segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Thomas Mann - A Montanha Mágica: Coisas muito problemáticas - [c]

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VII
Coisas muito problemáticas

continuando...

     Conforme a terminologia usada por ele, estavam à frente de complexos inconscientes, projetados biopsiquicamente para a esfera objetiva. O estado sonambúlico e a constituição mediúnica deviam ser considerados a fonte dessas projeções, que tinham de ser qualificadas de representações de sonho objetivadas, uma vez que nelas agia uma faculdade ideoplástica da natureza. Sob certas condições, o pensamento era capaz de atrair a matéria e de configurar-se nela, adquirindo uma realidade efêmera. Essa matéria emanava do corpo do médium, para adquirir, fora dele, a forma transitória de extremidades biologicamente vivas, como tentáculos ou mãos, que efetuavam justamente essas insignificâncias admiráveis, presenciadas pelos convidados no laboratório do Dr. Krokowski. Às vezes, esses membros eram visíveis e palpáveis, e suas formas podiam ser conservadas em parafina ou em gesso. Em outros casos, porém, o seu desenvolvimento não se limitava a isso. Diante dos olhos das pessoas que faziam as experiências, surgiam cabeças, semblantes de homens com feições individuais, fantasmas de corpo inteiro, e, dentro de certos limites, entabulavam relações com a roda.
     Era nesse ponto que a teoria do Dr. Krokowski começava a tornar-se estrábica, a olhar em duas direções ao mesmo tempo, e a assumir o mesmo caráter vacilante, ambíguo, que haviam revelado as suas expectorações acerca do “amor”, porque daí em diante já não se podia falar, de forma inequívoca, inteiramente científica, de subjetividades de médium e de seus ajudantes passivos, que eram refletidas para a esfera real; entravam em jogo, ao menos participando ou contribuindo, “eus” estranhos, vindos de fora ou do além; tratava-se – possivelmente, embora não confessadamente – de algo não-vivo, de seres que aproveitavam a oportunidade complexa e secreta do momento para voltar à matéria e para comunicar-se com quem os chamava; tratava-se, em suma, da evocação espiritista dos mortos.
     Eram, pois, esses os resultados que o camarada Krokowski, assistido pelos seus, trabalhava por obter. Atarracado, com um sorriso enérgico nos lábios, inspirando confiança alegre, dedicava-se a esse trabalho. Uma vez que ele pessoalmente estava familiarizado com aquele terreno suspeito, pantanoso, subumano, prestava-se muito bem para guiar através da região até os espíritos tímidos ou céticos. Graças aos dons extraordinários de Ellen Brand, que o doutor se empenhava em desenvolver e treinar, parecia sorrir-lhe pleno êxito, segundo contavam a Hans Castorp. Diversos componentes da roda já haviam sido tocados por mãos materializadas. O Promotor Paravant recebera das esferas transcendentes uma violenta bofetada, que aceitara com satisfação científica, levando a curiosidade a ponto de oferecer a outra face, não obstante a sua condição de cavalheiro, de jurista e de sócio veterano de um grêmio de estudantes, cujo código de duelo o teria obrigado a uma atitude muito diferente, se o golpe houvesse partido de mãos vivas. A. K. Ferge, o singelo sofredor que ficava alheio a todas as coisas sublimes, mantivera na mão uma das tais extremidades de fantasma e verificara pelo tato que era bem conformada e completa, antes de ela se esquivar de um modo indescritível ao seu aperto cordial nos limites prescritos pelo respeito. Escoou-se um período bastante longo – quase dois meses e meio, com duas sessões por semana – até que uma mão do outro mundo, mão de um jovem, segundo parecia, mostrou-se aos olhos de todos, irradiada pela luz rosada de uma lampadazinha de mesa, revestida de papel encarnado. Tateando, a mão passou por sobre a superfície da mesa e deixou seu rastro num pote de barro, cheio de farinha. Mas oito dias depois aconteceu que um grupo de colaboradores do Dr. Krokowski, o Sr. Albin, a Stöhr e o casal Magnus, irromperam por volta da meia-noite no compartimento de sacada de Hans Castorp, que ali cochilava no meio do frio glacial. Com todos os sinais de entusiasmo desenfreado e de arrebatamento febril, relataram em palavras precipitadas o seguinte: o Holger da Elly acabava de aparecer, sua cabeça surgira por cima do ombro da sonâmbula; ele tinha realmente “lindos cabelos castanhos, castanhos”; sorrira com uma expressão inesquecível pela brandura e pela melancolia, antes de sumir novamente.
