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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 6 (f) ... Habilmente

Capítulo 6


continuando para o fim...


Habilmente, rapidamente, dirigiu pela alameda curva entre álamos e carvalhos, pela grama do parque, cujo declive era tão suave que se fosse água teria se espalhado pela praia como uma lisa maré verde. Plantados aqui e ali havia grupos solenes de faias e carvalhos. Os veados caminhavam entre as árvores, um branco como a neve, outro com a cabeça de lado, pois alguma cerca de arame tinha prendido os seus chifres. Tudo isso, as árvores, os veados, a grama, ela observava com a maior satisfação, como se sua mente tivesse se tornado um líquido que fluísse ao redor das coisas e as envolvesse completamente. No minuto seguinte parou no pátio, onde por tantas centenas de anos chegara a cavalo ou de carruagem de três parelhas, com homens cavalgando à frente, ou vindo atrás; onde plumas tinham balançado, tochas brilhado, e as mesmas árvores floridas que agora deixam as folhas caírem tinham sacudido suas flores. Ela agora estava sozinha. As folhas de outono estavam caindo. O porteiro abriu os grandes portões. “Bom dia, Jaime”, disse ela, “há coisas no carro. Pode trazê-las?”, palavras sem beleza, interesse ou significado em si mesmas, é certo, mas agora tão repletas de significado que caíam como nozes maduras de uma árvore e provavam que, quando a pele enrugada do comum é recheada de significado, satisfaz surpreendentemente os sentidos. Isto era verdadeiro agora em relação a cada movimento e ação, por mais costumeiros que fossem; de modo que ver Orlando trocar a saia por um par de calças de bombazina e uma jaqueta de couro — o que fez em menos de três minutos — era ficar encantado com a beleza do movimento, como se Madame Lopokova estivesse demonstrando sua melhor arte. Então dirigiu-se para a sala de jantar, onde os velhos amigos Dryden, Pope, Swift, Addison olharam-na a princípio gravemente, como que dizendo: “Eis quem ganhou o prêmio!” Mas, quando refletiram que se tratava de duzentos guinéus, balançaram a cabeça aprovando. Duzentos guinéus, pareciam dizer; duzentos guinéus não são para se desprezar. Ela cortou uma fatia de pão e de presunto, juntou-as e começou a comer passeando pela sala para lá e para cá, e assim abandonou as boas maneiras em um segundo, sem perceber. Depois de cinco ou seis voltas, esvaziou um copo de vinho tinto espanhol e, enchendo outro que levava na mão, atravessou o longo corredor e uma dúzia de salas e assim começou a perambular pela casa, escoltada por galgos e spaniels que escolheu para acompanhá-la. 
Isso também era parte de sua rotina diária. Chegar em casa e deixar sua avó sem um beijo era como voltar e deixar a casa sem percorrê-la. Imaginava que os quartos se iluminavam quando ela entrava; que se agitavam abriam os olhos, como se tivessem dormido durante a sua ausência. Imaginava também que centenas e milhares de vezes ela os tinha visto e que nunca pareciam duas vezes os mesmos, como se uma vida tão longa quanto a deles tivesse acumulado milhares de modos que mudavam com inverno e verão, com tempo claro e sombrio, com a sua própria sorte e com os temperamentos das pessoas que os visitavam. Eram sempre polidos com estranhos, mas um pouco enfastiados; com ela eram inteiramente francos e à vontade. E por que não? Eles se conheciam por quase quatro séculos, agora. Não tinham nada a esconder. Ela conhecia suas tristezas e alegrias. Conhecia a idade de cada parte deles e seus pequenos segredos — uma gaveta secreta, um armário disfarçado ou algum defeito talvez, como um pedaço remendado ou acrescentado depois. Eles também a conheciam em todos os seus modos e transformações. Ela não tinha nada a esconder deles; estivera lá como menino e como mulher, chorando e dançando, pensativa e alegre. No banco desta janela escrevera os primeiros versos; naquela capela casara. Seria enterrada ali, refletiu, ajoelhando-se no parapeito da janela, no longo corredor, e bebericando o vinho espanhol. Embora não pudesse imaginar, o corpo de leopardo heráldico estaria formando poças amarelas no chão, no dia em que a enterrassem entre os seus antepassados. Ela, que não acreditava em nenhuma imortalidade, não podia deixar de sentir que sua alma estaria indo e vindo para sempre com os vermelhos dos painéis e os verdes dos sofás. Pois o aposento — acabava de entrar no quarto de dormir do embaixador — brilhava como uma concha que, tendo ficado séculos no fundo do mar, fora recoberta e pintada pela água, com um milhão de cores; era rosa e amarela, verde e cor de areia. Era frágil como uma concha, tão iridescente e tão vazio. Nenhum embaixador dormiria ali outra vez. Ah!, mas ela sabia onde o coração da casa ainda batia. Gentilmente abrindo a porta, permaneceu na soleira de modo que (imaginava) o aposento não pudesse vê-la e contemplou a tapeçaria que se levantava e caía com a eterna e suave brisa que nunca deixava de agitá-la. O caçador ainda cavalgava; Dafne ainda voava. O coração ainda batia, pensou, embora muito fraco, embora muito distante, o frágil, indomável coração do imenso edifício. 
Agora, chamando os cachorros, passou pela galeria cujo chão era coberto com troncos de carvalhos serrados. Filas de cadeiras, com os veludos desbotados, estavam encostadas à parede, com braços abertos para Elizabeth, para Jaime, para Shakespeare, talvez, para Cecil, que nunca vinham. Essa visão entristeceu-a. Desamarrou a corda que as cercava. Sentou na cadeira da rainha; abriu um livro manuscrito que estava sobre a mesa de Lady Betty; revolveu com os dedos as velhas pétalas de rosas; escovou o cabelo curto com a escova de prata do rei Jaime, sacudiu-se para cima e para baixo na cama dele (mas nenhum rei dormiria lá novamente, apesar dos lençóis novos de Luísa) e comprimiu o rosto contra a gasta colcha prateada que a cobria. Mas por toda parte havia pequenos sacos de alfazema para afastar as traças e avisos impressos “favor não tocar”, que, embora ela mesma tivesse colocado, pareciam censurá-la, A casa não era mais inteiramente sua, suspirou. Pertencia agora ao tempo; à história; estava fora do contato e do controle dos vivos. Ali nunca mais se derramaria cerveja, pensou (estava no quarto onde ficara o velho Nick Greene), nem se fariam buracos de queimadura no carpete. Nunca mais duzentos criados viriam correndo e gritando pelos corredores, com panelas quentes e com grandes galhos para as grandes lareiras. Nunca mais se prepararia cerveja preta, nem se fariam velas, nem se moldariam selas, nem se talhariam pedras nas oficinas do lado de fora da casa. Martelos e malhos estavam agora silenciosos. Cadeiras e camas estavam vazias; jarros de ouro e prata trancados em vitrines. As grandes asas do silêncio abanavam para cima e para baixo na casa vazia. 
Assim sentou-se na extremidade da galeria com os cachorros deitados à sua volta, na poltrona dura da rainha Elizabeth. A galeria se estendia ao longe, até um ponto onde a luz quase falhava. Era como um túnel enterrado profundamente no passado. Enquanto passeava os olhos, podia ver gente rindo e conversando; grandes homens que conhecera; Dryden, Swift e Pope; e estadistas em colóquio; e amantes flertando nos bancos das janelas; e gente comendo e bebendo em longas mesas; e a fumaça da lenha volteando sobre suas cabeças e fazendo-os espirrar e tossir. Ainda mais longe viu grupos de esplêndidos dançarinos formados para a quadrilha. Uma música aflautada, frágil, mas apesar de tudo imponente, começou a tocar. Um órgão retumbou. Um caixão foi trazido para a capela. Um cortejo de casamento saía dali. Homens armados com capacetes partiam para a guerra. Traziam estandartes de Floddene Poitiers, e penduravam-nos na parede. Assim a extensa galeria ficou repleta; e ainda perscrutando adiante, pensou distinguir bem no fundo, além dos elisabetanos, dos Tudors, alguém mais velho, mais distante, mais sombrio, uma figura encapotada, monástica, austera, um monge, segurando um livro entre as mãos, murmurando... 
Como um trovão, o relógio de pé bateu quatro horas. Nunca um terremoto demoliu assim uma cidade inteira. A galeria e todos os seus ocupantes foram reduzidos a pó. Seu próprio rosto, que estivera escuro e sombrio enquanto olhava, iluminou-se com uma explosão de pólvora. Nessa mesma luz tudo que a cercava mostrava-se com extrema nitidez. Viu duas moscas girando e observou o brilho azul de seus corpos; viu um nó na madeira onde estava o seu pé e o tremor da orelha de um de seus cachorros. Ao mesmo tempo ouviu um galho quebrando no jardim, uma ovelha balindo no parque, um grito agudo pela janela. Seu próprio corpo tremeu e vibrou como se tivesse ficado despida de repente, numa forte geada. No entanto, ao contrário do que fizera quando o relógio batera dez horas em Londres, permaneceu completamente serena (porque agora ela era una e íntegra e apresentava, talvez, uma superfície maior para o choque do tempo). Levantou-se, mas sem precipitação, chamou os cachorros e desceu a escada com firmeza mas com grande agilidade de movimentos e foi para o jardim. Aqui as sombras das plantas eram miraculosamente diversificadas. Observou grão por grão da terra dos canteiros, como se tivesse um microscópio nos olhos. Viu o emaranhado dos ramos de cada árvore. Cada folha de grama era diferente, e cada nervura, e cada pétala. Viu Stubbs, o jardineiro, vindo pela alameda, e era visível cada botão de suas polainas; viu Betty e Prince, os cavalos da charrete, e nunca notara tão claramente a estrela branca na testa de Betty, e três pelos mais longos que caíam da cauda de Prince. Lá fora no pátio as velhas paredes cinzentas da casa pareciam uma fotografia recente, arranhada; ouviu o alto-falante condensando no terraço uma música de dança que se ouvia em Viena, na grande Casa de Ópera, de veludo vermelho. Estimulada e excitada pelo momento presente, sentia-se também estranhamente amedrontada, como se cada segundo abrisse uma brecha no golfo do tempo e pudesse trazer consigo algum perigo desconhecido. A tensão era implacável e rigorosa demais para ser suportada sem desconforto. Caminhou mais rapidamente do que desejava, como se suas pernas se movessem sozinhas através do jardim, saindo para o parque. Aqui fez um grande esforço para parar na carpintaria e ficou ali parada, observando Joe Stubbs modelar uma roda de charrete. Estava parada, os olhos fixos na mão dele, quando soou um quarto de hora. Aquilo a atingiu como um meteoro, tão quente que dedos não podem segurar. Viu com desagradável nitidez que o polegar da mão direita de Joe estava sem a unha e no lugar dela havia uma rodela de carne cor-de-rosa. A visão era tão repulsiva que por um momento sentiu que ia desmaiar, mas naquele momento de escuridão, quando suas pálpebras estremeceram, ficou aliviada da pressão do presente. Havia algo estranho na sombra que o tremular de seus olhos esboçou, algo que (como qualquer pessoa pode testar olhando agora para o céu) está sempre fora do presente — daí seu terror, seu caráter indefinível —, algo cujo corpo se hesita em atravessar com um alfinete e chamar de beleza, pois não tem corpo, é como uma sombra sem substância ou qualidade próprias, embora tenha o poder de mudar tudo aquilo a que se soma. Agora, enquanto ela pestanejava em seu desmaio diante da carpintaria, essa sombra saiu furtivamente e, apegando-se às inúmeras visões que tinha presenciado, transformou-as em algo tolerável, compreensível. Sua mente começou a balançar como o mar. Sim, pensava, dando um profundo suspiro de alívio, enquanto voltava da carpintaria para subir a colina, posso começar a viver novamente. Estou à margem da Serpentina, pensou, o barquinho está subindo pelo arco branco de mil mortes. Estou prestes a compreender... 
Estas foram suas palavras, ditas bem claramente, mas não se pode ocultar o fato de que ela agora era uma testemunha muito indiferente à verdade daquilo que estava diante de si e podia facilmente ter confundido um carneiro com uma vaca, ou um velho chamado Smith com um que se chamava Jones, e nada tinha a ver com aquele. Pois a sombra do desmaio causado pelo polegar sem unha escavara-lhe um poço na parte posterior do cérebro (que é o ponto mais distante da visão), onde as coisas habitam numa escuridão tão profunda que raramente sabemos o que são. Agora ela olhava para dentro desse poço ou mar no qual tudo é refletido — e, na verdade, alguns dizem que todas as nossas mais violentas paixões, e a arte, e a religião, são reflexos que vemos no vão escuro da parte posterior da cabeça quando o mundo visível fica obscurecido pelo tempo. Olhava para lá, agora, longa e profundamente, e logo a alameda de samambaias que conduzia à colina, por onde ia caminhando, tornou-se não completamente uma alameda, mas parcialmente a Serpentina; os espinheiros eram parcialmente senhoras e cavalheiros sentados, com estojos de cartões de visitas e bengalas de castão de ouro; os carneiros eram parcialmente casas altas de Mayfair; tudo era parcialmente outra coisa, como se sua mente tivesse se tornado uma floresta, com clareiras se ramificando aqui e ali; as coisas se aproximavam e se afastavam, se misturavam e se separavam e faziam estranhas alianças e combinações, num incessante xadrez de luz e sombra. Ela esqueceu o tempo até que Canute, o galgo, caçou um coelho, e isso lembrou-a de que deviam ser quatro e meia — na verdade eram 23 minutos para as seis — ela esquecera do tempo. 
A alameda de samambaias conduzia com muitas voltas e curvas cada vez mais alto até o carvalho, que ficava no topo. A árvore se tornara maior, mais robusta e mais cheia de nós do que quando ela a conhecera, aí pelo ano de 1588, mas ainda estava no vigor da vida. As pequenas folhas angulosamente recortadas ainda tremulavam densamente em seus ramos. Atirando-se ao chão, sentiu os ossos da árvore alongando-se para um lado e para outro, debaixo de si, como costelas de uma espinha dorsal. Gostava de pensar que cavalgava o dorso do mundo. Gostava de se agarrar a algo firme. Quando se atirou ao chão, um pequeno livro quadrado, encadernado em tecido vermelho, caiu do peito de sua jaqueta de couro — seu poema “O Carvalho”. “Eu deveria ter trazido uma pá”, refletiu. A terra era tão rasa sobre as raízes que parecia duvidoso que ela pudesse fazer o que queria — enterrar o livro ali. Além disso, os cachorros o desencavariam. A sorte jamais acompanha essas celebrações simbólicas, pensou. Talvez então fosse melhor dispensá-las. Tinha um pequeno discurso na ponta da língua, que pensava pronunciar sobre o livro quando fosse enterrá-lo (era uma cópia da primeira edição, assinada pelo autor e artista). “Enterro isto como um tributo”, ia dizer, “um retorno à terra daquilo que a terra me deu”, mas Senhor!, quando se começa a dizer palavras em voz alta, como elas soam bobas! Recordou-se do velho Greene, subindo numa plataforma, outro dia, comparando-a com Milton (a não ser pela cegueira) e entregando-lhe um cheque de duzentos guinéus. Pensara então no carvalho, aqui, na colina, e se perguntara o que uma coisa tinha a ver com a outra. O que o elogio e a fama têm a ver com a poesia? O que têm a ver sete edições (já chegara a isso) com o valor do livro? Escrever poesia não era uma transação secreta, uma voz respondendo a outra voz? De modo que todo esse palavrório, e elogio, e censura, e encontrar pessoas que admiram, e pessoas que não admiram, não combinam com a coisa em si — uma voz respondendo a outra voz. Que podia haver de mais secreto, pensou, mais lento e semelhante à conversa dos amantes do que a claudicante resposta que dirigira todos esses anos à velha e sussurrante canção dos bosques, e às fazendas, aos cavalos castanhos parados no portão, pescoço contra pescoço, e à ferraria, e à cozinha, e aos campos que tão laboriosamente produzem trigo, nabos, grama, e ao jardim explodindo de íris e lilases? 
De modo que deixou ali o livro, sem enterrá-lo, em desalinho no chão, e contemplou a ampla vista, variada naquela tarde como o fundo do oceano, com o sol iluminando e as sombras escurecendo. Havia uma aldeia com a torre da igreja entre álamos; a cúpula cinzenta de uma mansão, num parque; um facho de luz brilhando numa vidraça; um quintal com espigas de milho amarelas. Os campos eram marcados por agrupamentos de árvores negras, e para além dos campos se estendiam vastas florestas e havia o brilho de um rio e depois novamente colinas. A distância os penhascos de Snowdon quebravam-se, brancos, entre as nuvens; ela via as longínquas colinas escocesas e as selvagens marés que faziam redemoinhos em torno das Hébridas. Escutou o som do canhão, no mar. Não — apenas o vento soprava. Não havia guerra hoje. Drake se fora; Nelson se fora. “E ali”, pensou, deixando os olhos que tinham ficado olhando essas distâncias caírem uma vez mais sobre a terra a seus pés, “um dia foi a minha terra: aquele castelo entre as colinas era meu; e todo este pântano, que vai quase até o mar, era meu.” Aqui a paisagem (deve ter sido algum jogo da luz que empalidecia) se abalou, se ergueu, e deixou deslizar toda essa aglomeração de casas, castelos e florestas por suas encostas cônicas. As montanhas nuas da Turquia estavam diante dela. Era um ardente meio-dia. Olhou diretamente para a encosta tostada. Cabras ceifavam os tufos de areia a seus pés. Uma águia pairava sobre ela. A voz rascante do velho Rustum, o cigano, corvejou em seus ouvidos: “Que são a tua antiguidade e a tua raça e as tuas propriedades, comparadas com isto? Por que precisas de quatrocentos quartos e tampas de prata em todas as tuas travessas, e empregadas domésticas espanando?” 
Nesse momento algum relógio de igreja soou no vale. A paisagem cônica estremeceu e desmoronou. O presente caiu sobre sua cabeça uma vez mais, mas agora que a luz estava esmaecendo, mais suavemente do que antes, sem destacar nenhum detalhe, nenhuma coisa pequena, apenas campos enevoados, chalés com luzes, a massa adormecida de um bosque e uma luz em forma de leque empurrando a escuridão na sua frente ao longo de uma aleia. Não podia dizer se tinham batido nove, dez ou 11 horas. A noite chegara — a noite que ela sempre amara, a noite que é quando os reflexos no poço escuro da mente brilham mais claros do que de dia. Não era necessário desmaiar agora para olhar profundamente a escuridão onde as coisas se moldam e ver no poço da mente, ora Shakespeare, ora uma jovem de calças russas, ora um barco de brinquedo na Serpentina, e depois o próprio Atlântico onde se elevam grandes vagas em torno do cabo Horn. Olhou para a escuridão. Lá estava o brigue de seu marido subindo no topo da onda! Alto, cada vez mais alto, mais alto. O arco branco de mil mortes elevava-se diante dele. Oh, homem arrojado, ridículo, sempre velejando assim inutilmente em redor do cabo Horn, nas garras de uma ventania! Mas o brigue passou pelo arco para o outro lado; estava salvo, finalmente! 

