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domingo, 17 de abril de 2022

mulheres descalças: Ele traja calçados!

 mulheres descalças


Ele traja calçados!
Ensaio 127Bzzc – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



dona rosinha num pode e num qué mostrá vontade demasiada, sem controle, sem vergonha, ela sabe quias muié num tem soltura da escravidão disê muié, nunca vai tê carta pra alforria disê muié preta nesse tempo disê muié-viva, precisa sê muié preta meió quias branca, mais pureza, mais honesta, mais cuidadosa e atenciosa cuas vontade dusiô marido, silenciosa cuas desconfiança disê muié, prestativa sem alguma veiz esquecê qui foi comprada, tem dono, caprichosa cuos cuidado da limpeza da pele preta e da casa, primorosa no zelo da fia e da comida, precavida e sem pureza pra num perdê useu valô nas urgência e pressa dusiô marido, paciência pra socorrê suas precisão imprecisa, o barro qui junta as pedra da casa, Apesar dos seus caracteres físicos, dona Rosinha, essa casa está florescendo, estamos cavando e aplainando uma vida melhor para nossa filha. Isso tudo só comprova que escolhi certo quando lhe tirei da fila da senzala, dona rosinha sabe qui nehuma veiz vai caminhá cuô marido, lado a lado, nas rua da villa, sempre dois passo pra trás, faz muito que a Villa deixou de ser um povoado com meia dúzia de casas de aspecto pobre, espalhados aqui e ali. Exemplo disso, é o ancoradouro dos iates do comércio do interior e para as embarcações de dois mastros, que não demandam mais fundo do que 14 até 18 palmos, abastecendo os diversos comércios da nossa Villa risonha, dona rosinha teve vontade pra suspirá grande, num tinha interesse nas palavra da exibição dusiô augusto, mais anotô na memória qui precisava contá os 18 palmo, sabê é meió qui num sabê

Dona Rosinha não concorda que é preciso continuar derrubando a mataria?

O sinhô Augusto sabe que não tenho ido e vindo muito na Villa. Os cuidado com a menina e as preocupação com a casa carregam o tempo como se fosse uma ventania, ele num pareceu tê escutado e sê escutô num pareceu tê dado importância, mais ficô incomodado cuas coisa qui num combinava, num sabia bem uquê, É preciso continuar derrubando a mataria e limpando as ruas, seja da sujice ou dos criolos, verdadeiras taperas com mau aspecto. E a iluminação pública? Meu Deus, a iluminação existe só nas ruas principais, os lampiões de azeite de peixe são acessos somente quando não há luar. Depois, nossa gente se queixa das fugas nas noites de lua sem iluminação pública - aquié quando usiô augusto esquece quia dona rosinha tumbém podia fugí nas noite desluarada -. É preciso melhorar a iluminação pública da Villa!

dona rosinha tumbém num pode sê uma estátua de pedra, precisa sabê fingí qui num tá fingindo fingimento, tem munta serventia ela sabê caminhá pelo meio das mentira e abêrando as verdade

ela carrega o medo dos medo: num tê toda vontade e feição pelo gosto do marido, as mãos dela inté pode fingí uqui num é, mais a secura no lago do amô pode abrandá o ânimo e o zelo da rigidez apropriada, cabeça mole num afunda nem dança, se entreva em adormecimento e junta aborrecimento na sua volta, Ajuntamento bom só em sonho, antes de ter marido, os pensamento num fingi uqui num é pra dona rosinha, a caridade antes disê uma virtude é a sua política pra sobrevivê, prusiô augusto num existia virtude, só aceitava a gratidão submissa, ligada à obediência, docilidade e dedicação, maljeitosa pra rebeldia

virô costume fala cuas mão sem dizê nada, escondê as palavra quius pensamento solta pra avoá, Mandado ou não mandado, esse lá, é fortão, grandão e carnoso, e não usa bengala. Aposto que vive querendo dormir com as putas do Beco dos Pecados. Se esse aparecer por lá, aviso que não vou mais. Quase sinto pena do coitado, só sai nas ruas para caçar os fujão.

lá embaixo, na praça dos linchamento, o ajuntamento crescia com robustez

ali, no parapeito da janela paisagística, usdois mirava tudo como degustação pru recital quase viril dusiô augusto - sem poesia, canto e piano - sem gritaria

Veja isso, paizinho...

O quê, mãezinha?

num era apropriado dizê uqui queria e mudá o alvoroço qui tava pra despertá usdois

dona rosinha apontava o dedo fura-bolo na direção do theodoro - usiô augusto num pode evitá de repará na buniteza daquele dedo, sentiu uma vontade desavergonhada de bebê useu gosto -, voltô falá, comentando sem tê muntu cuidado, sem pensá no perigo das palavra solta desatenta, Ele traja calçados!

usiô augusto oiô na direção quiu fura-bolo apontava, tentô vê uqui o dedo tava vendo, a bagunça e a gritaria tava em tudo lá na praça

num conseguiu vê, Quem, mãezinha?

O tal Theodoro, paizinho!

pretu quiusa calçado nuspé avisa quié pretu liberto, uspé calçado é a marca desapagada da liberdade na villa

pretu escravizado num tem aprovação pra usá calçado nuspé churriado, fedido do fedô da lama, as unha alindada cua sujidade escura das rua, atraindo as mosca doce pru chorume apodrecido, vive e morri descalço, inté quando volta buscando pra senzala aconchego e alimento

a mistura dos ferimento e da lama nuspé dava um chêro desalmado qui denunciava uspé descalço escravizado, assim ficava mais sossegado sentí nojo da pretaria e anunciá prus fiu qui o futuro dos roçado de milho e feijão - e da carne salgada - dependia de continuá uqui sempre foi

É funcionário do sinhô Moringue e se calça sapatos é porque lhe foi permitido. Não arriscaria a influência do seu dono, muito menos, faria uso de qualquer regalia sem estar devidamente autorizado.

dona rosinha parecia tá solta, ela e os pensamento - pelo menos, os pensamento -, Ele é bonitinho, tem roupas limpas e inteiras. Vestido de maneira que não ofende a moral pública.

usiô augusto tumbém parecia tá perdido nele e nos pensamento, Aposto que dissipa quase tudo que ganha em roupas com tecidos de cores berrantes, cachaça braba e jogatina. Não parece, não?

O quê, paizinho?

usiô augusto se assustô qui deixô escapá os pensamento

É criolo correndo de todo lugar, mas esse calçado parece que ganha em roupas com tecidos de cores berrantes, cachaça braba e jogatina. A mãezinha não concorda?

Não sei, mas olhando melhor, com mais agudeza, parece ter prudência no trajado, sem excessos, mas com decência, fez uma parada, usiô augusto num se apercebeu do tremô das coxa da siá rosinha, talvez, pensô, faça uso das danças lasciva da arraia miúda, Será que o tal Moringue não aluga esse Theodoro?

usiô levô a mão inté a quêxada

Ele já é um negro de ganho para o sinhô Moringue. A mãezinha quer alugar o negro? Para qual necessidade?

Não, claro que não... para nada. Não teria serventia aqui em casa.



