PRIMEIRA PARTE
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
24. A Cotação do Café Lança ao Fogo as Colheitas e Determina o Ritmo dos Casamentos
O que é isso? O eletroencefalograma de um louco? Em
1889, o café valia dois centavos e seis anos depois subiu
para nove; três anos mais tarde baixou para quatro
centavos e cinco anos depois para dois. Esse período foi
ilustrativo
[1]. Os gráficos dos preços do café, como os de
todos os produtos tropicais, assemelham-se aos quadros
clínicos da epilepsia, mas a linha sempre desce quando
registra o valor de troca do café perante os maquinários e
produtos industrializados. Carlos Lleras Restrepo, presidente
da Colômbia, queixava-se em 1967: neste ano, seu país
devia pagar 57 bolsas de café para comprar um jipe,
enquanto em 1950 bastavam dezessete bolsas. Ao mesmo
tempo, o Secretário da Agricultura de São Paulo, Herbert
Levi, fazia cálculos mais dramáticos: para comprar um
trator em 1967, o Brasil precisava de 350 bolsas de café, ao
passo que, quatorze anos antes, 70 bolsas teriam sido
suficientes. O presidente Getúlio Vargas, em 1954,
despedaçou seu coração com um balaço, e a cotação do
café não se alheou à tragédia: “Veio a crise do café”,
escreveu Vargas em seu testamento, “valorizou-se o nosso
principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta
foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto
de sermos obrigados a ceder”. Vargas quis que seu sangue
fosse um preço do resgate.
Se a colheita do café de 1964 fosse comercializada no
mercado norte-americano a preços de 1955, o Brasil teria
recebido 200 milhões de dólares a mais. A baixa de um
centavo na cotação do café implica uma perda de 65
milhões de dólares para o conjunto dos países produtores.
Desde 1964, como o preço continuou caindo até 1968,
tornou-se maior a quantidade de dólares usurpados do Brasil, país produtor, pelo país consumidor, os Estados
Unidos. Mas em benefício de quem? Do cidadão que bebe o
café? Em julho de 1968, o preço do café brasileiro nos
Estados Unidos havia baixado 30 por cento em relação a
janeiro de 1964. No entanto, o consumidor norte-americano
não pagava menos pelo seu café, mas 13 por cento a mais.
Entre 64 e 68, portanto, os intermediários abocanharam
estes 13 e aqueles 30: ganharam nas duas pontas. No
mesmo período, os valores que receberam os produtores
brasileiros por cada bolsa de café estavam reduzidos à
metade
[2]. Quem são os intermediários? Seis empresas
norte-americanas dispõem de mais do que a terça parte do
café que sai do Brasil, e outras seis empresas norte
americanas dispõem de mais do que a terça parte do café
que entra nos Estados Unidos: são firmas dominantes em
ambos os extremos da operação
[3]. A United Fruit (que
passou a chamar-se United Brands enquanto escrevo estas
linhas) exerce o monopólio da venda de bananas da
América Central, Colômbia e Equador, e ao mesmo tempo
monopoliza a importação e a distribuição de bananas nos
Estados Unidos. De modo semelhante, são empresas norte
americanas que manejam o negócio do café, e o Brasil só
participa como provedor e como vítima. É o Estado
brasileiro
que arca com os estoques quando a
superprodução obriga a acumular reservas.
Acaso não existe um Convênio Internacional do Café
para equilibrar os preços no mercado? O Centro Mundial de
Informação do Café publicou em Washington, em 1970, um
amplo documento destinado a convencer os legisladores
para que os Estados Unidos prorrogassem, em setembro, a
vigência da lei complementar relativa ao convênio. O
informe assegura que o convênio beneficiou em primeiro
lugar os Estados Unidos, consumidores de mais da metade
do café que se vende no mundo. A compra do grão continua
sendo uma pechincha. No mercado norte-americano, o
irrisório aumento do preço do café (em benefício, como
vimos, dos intermediários) foi muito menor do que a alta
geral do custo de vida e do nível interno dos salários; o
valor das exportações dos Estados Unidos, entre 1960 e
1969, elevou-se em uma sexta parte, e no mesmo período o
valor das importações de café, em vez de aumentar,
diminuiu. De resto, é preciso levar em conta que os países
latino-americanos aplicam as deterioradas divisas obtidas
com a venda do café na compra desses produtos norte
americanos que subiram de preço.
