Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Quarta Parte
IV
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Uma portinhola se abriu e ele teve de interromper a fala. Era a
viúva Désir, que dera a volta pela cozinha e trazia seis copos de cerveja
sobre uma bandeja.
— Continue, continue... — murmurou ela. — Falar dá sede...
Maheu auxiliou-a e Pluchart pôde continuar. Disse estar muito comovido
com a acolhida que lhe fora dispensada pelos trabalhadores de Montsou,
desculpou-se do atraso, alegando cansaço e doença de garganta. Em seguida
deu a palavra ao cidadão Rasseneur, que a pedia.
Rasseneur dirigiu-se imediatamente para a mesa e colocou-se ao
lado das cervejas. Uma cadeira emboscada serviu-lhe de tribuna. Parecia
muito comovido, tossiu antes de lançar com voz tonitruante um:
— Camaradas!...
A sua influência sobre os mineiros era resultante dessa facilidade de
palavra, da simplicidade com a qual podia falar durante horas, sem nunca
cansar. Não gesticulava, permanecia sólido e risonho, afogava-os,
atordoava-os até vê-los gritar: "Sim, sim, é verdade, tens razão!" Naquele
dia, porém, desde as primeiras palavras, sentira uma oposição surda; por
isso, avançava com prudência. Só falou sobre a continuação da greve,
esperando ser aplaudido para então atacar a Internacional.
Sem dúvida, a hora proibia ceder às exigências da companhia, mas
quanta miséria, que futuro terrível se tivessem de continuar resistindo ainda
por muito tempo! E, sem se pronunciar pela submissão, amolecia os
ânimos, mostrava os conjuntos habitacionais mineiros famintos, perguntava
com que recursos contavam os partidários da resistência.
Três ou quatro amigos tentaram apoiá-lo, o que veio atenuar o
silêncio frio da maioria, a desaprovação cada vez mais irritada que acolhia
suas palavras.
Desistindo de reconquistá-los, presa de cólera, predisse-lhes
desgraças se se deixassem virar a cabeça por provocações vindas do
estrangeiro.
Dois terços da assistência erguera-se furiosa, querendo impedi-lo de
continuar falando, uma vez que a insultava, tratando-a como crianças
incapazes de se dirigirem.
Rasseneur, bebendo enormes goles de cerveja, continuou falando
em meio ao tumulto, gritando fora de si que ainda não tinha nascido o
valentão que o impediria de cumprir com seu dever.
Pluchart pusera-se em pé. Como não tinha campainha, batia com o
punho na mesa, repetindo com sua voz sem volume:
— Cidadãos... cidadãos...
Por fim obteve algum silêncio e a assembleia, consultada, cassou a
palavra a Rasseneur. Os delegados que tinham representado as minas na
entrevista com o diretor guiaram os outros, todos trabalhados pela fome,
cheios de ideias novas. Foi uma vitória ganha antes mesmo da votação.
— A ti que te importa, comes todos os dias! — berrou Levaque,
mostrando o punho a Rasseneur.
Etienne curvara-se por trás do presidente, para acalmar Maheu,
muito vermelho, fora de si com aquele discurso hipócrita.
— Cidadãos — disse Pluchart —, deixem-me falar.
Fez-se um profundo silêncio e ele falou. Sua voz saía com esforço e
rouca, mas já estava habituado, pois andava sempre na estrada, passeando
sua laringite com o seu programa. Pouco a pouco sua voz ia subindo e
conseguia arrancar-lhe efeitos patéticos. Os braços abertos acompanhavam
os períodos com um balançar de ombros. Tinha uma eloquência de sermão,
uma maneira religiosa de deixar cair o final das frases, cujo bramido
monótono acabava por convencer.
Pronunciou um discurso sobre a grandeza e utilidade da
Internacional, que era o primeiro da sua bagagem oratória nas localidades
em que estreava. Explicou a finalidade da organização: a emancipação dos
trabalhadores; mostrou sua estrutura grandiosa: na base a comuna, depois a
província, em seguida a nação e no topo a humanidade. Seus braços se
moviam lentamente, empilhando os andares, erigindo a imensa catedral do
mundo futuro. Depois, veio a administração interna: leu os estatutos, falou
dos
congressos, ressaltou a crescente importância da obra, o
aprofundamento do programa, que, partindo da discussão dos salários,
tratava agora da liquidação social, para terminar no sistema assalariado. A
liquidação das nacionalidades, os operários do mundo inteiro congregados
num desejo comum de justiça, varrendo a podridão burguesa, fundando,
enfim, a sociedade livre, onde aquele que não trabalhasse não comeria!
Seus bramidos faziam estremecer as flores de papel pintado pendentes do
teto enfumaçado, cuja altura oprimente devolvia o fragor de sua voz. Uma
onda agitou a platéia. Alguns gritaram:
— É isso!... Estamos de acordo!
Ele prosseguiu. Era a conquista do mundo antes de três anos. Nesse
ponto enumerou os povos conquistados. As adesões choviam de todos os
lados. Nunca uma religião nascente fizera tantos fiéis. Depois, quando
fossem os vencedores, ditariam a lei aos patrões, seria a vez de eles
apertarem o nó no pescoço dos ricos.
— Muito bem! Muito bem! A vez deles chegará!