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é bão lê, tumbém... sequisé:


histórias de avoinha: Sinto-me tão só
histórias de avoinha: um império invisível
histórias de avoinha: uma sombra sem corpo não cruza as pernas
histórias de avoinha: Bagaço hipócrita!
histórias de avoinha: a vaga de marido
histórias de avoinha: a lua na escuridão
histórias de avoinha: chegô no piano
histórias de avoinha: o silêncio no brejo dos pensamento
histórias de avoinha: borboleta preta
histórias de avoinha: Obrigada, Açunta!
histórias de avoinha: ôum velório de vida
histórias de avoinha: o feitiço das trança
histórias de avoinha: o siô ajeitado e as duas miúda
histórias de avoinha: Simão
mulheres descalças: é mansa...
mulheres descalças: Mas você devia!
mulheres descalças: Dez sacas, o amigo concorda?
mulheres descalças: café ralo e mandioca cuzida
mulheres descalças: o descuido da miúda
mulheres descalças: a traste
mulheres descalças: até quando
mulheres descalças: uma sombra silenciosa
mulheres descalças: a perigosa é ela
mulheres descalças: uma resposta deboche
mulheres descalças: gostar sem resistir
mulheres descalças: buraco do barranco
mulheres descalças: caridade é uma brisa morna
mulheres descalças: hipócrita, egoísta e cega d’ódio
mulheres descalças: a pulícia pública
mulheres descalças: a vida num é simples
mulheres descalças: na solidão sozinha
mulheres descalças: usdois contra cadum
mulheres descalças: fofocando comigo mesma
mulheres descalças: felicidade não existe
mulheres descalças: um gosto diódio
mulheres descalças: o café esfriou
mulheres descalças: é difícil ser dono
mulheres descalças: o pecúlio do Theodoro
mulheres descalças: ferindo a morte cua vida
mulheres descalças: Ele traja calçados!

domingo, 3 de abril de 2022

mulheres descalças: ferindo a morte cua vida

mulheres descalças


ferindo a morte de vida
Ensaio 127Bzzb – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar


é bem verdade verdadêra, quisse medo todo num matô gente – eles num sabe inté onde eles sabe qui num sabe simatô ou num matô, complicô, né?, vô tentá dotro jeito, usdois se decidiu num sabê muntu: sinum sabe, num matô; sinum matô, é uma preocupação qui num existi, num tem uqui fazê, é meió creditá qui existi otras coisa, qui pode ou num pode existí, pra botá no lugá duqui num siqué sabê, é bem meió vivê assim, sem as preocupação disabê, a vida fica mais florida e cherosa, a paz da mentira acomodá meió o faz-de-conta –, Que Deus abençoe e proteja nossa noite, dona Rosinha, Jesus lhe ama, sinhô Augusto, A dona Rosinha é uma benção de Deus nesta casa, que a nossa noite seja toda abençoada, Só Jesus salva, eles já num sabe dizê notícia nova um dotro, oiá com conforto e confiança, usdois costumô tá falso e com miudeza de tempo junto

já num sabe – pra bem da verdade verdadêra, usdois sabe – como sucedeu deles tê encontrado um e otro, eles vive tão costumado de num existí usdois junto qui um num lembra mais dos sonho dotro – coisa qui prusiô augusto num muda muntu, sonho bão é sonho dele –, sobrô desalento embuçado pru dentro e palavra solta pru fora, a fome da vida num é só comida, é vontade ditê sonho, mais num sê comida num faz a vida sê mais abençoada e acertada, só faz ela sê mais penosa e sombria, vida assim precisa sê ajudada com comida, depois do feijão, das hortaliça, da carne e do pão, vem o alento disê apreciá

a vida dusiô augusto e dona rosinha tem fartura de comida, tem pra sobrá e colocá fora mais chora embuçada, aquartelada, perdendo pedaço pelos caminho, minguando, mastigando sem sentí o gosto, engolindo pedaço maciço, Dona Rosinha tem fome?

a muié desconfiô da prugunta, mais respondeu, Gosto de comer com gosto.

E agora, dona Rosinha tem fome?

Huuummm... agora que vosmecê tocou no assunto...

Às vezes, sinto uma fome que não passa, preciso comer e repetir, esvaziar-me, comer e repetir e repetir... uma vontade de comer que não passa sozinha.

Entendo, vosmecê... já tive essa fome que não passa.

Não tem mais? E como dona Rosinha resolveu essa fome?

Acostumei com o descampado das noites.

Então, dona Rosinha... vosmecê já acordou, por volta das madrugadas do amanhecer, com a fome de comer com gosto?

ela já tava se alarmando e alvoroçando, tudo junto, tanta prugunta qui num foi feita a vida toda, num tinha certeza onde essa conversa toda ia dá, mais respondia, Sim, tem vez que aqui dói, e colocô a mão espalmada nas entranha

No meu caso, hoje, me sinto embriagado e esbanjando fome.

as mão tocando sem tocá uma notra, fingindo num tá tocando, disfarçando o susto daquele apetite às clara, dona rosinha voltô as vista pra praça, O Theodoro tem um nariz grandão, nariz de Sansão.

Provavelmente, usou aquele nariz achatado para descobrir o esconderijo do fujão. O que não muito difícil, o rastro ruim de criolo apavorado dá para sentir de longe, o pelame das mão arrepiando, mas, dona Rosinha, não se preocupe, o Moringue tem o miliciano dele com as rédeas curtas. O negro só cumpre o que é ordenado. Disciplina e hierarquia é tudo.

as mão continuava ajuntando com levedura, o jogo de combate ao marasmo e froxidão tinha começado, tudo muntu lento e manso, nenhum dusois queria assustá o perdão em nome da fome, as parte dicadum precisa saí da miséria e da miudeza diuso

respírando e resmungando um quiotro gemido

sem teimosia, se esquecendo ditudo, a cabeça de porongo despovoada, sem complicação, desinventada, os capricho do descaso um notro se desmanchando

as mão se misturando

as cabeça dura ferida, curação de pedra nas mão, corpo a corpo com cautela e boa vontade, desamarrando o querê escondido, furtivo, descido do parapeito, apenas nas coxa sem a pressa do mal-feito

o mundo do casarão ao avesso das vontade

as boca querendo comê, as coxa com vontade didá

as palavra escondida na prisão da cabeça, o salvamento se pruguntando pru qui usdois num se servia cumais gosto um dotro, as vontade e o suco aboiando nas bêrada, as parte se moiando, os chêro e as frescura ferindo a morte cua vida



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é bão lê, tumbém... sequisé:

histórias de avoinha: Sinto-me tão só
histórias de avoinha: um império invisível
histórias de avoinha: uma sombra sem corpo não cruza as pernas
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histórias de avoinha: a lua na escuridão
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histórias de avoinha: o silêncio no brejo dos pensamento
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histórias de avoinha: Obrigada, Açunta!
histórias de avoinha: ôum velório de vida
histórias de avoinha: o feitiço das trança
histórias de avoinha: o siô ajeitado e as duas miúda
histórias de avoinha: Simão
mulheres descalças: é mansa...
mulheres descalças: Mas você devia!
mulheres descalças: Dez sacas, o amigo concorda?
mulheres descalças: café ralo e mandioca cuzida
mulheres descalças: o descuido da miúda
mulheres descalças: a traste
mulheres descalças: até quando
mulheres descalças: uma sombra silenciosa
mulheres descalças: a perigosa é ela
mulheres descalças: uma resposta deboche
mulheres descalças: gostar sem resistir
mulheres descalças: buraco do barranco
mulheres descalças: caridade é uma brisa morna
mulheres descalças: hipócrita, egoísta e cega d’ódio
mulheres descalças: a pulícia pública
mulheres descalças: a vida num é simples
mulheres descalças: na solidão sozinha
mulheres descalças: usdois contra cadum
mulheres descalças: fofocando comigo mesma
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domingo, 20 de março de 2022

mulheres descalças: o pecúlio do Theodoro

mulheres descalças



o pecúlio do Theodoro
Ensaio 127Bzza – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar


usiô augusto desembuchava o dito e num dito enquanto oiava ensimesmado pra praça, num censurava uqui tava acontecendo, comparava com os acontecido de mais tempo pra tráis, sempre tem uqui usá pra compará, é só tá atento na vida e num se dexá levá pelo canto da sereia nem pelo medo do fogo do dragão, cadum decidi a alça quiqué segurá, as história quiqué lembrá – ou esquecê –, Já foi mais fácil comprar a carga desembarcada direto dos negreiros. Logo, esses deputados de merda, vão ceder a pressão proibindo o atracamento do carregamento da negrada. Fazer riqueza vai ser um embaraço, comprar com preço justo vai virar um pesadelo. O desabastecimento já está vindo, não vê quem não quer, ainda nos salvam os nascimentos. Não tem jeito, a Villa vai ser atingida em cheio, quem tem vai se gabar, quem não tem vai ter que se contentar em lamber os beiços. Ficaremos mais na vontade e na contagem: Quantos negros você já perdeu? Quantos já achou? Para onde será que eles vão? O pior cego é aquele que não quer ver, usiô augusto num achava justo uspretu se rebelá, ficá animado pra abocanhá o contentamento faz-de-conta das rua e da fuga prus quilombo, É isso, dona Rosinha, falta o costume doméstico de render graça, fazer o sinal da cruz e agradecer à Deus. Na grande maioria das vezes, fogem por pura vagabundagem. Bestas bêbadas imundiciando as sarjetas da Villa, sem uso decente, entristecendo o que já foi mais alegre.

