terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: O Açúcar era o Punhal, o Império Assassino(5)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     17. O Açúcar era o Punhal, o Império Assassino
          “Edificar sobre o açúcar é melhor do que edificar sobre a areia?”, perguntava-se Jean-Paul Sartre em 1960, em Cuba.
     No cais do porto de Guayabal, que exporta açúcar a granel, voam os alcatrazes sobre um galpão gigantesco. Entro e contemplo, atônito, uma pirâmide dourada de açúcar. Na medida em que, por baixo, abrem-se as comportas, para que os condutos levem o carregamento, sem ensacar, até os navios, a abertura no teto vai deixando passar novos jorros de ouro, açúcar recém trazido dos moinhos dos engenhos. A luz do sol, filtrando-se, arranca lhes faíscas. Vale uns quatro milhões de dólares esta montanha macia que apalpo, sem que meu olhar possa envolvê-la por inteiro. Penso que aqui se concentra toda a euforia e o drama desta safra recorde de 1970 que queria, mas não conseguiu – apesar do esforço sobre-humano alcançar os dez milhões de toneladas. E uma história muito mais longa escorre, com o açúcar, ante o meu olhar. Penso no reino da Francisco Sugar Co., a empresa de Allen Dulles, onde passei uma semana ouvindo histórias do passado e assistindo ao nascimento do futuro: Josefina, filha de Caridad Rodríguez, que estuda em sala de aula que antes era a cela de um quartel, no exato lugar em que seu pai foi preso e torturado antes de morrer; Antonio Bastidas, o negro de 70 anos que, numa madrugada deste ano, pendurou-se com as duas mãos na alavanca da sirene porque o engenho tinha ultrapassado sua meta, e gritava: “Caralho, conseguimos, caralho”, e não havia quem conseguisse tirar a alavanca de suas mãos crispadas, enquanto a sirene, que despertara a cidade, estava a despertar toda a Cuba; histórias de expulsões, de subornos, de assassinatos, a fome e os estranhos ofícios que engendrava o desemprego, compulsório em mais de metade de cada ano: caçador de grilos nas plantações, por exemplo. Penso que a desgraça tinha o ventre inchado, agora se sabe. Não morreram em vão os que morreram: Amancio Rodríguez, por exemplo, que rejeitara, enfurecido, um cheque em branco da empresa, crivado de balas pelos fura-greves numa assembleia, e quando seus companheiros foram enterrá-lo, descobriram que não tinha cuecas nem meias para ser vestido no caixão, ou por exemplo Pedro Plaza, que aos 20 anos foi detido e conduziu o caminhão dos soldados até as minas que ele mesmo armara, e voou com o caminhão e os soldados. E tantos outros, nesta localidade e em todas as demais: “Aqui as famílias veneram os mártires”, disse-me um velho canavieiro, “mas depois de mortos. Antes eram só queixas”. Não foi por casualidade que Fidel Castro recrutou três quartas partes de seus guerrilheiros entre os camponeses, homens do açúcar, e menos casual ainda que a província do Oriente fosse, ao mesmo tempo, a maior fonte de açúcar e de sublevações em toda a história de Cuba. Explico-me o rancor acumulado: depois da grande safra de 1961, a revolução optou por vingar-se do açúcar. O açúcar era a memória viva da humilhação. E seria também, o açúcar, um destino?
     Converteu-se logo numa penitência? Pode ser agora uma alavanca, a catapulta do desenvolvimento econômico? No influxo de uma justa impaciência, a revolução abateu inúmeros canaviais e quis diversificar a produção agrícola num abrir e fechar de olhos: não caiu no tradicional erro de dividir os latifúndios em minifúndios improdutivos, mas cada estabelecimento rural socializado iniciou de golpe culturas excessivamente variadas. Era preciso importar em grande escala para industrializar o país, aumentar a produtividade agrícola e satisfazer muitas necessidades de consumo, que a revolução, ao redistribuir a riqueza, aumentou consideravelmente. Sem as grandes safras de açúcar, como obter as divisas necessárias para tais importações? O desenvolvimento da mineração, sobretudo o níquel, exige grandes investimentos, que estão sendo feitos, e a produção pesqueira se multiplicou por oito graças ao crescimento da frota, o que também exigiu gigantescos investimentos; os grandes planos de produção de cítricos estão em execução, mas os anos que separam a semeadura da colheita obrigam à paciência. A revolução descobriu, então, que havia confundido o punhal com o assassino. O açúcar, que tinha sido um fator de subdesenvolvimento, passou a ser considerado um instrumento do desenvolvimento. Não houve remédio senão a utilização dos frutos da monocultura e da dependência, nascidos da integração de Cuba no mercado mundial, para quebrar o espinhaço da monocultura e da dependência.
