A Montanha Mágica
Capítulo VII
Coisas muito problemáticas
continuando...
Conforme a terminologia usada por ele, estavam à frente de complexos inconscientes,
projetados biopsiquicamente para a esfera objetiva. O estado sonambúlico e a constituição
mediúnica deviam ser considerados a fonte dessas projeções, que tinham de ser qualificadas de
representações de sonho objetivadas, uma vez que nelas agia uma faculdade ideoplástica da
natureza. Sob certas condições, o pensamento era capaz de atrair a matéria e de configurar-se
nela, adquirindo uma realidade efêmera. Essa matéria emanava do corpo do médium, para
adquirir, fora dele, a forma transitória de extremidades biologicamente vivas, como tentáculos ou
mãos, que efetuavam justamente essas insignificâncias admiráveis, presenciadas pelos convidados
no laboratório do Dr. Krokowski. Às vezes, esses membros eram visíveis e palpáveis, e suas
formas podiam ser conservadas em parafina ou em gesso. Em outros casos, porém, o seu
desenvolvimento não se limitava a isso. Diante dos olhos das pessoas que faziam as experiências,
surgiam cabeças, semblantes de homens com feições individuais, fantasmas de corpo inteiro, e,
dentro de certos limites, entabulavam relações com a roda.
Era nesse ponto que a teoria do Dr. Krokowski começava a tornar-se estrábica, a olhar
em duas direções ao mesmo tempo, e a assumir o mesmo caráter vacilante, ambíguo, que haviam
revelado as suas expectorações acerca do “amor”, porque daí em diante já não se podia falar, de
forma inequívoca, inteiramente científica, de subjetividades de médium e de seus ajudantes
passivos, que eram refletidas para a esfera real; entravam em jogo, ao menos participando ou
contribuindo, “eus” estranhos, vindos de fora ou do além; tratava-se – possivelmente, embora
não confessadamente – de algo não-vivo, de seres que aproveitavam a oportunidade complexa e
secreta do momento para voltar à matéria e para comunicar-se com quem os chamava; tratava-se,
em suma, da evocação espiritista dos mortos.
Eram, pois, esses os resultados que o camarada Krokowski, assistido pelos seus,
trabalhava por obter. Atarracado, com um sorriso enérgico nos lábios, inspirando confiança
alegre, dedicava-se a esse trabalho. Uma vez que ele pessoalmente estava familiarizado com
aquele terreno suspeito, pantanoso, subumano, prestava-se muito bem para guiar através da
região até os espíritos tímidos ou céticos. Graças aos dons extraordinários de Ellen Brand, que o
doutor se empenhava em desenvolver e treinar, parecia sorrir-lhe pleno êxito, segundo contavam
a Hans Castorp. Diversos componentes da roda já haviam sido tocados por mãos materializadas.
O Promotor Paravant recebera das esferas transcendentes uma violenta bofetada, que aceitara
com satisfação científica, levando a curiosidade a ponto de oferecer a outra face, não obstante a
sua condição de cavalheiro, de jurista e de sócio veterano de um grêmio de estudantes, cujo
código de duelo o teria obrigado a uma atitude muito diferente, se o golpe houvesse partido de
mãos vivas. A. K. Ferge, o singelo sofredor que ficava alheio a todas as coisas sublimes,
mantivera na mão uma das tais extremidades de fantasma e verificara pelo tato que era bem
conformada e completa, antes de ela se esquivar de um modo indescritível ao seu aperto cordial
nos limites prescritos pelo respeito. Escoou-se um período bastante longo – quase dois meses e
meio, com duas sessões por semana – até que uma mão do outro mundo, mão de um jovem,
segundo parecia, mostrou-se aos olhos de todos, irradiada pela luz rosada de uma lampadazinha
de mesa, revestida de papel encarnado. Tateando, a mão passou por sobre a superfície da mesa e
deixou seu rastro num pote de barro, cheio de farinha. Mas oito dias depois aconteceu que um
grupo de colaboradores do Dr. Krokowski, o Sr. Albin, a Stöhr e o casal Magnus, irromperam
por volta da meia-noite no compartimento de sacada de Hans Castorp, que ali cochilava no meio
do frio glacial. Com todos os sinais de entusiasmo desenfreado e de arrebatamento febril,
relataram em palavras precipitadas o seguinte: o Holger da Elly acabava de aparecer, sua cabeça
surgira por cima do ombro da sonâmbula; ele tinha realmente “lindos cabelos castanhos,
castanhos”; sorrira com uma expressão inesquecível pela brandura e pela melancolia, antes de
sumir novamente.