— Êxtase! — gritou —, êxtase! — E então o vento amainou, as águas se acalmaram; e ela viu as ondas se encrespando calmamente ao luar. 

— Marmaduke Bonthrop Shelmerdine! — gritou encostada no carvalho. 

O belo, cintilante nome caiu do céu como uma pena azul-aço. Ela observou-a cair girando e torcendo-se como uma flecha vagarosa que perfura lindamente o ar profundo. Ele estava chegando, como sempre vinha em momentos de calmaria mortal. Quando a onda se encrespava e as folhas manchadas caíam lentamente sobre seus pés nos bosques de outono; quando o leopardo estava quieto; a lua sobre as águas e nada se movia entre o céu e o mar. Então ele chegava. 
Tudo estava calmo agora. Era quase meia-noite. A lua subia lentamente por sobre as planícies. Sua luz fez surgir um castelo fantasma sobre a terra. Lá estava a grande mansão com todas as janelas vestidas de prata. Não havia paredes nem substância. Tudo era fantasmagórico. Tudo estava quieto. Tudo estava iluminado como se para a chegada de uma rainha morta. Olhando para baixo, Orlando viu plumas balançando no pátio, tochas tremulando e sombras se ajoelhando. Uma rainha mais uma vez saía de sua carruagem. 

— A casa está às suas ordens, senhora — gritou em profunda reverência. — Nada mudou. O falecido senhor, meu pai, a conduzirá para dentro. 

Enquanto falava, soou a primeira badalada da meia-noite. A brisa fria do presente varreu-lhe a face com um breve sopro de medo. Olhou ansiosamente para o céu. Estava escuro com nuvens, agora. O vento rugia em seus ouvidos. Mas no rugido do vento ela ouviu o rugir de um aeroplano que se aproximava mais e mais. 

— Aqui! Shel, aqui! — gritou, desnudando o peito para a lua (que agora brilhava) de modo que suas pérolas cintilavam como ovos de uma enorme aranha lunar. O aeroplano rompeu as nuvens e permaneceu sobre sua cabeça. Pairou sobre ela. Suas pérolas arderam como uma labareda fosforescente na escuridão. 

E quando Shelmerdine, agora um belo capitão de marinha, vigoroso, corado e ágil pulou para o chão, por cima de sua cabeça surgiu um pássaro selvagem solitário. 

— É o ganso! — gritou Orlando. — O ganso selvagem... 

E a décima segunda badalada da meia-noite soou; a décima segunda badalada da meia-noite de quinta-feira, 11 de outubro de Mil Novecentos e Vinte e Oito.


fim

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Leia também:

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Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 1
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 1(b) - Talvez fosse culpa de Orlando...
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 1(c) ... A princesa prosseguiu
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 1(d) ... Toda a cor, salvo o vermelho
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Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 3 (a) ... É realmente uma grande infelicidade
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 3 (b) ... Felizmente, a srta. Penelope Hartopp, filha do general
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Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (a) ... Com alguns guinéus
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (b) ... Ninguém manifestou a menor suspeita
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (c) ... Para fazer justiça a ela
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (d) ... Orlando atirou a segunda meia
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 6 (f) ... Habilmente
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 6 (e) ... Talvez o leitor se surpreenda

Capítulo 6


continuando...