     As rendas que o açúcar proporciona já não são empregadas na consolidação da estrutura da submissão [1]. As importações de maquinário e de instalações industriais cresceram em 40 por cento desde 1958; o excedente econômico gerado pelo açúcar é mobilizado para desenvolver as indústrias básicas e para que não restem terras ociosas nem trabalhadores condenados ao desemprego. Quando caiu a ditadura de Batista, havia em Cuba cinco mil tratores e 300 mil automóveis. Hoje há 50 mil tratores, ainda que em boa parte desperdiçados pelas graves deficiências de organização, e daquela frota de automóveis, em sua maioria modelos de luxo, não sobram mais do que alguns exemplares dignos de um museu do ferro-velho. A indústria do cimento e as usinas elétricas tiveram um assombroso impulso; as novas fábricas de fertilizantes tornaram possível que atualmente se empreguem cinco vezes mais adubos do que em 1958. As represas, criadas por todos os lados, contêm atualmente um caudal de água 73 vezes maior do que o total de água represada em 1958 [2] e avançaram com botas de sete léguas as áreas de irrigação. Novos caminhos, abertos por toda a ilha, romperam a incomunicação de muitas regiões que pareciam condenadas a um isolamento eterno. Touros da raça Holstein melhoraram a magra produção de leite do gado zebu. Grandes progressos foram feitos na mecanização de corte e do recolhimento da cana, em boa parte graças às invenções cubanas, que no entanto ainda são insuficientes. Um novo sistema de trabalho se organiza, com dificuldades, para ocupar o lugar do velho sistema desorganizado pelas mudanças que a revolução trouxe consigo. Os ceifadores profissionais, presidiários do açúcar, são em Cuba uma espécie extinta: também para eles a revolução implicou a liberdade de escolher outros ofícios menos pesados, e para seus filhos a possibilidade de estudar nas cidades, com bolsas de estudo. A redenção dos canavieiros provocou, em consequência – preço inevitável –, severos transtornos na economia da ilha. Em 1970, Cuba precisou utilizar na safra o triplo de trabalhadores, em sua maioria voluntários ou soldados ou trabalhadores de outros setores, daí porque foram prejudicadas as demais atividades de campo e de cidade: as colheitas de outros produtos, o ritmo de trabalho nas fábricas. Deve-se levar em conta, neste sentido, que numa sociedade socialista, diferentemente de uma sociedade capitalista, os trabalhadores já não atuam pressionados pelo temor do desemprego ou pela cobiça. Outros motores – a solidariedade, a responsabilidade coletiva, a consciência dos deveres e direitos que levam o homem além do egoísmo – são postos em funcionamento. E não se muda a consciência de um povo inteiro num santiamém. Quando a revolução conquistou o poder, segundo Fidel Castro, a maioria dos cubanos não era nem sequer anti-imperialista.
     Os cubanos se radicalizaram passo a passo com sua revolução, à medida que se sucediam os desafios e as respostas, os golpes e os contragolpes entre Havana e Washington, e não menos à medida que se tornavam fatos concretos as promessas de justiça social. Foram construídos 170 novos hospitais e outras tantas policlínicas, e passou a ser gratuita a assistência médica; multiplicou-se por três o número de estudantes matriculados em todos os níveis, e também a educação passou a ser gratuita; as bolsas de estudo beneficiam atualmente mais de 300 mil jovens e crianças, e também se multiplicaram os internatos e as creches infantis. Grande parte da população não paga aluguel e já são gratuitos os serviços de água, luz, telefone, funerais e espetáculos esportivos. Os gastos em serviços sociais cresceram cinco vezes em poucos anos. Mas agora que todos têm educação e sapatos, as necessidades se multiplicaram geometricamente, ao passo que a produção só pode crescer aritmeticamente. A pressão do consumo, que agora é consumo de todos e não de poucos, também obriga Cuba ao rápido aumento das exportações, e o açúcar continua sendo a maior fonte de recursos.