     Como se harmonizava – assim ponderou Hans Castorp – essa aflição distinta com a conduta que Holger manifestava em outras ocasiões, com certas criancices sem graça e com aquela molecagem simples e pura, que constituía a bofetada nada melancólica que vibrara ao promotor? Evidentemente não se podia exigir nesse caso uma coerência lógica de caráter. Talvez se encontrassem em face de uma mentalidade semelhante à do Corcundinha da canção popular, com sua malícia patética e sua ânsia de que se reze por ele. Os admiradores de Holger não pareciam preocupados com tudo isso. O que tencionavam fazer era que Hans Castorp se determinasse a abandonar o seu isolamento. Insistiram em que ele não deixasse de assistir à próxima sessão, agora que tudo ia às mil maravilhas. Pois Elly prometera, enquanto dormia, que da próxima vez apresentaria qualquer defunto cuja presença o círculo reclamasse.
     Qualquer defunto? Mesmo assim, Hans Castorp persistiu na sua atitude negativa. Mas o fato de se poder chamar qualquer pessoa falecida continuou a absorvê-lo durante os três dias seguintes, a ponto de chegar ele a decisões completamente opostas. No fundo não eram necessários três dias, senão apenas alguns minutos para produzir esse resultado. A mudança de opinião realizou-se a uma hora solitária da noite, no salão de música, enquanto ele ouvia mais uma vez aquele disco ao qual a personalidade ultra simpática de Valentim imprimira o seu cunho peculiar. Sentado na sua cadeira ouviu Hans Castorp aquela prece guerreira, a despedida de um homem de valor, cujo coração o arrastava ao campo da honra, e que cantava: “E se Deus me chamar para junto de si, velarei fiel por ti, ó Margarida!” Como acontecia sempre que tocava essa ária, sentiu-se possuído de uma veemente emoção, que dessa vez, aumentada por certas possibilidades, se condensou a ponto de transformar-se em desejo. E ele pensou: “Seja ou não pecaminoso e ocioso, em todo caso seria uma coisa maravilhosa e uma aventura muito desejável. E ele, tal como o conheci, não me guardará rancor, se estiver metido no assunto”. Lembrou-se então da maneira amável e displicente como fora pronunciada a resposta: “Pois não!”, nas trevas do gabinete de radioscopia, quando achara necessário pedir licença para certas indiscrições ópticas.
     Na manhã do dia seguinte avisou que tomaria parte na sessão marcada para a noite. Uma hora após o jantar reuniu-se aos outros, que se encaminhavam ao andar subterrâneo, conversando sem nervosismo, habituados como estavam ao sobrenatural. Na escada encontrou o Dr. Ting-Fu e o tcheco Wenzel, mas também os outros que se associaram no calabouço do Dr. Krokowski eram membros fundadores do grupo ou pelo menos veteranos traquejados, como, por exemplo, os senhores Ferge e Wehsal, o promotor público, as senhoras Levi e Kleefeld, para não falar das pessoas que o haviam informado da aparição da cabeça de Holger, e naturalmente da médium, Elly Brand.
     A garota nórdica já se achava sob a guarda do médico, quando Hans Castorp passou pela porta guarnecida de um cartão de visita. Enquanto Krokowski, trajando o avental preto de trabalho, lhe cingia paternalmente o ombro, esperava ela os convidados ao sopé dos degraus que no nível do andar subterrâneo conduziam à habitação do assistente, e cumprimentava-os um a um, tal qual o doutor. Essas saudações mostravam de ambas as partes um caráter despreocupado, alegre e cordial. Visivelmente tinham todos o firme propósito de não deixar entrar no ambiente a menor angústia solene. Conversavam entre si em voz alta, gracejavam, trocavam cotoveladas animadoras, para demonstrar das mais diversas maneiras a falta de acanhamento. Entre a barba do Dr. Krokowski apareciam constantemente os dentes amarelados, com aquela peculiar expressão máscula, tranquilizadora, enquanto convidava os componentes da roda a “entrrar”. E essa expressão intensificou-se quando deu as boas-vindas a Hans Castorp, que se mostrava taciturno e cuja fisionomia parecia indecisa. O anfitrião saudou-o com um enérgico aceno de cabeça, apertando-lhe a mão com força quase brutal. Era como se lhe quisesse dizer: “Ânimo, meu amigo! Não há motivo para andarmos cabisbaixos. Aqui não existe nem pusilanimidade nem beatice, mas unicamente o bom humor viril, próprio da pesquisa livre de preconceitos”. Mas o jovem exortado por essa pantomima nem por isso se sentiu mais à vontade. Como já mencionamos, chegara Hans Castorp à sua decisão lembrando-se do gabinete de radioscopia; mas essa associação de ideias absolutamente não basta para definir os seus sentimentos. Pelo contrário, estes lhe evocavam antes a recordação daquele singular e inesquecível estadoude alma – mescla de nervosismo, petulância, curiosidade, menosprezo e devoção – que tomara conta dele fazia muitos anos, no momento em que pela primeira vez entrara, levemente tocado, em companhia de alguns amigos, num bordel do bairro de Sankt Pauli.
