terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: O Ciclo da Borracha(9)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     21. AO Ciclo da Borracha: Caruso Inaugura um Teatro Monumental no  Meio da Floresta
          Alguns autores estimam que não menos de meio milhão de nordestinos sucumbiu às epidemias, ao impaludismo, à tuberculose ou ao beribéri na época do apogeu da borracha. “Este sinistro ossário foi o preço da indústria da borracha”. [1] Sem nenhuma reserva de vitaminas, os trabalhadores das terras secas empreendiam a longa viagem para a floresta úmida. Ali os aguardava, nos pantanosos seringais, a febre. Iam amontoados nos porões dos barcos, em tais condições que muitos sucumbiam antes de chegar; antecipavam assim seus próximos destinos. Outros, nem sequer conseguiam embarcar. Em 1878, dos 800 mil habitantes do Ceará, 120 mil seguiram rumo ao Amazonas, mas só chegou menos da metade; os restantes foram caindo, abatidos pela fome ou pelas doenças, nos caminhos do sertão ou nos subúrbios de Fortaleza [2]. Um ano antes, começava uma das sete piores secas de quantas açoitaram o Nordeste durante o século passado.
     Não só a febre; na floresta, também aguardava um regime de trabalho muito semelhante à escravidão. O trabalho era pago em espécie – carne seca, farinha de mandioca, rapadura, aguardente – até que o seringueiro saldasse suas dívidas, milagre que só raras vezes acontecia. Havia um acordo entre empresários para não dar trabalho a quem tivesse dívidas pendentes; os guardas rurais, postados nas margens dos rios, disparavam contra os fugitivos. Dívidas se somavam às dívidas. À dívida original, pelo transporte do trabalhador desde o Nordeste, agregava se a dívida pelos instrumentos de trabalho, facão, faca, baldes, e como o trabalhador comia, e sobretudo bebia, pois no seringal nunca faltava a aguardente, quanto mais antigo ele fosse, maior era a dívida que acumulara. Analfabetos, os nordestinos eram vítimas indefesas dos passes de mágica da contabilidade dos administradores.
     Em 1770, Priestley notou que a borracha servia para apagar os traços do lápis no papel. Setenta anos depois, Charles Goodyear descobriu, ao mesmo tempo que o inglês Hancock, o procedimento de vulcanização da borracha, que lhe dava flexibilidade e a tornava indeformável às mudanças de temperatura. Em 1850 eram já revestidas de borracha as rodas dos veículos. No fim do século surgiu a indústria do automóvel nos Estados Unidos e na Europa, e com ela nasceu o consumo de pneumáticos em grande escala. A demanda mundial da borracha cresceu verticalmente. A seringueira proporcionava ao Brasil, em 1890, uma décima parte de sua renda derivada das exportações; vinte anos depois, a proporção subia para 40 por cento, e as vendas quase alcançavam o nível do café, embora o café, por volta de 1910, estivesse no zênite de sua prosperidade. A maior parte da produção de borracha vinha então do território do Acre, que o Brasil tomara da Bolívia ao cabo de uma fulminante campanha militar [3].
     Conquistado o Acre, o Brasil dispunha da quase totalidade das reservas mundiais da borracha; a cotação internacional estava altíssima e os bons tempos pareciam infinitos. Os seringueiros não os desfrutavam, por certo, embora lhes tocasse sair a cada madrugada de suas choças, com vários recipientes atados às costas por correias, e se encarapitar nas árvores, as gigantescas hevea brasiliensis, para sangrá-las. Eles faziam várias incisões no tronco e nos galhos mais grossos próximos da copa; das feridas manava o látex, líquido esbranquiçado e pegajoso que enchia os jarros em poucas horas e logo era cozido e transportado. O odor ácido e repelente da borracha impregnava a cidade de Manaus, capital mundial do comércio do produto. Em 1849, Manaus tinha 5 mil habitantes; em pouco mais de meio século aumentou para 70 mil. Os magnatas da borracha edificaram ali suas mansões de arquitetura extravagante e pejadas de madeiras preciosas do Oriente, cerâmicas de Portugal, colunas de mármore de Carrara e mobiliário da ebanesteria francesa. Os novos-ricos da floresta mandavam buscar no Rio de Janeiro os mais caros alimentos; os melhores costureiros da Europa cortavam seus trajes e vestidos; seus filhos eram enviados para estudar nos colégios ingleses. O teatro Amazonas, monumento barroco de bastante mau gosto, é o maior símbolo da vertigem daquelas fortunas no princípio do século: o tenor Caruso cantou para os habitantes de Manaus na noite da inauguração, em troca de uma soma fabulosa, depois de subir o rio através da selva. A Pavlova, que devia dançar, não conseguiu passar da cidade de Belém, mas fez chegar suas desculpas.