Não diga assim, sinhô Augusto.

sem se desviá do acontecido na praça, sem querê sê ameno ou comedido, inté pruqui o assunto lhe enchia a cabeça com mais preocupação dos aumento do custo de vivê na villa

A dona Rosinha consegue imaginar algum criolo entrando em nossas confeitarias, cafés e usando as economias que trás nos bolsos? Roubou de quem para apreciar cardápios com paladares de bolos e bolsos variados? Em terra de cego quem não tem um olho é porque perdeu o outro.

usiô augusto, qui num tinha pretu nas sua ordenança – tinha a antônia qui num ia sai correndo em fuga pra quilombo, num era falta de vontade, mais falta das perna pra corrê e saúde pra ficá escondida nus mato, tinha dona rosinha qui num ia fugí sem a fia, a muriquinha pianística do cabelo quase bão tinha vida de gente branca, num ia estragá isso, e no mais, já tava costumada com as cobertura amolecida dusiô augusto, cada veiz mais longe uma tentativa dotra –, num aceitava a desobediência do mandamento pra num fugí prus quilombo, E o direito de propriedade? Quem não tem criolo, tem negro, quem não tem negro, tem mulato, dá tudo no mesmo. Aqui, na Villa, se é escravo, cidadão ou mulher!

E os negros e negras alforriadas, sinhô Augusto?

E daí? O que tem isso de importância?

Eles são o quê?

Uma aberração! Onde já se viu criolo entrando para a política, juntando pecúclio para comprar alforrias? Bobagem! Na prática a criolada é escrava e isso não vai mudar! É uma questão de segurança, hierarquia e obediência. Alforriado é tudo macaquito resmungão que não quer o bem da Villa.

eles continuava na janela paisagística, oiava pra longe e pensava pra perto, a praça parecendo um alívio distrativo pra falta de assunto de estreiteza e chamego, um divertido novelo de lã qui rolava e se enrolava nas amargura das palavra, escoiceava o tanto faz prus respingo do suô e sangue pretu

usiô gonzaga tirô a mão do parapeito, desceu ela inté ficá com o braço todo reto, parecia procurá a bengala qui tava acamada no chão, dona rosinha teve o mesmo pensamento, desceu a mão do parapeito enquanto oiava o soldado – um negro gigante qui parecia tê nascido praquilo disê forte – das pulícia chimabata prus pretu, Esse daí é muito berrante, parece ter concentrado nele toda força corpulenta, se calô, achô qui já tinha dito além duqui era pra sê dito, tem veiz, quié meió ficá calada, deixá usiô pensá uqui quisé, duqui abrí a boca e num deixá nehuma dúvida, recôieu as palavra e dexô elas solta na cabeça, Um polícia nutritivo e robusto, mas parece uma ventania querendo ser vento.

Se for necessário meter a mão em algum criolo, não tem problema, ele mesmo faz o serviço. O Moringue gosta de fazer uso das mãos do seu melhor capitão-do-mato. A nossa milícia pública está bem servida com o negro Theodoro. Dizem que toca uma gaita de boca como nenhum outro. Faz estremecer o coração mais duro.

tudo qui respirava na villa sabia dusiô moringue e do tidoro, usdois fazia cumprí seu devê de segurança na villa e num mostrava arrependimento, colocava medo em quaqué debandada duspretu, Esses dois nasceram para esse serviço: milícia dos criolos que envergonham os negros com a desobediência das fuga e vagabundagem do corpo mole.

Sinhô meu marido, não me sinto segura com esse negro enorme andando livre e armado de polícia.

num falava uqui escondia, nuqui as coxa dizia, tava viva e envergonhada daquele calorão qui subia e se escorria, num tinha escapatória, oiava prum negro com serviço diverso, num adiantava despachá usóio pru horizonte, os pensamento tava acesso na praça, dolorida do ataque com avanço e recuo do negro enorme, recusava saí do medo qui crescia

Concordo com dona Rosinha, ele é muito grande e forte, também sinto arrepio só de olhar tanta robustez e feitiço. É o tipo que não precisa andar armado. Dizem que nas folgas do serviço de busca e prisão o sinhô Moringue lhe manda duas ou três negras bem fortes. Quando descansa do serviço de caçador ele faz o serviço de cobertura das escravas sem feridas ou canseiras. Um bom arranjo do sinhô Moringue com alguns fazendeiros. E o Theodoro não parece incomodado com isso, dizem que sua prole se espalha pelo continente do pampa. Escravo nascido na Villa fortalece o comércio interno e diminui o endividamento com o comércio negreiro. Nestes tempos bicudos é uma alternativa inteligente. Os fazendeiros ganham, o sinhô Moringue ganha e o Theodoro vai juntando um pecúlio para cada cria que vinga.

as mão dusdois se tocô de manso, quase sem querê, quase sem tê vontade, quase sem lembrança, quase creditando qui podia fingí sê uqui num era mais, quase vazio ditudo e cheio pra nada, quase com medo, o mesmo medo dos faminto qui dormi pra tê uqui comê: o pesadelo com a fortuna da comida dos resto

é tanta cautela e receio qui chega sê um espasmo do espanto qui usdois vive junto, na mesma casa, com tanto medo e com tanto tempo passado sem gosto e sem atrativo prus ajuntamento dum notro

oiando assim, aqui da praça, pra janela paisagística, o medo num foi bão com eles, o medo num é bão com ninguém, a cisma e o acanhamento fez crescê a recompensa do medo: usdois sivê uqui num é, ninguém sai vivo da vida


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é bão lê, tumbém... sequisé:

histórias de avoinha: Sinto-me tão só
histórias de avoinha: um império invisível
histórias de avoinha: uma sombra sem corpo não cruza as pernas
histórias de avoinha: Bagaço hipócrita!
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histórias de avoinha: a lua na escuridão
histórias de avoinha: chegô no piano
histórias de avoinha: o silêncio no brejo dos pensamento
histórias de avoinha: borboleta preta
histórias de avoinha: Obrigada, Açunta!
histórias de avoinha: ôum velório de vida
histórias de avoinha: o feitiço das trança
histórias de avoinha: o siô ajeitado e as duas miúda
histórias de avoinha: Simão
mulheres descalças: é mansa...
mulheres descalças: Mas você devia!
mulheres descalças: Dez sacas, o amigo concorda?
mulheres descalças: café ralo e mandioca cuzida
mulheres descalças: o descuido da miúda
mulheres descalças: a traste
mulheres descalças: até quando
mulheres descalças: uma sombra silenciosa
mulheres descalças: a perigosa é ela
mulheres descalças: uma resposta deboche
mulheres descalças: gostar sem resistir
mulheres descalças: buraco do barranco
mulheres descalças: caridade é uma brisa morna
mulheres descalças: hipócrita, egoísta e cega d’ódio
mulheres descalças: a pulícia pública
mulheres descalças: a vida num é simples
mulheres descalças: na solidão sozinha
mulheres descalças: usdois contra cadum
mulheres descalças: fofocando comigo mesma
mulheres descalças: felicidade não existe
mulheres descalças: um gosto diódio
mulheres descalças: o café esfriou
mulheres descalças: é difícil ser dono
mulheres descalças: o pecúlio do Theodoro
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sexta-feira, 4 de março de 2022

mulheres descalças: é difícil ser dono

 mulheres descalças



é difícil ser dono
Ensaio 127Bzz – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar


a vida à toa pra uns é dum feitio com cara de boi e o resto parecido com gente, boi sem curiosidade ou alegria, boi sem pensamento bão, ardendo de encantamento pelo próprio mugido, escondido pelos mato pastando ou pelos canto cachimbando, escondendo sua fachada pavorosa: meio gente, meio boi

a vida desprezível pra otros é dotro jeito, parece castigo ruim, agitado e enfurecido, é vida esparramando tristura e malvadeza, espiando, destampando e jogando as desgraça e infortúnio da fome e da morte, na villa

no modo divê dos dono de tudo, desembestado ou remansoso, uspretu é à toa, desprezível, astuto e traiçoêro, corpo mole pru trabáio, fujão qui leva açoite – mais num endireita –, molambo qui num merece desculpa e precisa sê castigado como refugo qui num pensa, qui num existe

