PRIMEIRA PARTE
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
21. AO Ciclo da Borracha: Caruso Inaugura um Teatro Monumental no Meio da Floresta
Alguns autores estimam que não menos de meio milhão de
nordestinos sucumbiu às epidemias, ao impaludismo, à
tuberculose ou ao beribéri na época do apogeu da borracha.
“Este sinistro ossário foi o preço da indústria da borracha”.
[1] Sem nenhuma reserva de vitaminas, os trabalhadores
das terras secas empreendiam a longa viagem para a
floresta úmida. Ali os aguardava, nos pantanosos seringais,
a febre. Iam amontoados nos porões dos barcos, em tais
condições que muitos sucumbiam antes de chegar;
antecipavam assim seus próximos destinos. Outros, nem
sequer conseguiam embarcar. Em 1878, dos 800 mil
habitantes do Ceará, 120 mil seguiram rumo ao Amazonas,
mas só chegou menos da metade; os restantes foram
caindo, abatidos pela fome ou pelas doenças, nos caminhos
do sertão ou nos subúrbios de Fortaleza
[2]. Um ano antes,
começava uma das sete piores secas de quantas açoitaram
o Nordeste durante o século passado.
Não só a febre; na floresta, também aguardava um
regime de trabalho muito semelhante à escravidão. O
trabalho era pago em espécie – carne seca, farinha de
mandioca, rapadura, aguardente – até que o seringueiro
saldasse suas dívidas, milagre que só raras vezes acontecia.
Havia um acordo entre empresários para não dar trabalho a
quem tivesse dívidas pendentes; os guardas rurais,
postados nas margens dos rios, disparavam contra os
fugitivos. Dívidas se somavam às dívidas. À dívida original,
pelo transporte do trabalhador desde o Nordeste, agregava
se a dívida pelos instrumentos de trabalho, facão, faca,
baldes, e como o trabalhador comia, e sobretudo bebia, pois
no seringal nunca faltava a aguardente, quanto mais antigo
ele fosse, maior era a dívida que acumulara. Analfabetos, os
nordestinos eram vítimas indefesas dos passes de mágica
da contabilidade dos administradores.
Em 1770, Priestley notou que a borracha servia para
apagar os traços do lápis no papel. Setenta anos depois,
Charles Goodyear descobriu, ao mesmo tempo que o inglês
Hancock, o procedimento de vulcanização da borracha, que
lhe dava flexibilidade e a tornava indeformável às
mudanças de temperatura. Em 1850 eram já revestidas de
borracha as rodas dos veículos. No fim do século surgiu a
indústria do automóvel nos Estados Unidos e na Europa, e
com ela nasceu o consumo de pneumáticos em grande
escala.
A
demanda mundial da borracha cresceu
verticalmente. A seringueira proporcionava ao Brasil, em
1890, uma décima parte de sua renda derivada das
exportações; vinte anos depois, a proporção subia para 40
por cento, e as vendas quase alcançavam o nível do café,
embora o café, por volta de 1910, estivesse no zênite de
sua prosperidade. A maior parte da produção de borracha
vinha então do território do Acre, que o Brasil tomara da Bolívia ao cabo de uma fulminante campanha militar
[3].
Conquistado o Acre, o Brasil dispunha da quase
totalidade das reservas mundiais da borracha; a cotação
internacional estava altíssima e os bons tempos pareciam
infinitos. Os seringueiros não os desfrutavam, por certo,
embora lhes tocasse sair a cada madrugada de suas choças,
com vários recipientes atados às costas por correias, e se
encarapitar nas árvores, as gigantescas hevea brasiliensis,
para sangrá-las. Eles faziam várias incisões no tronco e nos
galhos mais grossos próximos da copa; das feridas manava
o látex, líquido esbranquiçado e pegajoso que enchia os
jarros em poucas horas e logo era cozido e transportado. O
odor ácido e repelente da borracha impregnava a cidade de
Manaus, capital mundial do comércio do produto. Em 1849,
Manaus tinha 5 mil habitantes; em pouco mais de meio
século aumentou para 70 mil. Os magnatas da borracha
edificaram ali suas mansões de arquitetura extravagante e
pejadas de madeiras preciosas do Oriente, cerâmicas de
Portugal, colunas de mármore de Carrara e mobiliário da
ebanesteria francesa. Os novos-ricos da floresta mandavam
buscar no Rio de Janeiro os mais caros alimentos; os
melhores costureiros da Europa cortavam seus trajes e
vestidos; seus filhos eram enviados para estudar nos
colégios ingleses. O teatro Amazonas, monumento barroco
de bastante mau gosto, é o maior símbolo da vertigem
daquelas fortunas no princípio do século: o tenor Caruso
cantou para os habitantes de Manaus na noite da
inauguração, em troca de uma soma fabulosa, depois de
subir o rio através da selva. A Pavlova, que devia dançar,
não conseguiu passar da cidade de Belém, mas fez chegar
suas desculpas.
