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quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Thomas Mann - A Montanha Mágica: Assalto rechaçado (a)

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VI

Assalto rechaçado
.

     A roda girava. O ponteiro ia avançando. Já terminara a época do salepo e da aquilégia; o cravo silvestre desaparecera também. As estrelas azuis da genciana, bem como os pálidos e venenosos lírios verdes, tornavam a apontar na grama úmida. Por cima dos bosques pairava uma aura avermelhada. O equinócio de outono acabava de transcorrer. O Dia de Finados achava-se próximo, e para os mais treinados consumidores do tempo, também o domingo do Advento, o dia mais curto do ano, e a festa do Natal. Por enquanto, porém, desfiava-se ainda uma série de belos dias de outubro, dias da espécie daquele em que os primos haviam ido ver os quadros do conselheiro.
     Desde a partida de Joachim, Hans Castorp não mais tomava as refeições à mesa da Srª. Stöhr, a mesma que o Dr. Blumenkohl abandonara para morrer, e onde Marusja procurara abafar no lencinho perfumado de flor de laranjeira a sua mal justificada hilaridade. Agora achavam-se ali pensionistas novos, pessoas completamente desconhecidas. O nosso amigo, porém, entrado no terceiro mês do segundo ano da sua estadia, recebera da “administração” um outro lugar, numa mesa vizinha, mais próxima da porta que dava para o avarandado, colocada perpendicularmente entre a antiga e a dos “russos distintos”, numa palavra: a mesa de Settembrini. Sim, novamente lhe coubera a ponta, em frente ao lugar do médico, que em cada uma das sete mesas ficava reservado ao uso esporádico do conselheiro ou do seu assistente.
     Na outra extremidade, à esquerda do assento do médico-presidente, tronejava sobre diversas almofadas aquele mexicano corcunda, o fotógrafo diletante, cuja expressão, em virtude de seu isolamento linguístico, se assemelhava à de um surdo. A seu lado ficava a solteirona da Transilvânia, que como já deplorara Settembrini, pretendia interessar o mundo inteiro pelo seu cunhado, se bem que ninguém soubesse nada desse homem nem quisesse saber. Tendo atrás da nuca uma bengala de punho de prata, que também lhe prestava serviços durante os passeios regulamentares, via-se essa criatura, a certas horas do dia, junto da platibanda da sua sacada, empenhada em alargar o peito chato como uma bandeja por meio de exercícios respiratórios. Defronte a ela achava-se um tcheco, que chamavam Sr. Wenzel, já que ninguém era capaz de pronunciar o seu nome de família. Settembrini, em seu tempo, fizera às vezes tentativas no sentido de articular a exótica sequência de consoantes de que se compunha esse nome; claro que não o fizera numa intenção séria, senão para demonstrar graciosamente a impotência da sua nobre língua de latino em face daquele amontoado selvagem de sons. Esse homem, embora fosse redondo como uma bola e se distinguisse por uma voracidade sensacional mesmo entre os pensionistas, afirmava, desde havia quatro anos, que estava fadado a morrer. Durante as reuniões noturnas, tocava de vez em quando, num bandolim enfeitado de fitas, as canções da sua terra, ou contava historietas das suas plantações de beterrabas, onde trabalhavam exclusivamente lindas pequenas. Mais perto de Hans Castorp, a ambos os lados da mesa, encontravam-se os Magnus, o cervejeiro de Halle e a sua esposa. Uma atmosfera de melancolia pairava em torno desse casal, porque ambos estavam perdendo substâncias essenciais para o metabolismo: o homem, açúcar, e a mulher, proteínas. A disposição de alma, sobretudo da pálida Srª. Magnus, parecia desprovida do menor traço de esperança. A vacuidade do espírito desprendia-se dela como um bafio de adega, e de forma ainda mais pura do que a inculta Srª. Stöhr representava ela a combinação de enfermidade e estupidez, de que Hans Castorp se escandalizara espiritualmente, sendo por isso repreendido pelo Sr. Settembrini. O Sr. Magnus revelava maior viveza e loquacidade, embora só daquele gênero que outrora originara as explosões da impaciência literária de Settembrini. Além disso, era colérico e frequentemente tinha atritos com o Sr. Wenzel por motivos políticos e outros. Exasperavam-no as aspirações nacionalistas do tcheco, e ainda mais o fato de ele ser partidário do antialcoolismo e pôr em dúvida a moralidade da profissão de cervejeiro. Em oposição a isso, o Sr. Magnus, com o rosto rubro, defendia a perfeição higiênica da bebida à qual os seus interesses se achavam tão intimamente ligados. Em tais ocasiões, o Sr. Settembrini costumava fazer, humoristicamente, o papel de pacificador. Hans Castorp, no lugar dele, sentia-se menos hábil e não dispunha de suficiente autoridade para substituir o italiano.
     O jovem não mantinha relações pessoais senão com dois dos seus comensais: o primeiro era A. C. Ferge, de Petersburgo, seu vizinho da esquerda, o sofredor bonachão que, sob as brenhas do bigode ruivo, sabia falar ora da fabricação de galochas ora de regiões longínquas, do círculo polar, das neves eternas do cabo Norte, e de vez em quando acompanhava Hans Castorp num dos passeios regulamentares. O segundo, porém, que se unia a eles cada vez que se oferecia uma oportunidade, e tinha o seu lugar na outra extremidade da mesa, em frente ao mexicano corcunda, era o homem de Mannheim, aquele moço de cabelos ralos e dentes defeituosos; chamava-se Wehsal, Ferdinand Wehsal, comerciante, e era o mesmo cujos olhares haviam ficado presos, com um desejo melancólico, à graciosa pessoa de Mme. Chauchat; desde o carnaval procurava obter a amizade de Hans Castorp.
     Fazia-o com obstinação e humildade, com um servilismo suplicante que tinha, aos olhos de Hans Castorp, qualquer coisa de horroroso e repulsivo, porque compreendia o seu sentido complicado; mesmo assim, o jovem esforçava-se por acolhê-lo humanamente. Com uma expressão calma – pois sabia que o menor franzimento do cenho deixaria o rapaz pusilânime encolhido e sobressaltado – tolerava as maneiras subservientes de Wehsal, que aproveitava todas as ocasiões para inclinar-se diante dele e para bajulá-lo; permitia até que o outro, durante os passeios, lhe carregasse o sobretudo, função de que Wehsal se desempenhava com certo fervor; suportava a própria conversa escusa do homem de Mannheim. Wehsal tinha a mania de ventilar problemas como este: era ou não era razoável declarar o seu amor a uma mulher que se amava, mas que manifestamente não correspondia? Que achava da declaração de amor sem esperança? Ele, da sua parte, atribuía-lhe extraordinário valor; segundo a sua opinião, encerrava ela uma felicidade indizível. O ato da confissão, embora despertando repulsa e acarretando grandes vexames, garantia contudo por um instante o pleno contato amoroso com o objeto do desejo, que era forçado a receber a confidencia e a entrar na esfera da própria paixão. Mesmo que tudo terminasse nesse ponto, a perda eterna não representaria um preço excessivo pela volúpia desesperada de um único momento. O desabafo era um ato violento, e quanto maior a repugnância que se lhe opusesse, mais gozo proporcionaria... A essa altura, uma lua que anuviou a fisionomia de Hans Castorp fez com que Wehsal retrocedesse. Para dizer a verdade, tinha ela a sua origem na presença do jovial Sr. Ferge, o qual, como afirmava com frequência, ficava totalmente alheio a quaisquer assuntos elevados e complexos, e não na austeridade puritana do nosso herói. Como sempre nos empenhamos em apresentá-lo nem melhor nem pior do que era, não omitimos o seguinte fato: certa noite, quando estava a sós com Hans Castorp, o pobre Wehsal, em palavras incolores, insistiu com ele para que lhe confiasse, por amor de Deus, alguns pormenores daqueles acontecimentos e daquelas experiências da noite de carnaval, que se haviam realizado depois do fim do baile; Hans Castorp atendeu a esse pedido com tranquilidade benevolente, sem que – ao contrário do que o leitor talvez acredite – esse diálogo tivesse cunho leviano ou vil. Temos todavia razões fortes para manter afastados dessa cena tanto o leitor como nós próprios, e limitamo-nos a acrescentar que a partir do referido dia Wehsal carregava com redobrado ardor o casacão do condescendente Hans Castorp.
     Já falamos bastante a respeito dos comensais de Hans Castorp. O lugar à sua direita estava vazio. Não fora ocupado senão passageiramente durante alguns dias, por um visitante. Um parente viera de visita da planície, um emissário, como se poderia dizer – numa palavra: tratava-se de James Tienappel, tio de Hans.
     Era fantástico ver de repente como vizinho de mesa um representante e enviado da pátria, um homem que ainda trazia fresca no tecido inglês do terno a atmosfera do antigo, do submerso, da vida passada, do mundo dos vivos que existia lá embaixo. Mas era forçoso que isso acontecesse. Havia muito que Hans Castorp contara com tal ofensiva da planície e mesmo previra com exatidão a personalidade que seria incumbida do reconhecimento; o que, aliás, não fora muito difícil, já que Peter, o navegante, mal entrava em questão, e quanto ao tio-avô Tienappel era coisa sabida que nem dez cavalos o arrastariam a essas regiões, cuja pressão atmosférica lhe seria sumamente perigosa. Não, tinha de ser James o encarregado de investigar, em nome da família, a situação do parente extraviado. Hans Castorp esperara mesmo que ele chegasse antes. Desde que Joachim regressara sozinho e pusera a família a par do estado das coisas ali de cima, o assalto era iminente, mais do que iminente. Dessa forma, Hans Castorp não se surpreendeu nem um pouquinho, quando, duas semanas exatas depois da partida do primo, o porteiro lhe entregou um telegrama. Abriu-o, cheio de pressentimentos, e ficou sabendo da próxima chegada de James Tienappel. Este teria de resolver alguns assuntos pendentes na Suíça e aproveitaria a ocasião para fazer uma excursão até as alturas de Hans. Chegaria daí a dois dias. 

– Bem! – pensou Hans Castorp. – Ótimo! – pensou, e acrescentou intimamente qualquer coisa parecida com “Corno quiser!” – Ah, se você tivesse ideia – disse, falando, nos seus pensamentos, com o parente que se aproximava. Numa palavra, inteirou-se da notícia com a mais completa calma. Transmitiu-a ao Dr. Behrens e à “administração”. Mandou reservar um quarto; o de Joachim estava ainda disponível. Dois dias após, à hora da sua própria chegada, isto é, pelas oito horas, já depois do escurecer, entrou no mesmo veículo mal estofado em que havia pouco acompanhara Joachim, e encaminhou-se à estação de Davos-Dorf, para receber o emissário da planície que vinha endireitar a situação.

