata-se de um instrumento que quase não tem a oportunidade de utilizar. Um silogismo não serve
nem para acertar uma maionese nem para acalmar o choro da
criança; os raciocínios masculinos não são adequados à realidade de que tem experiência. E no reino dos homens, desde que não faz nada, seu pensamento, não aderindo a nenhum projeto,
não se distingue do sonho; por falta de eficiência, não tem o
senso da verdade; só anda às voltas com imagens e palavras, eis
por que acolhe sem embaraço as assertivas mais contraditórias;
preocupa-se pouco com elucidar os mistérios de um campo que
de toda maneira está fora de seu alcance, contenta-se, a respeito,
com conhecimentos terrivelmente vagos: confunde os partidos, as
opiniões, os lugares, as pessoas, os acontecimentos; há em sua
cabeça uma estranha bagunça. Afinal, ver com clareza isso tudo
não é de sua alçada: ensinaram-lhe a aceitar a autoridade masculina; renuncia pois a criticar, a examinar, a julgar por sua
conta. Confia na casta superior. Eis por que o mundo masculino
se apresenta a ela como uma realidade transcendente, um absoluto. "Os homens fazem os deuses, diz Frazer, as mulheres adoram-nos." Eles não podem ajoelhar-se com uma convicção total
diante dos ídolos que forjaram; mas quando as mulheres encontram em seu caminho essas grandes estátuas, não imaginam que
uma mão as fabricou e prosternam-se documente¹. Em particular, gostam que a Ordem, o Direito se encarnem em um chefe.
Em todo Olimpo há um deus soberano; a prestigiosa essência
viril deve reunir-se em um arquétipo de quem pai, marido, amantes são apenas um pálido reflexo. É algo humorístico dizer que
o culto que rendem a esse grande totem é sexual; o que é verdade é que em face dele satisfazem plenamente o sonho infantil
de demissão e de genuflexão. Na França os generais: Boulanger,
Pétain,
De Gaulle², sempre tiveram as mulheres por eles;
cumpre lembrar com que frêmitos expressivos as jornalistas do
Humanité evocavam outrora Tito e seu belo uniforme. O general, o ditador — olhar de águia, mento voluntarioso — é o pai celeste
que exige o universo da seriedade, garantia absoluta de todos os
valores. É da própria ineficiência e da ignorância que nasce o
respeito das mulheres pelos heróis e pelas leis do mundo masculino; reconhecem-nos não por um julgamento, mas por um ato de fé.
A fé haure sua força fanática do fato de que não é um saber; o que
ela afirma, ela o afirma incondicionalmente, contra a razão, contra
a história, contra os desmentidos. Essa reverência obstinada pode
assumir segundo as circunstâncias dois aspectos: ora é ao conteúdo
da lei, ora unicamente à sua forma vazia que a mulher adere com
paixão. Se pertence à elite privilegiada que tira benefícios da ordem social estabelecida, ela a quer inabalável e faz-se notar pela
sua intransigência. O homem sabe que pode reconstruir outras instituições, outra ética, outro código; apreendendo-se como transcendência, encara também a história como um devir; o mais conservador sabe que certa evolução é fatal e que a ela deve adaptar sua
ação e seu pensamento; a mulher, não participando da história,
não lhe compreende as necessidades; desconfia do futuro e almeja
sustar o tempo. Não pressente nenhum meio de repovoar o céu
se abaterem os ídolos propostos por seu pai, seus irmãos, seu
marido; esforça-se encarniçadamente por defendê-los. Durante
a Guerra da Secessão ninguém entre os sulistas foi tão apaixonadamente escravocrata quanto as mulheres; na Inglaterra, no
momento da guerra dos Bôeres, na França contra a Comuna, foram elas as mais ferozes; procuram compensar sua inação pela
intensidade dos sentimentos que exibem; em caso de vitória, desencadeiam-se como hienas contra o inimigo abatido; em caso
de derrota, recusam-se asperamente a qualquer conciliação; não
passando suas ideias de atitudes, é-lhes indiferente defender causas obsoletas: podem ser legitimistas em 1914, tzaristas em 1949.
O homem encoraja-as por vezes sorrindo: agrada-lhe ver refle
tidas sob uma forma fanática as opiniões que exprime com mais
medida; mas por vezes ele se agasta também com o aspecto estúpido e obstinado de que revestem então suas próprias ideias.
[1] Cf. J.-P. Sartre. Les Mains sales.
"Hoederer:
São cabeçudas, compreendes, aceitam as ideias convencionais, acreditam então
nelas como no bom Deus. Somos nós que fazemos as ideias e conhecemos os segredos da cozinha; nunca estamos inteiramente convencidos
de ter razão."
[2] "À passagem do general, o público era principalmente com
posto de mulheres e crianças" (Dos jornais, a propósito da viagem à
Savóia, em setembro de 1948).
"Os homens aplaudiram o discurso do general, mas as mulheres
distinguiam-se pelo entusiasmo.
Observava-se que algumas estavam literalmente em êxtase, valorizando particularmente quase todas as palavras
e aplaudindo, gritando com tal fervor que seu rosto como se tingia
de vermelho-papoula." (Aux Êcoutes, 11 de abril de 1947.)
[3] Cf. Gide, Journal. "Créuse ou a mulher de Lot: uma se retarda, a outra olha para trás, o que é uma maneira de se retardar. Não há maior grito de paixão do que este:
Et Phèdre, au Labyrinthe avec vous descendueSe serait avec vous retrouvée ou perdue.
Mas a paixão cega-a; ao fim de alguns passos, em verdade, ela
ter-se-ia sentado, ou houvera querido voltar para trás — ou, enfim,
ter-se-ia feito carregar."
[4] Assim é que a atitude das mulheres dos operários mudou
profundamente num século; durante as últimas greves nas minas do
Norte, em particular, elas deram provas de tanta paixão e energia
quanto os homens, participando de manifestações e lutando ao lado deles.
continua página 369...
_______________
O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
____________________
Leia também:
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (1)
______________________
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"
Nenhum comentário:
Postar um comentário