segunda-feira, 13 de julho de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (1)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO VI
SITUAÇÃO E CARÁTER DA MULHER
 

     É POSSÍVEL agora compreender por que, nos requisitórios contra a mulher, dos gregos aos nossos dias, se encontram tantos traços comuns; sua condição permaneceu a mesma através de mudanças superficiais e define isso que se chama o "caráter" da mulher: esta "chafurda na imanência", é prudente e mesquinha, tem espírito de contradição, não tem o senso da verdade nem da exatidão, carece de moralidade, é baixamente utilitária, mentirosa, comediante, interesseira... Há em todas estas afirmações uma verdade. Só que as condutas que se de nunciam não são ditadas à mulher pelos seus hormônios nem prefiguradas nos compartimentos de seu cérebro: são marcadas pela sua situação. Dentro desta perspectiva, tentaremos esboçar um panorama sintético que nos obrigará a certas repetições, mas que nos permitirá apreender no conjunto de seu condicionamento econômico, social, histórico, "o eterno feminino".  
     Opõe-se por vezes o "mundo feminino" ao universo masculino, mas é preciso sublinhar mais uma vez que as mulheres nunca constituíram uma sociedade autônoma e fechada; estão integra das na coletividade governada pelos homens e na qual ocupam um lugar de subordinadas; estão unidas somente enquanto semelhantes por uma solidariedade mecânica: não há entre elas essa solidariedade orgânica em que assenta toda uma comunidade uni ficada; elas se esforçaram sempre — nos tempos dos mistérios de Líêusis como hoje nos clubes, nos salões, nas reuniões beneficentes — por se ligar a fim de afirmarem um "contra-universo, mas é ainda no seio do universo masculino que o colocam. E daí vem o paradoxo de sua situação: elas pertencem ao mesmo tempo ao mundo masculino e a uma esfera em que esse mundo e contestado; encerradas nessa esfera, investidas por aquele mundo, não podem instalar-se em nenhum lugar com tranquilidade. Sua docilidade comporta sempre uma recusa, a recusa de uma aceitação; nisto sua atitude aproxima-se da atitude da moça; mas é mais difícil de sustentar porque não se trata somente para a mulher adulta de sonhar sua vida através de símbolos, e sim de vivê-la.
     A própria mulher reconhece que o universo em seu conjunto é masculino; os homens modelaram-no, dirigiram-no e ainda hoje o dominam; ela não se considera responsável; está entendido que é inferior, dependente; não aprendeu as lições da violência, nunca emergiu, como um sujeito, em face dos outros membros da coletividade; fechada em sua carne, em sua casa, apreende-se como passiva em face desses deuses de figura humana que definem fins e valores. Neste sentido, há verdade no slogan que a condena a permanecer "uma eterna criança"; também se dizia dos operários, dos escravos negros, dos indígenas colonizados que eram "crianças grandes", enquanto não os temeram; isso significava que deviam aceitar, sem discussão, verdades e leis que outros homens lhes propunham. O quinhão da mulher é a obediência e o respeito. Ela não tem domínio, nem sequer em pensamento, sobre essa realidade que a cerca. É essa realidade a seus olhos uma presença opaca. Efetivamente, ela não fez a aprendizagem das técnicas que lhe permitiriam dominar a matéria; não é com a matéria que lhe cabe lutar, e sim com a vida e esta não se deixa dominar pelas ferramentas; não se pode senão suportar-lhe as leis secretas. O mundo não se apresenta à mulher como um "conjunto de utensílios" intermediário entre sua vontade e seus fins, tal qual o define Heidegger: é ao contrário uma resistência