     Com a tez rubicunda, sem chapéu nem sobretudo, achava-se à beira da plataforma quando o trenzinho entrou na estação. Pela janela do compartimento convidou o tio a descer tranquilamente, porque já chegara ao seu lugar de destino. O Cônsul Tienappel – era vice-cônsul e substituía dignamente o pai também nesse cargo honorário – apareceu friorento, envolto no seu casaco de inverno. (Com efeito, a noite de outubro estava bastante fria, e pouco faltava para que pudesse ser qualificada de gélida; de madrugada certamente faria uma temperatura abaixo de zero.) Desembarcou, ali Clemente surpreendido, o que manifestou à maneira um tanto preciosa, ultracivilizada, peculiar aos cavalheiros distintos do norte da Alemanha. Cumprimentou o sobrinho-quase-primo, expressando, com enfáticos elogios, a satisfação que experimentava ao encontrá-lo com tão bom aspecto. Verificou que o porteiro coxo o dispensava de preocupar-se com a bagagem. Saiu da estação e galgou, em companhia de Hans Castorp, o alto e duro assento do coche. Sob o céu abundantemente estrelado puseram-se a caminho, e Hans Castorp, com a cabeça deitada para trás, explicou ao tio-primo as paragens celestes, circunscrevendo com palavras e gestos esta ou aquela constelação cintilante, e chamando os planetas pelos nomes. Enquanto isso, o outro, prestando maior atenção à pessoa do seu companheiro do que ao cosmo, dizia de si para si que era talvez admissível e não rematada loucura falar das estrelas, precisamente nesse momento, nesse lugar, e sem mais aquela, mas que existiam outros assuntos mais urgentes. Perguntou desde quando Hans Castorp estava tão familiarizado com aquele mundo longínquo, ao que o sobrinho replicou que devia esses conhecimentos ao repouso noturno que fazia na sacada, durante a primavera, o verão, o outono e o inverno.

– Como? Você fica de noite na sacada? 
– Sim. E você fará a mesma coisa. Não há jeito de escapar a isso. 
– Perfeitamente, compreendo – disse James Tienappel, complacente e um tanto intimidado. Seu irmão de criação continuou conversando sossegada e monotonamente. Sem chapéu, sem sobretudo, estava sentado junto dele, na frescura quase gelada da noite outonal. – Você não se ressente do frio? – perguntou James, que tiritava sob a grossa fazenda do casacão. Sua maneira de falar parecia ao mesmo tempo precipitada e hesitante, já que os seus dentes manifestavam a tendência de entrechocar-se. – Nós não sentimos o frio – respondeu Hans Castorp calma e laconicamente. 

     O cônsul não se cansava de olhá-lo de lado. Hans Castorp não procurou informar-se sobre os parentes e os conhecidos de casa. Recebeu, agradecendo impassivelmente, as lembranças que James lhe transmitiu, inclusive as de Joachim, que já se apresentara ao regimento e estava radiante de alegria e orgulho. Fê-lo sem pedir informações pormenorizadas a respeito das coisas da sua terra. James sentiu-se inquietado por um quê de natureza vaga, o qual não sabia se era irradiado pelo sobrinho ou se tinha a sua origem no seu próprio estado físico. Olhou em torno, sem distinguir muita coisa da paisagem alpina. Aspirou profundamente o ar, soltou-o e declarou que o achava magnífico. – Certamente – respondeu o outro. Não era sem motivo que esse ar adquirira tanta fama. Possuía virtudes poderosas. Acelerava a combustão geral, e no entanto permitia ao corpo assimilar as proteínas. Curava doenças que todos os homens traziam latentes em si, mas antes costumava dar a elas um vigoroso estímulo e causar, por meio de um impulso geral proporcionado ao organismo, a sua irrupção triunfal.

– Perdão! Por que triunfal? 
– Sim. Você nunca notou que a irrupção de uma doença representa uma espécie de triunfo e constitui de certo modo uma festa do corpo? 
– Perfeitamente, compreendo – apressou-se o tio a concordar, sem que pudesse conter o tremor da mandíbula inferior. A seguir anunciou que permaneceria oito dias, isto é, uma semana, ou melhor uns sete ou apenas seis dias. Repetiu que o aspecto de Hans Castorp lhe parecia extraordinariamente bom; o sobrinho estava muito mais robusto, devido a esse tratamento, cuja duração se estendera além de toda expectativa. Assim, era de supor que Hans Castorp regressaria junto com ele. 
– Ora, ora, que precipitação é essa? – disse o jovem. O tio James falava à maneira lá de baixo. Bastaria que estudasse um pouco o “nosso” ambiente e se aclimatasse a ele, para que mudasse de ideia. Tudo dependia da cura definitiva. Só o definitivo tinha importância, e recentemente o Dr. Behrens lhe pespegara mais seis meses. Ao ouvir isso, o tio tratou-o por “meu filho” e perguntou se estava louco. – Está completamente doido?! – exclamou. Afinal de contas, essas férias já duravam quinze meses, e agora se falava de mais meio ano! Deus do céu, a gente não tinha tanto tempo! Mas Hans Castorp deu uma risada serena e abrupta, com a cabeça erguida em direção às estrelas. Pois sim, o tempo! Nesse ponto, justamente, com referência ao tempo humano, James teria de retificar, antes de mais nada, os conceitos que trouxera consigo da planície, antes de abrir a boca aqui em cima. – No seu interesse falarei seriamente com o Dr. Behrens, amanhã mesmo – prometeu Tienappel. 
– Não deixe de falar – disse Hans Castorp. – Você gostará dele. É um tipo interessante, ao mesmo tempo enérgico e melancólico. – A seguir apontou para as luzes do Sanatório Schatzalp e se referiu, de passagem, aos cadáveres que eram transportados pela pista do trenó.

     Jantaram juntos no restaurante do Berghof, depois de Hans Castorp ter levado o visitante ao quarto de Joachim, para dar-lhe uma oportunidade de se lavar um pouco. A peça fora fumigada com H2 CO – contou Hans Castorp – Como se se tratasse, não de uma partida “em falso”, mas de uma de caráter bem diferente, quer dizer, de um exitus em vez de um exodus. E quando o tio pediu uma explicação do sentido dessas palavras, disse o sobrinho: 

– É a gíria local; nossa maneira de falar... Joachim desertou. Fugiu para as fileiras do exército. Isto também existe. Mas, vamos, ligeiro, para que a gente ainda arranje alguma comida quente! – Sentaram-se um à frente do outro no restaurante agradavelmente aquecido, sobre o alto estrado. A anã atendeu-os sem demora, e James encomendou uma garrafa de borgonha, que foi trazida deitada numa cestinha. Chocaram os copos e deixaram-se penetrar pelo doce ardor do vinho. O sobrinho falou da vida que se levava ali em cima, no ciclo das estações; mencionou certas personagens da sala de refeições; passou para o pneumotórax, cujo processo explicou, citando o caso do jovial Sr. Ferge e alongando-se sobre o fenômeno horripilante do choque pleural, sem omitir as três síncopes de cor diferente, que o russo pretendia ter sofrido, bem como a alucinação do olfato, que desempenhava um papel importante no momento do choque, e da gargalhada que soltara ao desmaiar. Hans Castorp conduzia toda a conversa. James comeu e bebeu muito, segundo o seu costume, com um apetite que a mudança de ar e a viagem haviam estimulado. Mesmo assim interrompia de vez em quando o processo de alimentação e permanecia com a boca cheia, sem pensar em mastigar; mantendo a faca e o garfo em ângulo obtuso sobre o prato, cravava os olhos em Hans Castorp, aparentemente sem se dar conta disso. De resto, o sobrinho tampouco se melindrava com esse procedimento do tio. As veias inchadas ressaltavam nas fontes do Cônsul Tienappel, que estavam cobertas de ralos cabelos louros.

     Não trataram dos acontecimentos da pátria, nem de coisas familiares ou pessoais, nem da cidade, nem dos negócios, nem finalmente da firma Tunder & Wilms, Estaleiros, Fábrica de Máquinas e Caldeiras, que prosseguia aguardando a chegada do jovem Hans Castorp, o que, porém, estava tão longe de ser a sua única ocupação, que caberia perguntar se de fato continuava esperando. Decerto, James Tienappel já aludira a todos esses assuntos, enquanto o carro os levava ao sanatório, e mais tarde tornara a fazê-lo, mas eles haviam caído ao chão e jaziam mortos, rejeitados pela indiferença tranquila, decidida e perfeitamente natural de Hans Castorp, por algo que o tornava, em certo sentido, intangível e inatacável e fazia pensar na sua insensibilidade quanto ao frio da noite outonal ou naquelas suas palavras: “Nós não sentimos o frio”. Talvez fosse por isso que o tio o olhava de vez em quando, fixamente. A conversa focalizou também a Superiora, os médicos, as conferências do Dr. Krokowski. James poderia assistir a uma delas, se a sua estadia durasse oito dias. Quem dissera ao sobrinho que o tio tinha a intenção de ouvir a palestra do médico? Ninguém. Mas dava-o por garantido, presumia-o com uma segurança tão plácida, que o simples pensamento de não presenciar esse espetáculo devia parecer absurdo ao outro. Daí sucedeu que o tio se apressou a dizer “Perfeitamente, compreendo”, como para prevenir a suspeita de ter projetado uma coisa impossível. Era precisamente essa a força cujo efeito indistinto, porém imperioso, fazia com que o Sr. Tienappel, sem querer, fitasse o sobrinho – agora já com a boca aberta, pois obstruíra-se-lhe o canal respiratório do nariz, ainda que o cônsul não tivesse gripado. Ouviu como o parente falava da enfermidade que ali em cima formava o interesse profissional comum a todos, e da predisposição que certas pessoas tinham para contrai-la. Foi posto a par do caso do próprio Hans Castorp, caso sem gravidade, mas de cura lenta; da atração que os bacilos exerciam sobre o tecido celular das ramificações dos brônquios e dos alvéolos pulmonares; da formação de tubérculos; da secreção de venenos solúveis e embriagadores; da decomposição das células e do processo de caseificação, a cujo respeito era interessante saber se o mal se deteria em virtude de uma petrificação calcária e de uma cicatrização do tecido conjuntivo, curando-se dessa forma, ou se, pelo contrário, estenderia a sua área, criando cavernas cada vez maiores e corroendo o órgão. James Tienappel ficou sabendo da forma loucamente acelerada, “galopante”, desse processo, que em poucos meses e mesmo em algumas semanas levava ao exitus; informou-se sobre a pneumotomia, técnica magistralmente praticada pelo conselheiro, e sobre a ressecção pulmonar, que fariam no dia seguinte, ou em breve, numa doente recém-chegada em estado gravíssimo, uma escocesa outrora muito formosa, mas agora atacada de gangraena pulmonum, a necrose dos pulmões, de modo que nela operava uma peste negro-esverdeada, que a obrigava a respirar durante todo o dia uma solução vaporizada de ácido carbólico, para que não perdesse o juízo de tanto nojo de si própria... E de súbito aconteceu ao cônsul, inopinadamente e para a sua maior confusão, desatar a rir. Explodiu numa gargalhada, procurou imediatamente conter-se, dominou-se, espantado, tossiu e empenhou-se em disfarçar, por todos os meios, a gafe inexplicável. Verificou, porém, entre tranquilizado e novamente inquieto, que Hans Castorp absolutamente não prestara atenção a esse incidente que não lhe podia ter escapado; bem ao contrário, o sobrinho passou por cima dele com uma displicência que não era devida ao tato, à consideração ou à cortesia, senão à mera indiferença e impassibilidade, e manifestava uma tolerância de dimensões exorbitantes, como se, de havia muito, fosse incapaz de estranhar ocorrências dessa espécie. No entanto, o cônsul, seja porque desejava encobrir posteriormente com um manto de siso e de lógica o seu acesso de hilaridade, seja por qualquer outro motivo, enveredou de repente numa conversa “só para homens” e, com as veias frontais túrgidas, meteu-se a falar de uma chansonnette, cantora de cabaré, mulher para lá de boa, que a essa época se exibia no bairro de Sankt Pauli e com os seus encantos carregados de paixão virava a cabeça ao mundo masculino da república hamburguesa. No decorrer dessa narrativa, a língua do tio James mostrou-se um tanto embargada, mas não havia necessidade de se preocupar com isso uma vez que a complacência inabalável do seu interlocutor evidentemente incluía esse fenômeno. Contudo, notou o tio, pouco a pouco, a imensa fadiga da viagem que o dominava, a tal ponto que já por volta das dez e meia optou pelo fim do encontro. Intimamente sentiu pouca satisfação quando no vestíbulo toparam com o Dr. Krokowski, que estava lendo um jornal junto à porta de um dos salões, e ao qual James Tienappel foi apresentado pelo sobrinho. Como resposta às palavras enérgicas e alegres do assistente, o cônsul foi incapaz de proferir mais do que “Perfeitamente, compreendo”. Deu-se por feliz quando o sobrinho, anunciando que iria buscá-lo às oito para o café da manhã, passou pelo caminho da sacada, do quarto desinfetado de Joachim para o seu próprio. Então o cônsul pôde finalmente deixar-se cair sobre a cama do desertor. Tinha na boca o cigarro que estava habituado a fumar antes de adormecer, e por um triz não provocou um incêndio, porque duas vezes começou a cochilar com o toco aceso entre os lábios.