     A revolução, na verdade, está vivendo tempos duros, difíceis, de transição e sacrifício. Os próprios cubanos acabaram de confirmar que se constrói o socialismo com dentes apertados e que a revolução não é nenhum passeio. Afinal, o futuro não seria desta terra se viesse de graça. Há escassez de diversos produtos, por certo: em 1970, faltam frutas, geladeiras, roupas; as frequentes filas não resultam somente da desorganização da distribuição. A causa essencial da escassez é a nova abundância de consumidores: agora o país pertence a todos. Trata-se, portanto, de uma escassez oposta àquela que amargam os demais países latino-americanos.
     No mesmo sentido funcionam os gastos com a defesa. Cuba é obrigada a dormir de olhos abertos, e isto, em termos econômicos, também custa muito caro. Essa revolução acossada, que já suportou invasões e sabotagens sem trégua, não cai porque – estranha ditadura – é defendida pelo povo em armas.
     Os expropriadores expropriados não se conformam. Em abril de 1961, a brigada que desembarcou em Playa Girón não era formada somente de velhos militares e policiais de Batista, mas também pelos donos de mais de 370 mil hectares de terra, quase dez mil imóveis, 70 fábricas, dez centrais açucareiras, três bancos, cinco minas e doze cabarés.
     O ditador da Guatemala, Miguel Ydígoras, emprestou campos de treinamento aos expedicionários, em troca de promessas que lhe fizeram os norte-americanos, como ele mesmo confessou mais tarde: dinheiro vivo e sonante, que nunca lhe pagaram, e um aumento da quota guatemalteca de açúcar no mercado dos Estados Unidos.
     Em 1965, outro país açucareiro, a República Dominicana, sofreu a invasão de uns 40 mil marines dispostos “a permanecer indefinidamente neste país, à vista da confusão reinante”, segundo declarou seu comandante, o general ruce Palmer. A queda vertical dos preços do açúcar tinha sido um dos fatores que fizeram eclodir a indignação popular; o povo se levantou contra a ditadura militar, e as tropas norte-americanas vieram em seguida para restabelecer a ordem. Deixaram quatro mil mortos nos combates que os patriotas feriram, corpo a corpo, entre o rio Ozama e o Caribe, num bairro sem saída da cidade de São Domingos [3]. A Organização dos Estados Americanos que tem a memória do burro, nunca esquece onde come abençoou a invasão e a estimulou com novas forças. Era preciso matar o gérmen de outra Cuba.

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: O Açúcar era o Punhal, o Império Assassino(5)
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[1] O preço instável do açúcar, garantido pelos países socialistas, desempenhou um papel decisivo neste sentido. Também a ruptura parcial do bloqueio disposto pelos Estados Unidos, através do tráfico comercial intenso com a Espanha e outros países da Europa Ocidental. Um terço das exportações cubanas proporciona dólares, isto é, divisas conversíveis; o resto é destinado às permutas com a União Soviética e a zona do rublo. Este sistema de comércio implica também certas dificuldades: as turbinas soviéticas para as centrais termelétricas são de boa qualidade, como todos os equipamentos pesados que a URSS produz, mas não ocorre o mesmo com os artigos de consumo da indústria leve ou média.
[2] Informe de Cuba à XI Conferência Regional da FAO. Versão da Prensa Latina, 13 de outubro de 1970.
[3] Ellsworth Bunker, presidente da National Sugar Refining Co., foi o enviado especial de Lindon Johnson à República Dominicana depois da intervenção militar. Os interesses da National Sugar nesse pequeno país foram salvaguardados sob os olhos atentos de Bunker: as tropas de ocupação se retiraram para deixar no poder, ao cabo de mui democráticas eleições, Joaquín Balaguer, que tinha sido o braço direito de Trujillo ao longo de sua feroz ditadura. A população de São Domingos tinha lutado nas ruas e nos terraços, com pedaços de pau, facões e fuzis, contra tanques, bazucas e helicópteros das forças estrangeiras, reivindicando o retorno ao poder do presidente constitucionalmente eleito, Juan Bosch, que fora derrubado pelo golpe militar. A história, zombadora, brinca com as profecias. No dia em que Juan Bosch inaugurou sua breve presidência, ao cabo de 30 anos de tirania de Trujillo, Lindon Johnson, então vice-presidente dos Estados Unidos, levou a São Domingos o presente oficial de seu governo: uma ambulância.

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