Talvez o leitor se surpreenda que Orlando tenha se afastado um pouco demais do momento presente, ao vê-la agora se preparando para entrar no carro, com os olhos cheios de lágrimas e de visões das montanhas persas. E de fato não se pode negar que os mais bem-sucedidos praticantes da arte de viver, frequentemente pessoas desconhecidas, inventam alguma forma de sincronizar os sessenta ou setenta tempos diferentes que batem simultaneamente em todo o sistema humano normal, de maneira que, quando soam 11 horas, todo resto o ressoa em uníssono, e o presente não é nem uma violenta interrupção nem um completo esquecimento do passado. Deles podemos apenas dizer que vivem precisamente os 68 ou 72 anos consignados em seus túmulos. Do resto, alguns sabemos estarem mortos, embora andem entre nós; alguns ainda não nasceram, embora assumam outras formas de vida; outros têm centenas de anos de idade, embora confessem apenas 36. A verdadeira extensão da vida de uma pessoa, diga o que disser o Dicionário Biográfico Nacional, é sempre matéria discutível. Pois esse registro de tempo é tarefa difícil; nada o desordena mais rapidamente do que o contato com qualquer das artes; e foi talvez pelo seu amor à poesia que Orlando perdeu a lista de compras e voltou para casa sem as sardinhas, os sais de banho e as botas. Agora que estava com a mão na porta do carro, o presente golpeou-lhe de novo a cabeça. Agrediu-a violentamente 11 vezes. 

Com os diabos! — gritou, pois ouvir o relógio bater é um grande choque para o sistema nervoso —, tanto que por algum tempo não há nada a dizer sobre ela, exceto que franziu um pouco a testa, fez admiravelmente as mudanças de marcha e gritou como antes: “Olhem para onde vão! Não sabem o que querem? Então por que não dizem?”, enquanto o carro arrancava, movia-se, abria caminho, deslizava — pois ela era exímia motorista — por Regent Street, Haymarket, Northumberland Avenue, Westminster Bridge, à esquerda, em frente, à direita, em frente outra vez... 

A Old Kent Road estava muito cheia de gente, na quinta-feira, 11 de outubro de 1928. O povo transbordava da calçada. Havia mulheres com sacolas de compras. Crianças corriam. Havia liquidações nas lojas de tecidos. As ruas alargavam e estreitavam. Longas perspectivas se encolhiam uniformemente. Aqui era um mercado. Aqui um funeral. Aqui uma procissão, com estandartes onde estava escrito “Ra-Uh”, e que mais? A carne era muito vermelha. Os açougueiros ficavam à porta. As mulheres estavam com os saltos dos sapatos quase cortados. “Amor Vin” — lia-se sobre um pórtico. Uma mulher olhava da janela de um quarto de dormir, profundamente contemplativa e muito quieta. Applejohn e Applebed, Undert... não se podia ver nada inteiro nem ler do princípio ao fim. O que se via começar — como dois amigos atravessando a rua para se encontrarem — não se via terminar. Depois de vinte minutos o corpo e a mente eram como pedaços de papel rasgado caindo de um saco, e, na verdade, o processo de dirigir depressa por Londres afora se assemelha tanto ao ato de cortar a identidade em pequenos pedaços — o que precede a inconsciência e talvez a própria morte — que não se sabe como afirmar que Orlando tenha existido no momento presente. Na verdade, poderíamos considerá-la uma pessoa inteiramente dissociada se não acontecesse finalmente, de uma tela verde ser estendida à direita, contra a qual os pedacinhos de papel caíam mais vagarosamente; e depois outra ser estendida à esquerda, de forma que se podia ver os pedaços separados agora girando sozinhos no ar; e então telas verdes foram estendidas continuamente de cada lado, de modo que sua mente readquiriu a ilusão de prender as coisas dentro de si e ela viu um chalé, um pátio de fazenda e quatro vacas, tudo precisamente em tamanho natural. 

Quando isso aconteceu, Orlando deu um suspiro de alívio, acendeu um cigarro e deu uma baforada por um ou dois minutos em silêncio. Então chamou hesitantemente — como se a pessoa que ela procurasse pudesse não estar ali: “Orlando”? Pois se há (por acaso) 76 tempos diferentes, todos pulsando de uma vez na mente, quantas pessoas diferentes não haverá — Deus nos ajude —, todas morando num tempo ou noutro no espírito humano? Alguns dizem que há 2.052. De modo que é a coisa mais comum do mundo uma pessoa chamar, quando está sozinha, Orlando? (se este for o nome), querendo dizer com isso vem, vem! estou mortalmente cansada deste eu. Preciso de um outro. Daí as surpreendentes mudanças que vemos em nossos amigos. Mas isso também não é muito fácil, pois, embora se possa dizer, como Orlando disse (estando no campo e precisando provavelmente de outro eu), Orlando? ainda assim o Orlando de que ela precisa pode não vir; esses eus de que somos construídos, sobrepostos um ao outro como pratos empilhados na mão de um garçom, têm ligações em outros lugares, simpatias, pequenos códigos e direitos próprios, chamem o que quiserem (pois muitas dessas coisas não têm nome), de forma que um só virá se estiver chovendo, outro se for num quarto com cortinas verdes, outro quando a sra. Jones não estiver, outro se puder prometer um copo de vinho, e assim por diante; pois cada pessoa pode multiplicar a partir da própria experiência as diferentes condições impostas pelos seus diferentes eus — e algumas são tão ridículas que não podem ser impressas. 

Assim, Orlando passando pelo celeiro chamou “Orlando?” com uma nota de interrogação na voz e esperou. Orlando não veio. 

— Então tudo bem — disse Orlando com o bom humor que as pessoas possuem nessas ocasiões; e tentou outro. Pois ela possuía uma grande variedade de eus para chamar, muito mais do que temos espaço para oferecer, de vez que uma biografia é considerada completa se simplesmente dá conta de seis ou sete eus, embora uma pessoa possa ter muitos milhares deles. Escolhendo, pois, apenas aqueles eus que já incluímos, Orlando podia agora chamar pelo menino que golpeou a cabeça do negro; o menino que a pendurou de novo; o menino que sentava na colina; o menino que viu o poeta; o menino que ofereceu a tigela de água de rosas à rainha; ou podia ter chamado o jovem que se apaixonou por Sasha; ou pelo cortesão; ou pelo embaixador; ou pelo soldado; ou pelo viajante; ou podia ter apelado para a mulher; a cigana; a grande dama; a eremita; a moça apaixonada pela vida; a protetora das letras; a mulher que chamava Mar (querendo dizer banhos quentes e fogos noturnos) ou Shelmerdine (significando açafrões nos bosques de outono) ou Bonthrop (significando a morte que morremos diariamente) ou todos os três juntos — o que significa muito mais coisas do que o espaço de que dispomos — todos eram diferentes, e ela podia ter chamado qualquer um deles. 

Talvez; mas o que parece certo (pois agora estamos na região do “talvez” e do “parece”) é que o eu de que ela mais precisava se mantinha a distância, pois ela ia mudando seus eus tão rapidamente quanto dirigia, a julgar pelo que se ouvia, e havia um novo eu em cada esquina — como acontece quando por alguma razão inconfessável o eu consciente, que é o mais importante e tem o poder de desejar, não deseja ser mais nada senão um único eu. Isto é o que alguns chamam de o verdadeiro eu e é, dizem, a união de todos os outros eus que existem em nós, comandados e aprisionados pelo eu-capitão, o eu-chave, que amalgama e controla todos os outros. Orlando estava certamente procurando esse eu, como o leitor pode julgar ouvindo sua conversa enquanto dirigia (e se é uma conversa incoerente, sem sentido, banal, insípida e às vezes ininteligível, é culpa do leitor, por prestar atenção à conversa de uma senhora falando consigo mesma; nós apenas copiamos as palavras como são faladas, acrescentando entre parênteses o eu que em nossa opinião está falando, mas bem podemos estar errados). 

— O quê, então? Quem, então? — disse ela. — Trinta e seis anos; num carro; uma mulher. Sim, mas um milhão de outras coisas mais. Serei uma esnobe? A jarreteira no vestíbulo? Os leopardos? Meus antepassados? Orgulhosa deles? Sim! Gananciosa, voluptuosa, depravada? Serei? (aqui entrou um novo eu). Não me importo nem um pouco se for. Sincera? Acho que sim. Generosa? Oh, mas isso não conta (aqui um novo eu entrou). Ficar na cama a manhã inteira em lençóis de linho ouvindo os pombos; baixela de prata; vinho; empregadas; lacaios. Mimada? Talvez. Coisas demais para nada. Daí meus livros (aqui mencionou cinquenta títulos clássicos que representavam, pensamos, as primeiras obras românticas que havia rasgado). Fácil, volúvel, romântica? Mas (aqui entrou um outro eu) desajeitada e desastrada. Mais sem jeito não podia ser. E... e... (aqui hesitou sobre uma palavra, e se sugerirmos “amor” podemos estar errados, mas certamente ela riu e corou e depois gritou) um sapo de esmeraldas! Harry, o arquiduque! Varejeiras azuis no teto! (aqui entrou um outro eu). Mas Nell, Kit, Sasha? (mergulhou em tristeza: realmente, lágrimas se formaram, e havia tempos que ela não chorava). Árvores, disse ela. (Aqui entrou um novo eu.) Eu amo as árvores (ela estava passando por um arvoredo) que crescem ali há milhares de anos. E celeiros (passava por um celeiro em ruínas na beira da estrada). E cães pastores (aqui um atravessou a estrada correndo. Ela cuidadosamente o evitou). E a noite. Mas pessoas (aqui entrou um outro eu). Pessoas? (Repetiu como se fosse uma pergunta.) Não sei. Faladoras, maliciosas, sempre dizendo mentiras. (Aqui dobrou na rua principal de sua cidade natal, que estava cheia — porque era dia de feira — de fazendeiros, pastores e velhas com galinhas em cestas.) Gosto de camponeses. Entendo de colheitas. Mas (aqui um outro eu saltou para o topo de sua mente, como o facho de um farol). Fama! (Riu-se.) Fama! Sete edições. Um prêmio. Fotografias nos vespertinos (aqui referia-se a “O Carvalho” e ao prêmio de Burdett Coutts, que ganhara; e aqui aproveitamos o espaço para observar como é desconcertante para o seu biógrafo que este clímax a que todo livro conduz, esta peroração com a qual o livro ia acabar seja frustrada por uma gargalhada casual como esta; mas a verdade é que, quando escrevemos sobre uma mulher, tudo fica fora de lugar — clímax e perorações; o acento não cai nunca onde costuma cair com um homem). Fama!, repetiu. Um poeta — um charlatão; ambos todas as manhãs tão regularmente quanto o correio. Jantar, encontrar-se; encontrar-se, jantar; fama ... fama! (Aqui teve que diminuir a marcha para passar por entre a multidão da feira. Mas ninguém reparou nela. Um porco-do-mar na banca de um peixeiro atraía mais atenção do que uma senhora que ganhou um prêmio e que poderia, se quisesse, usar na cabeça três diademas superpostos.) Dirigindo bem devagar agora, sussurrava como que uma parte de uma velha canção “com os meus guinéus comprarei árvores floridas, árvores floridas, árvores floridas, e caminhareis entre as minhas árvores floridas e contarei aos meus filhos o que é a fama na vida”. Assim sussurrava, e agora todas as suas palavras começaram a vergar aqui e ali, como um colar selvagem de contas pesadas. “E caminharei entre as minhas árvores floridas”, cantou, acentuando fortemente as palavras “e verei a lua devagar subir e o vagão partir...” Aqui parou de repente e olhou para a capota do carro, em profunda meditação. 