continua pág 282...
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Leia também:

Capítulo I
A Chegada
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Assalto rechaçado (a)
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Thomas Mann - A Montanha Mágica: Irascibilidade e mais uma coisa sumamente chocante (b)

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VI

Irascibilidade e mais uma coisa sumamente chocante 
.

     Deus sabe quantos trocadilhos o médico, na sua disposição sombria, ainda teria feito, não o tivessem desconcertado o aspecto imperturbável de Joachim e a sua manifesta intenção de falar, e de falar corajosamente. 

– Senhor conselheiro – disse o jovem –, eu lhe queria dar parte de que resolvi viajar. 
– Ora veja! Quer tornar-se viajante? Eu pensava que o senhor, uma vez curado, pretendia ingressar nas fileiras. 
– Não, senhor conselheiro, tenho de partir imediatamente, daqui a uns oito dias. 
– Escute! Será que o entendo bem? O senhor quer ir-se, quer pôr-se em fuga? Sabe que isso se chama deserção? 
– Não, senhor conselheiro, eu não o considero assim. Preciso apresentar-me ao meu regimento. 
– Mesmo que eu lhe diga que dentro de meio ano sem falta poderei autorizá-lo a partir, mas antes desse prazo, não? 

     Joachim ia assumindo atitude cada vez mais militar. Recolhendo o ventre, disse laconicamente, em voz sufocada: 

– Faz mais de um ano e meio que estou aqui, senhor conselheiro. Não posso esperar mais tempo. No começo, o senhor me disse: “Três meses”. Depois, o meu tratamento foi sucessivamente prolongado por outros três ou seis meses, e ainda não estou curado. 
– A culpa é minha? 
– Não, senhor conselheiro. Mas eu não posso esperar mais tempo. Não me é possível aguardar aqui a cura completa, a não ser que eu queira perder o momento oportuno. Tenho de partir logo. Necessito ainda de algum tempo para me equipar e para tomar diversas providências... 
– A sua família concorda com o seu procedimento? 
– Minha mãe está de acordo. Já ficou tudo combinado. A 1.° de outubro entrarei no Regimento 76, como aspirante. 
– Enfrentando todos os riscos? – perguntou Behrens, fixando nele os olhos injetados... 
– Sim, senhor conselheiro – respondeu Joachim, com os lábios trêmulos. 
– Hum! Está bem, Ziemssen – disse o conselheiro, mudando de expressão. Relaxando a sua posição, cedeu em toda a linha. – Está bem, Ziemssen. Mexa-se! Parta! Deus o acompanhe! Já vejo que o senhor sabe o que quer. Uma coisa é certa, que as conseqüências são da sua conta e não da minha, desde o momento em que o senhor toma a si a responsabilidade. Ajuda-te, e ajudar-te-ei. O senhor parte por sua conta e risco; eu não garanto nada. Mas, afinal, tudo pode sair bem. O senhor escolheu uma profissão que se exerce ao ar livre. É perfeitamente possível que se dê bem com ela e consiga triunfar. 
– Sim, senhor conselheiro. 
– E esse jovem da classe dos civis? Será que o senhor deseja participar da romaria? 

     Essa pergunta dirigia-se a Hans Castorp. Achava-se este ali, tão pálido como há um ano atrás, quando daquele exame do qual resultará o seu internamento; quedava-se no mesmo lugar de então; e novamente se viam com absoluta nitidez as batidas do seu coração, que pulsava à flor da pele.

– Para mim depende tudo da sua opinião, senhor conselheiro – respondeu. 
– Da minha opinião? Bem! – E puxando-o pelo braço, Behrens aproximou-o de si. Auscultou. Percutiu. Não ditou nada. A coisa foi rápida. Quando terminou, disse: 
– O senhor pode partir. 

     Hans Castorp balbuciou:

– Quer dizer... Mas como? Estou curado? 
– Sim, o senhor está curado. Daquele lugar à esquerda, em cima, já não vale a pena falar. Sua temperatura não pode ter relação com ele. Não sei dizer de onde ela vem. Acho que não tem grande importância. Quanto a mim, o senhor pode partir. 
– Mas, senhor conselheiro... Permita-me a pergunta... O senhor está falando sério? 
– Se eu falo sério? Mas como? Que ideia é essa? Eu queria saber o que o senhor pensa de mim. Por quem me toma? Por um dono de rendez-vous

     Era uma explosão de cólera. O azul das faces do médico intensificara-se, assumindo um tom violeta, devido à congestão ardente. A crispação unilateral do lábio, sob o bigodinho, acentuara-se violentamente, a ponto de descobrir os amarelados dentes de cima. Avançando como um touro a cabeça com os olhos saltados, lacrimosos e estriados de sangue, berrou: 

– Não admito isso! Antes de tudo fique sabendo que não sou dono de nada! Sou um funcionário desta empresa! Sou médico! Sou exclusivamente médico; o senhor me compreende? Não sou alcoviteiro, não sou nenhum Signor Amoroso da Via Toledo, na bela Nápoles; entendeu me bem? Sou um servidor da humanidade sofredora! E se os senhores tiverem formado uma opinião diferente a respeito da minha pessoa, podem ambos ir às favas ou ao diabo ou águas abaixo, conforme a sua livre escolha! Boa viagem!

     A passos longos e apressados saiu pela porta que dava para a antessala do gabinete de radiografia, e fechou-a estrondosamente atrás de si.
     Os primos olharam para o Dr. Krokowski em busca de um conselho. Mas este enterrou o nariz na papelada, que o absorvia por completo. Vestiram-se às pressas. Enquanto subiam pela escada, disse Hans Castorp:

– Foi terrível, aquilo. Você já o viu assim em outra ocasião? 
– Assim, nunca. São aqueles seus ataques de loucura cesárea. A única coisa que se pode fazer é aguentá-los sem perder a linha. Claro que ele estava nervoso por causa da história de Polypraxios e da Nölting. Mas você viu... – continuou Joachim, e era visível que o prazer de ter lutado com êxito lhe enchia o coração e lhe oprimia o peito – você viu como ele cedeu terreno e capitulou, quando percebeu que eu não estava brincando? Basta que a gente se mostre enérgico e não se deixe atemorizar. Agora recebi uma espécie de autorização... O próprio Behrens disse que, provavelmente, conseguirei triunfar... Daqui a oito dias partiremos... Em três semanas, já me apresentarei ao meu regimento – terminou, corrigindo-se a si próprio e limitando à sua própria pessoa esses projetos que lhe faziam a voz vibrar de alegria. 

