quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: A Cotação do Café Lança ao Fogo as Colheitas(13)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     24. A Cotação do Café Lança ao Fogo as Colheitas e Determina o Ritmo dos Casamentos
          O que é isso? O eletroencefalograma de um louco? Em 1889, o café valia dois centavos e seis anos depois subiu para nove; três anos mais tarde baixou para quatro centavos e cinco anos depois para dois. Esse período foi ilustrativo [1]. Os gráficos dos preços do café, como os de todos os produtos tropicais, assemelham-se aos quadros clínicos da epilepsia, mas a linha sempre desce quando registra o valor de troca do café perante os maquinários e produtos industrializados. Carlos Lleras Restrepo, presidente da Colômbia, queixava-se em 1967: neste ano, seu país devia pagar 57 bolsas de café para comprar um jipe, enquanto em 1950 bastavam dezessete bolsas. Ao mesmo tempo, o Secretário da Agricultura de São Paulo, Herbert Levi, fazia cálculos mais dramáticos: para comprar um trator em 1967, o Brasil precisava de 350 bolsas de café, ao passo que, quatorze anos antes, 70 bolsas teriam sido suficientes. O presidente Getúlio Vargas, em 1954, despedaçou seu coração com um balaço, e a cotação do café não se alheou à tragédia: “Veio a crise do café”, escreveu Vargas em seu testamento, “valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder”. Vargas quis que seu sangue fosse um preço do resgate.
     Se a colheita do café de 1964 fosse comercializada no mercado norte-americano a preços de 1955, o Brasil teria recebido 200 milhões de dólares a mais. A baixa de um centavo na cotação do café implica uma perda de 65 milhões de dólares para o conjunto dos países produtores. Desde 1964, como o preço continuou caindo até 1968, tornou-se maior a quantidade de dólares usurpados do Brasil, país produtor, pelo país consumidor, os Estados Unidos. Mas em benefício de quem? Do cidadão que bebe o café? Em julho de 1968, o preço do café brasileiro nos Estados Unidos havia baixado 30 por cento em relação a janeiro de 1964. No entanto, o consumidor norte-americano não pagava menos pelo seu café, mas 13 por cento a mais. Entre 64 e 68, portanto, os intermediários abocanharam estes 13 e aqueles 30: ganharam nas duas pontas. No mesmo período, os valores que receberam os produtores brasileiros por cada bolsa de café estavam reduzidos à metade [2]. Quem são os intermediários? Seis empresas norte-americanas dispõem de mais do que a terça parte do café que sai do Brasil, e outras seis empresas norte americanas dispõem de mais do que a terça parte do café que entra nos Estados Unidos: são firmas dominantes em ambos os extremos da operação [3]. A United Fruit (que passou a chamar-se United Brands enquanto escrevo estas linhas) exerce o monopólio da venda de bananas da América Central, Colômbia e Equador, e ao mesmo tempo monopoliza a importação e a distribuição de bananas nos Estados Unidos. De modo semelhante, são empresas norte americanas que manejam o negócio do café, e o Brasil só participa como provedor e como vítima. É o Estado brasileiro que arca com os estoques quando a superprodução obriga a acumular reservas.
     Acaso não existe um Convênio Internacional do Café para equilibrar os preços no mercado? O Centro Mundial de Informação do Café publicou em Washington, em 1970, um amplo documento destinado a convencer os legisladores para que os Estados Unidos prorrogassem, em setembro, a vigência da lei complementar relativa ao convênio. O informe assegura que o convênio beneficiou em primeiro lugar os Estados Unidos, consumidores de mais da metade do café que se vende no mundo. A compra do grão continua sendo uma pechincha. No mercado norte-americano, o irrisório aumento do preço do café (em benefício, como vimos, dos intermediários) foi muito menor do que a alta geral do custo de vida e do nível interno dos salários; o valor das exportações dos Estados Unidos, entre 1960 e 1969, elevou-se em uma sexta parte, e no mesmo período o valor das importações de café, em vez de aumentar, diminuiu. De resto, é preciso levar em conta que os países latino-americanos aplicam as deterioradas divisas obtidas com a venda do café na compra desses produtos norte americanos que subiram de preço.