     Como estivessem presentes o Dr. Krokowski e duas ajudantes, que eram, dessa vez a Srª. Magnus e a Srta. Levi com a tez de marfim, retiraram-se à sala vizinha, a fim de revistar a médium. Enquanto isso, Hans Castorp permaneceu com os nove outros componentes da roda no consultório do assistente, aguardando o fim dessa cerimônia cientificamente rigorosa, que se celebrava antes de todas as sessões e sempre sem resultado nenhum. A peça era-lhe familiar, desde certas horas que ali passara, às escondidas de Joachim, “charlando” com o analista. Nos fundos, à esquerda, perto da janela, havia uma escrivaninha com uma cadeira de braços e outra poltrona para o paciente; a ambos os lados da porta lateral via-se uma biblioteca de consulta; um biombo de vários painéis separava a escrivaninha e as cadeiras de uma chaise longue forrada de oleado, colocada diagonalmente no ângulo direito do gabinete, onde também se achava uma vitrine de instrumentos; num outro canto erguia-se um busto de Hipócrates, ao passo que acima da lareira a gás, na parede direita, estava pendurada uma gravura reproduzindo a Anatomia de Rembrandt. Em suma, era uma sala de consultas típica, semelhante a muitíssimas outras. Mas para a finalidade especial dessa noite haviam sido feitas algumas modificações na mobília. A mesa redonda, de acaju, que normalmente se encontrava cercada de poltronas, no centro da peça, embaixo do lustre elétrico, sobre o tapete vermelho que cobria a quase totalidade do soalho, fora deslocada para o primeiro plano, em direção ao ângulo esquerdo, junto do busto de gesso, ao passo que outra mesinha revestida de uma toalha leve, e na qual se achava um abajur de lâmpada vermelha, tinha sido colocada nas proximidades da lareira acesa, que irradiava um calor seco. Por cima dessa mesinha pendia do teto outra lâmpada escondida atrás de véus vermelhos e negros. Na mesa e a seu pé viam-se alguns objetos de vasta notoriedade: a sineta, ou melhor, duas sinetas de construção diferente, uma de badalo e a outra parecida com uma campainha; havia, além disso, um prato com farinha e um cesto de papéis. Cerca de uma dúzia de cadeiras e poltronas de diversos tipos circundavam a mesinha, formando um semicírculo, desde os pés da chaise longue quase até o centro da sala, onde se achava o lustre. Era ali, perto da última cadeira, a meio caminho da porta lateral, que o fonógrafo encontrara o seu lugar. O álbum com as peças frívolas jazia numa banqueta próxima. Tais eram os preparativos feitos. Ainda não haviam acendido as lâmpadas vermelhas. O candelabro central difundia uma luz branca e clara. A janela, para a qual a escrivaninha dirigia um dos lados curtos, estava oculta atrás de duas cortinas, uma escura e outra rendilhada, de cor creme.
     Ao cabo de dez minutos, o doutor voltou do gabinete vizinho, acompanhado das três senhoras. O aspecto da pequena Elly mudara consideravelmente. Em lugar do vestido usava uma espécie de traje de sessão, algo semelhante a um chambre de crepe branco, com um cordão em torno da cintura, e que deixava desnudos os braços delgados. Os seios de moça desenhavam-se macios e soltos sob a fazenda, dando a impressão de que pouca roupa havia por baixo dessa vestimenta.
     Cumprimentaram-na vivamente. – Olá, Elly! Está encantadora, outra vez! Uma verdadeira fada! Faça força, meu anjinho! – Ela sorriu tanto das aclamações como da fantasia, que, como não ignorava, lhe ficava muito bem. – Inspeção prévia negativa – anunciou o Dr. Krokowski. – Pois então, mãos à obra, camaradas! – acrescentou, com seus peculiares rr palatais, exóticos, produzidos por um simples golpe de língua. Hans Castorp, mal impressionado por esse tratamento, estava a ponto de escolher um lugar, tal como faziam os demais, entre gritos, conversas e palmadinhas no ombro. Mas, nesse instante, o médico dirigiu-se a ele pessoalmente. 