“Ele sentou-se à mesa de Twitchett”, refletiu, “com uma gola suja... Seria o velho sr. Baker que vinha medir a madeira? Ou seria Sh-p-re?” (porque, quando falamos em nomes que reverenciamos profundamente, nunca os dizemos por inteiro). Olhou fixamente para a frente durante dez minutos, deixando o carro quase parado. “Assombração!”, gritou, pressionando repentinamente o acelerador. “Assombração! Desde que eu era criança. Lá vai voando o ganso selvagem. Passa pela janela rumo ao mar. Dei um pulo (agarrou com força o volante) e depois me estiquei. Mas o ganso voa muito rápido. Eu o vi aqui — lá — além — na Inglaterra, na Pérsia, na Itália. Sempre voa rápido para o mar e sempre lhe atiro palavras como redes (aqui pôs a mão para fora) que se encolhem como as redes que tenho visto encolhidas no convés, apenas com algas dentro; e às vezes há uma polegada de prata — seis palavras — no fundo da rede. Mas nunca um peixe grande, que vive nos bosques de coral.” Aqui baixou a cabeça, em profunda reflexão. 

E foi neste momento, quando deixou de chamar “Orlando” e estava em profundos pensamentos a respeito de outra coisa, que o Orlando que chamara apareceu por conta própria; como se pode provar pela transformação que aconteceu nela (tinha passado os portões da propriedade e estava entrando no parque). 

Toda ela escureceu e se firmou, como quando se acrescenta um contraste para dar relevo e solidez a uma superfície, e o raso se torna profundo, e o perto, distante; e tudo isso é contido como a água é contida pelas paredes de um poço. Assim ela estava agora escura, tranquila, e se transformou — com o acréscimo deste Orlando — naquilo que é chamado, correta ou erroneamente, de um único eu, um autêntico eu. E ficou em silêncio. Pois é provável que, quando as pessoas falam alto, os eus (dos quais pode haver mais de dois mil) tenham consciência de sua divisão e procurem se comunicar, mas, quando a comunicação é estabelecida, ficam em silêncio. 



continua na página 122...

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Leia também:

Virgínia Woolf - Orlando : Apresentação e Prefácio
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 1
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 1(b) - Talvez fosse culpa de Orlando...
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 1(c) ... A princesa prosseguiu
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 1(d) ... Toda a cor, salvo o vermelho
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 2 (a) ... O biógrafo agora se depara
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 2 (b) ... Como esta pausa era...
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 2 (c) ... No mesmo momento
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 2 (d) ... Nunca a casa
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 3 (a) ... É realmente uma grande infelicidade
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 3 (b) ... Felizmente, a srta. Penelope Hartopp, filha do general
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 3 (c) ... O som das trombetas diminuiu
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (a) ... Com alguns guinéus
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (b) ... Ninguém manifestou a menor suspeita
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (c) ... Para fazer justiça a ela
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (d) ... Orlando atirou a segunda meia
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 6 (e) ... Talvez o leitor se surpreenda
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sábado, 19 de novembro de 2022

Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 6 (d) ... Mais uma vez Orlando

Capítulo 6



continuando...


Mais uma vez Orlando pôs-se à janela, mas deixemos o leitor tomar alento; não vai acontecer nada da mesma natureza hoje, porque não é mais, de modo algum, o mesmo dia. Não — pois, se olharmos pela janela como Orlando fazia no momento, veremos que o próprio Park Lane mudara consideravelmente. Na verdade, podia-se ficar ali dez minutos ou mais, como Orlando estava agora, sem se ver um único landó. “Olhe aquilo!”, exclamou ela alguns dias depois, quando uma carruagem absurda, truncada, sem cavalos, se pôs a deslizar por sua própria conta. Uma carruagem sem cavalos! Ela foi chamada enquanto dizia isso, mas voltou pouco depois e tornou a olhar pela janela. Tempo estranho, esse de hoje em dia. O próprio céu — não podia deixar de pensar — tinha mudado. Não era mais tão espesso, tão chuvoso, tão prismático, agora que o rei Eduardo — ei-lo ali, saindo de seu elegante automóvel para visitar uma certa dama em frente — sucedera à rainha Vitória. As nuvens tinham se reduzido a uma fina gaze; o céu parecia feito de metal, que com o calor manchava-se de verde-acinzentado, cor de cobre ou laranja, como um metal na neblina. Era um pouco alarmante esta redução. Tudo parecia ter encolhido. Passando pelo Palácio de Buckingham ontem à noite, não havia traço daquela vasta construção que ela pensara ser eterna; chapéus altos, véus de viúva, trombetas, telescópios, coroas fúnebres, tudo desaparecera sem deixar no calçamento nem mancha nem mesmo uma poça de lama. Mas agora — depois de outro intervalo ela retornara ao seu posto predileto à janela —, agora, à noite é que a mudança era mais notável. Olhem para as luzes nas casas! Com um toque, toda uma sala se ilumina; centenas de salas se iluminam; e uma era precisamente igual à outra. Podia-se ver tudo nessas pequenas caixas quadradas; não havia privacidade; não havia nenhuma daquelas sombras demoradas, nem daqueles ângulos estranhos a que se estava acostumado; nenhuma daquelas mulheres de avental carregando luzes oscilantes, que pousavam cuidadosamente nesta ou naquela mesa. Com um toque toda a sala estava iluminada. E o céu ficava claro durante a noite inteira; e o calçamento ficava claro; tudo ficava claro. Ela voltou ao meio-dia. Como as mulheres tinham se tornado delgadas ultimamente! Pareciam espigas de milho, retas, brilhantes, idênticas. E os rostos dos homens: eram tão lisos como a palma da mão. A secura da atmosfera trouxe a cor a todas as coisas e parecia endurecer os músculos das faces. Era mais difícil chorar agora. A água ficava quente em dois segundos. A hera perecera ou fora raspada das casas. Os vegetais eram menos férteis; as famílias, muito menores. Cortinas e capas tinham sido abolidas, e as paredes eram tão lisas que os novos quadros coloridos, representando coisas reais como ruas, guarda-chuvas, maçãs, estavam pendurados em molduras ou pintados sobre a madeira. Havia algo definido e diferente, a respeito da época, que lhe lembrava o século XVIII, exceto que havia uma distração, uma desesperança... enquanto pensava nisso o túnel imensamente longo em que parecia estar viajando por centenas de anos se alargou; a luz penetrou nele; seus pensamentos se tornaram misteriosamente tensos e estirados, como se um afinador de piano colocasse a chave em suas costas e lhe esticasse os nervos ao máximo; ao mesmo tempo, sua audição se aguçou; podia ouvir cada sussurro e cada estalido na sala, de modo que o tique-taque do relógio sobre a lareira soava como um martelo. E assim, por alguns segundos, a luz foi se tornando mais e mais brilhante, e ela viu tudo cada vez mais claramente, e o relógio soou mais e mais alto, até que aconteceu uma terrível explosão bem no seu ouvido. Orlando pulou, como se tivesse levado uma violenta pancada na cabeça. Dez pancadas. Na verdade, eram dez horas da manhã. Era dia 11 de outubro. Era 1928. Era o momento presente.

Ninguém precisa se surpreender que Orlando tenha se sobressaltado, levado a mão ao coração e empalidecido. Pois pode haver revelação mais terrível do que constatar que este é o momento presente? Se sobrevivemos ao choque é apenas porque o passado nos protege de um lado e o futuro de outro. Mas não temos tempo para reflexões; Orlando já estava terrivelmente atrasada. Correu escada abaixo, saltou para o carro, pressionou o arranque e partiu. Vastos blocos azuis de construções elevavam-se para o ar; os capelos vermelhos das chaminés salpicavam irregularmente o céu; a estrada brilhava como pregos de cabeça de prata; os ônibus vinham em sua direção, com motoristas de esculpidos rostos brancos; observou esponjas, gaiolas, caixas de tecido americano verde. Mas não permitiu que nenhuma dessas visões penetrasse em sua mente, nem por uma fração de polegada, enquanto atravessava a estreita prancha do presente, com receio de cair lá embaixo, na raivosa torrente. “Por que não olha para onde vai?... Não pode pôr a mão para fora?”, era o que ela dizia, rispidamente, como se as palavras lhe fossem arrancadas. Pois as ruas estavam completamente apinhadas. As pessoas atravessavam sem olhar para onde iam. As pessoas murmuravam e cochichavam em redor de vitrines espelhadas, dentro das quais se podia ver um brilho vermelho, um fulgor amarelo — como se fossem abelhas, Orlando pensou; mas o seu pensamento de que eram abelhas foi logo decepado, e ela viu, recuperando com um golpe de vista a perspectiva, que eram corpos. “Por que não olham para onde vão?”, vociferou.

Finalmente, parou na loja Marshall & Snelgrove e entrou. Sombra e perfume a envolveram. O presente desprendeu-se dela como gotas de água escaldante. A luz oscilava para cima e para baixo como panos finos soprados por uma brisa de verão. Tirou uma lista da bolsa e começou a ler, numa voz a princípio estranha e áspera, como se segurasse as palavras debaixo de uma torneira de água multicolorida — botas para menino, sais de banho, sardinhas. Observou como se transformavam quando a luz caía sobre elas. As palavras banho e botas tornavam-se rombudas; a palavra sardinhas denteava-se como uma serra. Assim permaneceu no andar térreo da Marshall & Snelgrove; olhou para um lado e para outro; sentia este cheiro e aquele, e assim gastou alguns segundos. Depois tomou o elevador, pela simples razão de que a porta estava aberta, e foi lançada suavemente paca cima. A verdadeira textura da vida agora é mágica, pensou enquanto subia. No século XVIII sabia-se como cada coisa era feita; mas aqui vou eu, subindo pelo ar; ouço vozes da América; vejo homens voando — mas não posso nem imaginar como isso é feito. Assim minha crença na magia retorna. Agra o elevador deu um pequeno solavanco quando parou no primeiro andar, e ela avistou inúmeros tecidos coloridos flutuando numa brisa que produzia cheiros estranhos, especiais; e, cada vez que o elevador parava e abria as portas de par em par, uma outra fatia do mundo era exposta, impregnada de todos os cheiros daquele mundo. Recordou-se do rio além de Wapping, no tempo da rainha Elizabeth, onde os navios de tesouro e os navios mercantes costumavam ancorar. Como cheiravam intensa e estranhamente! Como se lembrava bem do contato dos rubis ásperos deslizando-lhe entre os dedos, quando metia a mão num saco de tesouro! E de estar deitada com Sukey — ou qualquer que fosse o seu nome — e de serem surpreendidos pela lanterna de Cumberland! Os Cumberlands tinham agora uma casa em Portland Place, ela almoçara com eles outro dia, e atrevera-se a uma pequena piada com o velho, a respeito dos asilos de Sheen Road. Ele piscara. Mas aqui, como o elevador não podia ir mais acima, teve que saltar — sabem os céus em que “departamento”, como diziam. Parou consultando a sua lista de compras, mas ali não teve sorte de encontrar nem sais de banho nem botas de menino, como a lista pedia. E na verdade já ia descer novamente sem comprar nada, mas escapou dessa vergonha dizendo automaticamente em voz alta o último item de sua lista, que vinha a ser “lençóis para cama de casal”.