pretu na villa num tem paz! num tem voz! num tem corpo, mais tem senzala e o laço do cativêro no gargalo, conversa quando muntu nas quitanda, nas cacimba, conversa de pretu e segredo das senzala

na villa, quando num é vida à toa, é vida desprezível, a brancura num tem otro feitio divê, num qué tê, num pode tê, tudo mais na villa tem um, dois, trêis ou mais feitio disivê, mais ali, uspretu qui num se paga é refugo à toa e desprezível

no modo caridoso quius branco se lambuza, nas palavra qui eles anuncia a paz – O caminho da razão sobre a superstição! –, uspretu precisa sê amordaçado e acorrentado no cercado, A negrada não tem corpo, e pior, num sabem que não têm corpo, por isso, não sentem dor, Não diga isso, sinhô Augusto, A escravidão sempre existiu, dona Rosinha, É um pecado, E nunca vai deixar de existir, fazê uspretu sê menos, fazê a muié creditá sê menos, Deus é justo, sinhô Augusto, não vai deixar assim para sempre, Assim é que é – e será para todo o sempre – enquanto a Villa durar e gente de bem quiser viver em paz, simplicidade e tranquilidade!

Meu esposo, é mesmo preciso tanto sofrimento?

Dona Rosinha, a causa de tanta ferida e salmora é da negrada. É o desejo e o apego do molambo por uma vida que não pode ter.

O sinhô meu esposo não acha que está sendo muito cruel?

a risada do siô augusto cortô a sala pianística como uma foice de diamante espalhando respingos de medo, fazendo brotar um sortimento de pesadelos maus

Dona Rosinha, mãe cuidadosa e carinhosa, não se deixe enganar, a prosperidade da Villa e arredores se alicerça nos escravos comprados e fecundados – O feitor deitar com as negras é um benefício para todos –, e também, na multiplicação dos bois nas estâncias, os dono de tudo usa as palavra como dono, num usa medida, exige respeito, mansidão, docilidade e cortesia, nunca é ou vai sê diferente, pelo menos, enquanto eles tivê a força e a fidelidade cachorra dos capitão-do-mato pra empunhá a chibata, fechá a dobradiça das corrente e usá a pólvora no seu gosto, dia e noite, quente e frio, senhor e escravo, é a lei divina, dona Rosinha, nas palavra do siô augusto, pra tê alívio naquela vida cercada dos dono é preciso sê justo e conciliadô, uspretu precisa obedecê e sabê do lugá qui eles fica, abrí mão das vontade qui pode querê, Olhe a praça, dona Rosinha, tudo tem dono, eles tem dono, a praça tem dono, se alguma coisa não dá certo, a culpa é da negrada preguiçosa e desalmada – sem alma porque foi arrancada e enfeitiçada pelos demônios da encruzilhada. Negro é negro e para bicho pouco falta!

um escravista de nariz torcido... metade boi, metade gente desajeitada cheirando o próprio mofo

Ninguém obriga ninguém fugir. E adiantou fugir? Só aumentou os castigos para o negrinho escapista. É bobagem isso de querer desertar das suas obrigações. Depois, é tarde demais para arrependimentos. O fujão só piora a sua situação com outras injúrias e expiação. Essa negrada ignorante não entende que isso afeta a vida de todos?

os dois tava no parapeito da janela panorâmica, um do lado dotro, oiando a movimentação na praça, a correria atrás do fujão, O dono – que não se importa de fazer o que é preciso fazer – quer manter as suas coisas. Ele pagou e quem paga é o dono, é assim, e pronto. Não vai perdoar que o fujão se ausentou sem permissão. Dona Rosinha, vou lhe confessar: é difícil ser dono, às vezes, é preciso esquecer o coração e tomar a decisão que a razão exige.

dona rosinha arriscô oiá pru seu dono, usô a borda das vista, num arriscô oiá de frente, ela tinha suas razão



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é bão lê, tumbém... sequisé:

histórias de avoinha: Sinto-me tão só
histórias de avoinha: um império invisível
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histórias de avoinha: Bagaço hipócrita!
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histórias de avoinha: a lua na escuridão
histórias de avoinha: chegô no piano
histórias de avoinha: o silêncio no brejo dos pensamento
histórias de avoinha: borboleta preta
histórias de avoinha: Obrigada, Açunta!
histórias de avoinha: ôum velório de vida
histórias de avoinha: o feitiço das trança
histórias de avoinha: o siô ajeitado e as duas miúda
histórias de avoinha: Simão
mulheres descalças: é mansa...
mulheres descalças: Mas você devia!
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mulheres descalças: a traste
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mulheres descalças: usdois contra cadum
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mulheres descalças: um gosto diódio
mulheres descalças: o café esfriou
mulheres descalças: é difícil ser dono
mulheres descalças: o pecúlio do Theodoro


domingo, 30 de maio de 2021

mulheres descalças: o café esfriou

 mulheres descalças



o café esfriou
Ensaio 102Ba1 – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar



todo começo da manhã, dia com sol ou chuva, ventania do minuano ou quentura mormacenta, tinha um caso novo prus trêis palavreá – mais um quarto vivente da gente do bem que sempre chegava depois do café e dos assunto tá servido – na taberna do café e leite inté as metade das manhã, depois o bolicho tomava conta, as cachaça começava sê água benta usada como iguaria à mesa enquanto uspretu era descido do pelôrinho, tumbém servido como iguaria e entretenimento na vida costumêra e ajustada aos afazeres da villa, todo começo de dia ensolarado, nuviado ou mormacento, gelado ou calorento, foi igual ano depois de ano

Maneco, vosmecê viu a correria na praça?

a prugunta fez usdois sentado à mesa voltá as vista pru dono da casa das bebida quente e fria, tava vestido com sua armadura branca qui usava amarrada na cintura, ainda cuas mancha duso dias antes

E correria na praça tem novidade? Tem para todos os gostos. Já teve negro enfiado na canga, já teve acorrentado pelo pescoço, puxado, empurrado, enforcado, arranhado ou esfolado, tudo com cabelo duro, espetado ou raspado. O que não falta é rastro de suor e sangue.

Não se tem sossego...

No fim de tudo, é a polícia pública que corre atrás ou serviço é feito pela gente de bem na Villa. 

Negro fujão precisa ser preso.

Isso mesmo...

Boa vontade se paga com boa vontade, ingratidão se paga com canga e um bom corretivo no pelourinho, Juca.

as vontade duódio parecia qui se resistia mais e mais, dia depois do dia, ali na praça, na villa toda, nas casa e nas cama do nascimento inté morrê

Acho que quando chega nestes termos, uotro sentado pru café parecia muntu na sua vontade entre os grito de justiçamento qui brotava devagarzinho, o ajuntamento tinha começado sem pressa, é preciso um castigo exemplar. Só assim se vai desencorajar outras rebeldias.

Isso vai longe.

Tenho minhas dúvidas, acho que colocam as mãos no negrinho antes da metade do dia.

Hum... tenho cá... minhas dúvidas...

usdois resolveu num retrucá, as vista continuô na praça depois do sinal da cruz feito, a manda tava se ajuntando, corria prum lado e otro pra tê o meió lugá divê, assumbiava febrenta, a villa parecia tá só limpado a garganta seca com tanta babação e usóio esbugaiado, num tem ninguém ali qui se importa cuas injustiça, esquecidos e injustiçados fazendo injustiça cuas mão própria de tanto comê pirão frio, morrê ou mata passô num tê importância

Isso tudo não faz crescer o entusiasmo por esse lugar esquecido do Império. É fácil aprender a viver...

Ou morrer...

Acredito que o destino de cada um já está tramado, o cafetêro pegô com as duas mão a ponta da armadura de linho manchada... e secô a testa, mais um pão com linguiça?

Pode trazer, essa correria toda me abre o apetite...

Amém, e sem combinação ou intenção de fazê junto, usdois ergueu as taça do café e leite, um contentamento qui dava pra vê, qui se vê, um nó cego na obediência dócil da vontade qui num vê pruqui num qué vê, uma fascinação alucinada, tudo quié contrário num pode existí, villêro num consegue se controlá do costume disê infeliz, é só deixá eles falá e sabê escutá

É... começou mais cedo... antes, bem antes do café esfriar, continuô o joca dos lampião

Vagabundo demais e polícia pública de menos, reclamô maneco coxa, desse jeito a praça não consegue se acomodar.