Em 1913, de um só golpe, abateu-se o desastre sobre a
borracha brasileira. O preço mundial, que alcançara doze
xelins três anos antes, reduziu-se à quarta parte. Em 1900,
o Oriente havia exportado apenas quatro toneladas de
borracha; em 1914, as plantações do Ceilão e da Malásia
lançaram mais de 70 mil toneladas no mercado mundial, e
cinco anos mais tarde suas exportações já estavam
arranhando as 400 mil toneladas. Em 1919, o Brasil, que
desfrutara do virtual monopólio da borracha, abastecia
apenas a oitava parte do consumo mundial. Meio século
depois, o Brasil compra no exterior mais da metade da
borracha que necessita.
O que aconteceu? Por volta de 1873, Henry Wickham,
um inglês que possuía matas de seringueira no rio Tapajós e
era conhecido por suas manias de botânico, enviou
desenhos e folhas da árvore da borracha para o diretor do
jardim de Kew, em Londres. Recebeu a ordem de obter uma
boa quantidade de sementes, as pepitas que a hevea
brasiliensis abrigava em seus frutos amarelos. Era preciso
levá-las
de
contrabando, pois o Brasil
castigava
severamente a evasão de sementes, e não era fácil: as
autoridades revistavam os barcos minuciosamente. Então,
como por encanto, um navio da Inman Line penetrou no
interior do Brasil dois mil quilômetros além do habitual. No
regresso, Henry Wickham estava entre seus tripulantes. Ele
escolhera as melhores sementes, depois de pôr os frutos a
secar numa aldeia indígena, e as trazia num camarote
lacrado, envoltas em folhas de bananeira e suspensas no ar
por cordas para que não fossem alcançadas pelos ratos de
bordo. O resto do navio ia completamente vazio. Em Belém
do Pará, na foz do rio, Wickham convidou as autoridades
para um grande banquete. O inglês tinha fama de
excêntrico, em toda a Amazônia se sabia que colecionava
orquídeas. Ele explicou que, por encomenda do rei da
Inglaterra, estava transportando uns quantos bulbos de
orquídeas raras para o jardim de Kew. Como eram plantas
muito delicadas, levava-as num compartimento fechado,
com uma temperatura especial: se o abrisse, as flores
morreriam. Assim chegaram as sementes, intatas, ao porto
de Liverpool. Quarenta anos depois, os ingleses invadiam o
mercado mundial com a borracha malaia. As plantações
asiáticas, racionalmente organizadas a partir de brotos
verdes de Kew, desbancaram sem dificuldade a produção
extrativa do Brasil.
A prosperidade amazônica virou fumaça. A floresta
tornou a se fechar sobre si mesma. Os caçadores de fortuna
emigraram para outras comarcas; o luxuoso acampamento
se desintegrou. Permaneceram, sim, sobrevivendo como
podiam, os trabalhadores, que tinham sido trazidos de
muito longe e postos a serviço da aventura alheia. Alheia,
inclusive, para o próprio Brasil, que não fez outra coisa
senão ouvir o canto de sereia da demanda mundial de
matéria-prima, mas sem participar minimamente do
verdadeiro negócio da borracha: o financiamento, a
comercialização, a industrialização, a distribuição. E a sereia
ficou muda. Até que, durante a Segunda Guerra Mundial, a
borracha da Amazônia teve um novo empuxo transitório. Os
japoneses tinham ocupado a Malásia, e as potências aliadas
necessitavam,
desesperadamente,
abastecer-se
de
borracha. Também a selva peruana foi sacudida, naqueles
anos 40, pelas urgências da borracha
[4]. No Brasil, a
chamada “batalha da borracha” mobilizou novamente os
trabalhadores do Nordeste. Segundo uma denúncia
formulada no Congresso quando a “batalha” terminou,
desta vez foram 50 mil os mortos que, derrotados pelas
pestes e pela fome, ficaram apodrecendo nos seringais.
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Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: O Ciclo da Borracha(9)
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[1] PINHEIRO, Aurélio. A margem do Amazonas. São Paulo, 1937.
[2] TEÓFILO, op. cit.
[3] A Bolívia foi mutilada em quase 200 mil quilômetros quadrados. Em 1902,
recebeu uma indenização de dois milhões de libras esterlinas e uma linha férrea
que lhe daria acesso aos rios Madeira e Amazonas.
[4] No princípio do século, as montanhas com matas de seringueiras também
haviam feito ao Peru promessas de um novo Eldorado. Francisco García Calderón
escrevia em El Perú contemporáneo, em 1908, que a borracha era a grande
riqueza do futuro. Em seu romance La casa verde ( Barcelona, 1966), Mario
Vargas Llosa reconstrói a atmosfera febril em Iquitos e na floresta, onde os
aventureiros despojavam os índios e se despojavam entre si. A natureza se
vingava; dispunha da lepra e outras armas.
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