Como se harmonizava – assim ponderou Hans Castorp – essa aflição distinta com a
conduta que Holger manifestava em outras ocasiões, com certas criancices sem graça e com
aquela molecagem simples e pura, que constituía a bofetada nada melancólica que vibrara ao
promotor? Evidentemente não se podia exigir nesse caso uma coerência lógica de caráter. Talvez
se encontrassem em face de uma mentalidade semelhante à do Corcundinha da canção popular,
com sua malícia patética e sua ânsia de que se reze por ele. Os admiradores de Holger não
pareciam preocupados com tudo isso. O que tencionavam fazer era que Hans Castorp se
determinasse a abandonar o seu isolamento. Insistiram em que ele não deixasse de assistir à
próxima sessão, agora que tudo ia às mil maravilhas. Pois Elly prometera, enquanto dormia, que
da próxima vez apresentaria qualquer defunto cuja presença o círculo reclamasse.
Qualquer defunto? Mesmo assim, Hans Castorp persistiu na sua atitude negativa. Mas o
fato de se poder chamar qualquer pessoa falecida continuou a absorvê-lo durante os três dias
seguintes, a ponto de chegar ele a decisões completamente opostas. No fundo não eram
necessários três dias, senão apenas alguns minutos para produzir esse resultado. A mudança de
opinião realizou-se a uma hora solitária da noite, no salão de música, enquanto ele ouvia mais
uma vez aquele disco ao qual a personalidade ultra simpática de Valentim imprimira o seu cunho
peculiar. Sentado na sua cadeira ouviu Hans Castorp aquela prece guerreira, a despedida de um
homem de valor, cujo coração o arrastava ao campo da honra, e que cantava: “E se Deus me
chamar para junto de si, velarei fiel por ti, ó Margarida!” Como acontecia sempre que tocava essa
ária, sentiu-se possuído de uma veemente emoção, que dessa vez, aumentada por certas
possibilidades, se condensou a ponto de transformar-se em desejo. E ele pensou: “Seja ou não
pecaminoso e ocioso, em todo caso seria uma coisa maravilhosa e uma aventura muito desejável.
E ele, tal como o conheci, não me guardará rancor, se estiver metido no assunto”. Lembrou-se
então da maneira amável e displicente como fora pronunciada a resposta: “Pois não!”, nas trevas
do gabinete de radioscopia, quando achara necessário pedir licença para certas indiscrições
ópticas.
Na manhã do dia seguinte avisou que tomaria parte na sessão marcada para a noite. Uma
hora após o jantar reuniu-se aos outros, que se encaminhavam ao andar subterrâneo,
conversando sem nervosismo, habituados como estavam ao sobrenatural. Na escada encontrou o
Dr. Ting-Fu e o tcheco Wenzel, mas também os outros que se associaram no calabouço do Dr.
Krokowski eram membros fundadores do grupo ou pelo menos veteranos traquejados, como,
por exemplo, os senhores Ferge e Wehsal, o promotor público, as senhoras Levi e Kleefeld, para
não falar das pessoas que o haviam informado da aparição da cabeça de Holger, e naturalmente
da médium, Elly Brand.