– Meu amigo – disse –, uma vez que o senhor se encontra hoje no nosso meio como visitante, ou, em certo sentido, como novato, gostaria de outorgar-lhe por esta noite um direito especialmente honroso. Confio-lhe o encargo de controlar a nossa médium. Praticamos esse controle da seguinte maneira. – E rogou ao jovem que se aproximasse de uma das extremidades do semicírculo. Era aquela que ficava próxima do biombo e da chaise longue. Ellen Brand instalara se ali numa simples cadeira de vime, voltando o rosto mais para a porta da entrada com os degraus do que para o centro do aposento. O doutor sentou-se em outra cadeira igual, logo à sua frente, e apanhou-lhe as mãos, enquanto apertava os joelhos da garota entre os seus. – Imite isto! – ordenou, cedendo o lugar a Hans Castorp. – O senhor deve admitir que ela está totalmente presa. Mas o senhor terá ainda uma assistente. Tenha a bondade, minha prezada Srta. Kleefeld! – A moça, mobilizada por essas palavras urbanas e exóticas, juntou-se ao grupo, para agarrar com ambas as mãos os pulsos frágeis de Elly.
     Hans Castorp não pôde abster-se por completo de contemplar o rosto, tão próximo do seu, da donzela prodígio que mantinha estreitamente aprisionada. Encontraram-se os olhos, mas os de Elly, fugindo, abaixaram-se em sinal de um pudor bem compreensível em vista daquela situação. Ao mesmo tempo esboçou ela um sorriso um tanto afetado, com a cabeça obliquamente inclinada e com a boca levemente bicuda, como fizera durante a sessão da taça. No jovem encarregado de vigiá-la, isso evocou, aliás, uma outra recordação mais remota: fora mais ou menos assim que sorrira Karen Karstedt, quando, em companhia dele e de Joachim, se achara diante do jazigo ainda intacto no cemitério da “aldeia”...
     Os componentes do semicírculo acabavam de sentar-se. Compunha-se ele de treze pessoas, sem incluir o Sr. Wenzel, que tinha o hábito de consagrar a sua pessoa ao serviço da Polyhymnia. Depois de ligar o aparelho, o tcheco ocupou um tamborete nas proximidades, às costas do auditório, que ficava com os rostos voltados para o centro da sala. Tinha também consigo o violão. Sob o lustre central, na outra extremidade da fileira curva, o Dr. Krokowski tomou assento, depois de ter aceso, com uma só manobra, as duas lâmpadas vermelhas, e de ter apagado, com outra, a luz do teto. Uma escuridão suavemente avermelhada envolvia o aposento, cujas zonas e recantos mais afastados se esquivavam ao olhar. Somente a superfície da mesinha e o que lhe ficava em torno estavam iluminados por uma débil luz rubra. Durante os minutos que se seguiram, mal se enxergava o vizinho mais próximo. Apenas lentamente os olhos acomodaram-se às trevas e aprenderam a aproveitar a pouca luz que lhes era concedida, e que as pequenas labaredas, dançando na lareira, intensificavam até certo ponto.
     O Dr. Krokowski dedicou algumas palavras à iluminação, cuja insuficiência do ponto de vista científico procurou desculpar. Estaria redondamente enganado quem a interpretasse como destinada a criar uma atmosfera sugestiva, propícia a mistificações. Apesar da melhor boa vontade não se podia, infelizmente, trabalhar com uma luz mais forte. A natureza das forças em apreço, que lhes cabia estudar, era inerente a incapacidade de se desenvolver e de produzir efeitos com luz branca. Esse era um fato fundamental com que deviam conformar-se... Hans Castorp, por sua vez, estava muito satisfeito com isso. A escuridão lhe fazia bem. Atenuava a singularidade da situação. Para justificar a escuridão, o jovem chamou, além disso, à memória aquelas outras trevas do gabinete de radioscopia, que faziam a gente concentrar-se piedosamente, e nas quais eram banhados os “olhos ordinários”, antes de se “ver”.
     A médium, prosseguia o assistente na sua introdução, que evidentemente se dirigia a Hans Castorp em particular, já não tinha necessidade de ser adormecida por ele, o médico. Como o controlador logo teria oportunidade de verificar, Elly caía espontaneamente no estado de transe, e feito isso, o guardião fantasma, o famoso Holger, falava por intermédio da sua boca. Era a ele, e não a ela, que se deviam expressar os respectivos desejos. Por outra parte, seria um erro, que até poderia causar o malogro da tentativa, crer que fosse preciso concentrar a vontade e os pensamentos, com todas as forças, no fenômeno esperado. Pelo contrário, o mais indicado era uma atenção ligeira, distraída por meio de conversas. Recomendou a Hans Castorp que não perdesse o controle perfeito das extremidades da médium. 