     Hans Castorp permaneceu calado. Não comentou a “autorização” de Joachim, nem tampouco a sua própria, da qual igualmente poderia ter falado. Preparou-se para o repouso. Introduziu o termômetro na boca. Com umas poucas manobras velozes e precisas, cheias de arte aperfeiçoada, envolveu-se nos seus dois cobertores de lã de camelo, em conformidade com aquela prática sagrada da qual ninguém tinha ideia na planície. Depois, deixou-se ficar estendido, imóvel, transformado num rolo simétrico, sobre a excelente espreguiçadeira, no meio da umidade fria da tarde de princípios de outono.
     As nuvens carregadas de chuva deslizavam muito baixo. A bandeira do estabelecimento achava-se arriada. Restos de neve encontravam-se nos galhos molhados do abeto. Do alpendre do andar térreo, donde, fazia mais de um ano, ressoara pela primeira vez a voz do Sr. Albin, o murmúrio de conversas abafadas subia até os ouvidos do jovem que cumpria o seu serviço, enquanto seus dedos e seu rosto rapidamente se tornavam frios, úmidos e enregelados. Hans Castorp estava acostumado a isso e aceitava com gratidão o estilo de vida ali de cima, que havia muito era para ele o único imaginável e lhe outorgava a bênção de ficar deitado ao abrigo de tudo e de poder entregar-se a toda sorte de pensamentos.
     Era coisa resolvida. Joachim partiria. Radamanto dera-lhe alta – não rite, não como curado, mas em todo caso dera-lhe alta, com uma meia aprovação, em virtude da sua atitude firme. O primo viajaria no trem de bitola estreita, desceria à “baixada”, até Landquart, até Romanshorn, para depois transpor o vasto e profundo lago, sobre o qual cavalgara o cavaleiro da lenda; e finalmente, regressaria, atravessando a Alemanha inteira. Viveria lá embaixo, no ambiente da planície, rodeado de pessoas que ignoravam por completo como se devia viver, que nada sabiam do termômetro, nem da arte de se envolver nos cobertores, do saco de peles, dos três passeios cotidianos, de... Era difícil, difícil esgotar tudo quanto desconheciam lá embaixo. Mas a ideia de que Joachim, depois de ter passado mais de um ano e meio ali em cima, viveria doravante entre os ignorantões – essa ideia que só dizia respeito a Joachim, e apenas vaga, hipoteticamente, a ele, Hans Castorp, perturbou-o de tal forma que fechou os olhos e fez com a mão um gesto de defesa. – Impossível, impossível! – murmurou.
     Uma vez que era impossível, continuaria ele a viver ali em cima sozinho, sem Joachim? Sim. Por quanto tempo? Até que Behrens lhe desse alta como curado, e isso seriamente, não como acabava de fazê-lo. Mas, em primeiro lugar era esse momento de tal forma indeterminado, que para fixá-lo só se podia repetir aquele gesto vago que Joachim esboçara em certa ocasião; e, em segundo lugar, era duvidoso que o impossível de agora se tornasse mais possível no futuro. O contrário parecia mais provável. Era preciso reconhecer lealmente que nesse momento em que o impossível talvez ainda não fosse tão impossível como o seria mais tarde, uma mão estava sendo estendida para segurá-lo; pelo fato da partida “em falso” de Joachim, eram-lhe oferecidos um bastão e um guia para conduzi-lo à planície, para onde ele, pela sua própria força, jamais encontraria o caminho. A pedagogia humanística, se ficasse sabendo dessa oportunidade, quanto não o exortaria a que agarrasse o bastão e aceitasse o guia! Ora, o Sr. Settembrini representava coisas e potências interessantes, sem dúvida, mas não exclusivas e absolutas; e o mesmo ocorria com Joachim. O primo era militar. Partia, quase na hora do projetado regresso de Marusja, a moça dos seios opulentos, que, como sabemos, devia voltar a 1.° de outubro. Ao civil Hans Castorp, porém, a partida afigurava-se impossível precisamente porque ele tinha de esperar por Clávdia Chauchat, de cuja volta, por enquanto, nem sequer se falava. “Eu não o considero assim”, dissera o primo, quando Radamanto usara o termo “deserção”, que, com referência a Joachim, evidentemente não passava de um disparate e de um exagero do médico agastado. Mas ao civil apresentavam-se as coisas sob um aspecto diferente. No seu caso – ah, indubitavelmente era assim, e fora na intenção de desenvolver essa ideia decisiva do complexo dos seus sentimentos que se estendera na espreguiçadeira, apesar do frio úmido – no seu caso seria mesmo desertar se ele aproveitasse a ocasião e partisse mais ou menos “em falso” para a planície; fugiria então das responsabilidades que se desdobravam diante dele, devido à visão daquela forma sublime que se chamava Homo Dei; desatenderia os deveres que lhe impunha o seu “reino”, deveres laboriosos e excitantes, que ultrapassavam as suas forças inatas e todavia o enchiam de uma felicidade aventurosa, quando se consagrava a eles no seu compartimento de sacada ou naquele lugar florido de azul.
     Hans Castorp tirou o termômetro da boca, com tamanha violência como só lhe acontecera numa única ocasião: quando o usara pela primeira vez, logo depois de ter adquirido da Superiora o delgado instrumento. Examinou-o com a mesma curiosidade de então. O mercúrio subira consideravelmente. Mostrava 37,8 – quase 9.
     O jovem jogou para longe os cobertores, levantou-se de um salto, deu alguns passos rápidos através do quarto, em direção à porta do corredor. Depois voltou à cadeira. Achando-se novamente na posição horizontal, chamou em voz baixa a Joachim e informou-se da temperatura do primo. 

– Não tirei – respondeu este.
– Bem, eu tenho tempus – disse Hans Castorp, servindo-se da expressão da Srª. Stöhr. Joachim, atrás da divisão de vidro, permaneceu silencioso.

     Mais tarde nada disse tampouco, nem nesse dia nem nos seguintes. Não fez perguntas a respeito dos projetos e das decisões de Hans Castorp, que, dada a brevidade do prazo, tinham de se revelar naturalmente, por atos ou pela ausência de atos. E foi a segunda alternativa que se deu. Hans Castorp parecia ter aderido ao quietismo, segundo o qual agir significava ofender a Deus, que se reserva o privilégio de fazê-lo. Em todo caso limitara-se sua atividade, nesses últimos dias, a uma visita a Behrens, da qual Joachim sabia, e cujo resultado lhe era fácil imaginar. O primo havia declarado que se permitia recordar as numerosas advertências antigas que o conselheiro lhe fizera no sentido de que esperasse a cura completa, para que não tivesse necessidade de voltar, e atribuir-lhes maior importância do que às palavras veementes, pronunciadas num minuto de exaspero. Tinha 37,8 e não se podia considerar como formalmente autorizado a partir. A não ser que aquilo que o conselheiro proferira naquela ocasião devesse ser interpretado como uma expulsão – medida que ele, Hans Castorp, não achava merecer –, desejava comunicar a sua decisão, à qual chegara pelo caminho do raciocínio calmo e em desacordo consciente com Joachim: permaneceria por enquanto ali e aguardaria sua desintoxicação total. A isso, o médico respondera aproximadamente: “Muito bem” e “Vamos pôr uma pedra no que se passou!” e “Isso é falar razoavelmente. Eu vi logo que o senhor tem mais talento para ser um bom paciente do que aquele desertor, aquele ferrabrás”. E outras coisas nesse gênero.
     Fora esse, segundo as conjeturas mais ou menos exatas de Joachim, o curso da entrevista. Por isso não disse nada. Apenas verificou em silêncio que Hans Castorp não imitava as medidas que ele mesmo tomava para preparar a viagem. Por outro lado, o bom Joachim andava mais que atarefado com os seus próprios problemas. Realmente não lhe era possível preocupar-se com a sorte e o futuro domicílio do primo. Uma tempestade agitava-lhe o peito, como facilmente se pode compreender. Ainda bem que tinha deixado de tomar a temperatura pretendendo que o termômetro se quebrara, caindo no chão; se a houvesse tomado, teria talvez obtido resultados perturbadores, sobreexcitado como estava, possuído de alegria e de impaciência, que ora lhe abrasavam as faces com um ardor sombrio, ora as faziam empalidecer. Já não era capaz de permanecer deitado. Durante todo o dia, Hans Castorp ouvia-o percorrer o aposento a passos largos, e eram precisamente as horas, quatro vezes por dia, em que no Berghof predominava a posição horizontal... Um ano e meio! E agora voltaria à planície, estaria em casa, apresentar-se-ia realmente ao regimento, se bem que para isso tivesse apenas meia autorização. Não era brinquedo, absolutamente! Hans Castorp tinha plena compreensão dos sentimentos do primo que ali caminhava, irrequieto. Dezoito meses, todo o ciclo de um ano e mais a metade de outro – Joachim passara-os nessas alturas, criando raízes profundas nesse solo, seguindo os trilhos do regime que aqui vigorava, desse plano inalterável da vida de sanatório, que observara durante sete vezes setenta dias, em todas as estações – e agora regressaria aos seus, viveria no “estrangeiro”, entre os ignorantes! Quantas dificuldades de aclimatação não o esperariam lá embaixo? E seria de admirar que não somente houvesse alegria na grande excitação de Joachim, senão também um quê de angústia, de mágoa causada pela despedida de tantas coisas muitíssimo costumeiras? Sem falar de Marusja...
     Mas a alegria preponderava. O coração e a boca do bom Joachim estavam transbordantes dela. Ocupava-se só de si próprio, desinteressando-se do futuro do primo. Dizia que tudo seria novo e viçoso – a vida, ele mesmo, o tempo, cada dia, cada hora. Voltaria a desfrutar um tempo valioso, anos de juventude que decorreriam lentamente e pesariam na balança. Falava da mãe, a tia de Hans Castorp, que tinha os mesmos olhos meigos e negros de Joachim; da mãe que não vira durante todo esse tempo passado nas montanhas, porque ela, esperando a volta do filho, do mesmo modo que este, de mês em mês, de semestre em semestre, nunca se resolvera a visitá-lo. Falava, com um sorriso entusiástico, do juramento à bandeira que prestaria dentro em breve: a cerimônia solene era realizada em presença da bandeira, e jurava-se sobre o próprio estandarte. – Não diga! – admirou-se Hans Castorp. – Seriamente? Sobre um pau e um pedaço de pano?

– Que costumes românticos! – observou o civil. 
– Costumes que merecem a qualificação de sentimentais e fanáticos. 