O mesmo assunto todos os dias, já está ficando chato.

Hum... cansativo...? O movimento é bom, às vezes, um pouco exagerado, mas é só sentar e observar. Olha lá, viu? A praça está sempre se mexendo.

Principalmente, as negrinhas... não é? Seu manco desavergonhado...

Eita gingado do demônio, é muita provocação... não tem santo que resista...

Calma, Maneco... e a linguiça...

o cafetêro num se apressô respondê

O que me incomoda aqui na botica é ver a mendicância que continua aumentando. Entram sem pedir licença e a cachorrada entra junto, o palavreado parô, a luz alaranjada se mostrô nos telhado e na praça, tingindo as ruas sem querê sabê e sem pruguntá se podia subí, dá nojo andar nas ruas... o movimento está fraco. As pessoas de bem da Villa parecem com medo de caminhar nas ruas, a claridade alaranjada do sol nas água do rio fez a botica toda silenciá, só a beleza talentosa do mundo faz as boca dubem emudecê, num muda curação nenhum, mais consegue um trégua, tumbém num dura muntu mais qui uma piscadela suspensa

Para acabar com esse medo não tem solução outra, meu amigo. O pecado é juntar no mesmo cesto do negrinho bom os negrinhos já estragados com a rebeldia no sangue. É preciso separar e fazer os ruins sangrarem marcando com ferro e fogo.

Tem que existir um jeito seguro de separar no nascedouro os negrinhos azedos e mimados do negrinho respeitoso e trabalhador.

Concordo, meu amigo, palavreô maneco coxa, batendo com a mão pesada na mesa, isso seria de muita utilidade para prevenir problemas futuros.

Eu não ajudo mendicância. Não tem como separar quem precisa realmente e crioulo vagabundo que não quer trabalhar de teimoso e preguiçoso. Tem que ter um jeito de separar o negro bom da crioulada ruim.

Na virada... toda ajuda eles trocam por cachaça.

Eu ajudo, vez que outra. Mas é ajuda tipo um pouquinho de cada vez... para não acostumar o coitado mal.

otra calação das boca, desta veiz pra recebê o augusto torto

Então, perdi alguma coisa?

Ora, ora... Augusto. Nada diferente de ontem ou amanhã... mas o café esfriou...

e o dia num tinha esquentado ainda


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é bão lê, tumbém... sequisé:

histórias de avoinha: Sinto-me tão só
histórias de avoinha: um império invisível
histórias de avoinha: uma sombra sem corpo não cruza as pernas
histórias de avoinha: Bagaço hipócrita!
histórias de avoinha: a vaga de marido
histórias de avoinha: a lua na escuridão
histórias de avoinha: chegô no piano
histórias de avoinha: o silêncio no brejo dos pensamento
histórias de avoinha: borboleta preta
histórias de avoinha: Obrigada, Açunta!
histórias de avoinha: ôum velório de vida
histórias de avoinha: o feitiço das trança
histórias de avoinha: o siô ajeitado e as duas miúda
histórias de avoinha: Simão
mulheres descalças: é mansa...
mulheres descalças: Mas você devia!
mulheres descalças: Dez sacas, o amigo concorda?
mulheres descalças: café ralo e mandioca cuzida
mulheres descalças: o descuido da miúda
mulheres descalças: a traste
mulheres descalças: até quando
mulheres descalças: uma sombra silenciosa
mulheres descalças: a perigosa é ela
mulheres descalças: uma resposta deboche
mulheres descalças: gostar sem resistir
mulheres descalças: buraco do barranco
mulheres descalças: caridade é uma brisa morna
mulheres descalças: hipócrita, egoísta e cega d’ódio
mulheres descalças: a pulícia pública
mulheres descalças: a vida num é simples
mulheres descalças: na solidão sozinha
mulheres descalças: usdois contra cadum
mulheres descalças: fofocando comigo mesma
mulheres descalças: felicidade não existe
mulheres descalças: um gosto diódio

mulheres descalças: o café esfriou



domingo, 16 de maio de 2021

mulheres descalças: um gosto diódio

mulheres descalças



um gosto diódio
Ensaio 127Bzy – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar

sem a fortuna disê dono das própria vontade é preciso tê apetite pra sobrevivê a despeito dos branco pedra no curação, têas virtude da gana, da disciplina do zelo, seguindo o impulso dos vento da vida, é preciso aprendê muntu cedo vê – antes mesmo disaí do ventre da mãinha – os rio da maldade qui banha a villa, gente escondida na caridade sem misericórdia e na mais-valia do ajudatório do dízimo, o valimento da importância da aquisição em virtude sem mudá nada, acumulá pra tê mais

é preciso levantá todas veiz – num tem dia pra desafogo – pra cuidá da plantação da vida mesmo quias água chegô a palmo e meio das borda da jazida com grama braba e terra rasa, é preciso revivê a vida, tudo quié dia e noite, num tê medo da escuridão ou duspritu fantasma, tem veiz quisó uma vela já chega pra vê uqui tem pra vê

o gritinho da bengala num assustô, onde caiu ela ficô, a metade dusiô augusto no assoalho de madêra, o apoio honesto qui num vigia nem cobra, qui num tem intenção nem espritu, num tem gosto nem vontade, vai durá mais quiu dono, num respira mal nem sofre da angústia disê cada dia um pouco menos, paralítica no lugá onde ficô caída, bem comportada, Vida e bengala... afinal, não são duas coisa tão diferentes, foi pensando nas bengala da vida quiusiô augusto abriu a janela pra atração da praça, um rebojo de gente gritando entrô como um bando desumano na direção da morte bem comportada

fez um suspiro solto junto com apreciação de desafogo

O bom disso tudo... é que acaba logo, graças à Deus!

A vida voltando ao normal.

Bem isso, mas antes é preciso deixar o negrinho ferrado e bem preso. Tem vez que acho melhor a Villa acabar com a barbárie de fazer justiçamento, mas será preciso gastar mais recursos públicos e tempo. Não sei o que é melhor... mais recursos são mais impostos... não é uma troca justa.

E se não for culpado e a injustiça não for evitada?

Duvido, mas mesmo sem culpa é ladrão. Antes ele, Mãezinha, que a Villa toda sofrendo e com medo. E se não é ladrão vive da feitiçaria das encruzilhada. Vosmecê não tem medo?

as pessoa ama a villa mais quias pessoa, ama a villa qui dá água fresca e num permite quias coisa feia 
– quielas diz quié feia: a cara, o jeito, a voz, a cantoria, a alegria, tudo isso é muntu perigoso se num fô todos como elas  venha pra incomodá o sossego ao redó da vida dentro da villa qui cadum imagina tê e sonha querê

Paizinho, fecha a janela... essa gritaria e a aragem gelada das águas chegam aos ossos, o alvoroço na praça num tava acabado, a vida costumêra pra uns é dum feitio, pra otros é dotro jeito

ele num acatô o pedido pruqui num escutô ou num quis fechá pra num parecê qui obedece dona rosinha

Mais um negrinho sem nome que não precisava existir, oiava pra longe, ele num tava ali nem dona rosinha sabia onde quiele podia tá

Mas ele existe, Paizinho... voltô insistí, sem munta força

Ainda, ainda... é preciso ser contido e interditado, aquilo dito do jeito qui foi dito desguarneceu as mentira da villa risonha, gente cheia de si mesma e com medo de perseguição, dona rosinha num tinha pra onde corrê, se ocê num é branco vai vivê definhando, esse já provou que não tem utilidade de uso na Villa, com certeza é mais um a tomar banho no rio sem vestimenta alguma, um atentado a decência, como se aqui fosse um sítio despovoado e deserto retirado de qualquer urbanidade. Não tenho dúvidas, é mais um desses negrinhos a invadir os pomares dos sobrados e que vivem nos recantos das ruas em rodas de jogo e batucada. Isso tudo sem falar nas algazarras nas fontes d’água colocando em perigo a ordem e a decência do silêncio.

dona rosinha começô num sentí conforto ditá oiando pra gritaria na praça, começô ficá mais perto a algazarra qui tripudiava e gozava os azares dupretu, usiô augusto num parecia pará didá justificativa e fundamento no gosto qui sentia brotá quanto mais oiava, um gosto diódio quiela num sabe donde vem nem pruqui tem tanto gosto

Paizinho... é só um adulto em miniatura.