A garota nórdica já se achava sob a guarda do médico, quando Hans Castorp passou pela
porta guarnecida de um cartão de visita. Enquanto Krokowski, trajando o avental preto de
trabalho, lhe cingia paternalmente o ombro, esperava ela os convidados ao sopé dos degraus que
no nível do andar subterrâneo conduziam à habitação do assistente, e cumprimentava-os um a
um, tal qual o doutor. Essas saudações mostravam de ambas as partes um caráter despreocupado,
alegre e cordial. Visivelmente tinham todos o firme propósito de não deixar entrar no ambiente a
menor angústia solene. Conversavam entre si em voz alta, gracejavam, trocavam cotoveladas
animadoras, para demonstrar das mais diversas maneiras a falta de acanhamento. Entre a barba
do Dr. Krokowski apareciam constantemente os dentes amarelados, com aquela peculiar
expressão máscula, tranquilizadora, enquanto convidava os componentes da roda a “entrrar”. E
essa expressão intensificou-se quando deu as boas-vindas a Hans Castorp, que se mostrava
taciturno e cuja fisionomia parecia indecisa. O anfitrião saudou-o com um enérgico aceno de
cabeça, apertando-lhe a mão com força quase brutal. Era como se lhe quisesse dizer: “Ânimo,
meu amigo! Não há motivo para andarmos cabisbaixos. Aqui não existe nem pusilanimidade nem
beatice, mas unicamente o bom humor viril, próprio da pesquisa livre de preconceitos”. Mas o
jovem exortado por essa pantomima nem por isso se sentiu mais à vontade. Como já
mencionamos, chegara Hans Castorp à sua decisão lembrando-se do gabinete de radioscopia; mas
essa associação de ideias absolutamente não basta para definir os seus sentimentos. Pelo
contrário, estes lhe evocavam antes a recordação daquele singular e inesquecível estadoude alma –
mescla de nervosismo, petulância, curiosidade, menosprezo e devoção – que tomara conta dele
fazia muitos anos, no momento em que pela primeira vez entrara, levemente tocado, em
companhia de alguns amigos, num bordel do bairro de Sankt Pauli.
Como estivessem presentes o Dr. Krokowski e duas ajudantes, que eram, dessa vez a Srª.
Magnus e a Srta. Levi com a tez de marfim, retiraram-se à sala vizinha, a fim de revistar a
médium. Enquanto isso, Hans Castorp permaneceu com os nove outros componentes da roda
no consultório do assistente, aguardando o fim dessa cerimônia cientificamente rigorosa, que se
celebrava antes de todas as sessões e sempre sem resultado nenhum. A peça era-lhe familiar,
desde certas horas que ali passara, às escondidas de Joachim, “charlando” com o analista. Nos
fundos, à esquerda, perto da janela, havia uma escrivaninha com uma cadeira de braços e outra
poltrona para o paciente; a ambos os lados da porta lateral via-se uma biblioteca de consulta; um
biombo de vários painéis separava a escrivaninha e as cadeiras de uma chaise longue forrada de
oleado, colocada diagonalmente no ângulo direito do gabinete, onde também se achava uma
vitrine de instrumentos; num outro canto erguia-se um busto de Hipócrates, ao passo que acima
da lareira a gás, na parede direita, estava pendurada uma gravura reproduzindo a Anatomia de
Rembrandt. Em suma, era uma sala de consultas típica, semelhante a muitíssimas outras. Mas
para a finalidade especial dessa noite haviam sido feitas algumas modificações na mobília. A mesa
redonda, de acaju, que normalmente se encontrava cercada de poltronas, no centro da peça,
embaixo do lustre elétrico, sobre o tapete vermelho que cobria a quase totalidade do soalho, fora
deslocada para o primeiro plano, em direção ao ângulo esquerdo, junto do busto de gesso, ao
passo que outra mesinha revestida de uma toalha leve, e na qual se achava um abajur de lâmpada
vermelha, tinha sido colocada nas proximidades da lareira acesa, que irradiava um calor seco. Por
cima dessa mesinha pendia do teto outra lâmpada escondida atrás de véus vermelhos e negros.
