PRIMEIRA PARTE
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
17. O Açúcar era o Punhal, o Império Assassino
“Edificar sobre o açúcar é melhor do que edificar sobre a
areia?”, perguntava-se Jean-Paul Sartre em 1960, em Cuba.
No cais do porto de Guayabal, que exporta açúcar a
granel, voam os alcatrazes sobre um galpão gigantesco.
Entro e contemplo, atônito, uma pirâmide dourada de
açúcar. Na medida em que, por baixo, abrem-se as
comportas, para que os condutos levem o carregamento,
sem ensacar, até os navios, a abertura no teto vai deixando
passar novos jorros de ouro, açúcar recém trazido dos
moinhos dos engenhos. A luz do sol, filtrando-se, arranca
lhes faíscas. Vale uns quatro milhões de dólares esta
montanha macia que apalpo, sem que meu olhar possa
envolvê-la por inteiro. Penso que aqui se concentra toda a
euforia e o drama desta safra recorde de 1970 que queria,
mas não conseguiu – apesar do esforço sobre-humano
alcançar os dez milhões de toneladas. E uma história muito
mais longa escorre, com o açúcar, ante o meu olhar. Penso
no reino da Francisco Sugar Co., a empresa de Allen Dulles,
onde passei uma semana ouvindo histórias do passado e
assistindo ao nascimento do futuro: Josefina, filha de
Caridad Rodríguez, que estuda em sala de aula que antes
era a cela de um quartel, no exato lugar em que seu pai foi
preso e torturado antes de morrer; Antonio Bastidas, o
negro de 70 anos que, numa madrugada deste ano,
pendurou-se com as duas mãos na alavanca da sirene
porque o engenho tinha ultrapassado sua meta, e gritava:
“Caralho, conseguimos, caralho”, e não havia quem
conseguisse tirar a alavanca de suas mãos crispadas,
enquanto a sirene, que despertara a cidade, estava a
despertar toda a Cuba; histórias de expulsões, de subornos,
de assassinatos, a fome e os estranhos ofícios que
engendrava o desemprego, compulsório em mais de
metade de cada ano: caçador de grilos nas plantações, por
exemplo. Penso que a desgraça tinha o ventre inchado,
agora se sabe. Não morreram em vão os que morreram:
Amancio Rodríguez, por exemplo, que rejeitara, enfurecido,
um cheque em branco da empresa, crivado de balas pelos
fura-greves numa assembleia, e quando seus companheiros
foram enterrá-lo, descobriram que não tinha cuecas nem
meias para ser vestido no caixão, ou por exemplo Pedro
Plaza, que aos 20 anos foi detido e conduziu o caminhão
dos soldados até as minas que ele mesmo armara, e voou
com o caminhão e os soldados. E tantos outros, nesta
localidade e em todas as demais: “Aqui as famílias veneram
os mártires”, disse-me um velho canavieiro, “mas depois de
mortos. Antes eram só queixas”. Não foi por casualidade
que Fidel Castro recrutou três quartas partes de seus
guerrilheiros entre os camponeses, homens do açúcar, e
menos casual ainda que a província do Oriente fosse, ao
mesmo tempo, a maior fonte de açúcar e de sublevações
em toda a história de Cuba. Explico-me o rancor acumulado:
depois da grande safra de 1961, a revolução optou por
vingar-se do açúcar. O açúcar era a memória viva da
humilhação. E seria também, o açúcar, um destino?
Converteu-se logo numa penitência? Pode ser agora
uma alavanca, a catapulta do desenvolvimento econômico?
No influxo de uma justa impaciência, a revolução abateu
inúmeros canaviais e quis diversificar a produção agrícola
num abrir e fechar de olhos: não caiu no tradicional erro de
dividir os latifúndios em minifúndios improdutivos, mas cada
estabelecimento rural socializado iniciou de golpe culturas
excessivamente variadas. Era preciso importar em grande
escala para industrializar o país, aumentar a produtividade
agrícola e satisfazer muitas necessidades de consumo, que
a
revolução, ao redistribuir a riqueza, aumentou
consideravelmente. Sem as grandes safras de açúcar, como
obter as divisas necessárias para tais importações? O
desenvolvimento da mineração, sobretudo o níquel, exige
grandes investimentos, que estão sendo feitos, e a
produção pesqueira se multiplicou por oito graças ao
crescimento da frota, o que também exigiu gigantescos
investimentos; os grandes planos de produção de cítricos
estão em execução, mas os anos que separam a semeadura
da colheita obrigam à paciência. A revolução descobriu,
então, que havia confundido o punhal com o assassino. O
açúcar, que tinha sido um fator de subdesenvolvimento,
passou
a
ser
considerado
um
instrumento
do
desenvolvimento. Não houve remédio senão a utilização dos
frutos da monocultura e da dependência, nascidos da
integração de Cuba no mercado mundial, para quebrar o
espinhaço da monocultura e da dependência.