Adulto em miniatura já é adulto! Tem que escolher entre o trabalho ou a vadiagem e a contravenção, dona rosinha tava assustando com tanta vontade de num sentí qualqué consideração, pra dona rosinha oiá com curiosidade vaga e distante num era a mesma coisa qui oiá com apetite prazeroso, não sinto pena! Mendicância não é trabalho! Fazem porque gostam, usiô augusto soltava enfezado os pensamento qui trocava com juca e joca e maneco



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histórias de avoinha: chegô no piano
histórias de avoinha: o silêncio no brejo dos pensamento
histórias de avoinha: borboleta preta
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histórias de avoinha: ôum velório de vida
histórias de avoinha: o feitiço das trança
histórias de avoinha: o siô ajeitado e as duas miúda
histórias de avoinha: Simão
mulheres descalças: é mansa...
mulheres descalças: Mas você devia!
mulheres descalças: Dez sacas, o amigo concorda?
mulheres descalças: café ralo e mandioca cuzida
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mulheres descalças: a traste
mulheres descalças: até quando
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segunda-feira, 10 de maio de 2021

mulheres descalças: felicidade não existe

 mulheres descalças



felicidade não existe
Ensaio 127Bzx – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar

no caso do suspiro tê algum jeito disê desvendado como as palavra parece apurá sem revelá os pensamento menos escondido e disfarçado, o respiradôro suspiroso dusiô augusto pareceu querê mostrá qui num tinha nenhum interesse naquela entrevista, Dona Rosinha não vai querer saber o que estou pensando. Acho melhor não me espiar por dentro, não vai querer saber mais do que não sabe. Limite-se as fofocas da praça, controlô o respiro e continuô calado, oiava sem vê a praça, parecia tão longe qui num podia sê notado, Olhe para mim, olhe para si mesma, vosmecê vê alguma felicidade? Vê alguma circunstância que cause fortuna ou sorte? É simples assim, dona Rosinha, a felicidade não existe. A janela é a sua distração purgativa da vida bendita aqui dentro. Estar aqui dentro, não estar lá fora, talvez seja a sorte de vosmecê. Lá fora é diferente, é sofrimento e necessidade. O desfecho não é o mesmo quando não se passa fome. Vê o negrinho? Vale a pena uma vida de mendicância, furtos e o uso vil e ignominioso que faz do próprio corpo? Uma vida de devassidão e desonra, vadiagem, defloramentos antes da estação própria... e mais orfandade, mais e mais violações de ordem moral, religiosa e civil, delitos e infrações ao seu dever de servir. Olhar a praça da janela não é a mesma coisa que estar na praça. Não se pode andar na praça sem escutar os queixumes das negras, escravas obrigadas a mandarem seus filhos sem pai para a Casa de Caridade. Lamentam-se da pobreza, mas não param de fazer negrinhos e negrinhas órfãs. Alaridos e lamúrias da fome, mas não querem deixar a negradinha para a caridade. Chega desses mulatinhos e mulatinhos feios na Villa. Alguns amarelados, outros barrigudos, cambando, regristas e cantadores, só fazem ajuntamentos, algazarras e alvoroço. É preferível, em vez de abandonar o recém-nascido em lugar de notoriedade pública, levar o dito cujo para lugar deserto e afastado, assim não se incomoda ninguém. Gente morre todo dia, não tem o que fazer. A diferença que esses morrem a míngua logo, não ficarão 10 ou 12 anos minguando e incomodando. É um jeito de economizar tempo, recursos e a polícia pública.

oiô sem atenção pra siá rosinha, a desatenção tinha virado costume, usiô augusto num queria prugunta virando usança no dia-a-dia da casa, assim conservava distância da falta de cuidado, seguia desapaixonado e frio

Nada, Mãezinha... não estava pensando em nada.

o par continuô em silêncio – a casa tava costumada sê vivida no silêncio do par –, inté qui a bengala se escorregô e caiu, só um gritinho de aviso quando chegô no chão, o costume dicaí num assustava mais na casa, cadum com seus mistério e mania

ali da janela – e com a vidraçaria fechada –, aquela gente toda na praça num parecia querê entendê a própria vida no trajeto da vida, gente desanimada de entendê as resposta das prugunta qui num sabia fazê – e tumbém num se atrevia querê aprendê –, ninguém na praça qui tava babando e gritando pela morte – nem usqui vigiava das janela se dizendo enojado – parecia querê desgarrá da manada amontoada no canto da desesperança vazia, sem disposição pra ficá alegre na alegria nem triste com a miséria e a tortura dusotro


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domingo, 2 de maio de 2021

mulheres descalças: fofocando comigo mesma

mulheres descalças



fofocando comigo mesma
Ensaio 127Bzv – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar

usiô gonzaga é tão abandonado e desajudado dele mesmo – com ele mesmo – quisó tem cabimento pra ele julgamento pela utilidade qui faz das coisa e das criatura – qui tanto pode sê ou num sê bicho – na sua cabeça, só tem uso e serventia quem faz uqui ele qué e bem feito

num qué sabê de palpite ou teimosia estorvando as suas vontade nem cara feia ofendida, só aceita as cara admirada ou encantada, mesmo quando num sabe bem uqui pensô nem pruqui cismô uqui ele pensa qui pensô, Não é fácil pensar, solta um suspiro piquinino pra num sê notado, no caso da dona Rosinha, ela tem pensamento por teimosia com as coisas que queria não pensar. Até parece que sente prazer em não me obedecer, dona rosinha parece tá dentro dusiô augusto gonzaga – acordado ou durumindo –, mas sei lá, é quando mais fico cheio de vontade da sua aranha cabeluda cheia de veneno. Um bicho peçonhento que estende suas teias por anos e anos. Vacas são estúpidas, apenas aranhas são perigosas. Não têm o mesmo gosto, mas a obrigação de não reclamarem de nada é a mesma.

no modo divê da dona rosinha, usiô augusto se apega, cada dia um tanto a mais, nas coisa cafajeste e patife qui desatende a vida, ela credita qui ele tumbém sabe e num parece tê preocupação com isso, num parece tê gosto pra mudá nem capricho pra sê curioso cuás vida na casa, Pode até parecer que fico fofocando comigo mesma tanta coisa feia, Paizinho. Cogitando e apreciando pessoas desconhecidas – que não conheço o nome, mas olho com bom modo a mesma cousa em todos os dias –, as lavadeiras negras e suas trouxas de roupas na cabeça, um vai-e-vem que não para. As crias da vila negra, sem cuidado nem direção de um responsável livre ou escravizado, fazendo trabalho fortuito, mendicância, fugindo dos queixumes das gentes de bem e da casa de caridade. Sinto como se estivesse dormindo e com muita pena desses desgraçados, queria que fossem gente bonita e alegre. Eu sei que pareço boba e infeliz, devia fazer de conta que não vejo essa imundície toda, olhar de olhos fechados, dona rosinha tumbém suspirô antes de desviá os pensamento da praça, depois do suspiro curto e cansado apontô as vista prusiô augusto

O Paizinho está pensando o quê?

usiô augusto gonzaga se aprumô sem oiá atento pra coisa alguma, num tava costumado recebe prugunta tão direta da muié

 

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é bão lê, tumbém... sequisé:


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domingo, 28 de março de 2021

mulheres descalças: usdois contra cadum

 mulheres descalças



usdois contra cadum
Ensaio 127Bzu – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar

as ferida da crueza endurece as vontade do curação qui num tá agradado nele mesmo, vira uso conformado o fingimento disê feliz, disfarçá só faz desparecê com desembaraço as vontade ditá junto com afeição e estima

usóio fica mais fora qui dentro, as mão fica mais guardada qui perto – inté quius dois tá em tudo quié lugá, menos onde devia tá junto, falta vontade, carece gosto tá perto um dotro –, usdois contra cadum e cadum é embaraço dusdois, as agrura da vida sem vontade ditá junto

o casco da bengala bate no chão, parece querê avisá quia cicatriz do tombo ainda num sarô, vai tê demora pra sê apagada, Vosmecê aqui... como uma qualquer da Villa, fofocando a desgraça alheia?

