PRIMEIRA PARTE
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
20. A Venda de Camponeses
Em 1888 foi abolida a escravatura no Brasil. Mas não foi
abolido o latifúndio e no mesmo ano escrevia uma
testemunha do Ceará: “O mercado de gado humano esteve
aberto enquanto durou a fome, pois compradores nunca
faltaram. Raro era o vapor que não conduzia grande número
de cearenses”
[1]. Meio milhão de nordestinos emigraram
para a Amazônia até o fim do século, atraídos pela ilusão da
borracha. Mas o êxodo continuou, impulsionado pelas
periódicas secas que assolavam o sertão e pelas sucessivas
ondas de expansão dos latifúndios açucareiros na zona da
mata. Em 1900, 40 mil vítimas da seca abandonaram o
Ceará. Tomaram o caminho que na época era o habitual: a
rota do norte para a floresta. Depois o itinerário mudou. Em
nossos dias, os nordestinos emigram para o centro e para o
sul do Brasil. A seca de 1970 empurrou multidões famintas
para as cidades do nordeste. Saquearam trens e
estabelecimentos comerciais; aos gritos, imploravam chuva
a São José. Os “flagelados” tomaram conta das estradas.
Um telegrama de abril de 1970 informa: “A polícia do estado
de Pernambuco deteve no último domingo, no município de Belém de São Francisco, 210 camponeses que seriam
vendidos a proprietários rurais do estado de Minas Gerais, a
dezoito dólares por cabeça”
[2]. Os camponeses vinham da
Paraíba e do Rio Grande do Norte, os estados mais
castigados pela seca. Em junho, os teletipos transmitiam as
declarações do chefe da polícia federal: seus serviços ainda
não possuíam meios eficazes para dar um basta ao tráfico
de escravos, e embora nos últimos meses tivessem sido
abertos inquéritos sobre a matéria, persistia a venda de
trabalhadores do Nordeste para os proprietários ricos de
outras zonas do país.
O boom da borracha e o auge do café contaram com
grandes levas de trabalhadores nordestinos. Mas também o
governo fez uso desse caudal de mão de obra barata,
formidável exército de reserva para as grandes obras
públicas. Do Nordeste vieram, transportados como gado, os
homens desnudos que da noite para o dia levantaram a
cidade de Brasília no meio do deserto. Essa cidade, a mais
moderna do mundo, hoje está cercada por um cinturão de
miséria: terminado seu trabalho, os candangos foram
jogados para as cidades-satélites. E nelas, 300 mil
nordestinos, sempre prontos para qualquer serviço, vivem
de refugos da resplandecente capital.
Atualmente, o trabalho escravo dos nordestinos está
abrindo a grande estrada transamazônica, que cortará o Brasil em dois, penetrando na floresta até a fronteira com a Bolívia. O grande plano implica também um projeto de
colonização agrária para estender “as fronteiras da
civilização”: cada trabalhador receberá uma área de dez
hectares, se sobreviver às febres tropicais da floresta. No
Nordeste há 6 milhões de trabalhadores sem terra,
enquanto 15 mil pessoas são donas de metade da superfície
total. A reforma agrária não prospera nas regiões já
ocupadas, onde continua sendo sagrado o direito de
propriedade dos latifundiários. Isto significa que os
“flagelados” do nordeste abrirão caminho para a expansão
do latifúndio em novas áreas. Sem capital, sem meios para
trabalhar, o que significam dez hectares a 2 ou 3 mil
quilômetros de distância dos centros de consumo? São bem
diferentes, é o que se deduz, os propósitos do governo:
proporcionar mão de obra para os latifundiários norte
americanos que compraram ou usurparam metade das
terras ao norte do rio Negro, e para a United States Steel
Co., que recebeu das mãos do general Garrastazú Médici as
enormes jazidas de ferro e manganês da Amazônia
[3].
continua na página 144...
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Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: A Venda de Camponeses(8)
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[1] TEÓFILO, Rodolfo. História da seca do Ceará (1877-1880). Rio de Janeiro,
1922.
[2] France Presse, 21 de abril de 1970. Em 1938, a peregrinação de um
vaqueiro pelos calcinados caminhos do sertão já inspirara um dos melhores
romances da história literária do Brasil. O açoite da seca sobre os latifúndios de
gado do interior, subordinados aos engenhos de açúcar do litoral, ainda não
cessou, e tampouco mudaram suas consequências. O mundo de Vidas secas
continua intato: o papagaio imitava o latido do cão porque seus donos já quase
não faziam uso da voz humana. RAMOS, Graciliano. Vidas secas. La Habana,
1964.
[3] SCHILLING, Paulo. “Um nuevo genocídio.” Marcha (1501). Montevideo, 10
jul. 1970. Em outubro de 1970, os bispos do Pará denunciaram ao presidente do Brasil a exploração brutal dos trabalhadores nordestinos pelas empresas que
estão construindo a estrada transamazônica. O governo a chama “a obra do
século”.
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