— Lençóis para cama de casal — disse para um homem no balcão, e, por uma concessão da Providência, eram lençóis que o homem daquele exato balcão vendia. Pois Grimsditch, não, Grimsditch já tinha morrido; Bartholomew, não, Bartholomew já tinha morrido; então Luísa — Luísa viera até ela numa grande aflição, outro dia, pois encontrara um buraco na ponta do lençol da cama real. Muitos reis e rainhas tinham dormido lá. — Elizabeth; Jaime; Carlos; Jorge; Vitória; Eduardo; não era de admirar que o lençol tivesse um buraco. Mas Lufsa era afirmativa: ela sabia quem o fizera. Era o príncipe consorte.

Sale boche! [1] — disse (pois tinha havido outra guerra, desta vez contra os alemães). Lençóis para cama de casal — repetia Orlando sonhadoramente, para uma cama de casal com uma colcha prateada, num quarto decorado com um gosto que ela agora achava talvez um pouco vulgar — todo de prata; pois ela o mobiliara quando estava apaixonada por aquele metal. Enquanto o homem foi buscar os lençóis para cama de casal, ela pegou um pequeno espelho e uma pluma de pó. As mulheres não são mais tão disfarçadas em suas maneiras, pensava, empoando-se com a maior despreocupação, como no tempo em que pela primeira vez se transformara em mulher e repousava no convés do Enamoured Lady. Deliberadamente, deu ao nariz o tom apropriado. Nunca tocava suas faces. Honestamente, embora tivesse agora 36 anos, não aparentava nem um dia a mais. Parecia tão amua-da, tão mal-humorada, tão bonita, tão rosada (como uma árvore de Natal com mil velas, como dissera Sasha) como ficara naquele dia no gelo, quando o Tâmisa congelara e tinham ido patinar...

— O melhor linho irlandês, senhora — disse o vendedor, desdobrando os lençóis no balcão —, e eles tinham encontrado uma velhinha apanhando lenha. Nisso, enquanto apalpava distraidamente o linho, uma da portas giratórias entre os departamentos se abriu e deixou passar, talvez do departamento de artigos de fantasia, uma rajada de cheiro de cera, como se tingido por velas cor-de-rosa, e o cheiro curvou-se como uma concha em redor de uma figura — seria um rapaz ou uma moça? — jovem, delgada, sedutora — uma moça, por Deus! coberta de peles, pérolas, de calças russas; mas infiel, infiel!

— Infiel! — gritou Orlando (o vendedor tinha se retirado), e toda a loja parecia balouçar em águas amarelas, e bem longe viu os mastros do navio russo fazendo-se ao mar, e então, miraculosamente (talvez a porta tivesse sido aberta outra vez), a concha que o perfume produzira se transformou numa plataforma, num tablado do qual saiu uma mulher gorda, coberta de peles, maravilhosamente bem-conservada, sedutora, cheia de joias, uma amante do grão-duque; a mesma que, inclinada às margens do Volga, comendo sanduíches, tinha contemplado os homens se afogando — e começou a atravessar a loja em sua direção.

— Oh, Sasha! — gritou Orlando. Na verdade, estava chocada que tivesse chegado àquele ponto; engordara tanto, estava tão pesadona; inclinou a cabeça sobre o linho, de modo que passasse por trás dela, despercebida, essa aparição de uma mulher cinzenta, envolta em peles, e de uma jovem russa, de calças, com todos esses cheiros que trazia consigo — de velas de cera, de flores brancas e de velhos navios.

— Guardanapos, toalhas, guarda-pós hoje, senhora? — insistiu o vendedor. E foi graças à lista de compras que Orlando agora consultava que pôde responder, com aparente tranquilidade, que só precisava de uma coisa no mundo, que eram sais de banho — e que isso era em outro departamento.

Mas, descendo outra vez no elevador — tão insidiosa é a repetição de qualquer cena —, mergulhava de novo bem longe do momento presente; e quando o elevador bateu no chão, pensou ter ouvido um pote quebrar contra a margem do rio. E quanto a achar o departamento apropriado, qualquer que fosse ele, permaneceu absorta entre as bolsas, surda às sugestões de todos os vendedores polidos, vestidos de preto, penteados, atentos, que, descendo também — e alguns, talvez, tão orgulhosamente — das mesmas profundezas do passado que ela, preferiram deixar cair a impenetrável barreira do presente, de modo a hoje aparecerem como simples vendedores em Marshall & Snelgrove. Orlando ficou ali hesitante. Através das grandes portas de vidro podia ver o tráfego em Oxford Street. Ônibus pareciam empilhar-se sobre ônibus e depois apartar-se. Assim os blocos de gelo tinham-se amontoado e balançado, naquele dia, no Tâmisa. Um velho nobre de chinelos de pele estava escarranchado num deles. Ele passara — ela podia vê-lo agora — lançando maldições aos rebeldes irlandeses. Eles naufragaram ali, onde o carro dela estava parado.

“O tempo tem passado por mim”, pensou, procurando se recobrar; “é a chegada da meia-idade. Que coisa estranha! Nada é mais uma coisa só! Pego uma bolsa e penso numa velha vendedora de maçãs, num barco, congelada. Alguém acende uma vela cor-de-rosa e vejo um moça de calças russas. Quando saio — como faço agora”, aqui pisou na calçada de Oxford Street, “que gosto sinto? De pequenas ervas. Ouço sinos de cabras. Vejo montanhas. Turquia? Índia? Pérsia?”, seus olhos se encheram de lágrimas.



continua na página 119...

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Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 6 (d) ... Mais uma vez Orlando

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[1] Em francês no original: alemão sujo! (N.E.)

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 6 (c) ... Podia se lembrar

Capítulo 6



continuando...


Podia se lembrar, pensou, transpondo a soleira da casa, do que Lorde Chesterfield dissera — mas sua memória se deteve. Seu discreto vestíbulo do século XVIII — onde podia ver Lorde Chesterfield pousando o chapéu aqui, o casaco ali, com uma elegância de atitudes que era um prazer observar — estava agora completamente entulhado de pacotes. Enquanto estivera sentada em Hyde Park, o livreiro havia mandado sua encomenda e a casa estava abarrotada — havia pacotes escorregando pela escada — com toda a literatura vitoriana embrulhada em papel cinzento e cuidadosamente amarrada com barbante. Levou tantos desses pacotes quanto pôde para o seu quarto e mandou os criados trazerem o resto e, cortando rapidamente inúmeros barbantes, ficou logo cercada por inúmeros volumes.

Acostumada à reduzida literatura dos séculos XVI e XVII e XVIII, Orlando ficou apavorada com as consequências de sua encomenda. Pois, naturalmente, mesmo para os vitorianos, a literatura vitoriana significava não apenas quatro grandes nomes separados e distintos, mas quatro grandes nomes afundados e misturados numa massa de Alexander Smiths, Dicksons, Blacks, Milmans, Buckles, Taines, Paynes, Tuppers, Jamesons — todos eloquentes, ruidosos, proeminentes, e requerendo tanta atenção quanto qualquer outro. O respeito de Orlando pela palavra impressa impunha-lhe uma difícil tarefa, mas, puxando a cadeira para a janela a fim de aproveitar a luz que se pudesse filtrar entre as altas casas de Mayfair, procurou chegar a uma conclusão.

E agora é claro que só existem dois caminhos para se chegar a uma conclusão sobre a literatura vitoriana — um é escrevê-la em sessenta volumes in-oitavo, a outra é espremê-la em seis linhas do tamanho desta. Dos dois caminhos, a economia — já que o tempo é curto — nos leva a escolher o segundo, e assim procedemos. Orlando então chegou à conclusão (tendo aberto meia dúzia de livros) de que era muito estranho que nenhum deles contivesse uma dedicatória a um nobre; depois (examinando uma vasta pilha de memórias), que vários desses escritores tivessem árvores genealógicas quase tão altas quanto a sua própria; depois, que seria uma extrema falta de polidez enrolar uma nota de dez libras nas pinças de açúcar quando a srta. Christina Rossetti viesse tomar chá; depois (aqui havia meia dúzia de convites para celebrar centenários com jantares) que a literatura, após comer todos esses jantares, ficaria muito corpulenta; depois (tinha sido convidada para uma série de conferências sobre a influência disto sobre aquilo; o renascimento clássico; a sobrevivência romântica e outros títulos do mesmo gênero) que a literatura, ouvindo todas essas conferências, ficaria muito seca; depois (aqui ela iria a uma recepção dada pela esposa de um Par do reino) que a literatura, usando todas aquela estolas de pele, ficaria muito respeitável; depois (aqui visitou em Chelsea o quarto à prova de som de Carlyle) que, se o gênio necessita de todos esses mimos, ficaria muito delicado; então, afinal, chegou à conclusão definitiva, que era da mais alta importância, mas que, como já ultrapassamos o nosso limite de seis linhas, devemos omitir.

Tendo chegado a essa conclusão, Orlando ficou na janela olhando por um considerável intervalo de tempo, pois quando alguém chega a uma conclusão é como se tivesse atirado uma bola por cima da rede e precisasse esperar que o antagonista invisível a devolvesse. O que lhe seria enviado depois, daquele céu sem cor que cobria Chesterfield House?, ela se perguntava. E, com as mãos cruzadas, permaneceu por um tempo considerável pensando. De repente assustou-se — e aqui podemos apenas desejar que, como numa ocasião anterior, a Pureza, a Castidade e a Modéstia entreabram a porta e nos permitam pelo menos um espaço para respirar, durante o qual possamos pensar em como apresentar aquilo que tem que ser contado delicadamente, como é dever de um biógrafo. Mas não! Tendo atirado suas roupas brancas para Orlando despido, e vendo-as caírem a pequena distância, essas senhoras abandonaram qualquer relação com ela, por todo esse tempo, e estavam agora ocupadas com outras coisas. Não vai acontecer nada nesta pálida manhã de março para mitigar, velar, cobrir, ocultar, amortalhar este incontestável acontecimento, qualquer que ele seja? Porque, depois daquele repentino e violento susto, Orlando — mas o céu seja louvado, no mesmo instante soou lá fora um desses frágeis, agudos, aflautados, trêmulos, antiquados realejos que ainda às vezes são manejados por tocadores italianos, em ruas afastadas. Vamos aceitar essa intervenção, por humilde que seja, como se fosse a música das esferas, e permitir-lhe que, com todos os seus suspiros e gemidos, preencha esta página com som, até que chegue o momento cuja chegada é impossível negar; que o criado e a empregada veem chegar; e o leitor verá também; pois a própria Orlando já é claramente incapaz de ignorá-lo por mais tempo. Deixemos o som do realejo e transportemo-nos em pensamento — que nada mais é do que um pequeno barco sacudindo nas ondas, quando há música; em pensamento, que é de todos os transportes o mais rude, o mais irregular — por cima dos sótãos e dos quintais com roupas penduradas na corda para... qual é este lugar? Reconheces o parque, e no meio o campanário, e o portão com um leão deitado de cada lado? Oh, sim, é Kew! Bem, que seja Kew. Assim, pois, estamos em Kew, e hoje (2 de março) lhes mostraremos, sob uma ameixeira, um cacho de jacintos e um açafrão e também um botão na amendoeira; de forma que passear por aqui é estar pensando em bulbos peludos e vermelhos, plantados na terra em outubro e agora florescendo; estar sonhando com mais do que se pode dizer e tirando de sua caixa um cigarro, ou mesmo um charuto, e ir estendendo um agasalho (como requer a rima) sob um carvalho e lá sentar à espera do martim-pescador que, diz-se, foi visto certa vez, à tarde, atravessando de uma margem para a outra.