as palavra dusiô augusto num é estranheza pra dona rosinha – ele num tem nenhum afligimento com a desgraça dusotro, muntu menó é o interesse pelo negrinho –, ela sabe quiele separa com gosto as palavra ruim e injusta qui solta, udois sofre do curação preso no fingimento, Continuo escrava... a escrava enfeitada que tem um negra escrava. Durmo sozinha – e bendigo isso – em linho adamascado que podia estar estendido à mesa com talheres em prata banhados e louça azul com pombinhos. Temos frango com linguiça, farofa, paca assada, arroz de forno, tutú de feijão, vinho português, sangria, limonada, laranjada. E sempre uma doçura depois da almoçarada. Vassouras de alecrim, panos de linho branco e sabão para as limpezas da antônia. Uma casa limpinha e bem arrumada.

cadum qui vive precisa lembrá qui vivê é uma fortuna e num devia sê usada pra depreciá nem dominá otras vida, nem pra esbravejá quia sua vida é meió e mais valiosa quias otras vida, tudo dito sem vergonha e alegria, a falta de tristeza pra dô dusotro mostra qui uma vida infame afoga os pensamento em rios de bosta, Faz tempo que venho lhe treinando para enxergar como são as mulheres casadas, lembra? A casa e a esposa é o lugar do sossego do homem, as águas tranquilas da Villa. Mulher casada não olha para outro homem, nem sai sem estar acompanhada. Espera em casa o touro cobrir a vaca, dona rosinha precisô força das vontade pra continuá presa nas gritaria da praça, continuá vencida e conformada na janela, Não esqueça, dona Rosinha: Deus não é mulher, ele mija em pé! Uma boa esposa precisa ser paciente, forte, trabalhadora, zelar pelos filhos, agradar o marido, saber lidar com a escrava, casar virgem – lembra? também elogiei a virgindade da menina Rosinha, vosmecê respirou assustada, e lhe avisei que não precisava ficar preocupada –, autocontrole nas mulheres é tudo. É preciso lutar contra a vontade ruim de fazer o que não deve. Uma esposa decente tem cuidado com as pernas, os olhares que faz e as coisas que pensa. Uma mulher puríssima nos pensamentos é uma joia calada e caseira, sem inveja, rancor e amargura ressentida. Assim, nunca vai ter do que se arrepender. É melhor fingir que falar bobagens!

dona rosinha continuava grudada na praça, num queria achá defeito nela mesma, já tinha virtude demais prusóio dusiô augusto, e cada virtude nusóio dele era um desmerecimento nusóio dela, sabia quia continuá na vida qui tinha, num iatê otra, A Mãezinha está escutando? Os detalhes são muito importantes, mesmo depois de tantos anos e avisos...

O quê, Paizinho... Ah, sim... sim...


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histórias de avoinha: Sinto-me tão só
histórias de avoinha: um império invisível
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histórias de avoinha: o silêncio no brejo dos pensamento
histórias de avoinha: borboleta preta
histórias de avoinha: Obrigada, Açunta!
histórias de avoinha: ôum velório de vida
histórias de avoinha: o feitiço das trança
histórias de avoinha: o siô ajeitado e as duas miúda
histórias de avoinha: Simão
mulheres descalças: é mansa...
mulheres descalças: Mas você devia!
mulheres descalças: Dez sacas, o amigo concorda?
mulheres descalças: café ralo e mandioca cuzida
mulheres descalças: o descuido da miúda
mulheres descalças: a traste
mulheres descalças: até quando
mulheres descalças: uma sombra silenciosa
mulheres descalças: a perigosa é ela
mulheres descalças: uma resposta deboche
mulheres descalças: gostar sem resistir
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mulheres descalças: a pulícia pública
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domingo, 21 de março de 2021

mulheres descalças: na solidão sozinha

mulheres descalças



na solidão sozinha
Ensaio 127Bzt – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar

O Paizinho, viu, Sim, eu vi. A turba está agitada, as vista da dona rosinha vê dum jeito quias vista dusiô augusto num vê, e o avesso tumbém é verdade; é assim mesmo, cadum tem seu jeito escondido – mais gosto ou menos juízo – divê uqui usotro vê ou pensa quivê, Dá até pena, É... pode ser, mas a praça segue em clima de festa, É verdade, encheu-se de grande movimento, Gente de todo canto, O Paizinho acha que ficam gritando e rindo até tarde, Pelo menos até a morte se consumar, Que desagradável, Pode ser, mas tão cedo não voltarão para suas casas, Frios e vazios... e babando, E babados, riu da chacota qui só ele entendeu qui era gracejo

a escuridão da noite inda num veio toda na villa, tem veiz qui chega e cai como se tivesse tomado um tombo, num dá tempo divê, otras veiz, vem mansa e calma, parece querê sê provada nas vista, espreitada nas camada dudia qui vai guardando inté se destampá sem alvoroço e sem urgência, oferecida pra guardá segredos e conchavos

a cerração do escuro inda num colocô dona rosinha deitada sozinha e oiando pru teto, escutando o alarde abafado na praça, enrolada nos silêncio da noite felpuda no quarto, uma muié desacompanhada, o rabo entre as perna e usóio encharcado

a vida naquela casa adoece

a falta de colo causa tanta tristeza, tanta coisa estranha desmancha as vontade da carne e assusta o gosto pra retorcê e se entrelaçá, num tem resposta pra dá, num tem resposta pra ensiná nem tem prugunta pra respondê

a vida segue fingida sem sê notada, sem sê escutada

tanta coisa dona rosinha tem guardada nas palavra qui num diz – tudo bem guardado –, nem a caridade da obrigação pra se deixá usá salva da solidão e das lembrança ruim qui tem duseu uso pelo siô augusto, sempre o mesmo jeito, num respira, num escuta, num fala – se usiô augusto fala, ele fala sozinho –, calado pra dona rosinha, fazendo uqui os pensamento dele cobiça cum teimosia, as coisa ruim dentro dusiô augusto se enfiava no desinteresse da dona rosinha e ameaçava, Dona Rosinha é mulher – e mulher casada! –, tem dono e deve obediência. Está escrito que foi feita da costela – um pedaço do homem que não deu certo. Não tem muito querer ou não querer. O gosto é do homem. E agradeça a todos os Santos que tem a mim que lhe cuida e abastece.

munta das lembrança ruim qui tem duseu uso pelo siô augusto é qui ele parecia usá sem gosto do uso, parecia conversá só dele pra ele mesmo, parecia tá notro lugá, as mão parecia qui alisava ele mesmo; e quieta ficava, como se doente fosse, se oiando desacompanhada inté se mexê pra se lavá, doída e lavada voltava pra ficá na solidão sozinha, quieta na paz morta-viva, sem dô, sem mágica 

a noite num vinha sozinha, carrega tudo quié medo nas costa


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é bão lê tumbém... sequizé:


histórias de avoinha: Sinto-me tão só
histórias de avoinha: um império invisível
histórias de avoinha: uma sombra sem corpo não cruza as pernas
histórias de avoinha: Bagaço hipócrita!
histórias de avoinha: a vaga de marido
histórias de avoinha: a lua na escuridão
histórias de avoinha: chegô no piano
histórias de avoinha: o silêncio no brejo dos pensamento
histórias de avoinha: borboleta preta
histórias de avoinha: Obrigada, Açunta!
histórias de avoinha: ôum velório de vida
histórias de avoinha: o feitiço das trança
histórias de avoinha: o siô ajeitado e as duas miúda
histórias de avoinha: Simão
mulheres descalças: é mansa...
mulheres descalças: Mas você devia!
mulheres descalças: Dez sacas, o amigo concorda?
mulheres descalças: café ralo e mandioca cuzida
mulheres descalças: o descuido da miúda
mulheres descalças: a traste
mulheres descalças: até quando
mulheres descalças: uma sombra silenciosa
mulheres descalças: a perigosa é ela
mulheres descalças: uma resposta deboche
mulheres descalças: gostar sem resistir
mulheres descalças: buraco do barranco
mulheres descalças: caridade é uma brisa morna
mulheres descalças: hipócrita, egoísta e cega d’ódio
mulheres descalças: a pulícia pública
mulheres descalças: a vida num é simples
mulheres descalças: na solidão sozinha
mulheres descalças: usdois contra cadum