Pediu silêncio com um gesto. Começou a abordar o problema das
greves. Em princípio, desaprovava-as, eram um meio muito lento, que antes
agravava os sofrimentos do operário. Mas, enquanto a situação não mudava
e sendo elas inevitáveis, então devia-se seguir esse caminho, pois tinham a
vantagem de desorganizar o capital. E, nesse caso, apontava a Internacional
como uma providência para os grevistas, citava exemplos: em Paris, quando
da greve dos fundidores de bronze, os patrões tinham concordado com tudo
de uma só vez, tomados de terror com a notícia de que a Internacional
enviaria socorros; em Londres ela salvara os mineiros de uma hulheira,
repatriando por sua conta um grupo de belgas, chamados pelo proprietário
da mina. Apenas com a adesão, as companhias tremiam, os operários
entravam para o grande exército dos trabalhadores, decididos a morrer uns
pelos outros ao invés de continuarem escravos da sociedade capitalista.
Interromperam-no os aplausos. Ele enxugava a testa com o lenço,
voltando a recusar um copo de cerveja que Maheu lhe oferecia. Quando
quis prosseguir, novos aplausos não o deixaram falar.
— Chega! — disse ele rapidamente a Etienne. — Já estão prontos...
Depressa! as fichas!
Mergulhou debaixo da mesa e reapareceu com a pequena caixa de
madeira preta.
— Cidadãos! — gritou ele, dominando a algazarra. — Aqui estão
as fichas de inscrição. Por favor, que se aproximem os delegados, eles as
distribuirão. As contas serão feitas mais tarde.
Rasseneur levantou-se para protestar mais uma vez. Por seu lado
Etienne agitou-se, pois queria fazer um discurso. Seguiu-se uma total'
confusão. Levaque gesticulava, como se estivesse brigando. Maheu, em pé,
falava, sem que se ouvisse uma só palavra do que dizia Naquele tumulto
infernal, a poeira subia do soalho, a mesma poeira volátil dos antigos bailes,
empestando a atmosfera com o cheiro forte das operadoras de vagonetes e
dos aprendizes.
Bruscamente a portinhola abriu-se e a viúva Désir obstruiu-a com
sua barriga e seus seios, dizendo com voz trovejante
— Fiquem quietos, pelo amor de Deus! Os policiais estão aí!
Era o comissário da circunscrição que chegava, um pouco tarde,
para lavrar um auto e dissolver a reunião. Quatro policiais o
acompanhavam. Havia cinco minutos que a viúva os barrava à porta,
alegando que estava em sua casa e tinha o direito de reunir amigos. Mas
tinha sido empurrada e viera correndo prevenir sua ninhada.
— Fujam por aqui — ofegou ela. — Há um canalha de policial
guardando o pátio, mas não tem importância, meu depósito de lenha dá para
o beco. Vamos, depressa!
O comissário já estava esbordoando a porta, que, como não se
abrisse, ele ameaçava arrombar. Algum espião tinha-o informado, porque
ele gritava que a reunião era ilegal, já que um grande número de mineiros
entrara ali sem convite.
Na sala a confusão era cada vez maior. Não podiam ir embora dessa
maneira, nem sequer tinham votado, seja pela adesão, seja pela continuação
da greve. Todos insistiam em falar ao mesmo tempo. Finalmente o
presidente teve a ideia de um voto por aclamação. Braços ergueram-se, os
delegados declararam às pressas que aderiam em nome dos camaradas
ausentes. E foi assim que os dez mil mineiros de Montsou tornaram-se
membros da Internacional.
Depois disso começou a debandada. Protegendo a retirada, a viúva
Désir encostara-se à porta que as coronhas dos policiais faziam estremecer
de encontro a ela. Os mineiros pulavam por cima dos bancos, escapavam
em fila através da cozinha e do depósito de lenha. Rasseneur foi um dos
primeiros a desaparecer, seguido de Levaque, que já esquecera as injúrias e
sonhava com que o outro lhe oferecesse uma cerveja, para se refazer.
Etienne, depois de ter-se apoderado da caixa, esperava com Pluchart e
Maheu, que tinham como ponto de honra serem os últimos a sair. Quando
estes abandonaram o recinto, a fechadura saltou e o comissário achou-se
frente a frente com a viúva, cujos seios e barriga ainda formavam uma
barricada.
— Não adiantou de nada quebrarem tudo o que é meu! — exclamou
ela. — Não há ninguém aqui.
O comissário, homem preguiçoso, que não gostava de dramas,
ameaçou-a simplesmente de metê-la na cadeia. E logo foi embora para
lavrar o auto, levando consigo os quatro policiais, sob as chacotas de
Zacharie e do jovem Mouque, que, cheios de admiração com a peça
pregada pelos companheiros, ridicularizavam a força armada.
No beco, Etienne, sem saber o que fazer com a caixa, correu,
seguido dos outros. Lembrou-se repentinamente de Pierron e perguntou por
que ele não fora visto. Maheu, sempre correndo, respondeu que estava
doente, uma doença fictícia, medo de se comprometer.
Quiseram reter Pluchart, mas ele, sem parar, declarou que partia
imediatamente para Joiselle, onde Legoujeux esperava instruções.
Desejaram-lhe então boa viagem, não pararam de correr, atravessando
Montsou a toda a brida. Frases, entrecortadas pelo arquejar da respiração,
foram trocadas. Etienne e Maheu riam confiantes, certos agora do triunfo:
quando a Internacional mandasse socorros, seria a vez de a companhia
implorar para que voltassem ao trabalho. E naquele impulso de entusiasmo,
no galope dos sapatos grossos soando na estrada, havia uma outra coisa,
alguma coisa de sombrio e feroz, uma violência cujo vento iria incendiar os
conjuntos habitacionais mineiros, nos quatro cantos do país.
continua na página 217...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
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