sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: A Venda de Camponeses(8)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     20. A Venda de Camponeses
          Em 1888 foi abolida a escravatura no Brasil. Mas não foi abolido o latifúndio e no mesmo ano escrevia uma testemunha do Ceará: “O mercado de gado humano esteve aberto enquanto durou a fome, pois compradores nunca faltaram. Raro era o vapor que não conduzia grande número de cearenses” [1]. Meio milhão de nordestinos emigraram para a Amazônia até o fim do século, atraídos pela ilusão da borracha. Mas o êxodo continuou, impulsionado pelas periódicas secas que assolavam o sertão e pelas sucessivas ondas de expansão dos latifúndios açucareiros na zona da mata. Em 1900, 40 mil vítimas da seca abandonaram o Ceará. Tomaram o caminho que na época era o habitual: a rota do norte para a floresta. Depois o itinerário mudou. Em nossos dias, os nordestinos emigram para o centro e para o sul do Brasil. A seca de 1970 empurrou multidões famintas para as cidades do nordeste. Saquearam trens e estabelecimentos comerciais; aos gritos, imploravam chuva a São José. Os “flagelados” tomaram conta das estradas. Um telegrama de abril de 1970 informa: “A polícia do estado de Pernambuco deteve no último domingo, no município de Belém de São Francisco, 210 camponeses que seriam vendidos a proprietários rurais do estado de Minas Gerais, a dezoito dólares por cabeça” [2]. Os camponeses vinham da Paraíba e do Rio Grande do Norte, os estados mais castigados pela seca. Em junho, os teletipos transmitiam as declarações do chefe da polícia federal: seus serviços ainda não possuíam meios eficazes para dar um basta ao tráfico de escravos, e embora nos últimos meses tivessem sido abertos inquéritos sobre a matéria, persistia a venda de trabalhadores do Nordeste para os proprietários ricos de outras zonas do país.
     O boom da borracha e o auge do café contaram com grandes levas de trabalhadores nordestinos. Mas também o governo fez uso desse caudal de mão de obra barata, formidável exército de reserva para as grandes obras públicas. Do Nordeste vieram, transportados como gado, os homens desnudos que da noite para o dia levantaram a cidade de Brasília no meio do deserto. Essa cidade, a mais moderna do mundo, hoje está cercada por um cinturão de miséria: terminado seu trabalho, os candangos foram jogados para as cidades-satélites. E nelas, 300 mil nordestinos, sempre prontos para qualquer serviço, vivem de refugos da resplandecente capital.
     Atualmente, o trabalho escravo dos nordestinos está abrindo a grande estrada transamazônica, que cortará o Brasil em dois, penetrando na floresta até a fronteira com a Bolívia. O grande plano implica também um projeto de colonização agrária para estender “as fronteiras da civilização”: cada trabalhador receberá uma área de dez hectares, se sobreviver às febres tropicais da floresta. No Nordeste há 6 milhões de trabalhadores sem terra, enquanto 15 mil pessoas são donas de metade da superfície total. A reforma agrária não prospera nas regiões já ocupadas, onde continua sendo sagrado o direito de propriedade dos latifundiários. Isto significa que os “flagelados” do nordeste abrirão caminho para a expansão do latifúndio em novas áreas. Sem capital, sem meios para trabalhar, o que significam dez hectares a 2 ou 3 mil quilômetros de distância dos centros de consumo? São bem diferentes, é o que se deduz, os propósitos do governo: proporcionar mão de obra para os latifundiários norte americanos que compraram ou usurparam metade das terras ao norte do rio Negro, e para a United States Steel Co., que recebeu das mãos do general Garrastazú Médici as enormes jazidas de ferro e manganês da Amazônia [3].

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: A Venda de Camponeses(8)
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[1] TEÓFILO, Rodolfo. História da seca do Ceará (1877-1880). Rio de Janeiro, 1922.
[2] France Presse, 21 de abril de 1970. Em 1938, a peregrinação de um vaqueiro pelos calcinados caminhos do sertão já inspirara um dos melhores romances da história literária do Brasil. O açoite da seca sobre os latifúndios de gado do interior, subordinados aos engenhos de açúcar do litoral, ainda não cessou, e tampouco mudaram suas consequências. O mundo de Vidas secas continua intato: o papagaio imitava o latido do cão porque seus donos já quase não faziam uso da voz humana. RAMOS, Graciliano. Vidas secas. La Habana, 1964.
[3] SCHILLING, Paulo. “Um nuevo genocídio.” Marcha (1501). Montevideo, 10 jul. 1970. Em outubro de 1970, os bispos do Pará denunciaram ao presidente do Brasil a exploração brutal dos trabalhadores nordestinos pelas empresas que estão construindo a estrada transamazônica. O governo a chama “a obra do século”.

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