– Formem a cadeia! – ordenou por fim o Dr. Krokowski, e assim fizeram, rindo, quando não encontravam, na escuridão, as mãos dos vizinhos. O Dr. Ting-Fu, que tinha o lugar ao lado de Hermine Kleefeld, deitou a mão direita no ombro dela, e estendeu a esquerda ao Sr. Wehsal, que era o elo seguinte da cadeia. Junto do médico achavam-se o Sr. e a Srª. Magnus, seguidos por A. K. Ferge, que, se Hans Castorp não se enganava, segurava a mão da Levi com a tez de marfim; e assim por diante... – Música! – comandou o Dr. Krokowski, e o tcheco, às costas do assistente e dos seus vizinhos, pôs o aparelho em ação e colocou a agulha no disco. – Conversem! – ordenou Krokowski novamente, enquanto ressoavam os primeiros compassos de uma abertura de Millöcker. E docilmente todos se esforçaram por entabular uma palestra, que tratava de nada, absolutamente nada; falaram ora da neve caída nesse inverno, ora do cardápio da última refeição, ora da chegada de um novo pensionista, ora enfim de partidas autorizadas ou “em falso”. Meio abafada pela música, interrompendo-se e recomeçando, a conversa mantinha-se numa animação artificial. Assim se passaram alguns minutos.

