segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: O Detentor do Poder como Sobrevivente

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     O Detentor do Poder como Sobrevivente

          Poder-se-ia definir o tipo paranoico de detentor do poder como aquele que se vale de todos os meios para afastar de si o perigo. Em vez de desafiá-lo e confrontá-lo; em vez de deixar que a decisão se dê no seu enfrentamento — uma decisão que poderia também ser desfavorável —, ele busca bloquear-lhe o caminho com astúcia e cautela. Um tal tipo criará em torno de si espaços livres que possa abranger com a vista, notando e estudando cada indício de aproximação do perigo. E isso a partir de todas as direções, pois a consciência de ter de se haver com muitos que, juntos e a um só tempo, poderiam atacá-lo mantém desperto nele o medo de um eventual cerco. O perigo está por toda parte, e não apenas na sua frente. Ele é até mesmo maior às suas costas, onde o poderoso não seria capaz de notá-lo com suficiente rapidez. Assim, mantém seus olhos por toda parte; nem mesmo o ruído mais inaudível pode escapar-lhe, já que este poderia conter em si um propósito hostil.
     O perigo por excelência é, naturalmente, a morte. É importante estudar minuciosamente como o detentor de poder se posiciona diante dela. Sua primeira e decisiva característica é seu direito sobre a vida e a morte. Dele, ninguém pode aproximar-se; quem lhe traz uma mensagem, quem precisa aproximar-se, é revistado à procura de armas. A morte é sistematicamente mantida longe do poderoso: ele próprio é quem pode e deve determiná-la. E deve fazê-lo com a frequência que desejar. Sua sentença de morte é sempre cumprida. Ela é o selo de seu poder, que só será absoluto enquanto seu direito de condenar à morte permanecer incontestado.
     E isso porque realmente sujeito a ele está apenas aquele que por ele se deixa matar. A prova derradeira de obediência, aquela que importa, é sempre a mesma. Seus soldados são educados para uma espécie de dupla disponibilidade: são enviados para matar-lhe os inimigos, mas estão também prontos a morrer por ele. Mesmo os seus demais súditos, porém, os que não são soldados, sabem que o detentor do poder pode investir contra eles a qualquer momento. O pavor que ele dissemina lhe pertence; é seu direito, e em razão desse direito ele é venerado ao máximo. É adorado de forma extrema. Deus infligiu a sentença de morte definitiva sobre todos os homens de agora e todos aqueles que viverão no futuro. Do humor do poderoso depende, porém, quando tal sentença será executada. A ninguém ocorre revoltar-se contra isso — um intento que não teria nenhuma perspectiva de sucesso.
     Não obstante, as coisas são menos fáceis para os poderosos terrenos do que para Deus. Eles não viverão para sempre; seus súditos sabem que também os seus dias terão um fim. E esse fim pode até ser apressado. Como todo fim, é a violência que o produz. Aquele que nega obediência posicionou-se para a luta. Nenhum soberano está eternamente seguro da obediência de seus súditos. Enquanto estes se deixarem matar por ele, o soberano pode dormir tranquilo. Mas, tão logo alguém escape ao seu veredicto, ele estará em perigo.
     O sentimento desse perigo está sempre desperto no detentor de poder. Mais adiante, ao se tratar aqui da natureza da ordem, verificar se-á que seus medos têm necessariamente de aumentar à medida que mais ordens suas vão sendo cumpridas. Ele somente logra aplacar suas dúvidas com o auxílio de uma medida exemplar. Assim, determinará uma execução pela execução em si, sem que importe tanto a culpa da vítima. De tempos em tempos, necessitará dessas execuções, tanto mais quanto mais rapidamente suas dúvidas aumentarem. Seus súditos mais certos, seus súditos perfeitos — poder-se-ia dizer — são os que morreram por ele.
     E isso porque cada execução pela qual é responsável confere-lhe alguma força. Essa força que ele assim adquire é a força da sobrevivência. Suas vítimas não precisam ter efetivamente se voltado contra ele, mas poderiam tê-lo feito. O medo que ele sente as transforma — talvez somente a posteriori — em inimigos que lutaram contra ele. Ele as condenou, elas foram mortas, ele sobreviveu a elas. Em suas mãos, o direito de pronunciar sentenças de morte torna-se uma arma como outra qualquer, mas muito mais eficaz. Com frequência, soberanos bárbaros e orientais atribuíam grande valor à acumulação de tais vítimas o mais próximo possível de si, de forma a tê-las constantemente diante dos olhos. Mesmo nos lugares onde o costume se opunha a uma tal acumulação, os pensamentos dos poderosos contemplaram-na. Um relato atribui ao imperador romano Domiciano um jogo sinistro dessa espécie. O banquete que ele concebeu, e que, com certeza, jamais voltou a realizar-se de maneira idêntica, ilustra com perfeição a natureza mais profunda do poderoso paranoico. Tal relato, de autoria de Díon Cássio, diz o seguinte:

Em outra ocasião, Domiciano entreteve os mais nobres dentre os senadores e cavaleiros da seguinte maneira. Preparou uma sala na qual tudo — o teto, as paredes e o chão — era preto, além de dispor leitos desguarnecidos e dessa mesma cor sobre o chão nu. Seus convidados, convidou-os para a noite, desacompanhados de seus séquitos. Ao lado de cada um deles, mandou colocar primeiramente um disco, ostentando a forma de uma lápide e o nome do convidado; a este acrescia-se ainda uma pequena lâmpada, como aquelas que costumeiramente pendem dos túmulos. Rapazes formosos e nus adentraram, então, a sala, igualmente pintados de preto, qual fantasmas. Puseram-se a executar uma dança horripilante ao redor dos convidados, postando-se, depois, a seus pés. A seguir, serviram-se aos convidados os pratos que, nos sacrifícios, habitualmente são oferecidos aos espíritos dos mortos — todos pretos e em travessas da mesma cor. Os convidados todos começaram a tremer e hesitar, esperando que, no instante seguinte, lhes fossem cortar as gargantas. À exceção de Domiciano, estavam todos calados. Reinava um silêncio mortal, como se já se encontrassem todos no reino dos mortos. O próprio imperador discorria ruidosamente sobre mortes e carnificinas. Por fim, dispensou seus convidados. Primeiramente, porém, afastara-lhes os escravos que os aguardavam na antessala. Confiou, então, os convidados a escravos desconhecidos, mandando-os para casa em carros ou liteiras. Impregnou-os, assim, de um medo ainda maior. Mal tendo os convidados chegado em casa e começado a respirar aliviados, um mensageiro do imperador fez-se anunciar. Estando todos eles já certos de que sua hora havia chegado, alguém entrou trazendo o disco, que era de prata. Outros vieram, carregando objetos diversos, dentre os quais as travessas de material precioso nas quais a comida lhes fora servida. E, finalmente, cada convidado viu aparecer ainda o rapaz que, qual um espírito particular, dele cuidara — agora, porém, já lavado e adornado. Após terem passado a noite inteira morrendo de medo, recebiam agora os presentes.

     Esse foi, pois, “o banquete fúnebre de Domiciano”, como o povo o chamou.
     O pavor incessante no qual o imperador manteve seus convidados fê-los calar. Somente ele falava, e falava sobre a morte e sobre matar. Era, pois, como se estivessem todos mortos e somente ele ainda vivo. Reunira nesse banquete todas as suas vítimas, pois assim devem ter se sentido os convidados. Disfarçado de anfitrião, mas, na verdade, na condição de sobrevivente, falava a vítimas disfarçadas de convidados. A situação do sobrevivente, porém, não foi aí tão só concentrada, mas também refinadamente intensificada. Embora os convidados pareçam mortos, o imperador segue ainda podendo matá-los. Captura-se assim o processo propriamente dito do sobreviver. Ao dispensar seus convidados, Domiciano os indultou. Fá-los tremer de novo, entregando-os a escravos desconhecidos. Eles chegam em casa, e, mais uma vez, ele lhes envia mensageiros da morte. Estes trazem-lhes presentes, e, dentre eles, o maior dos presentes; sua vida. O imperador pode, por assim dizer, despachá-los da vida para a morte, e trazê-los desta de volta à vida. Ele se delicia diversas vezes com esse jogo, que lhe dá a mais elevada sensação de poder — uma sensação ainda mais elevada de poder seria inconcebível.

continua página 347...
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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