obstinada, indomável; ele é dominado pela fatalidade e cortado de caprichos misteriosos. Esse mistério de um morango de sangue que se transforma em um ser humano no ventre da mãe, nenhuma matemática o põe em equação, nenhuma máquina o poderá apressar ou retardar; ela experimenta a resistência da duração que os mais engenhosos aparelhos malogram em dividir ou multiplicar; experimenta-a em sua carne submetida ao ritmo da lua e que os anos amadure cem primeiramente e depois corroem. Quotidianamente, a cozinha ensina-lhe paciência e passividade; é uma alquimia; cabe-lhe obedecer ao fogo, à água; "esperar que o açúcar derreta", que a pasta fermente e também que a roupa seque, que as frutas amadureçam. Os trabalhos caseiros aparentam-se a uma atividade técnica; mas são por demais rudimentares, por demais monótonos para convencer a mulher das leis da causalidade mecânica. Aliás mesmo nesse terreno, as coisas têm seus caprichos; há tecidos que encolhem e outros que não encolhem ao serem lava dos manchas que desaparecem e outras que não, objetos que se quebram sozinhos, poeiras que germinam como plantas. A mentalidade da mulher perpetua a das civilizações agrícolas que adoram as virtudes mágicas da terra: ela acredita na magia. Seu erotismo passivo desvenda-lhe o desejo, não como vontade e agres são, mas como uma atração análoga à que faz oscilar a varinha do pesquisador de nascentes; a simples presença de sua carne incha e entesa o sexo do macho, porque uma água escondida não faria tremer a vara da aveleira? Ela sente-se cercada de ondas, de radiações, de fluidos; acredita na telepatia, na astrologia, na radiestesia, na tina de Mesmer, na teosofia, nas mesas giratórias, nas videntes, nos curandeiros; introduz na religião as superstições primitivas: círios, ex-votos etc; encarna nos santos os antigos espíritos da natureza: este protege os viajantes, outro as parturientes, outro encontra os objetos perdidos; e naturalmente nenhum prodígio a espanta; sua atitude será a da conjuração e da prece; para obter determinado resultado, obedecerá a certos ritos comprovados. É fácil compreender por que é rotineira; o tempo não tem para ela uma dimensão de novidade, não é um jorro criador; como é destinada à repetição só vê no futuro uma duplicata do passado; conhecendo-se a palavra e a fórmula, a duração alia-se às forças da fecundidade: mas mesmo esta obedece ao ritmo dos meses, das estações; o ciclo de cada gravidez, de cada floração reproduz identicamente o que o precedeu; neste movimento circular, o único devir do tempo é uma lenta degradação: ele corrói os móveis e as roupas, como estraga o rosto; as forças férteis são pouco a pouco destruídas pela fuga dos anos. Por isso, a mulher não confia nessa força que se obstina em desfazer.
     Não somente ela ignora o que seja uma verdadeira ação, capaz de mudar a face do mundo, mas ainda perde-se no meio desse mundo como no coração de uma imensa e confusa nebulosa. Sabe servir-se mal da lógica masculina. Stendhal observava que a manejava tão espertamente quanto o homem, quando a necessidade a obrigava a isso, mas trata-se de um instrumento que quase não tem a oportunidade de utilizar. Um silogismo não serve nem para acertar uma maionese nem para acalmar o choro da criança; os raciocínios masculinos não são adequados à realidade de que tem experiência. E no reino dos homens, desde que não faz nada, seu pensamento, não aderindo a nenhum projeto, não se distingue do sonho; por falta de eficiência, não tem o senso da verdade; só anda às voltas com imagens e palavras, eis por que acolhe sem embaraço as assertivas mais contraditórias; preocupa-se