O café beneficia muito mais quem consome do que
quem o produz. Nos Estados Unidos e na Europa gera
rendas, empregos, e mobiliza grandes capitais; na América
Latina, paga salários de fome e acentua a deformação
econômica dos países postos a seu serviço. Nos Estados
Unidos, o café proporciona trabalho a mais de 600 mil
pessoas: os norte-americanos que distribuem e vendem o
café latino-americano ganham salários infinitamente mais
altos do que os brasileiros, colombianos, guatemaltecos,
salvadorenhos ou haitianos que semeiam e colhem o grão
nas plantações. De outra parte, informa-nos a CEPAL que,
por incrível que pareça, o café entorna mais riqueza nas
arcas estatais dos países europeus do que a riqueza que
deixa em mãos dos países produtores. De fato, “em 1960 e
1961, as cargas fiscais totais impostas pelos países da
Comunidade Europeia ao café latino-americano elevaram-se
a cerca de 700 milhões de dólares, ao passo que as rendas
dos países abastecedores (em termos do valor FO das
mesmas exportações) só alcançaram 600 milhões de
dólares”
[4]. Os países ricos, pregadores do livre-comércio,
aplicam o mais rígido protecionismo contra os países
pobres: convertem tudo o que tocam em ouro para eles
mesmos e em lata para os demais – incluindo a própria
produção dos países subdesenvolvidos. O mercado
internacional do café copia de tal modo o desenho de um
funil que o Brasil, recentemente, aceitou impor altos
impostos às suas exportações de café solúvel para proteger– protecionismo ao contrário – interesses dos fabricantes
norte-americanos do mesmo artigo. O café instantâneo
produzido no Brasil é mais barato e de melhor qualidade do
que o da florescente indústria dos Estados Unidos, mas no
regime da livre concorrência, está visto, uns são mais livres
do que os outros.
Neste reino do absurdo organizado as catástrofes
naturais se convertem em bênçãos do céu para os países
produtores. As agressões da natureza elevam os preços e
permitem que se mobilizem as reservas acumuladas. As
ferozes geadas que devastaram a colheita de 1969 no Brasil
condenaram à ruína numerosos produtores, sobretudo os
pequenos, mas empurraram para cima a cotação
internacional do café e aliviaram consideravelmente o
estoque de 60 milhões de bolsas – equivalentes a dois
terços da dívida externa do Brasil – que o Estado acumulara
para defender os preços. O café armazenado, que já se
deteriorava e, progressivamente, ia perdendo valor, por
pouco não foi para a fogueira. Não seria a primeira vez. Na
crise de 1929, que derrubou os preços e contraiu o
consumo, o Brasil queimou 78 milhões de bolsas de café:
assim ardeu em chamas o esforço de 200 mil pessoas
durante cinco safras
[5]. Aquela foi uma típica crise de uma
economia colonial: veio de fora. A brusca queda dos lucros
dos plantadores e dos exportadores de café nos anos 30
provocou, além do incêndio do café, o incêndio da moeda.
Este é o mecanismo usual na América Latina para
“socializar as perdas” do setor exportador: compensa-se em
moeda nacional, através das desvalorizações, o que se
perde em divisas.
O auge dos preços, contudo, não têm melhores
consequências. Incrementa grandes semeaduras, um
crescimento na produção, uma multiplicação da área
destinada ao cultivo do produto afortunado. O estímulo
funciona como um bumerangue, pois a abundância do
produto derruba os preços e provoca o desastre. Foi o que
ocorreu em 1958, na Colômbia, quando foi colhido o café
semeado com tanto entusiasmo quatro anos antes; ciclos
semelhantes se repetiram ao longo da história deste país. A
Colômbia depende a tal ponto do café e de sua cotação
internacional que, “em Antióquia, a curva dos casamentos
responde rapidamente à curva dos preços do café. É típico
de uma estrutura dependente: até o momento propício a
uma declaração de amor numa colina de Antióquia é
decidido na bolsa de Nova York”
[6].
continua na página 168...
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Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: A Cotação do Café Lança ao Fogo as Colheitas(13)
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[1] MONEIG, Pierre. Pionniers et planteurs de São Paulo. Paris, 1952.
[2] Dados do anco Central, Instituto Brasileiro do Café e FAO. Revista Fator (2).
Rio de Janeiro, novembro-dezembro de 1968.
[3] Segundo investigação realizada pela Federal Trade Commission. SILVEIRA,
Cid. Café: um drama na economia nacional. Rio de Janeiro, 1962.
[4] CEPAL. El comercio internacional y el desarrollo de América Latina. México; Buenos Aires, 1964.
[5] SIMONSEN, op. cit.
[6] ARRUBLA, op. cit.
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