     A isso, Joachim limitou-se a sacudir a cabeça, cheio de orgulho e de felicidade.
     Absorvia-se nos preparativos. Pagou a última conta na “administração”. Dias antes do prazo que se fixara a si mesmo, começou a arrumar as malas. Emalou as roupas de verão e as de inverno. Mandou o criado costurar dentro de uma capa de aniagem o saco de peles e os cobertores de lã de camelo; talvez lhe pudessem ser úteis por ocasião das grandes manobras. Pôs se a dizer “adeus” a todo mundo. Fez uma visita de despedida a Naphta e Settembrini – sozinho, pois o primo não o acompanhou, dessa vez, nem tampouco perguntou pelo que o italiano observara quanto à partida iminente de Joachim e à “não-partida” de Hans Castorp. Para este, pouco importava saber se Settembrini dissera “Vejam só!” ou “Sim, sim, sim!”, ou talvez um e outro, ou se ainda acrescentara “Poveretto!”
     Chegou então a véspera da viagem, o dia em que Joachim percorreu pela última vez todas as fases do programa diário, cada refeição, cada repouso, cada passeio, e também se despediu dos médicos e da Superiora. E surgiu a própria manhã do dia da partida. Com os olhos ardentes e as mãos frias, Joachim apareceu na hora do café. Não dormira a noite toda. Mal engoliu um bocado, e quando a anã anunciou que a bagagem já se achava amarrada no carro, levantou-se de um pulo, a fim de dizer adeus aos companheiros de mesa. A Srª. Stöhr verteu lágrimas, durante a despedida, as lágrimas fáceis e insípidas peculiares às pessoas incultas; mas, por trás das costas de Joachim, fez à professora uma careta, encolhendo os ombros e meneando a mão espalmada para manifestar, de uma forma sumamente ordinária, as suas dúvidas quanto à propriedade da partida do jovem e ao seu futuro bem-estar. Hans Castorp reparou nesse gesto, enquanto, já de pé, esvaziava a sua xícara, para seguir o primo. Restava ainda distribuir as gorjetas e retribuir, no vestíbulo, os cumprimentos oficiais de um emissário da “administração”. Como sempre, alguns pensionistas estavam presentes para assistir ao bota-fora: a Srª. Iltis, com o “esterilete”, a Levi, a moça da pele de marfim, o excêntrico Professor Popov, em companhia da noiva. Abanaram os lenços, quando o coche, refreado nas rodas traseiras, desceu pela rampa. Joachim recebera um ramalhete de rosas. Usava chapéu, ao contrário de Hans Castorp.
     A manhã era magnífica, o primeiro dia de sol depois de muitos nublados. O Schiahorn, as Grüne Türme, o cimo do Dorfberg, destacavam-se do azul como símbolos inabaláveis, e os olhos de Joachim repousavam sobre eles. – É mesmo uma lástima – observou Hans Castorp – que o tempo tenha melhorado tanto, precisamente no momento da partida. Parece que há nisso uma certa maldade, uma vez que a impressão final desfavorável facilita a separação. – Ao que Joachim replicou que não precisava de nada que lhe tornasse a separação mais fácil, e que esse tempo era ótimo para o seu preparo militar. Assim se daria muito bem lá embaixo. Afora essas poucas palavras, não falaram muito. Dada a situação de cada um deles em particular e a que existia entre eles, realmente não sobrava assunto para grandes conversas. Além disso, o porteiro coxo achava se sentado à sua frente, ao lado do cocheiro.
     Eretos, sacudidos sobre o estofamento duro do carro, haviam deixado atrás o regato e os trilhos de bitola estreita. Seguiram então a estrada espaçadamente ladeada de habitações e paralela ao leito da via-férrea. Finalmente, pararam na praça pedregosa, em frente à estação de Davos Dorf, que não era muito mais que um telheiro. Hans Castorp assustou-se ao reconhecer tudo isso. Desde a sua chegada, que se realizara de tardezinha, fazia mais de treze meses, não voltara a ver a estação. – Foi aqui que cheguei – constatou desnecessariamente, e Joachim limitou-se a responder: – Pois é... – enquanto pagava o cocheiro.
     O enérgico porteiro coxo dedicou-se à compra da passagem e ao despacho das bagagens. Os primos achavam-se lado a lado sobre a plataforma, diante do trenzinho, junto do pequeno compartimento forrado de cinzento, onde Joachim pusera o sobretudo, o cobertor de viagem enrolado e as rosas, para reservar o seu lugar. – Bem, agora pode ir prestar o seu romântico juramento – disse Hans Castorp, e Joachim tornou: – Sem falta! – E que mais? Encarregou o outro de transmitir as últimas saudações, lembranças aos de baixo, lembranças aos de cima. Depois, Hans Castorp limitou-se a desenhar com a bengala no asfalto. Quando soou o sinal prevenindo os passageiros da iminência da partida, sobressaltou-se. Olhou Joachim, e este o olhou por sua vez. Apertaram-se as mãos. Hans Castorp esboçou um sorriso indeciso, ao passo que os olhos do primo mostravam-se sérios, tristes e insistentes. – Hans! – disse então... Grande Deus! Onde, em todo o vasto mundo, já se viu uma coisa tão chocante? Joachim acabava de tratar Hans Castorp pelo primeiro nome, não por “você” ou “rapaz”, como sempre havia feito; desconsiderando todos os seus princípios de rigidez e de reserva, abandonando-se a uma exuberância escandalosa, pronunciara o nome de batismo do primo. – Hans – repetiu, enquanto lhe apertava a mão com uma pressa angustiada. Hans Castorp notou que a nuca de Joachim, exausto pela insônia, pelo nervosismo da viagem e pelo abalo da despedida, tremia como fazia a sua própria, quando estava “reinando”. – Hans – disse Joachim, instantemente —, não deixe de seguir-me em breve! – Com isso saltou para o estribo. Fechou-se a porta. Ouviu-se um apito. Os carros entrechocaram-se. A pequena locomotiva pôs-se em movimento. O trem estava partindo. O viajante abanou o chapéu pela janela. O outro, que ficava atrás, respondeu com a mão. Com o coração profundamente emocionado permaneceu ainda por muito tempo ali, sozinho. Depois, regressou devagar pelo caminho que Joachim, havia mais de um ano, lhe tinha mostrado.

continua pág 277...
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Leia também:

Capítulo I
A Chegada
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Irascibilidade e mais uma coisa sumamente chocante (b)
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

sábado, 19 de julho de 2025

Thomas Mann - A Montanha Mágica: Irascibilidade e mais uma coisa sumamente chocante (a)

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VI

Irascibilidade e mais uma coisa sumamente chocante 
.

     Dessa forma veio o mês de agosto e, logo no seu princípio, o primeiro aniversário da chegada do nosso herói. Felizmente, a data passou despercebida. Ainda bem que foi assim. Hans Castorp pressentira-a com certo mal-estar. E isso era a regra ali em cima. Ninguém gostava do dia da chegada. Os veteranos e mesmo os pensionistas com apenas um ano de permanência não costumavam comemorá-lo. Se bem que normalmente se aproveitasse qualquer pretexto para festividades e bebedeiras alegres, se bem que o número dos acentos gerais e importantes que marcavam o ritmo e a pulsação do ano fosse aumentado por muitíssimos outros de natureza privada e irregular, se bem que aniversários natalícios, exames médicos, iminências de partidas, quer autorizadas, quer “em falso”, dessem motivos para comezainas no restaurante e para festins regados a champanha, essa data habitualmente era relegada ao silêncio. Os pensionistas passavam por cima dela ou esqueciam-na realmente. Em todo caso, podiam-se fiar em que os outros tampouco a recordariam com muita precisão. Sem dúvida, era costume prestar atenção às subdivisões do tempo; observava-se o calendário, a sucessão, a volta de determinado dia. Mas medir e contar aquele tempo que para uma certa pessoa se associava ao espaço ali de cima – isto é, o tempo particular e individual – cabia a principiantes e a pacientes de curto prazo; os mais traquejados preferiam a imensidão, a eternidade despercebida, o dia que era sempre o mesmo, e cada um tinha suficiente delicadeza para supor nos demais o desejo que ele próprio alimentava. Dizer a um enfermo: “Hoje faz três anos que o senhor está aqui”, seria julgado inábil e brutal. Era coisa que não acontecia. A própria Srª. Stöhr, por maiores que fossem os seus defeitos, demonstrava nesse ponto bastante tato e polidez, de maneira que nunca cometeria tamanha gafe. Sua enfermidade, o estado febril de seu corpo, estavam ligados, inegavelmente, a uma crassa ignorância. Havia só poucos dias, ela falara à mesa da “afetação” dos ápices dos seus pulmões, e durante uma conversa sobre assuntos históricos, declarara que as datas dos grandes feitos da história eram para ela uma espécie de “anel de Polícrates”, deixando estupefatos os comensais. Era, porém, inimaginável que fosse recordar, em fevereiro, ao jovem Ziemssen a data do seu jubileu, ainda que talvez se lembrasse dela; pois a sua infortunada cabeça estava naturalmente cheia de datas e coisas inúteis, e a Srª. Stöhr gostava de fazer as contas dos outros. Mas a tradição impedia-a de falar.
     E o mesmo se deu no aniversário da chegada de Hans Castorp. No curso da refeição, a desgraçada procurara uma vez piscar-lhe o olho de modo significativo; mas como a fisionomia do jovem não desse nenhum sinal de compreensão, apressara-se a bater em retirada. Também Joachim deixará de manifestar-se, e todavia não esquecera a data em que fora à estação de Davos Dorf para receber o primo visitante. Mas Joachim, por natureza pouco inclinado a conversar – muito menos do que Hans Castorp se mostrava ali em cima, sem falar de certos humanistas e disputadores da sua roda —, Joachim exibia nos últimos tempos uma taciturnidade singular e surpreendente. Só se expressava em monossílabos, embora o seu semblante revelasse um violento trabalho interior. Era evidente que a estação de Davos-Dorf despertava nele outras ideias que não as de chegada e de recepção... Mantinha intensa correspondência com a planície. Dentro dele, decisões iam amadurecendo. Os preparativos que fazia aproximavam-se do fim.
     O mês de julho fora quente e cheio de sol. Mas com o princípio do novo mês irrompeu uma onda de mau tempo, com uma umidade brumosa e com chuvas mescladas de neve, seguidas de uma nevada incontestável. Esse tempo estendeu-se, interrompido por alguns esplêndidos dias de verão, além dos fins de agosto, até pleno setembro. No começo, os quartos continuavam conservando o calor do período estival precedente; registravam-se dez graus no seu interior, o que passava por temperatura agradável. Mas aos poucos aumentava o frio, e o aspecto da neve que caía sobre o vale causou viva satisfação, porque só ele – a queda de temperatura não teria bastado – decidiu a “administração” a acender o aquecimento central, em primeiro lugar na sala de refeições e depois também nos quartos; e quem, após ter cumprido o dever do repouso, se desembaraçasse dos seus dois cobertores e, abandonando a sacada, entrasse no aposento, podia tocar com as mãos úmidas e enregeladas os radiadores reanimados, cuja emanação seca intensificava o ardor das faces.
     Era isso o inverno? Os sentidos dificilmente se esquivavam a essa impressão, e todos lamentavam “terem sido roubados do verão”, posto que eles mesmos, ajudados por circunstâncias artificiais e naturais, por um pródigo consumo de tempo, o tivessem escamoteado a si próprios. A razão argumentava que ainda viriam uns belos dias de outono, talvez até toda uma série deles, e de tamanho esplendor cálido que não seria excessiva honra atribuir-lhes o nome de verão – uma vez que se fizesse abstração da órbita do sol já menos oblíqua e do fato de anoitecer mais cedo. Mas o efeito que a paisagem hibernal exercia sobre a alma era mais forte do que esse tipo de consolo.. Os enfermos colocavam-se junto à porta cerrada da loggia e contemplavam com repugnância o torvelinho que se abatia lá fora. Pelo menos era essa a atitude de Joachim, que disse numa voz oprimida: 

– Será que aquilo vai recomeçar agora?

     Hans Castorp respondeu do fundo do quarto: 

– Seria um pouco prematuro. Só pode ser passageiro, apesar da aparência terrivelmente definitiva. Se o inverno consiste na escuridão, na neve, no frio e nos radiadores quentes, temos outra vez inverno; não há como negar. E quando considero que o inverno apenas acaba de terminar e mal passou o degelo – em todo caso nos parece que recém-saídos da primavera; não acha também? –, bem, então tomo um susto, francamente! Essas ideias são perigosas para o nosso otimismo. Vou lhe explicar por quê. Quero dizer que o mundo normalmente está organizado de maneira a corresponder às necessidades do homem e a estimular-lhe a alegria de viver; isso se deve admitir. Não vou ao ponto de dizer que a ordem natural das coisas, por exemplo, o tamanho da Terra, o tempo que ela precisa para dar uma volta em torno de si mesma e em torno do Sol, o ciclo das estações, o ritmo cósmico, se o quer chamar assim – que tudo isso obedeça às nossas necessidades; tal afirmação seria muito pretensiosa e simplista; seria pura ideologia, como dizem os filósofos. Mas o caso é que as nossas necessidades e os fatos básicos e gerais da natureza estão, graças a Deus, de acordo uns com os outros. Digo: “Graças a Deus!” porque aí temos realmente um motivo para dar graças a Ele. Na planície, quando vem o verão ou o inverno, já passou tanto tempo desde o verão ou o inverno anterior, que a estação que chega nos é outra vez nova e bem-vinda, e disso deriva a alegria de viver. Mas aqui em cima essa ordem e esse acordo têm sido perturbados, primeiro porque no fundo não há verdadeiras estações, como você mesmo me disse certa vez, mas somente dias de inverno e dias de verão pêle-mêle, numa completa mixórdia, e segundo porque aquilo que decorre para nós aqui não é tempo, de maneira que o inverno, quando chega, não é novo, mas sim o mesmo que o passado. Daí se explica o mau humor com que você está olhando pela janela. 
– Muito obrigado – disse Joachim. – E agora que você me explicou o fato, parece-me tão satisfeito que até se conforma com a coisa em si, apesar de que ela... Não senhor! – exclamou Joachim. – Basta! Isso é uma porcaria! Tudo é uma enorme e nojenta porcaria! E se você, pela sua conta... Eu... – A passo apressado saiu do quarto, fechando furiosamente a porta atrás de si e, se não enganavam todos os sinais, havia lágrimas nos seus belos e brandos olhos.