pouco com elucidar os mistérios de um campo que de toda maneira está fora de seu alcance, contenta-se, a respeito, com conhecimentos terrivelmente vagos: confunde os partidos, as opiniões, os lugares, as pessoas, os acontecimentos; há em sua cabeça uma estranha bagunça. Afinal, ver com clareza isso tudo não é de sua alçada: ensinaram-lhe a aceitar a autoridade masculina; renuncia pois a criticar, a examinar, a julgar por sua conta. Confia na casta superior. Eis por que o mundo masculino se apresenta a ela como uma realidade transcendente, um absoluto. "Os homens fazem os deuses, diz Frazer, as mulheres adoram-nos." Eles não podem ajoelhar-se com uma convicção total diante dos ídolos que forjaram; mas quando as mulheres encontram em seu caminho essas grandes estátuas, não imaginam que uma mão as fabricou e prosternam-se documente¹. Em particular, gostam que a Ordem, o Direito se encarnem em um chefe. Em todo Olimpo há um deus soberano; a prestigiosa essência viril deve reunir-se em um arquétipo de quem pai, marido, amantes são apenas um pálido reflexo. É algo humorístico dizer que o culto que rendem a esse grande totem é sexual; o que é verdade é que em face dele satisfazem plenamente o sonho infantil de demissão e de genuflexão. Na França os generais: Boulanger, Pétain, De Gaulle², sempre tiveram as mulheres por eles; cumpre lembrar com que frêmitos expressivos as jornalistas do Humanité evocavam outrora Tito e seu belo uniforme. O general, o ditador — olhar de águia, mento voluntarioso — é o pai celeste que exige o universo da seriedade, garantia absoluta de todos os valores. É da própria ineficiência e da ignorância que nasce o respeito das mulheres pelos heróis e pelas leis do mundo masculino; reconhecem-nos não por um julgamento, mas por um ato de fé. A fé haure sua força fanática do fato de que não é um saber; o que ela afirma, ela o afirma incondicionalmente, contra a razão, contra a história, contra os desmentidos. Essa reverência obstinada pode assumir segundo as circunstâncias dois aspectos: ora é ao conteúdo da lei, ora unicamente à sua forma vazia que a mulher adere com paixão. Se pertence à elite privilegiada que tira benefícios da ordem social estabelecida, ela a quer inabalável e faz-se notar pela sua intransigência. O homem sabe que pode reconstruir outras instituições, outra ética, outro código; apreendendo-se como transcendência, encara também a história como um devir; o mais conservador sabe que certa evolução é fatal e que a ela deve adaptar sua ação e seu pensamento; a mulher, não participando da história, não lhe compreende as necessidades; desconfia do futuro e almeja sustar o tempo. Não pressente nenhum meio de repovoar o céu se abaterem os ídolos propostos por seu pai, seus irmãos, seu marido; esforça-se encarniçadamente por defendê-los. Durante a Guerra da Secessão ninguém entre os sulistas foi tão apaixonadamente escravocrata quanto as mulheres; na Inglaterra, no momento da guerra dos Bôeres, na França contra a Comuna, foram elas as mais ferozes; procuram compensar sua inação pela intensidade dos sentimentos que exibem; em caso de vitória, desencadeiam-se como hienas contra o inimigo abatido; em caso de derrota, recusam-se asperamente a qualquer conciliação; não passando suas ideias de atitudes, é-lhes indiferente defender causas obsoletas: podem ser legitimistas em 1914, tzaristas em 1949. O homem encoraja-as por vezes sorrindo: agrada-lhe ver refle tidas sob uma forma fanática as opiniões que exprime com mais medida; mas por vezes ele se agasta também com o aspecto estúpido e obstinado de que revestem então suas próprias ideias.