domingo, 14 de março de 2021

mulheres descalças: a vida num é simples

 mulheres descalças



a vida num é simples
Ensaio 127Bzs – 2ª edição 1ª reimpressão


baitasar

usiô augusto nem bem sentô no banco pianístico da fia já se alevantô apoiado na sua bengala, e assim, arrimado no tripé, foi inté a brecha pra villa, lado a lado da muié, a janela e dona rosinha, podia sentí o perfume da alfazema qui tava misturado cusaroma das carne da praça, Tem vez que não adianta, pensô pensamento dele mesmo misturado nas palavra duseu painho, O que devo fazer, É melhor aguardar o próximo aborrecimento, Só isso, O tempo e o dinheiro são bons conselheiros, meu filho, Como assim, meu pai, Dê tempo ao tempo e ganhe dinheiro. Um ajuda cicatrizar e o outro evita constrangimentos desnecessários. Pare de olhar com espanto à gaiola da cabeça. Juízo e caldo de galinha. A vida não é justa e não fica mais justa por causa da miséria. Um homem de verdade não sai por aí se contando para os outros. É preciso aprender a sofrer desajudado e conversar sozinho. Os pecados da cabeça devem ficar dentro da cabeça e o dinheiro no bolso, o piá congelado continuava escutando escutando escutando, O último conselho de hoje: cuidado com os padres, O sinhô não vai dizer por quê, É gente que adora o confessionário. Não esqueça que os pecados da cabeça ficam dentro da cabeça. Boa noite, meu filho. Vosmecê sabe como me encontrar, Boa noite, sinhô Augusto, usiô augusto sonhô toda vida nas palavra qui escutô ô num escutô, sonhô ô só pensô, duqui podia dizê ô devia apagá da luz dudia, continuava nele o medo da língua do pai e do confessionário

viveu da imaginação escondido na escuridão do quarto, deitado oiando pru teto e se mexendo nas mão, conversando sobre o dia qui ia tá crescido – qui parecia nunca chegá –, É mais fácil sonhar que fazer rapadura, abriu as vista, lá tava a praça com todo aquele alvoroço e gritaria

acariciava a bengala

um apetrecho qui passô usá depois da queda do cavalo, pelo menos, foi assim qui contô, Dona Rosinha, o Tormenta assustou-se com uma peçonhenta e empinou. Não estava atento e caí da montaria. O animal também foi ao chão e precisou ser sacrificado. Foi uma tristeza que parece não ter fim. Eu fiquei com essa bengala e o desgosto de não poder montar mais.

um varão qui lhe dava apoio e acomodação pras mudanças pelo caminho, tinha otras bengala qui gostava diusá como amparo da dignidade, uma continuação do braço inté o chão

acostumô – como tudo quié preciso acostumá na vida, sem se dá conta, querendo ou num querendo – depois do tempo de uso ela continuava nas mão pra ajudá com a anca doída, isso fez dela uma amiga qui num podia sê separada nem amanhecida notra aparência: mesa ou assento

prusiô augusto, a bengala tumbém era ele, useu andamento postiço precisava amanhecê sempre no mesmo lugá, esperando pelo uso, usava pra levantá a mesma qui usô pra deitá, num tinha só uma pruqui gostava de mudá o gosto pru dia e a precisão pra apoiá uspé, confiança e firmeza qui dava pra desgrudá uspé pra lá e cá, acostumô ficá amparado e protegido

tinha bengala no molde de cabo de guarda-chuva, muntu fina e elegante, mais o uso cansava a mão, num usava muntu; gostava mais das bengala com cabo mais plano e com rugas pru dedão – depois qui mandô fazê e usô e gostô, encomendô otra pra tê na reserva –, a mão parecia ficá toda agarrada e num escorregava, as duas foi feita sob encomenda na madêra catuaba, o artesão zé bengala veio medí usiô augusto do chão pra cima, mediu tanto qui parecia sê o zeca das costura preparando alguma vestimenta nova prusiô augusto

a bengala tumbém serviu pra lamentação e evasiva, desde então, bocado a bocado, arrumô motivo de munta dô pra num arriscá esfregação nas parte escondida da dona rosinha cuas parte desanimada e mijada dele, cismô qui se num podia queimá inté as brasa virá fogo acesso num ia dá motivo pra fazê dele mesmo causa do fuá na casa, era meió tá invalidado qui parecê desanimado e sem força pra uso nas carne da muié, É nessas horas que lembro as palavras do paizinho, Deus o tenha: Não bata em porta fechada se não tem intenção de entrar!

se escondeu no silêncio

num teve atrevimento nem desassombro pra contá da luta perdida pra se endurecê, Não vejo motivo e não tenho que dar explicação. Assim é melhor, o que não tem remédio remediado está. E dona Rosinha não precisa ficar sabedora de tudo. Isso é o que basta, elegeu a mudez sigilosa pru assunto e sugeriu cama e quarto separado, Assim, dona Rosinha não precisa ficar complicada e misturada com essa minha dor do tombo. Acho que é justo e necessário. Depois, quem sabe, o tempo ajude com a cicatrização dessa dor, ela falô e reclamô, mais num adiantô

a vida na casa qui já num era engraçada ficô desgraçada, E que homem de verdade poderia se confessar desanimado e inútil para usar a própria mulher? Ficar na nudez da escuridão sem passar vergonha? Não quero escutar nem ver reclamação que não estou fazendo o melhor uso do que é meu, fez menção de mandá arrancá tudo quiera espêio da casa, arranjo qui num levô adiante pruqui a fia pianística ameaçô desistí da música e piano, usiô augusto sucumbiu a provocação, mais trocô a mesa espichada, Os filhos que queria não vou mais fazer, colocô no lugá uma mesa mais curta, a casa enfeitada com festa e convidado virô mina de carvão de pedra

a vida num é simples como devia sê

escôieu a coxeadura qui faz ele ficá definhando com medo da muié e das promessa da cama, num é como se a coxeadura fosse condenação sem crime provado ou causa ditudo ruim, foi motivo pruma luta de retirada, desistiu de qualqué tentativa do avanço no pântano, num podia dizê qui sofria diquerê e num tê mais talento pra contentá as própria vontade

num lembra o cavalo nem tem lembrança da queda, mais ficô assim depois do desmonte: mijado e mole, foi perdendo pingo a pingo a autoridade nele mesmo, Não faz sentido ficar com as mãos molhadas sentado na poltrona, fingindo estar animado e atendido, tumbém num podia dizê qui num sentia sudade das água do pântano, dos gemido escondido – podia sê fingido? – e refreado da dona rosinha, apreciava a mudez da mimosa na barranca, mais dona rosinha tinha perfume meió, Enfim, não se pode ter tudo.

ele se foi falseando inté a janela



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é bão lê tumbém... sequizé:


histórias de avoinha: Sinto-me tão só
histórias de avoinha: um império invisível
histórias de avoinha: uma sombra sem corpo não cruza as pernas
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histórias de avoinha: a vaga de marido
histórias de avoinha: a lua na escuridão
histórias de avoinha: chegô no piano
histórias de avoinha: o silêncio no brejo dos pensamento
histórias de avoinha: borboleta preta
histórias de avoinha: Obrigada, Açunta!
histórias de avoinha: ôum velório de vida
histórias de avoinha: o feitiço das trança
histórias de avoinha: o siô ajeitado e as duas miúda
histórias de avoinha: Simão
mulheres descalças: é mansa...
mulheres descalças: Mas você devia!
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mulheres descalças: café ralo e mandioca cuzida
mulheres descalças: o descuido da miúda
mulheres descalças: a traste
mulheres descalças: até quando
mulheres descalças: uma sombra silenciosa
mulheres descalças: a perigosa é ela
mulheres descalças: uma resposta deboche
mulheres descalças: gostar sem resistir
mulheres descalças: buraco do barranco
mulheres descalças: caridade é uma brisa morna
mulheres descalças: hipócrita, egoísta e cega d’ódio
mulheres descalças: a pulícia pública
mulheres descalças: a vida num é simples