     O outro ficou atrás, consternado. Não tomara muito a sério certas decisões do primo, enquanto este se limitara a ameaças feitas em altos brados. Agora, porém, que alguma força operava silenciosamente no interior de Joachim e o primo se comportava como acabava de fazer, Hans Castorp aterrorizou-se, porque compreendia que esse militar era bastante homem para passar a agir. E o jovem ficou pálido de medo, medo que sentia por ambos, pelo outro e por si próprio. “Fort possible qu'il aille mourir”, pensou, e como isso indubitavelmente fosse uma sabedoria de terceira mão, mesclou-se com ela ainda a tortura de uma velha e jamais tranquilizadora suspeita, enquanto continuava a cismar: “Será possível que ele me vá deixar sozinho aqui em cima, a mim que somente subi para visitá-lo?” E daí chegou a acrescentar: “Mas isso seria maluco e horroroso, a tal ponto que sinto como meu rosto se gela e meu coração lateja desordenadamente. Pois se eu ficar sozinho nestas alturas – e é isso o que farei, se ele partir; que o acompanhe absolutamente não entra em questão! —, nesse caso (agora o meu coração parou por completo!), nesse caso é para sempre, é para todos os tempos, porque eu sozinho nunca na vida reencontrarei o caminho que conduz à planície...”
     Tais foram as temerosas reflexões de Hans Castorp. Aquela mesma tarde devia trazer-lhe certeza sobre o curso do porvir. Joachim declarou as suas intenções. Foram lançados os dados. Caiu o golpe decisivo.
     Depois do chá desceram ao bem-iluminado subterrâneo para apresentar-se ao exame mensal. Era em princípios de setembro. Ao entrarem na atmosfera seca do consultório encontraram o Dr. Krokowski sentado no seu lugar diante da escrivaninha, ao passo que o conselheiro, com as faces muito azuladas, e com os braços cruzados, encostava-se à parede. Com o estetoscópio, que segurava numa das mãos, ia dando leves golpes no seu ombro. Bocejou em direção ao teto. – Bom dia, meus filhos – disse em voz fatigada. No decorrer da cena que se seguiu, continuou manifestando uma disposição bastante lânguida, cheia de melancolia e de renúncia geral. Provavelmente acabava de fumar. Mas tivera também alguns desgostos autênticos, dos quais os primos já tinham ouvido falar, incidentes de sanatório, de um gênero suficientemente conhecido. Tratava-se de uma jovem, de nome Ammy Nölting, que se internara no Berghof pela primeira vez no outono do ano retrasado e recebera alta nove meses depois, em agosto; mas já em setembro reaparecera, porque não “se sentira bem” em casa; em fevereiro, fora novamente mandada para a planície, com pulmões onde já não se percebia o menor ruído estranho; mas em meados de julho voltara a ocupar o seu lugar à mesa da Srª. Iltis. Haviam surpreendido a dita Ammy, à uma hora da madrugada, em companhia de um enfermo chamado Polypraxios, o mesmo grego que na noite do carnaval causara sensação pela elegância das suas pernas, um jovem químico, cujo pai possuía uma fábrica de tintas no Pireu. Polypraxios fora apanhado no quarto de Ammy, por uma amiga loucamente enciumada, que ali chegara pelo mesmo caminho que ele, isto é, pelas sacadas, e, dilacerada de mágoa e de raiva diante do quadro que se lhe oferecera, fizera uma gritaria medonha, alarmando todo mundo e dando origem a um escândalo extraordinário. Behrens vira-se obrigado a despedir os três, o ateniense, a Nölting e a amiga, que, de tanta paixão, não se importara com a própria honra. Acabava de discutir o chocante assunto com o assistente a cuja clientela particular haviam pertencido tanto Ammy como a amiga. Ainda durante o exame dos primos prosseguiu preocupando-se com o caso, num tom sombrio e resignado; era um perito tão consumado na arte da auscultação que sabia explorar o interior de um enfermo enquanto falava de outra coisa, e ainda ditava ao assistente os fenômenos verificados. 

– Pois é, gentlemen, sempre essa maldita libido! – disse. – Claro que os senhores se divertem com a história. Pouco se lhes dá... Vesicular... Mas um diretor de sanatório fica com nojo dessas coisas; podem... Maciez... podem me acreditar. Que culpa tenho eu de que a tísica ande frequentemente acompanhada de extrema concupiscência? Respiração levemente rude... Não fui eu quem arranjou o mundo dessa maneira. Mas antes que a gente se dê conta disso, acha-se no papel de um dono de rendez-vous. Diminuição do murmúrio, abaixo da axila esquerda... Temos a análise, proporcionamos oportunidades para desabafarem. Que adianta? Quanto mais se abrem esses piratas, mais assanhados se tornam. Eu recomendo as matemáticas... Aqui melhorou; desapareceram os roncos... A ocupação com as matemáticas, digo eu, é o melhor remédio que existe contra a lascívia. O Promotor Paravant, que muito sofria da tentação, meteu-se a estudá-las. Anda às voltas com a quadratura do círculo e sente-se bastante aliviado. Mas a maioria é por demais estúpida e preguiçosa para isso; quê Deus lhes perdoe!... Vesicular... Olhe, eu sei perfeitamente que a mocidade aqui em cima facilmente toma um mau caminho e se deprava por completo. Antigamente fiz algumas tentativas de intervir nesses casos de devassidão. Mas aconteceu que qualquer irmão ou noivo me perguntava à queima-roupa o que eu tinha com isso. Desde então limito-me a ser um simples médico e nada mais. Ligeiro estertor à direita, na parte superior...

     Estava terminado o exame de Joachim. O Dr. Behrens enfiou o estetoscópio no bolso do avental e esfregou os olhos com a manzorra esquerda, como costumava fazer, quando “se ausentava” ou se sentia melancólico. Quase maquinalmente, entre bocejos mal-humorados, recitou a sua lição: 

– Pois então, Ziemssen, ânimo! É verdade que nem tudo corre exatamente como o exige o manual de fisiologia. Aqui e ali anda ainda encrencado, e o senhor, por enquanto não liquidou a sua conta com Gaffky. Pelo contrário, comparado com a última vez, até subiu um grau na escala. Desta vez são seis. Mas não chore por causa disso! Quando chegou aqui, estava mais doente do que hoje; isso lhe dou por escrito. E se o senhor ficar conosco ainda uns cinco ou seis menses... Não acha que menses soa melhor do que meses? Eu tenciono só dizer menses, daqui em diante... 
– Senhor conselheiro... – começou Joachim. Estava de pé, com o torso desnudo, numa atitude tesa. Tinha o peito saliente, os calcanhares unidos e as mesmas manchas terrosas no rosto que tivera em certa ocasião, quando Hans Castorp pela primeira vez notara que esse era o modo como empalidecia a tez bronzeada. 
– Se o senhor – prosseguiu Behrens, sem se importar com a interrupção – continuar aqui cumprindo religiosamente os deveres do regime, durante meio ano, pouco mais ou menos, será um homem curado e poderá tomar Constantinopla de assalto. Terá bastante fortaleza para conquistar todas as fortalezas que quiser...

continua pág 272...
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Leia também:

Capítulo I
A Chegada
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Irascibilidade e mais uma coisa sumamente chocante (a)
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Thomas Mann - A Montanha Mágica: Da Cidade de Deus e da redenção pelo mal (c)

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VI

Da Cidade de Deus e da redenção pelo mal 
.

continuando...


     Foi essa a sutil exposição de Naphta. Fez-se silêncio no pequeno grupo. Os jovens olhavam o Sr. Settembrini, como se fosse ele quem devesse reagir dessa ou daquela forma. 

– É pasmoso – disse o italiano. – Francamente, confesso que estou emocionado. Eu não teria esperado por essa. Roma locuta. E como falou! Diante dos nossos olhos executou um salto mortal hierático, e a contradição que porventura houvesse nesse adjetivo foi “ab-rogada temporariamente”. Sim, senhor! Repito: é pasmoso! O senhor admite a possibilidade de objeções, meu caro professor? Falo de objeções feitas exclusivamente sobre o fundamento da lógica. O senhor acaba de esforçar-se por nos fazer compreender um individualismo cristão, baseado na dualidade de Deus e do mundo e por demonstrar a sua primazia sobre toda mobilidade determinada pela política. Poucos minutos depois levou o socialismo até a ditadura e o terror. Como consegue o senhor reconciliar essas duas coisas? 
– As contradições – replicou Naphta – podem reconciliar-se. Somente o meio-termo, e a mediocridade são irreconciliáveis. Como já me permiti observar, o seu individualismo é deficiente, é apenas um compromisso. Corrige a sua ética paga por meio de um pouco de cristianismo, um pouco de direito do indivíduo e um pouco de pretensa liberdade. Isso é tudo. Um individualismo, porém, que parte da importância cósmica, da importância astrológica da alma individual, um individualismo não social, mas religioso, que concebe a humanidade não como o antagonismo entre o eu e a sociedade, mas como o conflito entre o eu e Deus, entre a carne e o espírito – tal individualismo genuíno se harmoniza muito bem com a comunidade mais intensamente coercitiva... 
– É anônimo e coletivo – disse Hans Castorp.

     Settembrini mirou-o com os olhos arregalados. 