Esperem! Esperem! Aí vem o martim-pescador; o martim-pescador não vem. Contemplemos, enquanto isso, as chaminés das fábricas e sua fumaça; contemplemos os que trabalham na cidade, passando rapidamente em seu barco; contemplemos a velha senhora levando o cachorro para um passeio e a criada usando pela primeira vez o seu chapéu novo, mal colocado; contemplemos todos. Embora os céus misericordiosamente tenham decretado que os segredos de todos os corações sejam ocultos de modo a estarmos sempre iludidos suspeitando de algo que talvez não exista; ainda através da fumaça do nosso cigarro vemos flamejar e saudamos a esplêndida concretização dos desejos naturais de um chapéu, de um barco, de um rato numa vala; como uma vez vimos flamejar — em que pulos tolos e falhas a mente incorre quando extravasa e o realejo toca — como vimos flamejar um fogo num campo diante de minaretes perto de Constantinopla.

Salve, desejo natural! Salve, felicidade, divina felicidade! E prazeres de todos os tipos, flores e vinho, embora aquelas murchem e o outro embriague; e viagens de lazer para fora de Londres, aos domingos, e cantar numa capela escura cânticos sobre a morte e qualquer coisa, qualquer coisa que interrompa e confunda o martelar das máquinas de escrever e o envio de cartas e o forjar de elos e correntes que unam todo o Império. Salve até mesmo os grosseiros arcos vermelhos dos lábios das vendedoras das lojas (como se Cupido tivesse muito desajeitadamente mergulhado o polegar em tinta vermelha e rabiscado um sinal ao passar). Salve, felicidade! Martim-pescador atravessando como um raio, de uma margem para outra. E toda a concretização do desejo natural, quer seja o que os novelistas homens dizem ser, quer seja prece ou recusa, salve! em qualquer forma em que venha, e que tenha mais formas e mais estranhas. Pois o rio corre escuro e tristonho — se pudesse dizer, como pede a rima, “como um sonho” — porém mais sombrio e pior do que o dele é o nosso destino comum; sem sonhos, mas vivo, complacente, fluente, habitual, sob as árvores cuja sombra verde-oliva afoga o azul da asa de um pássaro evanescente que se lança de súbito de uma margem para a outra.

Salve, felicidade, então — e depois da felicidade não saudemos aqueles sonhos que deformam a imagem nítida, como espelhos manchados fazem com o rosto, na sala de uma estalagem campestre; sonhos que se estilhaçam e nos rasgam ao meio, nos ferem e nos despedaçam à noite, quando queremos dormir; mas dormir, dormir tão profundamente que todas as formas sejam reduzidas a um pó de infinita finura, água de inescrutável obscuridade, e lá, dobrados, amortalhados como uma múmia, como uma mariposa, reclinados deitemos na areia do fundo do sono.

Mas esperem! mas esperem! desta vez não vamos visitar a terra cega. Azul, como um fósforo aceso diretamente no globo ocular, ei-lo que voa, queima, rompe o selo do sono; o martim-pescador; de forma que agora reflui novamente, como um refluxo de maré, o vermelho, espesso rio da vida; borbulhando, gotejando; e ao acordar, nosso olhar (pois uma rima nos ajuda a passar a salvo da difícil transição da morte para a vida) cai sobre... (aqui o realejo para de tocar abruptamente).

— É um lindo menino, minha senhora — disse a sra. Banting, a parteira, colocando nos braços de Orlando o seu primogênito. Em outras palavras, na quinta-feira, 20 de março, às três da madrugada, Orlando dera à luz um filho.




continua na página 116...

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Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 1(d) ... Toda a cor, salvo o vermelho
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Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 2 (b) ... Como esta pausa era...
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 2 (c) ... No mesmo momento
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 2 (d) ... Nunca a casa
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 3 (a) ... É realmente uma grande infelicidade
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 3 (b) ... Felizmente, a srta. Penelope Hartopp, filha do general
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 3 (c) ... O som das trombetas diminuiu
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (a) ... Com alguns guinéus
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (b) ... Ninguém manifestou a menor suspeita
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (c) ... Para fazer justiça a ela
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (d) ... Orlando atirou a segunda meia
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 6 (c) ... Podia se lembrar
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[1] Em francês no original: entradas servidas antes dos pratos principais de uma refeição.
(N.E.)
[2] Em francês no original: gratinado. (N.E.)


segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 6 (b) ... Neste momento

Capítulo 6




Neste momento, mas justamente a tempo de salvar este livro da ruína, Orlando empurrou sua cadeira, esticou os braços, deixou a pena, foi para a janela e exclamou: “Pronto!”
Quase caiu ao chão diante da extraordinária visão com que seus olhos se depararam. Ali estavam o jardim e alguns pássaros. O mundo continuava como de costume. Todo o tempo em que estivera escrevendo, o mundo continuara.
E se eu tivesse morrido seria exatamente o mesmo! — exclamou.
Tal era a intensidade dos seus sentimentos que podia mesmo imaginar-se decomposta, e talvez algum desmaio, na verdade, a tenha afetado. Por um momento ficou olhando com olhos fixos o belo e indiferente espetáculo. Por fim foi reanimada de maneira singular. O manuscrito que repousava sobre o seu coração começou a palpitar e a mover-se como se fosse uma coisa viva, e, o que era ainda mais estranho, mostrava a simpatia que havia entre eles; Orlando, inclinando a cabeça, podia saber o que ele estava dizendo. Queria ser lido. Devia ser lido. Morreria em seu peito se não fosse lido. Pela primeira vez na vida ela voltouse com violência contra a natureza. Havia em redor galgos e roseiras em profusão. Mas nem galgos nem roseiras podem ler. Esse é um lamentável descuido da Providência, que nunca a impressionara antes. Apenas os seres humanos recebem esse dom. Os seres humanos se tornaram imprescindíveis. Tocou a campainha. Ordenou que a carruagem a levasse imediatamente a Londres.

— Está na hora de alcançar o trem das 11h45, senhora — disse Basket. Orlando ainda não se apercebera da invenção da locomotiva, mas estava tão absorta no sofrimento de um ser que embora não sendo ela mesma dependia inteiramente dela que viu um trem pela primeira vez, tomou lugar num vagão, enrolou uma manta nos joelhos sem pensar naquela “fantástica invenção que tinha (dizem os historiadores) mudado completamente a face da Europa nos últimos vinte anos” (o que na verdade ocorre muito mais frequentemente do que os historiadores supõem). Observou apenas que era extremamente sujo, rangia horrivelmente e as janelas batiam. Perdida em pensamentos, foi atirada em Londres em menos de uma hora, e ficou na plataforma de Charing Cross, sem saber aonde ir.

A velha casa em Blackfriars, onde passara tantos dias agradáveis no século XVIII, tinha sido vendida, parte para o Exército da Salvação, parte para uma fábrica de guarda-chuvas. Ela comprara uma outra, em Mayfair, que era higiênica, conveniente, no coração do mundo da moda, mas seria em Mayfair que o poema realizaria o seu desejo? Peçamos a Deus — pensou, recordando os olhos brilhantes das damas e a simetria das pernas dos cavalheiros — que eles não tenham se dedicado à leitura. Pois isso seria lamentável. Havia também o salão de Lady R. Ainda estariam conversando as mesmas coisas, ela não duvidava. Talvez a gota pudesse ter mudado da perna esquerda do general para a direita. O sr. L. podia ter passado dez dias com R., e não com T. Depois entraria o sr. Pope. Oh! mas o sr. Pope estava morto. Quais seriam os homens de talento?, perguntava-se mas esta não era pergunta que se fizesse a um carregador, e assim seguiu adiante. Agora seus ouvidos foram distraídos pelo tilintar de inúmeros sinos nas cabeças de inúmeros cavalos. Frotas das mais estranhas caixinhas com rodas eram arrastadas pelo calçamento. Caminhou até o Strand. Lá o tumulto era ainda pior. Veículos de todos os tamanhos, puxados por cavalos de raça ou de carga, transportando uma dama solitária ou apinhados de homens de suíças e cartola, viam-se inevitavelmente misturados. Carruagens, carros e ônibus pareciam aos seus olhos — por tanto tempo acostumados à visão de uma folha de papel — assustadoramente em disputa; e aos seus ouvidos — afinados ao ranger de uma pena — o clamor da rua parecia violento e pavorosamente dissonante. Cada polegada do calçamento estava tomada. Rios de gente, abrindo caminho com incrível agilidade entre seus próprios corpos e o balanço e a desordem do trânsito, escorriam incessantemente para leste e para oeste. Ao longo da calçada, homens de pé carregavam tabuleiros de brinquedos, e berravam. Nas esquinas, mulheres sentavam-se ao lado de grandes cestas de flores frescas, e berravam. Meninos, correndo por entre os focinhos dos cavalos e segurando contra o corpo folhas impressas, berravam também: desastre! desastre! A princípio, Orlando pensou que tivesse chegado num momento de crise nacional; mas se isso era feliz ou trágico, ela não podia dizer. Olhou ansiosamente para o rosto das pessoas. Mas isso a confundiu ainda mais. Aqui passava um homem afogado em desespero, resmungando sozinho, como se tivesse sabido de alguma terrível tristeza. Passando por ele ia um indivíduo gordo, de cara alegre, abrindo seu caminho como se aquilo fosse uma festa para todo mundo. Na verdade, ela chegou à conclusão de que não havia nem ordem nem sentido em nada. Cada homem cada mulher se dirigia para os seus próprios afazeres. E ela, aonde devia ir?
Caminhava sem pensar, subindo uma rua, descendo outra, passando por grandes vitrines repletas de bolsas, espelhos, roupões, flores, caniços de pesca, cestas para lanche; tecidos de todas as cores e padrões, finos ou grossos, estavam estendidos, repuxados como guirlandas e inflados de ponta a ponta. Às vezes passava por avenidas de sossegadas mansões, sobriamente numeradas “um”, “dois”, “três”, e assim por diante, até duzentos ou trezentos, uma a cópia da outra, com duas colunas e seis degraus e um par de cortinas cuidadosamente puxadas, e almoços familiares postos à mesa, um papagaio por uma janela, um criado por uma outra — até que sua mente ficou tonta com a monotonia. Então chegou a grandes praças abertas, tendo o centro lustrosas estátuas negras de homens gordos apertadamente abotoados, e cavalos de batalha empinados, colunas subindo, fontes caindo e pombos revoando. Assim caminhou e caminhou pelas calçadas por entre as casas até sentir muita fome, e alguma coisa agitando-se sobre seu coração repreendeu-a por ter esquecido tudo a seu respeito. Era o seu manuscrito — “O Carvalho”.
Ficou perplexa com sua própria negligência. Parou de repente onde se encontrava. Não havia nenhuma carrua-gem à vista. A rua larga e bonita estava singularmente deserta. Só um senhor idoso se aproximava. Havia algo em seu andar que lhe era vagamente familiar. Quando ele chegou mais perto, ela teve certeza de que o encontrara em alguma outra ocasião. Mas onde? Este cavalheiro tão elegante, tão imponente, tão próspero, com uma bengala na mão e uma flor na lapela, de face gorda e rosada e bigodes brancos penteados, podia ser — sim, por Júpiter, era! — seu velho, seu velho amigo Nick Greene!
Ao mesmo tempo ele olhou para ela; lembrou-se, reconheceu-a.