Na mesa e a seu pé viam-se alguns objetos de vasta notoriedade: a sineta, ou melhor, duas sinetas
de construção diferente, uma de badalo e a outra parecida com uma campainha; havia, além disso,
um prato com farinha e um cesto de papéis. Cerca de uma dúzia de cadeiras e poltronas de
diversos tipos circundavam a mesinha, formando um semicírculo, desde os pés da chaise longue
quase até o centro da sala, onde se achava o lustre. Era ali, perto da última cadeira, a meio
caminho da porta lateral, que o fonógrafo encontrara o seu lugar. O álbum com as peças frívolas
jazia numa banqueta próxima. Tais eram os preparativos feitos. Ainda não haviam acendido as
lâmpadas vermelhas. O candelabro central difundia uma luz branca e clara. A janela, para a qual a
escrivaninha dirigia um dos lados curtos, estava oculta atrás de duas cortinas, uma escura e outra
rendilhada, de cor creme.
Ao cabo de dez minutos, o doutor voltou do gabinete vizinho, acompanhado das três
senhoras. O aspecto da pequena Elly mudara consideravelmente. Em lugar do vestido usava uma
espécie de traje de sessão, algo semelhante a um chambre de crepe branco, com um cordão em
torno da cintura, e que deixava desnudos os braços delgados. Os seios de moça desenhavam-se
macios e soltos sob a fazenda, dando a impressão de que pouca roupa havia por baixo dessa
vestimenta.
Cumprimentaram-na vivamente. – Olá, Elly! Está encantadora, outra vez! Uma verdadeira
fada! Faça força, meu anjinho! – Ela sorriu tanto das aclamações como da fantasia, que, como
não ignorava, lhe ficava muito bem. – Inspeção prévia negativa – anunciou o Dr. Krokowski. –
Pois então, mãos à obra, camaradas! – acrescentou, com seus peculiares rr palatais, exóticos,
produzidos por um simples golpe de língua. Hans Castorp, mal impressionado por esse
tratamento, estava a ponto de escolher um lugar, tal como faziam os demais, entre gritos,
conversas e palmadinhas no ombro. Mas, nesse instante, o médico dirigiu-se a ele pessoalmente.
– Meu amigo – disse –, uma vez que o senhor se encontra hoje no nosso meio como
visitante, ou, em certo sentido, como novato, gostaria de outorgar-lhe por esta noite um direito
especialmente honroso. Confio-lhe o encargo de controlar a nossa médium. Praticamos esse
controle da seguinte maneira. – E rogou ao jovem que se aproximasse de uma das extremidades
do semicírculo. Era aquela que ficava próxima do biombo e da chaise longue. Ellen Brand instalara
se ali numa simples cadeira de vime, voltando o rosto mais para a porta da entrada com os
degraus do que para o centro do aposento. O doutor sentou-se em outra cadeira igual, logo à sua
frente, e apanhou-lhe as mãos, enquanto apertava os joelhos da garota entre os seus. – Imite isto! – ordenou, cedendo o lugar a Hans Castorp. – O senhor deve admitir que ela está totalmente
presa. Mas o senhor terá ainda uma assistente. Tenha a bondade, minha prezada Srta. Kleefeld! –
A moça, mobilizada por essas palavras urbanas e exóticas, juntou-se ao grupo, para agarrar com
ambas as mãos os pulsos frágeis de Elly.
Hans Castorp não pôde abster-se por completo de contemplar o rosto, tão próximo do
seu, da donzela prodígio que mantinha estreitamente aprisionada. Encontraram-se os olhos, mas
os de Elly, fugindo, abaixaram-se em sinal de um pudor bem compreensível em vista daquela
situação. Ao mesmo tempo esboçou ela um sorriso um tanto afetado, com a cabeça
obliquamente inclinada e com a boca levemente bicuda, como fizera durante a sessão da taça. No
jovem encarregado de vigiá-la, isso evocou, aliás, uma outra recordação mais remota: fora mais
ou menos assim que sorrira Karen Karstedt, quando, em companhia dele e de Joachim, se achara
diante do jazigo ainda intacto no cemitério da “aldeia”...