     Em 1913, de um só golpe, abateu-se o desastre sobre a borracha brasileira. O preço mundial, que alcançara doze xelins três anos antes, reduziu-se à quarta parte. Em 1900, o Oriente havia exportado apenas quatro toneladas de borracha; em 1914, as plantações do Ceilão e da Malásia lançaram mais de 70 mil toneladas no mercado mundial, e cinco anos mais tarde suas exportações já estavam arranhando as 400 mil toneladas. Em 1919, o Brasil, que desfrutara do virtual monopólio da borracha, abastecia apenas a oitava parte do consumo mundial. Meio século depois, o Brasil compra no exterior mais da metade da borracha que necessita.
     O que aconteceu? Por volta de 1873, Henry Wickham, um inglês que possuía matas de seringueira no rio Tapajós e era conhecido por suas manias de botânico, enviou desenhos e folhas da árvore da borracha para o diretor do jardim de Kew, em Londres. Recebeu a ordem de obter uma boa quantidade de sementes, as pepitas que a hevea brasiliensis abrigava em seus frutos amarelos. Era preciso levá-las de contrabando, pois o Brasil castigava severamente a evasão de sementes, e não era fácil: as autoridades revistavam os barcos minuciosamente. Então, como por encanto, um navio da Inman Line penetrou no interior do Brasil dois mil quilômetros além do habitual. No regresso, Henry Wickham estava entre seus tripulantes. Ele escolhera as melhores sementes, depois de pôr os frutos a secar numa aldeia indígena, e as trazia num camarote lacrado, envoltas em folhas de bananeira e suspensas no ar por cordas para que não fossem alcançadas pelos ratos de bordo. O resto do navio ia completamente vazio. Em Belém do Pará, na foz do rio, Wickham convidou as autoridades para um grande banquete. O inglês tinha fama de excêntrico, em toda a Amazônia se sabia que colecionava orquídeas. Ele explicou que, por encomenda do rei da Inglaterra, estava transportando uns quantos bulbos de orquídeas raras para o jardim de Kew. Como eram plantas muito delicadas, levava-as num compartimento fechado, com uma temperatura especial: se o abrisse, as flores morreriam. Assim chegaram as sementes, intatas, ao porto de Liverpool. Quarenta anos depois, os ingleses invadiam o mercado mundial com a borracha malaia. As plantações asiáticas, racionalmente organizadas a partir de brotos verdes de Kew, desbancaram sem dificuldade a produção extrativa do Brasil.
     A prosperidade amazônica virou fumaça. A floresta tornou a se fechar sobre si mesma. Os caçadores de fortuna emigraram para outras comarcas; o luxuoso acampamento se desintegrou. Permaneceram, sim, sobrevivendo como podiam, os trabalhadores, que tinham sido trazidos de muito longe e postos a serviço da aventura alheia. Alheia, inclusive, para o próprio Brasil, que não fez outra coisa senão ouvir o canto de sereia da demanda mundial de matéria-prima, mas sem participar minimamente do verdadeiro negócio da borracha: o financiamento, a comercialização, a industrialização, a distribuição. E a sereia ficou muda. Até que, durante a Segunda Guerra Mundial, a borracha da Amazônia teve um novo empuxo transitório. Os japoneses tinham ocupado a Malásia, e as potências aliadas necessitavam, desesperadamente, abastecer-se de borracha. Também a selva peruana foi sacudida, naqueles anos 40, pelas urgências da borracha [4]. No Brasil, a chamada “batalha da borracha” mobilizou novamente os trabalhadores do Nordeste. Segundo uma denúncia formulada no Congresso quando a “batalha” terminou, desta vez foram 50 mil os mortos que, derrotados pelas pestes e pela fome, ficaram apodrecendo nos seringais.

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: O Ciclo da Borracha(9)
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[1] PINHEIRO, Aurélio. A margem do Amazonas. São Paulo, 1937.
[2] TEÓFILO, op. cit.
[3] A Bolívia foi mutilada em quase 200 mil quilômetros quadrados. Em 1902, recebeu uma indenização de dois milhões de libras esterlinas e uma linha férrea que lhe daria acesso aos rios Madeira e Amazonas.
[4] No princípio do século, as montanhas com matas de seringueiras também haviam feito ao Peru promessas de um novo Eldorado. Francisco García Calderón escrevia em El Perú contemporáneo, em 1908, que a borracha era a grande riqueza do futuro. Em seu romance La casa verde ( Barcelona, 1966), Mario Vargas Llosa reconstrói a atmosfera febril em Iquitos e na floresta, onde os aventureiros despojavam os índios e se despojavam entre si. A natureza se vingava; dispunha da lepra e outras armas.

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