— Lady Orlando! — gritou, quase varrendo o chão com a cartola.

— Sir Nicholas! — exclamou ela. Pois alguma coisa em seu porte intuitivamente a advertiu de que o escritor vil e subliterato que a satirizara, a ela e a muitos outros, na época da rainha Elizabeth, tinha ascendido no mundo e certamente se tornara um Cavaleiro e sem dúvida, ainda por cima, uma dúzia de outras belas coisas.

Com uma outra reverência, ele confirmou que sua conclusão estava correta; ele era um Cavaleiro; era um doutor em letras; era professor. Era autor de vinte volumes. Em resumo, era o crítico mais influente da era vitoriana.
Um violento tumulto de emoção dominou-a ao encontrar o homem que, havia anos, lhe causara tanto desgosto. Podia este ser o indivíduo importuno, inquieto, que queimara seus tapetes e assara queijo na lareira italiana, e contara histórias divertidas sobre Marlowe e os outros, de que tinham visto o sol nascer nove noites em dez? Estava agora elegantemente vestido, com um terno matinal cinza, tinha uma flor cor-de-rosa na lapela e luvas de camurça cinza para combinar. Mas enquanto ela se assombrava, ele fez outra reverência e perguntou se ela lhe dava a honra de almoçar em sua companhia. A reverência era talvez um pouco excessiva, mas o arremedo de fina educação era aceitável. Ela o acompanhou admirada a um excelente restaurante, tudo de pelúcia vermelha, com toalhas brancas, galheteiros de prata, imaginando como era diferente da velha taverna ou do café, com o seu chão de areia, bancos de madeira, tigelas de ponche e chocolate, seus impressos e suas escarradeiras. Ele pousou as luvas cuidadosamente ao seu lado na mesa. Ela ainda não podia acreditar que fosse o mesmo homem. Suas unhas estavam limpas, quando costumavam medir uma polegada. Seu queixo estava barbeado, onde uma barba negra costumava brotar. Usava abotoaduras de ouro; quando antes seus punhos rasgados mergulhavam na sopa. Na verdade, ela só se convenceu de que era o mesmo homem quando ele pediu o vinho, o que fez com um cuidado que lhe lembrou seu antigo gosto pela malvasia.

— Ah! — disse ele, dando um pequeno suspiro, que era bastante confortador —, ah!, minha querida senhora, os grandes dias da literatura acabaram. Marlowe, Shakespeare, Ben Jonson — aqueles eram gigantes. Dryden, Pope, Addison — aqueles eram heróis. Todos, todos agora estão mortos. E quem eles nos deixaram? Tennyson, Browning, Carlyle! — arrastava um imenso desprezo na voz. — A verdade é que — disse, enchendo um copo de vinho —, é que todos os jovens escritores estão a soldo dos livreiros. Produzem qualquer lixo que lhes sirva para pagar as contas do alfaiate. É uma época — disse, servindo-se do horsd’oeuvre [1] — marcada por conceitos preciosos e experiências extravagantes — nenhum dos quais os elisabetanos teriam tolerado por um instante sequer.
“Não, minha querida senhora”, continuou, aprovando o linguado au gratin [2] que o garçom submetia à sua apreciação, “os grandes dias terminaram. Vivemos tempos degenerados. Devemos cultuar o passado; honrar aqueles escritores — há ainda alguns deles — que tomam a antiguidade por modelo e escrevem não por pagamento mas por...” aqui Orlando quase gritou “Glour!” Na verdade, podia jurar que o ouvira dizer as mesmas coisas trezentos anos antes. Os nomes eram diferentes, é claro, mas o espírito era o mesmo. Nick Greene não mudara nada, apesar de sua nobreza. E, contudo, havia alguma mudança. Pois enquanto discorria sobre as vantagens de se tomar Addison como modelo (antes tinha sido Cícero, pensava ela) e passar as manhãs na cama (o que — ela se orgulhava de pensar — a sua pensão, paga trimestralmente, permitira que ele fizesse), saboreando as melhores obras dos melhores autores uma hora inteira, pelo menos, antes de encostar a pena ao papel, de modo que a vulgaridade do tempo presente e a deplorável condição de nossa língua nativa (devia ter vivido muito tempo na América, acreditava ela) pudessem ser purificadas — enquanto discorria da mesma forma que Greene discorrera trezentos anos antes, ela tinha tempo para se perguntar em que pontos ele mudara. Tinha engordado; mas era um homem beirando os setenta. Ficara polido: a literatura tinha sido uma carreira evidentemente próspera; mas de certo modo a velha agitação, a incômoda vivacidade tinham desaparecido. Suas histórias, embora brilhantes, não possuíam mais o mesmo desembaraço. É certo que ele mencionava “meu caro amigo Pope” ou “o meu ilustre amigo Addison” a cada segundo, mas tinha um ar de respeitabilidade deprimente, e via-se que ele preferia informá-la sobre ditos e feitos de pessoas do mesmo sangue dela a contar-lhe, como fazia antes, escândalos a respeito de poetas.
Orlando ficou indescritivelmente desapontada. Pensara na literatura todos esses anos (a reclusão, a categoria social e o sexo podem ser a sua desculpa) como alguma coisa selvagem como o vento, quente como o fogo, rápida como o raio; algo errante, incalculável, abrupto, e eis que a literatura era um cavalheiro idoso, de terno cinza, falando sobre duquesas. A violência de sua desilusão foi tal que um dos broches ou botões que lhe fechavam a parte superior do vestido rebentou e sobre a mesa caiu o poema “O Carvalho”.

— Um manuscrito! — disse Sir Nicholas, pondo o seu pincenê de ouro. — Como é interessante, como é extraordinariamente interessante! Permita-me vê-lo. — E uma vez mais, depois de um intervalo de trezentos anos, Nicholas Greene tomou o poema de Orlando e, estendendo-o entre as xícaras de café e os cálices de licor, começou a lê-lo. Mas agora o seu veredicto era muito diferente do que fora antes. Lembrava-lhe — enquanto virava as páginas — o Catão, de Addison. Podia ser comparado favoravelmente às Estações, de Thomson Não havia nele qualquer traço do espírito moderno, tinha satisfação em dizer. Fora composto com respeito pela verdade, pela natureza, pelos ditames do coração, o que era raro, na verdade, nestes dias de excentricidade inescrupulosa. Devia, é claro, ser publicado imediatamente.