Os componentes do semicírculo acabavam de sentar-se. Compunha-se ele de treze
pessoas, sem incluir o Sr. Wenzel, que tinha o hábito de consagrar a sua pessoa ao serviço da
Polyhymnia. Depois de ligar o aparelho, o tcheco ocupou um tamborete nas proximidades, às
costas do auditório, que ficava com os rostos voltados para o centro da sala. Tinha também
consigo o violão. Sob o lustre central, na outra extremidade da fileira curva, o Dr. Krokowski
tomou assento, depois de ter aceso, com uma só manobra, as duas lâmpadas vermelhas, e de ter
apagado, com outra, a luz do teto. Uma escuridão suavemente avermelhada envolvia o aposento,
cujas zonas e recantos mais afastados se esquivavam ao olhar. Somente a superfície da mesinha e
o que lhe ficava em torno estavam iluminados por uma débil luz rubra. Durante os minutos que
se seguiram, mal se enxergava o vizinho mais próximo. Apenas lentamente os olhos
acomodaram-se às trevas e aprenderam a aproveitar a pouca luz que lhes era concedida, e que as
pequenas labaredas, dançando na lareira, intensificavam até certo ponto.
O Dr. Krokowski dedicou algumas palavras à iluminação, cuja insuficiência do ponto de
vista científico procurou desculpar. Estaria redondamente enganado quem a interpretasse como
destinada a criar uma atmosfera sugestiva, propícia a mistificações. Apesar da melhor boa
vontade não se podia, infelizmente, trabalhar com uma luz mais forte. A natureza das forças em
apreço, que lhes cabia estudar, era inerente a incapacidade de se desenvolver e de produzir efeitos
com luz branca. Esse era um fato fundamental com que deviam conformar-se... Hans Castorp,
por sua vez, estava muito satisfeito com isso. A escuridão lhe fazia bem. Atenuava a singularidade
da situação. Para justificar a escuridão, o jovem chamou, além disso, à memória aquelas outras
trevas do gabinete de radioscopia, que faziam a gente concentrar-se piedosamente, e nas quais
eram banhados os “olhos ordinários”, antes de se “ver”.
A médium, prosseguia o assistente na sua introdução, que evidentemente se dirigia a Hans
Castorp em particular, já não tinha necessidade de ser adormecida por ele, o médico. Como o
controlador logo teria oportunidade de verificar, Elly caía espontaneamente no estado de transe, e
feito isso, o guardião fantasma, o famoso Holger, falava por intermédio da sua boca. Era a ele, e
não a ela, que se deviam expressar os respectivos desejos. Por outra parte, seria um erro, que até
poderia causar o malogro da tentativa, crer que fosse preciso concentrar a vontade e os
pensamentos, com todas as forças, no fenômeno esperado. Pelo contrário, o mais indicado era
uma atenção ligeira, distraída por meio de conversas. Recomendou a Hans Castorp que não
perdesse o controle perfeito das extremidades da médium.
– Formem a cadeia! – ordenou por fim o Dr. Krokowski, e assim fizeram, rindo, quando
não encontravam, na escuridão, as mãos dos vizinhos. O Dr. Ting-Fu, que tinha o lugar ao lado
de Hermine Kleefeld, deitou a mão direita no ombro dela, e estendeu a esquerda ao Sr. Wehsal,
que era o elo seguinte da cadeia. Junto do médico achavam-se o Sr. e a Srª. Magnus, seguidos por
A. K. Ferge, que, se Hans Castorp não se enganava, segurava a mão da Levi com a tez de marfim;
e assim por diante... – Música! – comandou o Dr. Krokowski, e o tcheco, às costas do assistente e
dos seus vizinhos, pôs o aparelho em ação e colocou a agulha no disco. – Conversem! – ordenou
Krokowski novamente, enquanto ressoavam os primeiros compassos de uma abertura de
Millöcker. E docilmente todos se esforçaram por entabular uma palestra, que tratava de nada,
absolutamente nada; falaram ora da neve caída nesse inverno, ora do cardápio da última refeição,
ora da chegada de um novo pensionista, ora enfim de partidas autorizadas ou “em falso”. Meio
abafada pela música, interrompendo-se e recomeçando, a conversa mantinha-se numa animação
artificial. Assim se passaram alguns minutos.