– Cale-se, engenheiro! – ordenou com uma severidade que se devia atribuir ao seu nervosismo e à tensão do seu espírito. – Instrua-se, mas deixe de externar suas opiniões!... Recebi uma resposta – prosseguiu, voltando-se novamente para Naphta. – Ela pouco me consola, mas, ao menos, é uma resposta. Encaremos todas as consequências que provêm dela... Com a indústria, o comunismo cristão rejeita a técnica, a máquina, o progresso. Com aquilo que o senhor qualificou de camada de comerciantes, com o dinheiro e os negócios lucrativos, que a Antiguidade colocava muito acima da agricultura e do artesanato, reprova a liberdade. É evidente, salta aos olhos que dessa forma – tal como aconteceu na Idade Média – todas as relações particulares e públicas ficam presas ao solo. E o mesmo se dá – custa-me dizê-lo – com a personalidade. Se o solo é o único que alimenta, é também o único que pode outorgar a liberdade. Artífices e camponeses, por mais alto que seja o conceito de que gozam, se não possuem terras, são servos de quem as possuí. Com efeito, até uma fase muito adiantada da Idade Média, as grandes massas, inclusive nas cidades, compunham se de servos. No curso da nossa palestra, o senhor mencionou de vez em quando a dignidade humana. Não obstante, defende uma moral econômica à qual são inerentes a servidão e o aviltamento da personalidade do homem. 
– Sobre a dignidade e o aviltamento – disse Naphta – pode-se discutir. Por enquanto, eu ficaria muito satisfeito se essa associação o fizesse ver na liberdade menos um belo gesto do que um problema. O senhor observa que a moral econômica cristã, com toda a sua beleza e mentalidade humana, cria servos. Eu oponho a isso que a causa da liberdade ou das cidades, como se poderia dizer de uma forma mais concreta —, que essa causa, por elevada e ética que seja, acha-se historicamente ligada à mais desumana degeneração da moral econômica, a todas as atrocidades do espírito moderno de comerciantes e especuladores, à dominação diabólica do dinheiro e dos negócios. 
– Faço questão de que o senhor não se esquive por meio de antinomias e de ambiguidades, mas professe clara e inequivocamente ser partidário da mais negra das reações. 
– O primeiro passo em direção à verdadeira liberdade e humanidade seria abandonar esse medo covarde da ideia de reação. 
– Agora basta! – disse o Sr. Settembrini numa voz levemente trêmula, enquanto afastava de si a xícara e o prato, que já estavam vazios. Levantou-se do sofá forrado de seda. – Por hoje chega, é suficiente para um só dia, segundo me parece. Professor, obrigado pelo saboroso lanche e pela conversa sumamente espirituosa. Os deveres do regime reclamam os meus amigos do Berghof, e eu gostaria, antes de irem, de mostrar-lhes o meu cubículo lá em cima. Vamos, cavalheiros! Addio, padre!

     Desta vez até chamou Naphta de “padre”. Hans Castorp, com as sobrancelhas franzidas, tomou nota do apelido. Os primos deixaram que Settembrini organizasse a partida, dispondo deles e nem sequer perguntando se Naphta queria ou não unir-se a eles. Os jovens despediram-se também, agradecendo, e foram convidados a voltar em breve. Acompanharam o italiano, Hans Castorp levando emprestada a obra De misria humanae conditionis, um volume cartonado, em precário estado de conservação. Lukacek, com a sua barba, melancólica, continuava sentado à mesa, trabalhando no vestido com mangas, destinado àquela velha, quando passaram pela sua porta, para ganhar a íngreme escada que conduzia à água-furtada. No fundo não se tratava de mais um andar, senão simplesmente do vão do sótão, com o madeiramento despido abaixo das telhas e com a atmosfera estival de um depósito, cheirando a madeira quente. Mas o sótão abrigava dois compartimentos que o capitalista republicano habitava. Serviam de gabinete de estudo e de dormitório ao colaborador beletrista da Sociologia dos males. Mostrou-se alegremente aos jovens amigos. Qualificou a habitação de isolada e íntima, a fim de lhes sugerir os epítetos adequados de que poderiam servir-se para elogiá-la, o que de fato fizeram unanimemente. Era encantadora – acharam ambos —, tão isolada e tão íntima, exatamente como dissera o Sr. Settembrini. Lançaram um olhar ao pequeno dormitório, onde, à frente do estreito leito, se estendia um pequeno tapete de retalhos, e depois voltaram ao gabinete de trabalho, mobiliado de modo não menos despojado, mas que mostrava, ao mesmo tempo, uma ordem um tanto espalhafatosa e até fria. Cadeiras toscas e antiquadas em número de quatro, com assentos de palha, achavam-se colocadas simetricamente dos lados das portas, e também o sofá estava encostado à parede, de modo que o centro da peça pertencia somente a uma solitária mesa redonda, coberta com uma toalha verde, na qual se via, para fins de adorno ou de refresco, uma sóbria garrafa de água com um copo enfiado sobre o gargalo. Livros encadernados e brochuras encontravam-se apoiados obliquamente uns nos outros sobre uma pequena estante, e junto à janelinha erguia-se sobre pernas altas uma papeleira leve, diante da qual havia um pedacinho de feltro espesso, de tamanho apenas suficiente para que se pudesse ficar de pé em cima dele. Durante um momento, Hans Castorp, a título de experiência, pôs-se no lugar onde o Sr. Settembrini costumava trabalhar, estudando, para fins enciclopédicos, as belas-letras sob o ponto de vista do sofrimento humano. Fincando os cotovelos na tábua inclinada, o jovem declarou que ali se podia viver de um modo isolado e íntimo. Nessa mesma posição – opinou – devia o pai de Lodovico, com seu nariz fino e comprido, ter ficado diante da sua escrivaninha, em Pádua. E Hans Castorp inteirou-se de que realmente essa era a papeleira do saudoso sábio; também as cadeiras de palhinha, a mesa e a própria garrafa de água haviam pertencido a ele. E mais ainda: as cadeiras provinham do avô, o carbonário; haviam feito parte da mobília do seu escritório em Milão. Isso era impressionante. A fisionomia das cadeiras tomava aos olhos dos jovens ares de insubmissão política. Joachim levantou-se daquela em que se instalara inocentemente, com as pernas cruzadas, e olhou-a desconfiado, sem voltar a sentar-se. Hans Castorp, porém, de pé diante da papeleira de Settembrini-pai, pensava no filho que agora trabalhava nela, associando a política do avô e o humanismo do genitor, com o fim de criar obras beletrísticas. Pouco depois saíram todos os três. O escritor ofereceu-se a acompanhar os primos pelo caminho de regresso.
     Caminharam um bom pedaço sem falar, mas o seu silêncio estava relacionado com Naphta, e Hans Castorp não tinha pressa. Estava certo de que o Sr. Settembrini não deixaria de mencionar o vizinho, e que só os acompanhara na intenção de fazê-lo. Não se enganou. Depois de um suspiro dado para tomar impulso, o italiano começou dizendo:

– Senhores, eu desejaria adverti-los.

     Como Settembrini fizesse uma pausa, Hans Castorp indagou com fingida surpresa: – Contra o quê? – Poderia ter perguntado: “Contra quem?” Mas preferiu a forma impessoal, para documentar a extensão da sua inocência, ainda que o próprio Joachim soubesse muito bem de que se tratava. 

– Contra a personalidade que acabamos de visitar – respondeu Settembrini – e que eu tive de apresentar-lhes contra a minha vontade. Os senhores sabem que isso aconteceu por mero acaso e não houve jeito de evitá-lo. Mas a responsabilidade me cabe e pesa sobre mim penosamente. É minha obrigação expor à juventude, da qual os senhores fazem parte, os perigos espirituais que acarreta o contato com esse homem. Devo pedir-lhes que mantenham em limites seguros as relações com ele. Sua forma é lógica, mas sua natureza é confusão.

     Hans Castorp replicou que, realmente, não se sentia à vontade com Naphta. Suas palavras deixavam-no às vezes com uma sensação esquisita. Podia-se pensar em alguns momentos que ele pretendia afirmar seriamente que o Sol girava em torno da Terra. Mas, como poderiam eles, os primos, ter imaginado que fosse inconveniente travar relações sociais com um amigo do Sr. Settembrini? Não acabava ele próprio de dizer que haviam conhecido Naphta por seu intermédio? Tinham-no encontrado em sua companhia; o homem passeava com ele, que tomava o chá na sua casa, assim sem cerimônia, e tudo isso demonstrava, afinal... 

– Sem dúvida, meu caro engenheiro, sem dúvida! – a voz do Sr. Settembrini soava suave, resignada, e contudo levemente trêmula. – São objeções que se impõem, e por isso o senhor tem razão de fazê-las. Muito bem, estou disposto a defender-me. Vivo sob o mesmo teto com esse senhor. Frequentes encontros são inevitáveis. Uma palavra traz a outra. A gente trava conhecimento. O Sr. Naphta é homem inteligente, o que é coisa rara. Tem um temperamento discursivo, assim como eu. Que me condene quem quiser, mas aproveito a oportunidade de cruzar as lanças da ideia com um adversário de qualidade até certo ponto igual. Não tenho mais ninguém, nem perto nem longe... Numa palavra, não nego que o visito e que ele me visita. Também passeamos juntos. E discutimos. Discutimos encarniçadamente, quase todos os dias. Mas confesso que a oposição e a hostilidade da sua maneira de pensar representa para mim precisamente um atrativo a mais para me encontrar com ele. Tenho necessidade do atrito. As convicções não vivem, a não ser que tenham ocasião de lutar, e eu, por minha parte, tenho sólidas convicções. Mas como poderiam os senhores afirmar o mesmo das suas próprias pessoas? O senhor, tenente, ou o senhor, engenheiro? Não estão armados para se defender contra miragens intelectuais. Correm o perigo de que essas sutilezas meio fanáticas, meio maliciosas, lhes prejudiquem o espírito e a alma.

     Hans Castorp admitiu tudo isso. Seu primo e ele próprio eram, provavelmente, naturezas um tanto expostas. A velha história dos filhos enfermiços da vida; claro! Mas a ela podia-se opor Petrarca com a sua divisa, que o Sr. Settembrini conhecia. Em todo caso era digno de ser ouvido o que Naphta explanava. Que não fossem injustos: aquilo que ele dissera sobre o tempo comunista, por cujo transcurso ninguém deveria receber um prêmio, era mesmo notável. E também eram muito interessantes as suas ideias sobre a pedagogia, coisas que ele, Hans Castorp, nunca teria chegado a saber sem Naphta...
     Settembrini cerrou os lábios, e Hans Castorp apressou-se a acrescentar que, naturalmente, ele se abstinha de tomar partido e de formar uma opinião. Simplesmente achara dignos de serem ouvidos os argumentos de Naphta sobre os desejos da juventude. – Explique-me o senhor uma coisa – continuou. – Esse Sr. Naphta (digo “esse senhor” para indicar que não simpatizo com ele irrestritamente; pelo contrário, observo com relação a ele uma rigorosa reserva mental...)