As rendas que o açúcar proporciona já não são
empregadas na consolidação da estrutura da submissão
[1].
As importações de maquinário e de instalações industriais
cresceram em 40 por cento desde 1958; o excedente
econômico gerado pelo açúcar é mobilizado para
desenvolver as indústrias básicas e para que não restem
terras
ociosas
nem trabalhadores condenados ao
desemprego. Quando caiu a ditadura de Batista, havia em
Cuba cinco mil tratores e 300 mil automóveis. Hoje há 50
mil tratores, ainda que em boa parte desperdiçados pelas
graves deficiências de organização, e daquela frota de
automóveis, em sua maioria modelos de luxo, não sobram
mais do que alguns exemplares dignos de um museu do
ferro-velho. A indústria do cimento e as usinas elétricas
tiveram um assombroso impulso; as novas fábricas de
fertilizantes
tornaram possível que atualmente se
empreguem cinco vezes mais adubos do que em 1958. As
represas, criadas por todos os lados, contêm atualmente um
caudal de água 73 vezes maior do que o total de água
represada em 1958
[2] e avançaram com botas de sete
léguas as áreas de irrigação. Novos caminhos, abertos por
toda a ilha, romperam a incomunicação de muitas regiões
que pareciam condenadas a um isolamento eterno. Touros
da raça Holstein melhoraram a magra produção de leite do
gado zebu. Grandes progressos foram feitos na
mecanização de corte e do recolhimento da cana, em boa
parte graças às invenções cubanas, que no entanto ainda
são insuficientes. Um novo sistema de trabalho se organiza,
com dificuldades, para ocupar o lugar do velho sistema
desorganizado pelas mudanças que a revolução trouxe
consigo. Os ceifadores profissionais, presidiários do açúcar,
são em Cuba uma espécie extinta: também para eles a
revolução implicou a liberdade de escolher outros ofícios
menos pesados, e para seus filhos a possibilidade de
estudar nas cidades, com bolsas de estudo. A redenção dos
canavieiros provocou, em consequência – preço inevitável –,
severos transtornos na economia da ilha. Em 1970, Cuba
precisou utilizar na safra o triplo de trabalhadores, em sua
maioria voluntários ou soldados ou trabalhadores de outros
setores, daí porque foram prejudicadas as demais
atividades de campo e de cidade: as colheitas de outros
produtos, o ritmo de trabalho nas fábricas. Deve-se levar
em conta, neste sentido, que numa sociedade socialista,
diferentemente de uma sociedade capitalista, os
trabalhadores já não atuam pressionados pelo temor do
desemprego ou pela cobiça. Outros motores – a
solidariedade, a responsabilidade coletiva, a consciência
dos deveres e direitos que levam o homem além do
egoísmo – são postos em funcionamento. E não se muda a
consciência de um povo inteiro num santiamém. Quando a
revolução conquistou o poder, segundo Fidel Castro, a
maioria dos cubanos não era nem sequer anti-imperialista.
Os cubanos se radicalizaram passo a passo com sua
revolução, à medida que se sucediam os desafios e as
respostas, os golpes e os contragolpes entre Havana e
Washington, e não menos à medida que se tornavam fatos
concretos as promessas de justiça social. Foram construídos
170 novos hospitais e outras tantas policlínicas, e passou a
ser gratuita a assistência médica; multiplicou-se por três o
número de estudantes matriculados em todos os níveis, e
também a educação passou a ser gratuita; as bolsas de
estudo beneficiam atualmente mais de 300 mil jovens e
crianças, e também se multiplicaram os internatos e as
creches infantis. Grande parte da população não paga
aluguel e já são gratuitos os serviços de água, luz, telefone,
funerais e espetáculos esportivos. Os gastos em serviços
sociais cresceram cinco vezes em poucos anos. Mas agora
que todos têm educação e sapatos, as necessidades se
multiplicaram geometricamente, ao passo que a produção
só pode crescer aritmeticamente. A pressão do consumo,
que agora é consumo de todos e não de poucos, também
obriga Cuba ao rápido aumento das exportações, e o açúcar
continua sendo a maior fonte de recursos.