     O café beneficia muito mais quem consome do que quem o produz. Nos Estados Unidos e na Europa gera rendas, empregos, e mobiliza grandes capitais; na América Latina, paga salários de fome e acentua a deformação econômica dos países postos a seu serviço. Nos Estados Unidos, o café proporciona trabalho a mais de 600 mil pessoas: os norte-americanos que distribuem e vendem o café latino-americano ganham salários infinitamente mais altos do que os brasileiros, colombianos, guatemaltecos, salvadorenhos ou haitianos que semeiam e colhem o grão nas plantações. De outra parte, informa-nos a CEPAL que, por incrível que pareça, o café entorna mais riqueza nas arcas estatais dos países europeus do que a riqueza que deixa em mãos dos países produtores. De fato, “em 1960 e 1961, as cargas fiscais totais impostas pelos países da Comunidade Europeia ao café latino-americano elevaram-se a cerca de 700 milhões de dólares, ao passo que as rendas dos países abastecedores (em termos do valor FO das mesmas exportações) só alcançaram 600 milhões de dólares” [4]. Os países ricos, pregadores do livre-comércio, aplicam o mais rígido protecionismo contra os países pobres: convertem tudo o que tocam em ouro para eles mesmos e em lata para os demais – incluindo a própria produção dos países subdesenvolvidos. O mercado internacional do café copia de tal modo o desenho de um funil que o Brasil, recentemente, aceitou impor altos impostos às suas exportações de café solúvel para proteger– protecionismo ao contrário – interesses dos fabricantes norte-americanos do mesmo artigo. O café instantâneo produzido no Brasil é mais barato e de melhor qualidade do que o da florescente indústria dos Estados Unidos, mas no regime da livre concorrência, está visto, uns são mais livres do que os outros.
     Neste reino do absurdo organizado as catástrofes naturais se convertem em bênçãos do céu para os países produtores. As agressões da natureza elevam os preços e permitem que se mobilizem as reservas acumuladas. As ferozes geadas que devastaram a colheita de 1969 no Brasil condenaram à ruína numerosos produtores, sobretudo os pequenos, mas empurraram para cima a cotação internacional do café e aliviaram consideravelmente o estoque de 60 milhões de bolsas – equivalentes a dois terços da dívida externa do Brasil – que o Estado acumulara para defender os preços. O café armazenado, que já se deteriorava e, progressivamente, ia perdendo valor, por pouco não foi para a fogueira. Não seria a primeira vez. Na crise de 1929, que derrubou os preços e contraiu o consumo, o Brasil queimou 78 milhões de bolsas de café: assim ardeu em chamas o esforço de 200 mil pessoas durante cinco safras [5]. Aquela foi uma típica crise de uma economia colonial: veio de fora. A brusca queda dos lucros dos plantadores e dos exportadores de café nos anos 30 provocou, além do incêndio do café, o incêndio da moeda. Este é o mecanismo usual na América Latina para “socializar as perdas” do setor exportador: compensa-se em moeda nacional, através das desvalorizações, o que se perde em divisas.
     O auge dos preços, contudo, não têm melhores consequências. Incrementa grandes semeaduras, um crescimento na produção, uma multiplicação da área destinada ao cultivo do produto afortunado. O estímulo funciona como um bumerangue, pois a abundância do produto derruba os preços e provoca o desastre. Foi o que ocorreu em 1958, na Colômbia, quando foi colhido o café semeado com tanto entusiasmo quatro anos antes; ciclos semelhantes se repetiram ao longo da história deste país. A Colômbia depende a tal ponto do café e de sua cotação internacional que, “em Antióquia, a curva dos casamentos responde rapidamente à curva dos preços do café. É típico de uma estrutura dependente: até o momento propício a uma declaração de amor numa colina de Antióquia é decidido na bolsa de Nova York” [6].

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: A Cotação do Café Lança ao Fogo as Colheitas(13)
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[1] MONEIG, Pierre. Pionniers et planteurs de São Paulo. Paris, 1952.
[2] Dados do anco Central, Instituto Brasileiro do Café e FAO. Revista Fator (2). Rio de Janeiro, novembro-dezembro de 1968. 
[3] Segundo investigação realizada pela Federal Trade Commission. SILVEIRA, Cid. Café: um drama na economia nacional. Rio de Janeiro, 1962.
[4] CEPAL. El comercio internacional y el desarrollo de América Latina. México; Buenos Aires, 1964.
[5] SIMONSEN, op. cit.
[6] ARRUBLA, op. cit.

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