– E o senhor faz muito bem! – exclamou Settembrini, cheio de gratidão. 
– ...ele acaba de dizer horrores contra o dinheiro, a alma do Estado, segundo se expressava, e contra a propriedade particular, que tachava de roubo; numa palavra, atacou a riqueza capitalista, da qual, se não me engano, afirmou que era o combustível das chamas do inferno. Parece-me que se serviu dessa expressão. Em altos brados elogiou a condenação medieval do anatocismo. E apesar de tudo isso ele próprio faz... O senhor me desculpe, mas ele deve... É uma verdadeira surpresa quando se entra na casa dele. Toda aquela seda... 
– Pois é – sorriu Settembrini. – A tendência dos seus gostos é característica. 
– ...e os belos móveis antigos – prosseguiu Hans Castorp nas suas reminiscências —, a Pietà do século XIV... o lustre veneziano... o criadinho de libré... e bolo de chocolate em abundância... É preciso que ele pessoalmente... 
– O Sr. Naphta, pela sua pessoa – explicou Settembrini —, é tão pouco capitalista quanto eu. 
– Mas... – perguntou Hans Castorp. – As suas palavras escondem um “mas”, Sr. Settembrini. 
– Bem, essa gente não deixa nenhum dos seus na miséria. 
– Quem é “essa gente”? 
– Aqueles padres. 
– Padres? Que padres? 
– Ora, engenheiro, eu falo dos jesuítas. 

     Fez-se um momento de silêncio. Os primos mostraram sinais da mais viva consternação. Hans Castorp exclamou: 

– Não é possível!... Cruzes! O homem é um jesuíta? 
– O senhor adivinhou – respondeu o Sr. Settembrini cerimoniosamente. 
– Não, nunca na vida teria eu... Como poderia pensar? É por isso que o senhor o chamou de “padre”. 
– Foi um pequeno excesso de cortesia – tornou Settembrini. – O Sr. Naphta não é padre. Se por enquanto ainda não atingiu esse grau, a culpa é da enfermidade. Mas ele passou pelo noviciado e fez os primeiros votos. A doença forçou-o a interromper os estudos teológicos. Depois, teve ainda alguns anos de serviço como prefeito num instituto da ordem, isto é, como preceptor ou mentor de jovens alunos. Isso vinha ao encontro das suas inclinações pedagógicas. E aqui pode continuar a satisfazê-las, ensinando latim no Fredericianum. Vive em Davos faz cinco anos. Não se pode dizer ao certo quando será capaz de partir, se é que um dia o será. Mas Naphta pertence à ordem, e mesmo que os laços que o ligam a ela fossem mais frouxos, nunca lhe faltaria nada. Eu já expliquei aos senhores que ele, pessoalmente, é pobre, quer dizer, não possui bens. Claro, é a regra! A ordem, por sua vez, dispõe de imensas riquezas e cuida dos seus, como os senhores podem ver. 
– Barba...ridade! – murmurou Hans Castorp. – E eu nem sabia ou pensava que uma coisa dessas pudesse existir realmente! Um jesuíta! Sim, senhor!... Mas diga-me mais uma coisa: se ele está bem provido e amparado por aquela gente, por que cargas d'água vive então... Absolutamente não quero criticar a sua habitação, Sr. Settembrini O senhor está muito bem instalado na casa de Lukacek, de um modo agradavelmente isolado e sobretudo tão íntimo... Mas sou de opinião que esse Naphta, uma vez que anda tão cheio da nota, para usar esse termo vulgar... Por que não aluga uma moradia mais vistosa, com uma entrada elegante e peças grandes, numa casa distinta? Há mesmo qualquer coisa de misterioso e aventureiro nesse jeito de morar num quartinho desses, com todas aquelas sedas...

     Settembrini deu de ombros.     

– Devem ser razões de tato e de gosto que determinaram a escolha – disse então. – Acho que sua consciência anticapitalista se sente melhor quando ele habita o quarto de homem pobre e compensa isso pela maneira como o habita. Talvez haja também questões de discrição metidas nisso. Não se deve ostentar a todo mundo que se é abastecido pelo Diabo. Adota-se uma fachada pouco impressionante, atrás da qual se dá livre curso ao gosto sacerdotal pela seda... 
– É esquisito! – disse Hans Castorp. – É completamente novo e emocionante para mim, como confesso com toda a franqueza. Não, de fato estamos muito gratos, Sr. Settembrini, porque nos apresentou esse homem. Creia-me que frequentemente voltaremos a visitá-lo. Isso ficou combinado. Relações assim ampliam o horizonte de maneira inesperada e permitem olhar para um mundo cuja existência a gente absolutamente ignorava. Um autêntico jesuíta! Quando digo “autêntico” estou dando margem àquilo que me preocupa, e que não posso deixar de observar. Eu pergunto: é ele realmente um jesuíta como os outros? Sei muito bem que o senhor pensa que não pode haver norma, quando se trata de pessoas que o Diabo abastece. Mas o que eu gostaria de saber é outra coisa, que se pode resumir na pergunta: “É ele autêntico como jesuíta?” É isso que me interessa. Naphta acaba de dizer uma porção de coisas – o senhor sabe a que me refiro – sobre o comunismo moderno e o zelo piedoso do proletariado, que não deve impedir as suas mãos de derramarem sangue. Numa palavra, ele disse coisas que não quero comentar; comparado com esse homem, o seu avô, com sua lança do cidadão, era um cordeirinho inocente; não me leve a mal essa expressão! E ele pode fazer isso? Tem a aprovação dos seus superiores? É compatível com a doutrina romana, uma vez que dizem que a ordem intriga o mundo inteiro em prol dela? Não é tudo isso – como se diz? – herético, anormal, incorreto? Essas ideias me ocorrem a respeito de Naphta, e eu gostaria muito de saber o que o senhor pensa.

     Settembrini sorriu. 

– É muito simples. O Sr. Naphta é, realmente e antes de mais nada, um jesuíta genuíno e completo. Mas em segundo lugar é um homem de espírito – do contrário eu não procuraria a companhia dele – e como tal empenha-se em encontrar novas combinações, adaptações e associações, ainda em busca de variações modernas. Os senhores me viram surpreendido diante das suas teorias. Comigo, ele nunca se revelara até esse ponto. Servi-me do estímulo que a presença dos senhores evidentemente exercia sobre ele para provocá-lo, a fim de que dissesse, em certo sentido, a última palavra. E essa palavra foi bastante excêntrica e bastante monstruosa...
– Sim... E por que não chegou a ser padre? Acho que ele tem a idade necessária. 
– Eu já lhe disse que a doença o impediu, temporariamente... 
– Hum... Mas, se Naphta é em primeiro lugar um jesuíta, e em segundo, um homem de espírito que anda em busca de combinações, não acredita o senhor que esse outro elemento, o acessório, provém da enfermidade? 
– Que quer dizer com isso? 
– Olhe, Sr. Settembrini, parece-me o seguinte: ele tem uma mancha úmida que o impede de ser padre. Mas aquelas suas combinações também o teriam impedido, e sob esse aspecto pode se dizer que as combinações e a mancha úmida pertencem à mesma categoria. Ele é, à sua maneira, uma espécie de filho enfermiço da vida, um joli jésuite com uma petite tache humide

     Haviam chegado ao sanatório. No terraço em frente ao edifício detiveram-se ainda um instante, antes de se separarem. Formaram um pequeno grupo, enquanto outros pensionistas, que andavam ociosos nas proximidades do portão, observavam a sua palestra. O Sr. Settembrini disse:

– Mais uma vez, meus jovens amigos, advirto-os. Não posso proibir-lhes a continuação das relações uma vez estabelecidas, desde que se sintam impelidos pela curiosidade. Mas criem em torno do coração e do cérebro uma couraça de desconfiança. Nunca deixem de opor uma resistência crítica. Eu definirei esse homem numa única palavra: é um voluptuoso.

     Os primos fizeram uma careta. A seguir perguntou Hans Castorp: 

– Um quê? Ora veja! Mas ele pertence a uma ordem. Pelo que sei, existem ali alguns votos que devem ser feitos, e além disso Naphta é tão minguado e tão débil... 
– O senhor fala muito ingenuamente, engenheiro – retrucou o Sr. Settembrini. – Aquilo nada tem que ver com a debilidade, e quanto aos votos há certas reservas. Porém, eu falei num sentido mais lato e mais espiritual, na esperança de encontrar alguma compreensão da sua parte. Lembra-se ainda do dia em que o visitei no seu quarto – já faz muito, muitíssimo tempo –, o senhor passava pelo período de acamamento obrigatório, logo depois da sua admissão como paciente... 
– Como não! O senhor entrou na hora do crepúsculo e acendeu a luz. Recordo-me como se fosse hoje... 
– Bem, naquele dia o curso da palestra, como graças a Deus acontece frequentemente, levou-nos a certos assuntos elevados. Creio que falamos até da vida e da morte, da natureza digna da morte, contanto que seja uma condição e um complemento da vida, e do caráter de bicho papão que ela assume quando o espírito comete o pavoroso erro de isolá-la como princípio. Senhores – prosseguiu o Sr. Settembrini, aproximando-se muito dos dois jovens e estendendo lhes o polegar e o dedo médio da mão esquerda à maneira de uma forquilha, como para apanhar lhes a atenção, enquanto erguia o indicador da direita em sinal de admoestação... –, gravem na sua memória que o espírito é soberano, que sua vontade é livre, que determina o mundo moral. Porém, se dualisticamente isola a morte, esta se converte, real e virtualmente, graças à vontade do espírito, numa potência própria, oposta à vida, num princípio antagônico, na grande sedução; e seu império é o da voluptuosidade. Os senhores perguntam: “Por que da voluptuosidade?” E eu respondo: porque a morte dissolve e redime, porque traz a redenção, mas não a redenção do mal, e sim a redenção pelo mal. Dissolve a ética e a moralidade, redime da disciplina e da moderação, liberta para a volúpia. Se os advirto contra o homem que os senhores, malgrado meu, conheceram por meu intermédio, se os exorto a que blindem os corações com a tríplice couraça da crítica, no contato e nas discussões com ele, é porque todos os seus pensamentos têm caráter voluptuoso, pois estão colocados sob a proteção da morte, que é uma potência sumamente licenciosa, como eu já lhe disse, engenheiro, naquela ocasião – lembro-me bem da expressão que usei; sempre guardo na memória as expressões precisas e incisivas que tive oportunidade de formular –, é uma potência dirigida contra a civilização, o progresso, o trabalho e a vida. E o mais nobre dever do educador é pôr as almas dos jovens ao abrigo das suas emanações mefíticas.  

     Seria impossível falar de forma mais clara e mais elegante do que o Sr. Settembrini acabava de fazer. Hans Castorp e Joachim Ziemssen agradeceram-lhe todos os conselhos, despediram-se e subiram até o portal do Berghof, ao passo que o Sr. Settembrini regressava à sua papeleira de humanista, um andar acima da cela forrada de seda do Sr. Naphta.
     A visita dos primos à casa de Naphta, que acabamos de descrever, foi a primeira que lhe fizeram. Seguiram-se a ela duas ou três outras, uma até na ausência do Sr. Settembrini, e todas elas forneciam ao jovem Hans Castorp material para as suas reflexões, quando se deixava estar no seu retiro florido de azul e “reinava”, enquanto pairava ante seus olhos interiores aquela forma sublime que se chama Homo Dei.

continua pág 268...
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Leia também:

Capítulo I
A Chegada
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Da Cidade de Deus e da redenção pelo mal (c)
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.