     O disco ainda não chegara ao fim, quando Elly sobressaltou-se violentamente. Um tremor percorreu-a toda. Gemeu. O tronco inclinou-se para a frente, de maneira que a testa tocava a de Hans Castorp. Ao mesmo tempo começaram os braços a mover-se de um modo estranho, avançando e recuando bruscamente, como se acionassem uma bomba. 

Transe! – anunciou a Kleefeld com perícia. A música emudeceu. A conversa parou. Através do silêncio repentino ouvia-se a branda e arrastada voz de barítono do doutor, que perguntava: 
– Holger está presente?

     Elly estremeceu novamente. Gingou na cadeira. Então sentiu Hans Castorp como ambas as mãos da médium apertavam as suas forte e rapidamente. 

– Ela me aperta as mãos – comunicou aos outros. 
– Ele – corrigiu-o o médico. – Foi ele quem as apertou. De modo que se acha presente. Salve, Holger – continuou com fervor. – Sejas bem-vindo de todo o coração, companheiro! E permite que te recorde isto: a última vez que estiveste entre nós, prometeste que chamarias qualquer defunto, fosse qual fosse o irmão ou a irmã que te citasse alguém da nossa roda, e que o tomarias visível aos nossos olhos mortais. Estás disposto e te sentes capaz de cumprir hoje esta promessa?

     Elly tremeu outra vez. Suspirou. Hesitou antes de responder. Vagarosamente, levou as suas mãos e as do seu assistente até a testa, onde as manteve imóveis por alguns instantes. Depois segredou ao ouvido de Hans Castorp um “sim” ardente.
     O sopro dessa palavra, penetrando diretamente na sua orelha, causou ao nosso amigo aquele arrepio epidérmico que o povo chama de “pele de galinha” e cuja natureza o conselheiro lhe explicara certa vez. Falamos de um arrepio instintivo, para distinguir o fenômeno puramente corporal do psíquico, uma vez que aquilo nada tinha que ver com um verdadeiro horror. O que o jovem pensou nesse momento foi mais ou menos o seguinte: “Ora vejam, ela promete mundos e fundos!” Mas ao mesmo tempo sentiu-se comovido e consternado; sim, invadiu-o um sentimento confuso que tinha a sua origem na circunstância enganadora de que essa moça tão nova, cujas mãos segurava, lhe sussurrara ao ouvido a palavra “sim”. 

– Ele disse “sim” – informou Hans Castorp, embaraçado. 
– Muito bem, Holger! – disse o Dr. Krokowski. – Nós te pegaremos na palavra. Temos confiança em que farás lealmente tudo quanto estiver em teu poder. Logo saberás o nome do ente querido cujo comparecimento desejamos... Camaradas – continuou, dirigindo-se ao grupo –, digam de uma vez! Quem é que tem um desejo? Qual é a criatura que nosso amigo Holger deve fazer aparecer?

     Seguiu-se profundo silêncio. Todos esperavam que o vizinho se manifestasse. Verdade é que cada qual, individualmente, escrutara nesses últimos dias o seu íntimo, para saber em que direção e para que pessoa rumavam os seus pensamentos. Mas a volta de defuntos, isto é, a desejabilidade de tal volta nunca deixa de ser coisa problemática e delicada. Em última análise, e falando com franqueza, essa desejabilidade não existe; é uma ilusão; à luz do dia, é tão impossível como a própria coisa, o que se tornaria evidente se a natureza, num caso particular, abolisse esta impossibilidade. O que chamamos “luto” talvez não seja a dor que nos inflige a impossibilidade de ver os nossos mortos voltarem à vida, senão a outra, que experimentamos diante do fato de sermos incapazes de desejar tal coisa.

continua pág 440...
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Leia também:

Capítulo I / A Chegada
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo VI / Transformações (a)  
Capítulo VII
Coisas muito problemáticas - [c] /
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

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