O disco ainda não chegara ao fim, quando Elly sobressaltou-se violentamente. Um tremor
percorreu-a toda. Gemeu. O tronco inclinou-se para a frente, de maneira que a testa tocava a de
Hans Castorp. Ao mesmo tempo começaram os braços a mover-se de um modo estranho,
avançando e recuando bruscamente, como se acionassem uma bomba.
– Transe! – anunciou a Kleefeld com perícia. A música emudeceu. A conversa parou.
Através do silêncio repentino ouvia-se a branda e arrastada voz de barítono do doutor, que
perguntava:
– Holger está presente?
Elly estremeceu novamente. Gingou na cadeira. Então sentiu Hans Castorp como ambas
as mãos da médium apertavam as suas forte e rapidamente.
– Ela me aperta as mãos – comunicou aos outros.
– Ele – corrigiu-o o médico. – Foi ele quem as apertou. De modo que se acha presente.
Salve, Holger – continuou com fervor. – Sejas bem-vindo de todo o coração, companheiro! E
permite que te recorde isto: a última vez que estiveste entre nós, prometeste que chamarias
qualquer defunto, fosse qual fosse o irmão ou a irmã que te citasse alguém da nossa roda, e que o
tomarias visível aos nossos olhos mortais. Estás disposto e te sentes capaz de cumprir hoje esta
promessa?
Elly tremeu outra vez. Suspirou. Hesitou antes de responder. Vagarosamente, levou as
suas mãos e as do seu assistente até a testa, onde as manteve imóveis por alguns instantes. Depois
segredou ao ouvido de Hans Castorp um “sim” ardente.
O sopro dessa palavra, penetrando diretamente na sua orelha, causou ao nosso amigo
aquele arrepio epidérmico que o povo chama de “pele de galinha” e cuja natureza o conselheiro
lhe explicara certa vez. Falamos de um arrepio instintivo, para distinguir o fenômeno puramente
corporal do psíquico, uma vez que aquilo nada tinha que ver com um verdadeiro horror. O que o
jovem pensou nesse momento foi mais ou menos o seguinte: “Ora vejam, ela promete mundos e
fundos!” Mas ao mesmo tempo sentiu-se comovido e consternado; sim, invadiu-o um sentimento
confuso que tinha a sua origem na circunstância enganadora de que essa moça tão nova, cujas
mãos segurava, lhe sussurrara ao ouvido a palavra “sim”.
– Ele disse “sim” – informou Hans Castorp, embaraçado.
– Muito bem, Holger! – disse o Dr. Krokowski. – Nós te pegaremos na palavra. Temos
confiança em que farás lealmente tudo quanto estiver em teu poder. Logo saberás o nome do
ente querido cujo comparecimento desejamos... Camaradas – continuou, dirigindo-se ao grupo –,
digam de uma vez! Quem é que tem um desejo? Qual é a criatura que nosso amigo Holger deve
fazer aparecer?
Seguiu-se profundo silêncio. Todos esperavam que o vizinho se manifestasse. Verdade é
que cada qual, individualmente, escrutara nesses últimos dias o seu íntimo, para saber em que
direção e para que pessoa rumavam os seus pensamentos. Mas a volta de defuntos, isto é, a
desejabilidade de tal volta nunca deixa de ser coisa problemática e delicada. Em última análise, e
falando com franqueza, essa desejabilidade não existe; é uma ilusão; à luz do dia, é tão impossível
como a própria coisa, o que se tornaria evidente se a natureza, num caso particular, abolisse esta
impossibilidade. O que chamamos “luto” talvez não seja a dor que nos inflige a impossibilidade
de ver os nossos mortos voltarem à vida, senão a outra, que experimentamos diante do fato de
sermos incapazes de desejar tal coisa.
continua pág 440...
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Leia também:
Capítulo I / A Chegada
Capítulo II / Da pia batismal e dos dois aspectos do avô
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo V / Sopa eterna e clareza repentina (a)
Capítulo VI / Transformações (a)
Capítulo VII
Abundância de harmonia - [c] / Coisas muito problemáticas - [a] / Coisas muito problemáticas - [b] /
Coisas muito problemáticas - [c] /
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
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