[1] Cf. J.-P. Sartre. Les Mains sales. "Hoederer: São cabeçudas, compreendes, aceitam as ideias convencionais, acreditam então nelas como no bom Deus. Somos nós que fazemos as ideias e conhecemos os segredos da cozinha; nunca estamos inteiramente convencidos de ter razão."
[2] "À passagem do general, o público era principalmente com posto de mulheres e crianças" (Dos jornais, a propósito da viagem à Savóia, em setembro de 1948).
      "Os homens aplaudiram o discurso do general, mas as mulheres distinguiam-se pelo entusiasmo. Observava-se que algumas estavam literalmente em êxtase, valorizando particularmente quase todas as palavras e aplaudindo, gritando com tal fervor que seu rosto como se tingia de vermelho-papoula." (Aux Êcoutes, 11 de abril de 1947.)

     É somente nas civilizações e nas classes fortemente integradas que a mulher se apresenta assim irredutível. Geralmente, sendo sua fé cega, ela respeita a lei simplesmente por ser a lei; que a lei mude, ela conserva seu prestígio; aos olhos da mulher, a força cria o direito porquanto os direitos que reconhece aos homens decorrem da força masculina; eis porque, quando uma coletividade se decompõe, são elas as primeiras a se lançar aos pés dos vencedores. De uma maneira geral aceitam o que é. Um dos traços que as caracterizam é a resignação. Quando desenterraram as estátuas de Pompéia, observaram que os homens estavam entesados em movimentos de revolta, desafiando o céu ou procurando fugir, ao passo que as mulheres, curvadas, encolhidas sobre si mesmas, voltavam o rosto para a terra. Elas sabem que são impotentes contra as coisas: os vulcões, os policiais, os patrões, os homens. "As mulheres são feitas para sofrer, dizem elas. É a vida... nada se pode contra ela." Essa resignação engendra a paciência que amiúde se admira nelas. Suportam muito melhor do que o homem o sofrimento físico: são capazes de uma coragem estoica quando as circunstâncias o exigem: sem a coragem agressiva do homem, muitas mulheres distinguem-se pela calma tenacidade de sua resistência passiva; enfrentam as crises, a miséria, a desgraça mais energicamente do que os maridos; respeitosas da duração que nenhuma pressa pode vencer, não medem seu tempo; quando aplicam sua obstinação serena a alguma empresa, obtêm, por vezes, resultados brilhantes. "O que a mulher quer...", diz o provérbio. Numa mulher generosa, a resignação assume a forma da indulgência: ela admite tudo, não condena ninguém porque estima que nem as pessoas nem as coisas podem ser diferentes do que são. Uma orgulhosa pode fazer disso uma virtude altiva, como Mme de Charrière entesada em seu estoicismo. Mas ela engendra também uma prudência estéril; as mulheres tentam sempre antes conservar, consertar, arranjar, de preferência a destruir e reconstruir. Preferem os compromissos e as transações às revoluções. No século XIX, constituíram um dos maiores obstáculos ao esforço de emancipação proletária; para uma Flora Tristan, uma Louise Michel, quantas donas de casa perdidas em sua timidez não suplicavam ao marido que não corresse nenhum risco! Tinham medo, não somente das greves mas ainda da falta de trabalho, da miséria: temiam que a revolta fosse um pecado. Compreende-se que, sofrimento por sofrimento, prefiram a rotina à aventura: alcançam mais facilmente sua parte de magra felicidade em casa do que nas estradas. Sua sorte confunde-se com a das coisas perecíveis; perdendo-as, perderiam tudo. Só um sujeito livre, afirmando-se para além da duração, pode vencer toda ruína; esse supremo recurso, proibiram-no à mulher. É essencialmente porque nunca experimentou os poderes da liberdade que ela não acredita na libertação: o mundo parece-lhe regido por um destino obscuro que seria presunçoso desafiar. Esses caminhos perigosos que a querem obrigar a seguir, ela não os abriu ela própria: é normal que neles não se precipite cora entusiasmo³. Que lhe franqueiem o futuro e ela não mais se agarrará ao passado. Quando incitam concretamente as mulheres à ação, quando elas se reconhecem nos objetivos que lhes designam, são tão ousadas e corajosas quanto os homens4.

[3] Cf. Gide, Journal. "Créuse ou a mulher de Lot: uma se retarda, a outra olha para trás, o que é uma maneira de se retardar. Não há maior grito de paixão do que este:

Et Phèdre, au Labyrinthe avec vous descendue 
Se serait avec vous retrouvée ou perdue. 

Mas a paixão cega-a; ao fim de alguns passos, em verdade, ela ter-se-ia sentado, ou houvera querido voltar para trás — ou, enfim, ter-se-ia feito carregar."
[4] Assim é que a atitude das mulheres dos operários mudou profundamente num século; durante as últimas greves nas minas do Norte, em particular, elas deram provas de tanta paixão e energia quanto os homens, participando de manifestações e lutando ao lado deles.  

continua página 369...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (1)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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