Na verdade, Orlando não entendeu o que ele queria dizer. Ela sempre carregara o manuscrito consigo, por dentro do vestido. A ideia divertiu Sir Nicholas consideravelmente. “Mas e os direitos autorais?”, perguntou ele.
A mente de Orlando voou para o Palácio de Buckingham e para alguns obscuros potentados que estavam hospedados lá.
Sir Nicholas divertia-se muito. Explicou que estava aludindo ao fato de que os senhores... (aqui mencionou uma famosa firma de editores) teriam muito prazer, se ele lhes escrevesse uma linha, de incluir a obra em seu catálogo. Ele provavelmente poderia conseguir uma percentagem de dez por cento em todas as cópias, até dois mil exemplares; depois disso, será 15. Quanto aos críticos, ele escreveria uma linha ao sr. ... que era o mais influente; depois, um cumprimento — dizer um pequeno elogio de seus próprios poemas — dirigido à esposa do editor de... não faria nenhum mal. Faria uma visita... Assim continuou. Orlando não compreendeu nada disso tudo e, por sua experiência anterior, não confiou naquela boa-fé, mas não havia nada a fazer senão submeter-se ao que era evidentemente o seu desejo e o desejo fervoroso do próprio poema. De modo que Sir Nicholas embrulhou cuidadosamente o manuscrito manchado de sangue; achatou-o no bolso do peito para que não perturbasse a linha de seu casaco; e, com muitos cumprimentos de um lado e de outro, se separaram.
Orlando subiu a rua. Agora que o poema tinha partido — e sentia um vazio no peito, no lugar onde costumava levá-lo —, não tinha nada a fazer senão refletir sobre o que quisesse — talvez sobre os extraordinários acasos da vida humana. Aqui estava ela, na St. James Street; uma mulher casada, com uma aliança no dedo; onde tinha sido antes um café era agora um restaurante; era cerca de três e meia da tarde; o sol brilhava; havia três pombos; um cachorro mestiço; dois tróleis de aluguel e um landó. O que era então a vida? O pensamento penetrou-lhe a cabeça violentamente e de forma inoportuna (a não ser que o velho Greene tivesse sido a causa disso). E pode ser tomado como um comentário adverso ou favorável, conforme o leitor escolha sobre as suas relações com o marido (que estava no cabo Horn) que quando alguma coisa penetrava violentamente em sua cabeça ela ia diretamente para o posto telegráfico mais próximo e lhe telegrafava. Havia um, por acaso, bem à mão. “Meu Deus Shel” telegrafou, “vida literatura Greene bajulador” — e aqui passou para uma linguagem cifrada que eles tinham inventado entre si, de modo que um estado de espírito demasiadamente complexo pudesse ser transmitido em uma ou duas palavras, sem que o telegrafista percebesse, e acrescentou as palavras “Rattigan Glumphoboo”, que o resumia com precisão. Pois não apenas os acontecimentos da manhã tinham lhe causado uma profunda impressão mas também não deve ter escapado à atenção do leitor que Orlando estava crescendo — o que não necessariamente significa ficar melhor — e o “Rattigan Glumphoboo” descrevia um estado de espírito muito complicado — o que o leitor pode descobrir por si, desde que coloque toda a sua inteligência a nosso serviço.
Não podia haver resposta ao seu telegrama por algumas horas; de fato, era provável, pensou, olhando para o céu, onde as altas nuvens corriam apressadas, que houvesse uma ventania no cabo Horn, de modo que seu marido poderia estar no mastro principal ou cortando algum mastro despedaçado ou mesmo sozinho em um bote com um biscoito. E assim, deixando o correio, foi se divertir numa loja próxima, que era uma loja tão comum em nossos dias que não precisa de descrição, contudo, aos seus olhos, extremamente estranha; uma loja onde se vendiam livros. Toda a sua vida, Orlando conhecera manuscritos; tivera nas mãos as folhas pardas e ásperas em que Spencer escrevera seus pequenos garranchos; vira a escrita de Shakespeare e de Milton. Possuía na verdade um bom número de inquartos e de in-folios, tendo alguns deles um soneto em sua homenagem e outros uma mecha de cabelos. Mas estes inúmeros pequenos volumes brilhantes, idênticos, efêmeros, pois pareciam encadernados em papelão e impressos em papel de seda, surpreenderam-na infinitamente. As obras completas de Shakespeare custavam meia coroa e podiam ser levadas no bolso. É verdade que dificilmente se podia ler, pois o tipo era tão minúsculo, mas ainda não deixava de ser uma maravilha. “Obras”
— as obras de cada escritor que ela conhecera ou de quem ouvira falar espalhavam-se de uma ponta a outra nas longas prateleiras. Nas mesas e cadeiras, mais “obras” estavam empilhadas e misturadas, e estas, ela viu, virando uma ou duas páginas, que eram frequentemente obras sobre outras obras, por Sir Nicholas e um naipe de outros, que ela, em sua ignorância, supôs, desde que estavam impressos e encadernados, serem também grandes escritores. Assim, fez ao livreiro um pedido espantoso: que lhe mandasse tudo o que fosse importante em sua loja, e saiu.
Dobrou no Hyde Park, que já conhecia de antigamente (debaixo daquela árvore bifurcada, lembrava-se, o duque de Hamilton caíra trespassado por Lorde Mohun), e seus lábios, que muitas vezes são culpados, começaram a moldar as palavras de seu telegrama num estribilho sem sentido: vida literatura Greene bajulador Rattigan Glumphoboo, de modo que vários guardas do parque olharam para ela desconfiados e só se inclinaram a uma opinião favorável sobre a sua sanidade mental observando o colar de pérolas que usava. Trouxera da livraria um maço de jornais e revistas e finalmente, apoiada no cotovelo, debaixo de uma árvore, espalhou essas páginas em redor de si e fez o possível para compreender a nobre arte da composição em prosa, tal como a praticavam esses mestres. Porque a sua antiga credulidade ainda estava viva, e até mesmo os caracteres manchados de um jornal semanal assumiam alguma santidade aos seus olhos. Assim, leu, apoiada no cotovelo, um artigo de Sir Nicholas sobre as obras completas de um homem que ela conhecera — John Donne. Mas sentara-se, sem saber, não longe da Serpentina. O latido de mil cachorros soava em seus ouvidos. Rodas de carruagens rolavam incessantemente em um círculo. As folhas suspiravam no alto. De vez em quando uma saia bordada e um par de calças vermelhas justas atravessavam o gramado a poucos passos dela. Uma gigantesca bola de borracha bateu violentamente em seu jornal, certa vez. Violeta, alaranjadas, vermelhas e azuis, rompiam os interstícios das folhas e cintilavam na esmeralda em seu dedo. Lia uma frase e olhava para o céu; levantava os olhos para o céu e depois abaixava-os sobre o jornal. Vida? Literatura? Converter uma na outra? Mas que dificuldade monstruosa! Pois — agora vinha um par de calças vermelhas justas — como Addison teria escrito isso? Ali vinham dois cachorros dançando nas patas traseiras. Como Lamb os teria descrito? Pois, lendo Sir Nicholas e seus amigos (como fazia nos intervalos em que deixava de olhar em torno de si), ela teve a impressão — aqui levantou-se e andou — de que eles provocavam uma sensação extremamente desconfortável — de que nunca nunca se deveria dizer o que se pensava. (Estava às margens da Serpentina. Era cor de bronze: botes leves como aranhas deslizavam de um lado para outro.) Eles provocavam a sensação, continuava ela, de que se deve sempre sempre escrever como outra pessoa. (Lágrimas se formaram em seus olhos.) Pois, na verdade, pensava empurrando um barquinho com a ponta do pé, eu não creio que pudesse (aqui o artigo completo de Sir Nicholas apareceu à sua frente como fazem os artigos, dez minutos depois de serem lidos, com uma visão de seu quarto, sua cabeça, seu gato, sua mesa de trabalho e a hora do dia também), eu não creio que pudesse, continuou, considerando o artigo desse ponto de vista, me sentar num gabinete — não, não é um gabinete, é uma espécie de sala de visitas mofada — o dia inteiro, e conversar com jovens e contar-lhes pequenas anedotas, que eles não devem repetir, a respeito do que Dupper disse de Smiles; e então, continuou, chorando amargamente, eles são todos tão viris; e além disso eu detesto duquesas; e não gosto de bolo; e, embora seja bastante maliciosa, não conseguirei nunca aprender a ser tão maliciosa quanto eles — assim, como poderei ser crítica e escrever a melhor prosa inglesa da minha época? Que se danem!, exclamou, empurrando um vaporzinho tão vigorosamente que o pobre barquinho quase naufragou nas ondas cor de bronze.
Mas a verdade é que quando se está num certo estado de espírito (como dizem as amas) — e as lágrimas ainda permaneciam nos olhos de Orlando —, aquilo que se está olhando se torna não aquilo mesmo, mas outra coisa, maior e muito mais importante, sem deixar de ser a mesma coisa. Se se olha para a Serpentina nesse estado de espírito, as ondas se tornam tão grandes quanto as ondas do Atlântico; os barcos de brinquedo não se distinguem dos transatlânticos. Assim, Orlando confundiu o barco de brinquedo com o brigue de seu marido; e a onda que fez com o pé, com uma montanha de água do cabo Horn; e, ao observar o barco de brinquedo galgar a ondulação, pensou ver o navio de Bonthrop galgando mais e mais alto uma parede de vidro; mais e mais alto subia, e uma crista branca, com mil mortos dentro, se arqueou sobre ele, e entre os mil mortos se foi e desapareceu — “Afundou!”, ela gritou em agonia — e então eis que de novo estava ele navegando são e salvo entre os patos, do outro lado do Atlântico.
“Êxtase!”, gritou. “Êxtase! Onde é o correio?”, se perguntou, “pois preciso telegrafar a Shel imediatamente e contar-lhe...” E, repetindo alternadamente “um barco de brinquedo na Serpentina” e “êxtase” — pois os pensamentos eram permutáveis e significavam exatamente a mesma coisa —, apressou o passo em direção a Park Lane.
“Um barco de brinquedo, um barco de brinquedo, um barco de brinquedo”, repetia, reforçando em si mesma a ideia de que não são os artigos de Nick Greene sobre John Donne, nem as leis das oito horas, nem convenções, nem as leis sobre a segurança dos operários que importam; é uma coisa inútil, repentina, violenta; algo que custa uma vida; vermelho, azul, púrpura; um espírito; um esguicho; como aqueles jacintos (ela estava passando por um belo canteiro deles); livres de mácula, de dependência, da sujeira da humanidade ou de preocupação com os seus semelhantes; algo impetuoso, ridículo, como o meu jacinto, quer dizer, marido, Bonthrop: isso é que importa — um barco de brinquedo na Serpentina, êxtase — é o êxtase que importa. Assim falava, esperando a passagem das carruagens em Stanhope Gate, pois a consequência de não viver com o marido senão quando o vento declina é falar absurdos em voz alta em Park Lane. Sem dúvida seria diferente se vivesse o ano inteiro com ele, como recomendava a rainha Vitória. Mas, assim, o pensar nele caía sobre ela como um raio. Achava absolutamente necessário falar com ele de imediato. Não se importava o mínimo que isso fosse um absurdo nem que pudesse causar deslocamento na narrativa. O artigo de Nick Greene mergulhara-a nas profundezas do desespero; o barco de brinquedo elevara-a aos píncaros da alegria. Assim repetia: “êxtase, êxtase”, enquanto esperava para atravessar.
Mas o tráfego era intenso naquela tarde de primavera e deixou-a ali parada, repetindo, êxtase, êxtase, ou um barco de brinquedo na Serpentina, enquanto a riqueza e o poder da Inglaterra sentavam-se como que esculpidos, de chapéu e capa, em carruagens de quatro cavalos, vitórias e landós. Era como se um rio de ouro tivesse coagulado e se amontoado em blocos de ouro ao longo de Park Lane. As senhoras seguravam entre os dedos estojos de cartões de visitas; os cavalheiros balançavam entre os joelhos bengalas de castão de ouro. Ali ficou, mirando, admirando, chocada. Um único pensamento a perturbava, pensamento familiar àqueles que contemplam grandes elefantes ou baleias de incrível magnitude: como será que esses leviatãs — aos quais obviamente repugnam esforço, mudança e atividade — propagam sua espécie? Talvez — Orlando pensava, olhando para as faces tranquilas e majestosas — seu tempo de propagação tenha terminado; isto é o fruto; isto é a consumação. O que ela contemplava agora era o triunfo de uma época. Ali sentavam-se, imponentes e esplêndidos. Mas, agora, o guarda abaixara a mão; o rio tornou-se líquido; o conglomerado maciço de esplêndidos objetos se moveu, se dispersou e desapareceu por Piccadilly.
Assim, ela atravessou Park Lane e foi para a sua casa em Curzon Street, onde, quando a olmeira floria, podia se lembrar da voz de um maçarico e de um homem muito velho com uma espingarda.


continua pag 113...
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Virginia Woolf, escritora inglesa, nasceu em 1882, no seio de uma família da alta sociedade londrina. Após a morte de seus pais, ela e os irmãos se mudaram para uma casa no bairro de Bloomsbury, onde realizavam encontros com personalidades e poetas da época, como como T. S. Elliot e Clive Bell. Virginia começou a escrever em 1905, inicialmente para jornais. Dez anos depois, ela lançou seu primeiro livro “A Viagem”.
No período entre a 1ª e 2ª Guerra Mundial, Virginia Woolf se tornou uma figura conhecida na sociedade inglesa. Em 1941, ela cometeu suicídio se jogando no rio Ouse, perto da residência onde morava com seu marido, o crítico literário Leonardo Woolf, em Sussex. Mas, a obra de Virginia se imortalizou. Usando com excelência a técnica do fluxo de consciência, a escritora criou livros inovadores, que lhe fizeram ser conhecida como a maior romancista lírica do idioma inglês.
A Universidade de Adelaide, uma das instituições de ensino mais antigas da Austrália, disponibilizou online toda a obra de Virginia Woolf para download gratuito. Ao todo, são dez romances e dois livros de contos que podem ser baixados em três formatos: Zip, ePub e Kindle (para dispositivos Amazon). Entre os arquivos, estão algumas das obras mais famosas da escritora inglesa, como “Mrs. Dalloway” (1925), “Rumo ao Farol” (1927), “Os Anos” (1937) e “A Marca na Parede” (1944).
As obras estão em inglês. Para fazer o download, basta clicar sobre o título e escolher a opção “download. Também estão disponíveis ensaios de Virginia Woolf, como “O Leitor Comum” (1925), no qual ela reflete sobre a arte literária com base em obras-primas de outros autores renomados.


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Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (a) ... Com alguns guinéus
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (b) ... Ninguém manifestou a menor suspeita
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (c) ... Para fazer justiça a ela
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 4 (d) ... Orlando atirou a segunda meia
Virgínia Woolf - Orlando : Capítulo 6 (b) ... Neste momento
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[1] Em francês no original: entradas servidas antes dos pratos principais de uma refeição.
(N.E.)
[2] Em francês no original: gratinado. (N.E.)