A revolução, na verdade, está vivendo tempos duros,
difíceis, de transição e sacrifício. Os próprios cubanos
acabaram de confirmar que se constrói o socialismo com
dentes apertados e que a revolução não é nenhum passeio.
Afinal, o futuro não seria desta terra se viesse de graça. Há
escassez de diversos produtos, por certo: em 1970, faltam
frutas, geladeiras, roupas; as frequentes filas não resultam
somente da desorganização da distribuição. A causa
essencial da escassez é a nova abundância de
consumidores: agora o país pertence a todos. Trata-se,
portanto, de uma escassez oposta àquela que amargam os
demais países latino-americanos.
No mesmo sentido funcionam os gastos com a defesa.
Cuba é obrigada a dormir de olhos abertos, e isto, em
termos econômicos, também custa muito caro. Essa
revolução acossada, que já suportou invasões e sabotagens
sem trégua, não cai porque – estranha ditadura – é
defendida pelo povo em armas.
Os expropriadores expropriados não se conformam. Em
abril de 1961, a brigada que desembarcou em Playa Girón
não era formada somente de velhos militares e policiais de Batista, mas também pelos donos de mais de 370 mil
hectares de terra, quase dez mil imóveis, 70 fábricas, dez
centrais açucareiras, três bancos, cinco minas e doze
cabarés.
O ditador da Guatemala, Miguel Ydígoras, emprestou
campos de treinamento aos expedicionários, em troca de
promessas que lhe fizeram os norte-americanos, como ele
mesmo confessou mais tarde: dinheiro vivo e sonante, que
nunca lhe pagaram, e um aumento da quota guatemalteca
de açúcar no mercado dos Estados Unidos.
Em 1965, outro país açucareiro, a República
Dominicana, sofreu a invasão de uns 40 mil marines
dispostos “a permanecer indefinidamente neste país, à vista
da confusão reinante”, segundo declarou seu comandante,
o general ruce Palmer. A queda vertical dos preços do
açúcar tinha sido um dos fatores que fizeram eclodir a
indignação popular; o povo se levantou contra a ditadura
militar, e as tropas norte-americanas vieram em seguida
para restabelecer a ordem. Deixaram quatro mil mortos nos
combates que os patriotas feriram, corpo a corpo, entre o
rio Ozama e o Caribe, num bairro sem saída da cidade de
São Domingos
[3]. A Organização dos Estados Americanos
que tem a memória do burro, nunca esquece onde come
abençoou a invasão e a estimulou com novas forças. Era
preciso matar o gérmen de outra Cuba.
continua na página 129...
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Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: O Açúcar era o Punhal, o Império Assassino(5)
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[1] O preço instável do açúcar, garantido pelos países socialistas, desempenhou
um papel decisivo neste sentido. Também a ruptura parcial do bloqueio disposto
pelos Estados Unidos, através do tráfico comercial intenso com a Espanha e
outros países da Europa Ocidental. Um terço das exportações cubanas
proporciona dólares, isto é, divisas conversíveis; o resto é destinado às
permutas com a União Soviética e a zona do rublo. Este sistema de comércio
implica também certas dificuldades: as turbinas soviéticas para as centrais
termelétricas são de boa qualidade, como todos os equipamentos pesados que a
URSS produz, mas não ocorre o mesmo com os artigos de consumo da indústria
leve ou média.
[2] Informe de Cuba à XI Conferência Regional da FAO. Versão da Prensa Latina,
13 de outubro de 1970.
[3] Ellsworth Bunker, presidente da National Sugar Refining Co., foi o enviado
especial de Lindon Johnson à República Dominicana depois da intervenção
militar. Os interesses da National Sugar nesse pequeno país foram
salvaguardados sob os olhos atentos de Bunker: as tropas de ocupação se
retiraram para deixar no poder, ao cabo de mui democráticas eleições, Joaquín Balaguer, que tinha sido o braço direito de Trujillo ao longo de sua feroz
ditadura. A população de São Domingos tinha lutado nas ruas e nos terraços,
com pedaços de pau, facões e fuzis, contra tanques, bazucas e helicópteros das
forças estrangeiras, reivindicando o retorno ao poder do presidente
constitucionalmente eleito, Juan Bosch, que fora derrubado pelo golpe militar. A
história, zombadora, brinca com as profecias. No dia em que Juan Bosch
inaugurou sua breve presidência, ao cabo de 30 anos de tirania de Trujillo,
Lindon Johnson, então vice-presidente dos Estados Unidos, levou a São
Domingos o presente oficial de seu governo: uma ambulância.
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